RESUMO DO PROGRAMA
REFUGIADOS NO PAÍS DO FUTURO
A ascensão do regime nazista na
Alemanha, em 1933, mudou a face da Europa. Progressivamente, os não
arianos, sobretudo os judeus, passaram a ser perseguidos e exterminados.
Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, em setembro de 1939, o drama
estendeu-se para os territórios ocupados pela Alemanha de Adolf Hitler.
O visto de entrada para um país neutro ou aliado era a chance para uma
nova vida longe dos campos de concentração.
Neste cenário, o Brasil converteu-se no
sonho de milhares de imigrantes que buscavam deixar a Europa. Entre 1933 e
1945, cerca de 20 mil foram autorizados a entrar no Brasil. Mas quantos
foram excluídos? E que interesses pautavam os critérios de escolha do
governo brasileiro?
O Observatório da Imprensa
exibido na terça-feira (1/12) pela TV Brasil exibiu o quarto e último
episódio – intitulado "Os refugiados no país do futuro" – da série
especial sobre os setenta anos do início da Segunda Guerra Mundial. Para
contar esta história, Alberto Dines entrevistou exilados que vieram para
o Brasil e historiadores.
No editorial que abriu o programa,
Dines falou sobre o drama do mais célebre refugiado europeu que buscou
abrigo no Brasil durante a Guerra: o escritor austríaco Stefan Zweig.
Autor consagrado, após passar um período na Inglaterra Zweig
transferiu-se para o Brasil em busca de um lugar onde estivesse a salvo
das atrocidades cometidas por Hitler. "Stefan Zweig foi caluniado e
desprezado pela imprensa da capital quando lançou em seis idiomas, em
plena Guerra, a sua utopia Brasil, um país do futuro", afirmou
Dines. Amedrontado pela expansão do
nazismo, seis meses após o lançamento do livro o escritor cometeu
suicídio.
Em seguida ao editorial, Dines explicou
que a ascensão de Hitler ao poder transformou a Europa no "continente da
intolerância e do ódio racial". Suzane Behrend, que se transferiu com a
família para Rolândia (PR), ainda na década de 1930, relembrou quando
sentiu o "terror nazista" pela primeira vez.
"Foi com 12 anos, na aula de Biologia.
Quando o professor me chamou e falou perante a classe que 'essa raça tem
que sumir da face da terra'. Na vida cotidiana, as pedras voavam atrás
da gente. E quando a gente entrava no bonde, não podia entrar na frente.
'Judeu entra atrás'. 'Judeu não senta no banco'. 'Judeu não pode sentar
com ariano, porque é raça inferior'. A gente sente isso, e como sente",
recordou. Eva Sopher, diretora do Teatro São Pedro, de Porto Alegre
(RS), também chegou ao Brasil com a família no mesmo período. "A gente
ia buscar o pão, aí dizia-se: 'Juden sind hier Unerwünscht', que quer
dizer 'não somos desejáveis'", disse.
Outra família que deixou a Europa nos
anos 1930 foi a de Clara Ant, hoje assessora especial do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva. Por conta das sanções impostas aos judeus, seus
pais mudaram-se para a Bolívia. "Meu pai tinha um primo
que sobreviveu da seguinte maneira: os alemães chegaram e
enfileiraram todos os judeus. Estavam caminhando ali, como todo mundo já
viu em filme. E, aí, o dono da padaria, que gostava muito daquela
família, viu aquele menino indo, e falou assim para o alemão: 'Soldado,
deixa esse judeuzinho para mim, deixa que eu cuido dele', como quem diz,
'deixa eu matá-lo'. Deixaram, e foi assim que ele sobreviveu quase cinco
anos no porão da padaria", disse.
Sem saída
Na Áustria anexada por Hitler, o terror
também foi logo implantado. Paul Singer, secretário nacional de Economia
Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego, contou a Dines
como percebeu que o fato de ser judeu o diferenciava das outras
crianças. "As crianças receberam bandeirinhas com a Cruz de Granada,
para saudar as tropas de Hitler. E eu estava, obviamente, como meus
amiguinhos, louquinho para ver as tropas com a bandeirinha. E fui falar
com minha mãe que eu ia fazer isso e ela falou: 'Não, você não pode ir'.
Eu falei: 'Mas por que eu não? Todas as crianças estão indo'. E ela
falou: 'Ah, porque você é judeu'. Então eu descobri que eu era alguma
coisa diferente das outras crianças", lembrou.
Dines explicou que as leis raciais de
1936 impunham que fossem carimbados com um "J" vermelho os passaportes
das famílias de origem judaica. "No passaporte dos homens era
acrescentado o nome Israel. No das mulheres, Sara. Estavam impedidos de
sair da Alemanha e tachados para sempre como indesejáveis", disse. Outra
marca imposta pelo regime nazista era o número tatuado no braço dos
prisioneiros dos campos de concentração.
"Tem até um senhor que veio junto com a
gente para o Brasil, são duas famílias que saíram juntas da Bolívia, ele
ainda está vivo e é o melhor amigo do meu pai. E aquele número nos
afligia muito, às crianças. A gente perguntava o que era e eles não
queriam contar. Então, brincavam, falavam que era número de telefone.
Aí, a gente, muito curiosa, ia conferir. 'Não, mas não é o seu número de
telefone'", contou Clara Ant. O horror pelo qual aquele senhor havia
passado só foi revelado para as crianças tempos depois.
Regina Weinberg, fundadora da Fundação
Vitae, considera que o primeiro "milagre" que contribuiu para que sua
família não fosse exterminada ocorreu em uma pequena cidade da
Iugoslávia, ocupada por alemães. "Um dia, fomos todos avisados de que no
fim da tarde, com uma pequena malinha, teríamos que esperar porque iriam
nos buscar para nos transportar para um outro lugar. Ninguém sabia,
naquela ocasião, o que significavam os transportes. Nós estávamos
prontos, cada um com uma malinha, esperando na janela. Nós vimos uns
judeus vizinhos subindo no caminhão, mas não vieram nos buscar",
recordou. Até hoje, ela não sabe se o caminhão estava lotado ou se os
policiais esqueceram de sua família.
O programa mostrou que a maioria das
famílias perseguidas não conseguiu escapar. "Levando em consideração a
dimensão numérica das pessoas que tentavam fugir, a grande verdade é que
a maioria das pessoas não conseguiu. Não tinham nem referencial, não
tinham passaporte, não sabiam idiomas e pereceram no Holocausto",
explicou o historiador Fábio Koifman, autor de O Quixote nas trevas.
Paul Singer lembrou que, à época, não havia uma saída legal para os
judeus. "Meus avós, pais do meu pai, ficaram lá e desapareceram. Vários
tios, primos desse lado da minha família, não puderam sair de lá",
disse.
Negócio lucrativo
Multidões faziam filas nas portas dos
consulados e embaixadas. Diz Regina Weinberg: "Meu pai começou com as
tentativas de nos trazer para o Brasil. E
ele conseguiu nos mandar um passaporte haitiano, obviamente falso, com o
visto para o Paraguai. O cônsul pegou o passaporte e disse: 'Eu tenho
que apreender esse passaporte, é falso'. Mamãe, a única coisa que ela
sabia fazer naquele momento era chorar. Ela disse 'Olha, eu estou
sozinha aqui com três crianças no meio da Guerra e vou ficar sem
documentos'. O cônsul levantou, pôs o passaporte na mesa e disse: 'Eu
vou sair um momento, a senhora faça o que quiser, nunca a vi'". Regina
contou que sua mãe pegou os passaportes e saiu da sala rapidamente.
No Brasil, trancas pesadas dificultavam
a entrada de refugiados. "Existia, já vindo da década de 1920, uma
adaptação das idéias eugênicas muito em voga na Europa – e nos Estados
Unidos – de que o desenvolvimento dos países estava relacionado com a
formação étnica dos povos. Então, a imigração seletiva poderia ajudar
melhorando a qualidade, o banco genético da população", explicou Fábio
Koifman. "A restrição de um modo geral a estrangeiros se iniciou a
partir de 1934, foi tema debatido na Constituinte que começou em 1933. A
partir dessa época, começou a se estabelecer cotas para certas
nacionalidades entrarem no Brasil. Em 1937, houve uma circular
determinada pelo governo Vargas para que, especificamente, não se
concedessem determinado tipos de visto para os judeus".
Dines ressaltou que no período crítico
da Guerra, entre 1938 e 1941, entraram no Brasil apenas nove mil
refugiados. "Por conta desta irrisória cifra, houve quem tentasse
responsabilizar o ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha. Na
verdade, a partir de 1938, a questão
imigratória foi transferida para a alçada do Ministério da Justiça e
entregue ao fascista Francisco Campos e seus asseclas", sublinhou.
As autoridades começaram a aprimorar a
burocracia para impedir a vinda de imigrantes que não se encaixavam no
padrão almejado pelo governo brasileiro. Fábio Koifman disse que em 1938
foi emitida uma lei – o decreto 3.010 – que era um "manual completo" de
como proceder para concessão de vistos. Além de toda a documentação que
anteriormente já era exigida, para obter um visto passou a ser
necessário um "nada consta" das autoridades policiais locais, e um
atestado médico. O cônsul tinha que examinar a pessoa para verificar a
cor da pele e os traços físicos. A cada dia ficava mais difícil aos
imigrantes comuns obter um visto. Mas as dificuldades não chegavam a
afetar diretamente os mais abastados ou famosos, desde que não fossem
portadores de "idéias dissolventes".
A atitude de outros países do
continente em relação aos refugiados foi examinada por Dines. "Pequenos
países das Américas foram mais generosos ou mais espertos: o Uruguai
recebeu quase onze mil refugiados, o mesmo que a pequena Cuba de
Fulgêncio Batista. A Bolívia recebeu no período crítico, de 1938 a 1941,
vinte mil refugiados contra os nove mil entrados no Brasil. Haiti e
República Dominicana fizeram negócios duplamente lucrativos: primeiro
facilitavam a entrada de judeus e, em seguida, a sua saída para os
Estados Unidos", disse.
Conservadorismo americano
No segundo bloco do Observatório,
Dines explicou que em 1940, quando Paris foi ocupada pelos nazistas, o governo francês se transferiu para Vichy, e nesta cidade passou a funcionar "a base de operações do
Schindler brasileiro", o embaixador Souza Dantas. Fábio Koifman disse
que o embaixador concedia vistos de próprio punho. "Eram todos vistos
diplomáticos. Como a concessão do visto obedecia um rigor extremo que
nenhum refugiado tinha condição de obter, ele deu vistos que constavam
só o carimbo da embaixada, a assinatura dele e os dizeres em francês:
'Válido para o Brasil'", disse.
Um embaixador, normalmente, não concede
vistos. Koifman explicou que ao saber que
estava sendo processado, Souza Dantas argumentou que, na ausência de
serviço consular, também assumiu essa função. "Na verdade, ele assumiu
essa tarefa porque se viu diante do drama daquelas pessoas e achou
necessário intervir. Então ele foi concedendo vistos em diversos locais,
como restaurantes, e deu vistos para cerca de mil pessoas", disse. Para
o historiador, o diferencial de Souza Dantas é que as pessoas para as
quais o embaixador concedia os vistos eram, em geral, "pessoas comuns" e
não apenas refugiados de maior expressão política ou intelectual.
Murillo Mello Martins, cônsul-geral em
Marselha, atuou em sintonia com o embaixador Souza Dantas. "A minha mãe
pegou nossos vistos, pegou um trem noturno para Marselha e no outro dia
foi lá no consulado. Não tinha ninguém, o cônsul perguntou o que ela
queria, e ela disse: 'Eu quero um visto para mim, meu marido, meus dois
filhos, para o Brasil'. E o homem sem falar nada, pegou aquela
borrachinha e os passaportes e carimbou: 'Visto válido por 90 dias, sem
licença de trabalhar'. Naquela época, um simples carimbo de borracha era
a diferença entre a morte e a vida", lembrou Klaus Oliven, filho de
Fritz Olven.
Outro diplomata que se recusou a
obedecer aos rígidos padrões para emigração durante a Guerra foi
Aristides Souza Mendes, o cônsul português em Bornéus. Dines destacou
que Lisboa era o único porto neutro do Atlântico, mas o ditador
português Oliveira Salazar, fascista, controlava pessoalmente o
Ministério do Exterior e agia em estreita colaboração com a Gestapo, a
polícia secreta alemã.
A jornalista portuguesa Diana Andringa
destacou que o cônsul era um conservador, mas confrontado com o dilema
de obedecer ao governo e negar o visto para os que batiam à sua porta,
escolheu salvar vidas. Demitido sumariamente do serviço público, passou
fome com os 13 filhos. "Souza Mendes nunca se queixou, pelo contrário.
Disse sempre: 'Se tantos judeus puderam sofrer por causa de um católico,
referindo-se a Hitler, também eu que sou católico posso sofrer para
salvar milhares de judeus'", anotou Diana Andringa.
Outra amostra de como a diplomacia
podia empenhar-se na salvação de vidas foi a atitude do diplomata
polonês Jan Karsky. Depois de ver o que se passava no Gueto de Varsóvia,
ajudado por grupos da resistência buscou ajuda em Londres e Washington.
"Apelou para que se iniciasse o bombardeio dos campos de extermínio, de
forma a interromper o genocídio em curso. O presidente Roosevelt o
recebeu e ele até conseguiu contornar algumas restrições à entrada de
refugiados, mas o conservadorismo americano já era muito forte",
comentou Dines.
"Bico calado"
O católico antinazista Hermann Görgen é
um dos "heróis" que permanecem desconhecidos. Ele e sua companheira
Dorli Schindel, que atualmente vive na Alemanha, organizaram a fuga para
o Brasil de 45 refugiados. "Em Genebra, nós trabalhamos intensamente com
o Comitê de Refugiados Intelectuais e lá nós encontramos os refugiados
que foram acolhidos pela Caritas, pela comunidade judaica, pelos
políticos e pelos evangélicos. E foi esse comitê que organizou e buscou
um lugar para que essas pessoas pudessem emigrar. Foi graças ao delegado
brasileiro na Liga das Nações, na Suíça, o senhor Weguelin Vieira, que
nós conseguimos obter os vistos. A ele nós devemos a vida dessas 45
pessoas e das 3 crianças", contou Dorli Schindel.
"O Brasil nessa altura não aceitava
mais nenhum judeu; todos nós precisávamos mostrar a certidão de batismo
e comprovar que éramos todos católicos. E essa pobre gente não podia
fazer isso. Então, os padres da comunidade católica suíça emitiram para
nós as certidões de batismo comprovando que éramos batizados e
católicos. Com essas certidões, a gente pôde receber os vistos de
trânsito para passar pela Espanha", relembrou.
No Brasil, uma pequena cidade no
Paraná, fundada no início da década de 1930, abrigou tanto nazistas como
refugiados do nazismo. O professor Marco Antônio Neves Soares, da
Universidade de Londrina, explicou que uma companhia colonizadora alemã
comprou uma grande porção de terras e ali fundou a Gleba Colônia Roland
– que deu origem à cidade de Rolândia. A partir de 1933, com a vitória
eleitoral do Partido Nacional Socialista e a ascensão de Hitler ao
poder, começam a emigrar para Rolândia judeus ameaçados ou perseguidos
na Alemanha. Mas, a partir da Noite dos Cristais, em 1938, as viagens para fora
da Alemanha passam a ser extremamente difíceis. Os novos moradores de Rolândia viram-se impossibilitados
de trazer seus bens e valores. Sem
dinheiro, ficou difícil o acesso à terra. Um dos funcionários da
companhia colonizadora não disfarçava a simpatia pelo regime nazista.
Suzane Behrend contou que a viagem da
Alemanha para o Brasil foi "terrível". Seu pai, que estivera preso em um
campo de concentração, obteve a difícil autorização para migrar para
Rolândia. O regime nazista queria deixar claro que não se limitava aos
territórios ocupados. "Nós tínhamos que viajar no navio alemão porque
tinha que pagar em marcos. Logo na entrada, a polícia falou: 'Fica de
bico calado. Nós alcançamos vocês em qualquer canto do mundo'", contou.
Em Rolândia, apesar da proximidade, nazistas e refugiados evitavam a
convivência.
Campanha implacável
No terceiro bloco do programa, Dines
explicou que Stefan Zweig começou a se interessar pela América do Sul
ainda nos anos 1920. "Só conseguiu conhecer o Brasil em 1936, e foi
recebido triunfalmente. Era o escritor mais traduzido do mundo, herdeiro
do humanismo europeu que naquele momento desmoronava: não acreditava no
materialismo americano, nem no comunismo soviético. A América Latina era
a solução e dentro dela só o Brasil reunia as condições para ser
considerado um país do futuro: imenso, rico e, sobretudo, pacífico",
explicou.
O Observatório foi até a casa
onde Zweig morou em Petrópolis (RJ), onde Dines explicou que em 1933,
quando Hitler tomou o poder, o escritor percebeu que não podia continuar
morando naquele continente "varrido pelo ódio e pela xenofobia".
Mudou-se para a Inglaterra, e em 1940, quando Hitler tomou a França,
imaginou que o nazismo logo tomaria a Inglaterra. "Resolve fugir. Para
onde? Lembra-se que o Brasil o recebeu tão bem, e volta ao Brasil. E
resolve escrever o livro que prometera escrever antes".
Zweig regressa certo de que Brasil,
um país do futuro iria agradar. "De fato, agradou aos leitores, que
ficaram muito orgulhosos. Mas alguns jornalistas, sobretudo no
Correio da Manhã, resolveram massacrá-lo – e o fizeram sem piedade.
Ele ficou muito magoado, muito frustrado, deixou o Rio de Janeiro e
resolveu se instalar em Petrópolis, muito tranqüilo. Escolheu
a Rua Gonçalves Dias, o autor da Canção do Exílio", apontou Dines.
O jornalista explicou que a implacável
campanha do Correio da Manhã inspirava-se nos boatos de que Zweig
fora "comprado" pelo governo para escrever o livro. "Foi comprado, sim,
pelo visto permanente de residência no paraíso que acabara de inventar",
disse.
EDITORIAL
Bem-vindos
ao Observatório da Imprensa.
Um refugiado austríaco enxotado pela
barbárie europeia enxergou naquele sossegado país de apenas 50 milhões de
habitantes a potência internacional das próximas décadas. Stefan Zweig foi
caluniado e desprezado quando lançou em seis idiomas, em plena guerra, a
sua utopia "Brasil, um país do futuro". Não foi a mágoa pelas duras
críticas que o levou ao suicídio, seis meses depois. As dores do pacifista
e humanista não eram pessoais, eram as dores de um mundo a beira do
abismo.
A quimera brasileira de Stefan Zweig previa
logo nas primeiras páginas um país aberto aos milhões de refugiados que
buscavam um santuário do outro lado do Atlântico. Esta abertura não
aconteceu. Entre 33 e 45 o Brasil recebeu 23 mil refugiados, menos do que
a Argentina, que recebeu cerca de 35 mil. Os Estados Unidos receberam 100
mil.
A história da Segunda Guerra Mundial não
pode ser relatada sem o trágico desfecho para seis milhões de vidas
desaparecidas na macabra "solução final". Este desfecho só pode ser
entendido e assimilado quando se desvenda a insensibilidade internacional
diante da catástrofe anunciada há anos nos discursos de Hitler e Goebbels.
O carimbo num passaporte deixou a esfera da
burocracia para se transformar numa questão de vida ou morte, mas o mundo
tapou os ouvidos ao clamor dos desesperados sob os mais mesquinhos
interesses nacionais. Ninguém prestou atenção naqueles cujo único
interesse era sobreviver. Além da crueldade dos carrascos e da bravura dos
soldados, é preciso lembrar dos estadistas que empenhados na luta contra o
mal absoluto esqueceram-se das vítimas.
Quantos dos seis milhões de mortos poderiam
ter sido salvos? Esta é uma conta que, até hoje, ninguém ousou fazer.
ARTIGO
Por Alberto Dines
COMPROMISSOS
ESQUECIDOS
A imprensa aloprou
Alberto Dines
A Folha de S.Paulo consegue se
superar a cada nova edição. Mais surpreendente do que a publicação do
abjeto texto de Cesar Benjamin (sexta, 27/11), sobre o comportamento
sexual do líder metalúrgico Lula da Silva quando esteve preso em 1979,
foi a completa evaporação do assunto a partir do domingo (29), exceto na
seção de cartas dos leitores.
Num dia o jornal chafurda na lama, dois
dias depois se apresenta perante os leitores de roupa limpa e cara
lavada, como se nada tivesse acontecido. E pronto para outra.
Não vai pedir desculpas? Não pretende
submeter-se ao escrutínio da sociedade? Não se anima a fazer um debate
em seu auditório e depois publicá-lo como faz habitualmente? E onde se
meteram os procedimentos auto-reguladores que as empresas de mídia
prometem há tanto tempo quando se apresentam como arautos da ética? Não
seria esta uma oportunidade para ensaiar algo como a britânica Press
Complaints Comission (Comissão de Queixas contra a Imprensa)?
E por que se cala a Associação Nacional
de Jornais? Este não é um episódio que põe em risco a credibilidade da
instituição jornalística brasileira? Um vexame destas proporções não
poderia servir de pretexto para retaliações futuras? Ficou claro que
depois do protesto inicial ("Isto é uma loucura!"), o presidente Lula
encerrará magnanimamente o episódio. A Folha, em compensação,
enfiará o rabo entre as pernas.
Ninguém estrila
É bom não perder de vista o fato de que
esta lambança de um jornal isolado será fatalmente estendida à mídia
como instituição. E logo alimentará as inevitáveis desavenças da próxima
campanha eleitoral. Isto não interessa aos que desejam preservar o resto
de republicanismo desta imensa republiqueta nem àqueles que levam o
jornalismo a sério e não querem vê-lo desacreditado, como acontece na
Venezuela.
A verdade é que a imprensa brasileira
aloprou, levou a sério sua proximidade com o show-business; a
obsessão pelo espetáculo e pela "leveza" levou-a para o âmbito da
ligeireza, vizinha da irresponsabilidade.
Por outro lado, o controle centralizado
das redações associado ao terror de iminentes demissões em massa
desestimula qualquer cautela e a mínima prudência. Ninguém estrila ou
esperneia. Os jornalistas brasileiros, apesar de tão jovens, andam
encurvados – de tanto dar de ombros e não importar-se.
Ano penoso
Há exceções, tênues, percebidas apenas
pelos especialistas, porque nossa mídia – ao contrário do que acontece
nos EUA e Europa – faz questão de apresentar-se indiferenciada,
uniformizada, monolítica, sem nuances.
Este 2009 foi um ano penoso para a
Folha, o jornal talvez prefira esquecê-lo. Mas seus parceiros de
corporação deveriam refletir sobre o perigo de atrelar uma indústria ou
instituição aos faniquitos juvenis de quem ainda não conseguiu assimilar
os compromissos públicos de uma empresa privada de comunicação.
***
Em tempo:
O recuo da Folha na edição de terça-feira (1/12) é ainda mais
vergonhoso do que a denúncia da sexta-feira anterior. Colocar na boca do
pivô do episódio que "o artigo de Benjamim é um horror" é uma manobra
capciosa, covarde, para responsabilizar um articulista delirante e
inocentar diretores irresponsáveis. A Nota da Redação, na seção de
cartas, está atrasada quatro dias: pode satisfazer as dezenas de
missivistas que se manifestaram, mas despreza os milhares que,
horrorizados, leram o resto do jornal.
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET
A OPINIÃO E A RAZÃO
Os cruzados da liberdade de imprensa
Washington Araújo
No Brasil podemos falar, expressar,
publicar opinião sobre quase tudo. Podemos, por exemplo, fazer
propaganda de papel higiênico – como aquela da DPZ para a empresa que
fabrica o de marca Neve – usando e abusando da imagem e da voz do
presidente da República de sua ministra-chefe da Casa Civil.
Podemos publicar artigo de página
inteira em um dos maiores jornais do Brasil, que chega a vender a média
diária de 26 mil exemplares em bancas de jornal existentes no percurso
que liga o Oiapoque ao Chuí (estamos falando da Folha de S.Paulo),
de autor relatando no generoso espaço reminiscências sobre os tempos da
última ditadura no Brasil e, ilustrado com fotograma do filme Lula, o
filho do Brasil, para ao fim execrar o comportamento do presidente
brasileiro. Isso pode.
No Brasil podemos também ser mais bem
informados sobre o desenvolvimento do país por meio da repercussão que
aqui temos de matérias sobre o país publicadas em veículos como
Newsweek, The Economist, Der Spiegel, Le Monde,
The New York Times, El País.
A propósito do filme citado, qualquer
coisa pode ser publicado. Espaço maior será sempre concedido àqueles que
torçam o nariz para o filme e àqueles que ameaçam formar o bloco,
pequeno é verdade, dos "que não viram e não gostaram". É permitido
esmiuçar a lista das empresas que bancaram o filme: serão espinafradas
se forem estatais ou de economia mista e serão espinafradas igualmente
se as empresas forem da chamada iniciativa privada, pois certamente
estas deverão manter contratos comerciais e financeiros com o governo.
Ou seja, o veredicto uma vez proferido não comporta qualquer outra
opção. Espinafre-se, então.
Crime inominável
Podemos fazer conferências nacionais
para tratar de muitos assuntos. Dentre estes o debate pode correr solto
se abordar saúde pública, meio ambiente, uso dos recursos naturais,
políticas públicas para populações vulneráveis. Isso também pode.
É-nos concedida permissão para ser
contra ou a favor das chamadas ações afirmativas, aquelas que pretendem
diminuir o fosso a separar os brancos dos negros e dos índios, os muito
ricos dos muito pobres. Podemos ter capa de revista imageticamente
demonizando "líder do movimento dos sem terra" e minuciosos infográficos
dando conta das horas em que 18 estados brasileiros estiveram sem
energia elétrica. Isso pode? Claro, pode também.
Então, o que não pode? Ah, isso é
complicado. Qualquer coisa que pretenda chamar a mídia aos carretéis,
por mais sutil ou superficial que seja... isso, definitivamente, não
pode. Conferência Nacional de Comunicação pode? Claro que não. Minto.
Até pode, mas desde que seja bem esvaziada, ou seja, não estarão
presentes, por ato de voluntarismo, as principais entidades de classe de
jornais, revistas e empresas de comunicação, representantes de emissoras
de televisão e de rádio.
É que no Brasil atual qualquer debate,
por mais incipiente que seja, que busque chamar os meios de comunicação
– em especial os eletrônicos – à responsabilidade, já que desfrutam de
um concessão do poder público, é logo rotulada e atacada como sendo
crime de lesa-pátria, crime de lesa-humanidade. E as palavras escandidas
não são outras que a pretensa defesa da liberdade de imprensa. Afinal,
será que existem realmente defensores da liberdade de imprensa no
Brasil? Não seria a defesa pura e simples da liberdade de empresa?
Pergunta necessária
Faça-se uma pesquisa, como fiz há
poucos meses, com capas de revistas semanais e com primeiras páginas dos
jornalões brasileiros e veremos que o que não falta é liberdade de
opinião. No Brasil você pode recorrer do síndico de seu edifício,
recorrer de multa eletrônica aplicada pelos "pardais" espalhados a torto
e a direito aos que furam sinal vermelho ou dirigem em velocidade
superior à permitida. Podemos recorrer de tarifas abusivas cobradas por
agências bancárias e por empresas concessionárias de água e luz. Mas não
podemos recorrer, com razoável segurança, quando quem ataca é detentor
de veículo de comunicação.
O direito de resposta, se ainda
sobrevive, só pode ser encontrado nas brumas de Avalon. É como se a
liberdade de imprensa tivesse sido privatizada. Somente alguns podem
falar em nome dela e se sentem duplamente legitimados se em suas mãos
encontram-se as maiores empresas de comunicação do país.
Aos que se autointitulam guardiães da
liberdade de imprensa defeito algum se há de encontrar, falha alguma há
de ser apontada. A estes deveria calar fundo o "Poema em linha reta" de
Fernando Pessoa, do qual retenho estes flamejantes versos:
Toda a gente que eu conheço e que
fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca
sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos
eles príncipes – na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz
humana
Que confessasse não um pecado, mas
uma infâmia;
Que contasse, não uma violência,
mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço
e me falam.
Quem há neste largo mundo que me
confesse que uma vez foi vil?
Aos que desfraldam bandeiras como a
liberdade de imprensa sempre que o ambiente enseja o debate sobre a
democratização dos meios de comunicação no Brasil, ou sempre que alguém
percebe e bota a boca no trombone a denunciar a extrema concentração de
82% dos meios midiáticos do país controlados por tão somente meia dúzia
de felizes empresários, caberia aqui uma pergunta: que interesses
subalternos se escondem sob o manto, sempre tentador, da defesa da
liberdade de imprensa?
PERGUNTAS
E-mails e
Telefonemas:
O programa de 01 de dezembro não
foi ao vivo, foi o quarto programa da série especial do Observatório da
Imprensa sobre os 70 anos da Segunda Guerra.