PROGRAMA DO DIA 08 DE DEZEMBRO DE 2009

CONFERÊNCIA DO CLIMA EM COPENHAGUE

Nesse programa debatemos a reunião em Copenhague entre líderes mundiais e a mídia sobre o clima do planeta, aquecimento global e as regras para combatê-lo.

Leia a transcrição do programa

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AGENDA PARA A CONFECOM
A mídia se ilude e espera modelos mágicos
Alberto Dines

O barão da mídia anglo-saxônica Rupert Murdoch acredita em contos de fadas: imagina que se os portais de notícias e os mecanismos de busca da internet resolverem cobrar pelo copioso conteúdo que oferecem gratuitamente cairá o número de acessos, aumentará a procura por jornais que os abastecem e, assim, garante-se a sua sobrevivência.

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A mídia tem conseguido vincular as catástrofes ambientais no Brasil ao processo de mudanças climáticas?

Resultado:

Sim: 17%

Não: 83%

Aqui você pode participar de fóruns sobre assuntos ligados à imprensa, deixar seu recado no nosso mural e ler as perguntas dos telespectadores.

Perguntas - Aqui são colocadas as perguntas dos telespectadores que chegam por telefone, fax ou e-mail durante o programa e ao longo da semana.

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

A COP-15 está nas manchetes, nos telejornais e nas rádios mas as mudanças climáticas estão sendo sentidas hoje pelos 10 milhões de habitantes de São Paulo com o dilúvio das últimas horas e a percepção de que a sobrevivência do planeta depende da solidariedade humana.


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CAIXA DE PANDORA
Panetones na Redação
Washington Araújo

Uma semana é tempo suficiente para fazer muita coisa. Este período de tempo ficou mais famoso com a descrição da criação do mundo em seis dias de trabalho – e quanta coisa se pode fazer! – ficando o sétimo dia para o descanso, que ninguém é de ferro. A descrição da semana mais famosa de que se tem notícia está registrada bem no início da Bíblia no livro de Gênesis, capítulos 1 ao 3, e o autor é ninguém menos que Moisés. Seu relato é sucinto, objetivo e substantivo, nada de grandiloqüência.

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RESUMO DO PROGRAMA

CONFERÊNCIA DO CLIMA EM COPENHAGUE

Em Copenhague, capital da Dinamarca, os principais líderes do mundo decidem as metas para a redução da emissão de gases poluentes na atmosfera para os próximos dez anos. Os chefes de Estado concordam que é preciso rever o modo de produção industrial e mudar práticas sociais para evitar as catastróficas mudanças climáticas previstas por especialistas, mas relutam em estabelecer metas ousadas que possam prejudicar suas economias.

Mas a questão ambiental que atualmente ocupa manchetes de jornais por conta da realização da 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15) logo passará para segundo plano. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo na terça-feira (8/12) pela TV Brasil discutiu o papel da imprensa na mobilização da sociedade para a preservação do meio ambiente. Os meios de comunicação conseguem alertar à população para o fato de que as mudanças climáticas já podem ser sentidas no Brasil – e que cada cidadão pode fazer a sua parte na preservação do planeta?

Para debater este tema, o Observatório recebeu no estúdio do Rio de Janeiro Eduardo Viola, professor titular de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), que trabalha com política ambiental internacional desde o fim da década de 1980. Em São Paulo, participaram dois convidados: Luciano Martins Costa, colunista do jornal Brasil Econômico e apresentador do Observatório no rádio, e Adalberto Marcondes Wodianer, fundador e editor da Envolverde, site especializado em meio ambiente e sustentabilidade. Aldem Bourscheit, repórter do site O Eco, participou pelo estúdio de Brasília. Bourscheit acompanha questões ambientais desde a Rio-92, é pós-graduado em Meio Ambiente, Economia e Sociedade pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso, da Argentina).

Antes do debate ao vivo, na coluna "A Mídia na Semana", Alberto Dines comentou a cobertura da imprensa sobre as denúncias de pagamento de propinas envolvendo o governador do distrito federal, José Roberto Arruda. O jornalista destacou que o escândalo deveria ficar conhecido como "Propinoduto de Brasília" e não como "mensalão do DEM". Na avaliação de Dines, a mídia comportou-se exemplarmente. "Não se serviu de vazamentos exclusivos e ilícitos, todos publicaram tudo no mesmo dia e agora cabe à mídia inteira evitar que o caso caia no esquecimento e os panetones de Arruda se transformem em pizza."

A informação descontextualizada

Ainda antes do debate no estúdio, em editorial, Dines comentou que o Brasil já está sendo afetado pelas mudanças climáticas, como pode ser verificado por efeitos como a seca na região amazônica. "E quem será capaz de costurar estas dezenas de acidentes climáticos? Qual o segmento da sociedade humana treinado para contextualizar e dar sentido aos fragmentos da pauta diária? Chegou a vez da mídia arregaçar as mangas para convocar o mundo a defender-se da catástrofe anunciada", afirmou. Dines chamou a atenção para o fato de que não apenas as políticas públicas podem alterar o panorama do meio ambiente. Todos os cidadãos devem empenhar-se na luta contra o desequilíbrio ambiental.

A equipe da TV Brasil que está em Copenhagem entrevistou Washington Novaes, jornalista especializado na questão ambiental, ao final do primeiro dia do evento. Novaes destacou que ao longo de conferências como esta – que envolvem um grande número de países e onde estão em jogo questões polêmicas – posições diferentes são expostas. Líderes já afirmaram que somente no próximo ano será feito um acordo, enquanto outros garantem que metas serão estabelecidas ao final da COP-15.

O jornalista observou que representantes de ONGs têm dificuldade em assumir posições mais pessimistas e influenciar a opinião pública e governos. "É um jogo difícil, pesado e muito complicado", avaliou. Outro ponto destacado por Novaes é que a mídia não dedica uma cobertura sistemática ao meio ambiente. Dá destaque a grandes catástrofes ambientais, mas não mostra no dia-a-dia a relação entre desabamentos e a ocupação ilegal de encostas de morros, por exemplo.

A mudança climática já assombra o Brasil?

Marilene Ramos, secretária de Gestão do Ambiente do governo do Rio de Janeiro, avaliou que a mídia brasileira tende a mostrar os fatos como se o problema do desequilíbrio ambiental ainda não tivesse atingido o Brasil. Há sinais mais evidentes das conseqüências do aquecimento global, como o derretimento das geleiras, mas o Brasil também já é afetado, na avaliação da secretária. A mídia leva a população a acreditar que "isto é um problema dos países desenvolvidos e não nosso; e, na verdade, nós estamos dentro deste problema". A secretária defende que o Brasil colabore para a diminuição da emissão de gases que contribuam para o efeito estufa, mas que ao mesmo tempo mude práticas ambientais "medievais", como as queimadas e os lixões.

Para Aluízio Maranhão, editor de Opinião do jornal O Globo, a cobertura da questão ambiental é um desafio para a mídia por ser extremamente técnica. Muitos climatologistas acreditam que ainda é cedo, do ponto de vista científico, para estabelecer uma relação direta entre certos eventos que já ocorrem no Brasil – como ciclones, enxurradas e secas – com o aquecimento global. "Nós jornalistas funcionamos em outro timing e temos, sim, que procurar aproximar causas e efeitos", disse.

De Londres, o jornalista Sílio Boccanera afirmou que a mídia na Europa rotineiramente estabelece a ligação entre as catástrofes locais da natureza – como enchentes e secas – e o problema global da mudança do clima. Franceses, suíços e italianos mostram-se preocupados com o degelo nos Alpes e a redução da neve nas suas estações de esqui. "É mais do que uma preocupação meramente ecológica. Perde-se dinheiro com isso", sublinhou. Na Inglaterra, a repetição de enchentes devastadoras nos últimos anos também tem sido ligada à mudança geral do clima.

Na Europa, um panorama bem diferente

Jornais e emissoras de TV na Europa oferecem amplo espaço ao assunto. Boccanera enfatizou que a mídia destaca que não se trata apenas do aquecimento da Terra, o que faz com que a população pense "apenas em mais calor", o que poderia ser visto como positivo em um país frio como a Inglaterra. "A ênfase é na mudança do clima e no desequilíbrio daí resultante, que vem dar em problemas não só lá em cima, na estratosfera, mas na esquina de cada um de nós", explicou.

No debate ao vivo, Dines questionou se há "uma percepção formal de que já estamos à beira do abismo". O professor Eduardo Viola explicou que a percepção das mudanças climáticas está diretamente ligada ao nível de instrução da população. Quanto maior grau de educação do cidadão, mais este observa a gravidade do problema e compreende a necessidade de transformar um sistema de alta intensidade de carbono em um de baixa intensidade. O professor destacou que a questão da distribuição dos custos desta mudança torna a negociação mais intensa. E, embora todos os países estejam adotando políticas de transição, a velocidade das ações concretas é lenta se comparada ao que os especialistas apontam como a necessária.

Para Luciano Martins, a cobertura do meio ambiente é um desafio para os meios de comunicação porque estes não têm o costume de tratar questões de forma sistêmica. Na opinião do jornalista, a mídia tem feito uma cobertura fragmentada e pontual. "Tem fugido da relação óbvia que existe entre a questão ambiental e outras questões como, por exemplo, o modo como a economia está organizada", avaliou. Os jornais passaram a cobrir de forma mais intensa a mudança climática em fevereiro de 2007, quando foi divulgado o relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, na sigla em inglês), mas o enfoque foi catastrófico, emotivo e assustador. Logo depois, o assunto foi abandonado e só retornou aos meios de comunicação já próximo à realização da COP-15.

A internet como aliada

Um aliado para a criação de uma consciência ambiental no cidadão é a internet. Aldem Bourscheit disse que a rede de computadores supre uma lacuna da grande mídia, que cobre o meio ambiente apenas em momentos pontuais, como durante a realização de um grande evento internacional. "Os veículos brasileiros, de forma geral, têm pouca gente cobrindo a área ambiental frente ao tamanho do desafio", avaliou. O repórter comentou que um estudo apontou que na região mais castigada pelas enchentes em Santa Catarina, 85% dos setores afetados estavam em topos de morros, margens de rios e encostas.

"Seria interessante que a grande mídia ligasse estes pontos mostrando que o aquecimento global pode potencializar esses efeitos climáticos, e que a ocupação do território é um fator importante a ser debatido no Brasil", enfatizou. Aldem Bourscheit destacou que percebe na população brasileira uma "angústia" em saber como agir para preservar os recursos naturais e colaborar com as políticas públicas de preservação do meio ambiente. O cidadão também tem interesse em cobrar dos governos o cumprimento de planos apresentados.

Nos grandes jornais, o meio ambiente deixou de ser um tema restrito a uma única editoria. Adalberto Marcondes Wodianer disse que a pauta ambiental ganhou espaços nobres na mídia, como a primeira página. "Saiu da editoria de Geral e de Ciência para ganhar um espaço na Economia porque interessa às empresas." Mas a cobertura ainda não é transversal, na opinião de Wodianer. O ideal seria a pauta ambiental estar presente em todos os aspectos das coberturas.

Outro tema discutido no Observatório foi o conflito de interesses que pode haver nos jornais em relação à publicidade. Dines questionou se a mídia será capaz de levar ao extremo a conscientização da população sem entrar em confronto com os anunciantes de produtos que poluem o ambiente, como carros a diesel, por exemplo. Luciano Martins concordou que este é um ponto de contradição. O jornalista explicou que a grande quantidade de anúncios de carros off road – que não são modelo flex – se deve ao fato de que os jornais estão voltados para o público de classe A e B, onde estão os consumidores deste produto. O setor de construção civil é outro ponto de contradição. Aos domingos, as páginas dos grandes jornais estão repletas de anúncios de lançamentos do setor imobiliário. "Os jornais em nenhum momento questionam o fato de que muitos dos insumos das construções são buscados em fontes das quais não se cobra a questão ambiental", criticou.

Estado ausente

Adalberto Marcondes Wodianer destacou que no Brasil há uma grande necessidade da presença do Estado. Na Amazônia, por exemplo, os serviços básicos do Estado não estão presentes para a maioria da população. "É muito difícil falar em conter o desmatamento na Amazônia em uma região em que você não tem a capacidade de comando e controle do Estado, não tem a capacidade de entrar com políticas públicas eficientes para cumprir metas", afirmou.

Wodianer explicou que um fator que prejudica a cobertura é o alto custo do jornalismo de qualidade. Mesmo jornais de circulação nacional não têm recursos para mandar equipes com frequência para a Amazônia. E na internet o problema é ainda mais grave. Mesmo sem ter o custo industrial do papel, há menos capital porque não há o aporte publicitário disponível para a mídia impressa.


EDITORIAL

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

A COP-15 está nas manchetes, nos telejornais e nas rádios mas as mudanças climáticas estão sendo sentidas hoje pelos 10 milhões de habitantes de São Paulo com o dilúvio das últimas horas e a percepção de que a sobrevivência do planeta depende da solidariedade humana.

Este Observatório da Imprensa vai tratar hoje das ameaças ambientais e foi beneficiado pela generosidade da TV Cultura. Sem ela esta edição estaria seriamente comprometida já que os estúdios da TV Brasil em São Paulo estão inoperantes pela enchente na região da Vila Leopoldina. Temos assim em tempo real, ao vivo, sem qualquer retórica, os dois elementos fundamentais da perigosa equação de nossos dias: desrespeitamos a natureza há séculos e agora não há outra saída senão a da aliança planetária. O preço das bruscas alterações climáticas pode ser mitigado se conseguirmos vencer nossas divergências pessoais, políticas e religiosas.

A catástrofe ambiental não se resume ao derretimento das geleiras e das calotas polares: as inusitadas enchentes no início da primavera no sul do país, a seca na Argentina e na região amazônica não são fatos isolados. São sintomas do mesmo e assustador fenômeno.

E quem será capaz de costurar estas dezenas de acidentes climáticos? Qual o segmento da sociedade humana treinado para contextualizar e dar sentido aos fragmentos da pauta diária?

Chegou a vez da mídia arregaçar as mangas para convocar o mundo a defender-se da catástrofe anunciada. E quando se fala em mídia estamos nos referindo tanto aos mediadores - nós, como aos mediados, você. O cidadão, todos os cidadãos, são decisivos. Ao usar o etanol e não a gasolina, ao evitar o consumo conspícuo, ao poupar água e evitar o desflorestamento, você está desempenhando um papel tão relevante quanto o de um líder mundial. O inimigo não está entre nós, esta é uma guerra onde todos são amigos. Não será difícil ganhá-la.


ARTIGO
Por Alberto Dines

AGENDA PARA A CONFECOM
A mídia se ilude e espera modelos mágicos
Alberto Dines

O barão da mídia anglo-saxônica Rupert Murdoch acredita em contos de fadas: imagina que se os portais de notícias e os mecanismos de busca da internet resolverem cobrar pelo copioso conteúdo que oferecem gratuitamente cairá o número de acessos, aumentará a procura por jornais que os abastecem e, assim, garante-se a sua sobrevivência.

Por outro lado, as telefônicas brasileiras estão esperando mais uma dádiva da divina providência e pressionam governo e legislativo para obter o direito de transmitir a programação da TV por assinatura e rapidamente se transformarem em produtoras de conteúdo. Com isso, poderão oferecer noticiário televisivo por meio de celulares sem depender de concessões, como acontece com o atual sistema de radiodifusão. E como fica a cláusula da isonomia?

Quem garante que o cidadão vai ficar o dia inteiro de olho na telinha do celular para saber o que está acontecendo? E quem gosta da TV para entreter-se – caso da massa de cultores das telenovelas – abrirá mão da telona de alta definição com qualidade de cinema?

Outro grupo de devotos de mágicas, também abrigados sob o manto das operadoras de telefonia, apostam todas as fichas no projeto de grandes jornais virtuais. Fizeram as contas e concluíram que liberados dos custos do papel e da distribuição poderão oferecer na web um produto de alta qualidade jornalística por um quarto do custo de um veículo impresso.

Informação trabalhada

Estas devoções podem se materializar tanto no varejo como no atacado. Mas, por enquanto, são hipóteses, no máximo wishfull thinking. Ninguém garante que o Google transformado em commodity continuará a ser utilizado com a mesma intensidade. Por enquanto é um bônus oferecido gratuitamente pela indústria digital. Seus consumidores estarão dispostos a pagar por aquilo que sempre receberam de graça? E a pirataria vai acabar? A geração de novas tecnologias será de repente estancada? A humanidade está disposta a retroceder e perder o privilégio da informação aberta e universal?

Por outro lado, ninguém garante que os ex-leitores de jornais de repente voltarão a comprá-los para ler as mesmas banalidades e abobrinhas que aparecem na TV aberta. A comparação entre os custos de produção de jornais abertos e seus equivalentes digitais precisa levar em conta que uma equipe produz uma edição impressa por dia, sete dias por semana, enquanto um portal noticioso da internet é contínuo, ininterrupto. Serão necessárias equipes maiores, imensas, não apenas para produzir novas informações, mas para juntá-las e contextualizá-las permanentemente, 24 horas por dia. A não ser que na internet brasileira seja consagrado o atual modelo híbrido no qual o fluxo noticioso é intermitente e limitado, das 8 às 22 horas.

Certo, comprovado e garantido: o cidadão quer informação, e informação de qualidade. Como afirma o veterano Sir Harold Evans em seu recente My Paper Chase, o público primeiro seduz-se com opiniões e truculência, em seguida busca informação trabalhada, investigada, obtida com muita transpiração.

Este mesmo Evans notabilizou-se quando dirigiu o Sunday Times e numa admirável cruzada jornalística enquadrou a indústria farmacêutica britânica, obrigando-a a indenizar as famílias das crianças cujas mães tomaram o medicamento Talidomida durante a gestação.

Bolhas e modismos

Um portal noticioso da internet conseguiria concentrar suas baterias numa cruzada capaz de galvanizar uma sociedade inteira? O propinoduto de Brasília conseguiria causar a mesma repercussão se fosse veiculado apenas na internet ou mesmo na internet+TV aberta?

O jornalismo não foi engendrado nem mantido ao longo de quatro séculos por um "modelo de negócio". Sua gênese está assentada em paradigmas morais e exigências públicas. É um erro ficar à espera de fórmulas messiânicas, salvacionistas, que jamais produzirão qualidade e fidelidade dos consumidores. O que enfraqueceu o jornalismo nas duas últimas décadas foi a sua ligeireza, sua submissão às bolhas, aos modismos e, sobretudo, sua adesão ao oportunismo político.

Eis ai uma agenda para esquentar a 1ª Conferência Nacional de Comunicação. É uma lástima que os empresários não queiram debatê-la.


OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET

CAIXA DE PANDORA
Panetones na Redação
Washington Araújo

Uma semana é tempo suficiente para fazer muita coisa. Este período de tempo ficou mais famoso com a descrição da criação do mundo em seis dias de trabalho – e quanta coisa se pode fazer! – ficando o sétimo dia para o descanso, que ninguém é de ferro. A descrição da semana mais famosa de que se tem notícia está registrada bem no início da Bíblia no livro de Gênesis, capítulos 1 ao 3, e o autor é ninguém menos que Moisés. Seu relato é sucinto, objetivo e substantivo, nada de grandiloqüência.

"1º Dia – Deus fez a luz; 2º Dia – Deus fez o céu; 3º Dia – Deus fez a terra, os mares, as árvores e as plantas; 4º Dia – Deus fez o sol, a lua e as estrelas; 5º Dia – Deus fez os pássaros e peixes; 6º Dia – Deus fez os animais e Adão e fez também Eva, a primeira mulher; e no 7º Dia – Deus descansou!"

Pois bem, voltemos ao que interessa. Se em uma semana tudo foi criado e até descanso foi contemplado, uma semana não foi tempo suficiente para que o principal jornal de Brasília (o mais influente e renomado por sua detalhada cobertura política) conseguisse tratar do caso que, desde seu início, em 28 de novembro de 2009, recebeu ampla cobertura dos grandes jornais brasileiros, no eixo Rio-São Paulo e até mesmo no exterior.

É gritante, salta aos olhos e é, por todos os motivos, desconcertante o jornalismo praticado pelo Correio Braziliense entre os 28/11 e 3/12/2009. Moradores de Brasília ficariam bem informados do que se passava em sua cidade, e também capital de todos os brasileiros, se estivessem lendo O Globo, o Estado de S.Paulo e a Folha de S.Paulo ou se estivessem com os olhos sempre grudados nos telejornais que foram ao ar nesse período. O chamado panetonegate emergiu com a força da imagem em movimento, com dezenas de vídeos, sempre muito bem produzidos, com bom áudio, imagens focadas, ângulos e planos de quem parece entender bem do código audiovisual.

Cara de paisagem

Vamos por partes porque o assunto demanda detalhamento.

No primeiro dia em que o escândalo no Governo do Distrito Federal (GDF) foi noticiado – 28 de novembro –, o Correio Braziliense optou por manchete genérica, dando ares de normalidade ao que tinha tudo para estar fora da curva da normalidade. O título que foi para sua capa: "GDF e Distritais são alvo de investigação". E adiantava no subtítulo o tom da cobertura: "PF e justiça apuram suposto esquema de propinas a parlamentar". Enquanto isso os jornais mais influentes do país trouxeram em suas capas:

** O Globo: "Governador do DEM é suspeito de pagar propina a deputados". E diz que "PF grava José Roberto Arruda negociando repasse de dinheiro com assessor".

Folha de S.Paulo: "Governo do DF é acusado de corrupção"

O Estado de S.Paulo: "Polícia flagra `mensalão do DEM´ no governo do DF". E diz que o esquema "teria até mesmo participação do governador Arruda".

Logo no primeiro dia, o nome do governador do Distrito Federal estava nas manchetes. Menos no Correio Braziliense. E estava nas capas por uma razão muito simples: temos diante de nossos olhos e ouvidos o escândalo de corrupção mais detalhado e filmado da história política brasileira.

No dia 29/11, o Globo teve como manchete principal "PF: Arruda distribuía R$ 600 mil todo mês"; a Folha de S.Paulo optou por "Documento liga vice-governador do DF a esquema de corrupção" e o Estado de S.Paulo não deixou por menos: "Em vídeo, Arruda recebe R$ 50 mil". Novamente, o Correio fez cara de paisagem: "OAB-DF pede explicações sobre denúncias".

Mais espaço na imprensa nacional

Em 30/11, O Globo abriu sua edição com a manchete "Arruda: TSE vê indício de caixa 2"; a Folha de S.Paulo destacou na capa: "Vídeos mostram aliados de Arruda recebendo dinheiro" e o Estado de S. Paulo abriu manchete com "Vídeos `letais´ levam DEM a preparar expulsão de Arruda", destacando em subtítulo que "Provas contundentes da PF deixam governador em situação insustentável". Até o fluminense Jornal do Brasil passou a tratar do assunto com a importância que o assunto requeria: "Aliados deixam Arruda isolado". O Correio uma vez mais evitou citar o nominalmente o governador José Roberto Arruda e preferiu socializar ao máximo o escândalo. Sua manchete: "Novos vídeos expõem base aliada do GDF". Vale conferir o que o Correio achou por bem destacar:

"Gravações feitas pelo ex-secretário de Relações Institucionais do Governo do Distrito Federal Durval Barbosa, entregues à Polícia Federal, mostram deputados distritais da base aliada, integrantes e assessores do GDF recebendo dinheiro do próprio Durval, que denunciou um suposto esquema de corrupção no governo local. Em um dos vídeos, o atual presidente da Câmara Legislativa, Leonardo Prudente, aparece colocando maços de notas nos bolsos do paletó e nas meias. Diante das acusações, a cúpula nacional do partido Democratas se reúne com o governador José Roberto Arruda – que também apareceu em uma gravação – e espera que ele dê explicações públicas ainda hoje. Em Brasília, o PDT e o PSB anunciaram que não querem mais vínculo com o GDF. A direção dos dois partidos já decidiu que vai entregar os cargos que ocupam na atual administração." (Págs. 1 e 19 a 21)

No mês de dezembro, esse mês que parece uma sexta-feira alargada por 30 dias, o escândalo de corrupção recebeu maior espaço da imprensa nacional. Vejamos as manchetes do 1º de dezembro de 2009:

** O Globo – "Em vídeo, empresário reclama da alta propina cobrada pelo governo Arruda"

** Folha de S.Paulo – "Ex-secretário liga tucano a mensalão"

** O Estado de S. Paulo – "Governador do DF ameaça e DEM adia expulsão"

** Jornal do Brasil – "Arruda tentou barrar operação - Governador pediu, em vão, ajuda ao STJ e a Aécio Neves"

Manchete risível

O Correio Braziliense parece divorciado da sempre aguardada objetividade e sua opção de manchete aposta na diluição das responsabilidades criminais: "Democratas divididos. Arruda se defende. Quebra de decoro na Câmara". Em 2 de dezembro, temos as seguintes manchetes:

** O Globo – "Imagem de políticos recebendo propina `não fala por si´, diz Lula"

** Folha de S.Paulo – "Fita expõe ação de Arruda no mensalão"

** O Estado de S. Paulo – "DEM marca expulsão de Arruda para o dia 10"

Para os leitores do Correio Braziliense, o viés é outro. Chega a ser paroquial para dizer o mínimo. Temos este primor de manchete: "Arruda: Roriz quer ganhar no tapetão". Leva às suas páginas entrevista exclusiva com o governador Arruda. O tom é de defesa e desvio de foco sempre presente. Aqui a abertura da reportagem:

"Em entrevista exclusiva ao Correio, o governador José Roberto Arruda afirma que as acusações de um suposto esquema de propinas no Distrito Federal são uma tentativa do grupo ligado a Roriz de inviabilizar sua candidatura nas eleições de 2010. `Quero ter a chance de, num processo eleitoral aberto, sem tapetão, sem uso de ardis como esse, poder enfrentar o debate, poder dizer às pessoas o que o meu governo fez e o mal que Roriz fez a Brasília´, diz. Segundo Arruda, as revelações de Durval Barbosa fazem parte da estratégia do ex-governador. `O Roriz sabe que para ele voltar ele precisa me tirar de campo´, comenta. Arruda se considera `aliviado´ com a saída do ex-secretário e faz uma analogia com o trânsito ao analisar a crise. `Sofri um grave acidente de carro, mas não morri. Estou mais vivo do que nunca´" (pág.1).

Fica patente a falta de simetria entre a cobertura dos jornais paulistas e cariocas e o principal jornal do Distrito Federal. Os "de fora" parecem estar em posto de observação (e análise) privilegiado. Suas matérias não titubeiam, ficam de pé por si sós. Os jornais impressos querem estar à altura do conteúdo apresentado nos telejornais e nas emissoras de rádio. Menos o Correio. É o que iremos constatar após escrutinar as manchetes de capa dos 6º e 7º dias do escândalo.

3 de dezembro de 2009:

** O Globo – "Grupo que negociava propina chamava Arruda de `big boss´"

** Folha de S.Paulo – "Para mensalão do DEM, PT propõe impeachment"

** O Estado de S. Paulo – "Arruda licitou panetones no dia da operação da PF - Compra foi o argumento do governador para justificar recebimento de R$ 50 mil"

Chega a ser risível a manchete escolhida pelo Correio Braziliense: "Durval acusado de desviar R$ 432 mi".

Demonstração de desconforto

Finalmente, no sétimo dia, os jornais "de fora" decidiram não descansar. Quem tirou o dia para repouso foi o Correio Braziliense. Vamos às manchetes do dia 4 de dezembro de 2009:

** O Globo – "Processo contra Arruda para na Câmara do DF"

** Folha de S.Paulo – "PF apura se pacote com dinheiro era para Arruda"

** O Estado de S. Paulo – "Planilha detalha doações para caixa 2 de Arruda"

O Correio Braziliense, embora estivesse (presumo) acompanhando a cobertura de O Globo, o Estadão e a Folha para o escândalo das imagens em movimento, deve ter observado que no sétimo dia todas as manchetes incluíam o nome "Arruda". O Correio, numa espécie de infame trocadilho... foi imprudente ao escolher sua manchete: "Como Prudente fez o pé-de-meia".

Existem situações em que manchetes de jornais, ao serem cotejadas em determinado período de tempo, oferecem uma visão clara sobre os compromissos deste ou daquele veículo de comunicação. As leituras das manchetes denunciam também o grau de independência e profissionalismo dos veículos. E revelam, acima de tudo, os diversos níveis de compromissos.

Alguns escancaram desde suas capas a vitalidade de seus compromissos com a missão de bem informar o leitor. Enquanto outros demonstram seu desconforto ao ver, no centro de sua Redação, no lugar da tradicional árvore natalina, um prosaico panetone.


PERGUNTAS

Chat:

Acesse a íntegra do nosso chat em: http://www.tvbrasil.org.br/interatividade/091208-observatorio-cop15.asp


E-mails:

Maria Helena
Há poucos dias tomamos conhecimento da estupenda invenção do carro movido a ar, que poderia ser abastecido com ar comprimido e liberando um ar ainda mais limpo. Um brinde à natureza. Ora, isto acarretaria um grande impacto à economia dos grandes produtores de combustíveis emissores de CO2. Como resolver este impasse?

Rogério Fernandes, Dourados / MS
Para pensarmos o meio ambiente não seria necessário nós repensarmos nossa própria forma de consumo? Ou seja, a mídia bombardeia as pessoas e as impulsiona para o consumo e acaba por entrar em contradição com as questões ambientais.


Telefonemas:

Ubiraci Leal, Rio de Janeiro
Como conciliar a sustentabilidade sem dano à nossa sociedade?

José Bonfim, Sergipe
Como aumentar a verba governamental para cuidar do meio ambiente?

William Douglas, Natal / RN
O que se pode esperar dessa convergência das mídias em defesa do meio ambiente?

Denivaldo Silva, São Luís / MA
Como evitar as invasões de áreas preservadas?

Antônio Ramos, Niterói / RJ
O Brasil é um grande produtor de petróleo que contribui para o aquecimento global. Como amenizar isso?

José Carlos, São Paulo
Qual ação prática a favor do meio ambiente cada um dos participantes do programa realiza?

Sueli Batista, Brasília / DF
O governo e a mídia escondem da população os verdadeiros impactos negativos do meio ambiente no Brasil?

Afonso Dias, São Gonçalo / RJ
Em meio às discussões ambientais, como explicar o desmatamento em nome do progresso?

Ronaldo Leite, João Pessoa / PB
Por que o governo brasileiro investe tanto na utilização do petróleo ao invés de optar pelo óleo diesel?

Fabiano Miranda, Juiz de Fora / MG
Utilizar a energia nuclear para reduzir os impactos ambientais seria viável?

Maria Helena Winters, Rio de Janeiro
Como resolver esse impasse entre a questão econômica e ambiental?



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