RESUMO DO PROGRAMA
CONFECOM
Elaborar, indicar e sugerir políticas
públicas é o objetivo da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom),
iniciada na noite de segunda-feira (14/12), em Brasília. O encontro,
organizado pelo governo federal, reúne os diversos setores da sociedade
e tem como objetivo aprovar propostas para guiar as ações do governo.
Ministérios, sindicatos e organizações não-governamentais selecionaram
59 propostas das mais de seis mil que foram discutidas ao longo do ano
nas conferências regionais.
Entre as mais polêmicas, estão as que
prevêem a criação de mecanismos para fiscalizar o setor privado de rádio
e TV. O fortalecimento dos veículos estatais e públicos, a concessão de
outorgas de rádio e TV a ocupantes de cargos públicos, a regulamentação
das rádios comunitárias e o incentivo à imprensa regional também estão
na pauta da conferência. A maioria dos empresários da área de
comunicação e das entidades patronais optou por não participar do
evento, o que gerou fortes críticas à Confecom.
O Observatório da Imprensa
exibido ao vivo na terça-feira (15/12) pela TV Brasil avaliou o que está
em discussão na conferência e, para isso, contou com a participação de
especialistas em mídia. Em Brasília, estiveram presentes a jornalista
Elvira Lobato e o jornalista e sociólogo Venício A. de Lima. Repórter
especial da Folha de S. Paulo, Elvira Lobato tem 36 anos de
profissão. Venício Lima, colunista do Observatório online, é
pós-doutor em Comunicação e fundador do Núcleo de Estudos sobre Mídia e
Política (Nemp), da Universidade de Brasília. No estúdio do Rio de
Janeiro, o convidado foi o jornalista Nelson Hoineff, produtor e diretor
de televisão. Hoineff é especialista em novas tecnologias de TV e
presidente do Instituto de Estudos de Televisão (IETV).
Imprensa sob censura
Antes do debate ao vivo, na coluna "A
Mídia na Semana", Alberto Dines avaliou a decisão do Supremo Tribunal
Federal (STF) de manter a censura imposta a O Estado de S.Paulo.
Há mais de quatro meses o jornal está impedido de publicar informações
sobre Fernando Sarney, filho do senador José Sarney (PMDB-AP), obtidas
na Operação Boi Barrica, da Polícia Federal. Dines classificou a decisão
como "surpreendente e chocante" e disse que o senador saiu vitorioso do
episódio. "Assim como na ditadura os militares consideravam-se
legitimados a determinar o que poderia ser publicado ou não, agora temos
os censores togados escolhendo a seu bel-prazer o que a imprensa pode
informar", criticou.
Para o presidente da Associação
Brasileira de Imprensa (ABI) Maurício Azêdo, entrevistado para o
programa, a decisão do STF fere o Estado Democrático de Direito. "A
instância que deveria ser a guardiã das garantias constitucionais, que é
o Supremo Tribunal Federal, tem adotado decisões que são prejudiciais à
integridade do regime democrático entre nós", disse. Azêdo acredita que,
com esta decisão, o Supremo "deu um aval" à censura prévia – que é
expressamente proibida pelo artigo 220 da Constituição Federal.
No editorial que precede o debate ao
vivo, Dines ressaltou que os veículos de comunicação não gostam de se
discutir e que, por isso, o maior mérito da Confecom é a sua própria
realização. "Nunca é demais lembrar que os três setores não se
importaram muito com o misterioso sumiço do Conselho de Comunicação
Social. Previsto na Constituição como órgão auxiliar do Congresso, o
Conselho de Comunicação Social (CCS) teve curtíssima duração e como já
lembramos inúmeras vezes neste Observatório até hoje ninguém se
deu ao trabalho de explicar por que razão evaporou-se e foi desativado",
disse. Dines destacou que as propostas geradas na Confecom podem superar
as "omissões e a obsolescência de uma comunicação concebida antes da era
da Comunicação".
Comunicação em pauta
A reportagem produzida pelo programa
entrevistou Franklin Martins, ministro-chefe da Secretaria de
Comunicação Social da Presidência da República (Secom). Para o ministro,
é necessário modernizar a estrutura legal das comunicações no Brasil sem
que isso represente uma ameaça à liberdade de imprensa. A expectativa do
ministro em relação ao encontro é positiva porque o Brasil precisa
discutir "de forma aberta e ampla os problemas, impasses e desafios da
Comunicação".
Franklin Martins acredita que a
conferência tem que responder aos problemas atuais, pois o panorama é de
convergência de mídia acelerada. "Dentro de muito pouco tempo vai ser
difícil dizer o que é um sinal de radiodifusão que se recebe em um
aparelho e o que é o sinal que se recebe, por exemplo, através da
tecnologia de 3G, banda larga, em um mesmo aparelho", explicou. O
ministro acredita que o importante será o conjunto final de propostas da
Confecom – que será enviado aos poderes Executivo e Legislativo e
posteriormente devolvido para a sociedade continuar a discussão. "Se
você me perguntar o ponto alto desta conferência, é que o tema da
Comunicação volta à agenda nacional", afirmou.
Fabiano Angélico, coordenador de
projetos da organização não-governamental Transparência Brasil, disse
que o setor de comunicações não é transparente, sobretudo em relação às
concessões dos canais de rádio e TV. "As emissoras de rádio e TV são
concessões públicas. Ou seja, são empresas, mas exploram o espaço
público. Por isso, têm um vínculo com a sociedade e deveriam ser mais
transparentes", cobrou. O Ministério das Comunicações, na avaliação de
Angélico, não repassa aos cidadãos as informações necessárias para o
acompanhamento do setor.
Outro ponto levantado por Angélico foi
a distribuição de verbas oficiais para publicidade, entendida por ele
como uma forma de intimidação do jornalismo investigativo, combativo e
crítico. "Os governantes lançam mão deste artifício para intimidar,
silenciar ou ao menos passar recados sutis para os meios de comunicação
no sentido de que eles sejam mais 'amigos' do poder", disse. Ele defende
que o Estado intervenha no setor de comunicações, mas ressaltou que é
preciso regras claras para que a sociedade possa se proteger de maus
governantes.
Um caldeirão de opiniões
No debate ao vivo, Dines pediu para
Elvira Lobato, que está trabalhando na cobertura da Confecom, contar o
porquê de o ministro das Comunicações, Hélio Costa, e João Saad,
representante da Associação Brasileira de Radiodifusores (Abra), formada
pela Band e pela Rede TV!, terem sido vaiados na abertura da Confecom. A
jornalista explicou que havia na platéia uma forte presença de grupos
ligados a rádios e TVs comunitárias, que reivindicam a concessão de
canais de radiodifusão. Para este segmento, o ministro é identificado
com o empresariado, por isso representa um entrave à pulverização da
concessão de emissoras. "Aquilo ali é um caldeirão. Há pessoas
representando os mais diversos e antagônicos pontos de vista", relatou.
Em seguida, Dines perguntou se Venício
Lima concorda que a Confecom deveria ter começado com uma manifestação
contra a manutenção da censura ao Estado de S.Paulo. O
entrevistado explicou que a conferência é dotada de uma "sistemática
muito especial" para o encaminhamento de debates e propostas. Até o
momento, apenas na sessão de abertura houve espaço para livres
manifestações. Durante a maior parte do primeiro dia do encontro, os
trabalhos estiveram voltados para a discussão do regimento interno, que
deveria ter sido aprovado antes do início do evento.
Nelson Hoineff acrescentou que o
empresário João Saad passou boa parte do
dia "ameaçando cair fora" do evento devido à discordância sobre as
questões de encaminhamento das propostas. Desta maneira, dificilmente a
conferência irá abrir espaço para temas como o embargo ao Estado de
S.Paulo. Hoineff destacou que o Projeto de Lei nº29, aprovado
recentemente pela Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara dos
Deputados, abre caminho para uma "mudança de peso" em toda a área da TV
por assinatura. Está prevista, por exemplo, a entrada oficial das
operadoras de telefonia na distribuição de conteúdo. Outro ponto
importante é o espaço para a difusão de conteúdo nacional, que retoma a
discussão sobre a natureza da TV por assinatura. Ao longo dos anos, no
Brasil, o setor vem sendo tratado como apenas um serviço.
A questão do controle da mídia fora do
Brasil
O programa explicou como funcionam os
sistemas de controle da mídia nos Estados Unidos e no Reino Unido por
intermédio da participação de correspondentes. O jornalista Caio Blinder,
de Nova York, contou que o poder regulatório da Comissão Federal de
Comunicações dos Estados Unidos (FCC, na sigla em inglês), uma agência
independente, está em uma "encruzilhada histórica". Questiona-se o que a
comissão deve fazer para ajudar a "velha imprensa" e manter o "sinal
verde" para inovações tecnológicas sem incentivar monopólios de
comunicação, favorecer determinados setores e preservar os interesses
dos consumidores. Blinder disse que a agência está ficando "mais
agressiva" para defender a abertura na internet e, assim, mostra-se mais
próxima aos provedores de conteúdo e aplicativos que querem o acesso
irrestrito à rede mundial de computadores.
Sílio Boccanera, jornalista baseado em
Londres, disse que o Reino Unido controla a mídia eletrônica com uma
estrutura parecida com o FCC, mas oferece um modelo peculiar de
supervisão da mídia impressa, a Comissão de Queixas da Imprensa (PCC, na
sigla em inglês), que examina questões de supostos abusos de jornais e
revistas. O órgão de auto-regulamentação é composto por um comitê de 17
pessoas, a maior parte representando a sociedade, que examina os casos
de acordo com um Código de Ética Nacional, subscrito também pelos órgãos
de imprensa. O órgão de auto-regulamentação não impõe multas ou
determina prisões, mas o Código de Ética é respeitado por empresários e
jornalistas. Uma violação pode prejudicar a carreira de um profissional
de imprensa.
Na volta ao debate no estúdio, Dines
perguntou a Venício Lima de que forma o Brasil pode agir para adotar
mecanismos de observação da imprensa, uma vez que o Conselho de
Comunicação Social está paralisado. O sociólogo relembrou que durante a
Constituinte, uma das propostas mais polêmicas foi a criação de um
conselho de comunicação nos moldes da FCC americana. "Nunca se conseguiu
isso no Brasil. Um acordo de última hora articulado pelo então deputado
federal Artur da Távola conseguiu incluir a criação do CCS como órgão
auxiliar do Congresso Nacional, vinculado fisicamente e estruturalmente
ao Senado", explicou. O conselho só foi instalado 12 anos depois da
promulgação da Constituição, funcionou por dois anos e está inativo há
três. "Nós não temos tradição de debate entre os diferentes atores
interessados na área no nosso país", avaliou.
EDITORIAL
Bem-vindos
ao Observatório da Imprensa.
Se esta é mesmo a era
da comunicação é imperioso comunicá-la. Comunicá-la e discuti-la.
Sobretudo nos seus aspectos concretos, imediatos. No entanto, os
veículos de comunicação são geralmente reservados: não gostam de se
discutir como se os comunicadores tivessem receio dos comunicados.
O maior mérito da 1ª Conferência Nacional
de Comunicação, Confecom, é a sua própria realização. Convocada pelo
primeiro setor, o governo, teve entusiástica adesão do 3º setor, as
entidades não governamentais. Mas o segundo setor, a iniciativa privada,
inicialmente renitente, acabou afastando-se definitivamente: das sete
corporações empresariais da mídia, apenas uma participou do evento.
Ponto para a única que permaneceu.
Nunca é demais lembrar que os três setores
não se importaram muito com o misterioso sumiço do Conselho de
Comunicação Social. Previsto na Constituição como órgão auxiliar do
Congresso, o Conselho de Comunicação teve curtíssima duração e como já
lembramos inúmeras vezes neste Observatório até hoje ninguém se deu ao
trabalho de explicar por que razão evaporou-se e foi desativado.
A Confecom recebeu cerca de 6.200
propostas, a maioria claramente retórica mas na abertura e ao longo do
dia de hoje nenhuma ONG ou movimento social lembrou-se de protestar
contra a decisão do STF que manteve e até legitimou a censura prévia
imposta ao Estadão. Esperemos que a omissão seja reparada amanhã ou
depois. Com este renascimento da censura não adianta discutir a
comunicação.
De qualquer forma, as propostas geradas
pelos diversos órgãos do primeiro setor, devidamente debatidas pelo
Legislativo e a sociedade, podem superar as omissões e a obsolescência
de uma comunicação concebida antes da era da comunicação.
ARTIGO
Por Alberto Dines
1ª
CONFECOM
O misterioso e
suspeito desaparecimento do Conselho de Comunicação Social
Alberto Dines
A Conferência Nacional de Comunicação é
uma iniciativa que merece ser saudada e prestigiada. Sobretudo diante do
misterioso e suspeito desaparecimento do Conselho de Comunicação Social
(CCS), órgão auxiliar do Congresso previsto pela Constituição para a
tomada de decisões. Demorou 14 anos para sair do papel e depois de breve
existência eclipsou-se misteriosamente.
O CCS teve vida breve, porém profícua
e, por isso, resumida praticamente a um único mandato (2003-2005). Em
seguida suicidou-se, graças à diligência do coveiro indicado pelo chefe
do Legislativo, senador José Sarney, para enterrá-lo.
Na pauta das discussões da Conferência,
não aparece nenhuma sugestão destinada a revivê-lo e, assim, superar a
afrontosa ilegalidade atual. Mas há propostas para criar Conselhos de
Comunicação Social nas esferas municipal, estadual e federal sem
vinculação com o Executivo e o Legislativo.
Exigência constitucional
O CCS, além de ser fruto de uma
exigência constitucional longamente debatida pelos constituintes de
1988, tinha legitimidade, foi escolhido por um acordo partidário,
endossado pela Mesa do Senado. Sua arquitetura era precária (dos cinco
representantes da sociedade civil apenas três não possuíam vinculações
corporativas, um dos quais era o presidente, não-votante). Mesmo assim,
foi possível discutir importantes tópicos da agenda midiática (os oito
conselheiros restantes foram escolhidos equitativamente pelas
corporações empresariais e profissionais).
Na pauta de discussões da Confecom não
é mencionada com clareza a necessidade de se criar um órgão regulador
nos moldes da FCC (Federal Communications Comission) americana ou do
modelo europeu das Altas Autoridades para o Audiovisual. Esta é uma
questão central que não deveria estar camuflada ou disfarçada. A
existência da FCC nunca foi seriamente contestada nos EUA e os seus
recuos na Era Bush não chegaram a anular os benefícios que produziu na
matriz da livre iniciativa. O mesmo acontece na União Européia com os
diversos organismos reguladores, aceitos com naturalidade pelo segmento
do empresariado mais conservador.
O Estado é laico
A regulação viola o venerando conceito
da liberdade de impressão defendido já no século 17 por John Milton. A
mesma regulação, porém, será de capital importância para evitar o caos
produzido pela convergência de tecnologias nas mídias eletrônicas e
digitais.
As propostas preliminares colocadas
diante da Confecom mencionam a necessidade de reorganizar o sistema de
concessões para o audiovisual, mas nenhuma ONG encarou a aberrante
distribuição de canais de rádio e TV para parlamentares, vergonhoso
comércio de favores que compromete visceralmente tanto a nossa mídia
eletrônica como a própria lisura dos procedimentos parlamentares. Sem
este saneamento estrutural será impossível criar um sistema audiovisual
minimamente isonômico e justo.
O dossiê oferecido pelos órgãos
governamentais contém propostas positivas e realistas:
**
Aprovação de uma lei que garanta o direito
de resposta e regule o valor das indenizações (corrigindo-se a
lamentável decisão do STF que extinguiu integralmente a Lei de
Imprensa);
**
Coibir a comercialização para terceiros do
tempo da programação de rádio e TV;.
**
Criação de instrumentos para controlar o
número máximo de concessões para grupos empresariais;
**
Flexibilizar a Lei de Licitações para
facilitar a compra de conteúdos regionais independentes;
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Restringir a propriedade cruzada de meios
de comunicação, sobretudo em cidades médias e pequenas (tal como
preconiza a FCC americana);
**
Garantir o acesso à banda larga para todo
cidadão;
**
Regular por lei o preceito constitucional
da classificação indicativa da programação de TV;
**
Exigir contrapartidas dos fabricantes de
bebidas alcoólicas, sobretudo cervejeiras, para mensagens de alerta para
o perigo do seu consumo.
Algumas propostas oficiais não escondem
a sua natureza centralizadora e intervencionista:
**
A redução dos custos dos pequenos jornais
é uma ilusão e uma forma de controlá-los. Melhor seria adotar os modelos
ora em discussão no Congresso americano que prevêem para a pequena
imprensa ameaçada de extinção o formato de sociedade não-lucrativa,
livre de impostos.
**
A regulamentação do proselitismo religioso
é uma balela, tentativa de manter o status quo antidemocrático: o
Estado brasileiro é laico. Ponto final. Proselitismo religioso faz-se
nos templos que já gozam de amplos privilégios fiscais e trabalhistas.
Recurso de "judicializar" é inadequado
Lamentável a decisão de não participar
da Confecom adotada pelas seis mais importantes entidades empresariais
de mídia (ANJ, Abert, Abranet, ANER, Associação Brasileira de TV por
Assinatura e Associação de Jornais e Revistas do Interior). Sem uma
plataforma mínima para o exercício da convivência e da negociação (já
alcançada no falecido CCS) será difícil evitar futuras confrontações.
O recurso de "judicializar" todas as
pendências políticas mostrou-se neste ano rigorosamente inadequado. Os
supremos magistrados estão estressados pela excessiva visibilidade,
desgastados por confrontos pessoais e afogados pela avalanche de
demandas. As partes insatisfeitas promovem imediatamente a volta à
estaca zero. Melhor conversar ou, pelo menos, ouvir.
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET
1ª CONFECOM
A luta pela democratização da comunicação
Valério Cruz Brittos e Rafaela Chagas
Barbosa
Neste momento em que a Conferência
Nacional de Comunicação (Confecom) já é uma realidade, deve ser renovado
que, de um lado, a luta pela democratização do setor comunicacional tem
uma longa trajetória no país; e, de outro, estes lugares conferenciais
podem ser um importante instrumento para a construção de políticas
públicas que priorizem a diversidade sócio-econômico-cultural brasileira
(na construção dos instrumentos e nos resultados destes),
considerando-se o exemplo de outras áreas, especialmente da saúde.
Desde ontem (11/12) e até esta
quinta-feira 17 de dezembro, ocorre em Brasília este debate há muitas
décadas aguardado pela sociedade, com a expectativa de que formalmente
se materialize em proposições, as quais, resultantes do debate, sejam
posteriormente trabalhadas como instrumentos com efetividade jurídica.
Assim, mesmo que seja um fórum consultivo, suas propostas podem (e
espera-se que assim o sejam) ser acolhidas pelos poderes constituídos e
encaminhadas para deliberação, na medida em que nascem de um espaço
plural.
Isso ocorre depois que conferências
estaduais de comunicação foram realizadas em 26 estados brasileiros,
além do Distrito Federal. Nesses fóruns, a participação da sociedade
civil organizada foi predominante, com alguma contribuição do poder
público e a presença de parte do empresariado, especialmente aquele
ligado à telefonia (na área da radiodifusão, a operadora que mais
participou foi a Band). As convocações couberam aos executivos
estaduais, substituídos, excepcionalmente, pelos legislativos, quando
aqueles não o fizeram.
As conferências nacionais não são algo
novo na história política brasileira. Como espaços de discussão entre
sociedade e órgãos governamentais, voltados à formulação de políticas
públicas para um determinado segmento, remetem à década de 40 do século
20. A 1ª Conferência Nacional de Saúde transcorreu em 1941, obtendo
resultados progressivamente positivos para este setor nevrálgico da vida
do país e prosseguindo em realização até hoje. Teve como ápice de
resultados a implantação do Sistema Único de Saúde (SUS), em 1988.
Trajetória e mobilização
A luta pela democratização da
comunicação acompanha a história do país, podendo ser situada nas
iniciativas pela instalação de tipografias pré-Imprensa Régia, se este
percurso for inserido no âmbito da busca por liberdade de expressão. Ao
longo do século 20, muitos movimentos contra-hegemônicos contribuíram
com este processo, mas, de forma mais sucinta, pode-se marcar os anos 80
como fundamental na pugna pela democratização comunicacional, marcada
pela criação da Frente Nacional por Políticas Democráticas de
Comunicação (FNPDC), de grande participação durante a Assembléia
Nacional Constituinte.
Deve-se destacar a importância nesses
embates do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC),
que, surgido a partir do FNPDC, em 1991 foi criado como movimento social
e em 1995 transformado em entidade. Deve ser salientado igualmente o
importante papel desempenhado pelo Intervozes – Coletivo Brasil de
Comunicação Social, outra organização fundamental na luta atual para a
democratização midiática no país, cuja atividade começou em 2002. Seu
mote é trabalhar pela efetivação do direito humano à comunicação no
Brasil, apresentando uma postura de diálogo social.
Nessa linha evolutiva, posiciona-se um
conjunto de ações implementadas em 2006, intituladas de pró-conferência,
visando à articulação do debate entre movimento social, Estado e
empresariado, para, ao fim, construir o evento conferencial. No ano
seguinte, entidades como FNDC, Intervozes, Conferência Nacional de
Direitos Humanos e Minorias (CNDHM), Associação Mundial dos
Radiodifusores Comunitários (Amarc), Associação Brasileira de
Radiodifusão Comunitária (Abraço) e Conselho Federal de Psicologia (CFP)
reuniram-se e criaram a Comissão Nacional Pró-Conferência de Comunicação
(CNPC).
Após um conjunto de eventos em favor da
Conferência e a mobilização do movimento organizado, no Fórum Social
Mundial de 2009 o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assegurou sua
realização. Com isso, no dia 17 de abril de 2009 foi publicado, no
Diário Oficial da União, decreto assinado pelo presidente determinando a
realização da 1ª Confecom. Portanto, numa retrospectiva histórica e
considerando as perspectivas do mundo digital, a Confecom (esperada como
a primeira de uma série) está longe de resolver os problemas da
comunicação do país, marcados por concentração e exclusão. No entanto, é
um passo fundamental para que as medidas necessárias sejam discutidas e,
na seqüência, adotadas.
PERGUNTAS
Chat:
Acesse a íntegra do nosso chat em:
http://www.tvbrasil.org.br/interatividade/091215-observatorio-confecom.asp
E-mails e Telefonemas:
Deivison Tiago, Maceió / AL
Como é o controle de concessão de canais de TV para associações
religiosas?
Marcelo Lula, Santa Catarina
Se houver a volta da obrigatoriedade do diploma para o exercício do
jornalismo, como fica a situação de profissionais sem o diploma mas que
atuam há muito tempo com jornalismo? Haveria uma anistia para esses
profissionais?
Geraldo Márcio, Belo
Horizonte / MG
Como está sendo a discussão de concessões de rádio e TV para políticos?
Valdemir Lima, João Pessoa /
PB
Se proibissem uma determinada seita religiosa de ter um canal, isso
seria perseguição?
Carlos Alberto, Duque de
Caxias / RJ
A Confecom vai botar em pauta a censura ao Estadão?
Sebastião Crispim da Silva,
Contagem / MG
Elvira, como a sra. vê a vaia que o ministro das Comunicações, Hélio
Costa, recebeu? Ele fala tanto das rádios comunitárias, mas a maior
parte das vaias veio dessas rádios.
Fábio César, Mato Grosso
Como ficou a discussão das rádios comunitárias? Vai permanecer 25 watts
ou foi discutida a proposta de alterar para 250 watts? É crime operar
uma rádio comunitária com processo de concessão em andamento?
Gladstone Santos, Maceió / AL
O que efetivamente vai mudar em termos de distribuição dos canais para o
Brasil após a Confecom?
Vicente dos Reis, Patos de
Minas / MG
Nós vamos pagar pela TV digital como se paga por TV por assinatura, ou
será uma TV aberta?
Bernardo de Oliveira, Monte
Sião / MG
Eu questiono o poder da imprensa diante do poderio econômico da família
Sarney no embate contra o Estadão.
Sérgio de Souza, Belo
Horizonte / MG
Não há um certo corporativismo quando se cobre tanto a Confecom e menos
a Conseg (1ª Conferência Nacional de Segurança Pública)?
André Marra, Minas Gerais
Elvira, o governo não está trazendo tarde demais a questão da
democratização após a queda do diploma? Isso não seria uma manobra para
a eleição?
Ronaldo Leite, João Pessoa /
PB
Lastimo como o STF tenha tomado essa medida autoritária contra o
jornalismo. Nelson, como fazer para derrubar essa decisão?
William Douglas, Natal / RN
O que tem sido feito para acertar o padrão de TV digital no país?
Helinton Araújo, São José dos
Pinhais / PR
Por ser financiada em grande parte pelo governo, a mídia acaba sendo, de
certa forma, censurada?
Célia Ribeiro, Aracaju / SE
Como estão as discussões em relação ao domínio dos meios de comunicação
pelas igrejas?