RESUMO DO PROGRAMA
IRÃ, NOVAS MÍDIAS E VELHO JORNALISMO
Ele tem quatro séculos de história.
Elegeu e derrubou presidentes em todo o mundo, foi uma importante arma
de guerra e fez a cabeça muitas gerações. Conviveu com a instantaneidade
do rádio e resistiu à concorrência da televisão. Até meados dos anos
1980 o poder do jornal impresso era indiscutível. Mas as novas
tecnologias da informação mudaram radicalmente o panorama. A internet,
com sua infinidade de sites, blogs, comunidades de relacionamento e
sistemas de transmissão de micromensagens como o Twitter, transformou o
leitor em produtor de informação. E levou as empresas de comunicação a
repensar o papel do jornal impresso na sociedade. O Observatório da
Imprensa exibido na terça-feira (7/7) pela TV Brasil discutiu a
convivência entre o velho e novo jornalismo.
Fatos recentes como a cobertura das
eleições presidenciais no Irã e a morte do cantor Michael Jackson são
exemplos do poder da transmissão da informação através das novas mídias.
Impedida de cobrir as manifestações em Teerã, a imprensa rapidamente
publicou milhares de notícias e vídeos enviados pela população. A
cobertura da morte de Michael Jackson também foi feita em tempo real.
Poucos minutos depois de o cantor chegar ao hospital, sites de todo o
mundo reproduziam as notícias que o portal TMZ, dedicado a celebridades,
publicava em primeira mão.
No cinema, o filme Intrigas de
Estado, de Kevin MacDonald, mostra a inicial disputa e a posterior
colaboração entre uma blogueira inexperiente e um repórter maduro na
cobertura de um crime envolvendo um político para uma empresa
jornalística. O longa-metragem explora o embate entre as duas formas de
jornalismo e trata de questões éticas da profissão em um momento de
transformação da imprensa escrita.
Revolução informativa
Antes do debate ao vivo, na coluna "A
Mídia na Semana", Alberto Dines comentou fatos de destaque dos últimos
dias. A relação da mídia com o cantor Michael Jackson foi o primeiro
assunto da seção. Em outro tópico, criticou o fato de o jornal Folha
de S.Paulo manter entre seus colunistas o presidente do Senado, José
Sarney (PMDB-AP). Dines comentou que o jornal não conseguiu
"desvencilhar-se do ilustre colaborador" quando o político foi eleito
para presidir o Senado.
No editorial sobre as novas
tecnologias, Dines disse que uma "formidável" revolução informativa teve
início. "A internet e as novas tecnologias mudaram drasticamente os
hábitos e a maneira de consumir notícias. Mas ninguém consegue responder
a esta perguntinha incômoda: as pessoas estão mais e melhor
informadas?", questionou. Comentou que o jornalismo-cidadão "mostrou seu
potencial" durante os protestos que se seguiram às eleições
presidenciais no Irã. "Aumenta o número de blogueiros e de twiteiros,
mas não aumenta o número dos bem informados. Este é um dos saldos da
revolução informativa que bem resume-se a uma coletânea de factóides."
O leitor como colaborador
O debate ao vivo contou com a presença
de três jornalistas. No Rio de Janeiro, o convidado foi Arnaldo César.
Jornalista desde os 16 anos, passou pelo Correio da Manhã, Jornal do
Brasil, O Globo, pelas revistas Veja e Exame, TV Globo e
Rádio Jornal do Brasil. Tem vasta experiência em jornalismo popular. Foi
editor-executivo do jornal carioca O Dia por oito anos.
Atualmente, preside a ACERP, empresa subsidiária da TV Brasil. Paulo
Cabral e Maurício Stycer participaram pelo estúdio de São Paulo. Paulo
Cabral é repórter especial da BBC na América do Sul. Repórter de
Economia, trabalhou no Estado de S.Paulo e na Folha de S.Paulo.
É especialista em jornalismo internacional. Na BBC, foi repórter e
produtor em Londres e correspondente, no Cairo. Maurício Stycer é
repórter especial do iG, onde mantém um blog. Trabalhou no Jornal do
Brasil, Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo, Lance!,
Época e CartaCapital. É mestre e doutorando pelo Programa
de Sociologia da USP.
A reportagem exibida no programa
entrevistou a editora-executiva do site do Globo, Sonia
Soares. A jornalista avalia que a mídia impressa tem uma preocupação
adicional com a explosão das novas formas de comunicação: ir além da
informação que já foi dada. Os jornais sempre concorreram com a TV e o
rádio, mas a internet intensificou este fenômeno. Há cerca de dois anos,
O Globo criou a seção interativa "Eu Repórter". Por meio dela,
leitores enviam vídeos e textos espontaneamente. Quando os editores do
jornal avaliam que a colaboração dos leitores é imprescindível,
estimulam a participação – como na cobertura de grandes enchentes. Sonia
revelou que o jornal chegou a ser criticado pela iniciativa.
O editor de "Empresas" da agência
Reuters em língua portuguesa, Cesar Bianconi, comentou que o "testemunho
ocular" não é uma novidade na imprensa, já foi usado em coberturas como
a Guerra do Golfo. Com os novos recursos, multiplicou-se "de maneira
absurda". Para Bianconi, a grande dificuldade da imprensa é fazer a
triagem do conteúdo produzido e divulgado pelas novas mídias.
Por internet, o jornalista Caio Blinder,
que vive em Nova York, comentou a convivência entre o jornalismo
tradicional e as novas tecnologias de informação. Para Blinder, a
relação é de aprendizado, necessidade, ansiedade e até de desespero. A
face mais visível do processo são as revistas semanais, que estão em
busca de uma nova identidade. Seus sites estão repletos de blogs e
twitters. Blinder contou que recentemente, em uma conferência, o
editor-chefe do New York Times enfatizou a ansiedade de o "velho
jornalismo" incorporar com muita rapidez as novas tecnologias e
orgulhou-se de um blog do jornal que "aspira" notícias de diversas
fontes e posta vídeos transmitidos por não-profissionais do jornalismo.
A iniciativa era "vital, urgente e emocionante nos dias mais dramáticos
da crise iraniana".
Blinder afirmou que, na morte, Michael
Jackson, o rei do pop, "botou a imprensa tradicional para dançar". A
mídia escrita investiu na cobertura com o mesmo "despudor" da mídia
menos pretensiosa. Novas barreiras foram rompidas no frenesi. "De
repente, a crise do Irã morreu na CNN, sem bala para duelar contra
Michael Jackson". Blinder comentou ainda que ao "abraçar com
sofreguidão" a cultura popular, a imprensa tradicional mostra alguns
fatos: ela não é "tão elitista assim", e se conecta com o público jovem,
que é indiferente ao noticiário "convencional e chato" e usa "com muito
gosto" a internet. "Michael Jackson está morto e a imprensa quer
sobreviver a todo custo", avaliou.
Convivência inevitável
Também por internet, o jornalista
Carlos Castilho disse que o novo e o velho jornalismo estão condenados a
conviver porque a internet criou uma nova realidade informativa "mas não
mudou a maioria dos valores sociais vigentes". Mas a convivência nem
sempre é tranqüila, pois vive-se a transição de um modelo de cobertura
jornalística. "Toda transição é uma luta de rupturas e mudanças que nem
sempre são bem digeridas pelos tradicionalistas. Da mesma forma, os
seguidores das novas tecnologias tendem a transformá-las em mitos, o que
cria generalizações tão equivocadas quanto a resistência ao novo",
afirmou.
Um dos sintomas mais impactantes dessa
mudança de paradigmas informativos aconteceu recentemente no Irã e
também na morte do cantor Michael Jackson. "Ficou claro que em grandes
eventos noticiosos o público tende a ser mais rápido que a imprensa.
Para uns, é um retrocesso informativo, para outros é um sintoma de que
os jornalistas perderam o controle da notícia. A boataria vai comer
solta até que a imprensa possa confirmar as informações", disse
Castilho. Ele considera que está surgindo um novo paradigma informativo,
no qual o jornalista perdeu o monopólio do "furo noticioso". Por outro
lado, o profissional de imprensa está ganhando uma responsabilidade
ainda maior: a da checagem das informações.
No debate ao vivo, Dines afirmou que as
reportagens que Maurício Stycer publica no iG pertencem ao "bom e velho"
jornalismo tradicional. Ouvem os dois lados da questão, respeitam o
sigilo da fonte, têm extensa pesquisa. Dines perguntou se a grande
revolução em curso consiste em publicar a boa matéria tradicional em
novas mídias. Stycer explicou que em parte sim, mas o fenômeno é maior.
Aos 48 anos, 25 deles vividos em redações de mídia impressa e menos de
um ano na internet, Stycer argumentou que ainda está "conhecendo as
novas mídias".
Velocidade e interatividade
Uma das características mais marcantes
do jornalismo online é a possibilidade de reescrever a matéria logo após
a veiculação. A velocidade com que o texto é recebido provoca mudanças
permanentemente. "Minutos ou segundos depois de publicar um texto, você
é avisado de falhas e erros que cometeu. Isto permite que possa revisar
e corrigir", explicou. Outra particularidade é a interatividade, que
afeta o tipo de texto produzido. "Além de todos os requisitos do
jornalismo impresso que são reproduzidos na mídia online, a internet
produz novas possibilidades de fazer jornalismo", disse Stycer.
Arnaldo César comentou que a
"parafernália tecnológica" levou os veículos tradicionais a começarem a
se preocupar com a qualidade da informação. "É ela que vai garantir a
sobrevivência dos jornais e dos impressos", assegurou. Há cerca de um
ano e meio, a revista americana Newsweek alterou
significativamente seu modelo de negócios e avisou aos leitores que se
dedicaria inteiramente à qualificação da informação. A inspiração é a
revista britânica The Economist. Arnaldo César avalia que a
"revolução" será benéfica para os jornalistas. "Nós não podemos pensar
em fazer jornalismo como fazíamos há 5 ou 6 anos", afirmou. O jornalista
concorda com Carlos Castilho de que a instantaneidade da informação não
deve ser buscada pela mídia impressa. O desafio é fazer um bom
jornalismo. "A qualificação da informação vai ser a grande disputa entre
os veículos tradicionais e os novos", disse.
Paulo Cabral considera que há espaço
para as duas formas de jornalismo. "A internet é uma nova ferramenta que
será tão valiosa quanto a competência de quem estiver usando esta
ferramenta", avaliou. A partir do uso maciço das novas mídias, o
argumento de que a imprensa é dominada por poucos grupos não é mais
válida. "Você pode buscar mídias alternativas, até o release que os
jornalistas recebem". A dificuldade não está mais na falta de
informação, mas na falta de edição. "Ninguém mais sabe onde encontrar
informação confiável", disse. Em sua opinião, é preciso que o usuário
saiba discernir que fontes têm mais credibilidade. A pressa em abastecer
em tempo real um veículo de comunicação aumenta o potencial de erro,
segundo ele.
Há espaço para todos os modelos?
Cabral observa que há espaço para o
desenvolvimento de uma nova linguagem na comunicação. Existe espaço para
a publicação de informações fragmentadas. Textos pequenos e instantâneos
podem atender às demandas de um determinado público, que não se
interessa naquele momento por notícias mais extensas. O jornalista
acredita que o veículo pode e deve publicar uma matéria curta se a
informação já estiver confirmada mesmo antes de a matéria ser
finalizada. "As pessoas não querem mais esperar o momento que a imprensa
quer que elas recebam aquela informação", disse.
Em torno de 80% das informações
publicadas por jornais impressos já foram veiculadas pela TV, pelo rádio
ou pela internet. "A concorrência entre os sites é enlouquecedora. Eles
brigam pela notícia o tempo todo", disse Arnaldo César. A proliferação
da informação na rede levará a população a "ficar na dúvida" e, neste
contexto, passa a ser imprescindível alguém que "organize o material".
Quem? O jornalista. "Cada vez mais os jornais vão deixar de se preocupar
com a instantaneidade da informação. Já é uma batalha perdida",
sublinhou. O foco dos jornais será a reflexão, a busca por outras
informações que não foram publicadas pelos veículos eletrônicos. "Essa
preocupação vai melhorar a qualidade da informação disponibilizada para
os leitores", disse.
EDITORIAL
Bem-vindos
ao Observatório da Imprensa.
Todos concordam: está
em curso uma formidável revolução informativa. A internet e as novas
tecnologias mudaram drasticamente os hábitos e a maneira de consumir
notícias. Mas ninguém consegue responder a esta perguntinha incômoda: as
pessoas estão mais e melhor informadas?
Aparentemente nada mudou. A simples menção
de um fenômeno não confirma a sua existência. Por enquanto, a revolução
da informação resume-se a uma expectativa. O usuário do Twitter não é
necessariamente um cidadão bem informado, é uma testemunha passiva, mais
ou menos consciente do que assiste.
O jornalismo-cidadão ou
jornalismo-participativo mostrou o seu potencial nas ruas de Teerã
durante os protestos contra a reeleição de Ahmadinejad. Mas a crise no
Irã foi logo soterrada pela morte de Michael Jackson que, por sua vez,
soterrou o golpe em Honduras logo atropelado pelas 150 mortes nas
manifestações ocorridas na província chinesa de Urumqui. Aumenta o
número de blogueiros e de twiteiros mas não aumenta o número dos bem
informados. Este é um dos saldos da revolução informativa que bem
resume-se a uma coletânea de factóides.
O filme Intrigas de Estado recentemente
estreado no Brasil reflete a competição entre um repórter investigativo
da mídia impressa e uma jovem blogueira da mesma empresa, ambos cobrindo
o mesmo assunto. O momento mais verdadeiro do filme talvez seja
protagonizado pela diretora de redação ao berrar que nenhum dos dois tem
razão, o melhor da história é o afundamento daquela empresa.
ARTIGO
Por Alberto Dines
DIPLOMA DE
JORNALISMO
Os equívocos do debate
Alberto Dines
A questão do diploma está colocada de
forma equivocada. Os adversários do canudo talvez até o aceitassem se,
porventura, pudessem controlar a sua emissão.
O objetivo do recurso interposto pelo
Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão do Estado de São Paulo (Sertesp),
apoiado pelo Ministério Público Federal e aceito com tanto agrado pelo
ministro Gilmar Mendes, do STF, não era o da extinção da profissão de
jornalista sob o ponto de vista trabalhista. Esta é uma batalha perdida
há bastante tempo, a partir do momento em que o profissional de imprensa
deixou de ser pessoa física (PF), cidadão, para se tornar pessoa
jurídica (PJ) e, como tal, cerceado da sua individualidade. Hoje raros
são os jornalistas contratados pela CLT. Este regime acabou há pelo
menos uma década, sem que os prejudicados tenham esboçado qualquer
resistência.
Também não é sério o pretexto de
universalizar o acesso aos meios de comunicação social. Este acesso está
mais restrito do que nunca. A homogeneização das redações brasileiras é
escandalosa, a diversidade é mínima, apenas cosmética. O jornalismo
brasileiro neste momento é mais monolítico, ortodoxo e conceitualmente
mais trancado do que o Pravda nos tempos do stalinismo.
Na verdade, o real objetivo da
"indústria do jornalismo" e suas entidades corporativas era liquidar a
consciência profissional. A ética e a deontologia fazem parte desta
consciência, mas nela se incluem outros elementos da esfera moral.
Escolhas cruciais
Jornalismo é compromisso com o
interesse público, portanto missão. Isto foi proclamado de forma
inequívoca na primeira linha do primeiro texto jornalístico que circulou
no Brasil a partir de junho de 1808, jamais revogado apesar do embargo
imposto ao seu autor, Hipólito da Costa.
Sem consciência profissional é
impossível derrubar um ícone do feudalismo como José Sarney. Sua rede de
amizades e a massa de favores que distribuiu ao longo das últimas
décadas em todos os poderes e em todos os níveis só poderão ser
neutralizadas por jornalistas profissionalmente conscientes. Para
desencavar um novo escândalo envolvendo nosso legislador-mor não bastam
as técnicas investigativas. Antes e acima delas, indispensável o
compromisso com a construção de uma sociedade honrada.
A consciência profissional começa a ser
fomentada na sala de aula das escolas de jornalismo. Por piores que
sejam, por mais despreparados que sejam os professores, por mais
desqualificada que seja a maioria dos grupos econômicos que tomaram
conta do ensino superior (aliás, próximos dos grupos de mídia), um sopro
de decência consegue atingir o alunado.
Esta decência, dignidade ou simples
brio de alguma maneira irá colar-se nas almas de alguns portadores do
diploma de jornalista. Em que proporção é difícil precisar. Importa
saber que estes privilegiados se encontrarão nas redações em
situações-limite em que fatalmente enfrentarão escolhas cruciais e
talvez forçados a experimentar o gosto agridoce da dignidade
profissional.
Os "flanelinhas", guardadores de
automóveis, do Distrito Federal, acabam de ser agraciados com a
especificidade para a sua ocupação, são profissionais (Folha,
6/7, pág. C-5). Em nome de uma falaciosa liberdade de expressão, os
jornalistas podem ter fé, mas perderam a sua profissão.
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET
MICHAEL JACKSON (1958-2009)
Os dois
corpos de M.J.
Muniz Sodré
É famosa a análise do alemão
Ernst Kantorowicz (1895-1963) sobre o fenômeno do desdobramento do
corpo do rei na monarquia absoluta. Haveria o corpo natural e o corpo
divino: ao lado da dimensão física, mortal, se alinha a simbólica,
suprarreal, crística, que asseguraria o poder quase divino do soberano.
Um e outro convivem numa unidade, em que parece vigorar uma alteridade
interior.
Essa hipótese do "dois em um" encontra
hoje uma variante na esfera global do entretenimento, onde um
superstar pode transitar fisicamente na terra e, ao mesmo tempo, no
espaço mítico dos seres de espírito. É assim possível que, extinto o
corpo físico, sobreviva o simbólico, sustentado por valores que nada têm
de abstratos, já que se traduzem materialmente em cifrões.
Isso ocorreu com Elvis Presley, por
exemplo, e tem tudo para se repetir agora com Michael Jackson. O
primeiro índício é a cobertura midiática da morte do artista. Na
internet, com todas as suas inovações em acesso (Facebook, Twitter
etc.), o acompanhamento do fato foi maior do que aquele que se seguiu à
eleição de Barack Obama. Em todas as outras formas de mídia, do papel à
eletrônica, o acontecimento recebeu acolhida espaçosa.
Paradigmas do horror
Talvez não seja para menos. A morte de
um compositor-cantor-performer, com um crédito de 750 milhões de
discos vendidos, como que obriga o sistema de informação pública,
visceralmente conectado com o sistema de entretenimento, a mobilizar-se
até a exaustão dos detalhes. No primeiro momento se esmiuçam as
circunstâncias algo novelescas do falecimento, a situação dos filhos, os
depoimentos dos próximos e os informes sobre a péssima condição
financeira do astro. Depois virá certamente o drama das querelas
judiciais em torno do espólio, avaliado pelo alto em 800 milhões de
dólares.
Não se pode deixar de observar, porém,
que Michael Jackson caminhava há muito tempo numa zona de sombras. E não
era em moonwalk (o famoso "passeio lunar"), já que suas pernas,
dizia-se, andavam enfraquecidas, devido à saúde precária e ao paraíso do
Demerol. Aliás, ele próprio teria declarado, durante um dos ensaios para
a tournée iminente, estar "acabado, morto". Psicologicamente, era
de fato penosa a sua condição: um infantilismo progressivo (regressivo
em estrutura), que o levava a inclinar-se obsessivamente sobre a própria
infância e sobre infantes outros, com a má repercussão pública que se
conhece.
No total, era um ser humano
profundamente afetado pela suprarrealidade das formas virtuais de vida –
o bios tecnomercadológico – que de certo modo condicionaram a sua
incontida mutação corporal. Entre ele e algo como o Hulk pode haver mais
em comum do que mostram as aparências imediatas, descartando-se as
óbvias diferenças entre um personagem de ficção e um ser vivo que
ficcionalizava a vida real. Se no filme o homem transforma-se em Hulk
devido a um acidente radioativo, o artista transforma-se, na vida real,
em um outro (ou outra, visto que seu reflexo no espelho cirúrgico
era a cantora Diana Ross), por ativa irradiação dos simulacros da mídia.
Em ambos os casos, os resultados podem ser conotados como monstruosos.
A temática do monstro, dá para se ver,
vem se popularizando há alguns anos em mais de uma frente pública. Na
esfera da política internacional, existe o que parece ser uma secreta
demanda do capital – o mesmo que tenta assegurar-se da organização
integral da existência humana – em exibir ou dramatizar a monstruosidade
como contraponto para a sua legitimidade advogada pelos EUA: de Saddam
Hussein à coleção de ex-parceiros ditatoriais em todas as latitudes, o
sistema de sentido hegemônico vem erigindo os paradigmas do horror que
servem, por inversão, como escala de medida para as suas qualidades
apregoadas. É preciso um "outro", o monstro, para encarnar o pior –
sustenta o ensaísta francês Jean-Paul Curnier.
Parentes e atravessadores
Na esfera do entretenimento, por outro
lado, assiste-se a um interesse crescente, sobretudo entre os jovens,
por mutantes, transformers, vampiros, ou seja, formas de uma
monstruosidade soft, que nada mais é do que a busca do outro em
si mesmo. Michael Jackson foi um dos pioneiros com o espetáculo
Thriller, em que dança com zumbis.
Mas as implicações culturais do
fenômeno não dizem nada ao sistema de produção e consumo do
entretenimento em escala global, para o qual sempre foi bastante real o
talento como compositor, cantor e dançarino de Michael Jackson – não um
sucedâneo de Fred Astaire, muito mais um Nijinsky da pós-modernidade.
Assim como na monarquia absoluta francesa a política consistia na
construção de aparências divinas para o rei, a mídia de entretenimento
engendrava uma "política" de informação em que o corpo físico e o corpo
simbólico do artista se fundiam numa imagem de trânsito mundial.
Com tal pano de fundo, não é de se
estranhar o tamanho do espaço dedicado pela mídia à morte do show-man.
Não é tanto porque tenha desaparecido o corpo físico, mas possivelmente
porque passe a viver com força ainda maior agora o corpo simbólico.
Haverá, como no caso de Elvis Presley, romarias ao túmulo, multidões de
fãs em Neverland, clones que tentarão imitá-lo em covers
performáticos, monumentos feitos de bits na internet, programas
de TV sobre aspectos da vida do astro. Cada um terá muito a se comover
com cada instante narrado de sua existência, certamente muito mais do
que aparentam seus próximos ou mesmo o seu pai, que aparece sorridente
nas fotos, falando de negócios. Em imagem nenhuma se viu alguém chorando
ou compungido com a morte de M.J. É que no bios da mídia parece a
todos garantida a eternidade dos corpos virtuais.
No mais, indústria, parentes e
atravessadores estarão de olho na possibilidade de mais 750 milhões de
itens vendidos.
PERGUNTAS
Chat:
Acesse a íntegra do nosso chat em:
http://www.tvbrasil.org.br/interatividade/090707-observatorio-novas-midias.asp
E-mails e Telefonemas:
Raimundo Cunha,
Rio Grande do Sul
A qualidade das informações da internet não é suficiente, não supre a
profundidade dos fatos e a notícia torna-se nada.
Emilson Nunes Costa,
Volta Redonda / RJ
A profusão de informações que tratam de temas que também são tratados
pela imprensa acaba afastando o jornalista de enfocar mais
ideologicamente a notícia e distancia a fidelidade dos fatos?
Silas Silva, Pará
– Estudante
O que a família de Michael Jackson poderia ter feito para afastar as
especulações da mídia?
Dimas Porto, Minas
Gerais
O jornal impresso e a televisão, a essa altura do campeonato,
sobreviveriam sem blogs e o jornalismo de internet?
Silvonessa,
Aracaju / SE
Será que a função do jornalismo de internet é assustar os leitores com
tanta informação?
Luiz Caldeyra, Rio
de Janeiro – Consultor
A instantaneidade do rádio, em algum momento, chegava antes dos jornais
impressos. A TV não conseguiu substituir os jornais. O que faz a
internet ser mais efetiva / ameaçadora do que outras mídias?
Ediudison Fontes,
Rio de Janeiro
Maurício, a internet vai substituir a utilização do livro?