PROGRAMA DO DIA 07 DE JULHO DE 2009

IRÃ, NOVAS MÍDIAS E VELHO JORNALISMO

O Observatório da Imprensa debateu o impacto das novas tecnologias na chamada “velha imprensa”.

Leia a transcrição do programa

  Veja o Compacto

DIPLOMA DE JORNALISMO
Os equívocos do debate
Alberto Dines

A questão do diploma está colocada de forma equivocada. Os adversários do canudo talvez até o aceitassem se, porventura, pudessem controlar a sua emissão.

Leia na íntegra

Onde você obteve mais informações sobre o Irã?

Resultado:

Jornais: 16%

Portais noticiosos: 25%

Televisão: 21%

Blogs: 30%

Twitter: 4%

Rádio: 4%

Aqui você pode participar de fóruns sobre assuntos ligados à imprensa, deixar seu recado no nosso mural e ler as perguntas dos telespectadores.

Perguntas - Aqui são colocadas as perguntas dos telespectadores que chegam por telefone, fax ou e-mail durante o programa e ao longo da semana.

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

Todos concordam: está em curso uma formidável revolução informativa. A internet e as novas tecnologias mudaram drasticamente os hábitos e a maneira de consumir notícias. Mas ninguém consegue responder a esta perguntinha incômoda: as pessoas estão mais e melhor informadas?


Leia na íntegra

MICHAEL JACKSON (1958-2009)
Os dois corpos de M.J.
Muniz Sodré

É famosa a análise do alemão Ernst Kantorowicz (1895-1963) sobre o fenômeno do desdobramento do corpo do rei na monarquia absoluta. Haveria o corpo natural e o corpo divino: ao lado da dimensão física, mortal, se alinha a simbólica, suprarreal, crística, que asseguraria o poder quase divino do soberano. Um e outro convivem numa unidade, em que parece vigorar uma alteridade interior.

Leia na íntegra


RESUMO DO PROGRAMA

IRÃ, NOVAS MÍDIAS E VELHO JORNALISMO

Ele tem quatro séculos de história. Elegeu e derrubou presidentes em todo o mundo, foi uma importante arma de guerra e fez a cabeça muitas gerações. Conviveu com a instantaneidade do rádio e resistiu à concorrência da televisão. Até meados dos anos 1980 o poder do jornal impresso era indiscutível. Mas as novas tecnologias da informação mudaram radicalmente o panorama. A internet, com sua infinidade de sites, blogs, comunidades de relacionamento e sistemas de transmissão de micromensagens como o Twitter, transformou o leitor em produtor de informação. E levou as empresas de comunicação a repensar o papel do jornal impresso na sociedade. O Observatório da Imprensa exibido na terça-feira (7/7) pela TV Brasil discutiu a convivência entre o velho e novo jornalismo.

Fatos recentes como a cobertura das eleições presidenciais no Irã e a morte do cantor Michael Jackson são exemplos do poder da transmissão da informação através das novas mídias. Impedida de cobrir as manifestações em Teerã, a imprensa rapidamente publicou milhares de notícias e vídeos enviados pela população. A cobertura da morte de Michael Jackson também foi feita em tempo real. Poucos minutos depois de o cantor chegar ao hospital, sites de todo o mundo reproduziam as notícias que o portal TMZ, dedicado a celebridades, publicava em primeira mão.

No cinema, o filme Intrigas de Estado, de Kevin MacDonald, mostra a inicial disputa e a posterior colaboração entre uma blogueira inexperiente e um repórter maduro na cobertura de um crime envolvendo um político para uma empresa jornalística. O longa-metragem explora o embate entre as duas formas de jornalismo e trata de questões éticas da profissão em um momento de transformação da imprensa escrita.

Revolução informativa

Antes do debate ao vivo, na coluna "A Mídia na Semana", Alberto Dines comentou fatos de destaque dos últimos dias. A relação da mídia com o cantor Michael Jackson foi o primeiro assunto da seção. Em outro tópico, criticou o fato de o jornal Folha de S.Paulo manter entre seus colunistas o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Dines comentou que o jornal não conseguiu "desvencilhar-se do ilustre colaborador" quando o político foi eleito para presidir o Senado.

No editorial sobre as novas tecnologias, Dines disse que uma "formidável" revolução informativa teve início. "A internet e as novas tecnologias mudaram drasticamente os hábitos e a maneira de consumir notícias. Mas ninguém consegue responder a esta perguntinha incômoda: as pessoas estão mais e melhor informadas?", questionou. Comentou que o jornalismo-cidadão "mostrou seu potencial" durante os protestos que se seguiram às eleições presidenciais no Irã. "Aumenta o número de blogueiros e de twiteiros, mas não aumenta o número dos bem informados. Este é um dos saldos da revolução informativa que bem resume-se a uma coletânea de factóides."

O leitor como colaborador

O debate ao vivo contou com a presença de três jornalistas. No Rio de Janeiro, o convidado foi Arnaldo César. Jornalista desde os 16 anos, passou pelo Correio da Manhã, Jornal do Brasil, O Globo, pelas revistas Veja e Exame, TV Globo e Rádio Jornal do Brasil. Tem vasta experiência em jornalismo popular. Foi editor-executivo do jornal carioca O Dia por oito anos. Atualmente, preside a ACERP, empresa subsidiária da TV Brasil. Paulo Cabral e Maurício Stycer participaram pelo estúdio de São Paulo. Paulo Cabral é repórter especial da BBC na América do Sul. Repórter de Economia, trabalhou no Estado de S.Paulo e na Folha de S.Paulo. É especialista em jornalismo internacional. Na BBC, foi repórter e produtor em Londres e correspondente, no Cairo. Maurício Stycer é repórter especial do iG, onde mantém um blog. Trabalhou no Jornal do Brasil, Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo, Lance!, Época e CartaCapital. É mestre e doutorando pelo Programa de Sociologia da USP.

A reportagem exibida no programa entrevistou a editora-executiva do site do Globo, Sonia Soares. A jornalista avalia que a mídia impressa tem uma preocupação adicional com a explosão das novas formas de comunicação: ir além da informação que já foi dada. Os jornais sempre concorreram com a TV e o rádio, mas a internet intensificou este fenômeno. Há cerca de dois anos, O Globo criou a seção interativa "Eu Repórter". Por meio dela, leitores enviam vídeos e textos espontaneamente. Quando os editores do jornal avaliam que a colaboração dos leitores é imprescindível, estimulam a participação – como na cobertura de grandes enchentes. Sonia revelou que o jornal chegou a ser criticado pela iniciativa.

O editor de "Empresas" da agência Reuters em língua portuguesa, Cesar Bianconi, comentou que o "testemunho ocular" não é uma novidade na imprensa, já foi usado em coberturas como a Guerra do Golfo. Com os novos recursos, multiplicou-se "de maneira absurda". Para Bianconi, a grande dificuldade da imprensa é fazer a triagem do conteúdo produzido e divulgado pelas novas mídias.

Por internet, o jornalista Caio Blinder, que vive em Nova York, comentou a convivência entre o jornalismo tradicional e as novas tecnologias de informação. Para Blinder, a relação é de aprendizado, necessidade, ansiedade e até de desespero. A face mais visível do processo são as revistas semanais, que estão em busca de uma nova identidade. Seus sites estão repletos de blogs e twitters. Blinder contou que recentemente, em uma conferência, o editor-chefe do New York Times enfatizou a ansiedade de o "velho jornalismo" incorporar com muita rapidez as novas tecnologias e orgulhou-se de um blog do jornal que "aspira" notícias de diversas fontes e posta vídeos transmitidos por não-profissionais do jornalismo. A iniciativa era "vital, urgente e emocionante nos dias mais dramáticos da crise iraniana".

Blinder afirmou que, na morte, Michael Jackson, o rei do pop, "botou a imprensa tradicional para dançar". A mídia escrita investiu na cobertura com o mesmo "despudor" da mídia menos pretensiosa. Novas barreiras foram rompidas no frenesi. "De repente, a crise do Irã morreu na CNN, sem bala para duelar contra Michael Jackson". Blinder comentou ainda que ao "abraçar com sofreguidão" a cultura popular, a imprensa tradicional mostra alguns fatos: ela não é "tão elitista assim", e se conecta com o público jovem, que é indiferente ao noticiário "convencional e chato" e usa "com muito gosto" a internet. "Michael Jackson está morto e a imprensa quer sobreviver a todo custo", avaliou.

Convivência inevitável

Também por internet, o jornalista Carlos Castilho disse que o novo e o velho jornalismo estão condenados a conviver porque a internet criou uma nova realidade informativa "mas não mudou a maioria dos valores sociais vigentes". Mas a convivência nem sempre é tranqüila, pois vive-se a transição de um modelo de cobertura jornalística. "Toda transição é uma luta de rupturas e mudanças que nem sempre são bem digeridas pelos tradicionalistas. Da mesma forma, os seguidores das novas tecnologias tendem a transformá-las em mitos, o que cria generalizações tão equivocadas quanto a resistência ao novo", afirmou.

Um dos sintomas mais impactantes dessa mudança de paradigmas informativos aconteceu recentemente no Irã e também na morte do cantor Michael Jackson. "Ficou claro que em grandes eventos noticiosos o público tende a ser mais rápido que a imprensa. Para uns, é um retrocesso informativo, para outros é um sintoma de que os jornalistas perderam o controle da notícia. A boataria vai comer solta até que a imprensa possa confirmar as informações", disse Castilho. Ele considera que está surgindo um novo paradigma informativo, no qual o jornalista perdeu o monopólio do "furo noticioso". Por outro lado, o profissional de imprensa está ganhando uma responsabilidade ainda maior: a da checagem das informações.

No debate ao vivo, Dines afirmou que as reportagens que Maurício Stycer publica no iG pertencem ao "bom e velho" jornalismo tradicional. Ouvem os dois lados da questão, respeitam o sigilo da fonte, têm extensa pesquisa. Dines perguntou se a grande revolução em curso consiste em publicar a boa matéria tradicional em novas mídias. Stycer explicou que em parte sim, mas o fenômeno é maior. Aos 48 anos, 25 deles vividos em redações de mídia impressa e menos de um ano na internet, Stycer argumentou que ainda está "conhecendo as novas mídias".

Velocidade e interatividade

Uma das características mais marcantes do jornalismo online é a possibilidade de reescrever a matéria logo após a veiculação. A velocidade com que o texto é recebido provoca mudanças permanentemente. "Minutos ou segundos depois de publicar um texto, você é avisado de falhas e erros que cometeu. Isto permite que possa revisar e corrigir", explicou. Outra particularidade é a interatividade, que afeta o tipo de texto produzido. "Além de todos os requisitos do jornalismo impresso que são reproduzidos na mídia online, a internet produz novas possibilidades de fazer jornalismo", disse Stycer.

Arnaldo César comentou que a "parafernália tecnológica" levou os veículos tradicionais a começarem a se preocupar com a qualidade da informação. "É ela que vai garantir a sobrevivência dos jornais e dos impressos", assegurou. Há cerca de um ano e meio, a revista americana Newsweek alterou significativamente seu modelo de negócios e avisou aos leitores que se dedicaria inteiramente à qualificação da informação. A inspiração é a revista britânica The Economist. Arnaldo César avalia que a "revolução" será benéfica para os jornalistas. "Nós não podemos pensar em fazer jornalismo como fazíamos há 5 ou 6 anos", afirmou. O jornalista concorda com Carlos Castilho de que a instantaneidade da informação não deve ser buscada pela mídia impressa. O desafio é fazer um bom jornalismo. "A qualificação da informação vai ser a grande disputa entre os veículos tradicionais e os novos", disse.

Paulo Cabral considera que há espaço para as duas formas de jornalismo. "A internet é uma nova ferramenta que será tão valiosa quanto a competência de quem estiver usando esta ferramenta", avaliou. A partir do uso maciço das novas mídias, o argumento de que a imprensa é dominada por poucos grupos não é mais válida. "Você pode buscar mídias alternativas, até o release que os jornalistas recebem". A dificuldade não está mais na falta de informação, mas na falta de edição. "Ninguém mais sabe onde encontrar informação confiável", disse. Em sua opinião, é preciso que o usuário saiba discernir que fontes têm mais credibilidade. A pressa em abastecer em tempo real um veículo de comunicação aumenta o potencial de erro, segundo ele.

Há espaço para todos os modelos?

Cabral observa que há espaço para o desenvolvimento de uma nova linguagem na comunicação. Existe espaço para a publicação de informações fragmentadas. Textos pequenos e instantâneos podem atender às demandas de um determinado público, que não se interessa naquele momento por notícias mais extensas. O jornalista acredita que o veículo pode e deve publicar uma matéria curta se a informação já estiver confirmada mesmo antes de a matéria ser finalizada. "As pessoas não querem mais esperar o momento que a imprensa quer que elas recebam aquela informação", disse.

Em torno de 80% das informações publicadas por jornais impressos já foram veiculadas pela TV, pelo rádio ou pela internet. "A concorrência entre os sites é enlouquecedora. Eles brigam pela notícia o tempo todo", disse Arnaldo César. A proliferação da informação na rede levará a população a "ficar na dúvida" e, neste contexto, passa a ser imprescindível alguém que "organize o material". Quem? O jornalista. "Cada vez mais os jornais vão deixar de se preocupar com a instantaneidade da informação. Já é uma batalha perdida", sublinhou. O foco dos jornais será a reflexão, a busca por outras informações que não foram publicadas pelos veículos eletrônicos. "Essa preocupação vai melhorar a qualidade da informação disponibilizada para os leitores", disse.


EDITORIAL

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

Todos concordam: está em curso uma formidável revolução informativa. A internet e as novas tecnologias mudaram drasticamente os hábitos e a maneira de consumir notícias. Mas ninguém consegue responder a esta perguntinha incômoda: as pessoas estão mais e melhor informadas?

Aparentemente nada mudou. A simples menção de um fenômeno não confirma a sua existência. Por enquanto, a revolução da informação resume-se a uma expectativa. O usuário do Twitter não é necessariamente um cidadão bem informado, é uma testemunha passiva, mais ou menos consciente do que assiste.

O jornalismo-cidadão ou jornalismo-participativo mostrou o seu potencial nas ruas de Teerã durante os protestos contra a reeleição de Ahmadinejad. Mas a crise no Irã foi logo soterrada pela morte de Michael Jackson que, por sua vez, soterrou o golpe em Honduras logo atropelado pelas 150 mortes nas manifestações ocorridas na província chinesa de Urumqui. Aumenta o número de blogueiros e de twiteiros mas não aumenta o número dos bem informados. Este é um dos saldos da revolução informativa que bem resume-se a uma coletânea de factóides.

O filme Intrigas de Estado recentemente estreado no Brasil reflete a competição entre um repórter investigativo da mídia impressa e uma jovem blogueira da mesma empresa, ambos cobrindo o mesmo assunto. O momento mais verdadeiro do filme talvez seja protagonizado pela diretora de redação ao berrar que nenhum dos dois tem razão, o melhor da história é o afundamento daquela empresa.


ARTIGO
Por Alberto Dines

DIPLOMA DE JORNALISMO
Os equívocos do debate
Alberto Dines

A questão do diploma está colocada de forma equivocada. Os adversários do canudo talvez até o aceitassem se, porventura, pudessem controlar a sua emissão.

O objetivo do recurso interposto pelo Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão do Estado de São Paulo (Sertesp), apoiado pelo Ministério Público Federal e aceito com tanto agrado pelo ministro Gilmar Mendes, do STF, não era o da extinção da profissão de jornalista sob o ponto de vista trabalhista. Esta é uma batalha perdida há bastante tempo, a partir do momento em que o profissional de imprensa deixou de ser pessoa física (PF), cidadão, para se tornar pessoa jurídica (PJ) e, como tal, cerceado da sua individualidade. Hoje raros são os jornalistas contratados pela CLT. Este regime acabou há pelo menos uma década, sem que os prejudicados tenham esboçado qualquer resistência.

Também não é sério o pretexto de universalizar o acesso aos meios de comunicação social. Este acesso está mais restrito do que nunca. A homogeneização das redações brasileiras é escandalosa, a diversidade é mínima, apenas cosmética. O jornalismo brasileiro neste momento é mais monolítico, ortodoxo e conceitualmente mais trancado do que o Pravda nos tempos do stalinismo.

Na verdade, o real objetivo da "indústria do jornalismo" e suas entidades corporativas era liquidar a consciência profissional. A ética e a deontologia fazem parte desta consciência, mas nela se incluem outros elementos da esfera moral.

Escolhas cruciais

Jornalismo é compromisso com o interesse público, portanto missão. Isto foi proclamado de forma inequívoca na primeira linha do primeiro texto jornalístico que circulou no Brasil a partir de junho de 1808, jamais revogado apesar do embargo imposto ao seu autor, Hipólito da Costa.

Sem consciência profissional é impossível derrubar um ícone do feudalismo como José Sarney. Sua rede de amizades e a massa de favores que distribuiu ao longo das últimas décadas em todos os poderes e em todos os níveis só poderão ser neutralizadas por jornalistas profissionalmente conscientes. Para desencavar um novo escândalo envolvendo nosso legislador-mor não bastam as técnicas investigativas. Antes e acima delas, indispensável o compromisso com a construção de uma sociedade honrada.

A consciência profissional começa a ser fomentada na sala de aula das escolas de jornalismo. Por piores que sejam, por mais despreparados que sejam os professores, por mais desqualificada que seja a maioria dos grupos econômicos que tomaram conta do ensino superior (aliás, próximos dos grupos de mídia), um sopro de decência consegue atingir o alunado.

Esta decência, dignidade ou simples brio de alguma maneira irá colar-se nas almas de alguns portadores do diploma de jornalista. Em que proporção é difícil precisar. Importa saber que estes privilegiados se encontrarão nas redações em situações-limite em que fatalmente enfrentarão escolhas cruciais e talvez forçados a experimentar o gosto agridoce da dignidade profissional.

Os "flanelinhas", guardadores de automóveis, do Distrito Federal, acabam de ser agraciados com a especificidade para a sua ocupação, são profissionais (Folha, 6/7, pág. C-5). Em nome de uma falaciosa liberdade de expressão, os jornalistas podem ter fé, mas perderam a sua profissão.


OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET

MICHAEL JACKSON (1958-2009)
Os dois corpos de M.J.
Muniz Sodré

É famosa a análise do alemão Ernst Kantorowicz (1895-1963) sobre o fenômeno do desdobramento do corpo do rei na monarquia absoluta. Haveria o corpo natural e o corpo divino: ao lado da dimensão física, mortal, se alinha a simbólica, suprarreal, crística, que asseguraria o poder quase divino do soberano. Um e outro convivem numa unidade, em que parece vigorar uma alteridade interior.

Essa hipótese do "dois em um" encontra hoje uma variante na esfera global do entretenimento, onde um superstar pode transitar fisicamente na terra e, ao mesmo tempo, no espaço mítico dos seres de espírito. É assim possível que, extinto o corpo físico, sobreviva o simbólico, sustentado por valores que nada têm de abstratos, já que se traduzem materialmente em cifrões.

Isso ocorreu com Elvis Presley, por exemplo, e tem tudo para se repetir agora com Michael Jackson. O primeiro índício é a cobertura midiática da morte do artista. Na internet, com todas as suas inovações em acesso (Facebook, Twitter etc.), o acompanhamento do fato foi maior do que aquele que se seguiu à eleição de Barack Obama. Em todas as outras formas de mídia, do papel à eletrônica, o acontecimento recebeu acolhida espaçosa.

Paradigmas do horror

Talvez não seja para menos. A morte de um compositor-cantor-performer, com um crédito de 750 milhões de discos vendidos, como que obriga o sistema de informação pública, visceralmente conectado com o sistema de entretenimento, a mobilizar-se até a exaustão dos detalhes. No primeiro momento se esmiuçam as circunstâncias algo novelescas do falecimento, a situação dos filhos, os depoimentos dos próximos e os informes sobre a péssima condição financeira do astro. Depois virá certamente o drama das querelas judiciais em torno do espólio, avaliado pelo alto em 800 milhões de dólares.

Não se pode deixar de observar, porém, que Michael Jackson caminhava há muito tempo numa zona de sombras. E não era em moonwalk (o famoso "passeio lunar"), já que suas pernas, dizia-se, andavam enfraquecidas, devido à saúde precária e ao paraíso do Demerol. Aliás, ele próprio teria declarado, durante um dos ensaios para a tournée iminente, estar "acabado, morto". Psicologicamente, era de fato penosa a sua condição: um infantilismo progressivo (regressivo em estrutura), que o levava a inclinar-se obsessivamente sobre a própria infância e sobre infantes outros, com a má repercussão pública que se conhece.

No total, era um ser humano profundamente afetado pela suprarrealidade das formas virtuais de vida – o bios tecnomercadológico – que de certo modo condicionaram a sua incontida mutação corporal. Entre ele e algo como o Hulk pode haver mais em comum do que mostram as aparências imediatas, descartando-se as óbvias diferenças entre um personagem de ficção e um ser vivo que ficcionalizava a vida real. Se no filme o homem transforma-se em Hulk devido a um acidente radioativo, o artista transforma-se, na vida real, em um outro (ou outra, visto que seu reflexo no espelho cirúrgico era a cantora Diana Ross), por ativa irradiação dos simulacros da mídia. Em ambos os casos, os resultados podem ser conotados como monstruosos.

A temática do monstro, dá para se ver, vem se popularizando há alguns anos em mais de uma frente pública. Na esfera da política internacional, existe o que parece ser uma secreta demanda do capital – o mesmo que tenta assegurar-se da organização integral da existência humana – em exibir ou dramatizar a monstruosidade como contraponto para a sua legitimidade advogada pelos EUA: de Saddam Hussein à coleção de ex-parceiros ditatoriais em todas as latitudes, o sistema de sentido hegemônico vem erigindo os paradigmas do horror que servem, por inversão, como escala de medida para as suas qualidades apregoadas. É preciso um "outro", o monstro, para encarnar o pior – sustenta o ensaísta francês Jean-Paul Curnier.

Parentes e atravessadores

Na esfera do entretenimento, por outro lado, assiste-se a um interesse crescente, sobretudo entre os jovens, por mutantes, transformers, vampiros, ou seja, formas de uma monstruosidade soft, que nada mais é do que a busca do outro em si mesmo. Michael Jackson foi um dos pioneiros com o espetáculo Thriller, em que dança com zumbis.

Mas as implicações culturais do fenômeno não dizem nada ao sistema de produção e consumo do entretenimento em escala global, para o qual sempre foi bastante real o talento como compositor, cantor e dançarino de Michael Jackson – não um sucedâneo de Fred Astaire, muito mais um Nijinsky da pós-modernidade. Assim como na monarquia absoluta francesa a política consistia na construção de aparências divinas para o rei, a mídia de entretenimento engendrava uma "política" de informação em que o corpo físico e o corpo simbólico do artista se fundiam numa imagem de trânsito mundial.

Com tal pano de fundo, não é de se estranhar o tamanho do espaço dedicado pela mídia à morte do show-man. Não é tanto porque tenha desaparecido o corpo físico, mas possivelmente porque passe a viver com força ainda maior agora o corpo simbólico. Haverá, como no caso de Elvis Presley, romarias ao túmulo, multidões de fãs em Neverland, clones que tentarão imitá-lo em covers performáticos, monumentos feitos de bits na internet, programas de TV sobre aspectos da vida do astro. Cada um terá muito a se comover com cada instante narrado de sua existência, certamente muito mais do que aparentam seus próximos ou mesmo o seu pai, que aparece sorridente nas fotos, falando de negócios. Em imagem nenhuma se viu alguém chorando ou compungido com a morte de M.J. É que no bios da mídia parece a todos garantida a eternidade dos corpos virtuais.

No mais, indústria, parentes e atravessadores estarão de olho na possibilidade de mais 750 milhões de itens vendidos.


PERGUNTAS

Chat:

Acesse a íntegra do nosso chat em: http://www.tvbrasil.org.br/interatividade/090707-observatorio-novas-midias.asp


E-mails e Telefonemas:

Raimundo Cunha, Rio Grande do Sul
A qualidade das informações da internet não é suficiente, não supre a profundidade dos fatos e a notícia torna-se nada.

Emilson Nunes Costa, Volta Redonda / RJ
A profusão de informações que tratam de temas que também são tratados pela imprensa acaba afastando o jornalista de enfocar mais ideologicamente a notícia e distancia a fidelidade dos fatos?

Silas Silva, Pará – Estudante
O que a família de Michael Jackson poderia ter feito para afastar as especulações da mídia?

Dimas Porto, Minas Gerais
O jornal impresso e a televisão, a essa altura do campeonato, sobreviveriam sem blogs e o jornalismo de internet?

Silvonessa, Aracaju / SE
Será que a função do jornalismo de internet é assustar os leitores com tanta informação?

Luiz Caldeyra, Rio de Janeiro – Consultor
A instantaneidade do rádio, em algum momento, chegava antes dos jornais impressos. A TV não conseguiu substituir os jornais. O que faz a internet ser mais efetiva / ameaçadora do que outras mídias?

Ediudison Fontes, Rio de Janeiro
Maurício, a internet vai substituir a utilização do livro?



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