RESUMO DO PROGRAMA
CONFERÊNCIA DO CLIMA EM COPENHAGUE
Em Copenhague, capital da Dinamarca, os
principais líderes do mundo decidem as metas para a redução da emissão
de gases poluentes na atmosfera para os
próximos dez anos. Os chefes de Estado concordam que é preciso rever o
modo de produção industrial e mudar práticas sociais para evitar as
catastróficas mudanças climáticas previstas por especialistas, mas
relutam em estabelecer metas ousadas que possam prejudicar suas economias.
Mas a questão ambiental que atualmente
ocupa manchetes de jornais por conta da realização da 15ª Conferência
das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15) logo passará para
segundo plano. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo na
terça-feira (8/12) pela TV Brasil discutiu o papel da imprensa na
mobilização da sociedade para a preservação do meio ambiente. Os meios
de comunicação conseguem alertar à população para o fato de que as
mudanças climáticas já podem ser sentidas no Brasil – e que cada cidadão
pode fazer a sua parte na preservação do planeta?
Para debater este tema, o
Observatório recebeu no estúdio do Rio de Janeiro Eduardo Viola,
professor titular de Relações Internacionais da Universidade de Brasília
(UnB), que trabalha com política ambiental internacional desde o fim da
década de 1980. Em São Paulo, participaram dois convidados: Luciano
Martins Costa, colunista do jornal Brasil Econômico e
apresentador do Observatório no rádio, e Adalberto Marcondes
Wodianer, fundador e editor da Envolverde, site especializado em meio
ambiente e sustentabilidade. Aldem Bourscheit, repórter do site O Eco,
participou pelo estúdio de Brasília. Bourscheit acompanha questões
ambientais desde a Rio-92, é pós-graduado em Meio Ambiente, Economia e
Sociedade pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso,
da Argentina).
Antes do debate ao vivo, na coluna
"A Mídia na Semana", Alberto Dines comentou a cobertura da imprensa sobre
as denúncias de pagamento de propinas envolvendo o governador do
distrito federal, José Roberto Arruda. O jornalista destacou que o
escândalo deveria ficar conhecido como "Propinoduto de Brasília" e não
como "mensalão do DEM". Na avaliação de Dines, a mídia comportou-se
exemplarmente. "Não se serviu de vazamentos exclusivos e ilícitos, todos
publicaram tudo no mesmo dia e agora cabe à mídia inteira evitar que o
caso caia no esquecimento e os panetones de Arruda se transformem em
pizza."
A informação descontextualizada
Ainda antes do debate no estúdio, em
editorial, Dines comentou que o Brasil já está
sendo afetado pelas mudanças climáticas, como pode ser verificado por
efeitos como a seca na região amazônica. "E quem será capaz de costurar
estas dezenas de acidentes climáticos? Qual o segmento da sociedade
humana treinado para contextualizar e dar sentido aos fragmentos da
pauta diária? Chegou a vez da mídia arregaçar as mangas para convocar o
mundo a defender-se da catástrofe anunciada", afirmou. Dines chamou a
atenção para o fato de que não apenas as políticas públicas podem alterar o
panorama do meio ambiente. Todos os cidadãos devem empenhar-se na luta
contra o desequilíbrio ambiental.
A equipe da TV Brasil que está em
Copenhagem entrevistou Washington Novaes, jornalista especializado na
questão ambiental, ao final do primeiro dia do evento. Novaes destacou
que ao longo de conferências como esta – que envolvem um grande número
de países e onde estão em jogo questões polêmicas – posições diferentes
são expostas. Líderes já afirmaram que somente no próximo ano será feito
um acordo, enquanto outros garantem que metas serão estabelecidas ao
final da COP-15.
O jornalista observou que
representantes de ONGs têm dificuldade em assumir posições mais
pessimistas e influenciar a opinião pública e governos. "É um jogo
difícil, pesado e muito complicado", avaliou. Outro ponto destacado por
Novaes é que a mídia não dedica uma cobertura sistemática ao meio
ambiente. Dá destaque a grandes catástrofes ambientais, mas não mostra
no dia-a-dia a relação entre desabamentos e a ocupação ilegal de
encostas de morros, por exemplo.
A mudança climática já assombra o
Brasil?
Marilene Ramos, secretária de Gestão do
Ambiente do governo do Rio de Janeiro, avaliou que a mídia brasileira
tende a mostrar os fatos como se o problema do desequilíbrio ambiental
ainda não tivesse atingido o Brasil. Há sinais mais evidentes das
conseqüências do aquecimento global, como o derretimento das geleiras,
mas o Brasil também já é afetado, na avaliação da secretária. A mídia
leva a população a acreditar que "isto é um problema dos países
desenvolvidos e não nosso; e, na verdade, nós estamos dentro deste
problema". A secretária defende que o Brasil colabore para a diminuição
da emissão de gases que contribuam para o efeito estufa, mas que ao
mesmo tempo mude práticas ambientais "medievais", como as queimadas e os
lixões.
Para Aluízio Maranhão, editor de
Opinião do jornal O Globo, a cobertura da questão ambiental é um
desafio para a mídia por ser extremamente técnica. Muitos
climatologistas acreditam que ainda é cedo, do ponto de vista
científico, para estabelecer uma relação direta entre certos eventos que
já ocorrem no Brasil – como ciclones, enxurradas e secas – com o
aquecimento global. "Nós jornalistas funcionamos em outro timing
e temos, sim, que procurar aproximar causas e efeitos", disse.
De Londres, o jornalista Sílio
Boccanera afirmou que a mídia na Europa rotineiramente estabelece a
ligação entre as catástrofes locais da natureza – como enchentes e secas
– e o problema global da mudança do clima. Franceses, suíços e italianos
mostram-se preocupados com o degelo nos Alpes e a redução da neve nas
suas estações de esqui. "É mais do que uma preocupação meramente
ecológica. Perde-se dinheiro com isso", sublinhou. Na Inglaterra, a
repetição de enchentes devastadoras nos últimos anos também tem sido
ligada à mudança geral do clima.
Na Europa, um panorama bem diferente
Jornais e emissoras de TV na Europa
oferecem amplo espaço ao assunto. Boccanera enfatizou que a mídia
destaca que não se trata apenas do aquecimento da Terra, o que faz com
que a população pense "apenas em mais calor", o que poderia ser visto
como positivo em um país frio como a Inglaterra. "A ênfase é na mudança do
clima e no desequilíbrio daí resultante, que vem dar em problemas não só
lá em cima, na estratosfera, mas na esquina de cada um de nós",
explicou.
No debate ao vivo, Dines questionou se
há "uma percepção formal de que já estamos à beira do abismo". O
professor Eduardo Viola explicou que a percepção das mudanças climáticas
está diretamente ligada ao nível de instrução da população. Quanto maior
grau de educação do cidadão, mais este observa a gravidade do problema e
compreende a necessidade de transformar um sistema de alta intensidade
de carbono em um de baixa intensidade. O professor destacou que a
questão da distribuição dos custos desta mudança torna a negociação mais
intensa. E, embora todos os países estejam adotando políticas de
transição, a velocidade das ações concretas é lenta se comparada ao que
os especialistas apontam como a necessária.
Para Luciano Martins, a cobertura do
meio ambiente é um desafio para os meios de comunicação porque estes não
têm o costume de tratar questões de forma sistêmica. Na opinião do
jornalista, a mídia tem feito uma cobertura fragmentada e pontual. "Tem
fugido da relação óbvia que existe entre a questão ambiental e outras
questões como, por exemplo, o modo como a economia está organizada",
avaliou. Os jornais passaram a cobrir de forma mais intensa a mudança
climática em fevereiro de 2007, quando foi divulgado o relatório do IPCC
(Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, na sigla em inglês), mas o enfoque foi catastrófico, emotivo e assustador. Logo
depois, o assunto foi abandonado e só retornou aos meios de comunicação
já próximo à realização da COP-15.
A internet como aliada
Um aliado para a criação de uma
consciência ambiental no cidadão é a internet. Aldem Bourscheit disse
que a rede de computadores supre uma lacuna da grande mídia, que cobre o
meio ambiente apenas em momentos pontuais, como durante a realização de
um grande evento internacional. "Os veículos brasileiros, de forma
geral, têm pouca gente cobrindo a área ambiental frente ao tamanho do
desafio", avaliou. O repórter comentou que um estudo apontou que na
região mais castigada pelas enchentes em Santa Catarina, 85% dos setores
afetados estavam em topos de morros, margens de rios e encostas.
"Seria interessante que a grande mídia
ligasse estes pontos mostrando que o aquecimento global pode
potencializar esses efeitos climáticos, e que a ocupação do território é
um fator importante a ser debatido no Brasil", enfatizou. Aldem
Bourscheit destacou que percebe na população brasileira uma "angústia"
em saber como agir para preservar os recursos naturais e colaborar com
as políticas públicas de preservação do meio ambiente. O cidadão também
tem interesse em cobrar dos governos o cumprimento de planos
apresentados.
Nos grandes jornais, o meio ambiente
deixou de ser um tema restrito a uma única editoria. Adalberto Marcondes
Wodianer disse que a pauta ambiental ganhou espaços nobres na mídia,
como a primeira página. "Saiu da editoria de Geral e de Ciência para
ganhar um espaço na Economia porque interessa às empresas." Mas a
cobertura ainda não é transversal, na opinião de Wodianer. O ideal seria
a pauta ambiental estar presente em todos os aspectos das coberturas.
Outro tema discutido no Observatório
foi o conflito de interesses que pode haver nos jornais em relação à
publicidade. Dines questionou se a mídia será capaz de levar ao extremo
a conscientização da população sem entrar em confronto com os
anunciantes de produtos que poluem o ambiente, como carros a diesel, por
exemplo. Luciano Martins concordou que este é um ponto de contradição. O
jornalista explicou que a grande quantidade de anúncios de carros off
road – que não são modelo flex – se deve ao fato de que os jornais
estão voltados para o público de classe A e B, onde estão os
consumidores deste produto. O setor de construção civil é outro ponto de
contradição. Aos domingos, as páginas dos grandes jornais estão repletas
de anúncios de lançamentos do setor imobiliário. "Os jornais em nenhum
momento questionam o fato de que muitos dos insumos das construções são
buscados em fontes das quais não se cobra a questão ambiental",
criticou.
Estado ausente
Adalberto Marcondes Wodianer destacou
que no Brasil há uma grande necessidade da presença do Estado. Na
Amazônia, por exemplo, os serviços básicos do Estado não estão presentes
para a maioria da população. "É muito difícil falar em conter o
desmatamento na Amazônia em uma região em que você não tem a capacidade
de comando e controle do Estado, não tem a capacidade de entrar com
políticas públicas eficientes para cumprir metas", afirmou.
Wodianer explicou que um fator que
prejudica a cobertura é o alto custo do jornalismo de qualidade. Mesmo
jornais de circulação nacional não têm recursos para mandar equipes com
frequência para a Amazônia. E na internet o problema é ainda mais grave.
Mesmo sem ter o custo industrial do papel, há menos capital porque não
há o aporte publicitário disponível para a mídia impressa.
EDITORIAL
Bem-vindos
ao Observatório da Imprensa.
A COP-15 está nas manchetes, nos telejornais
e nas rádios mas as mudanças climáticas estão sendo sentidas hoje pelos 10
milhões de habitantes de São Paulo com o dilúvio das últimas horas e a
percepção de que a sobrevivência do planeta depende da solidariedade
humana.
Este Observatório da Imprensa vai tratar
hoje das ameaças ambientais e foi beneficiado pela generosidade da TV
Cultura. Sem ela esta edição estaria seriamente comprometida já que os
estúdios da TV Brasil em São Paulo estão inoperantes pela enchente na
região da Vila Leopoldina. Temos assim em tempo real, ao vivo, sem
qualquer retórica, os dois elementos fundamentais da perigosa equação de
nossos dias: desrespeitamos a natureza há séculos e agora não há outra
saída senão a da aliança planetária. O preço das bruscas alterações
climáticas pode ser mitigado se conseguirmos vencer nossas divergências
pessoais, políticas e religiosas.
A catástrofe ambiental não se resume ao
derretimento das geleiras e das calotas polares: as inusitadas enchentes
no início da primavera no sul do país, a seca na Argentina e na região
amazônica não são fatos isolados. São sintomas do mesmo e assustador
fenômeno.
E quem será capaz de costurar estas dezenas
de acidentes climáticos? Qual o segmento da sociedade humana treinado para
contextualizar e dar sentido aos fragmentos da pauta diária?
Chegou a vez da mídia arregaçar as mangas
para convocar o mundo a defender-se da catástrofe anunciada. E quando se
fala em mídia estamos nos referindo tanto aos mediadores - nós, como aos
mediados, você. O cidadão, todos os cidadãos, são decisivos. Ao usar o
etanol e não a gasolina, ao evitar o consumo conspícuo, ao poupar água e
evitar o desflorestamento, você está desempenhando um papel tão relevante
quanto o de um líder mundial. O inimigo não está entre nós, esta é uma
guerra onde todos são amigos. Não será difícil ganhá-la.
ARTIGO
Por Alberto Dines
AGENDA
PARA A CONFECOM
A mídia se ilude e
espera modelos mágicos
Alberto Dines
O barão da mídia anglo-saxônica Rupert
Murdoch acredita em contos de fadas: imagina que se os portais de
notícias e os mecanismos de busca da internet resolverem cobrar pelo
copioso conteúdo que oferecem gratuitamente cairá o número de acessos,
aumentará a procura por jornais que os abastecem e, assim, garante-se a
sua sobrevivência.
Por outro lado, as telefônicas
brasileiras estão esperando mais uma dádiva da divina providência e
pressionam governo e legislativo para obter o direito de transmitir a
programação da TV por assinatura e rapidamente se transformarem em
produtoras de conteúdo. Com isso, poderão oferecer noticiário televisivo
por meio de celulares sem depender de concessões, como acontece com o
atual sistema de radiodifusão. E como fica a cláusula da isonomia?
Quem garante que o cidadão vai ficar o
dia inteiro de olho na telinha do celular para saber o que está
acontecendo? E quem gosta da TV para entreter-se – caso da massa de
cultores das telenovelas – abrirá mão da telona de alta definição com
qualidade de cinema?
Outro grupo de devotos de mágicas,
também abrigados sob o manto das operadoras de telefonia, apostam todas
as fichas no projeto de grandes jornais virtuais. Fizeram as contas e
concluíram que liberados dos custos do papel e da distribuição poderão
oferecer na web um produto de alta qualidade jornalística por um quarto
do custo de um veículo impresso.
Informação trabalhada
Estas devoções podem se materializar
tanto no varejo como no atacado. Mas, por enquanto, são hipóteses, no
máximo wishfull thinking. Ninguém garante que o Google
transformado em commodity continuará a ser utilizado com a mesma
intensidade. Por enquanto é um bônus oferecido gratuitamente pela
indústria digital. Seus consumidores estarão dispostos a pagar por
aquilo que sempre receberam de graça? E a pirataria vai acabar? A
geração de novas tecnologias será de repente estancada? A humanidade
está disposta a retroceder e perder o privilégio da informação aberta e
universal?
Por outro lado, ninguém garante que os
ex-leitores de jornais de repente voltarão a comprá-los para ler as
mesmas banalidades e abobrinhas que aparecem na TV aberta. A comparação
entre os custos de produção de jornais abertos e seus equivalentes
digitais precisa levar em conta que uma equipe produz uma edição
impressa por dia, sete dias por semana, enquanto um portal noticioso da
internet é contínuo, ininterrupto. Serão necessárias equipes maiores,
imensas, não apenas para produzir novas informações, mas para juntá-las
e contextualizá-las permanentemente, 24 horas por dia. A não ser que na
internet brasileira seja consagrado o atual modelo híbrido no qual o
fluxo noticioso é intermitente e limitado, das 8 às 22 horas.
Certo, comprovado e garantido: o
cidadão quer informação, e informação de qualidade. Como afirma o
veterano Sir Harold Evans em seu recente My Paper Chase, o
público primeiro seduz-se com opiniões e truculência, em seguida busca
informação trabalhada, investigada, obtida com muita transpiração.
Este mesmo Evans notabilizou-se quando
dirigiu o Sunday Times e numa admirável cruzada jornalística
enquadrou a indústria farmacêutica britânica, obrigando-a a indenizar as
famílias das crianças cujas mães tomaram o medicamento Talidomida
durante a gestação.
Bolhas e modismos
Um portal noticioso da internet
conseguiria concentrar suas baterias numa cruzada capaz de galvanizar
uma sociedade inteira? O propinoduto de Brasília conseguiria causar a
mesma repercussão se fosse veiculado apenas na internet ou mesmo na
internet+TV aberta?
O jornalismo não foi engendrado nem
mantido ao longo de quatro séculos por um "modelo de negócio". Sua
gênese está assentada em paradigmas morais e exigências públicas. É um
erro ficar à espera de fórmulas messiânicas, salvacionistas, que jamais
produzirão qualidade e fidelidade dos consumidores. O que enfraqueceu o
jornalismo nas duas últimas décadas foi a sua ligeireza, sua submissão
às bolhas, aos modismos e, sobretudo, sua adesão ao oportunismo
político.
Eis ai uma agenda para esquentar a 1ª
Conferência Nacional de Comunicação. É uma lástima que os empresários
não queiram debatê-la.
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET
CAIXA DE PANDORA
Panetones na Redação
Washington Araújo
Uma semana é tempo suficiente para
fazer muita coisa. Este período de tempo ficou mais famoso com a
descrição da criação do mundo em seis dias de trabalho – e quanta coisa
se pode fazer! – ficando o sétimo dia para o descanso, que ninguém é de
ferro. A descrição da semana mais famosa de que se tem notícia está
registrada bem no início da Bíblia no livro de Gênesis, capítulos 1 ao
3, e o autor é ninguém menos que Moisés. Seu relato é sucinto, objetivo
e substantivo, nada de grandiloqüência.
"1º Dia – Deus fez a luz; 2º Dia –
Deus fez o céu; 3º Dia – Deus fez a terra, os mares, as árvores e as
plantas; 4º Dia – Deus fez o sol, a lua e as estrelas; 5º Dia – Deus
fez os pássaros e peixes; 6º Dia – Deus fez os animais e Adão e fez
também Eva, a primeira mulher; e no 7º Dia – Deus descansou!"
Pois bem, voltemos ao que interessa. Se
em uma semana tudo foi criado e até descanso foi contemplado, uma semana
não foi tempo suficiente para que o principal jornal de Brasília (o mais
influente e renomado por sua detalhada cobertura política) conseguisse
tratar do caso que, desde seu início, em 28 de novembro de 2009, recebeu
ampla cobertura dos grandes jornais brasileiros, no eixo Rio-São Paulo e
até mesmo no exterior.
É gritante, salta aos olhos e é, por
todos os motivos, desconcertante o jornalismo praticado pelo Correio
Braziliense entre os 28/11 e 3/12/2009. Moradores de Brasília
ficariam bem informados do que se passava em sua cidade, e também
capital de todos os brasileiros, se estivessem lendo O Globo, o
Estado de S.Paulo e a Folha de S.Paulo ou se estivessem
com os olhos sempre grudados nos telejornais que foram ao ar nesse
período. O chamado panetonegate emergiu com a força da imagem em
movimento, com dezenas de vídeos, sempre muito bem produzidos, com bom
áudio, imagens focadas, ângulos e planos de quem parece entender bem do
código audiovisual.
Cara de paisagem
Vamos por partes porque o assunto
demanda detalhamento.
No primeiro dia em que o escândalo no
Governo do Distrito Federal (GDF) foi noticiado – 28 de novembro –, o
Correio Braziliense optou por manchete genérica, dando ares de
normalidade ao que tinha tudo para estar fora da curva da normalidade. O
título que foi para sua capa: "GDF e Distritais são alvo de
investigação". E adiantava no subtítulo o tom da cobertura: "PF e
justiça apuram suposto esquema de propinas a parlamentar". Enquanto isso
os jornais mais influentes do país trouxeram em suas capas:
**
O Globo: "Governador do DEM é suspeito de pagar propina a
deputados". E diz que "PF grava José Roberto Arruda negociando repasse
de dinheiro com assessor".
Folha de S.Paulo:
"Governo do DF é acusado de corrupção"
O Estado de S.Paulo:
"Polícia flagra `mensalão do DEM´ no governo do DF". E diz que o esquema
"teria até mesmo participação do governador Arruda".
Logo no primeiro dia, o nome do
governador do Distrito Federal estava nas manchetes. Menos no Correio
Braziliense. E estava nas capas por uma razão muito simples: temos
diante de nossos olhos e ouvidos o escândalo de corrupção mais detalhado
e filmado da história política brasileira.
No dia 29/11, o Globo teve como
manchete principal "PF: Arruda distribuía R$ 600 mil todo mês"; a
Folha de S.Paulo optou por
"Documento liga vice-governador do DF a esquema de corrupção" e o
Estado de S.Paulo não deixou por menos: "Em vídeo, Arruda recebe R$
50 mil". Novamente, o Correio fez cara de paisagem: "OAB-DF pede
explicações sobre denúncias".
Mais espaço na imprensa nacional
Em 30/11, O Globo abriu sua
edição com a manchete "Arruda: TSE vê indício de caixa 2"; a Folha de
S.Paulo destacou na capa: "Vídeos mostram aliados de Arruda
recebendo dinheiro" e o Estado de S. Paulo abriu manchete com
"Vídeos `letais´ levam DEM a preparar expulsão de Arruda", destacando em
subtítulo que "Provas contundentes da PF deixam governador em situação
insustentável". Até o fluminense Jornal do Brasil passou a tratar
do assunto com a importância que o assunto requeria: "Aliados deixam
Arruda isolado". O Correio uma vez mais evitou citar o
nominalmente o governador José Roberto Arruda e preferiu socializar ao
máximo o escândalo. Sua manchete: "Novos vídeos expõem base aliada do
GDF". Vale conferir o que o Correio achou por bem destacar:
"Gravações feitas pelo
ex-secretário de Relações Institucionais do Governo do Distrito
Federal Durval Barbosa, entregues à Polícia Federal, mostram
deputados distritais da base aliada, integrantes e assessores do GDF
recebendo dinheiro do próprio Durval, que denunciou um suposto
esquema de corrupção no governo local. Em um dos vídeos, o atual
presidente da Câmara Legislativa, Leonardo Prudente, aparece
colocando maços de notas nos bolsos do paletó e nas meias. Diante
das acusações, a cúpula nacional do partido Democratas se reúne com
o governador José Roberto Arruda – que também apareceu em uma
gravação – e espera que ele dê explicações públicas ainda hoje. Em
Brasília, o PDT e o PSB anunciaram que não querem mais vínculo com o
GDF. A direção dos dois partidos já decidiu que vai entregar os
cargos que ocupam na atual administração." (Págs. 1 e 19 a 21)
No mês de dezembro, esse mês que parece
uma sexta-feira alargada por 30 dias, o escândalo de corrupção recebeu
maior espaço da imprensa nacional. Vejamos as manchetes do 1º de
dezembro de 2009:
**
O Globo – "Em vídeo, empresário reclama da alta propina cobrada pelo
governo Arruda"
**
Folha de S.Paulo – "Ex-secretário liga tucano a mensalão"
**
O Estado de S. Paulo – "Governador do DF ameaça e DEM adia expulsão"
**
Jornal do Brasil – "Arruda tentou barrar operação - Governador
pediu, em vão, ajuda ao STJ e a Aécio Neves"
Manchete risível
O Correio Braziliense parece
divorciado da sempre aguardada objetividade e sua opção de manchete
aposta na diluição das responsabilidades criminais: "Democratas
divididos. Arruda se defende. Quebra de decoro na Câmara". Em 2 de
dezembro, temos as seguintes manchetes:
**
O Globo – "Imagem de políticos recebendo propina `não fala por si´,
diz Lula"
**
Folha de S.Paulo – "Fita expõe ação de Arruda no mensalão"
**
O Estado de S. Paulo – "DEM marca expulsão de Arruda para o dia 10"
Para os leitores do Correio
Braziliense, o viés é outro. Chega a ser paroquial para dizer o
mínimo. Temos este primor de manchete: "Arruda: Roriz quer ganhar no
tapetão". Leva às suas páginas entrevista exclusiva com o governador
Arruda. O tom é de defesa e desvio de foco sempre presente. Aqui a
abertura da reportagem:
"Em entrevista exclusiva ao
Correio, o governador José Roberto Arruda afirma que as
acusações de um suposto esquema de propinas no Distrito Federal são
uma tentativa do grupo ligado a Roriz de inviabilizar sua
candidatura nas eleições de 2010. `Quero ter a chance de, num
processo eleitoral aberto, sem tapetão, sem uso de ardis como esse,
poder enfrentar o debate, poder dizer às pessoas o que o meu governo
fez e o mal que Roriz fez a Brasília´, diz. Segundo Arruda, as
revelações de Durval Barbosa fazem parte da estratégia do
ex-governador. `O Roriz sabe que para ele voltar ele precisa me
tirar de campo´, comenta. Arruda se considera `aliviado´ com a saída
do ex-secretário e faz uma analogia com o trânsito ao analisar a
crise. `Sofri um grave acidente de carro, mas não morri. Estou mais
vivo do que nunca´" (pág.1).
Fica patente a falta de simetria entre
a cobertura dos jornais paulistas e cariocas e o principal jornal do
Distrito Federal. Os "de fora" parecem estar em posto de observação (e
análise) privilegiado. Suas matérias não titubeiam, ficam de pé por si
sós. Os jornais impressos querem estar à altura do conteúdo apresentado
nos telejornais e nas emissoras de rádio. Menos o Correio. É o
que iremos constatar após escrutinar as manchetes de capa dos 6º e 7º
dias do escândalo.
3 de dezembro de 2009:
**
O Globo – "Grupo que negociava propina chamava Arruda de `big boss´"
**
Folha de S.Paulo – "Para mensalão do DEM, PT propõe impeachment"
**
O Estado de S. Paulo – "Arruda licitou panetones no dia da operação
da PF - Compra foi o argumento do governador para justificar recebimento
de R$ 50 mil"
Chega a ser risível a manchete
escolhida pelo Correio Braziliense: "Durval acusado de desviar R$
432 mi".
Demonstração de desconforto
Finalmente, no sétimo dia, os jornais
"de fora" decidiram não descansar. Quem tirou o dia para repouso foi o
Correio Braziliense. Vamos às manchetes do dia 4 de dezembro de
2009:
**
O Globo – "Processo contra Arruda para na Câmara do DF"
**
Folha de S.Paulo – "PF apura se pacote com dinheiro era para Arruda"
**
O Estado de S. Paulo – "Planilha detalha doações para caixa 2 de
Arruda"
O Correio Braziliense, embora
estivesse (presumo) acompanhando a cobertura de O Globo, o
Estadão e a Folha para o escândalo das imagens em movimento,
deve ter observado que no sétimo dia todas as manchetes incluíam o nome
"Arruda". O Correio, numa espécie de infame trocadilho... foi
imprudente ao escolher sua manchete: "Como Prudente fez o pé-de-meia".
Existem situações em que manchetes de
jornais, ao serem cotejadas em determinado período de tempo, oferecem
uma visão clara sobre os compromissos deste ou daquele veículo de
comunicação. As leituras das manchetes denunciam também o grau de
independência e profissionalismo dos veículos. E revelam, acima de tudo,
os diversos níveis de compromissos.
Alguns escancaram desde suas capas a
vitalidade de seus compromissos com a missão de bem informar o leitor.
Enquanto outros demonstram seu desconforto ao ver, no centro de sua
Redação, no lugar da tradicional árvore natalina, um prosaico panetone.
PERGUNTAS
Chat:
Acesse a íntegra do nosso chat em:
http://www.tvbrasil.org.br/interatividade/091208-observatorio-cop15.asp
E-mails:
Maria Helena
Há poucos dias tomamos conhecimento da estupenda invenção do carro movido
a ar, que poderia ser abastecido com ar comprimido e liberando um ar ainda
mais limpo. Um brinde à natureza. Ora, isto acarretaria um grande impacto
à economia dos grandes produtores de combustíveis emissores de CO2. Como
resolver este impasse?
Rogério Fernandes, Dourados / MS
Para pensarmos o meio ambiente não seria necessário nós repensarmos
nossa própria forma de consumo? Ou seja, a mídia bombardeia as pessoas e
as impulsiona para o consumo e acaba por entrar em contradição com as
questões ambientais.
Telefonemas:
Ubiraci Leal, Rio de Janeiro
Como conciliar a sustentabilidade sem dano à nossa sociedade?
José Bonfim, Sergipe
Como aumentar a verba governamental para cuidar do meio ambiente?
William Douglas, Natal / RN
O que se pode esperar dessa convergência das mídias em defesa do meio
ambiente?
Denivaldo Silva, São Luís / MA
Como evitar as invasões de áreas preservadas?
Antônio Ramos, Niterói / RJ
O Brasil é um grande produtor de petróleo que contribui para o
aquecimento global. Como amenizar isso?
José Carlos, São Paulo
Qual ação prática a favor do meio ambiente cada um dos participantes
do programa realiza?
Sueli Batista, Brasília / DF
O governo e a mídia escondem da população os verdadeiros impactos
negativos do meio ambiente no Brasil?
Afonso Dias, São Gonçalo / RJ
Em meio às discussões ambientais, como explicar o desmatamento em nome
do progresso?
Ronaldo Leite, João Pessoa / PB
Por que o governo brasileiro investe tanto na utilização do petróleo ao
invés de optar pelo óleo diesel?
Fabiano Miranda, Juiz de Fora / MG
Utilizar a energia nuclear para reduzir os impactos ambientais seria
viável?
Maria Helena Winters, Rio de Janeiro
Como resolver esse impasse entre a questão econômica e ambiental?