PROGRAMA DO DIA 22 DE DEZEMBRO DE 2009

REFLEXÕES PARA 2010

A última edição inédita do Observatório da Imprensa reeditou o formato do último programa de 2008. Três convidados de peso estiveram ao lado de Alberto Dines debatendo os principais fatos deste ano e os principais temas do ano que vem. Foram eles: o cientista social do IUPERJ, Renato Lessa; o economista Sérgio Besserman e o jornalista da TV Brasil, Claudio Bojunga. Os quatro também avaliaram o desempenho da mídia em 2009 e analisaram quais serão as principais pautas do ano que vem por aí.

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CONFECOM & COP-15
Eventos sem instrumentos, resultados comprometidos
Alberto Dines

Todas as conferências se parecem: todas mobilizam, todas produzem ruído, todas geram formidáveis expectativas e quase todas deixam enorme saldo de frustrações.

Os organizadores da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP-15), reunida em Copenhague, não tinham o direito de errar. Dispunham do suporte das maiores entidades internacionais, são experimentados na organização de grandes eventos e apoiados por todos os tipos de Gs – do G-2 ao G-77. E, no entanto, erraram.

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Perguntas - Aqui são colocadas as perguntas dos telespectadores que chegam por telefone, fax ou e-mail durante o programa e ao longo da semana.

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

Embora a nossa Corte Suprema tenha estipulado que jornalismo não é profissão, preferimos o entendimento de Hipólito da Costa que, em junho de 1808, enxergou os “redatores das folhas públicas” como cidadãos ainda mais úteis do que os demais porque apresentam os fatos do momento, as reflexões sobre o passado e “as sólidas conjecturas sobre o futuro”.


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CONFECOM, PRÓXIMOS PASSOS
Divisor de águas entre a intolerância e o diálogo
Luiz Gonzaga Motta

A 1ª Conferência Nacional de Comunicação, que terminou na quinta-feira (17/12), foi um êxito. Sua simples realização representa um divisor de águas entre a intolerância anterior dos radicais e o diálogo que se abre sobre o tema da comunicação no país depois do evento de Brasília. A Conferência criou uma cultura de debates sobre as políticas públicas de comunicação (tema tabu nos círculos políticos até agora) que não tem volta atrás. O debate é saudável, e será benéfico para o país.

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RESUMO DO PROGRAMA

REFLEXÕES PARA 2010

O último programa televisivo do Observatório da Imprensa em 2009, exibido na terça-feira (22/12) pela TV Brasil, repetiu a fórmula e os convidados da última edição apresentada em 2008. O programa fez um balanço do ano que passou e traçou perspectivas para o próximo. Alberto Dines dividiu a bancada do Rio de Janeiro com Renato Lessa, cientista social, doutor em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj); com o jornalista Claudio Bojunga, formado em Direito e Política Internacional no Instituto de Estudos Políticos de Paris; e Sérgio Besserman Vianna, economista e ecologista, presidente da Câmara de Desenvolvimento Sustentável da Prefeitura do Rio de Janeiro e professor de Economia da PUC-Rio.

No editorial que precede o debate, Dines ressaltou que no ano anterior a crise financeira e a vitória do presidente Barack Obama facilitaram as previsões para 2009. "Fomos prudentes ao concluir que a crise financeira será atenuada no Brasil, porém fomos mais longe no exercício prospectivo ao imaginar o declínio do capitalismo irreal, desregulado e delirante", avaliou.

Clima: uma pauta urgente

No início do debate ao vivo, Dines perguntou para Sérgio Besserman se a questão climática – mencionada com pouco destaque no último programa de 2008 – marcará 2010. Para o economista e ecologista, que participou da 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15), o encontro fracassou porque não foi capaz de produzir uma declaração política forte. Os principais Estados – Estados Unidos e China – não chegaram a um acordo para a diminuição da emissão de gases poluentes.

O ponto positivo do evento, segundo ele, foi a mobilização da opinião pública mundial. Os efeitos das mudanças climáticas foram discutidos nos lares e nas ruas. Por isso, Besserman avalia que na reunião marcada para 2010, no México, os governantes estarão sob a pressão dos cidadãos de seus países para a produção de medidas concretas.

Renato Lessa comentou a criação de um espaço público internacional fora do controle das instituições de governo. O tema ambiental foi fixado na agenda de forma definitiva, independente dos ciclos eleitorais de cada país. "Isso dá alento à atividade política e à relevância da intervenção dos cidadãos na arena política", afirmou. De sua parte, Claudio Bojunga avalia que a mobilização da opinião pública internacional marca o início de uma cidadania supranacional e internacional mundializada.

A crise financeira já acabou?

Outra questão discutida no Observatório foi a crise financeira que alcançou dimensões mundiais em 2008 e abalou 2009. Dines questionou se o processo ainda se prolongará em 2010. "A crise é muito mais profunda que os impactos no crescimento do PIB ano a ano e na taxa de emprego. Há desequilíbrios macroeconômicos fundamentais que permanecem sem que se vislumbre ainda qual seria a equação para a sua solução", disse Sérgio Besserman.

Dines comentou que uma das ações empreendidas nos Estados Unidos para evitar a débâcle foi a não usual intervenção do Estado. Para Dines, o presidente Barack Obama caminha na direção de construir um Estado menos passivo. "Não há democracia possível sem a dimensão da política social – e nisto o Estado tem um papel insubstituível. E é fundamental em um país onde isso [a intervenção estatal] soe com anátema que seja posto na ordem do dia de maneira muito clara", explicou Renato Lessa. "Há muita reação da sociedade americana com relação a isto. Não só por parte da direita conservadora, mas de uma ideologia muito antiga nos Estados Unidos de que 'viver da ajuda alheia' é uma coisa indigna."

Ainda em relação às mudanças ocorridas nos Estados Unidos após a posse de Obama, Dines relembrou o fato de o presidente norte-americano ter dito que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva "é o cara". Bojunga destacou alguns fatores que aproximaram os dois países, como o crescimento do Brasil na diplomacia internacional e como liderança regional moderadora dos ânimos. O jornalista advertiu que a "grande novidade" no cenário internacional é a China, mas o país asiático não tem tido destaque no noticiário. É o mais importante parceiro comercial do Brasil, o segundo mais importante do Peru e compra cobre do Chile, por exemplo. "Isso muda um pouco o nosso xadrez. A gente não tem mais aquela dependência que o México ainda tem – e isto é um fato novo. 'O cara' é um pouco 'o cara' que está na crista desta onda", disse.

Censura prévia

No panorama nacional, Dines chamou a atenção para o grande número de casos de corrupção e para o aumento da sensação de impunidade. Outro fato discutido foi a atuação do Judiciário. "A judicialização da vida pública brasileira reflete a demissão, a omissão e a desmoralização do Legislativo brasileiro, que causa constrangimento e vergonha", comentou Bojunga. Dines perguntou a avaliação dos participantes sobre a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de manter a censura a O Estado de S.Paulo, classificada pelo jornalista como uma distorção. Há mais de 140 dias o jornal está proibido de veicular informações obtidas pela Operação Boi Barrica, da Polícia Federal, sobre o empresário Fernando Sarney, filho do senador José Sarney (PMDB-AP).

Para Sérgio Besserman, a Constituição brasileira deveria ser clara o suficiente para o assunto não ser controverso. "A melhor maneira de corrigir os excessos que ocasionalmente possam ser cometidos no exercício da liberdade de imprensa é com mais liberdade de imprensa, e que se penalize ocasionais atos de irresponsabilidade", disse. Bojunga prestou uma homenagem ao voto proferido pelo ministro Celso de Mello. Na sessão que julgou a censura ao jornal, o ministro ressaltou a importância da liberdade de imprensa e taxou a decisão como "absurdo histórico".

Bojunga sublinhou que o artigo 220 da Constituição diz claramente que não se pode causar embaraço à atividade da imprensa. "Essa decisão com relação ao Estadão é inédita. Ela é de uma bizarria institucional total e é um péssimo sinal", afirmou Renato Lessa. O cientista social disse estar preocupado, mas não acredita que a liberdade de imprensa esteja ameaçada no plano imediato. "É uma porta aberta para outras iniciativas desta natureza", avaliou. Mobilizados por interesses políticos eventualmente expostos pela imprensa, é possível que outros cidadãos possam promover o mesmo tipo de ação.

Para Renato Lessa, um país como o Brasil – com milhões de eleitores e com uma vida social muito ativa – deveria ter mais veículos de imprensa. Este fator contribui para ameaçar a liberdade de expressão. "Isso não justifica nenhuma medida política ou jurídica que cerceie este ou aquele veículo. Mas há uma dinâmica na imprensa que fez com que perdêssemos a pluralidade de jornais que nós tínhamos", criticou.

Lessa destacou que há cerca de 30 anos circulavam no Rio de Janeiro mais de 30 jornais. Atualmente capitais importantes têm apenas veículos regionais, com cobertura nacional "medíocre" e internacional insignificante. "Eu tenho a sensação de que a imprensa, sobretudo os jornais, está perdendo a corrida pela informação e para a formação de um público minimamente atento à vida pública. Portanto, fica vulnerável a este tipo de solicitação política feita ao Judiciário", avaliou.

Estadistas e aloprados

O Observatório discutiu também a presença de "aloprados" no cenário político nacional e internacional. Sérgio Besserman ressaltou que há uma carência de dirigentes políticos que possam ser chamados de estadistas, com o perfil de Winston Churchill, primeiro ministro do Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo. "Este contraste entre dirigentes que se emocionam muito com questões pequenas de seus países, mas incapazes de apresentar propostas, e a demanda que a sociedade global hoje tem por soluções para problemas grandes que estamos todos vendo, é muito interessante e vai continuar aparecendo sucessivas vezes em 2010", disse.

A qualidade da liderança política está em processo de descrédito em várias sociedades, na avaliação de Renato Lessa. "A política ganha cada vez mais foro de espetáculo, de exposição pessoal, biográfica", ressaltou. O premiê italiano Silvio Berlusconi e o presidente francês Nicolas Sarkozy são exemplos de políticos midiáticos com grande popularidade. O cientista social ponderou que quando o presidente Lula deixar o poder, a população corre o risco de cair em um "vácuo de precipitação pessoal". As alternativas pós-Lula não têm o mesmo carisma do atual presidente.


EDITORIAL

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

Embora a nossa Corte Suprema tenha estipulado que jornalismo não é profissão, preferimos o entendimento de Hipólito da Costa que, em junho de 1808, enxergou os “redatores das folhas públicas” como cidadãos ainda mais úteis do que os demais porque apresentam os fatos do momento, as reflexões sobre o passado e “as sólidas conjecturas sobre o futuro”.

No último programa de 2008, com o aval do patrono da nossa imprensa, sem bolas de cristal ou búzios, acrescentamos ao rol de atribuições dos jornalistas a tarefa de desdobrar os fatos de hoje até chegarem ao amanhã. Com os mesmos convidados e idêntica disposição jornalística, um ano e seis dias depois, vamos avaliar o que aconteceu e conjecturar (ou inferir ou presumir) as tendências ora em gestação.

Nossa tarefa no ano passado foi facilitada por dois fatos decisivos, cruciais, ocorridos pouco antes. Não seria difícil prever que a quebra de grandes instituições financeiras em Wall Street e a vitória de Barack Obama produziriam fortes alterações no cenário econômico americano, internacional e também brasileiro. Fomos prudentes ao concluir que a crise financeira será atenuada no Brasil, porém fomos mais longe no exercício prospectivo ao imaginar o declínio do capitalismo irreal, desregulado e delirante.

Neste contexto era inevitável mencionar um estado mais presente e lembrar o presidente Franklin Roosevelt e o seu “new deal” progressista dos anos 30 do século passado, que Barack Obama não poderia ignorar quando assumisse.

Duas efemérides nos espreitavam: os 70 anos do início da 2ª Guerra Mundial nos empurrou para o conjunto de fenômenos responsáveis pela maior catástrofe produzida pela humanidade (ou desumanidade) nos últimos 500 anos e ainda não superados. Daí foi um passo para falar nos “aloprados” políticos e nos fantasmas do fanatismo e da intolerância disfarçados atrás das religiões, todas as religiões.

A segunda efeméride também relacionou-se com a 2ª Guerra: os 20 anos da queda do Muro de Berlim deveria marcar o fim da guerra fria mas serviu para exibir os perigos do pensamento único.

Outra herança da 2ª Guerra Mundial foi positiva: a criação da comunidade do carvão e do aço que acabou com as guerras no coração do velho mundo e desaguou na criação da união européia, primeira federação supranacional da história da humanidade. Porém aqui, no novo mundo, este modelo de integração não “pegou” e só conseguirá decolar quando os caudilhos sossegarem.

Óbvio, não poderíamos esquecer a mídia e especialmente a imprensa. A crise que a assola já dura duas décadas e na realidade é uma crise de identidade estimulada pela explosão das novas tecnologias e pela concentração empresarial. Uma imprensa pouco diversificada não avança e não promove avanços.

O que nos espera em 2010 - mais do mesmo? Muito mais, certamente, os processos não se interrompem, só tendem a encorpar e algumas circunstâncias de ontem, hoje são mais agudas e prementes. Hora de perguntar: para onde vamos?


ARTIGO
Por Alberto Dines

CONFECOM & COP-15
Eventos sem instrumentos, resultados comprometidos
Alberto Dines

Todas as conferências se parecem: todas mobilizam, todas produzem ruído, todas geram formidáveis expectativas e quase todas deixam enorme saldo de frustrações.

Os organizadores da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP-15), reunida em Copenhague, não tinham o direito de errar. Dispunham do suporte das maiores entidades internacionais, são experimentados na organização de grandes eventos e apoiados por todos os tipos de Gs – do G-2 ao G-77. E, no entanto, erraram.

A Rio-92, Eco-92 ou Cúpula do Clima foi organizada com metas menos ambiciosas: consagrar um novo conceito de progresso, o desenvolvimento sustentável. Produziu um compromisso (a Agenda 21) e criou uma agência, a Comissão de Desenvolvimento Sustentável dentro do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas.

Em 1997, no Japão, o mundo voltou a se reunir para discutir e proclamar o Protocolo de Kyoto, que deveria ser subscrito por todos os participantes e iniciar o controle efetivo das mudanças climáticas. O então presidente americano George W. Bush não concordou, o protocolo dançou.

Metas precisas

Os organizadores da COP-15 foram ousados e/ou delirantes: acreditavam que a comunidade internacional estava suficientemente alertada e motivada para os riscos do aquecimento global e que ao longo de doze dias as grandes lideranças, devidamente pressionadas, seriam capazes de chegar a algum tipo de consenso. Efetivamente chegaram a um consenso: o de que o consenso era impossível. Naquelas circunstâncias.

O mundo cansou-se do foguetório dos eventos, a sociedade do espetáculo já não se anima com espetáculos, prefere menos holofotes e mais transpiração. Os mais poderosos líderes mundiais hoje têm predileção por trabalhar em surdina, com menos exposição e menos pressão. Não estão ali para fazer sucesso pessoal, colher aplausos e ganhar direitos autorais. Têm contas a prestar a eleitores (no caso de democracias) ou aos birôs políticos (no caso de regimes autoritários). Igualmente exigentes.

O sabor de fracasso da Conferência de Copenhague certamente produzirá um elenco de iniciativas mais realistas. Instrumentos podem produzir milagres desde que precedidos de intensas negociações, em cima de agendas e metas precisas. O desenlace negativo talvez tenha sido extremamente positivo.

Tudo como dantes

A 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) realizada em Brasília teve todos os defeitos estruturais dos eventos, acrescidos da falta de experiência. Vilã foi a ausência das seis maiores corporações empresariais – que não se importaram em assumir publicamente o papel de algozes do consenso. Não queriam o confronto e ingenuamente ajudaram a prepará-lo a médio prazo. Isso não é estratégia, é absoluta falta de inspiração e de malícia.

O erro maior foi a fascinação com o espetáculo político. O governo que assistiu impassível à brutal liquidação do Conselho de Comunicação Social (CCS) deveria tê-lo reavivado no início de 2009. Reeleito para presidir o Senado, José Sarney jamais permitiria o renascimento de uma entidade que detesta antes mesmo de regulamentada. O governo não tentou demovê-lo, preferia não ameaçar a coesão da base aliada.

O CCS seria o incubador natural de uma agenda para desintoxicar o ambiente, modernizar a estrutura e distender as posturas do setor de mídia. Como órgão auxiliar do Congresso Nacional, desprovido de poder, poderia ao menos identificar as carências, produzir diagnósticos e reconhecer oportunidades mais visíveis.

Ao longo dos seus dois anos de existência efetiva (2003-2005), o CCS jamais registrou confrontos entre empresários, profissionais e representantes da sociedade civil. Num ambiente restrito, obrigatoriamente marcado pela civilidade, seria possível desenvolver aquela pequena plataforma de convivência e negociação. Isso não interessava aos quase 50% de parlamentares-concessionários (Sarney incluído). Muito menos às redes de radiodifusão às quais estão atrelados.

A Confecom fez barulho, chamou a atenção, obrigou o grosso do empresariado a revelar a sua intransigência, mas dificilmente produzirá qualquer alteração substantiva antes das próximas eleições presidenciais.

Eventos chamam a atenção, mobilizam apoios e também estimulam resistências. É tênue a linha que separa o evento exitoso do evento fracassado. Instrumentos produzem resultados.


OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET

CONFECOM, PRÓXIMOS PASSOS
Divisor de águas entre a intolerância e o diálogo
Luiz Gonzaga Motta

A 1ª Conferência Nacional de Comunicação, que terminou na quinta-feira (17/12), foi um êxito. Sua simples realização representa um divisor de águas entre a intolerância anterior dos radicais e o diálogo que se abre sobre o tema da comunicação no país depois do evento de Brasília. A Conferência criou uma cultura de debates sobre as políticas públicas de comunicação (tema tabu nos círculos políticos até agora) que não tem volta atrás. O debate é saudável, e será benéfico para o país.

A presença do presidente da República na cerimônia de abertura conferiu ao evento uma necessária legitimidade. Além disso, Lula teve a coragem de chamar a atenção da grande mídia para o medo descabido dos empresários. Eles se ausentaram da Conferência sob o argumento que as reivindicações ameaçavam a liberdade de expressão. Mais ainda, Lula estimulou os participantes a cobrar dos candidatos à Presidência da República as propostas de cada um sobre as políticas de comunicação. Se isso acontecer, será inevitável a presença do tema na campanha eleitoral.

A Conferência contou com 1.695 delegados representando a sociedade civil, o governo e os empresários. Representantes do governo tiveram participação relativamente discreta. O setor privado e os movimentos sociais protagonizaram debates acirrados, dividindo o plenário da Conferência em dois segmentos distintos. Durante três dias eles se digladiaram sobre temas cálidos como a produção regional de conteúdos, marcos regulatórios, outorgas de canais, tributação e classificação indicativa, entre tantos outros.

Palavras de ordem e vaias ocorreram por parte de ambas facções. Apesar de hostilidades verbais mútuas, os protagonistas defenderam seus pontos de vista de maneira civilizada, com muita tolerância, sem agressões nem conflitos. O clima da Conferencia demonstrou que nesta área sensível, apesar das diferenças, há pontos comuns negociáveis. No último dia, grande parte da tensão havia se dissipado.

Avanço notável

Como costuma acontecer quando há prévia intolerância, o primeiro dia ficou perdido por causa de uma longa discussão sobre o regimento do evento. Disputou-se palmo a palmo como seriam as votações. No segundo, foram aprovadas em plenário as propostas consensuais dos grupos de trabalho. No terceiro, o enfrentamento esquentou em torno de propostas não-consensuais. Mas o debate tendeu para o centro. Nenhuma proposta radical do movimento social nem dos empresários foi aprovada por causa da exigência sobre temas sensíveis. O que era considerado sensível por qualquer uma das partes não podia sequer ser votado pela plenária, de acordo com o regimento aprovado. Assim, só passava o que era tolerado pelo lado oposto.

De maneira nenhuma isso significa que não houve avanços. As propostas aprovadas ampliam o protagonismo da sociedade civil sobre os temas antes proibidos a respeito da comunicação. Até agora, salvo exceções, esses atores atuavam apenas em ambientes favoráveis. E o Congresso Nacional se manteve arredio aos conflitos com medo da grande mídia. Na Conferência, movimentos sociais e empresários tornaram públicos seus interesses e a extensão de suas intolerâncias. O tema saiu da invisibilidade. Ficou mais claro até onde cada um é capaz de ceder ou de não arredar o pé. Pelo menos na atual correlação de forças.

Os maiores obstáculos para uma discussão democrática das políticas de comunicação até agora eram a intransigência de setores empresariais e a dificuldade da população em perceber a mídia como um poder, conforme um dos documentos apresentados. Esses obstáculos caíram por terra na Conferência, pelo menos em parte. A defesa intransigente do pensamento único não pega mais. Os empresários presentes sentaram-se à mesa, dialogaram, cederam, cobraram. O movimento social, muito diversificado, reivindicou, brigou, mas demonstrou tolerância e compreensão.

Revelaram ambos que existe uma sociedade civil ativa, mobilizada em torno das questões da comunicação. Isso mostra que a sociedade brasileira avançou: quem não aderir ao debate democrático corre o risco de perder o trem da história.

Expressão volátil

Grande parte das propostas aprovadas revela uma justa preocupação com a necessidade de criar canais, meios e recursos para patrocinar a diversidade de vozes que corresponda à pluralidade da sociedade brasileira. Os empresários, como de costume, defendem que isso seja entregue à iniciativa privada. E os movimentos sociais alegam que é preciso maior intervenção estatal e pública para corrigir rumos e incentivar mais produção regional.

Conflito clássico de uma democracia de massas. Tudo será agora mediado pelo Congresso Nacional. Nada que sequer arranhe o preceito da liberdade de expressão, como alegava antes parte da grande mídia para justificar sua ausência da Conferência. Mesmo porque liberdade é uma expressão volátil. É útil discutir sempre em nome de quem ela está sendo exercida. No que diz respeito à área, a 1ª Conferencia Nacional de Comunicação foi um passo adiante.


PERGUNTAS

Chat:

Acesse a íntegra do nosso chat em: http://www.tvbrasil.org.br/interatividade/091222-observatorio.asp


E-mails e Telefonemas:

Isaías Pereira de Souza, Rio de Janeiro
É preciso haver controle de natalidade.

André Gonçalves, Rio de Janeiro
A mídia tem tido um péssimo desempenho em sua cobertura e posicionamento, exceto alguns jornais e programas.

Marrone Alves, Duque de Caxias / RJ
O jornalismo deve ser tratado como qualquer outra profissão. A formação universitária é fundamental.

José Augusto, Tocantins
O combate à corrupção política deveria acontecer em todos os setores sociais, inclusive a Igreja deveria discutir isso.

Alan Rangel, Rio de Janeiro
Será que em 2010 teremos uma solução melhor para a imunidade parlamentar?

Venia Rodrigues, Amambai / MS
Por que não existe no Brasil um programa ao vivo que explique a política brasileira? Um programa que busque a transparência para se evitar escândalos como os do mensalão?

Cláudio Hugo, Valparaíso / GO
O governo deve tomar alguma atitude quando a grande mídia deixa de ser imparcial.

Ivanildo Silva, Abaetetuba / PA
Acredito que, com o novo advento de ditadores na América Latina, essa possível censura na imprensa brasileira é um mau sinal.



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