PROGRAMA DO DIA 14 DE ABRIL DE 2009

JORNAIS POPULARES

O Observatório da Imprensa desta semana debateu a evolução dos jornais populares no país. Com um histórico de notícias sobre violência, fatos bizarros e fotos de mulheres seminuas, eles lutam para se livrar do estigma do sensacionalismo. Os novos jornais populares partem do princípio de que o público não aceita mais este conteúdo, que teve como seu maior ícone o jornal Notícias Populares, de São Paulo.

Leia a transcrição do programa

  Veja o Compacto

EFEMÉRIDES, RELEITURAS
Euclides volta ao Estadão. Em grande estilo
Alberto Dines

Há tempos que nossa imprensa não consegue organizar uma efeméride com tanta inteligência e propriedade. O centenário da morte de Euclides da Cunha deveria ser lembrado no próximo dia 15 de agosto (sábado), mas o Estado de S.Paulo preferiu encarar a tarefa com uma saudável disposição jornalística.

Leia na íntegra

Os jornais populares buscam a credibilidade dos grandes veículos?

Resultado:

Sim: 27%

Não: 73%

Aqui você pode participar de fóruns sobre assuntos ligados à imprensa, deixar seu recado no nosso mural e ler as perguntas dos telespectadores.

Perguntas - Aqui são colocadas as perguntas dos telespectadores que chegam por telefone, fax ou e-mail durante o programa e ao longo da semana.

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

Quando a imprensa é notícia, geralmente a notícia não é boa, alguma coisa está errada.

Nas duas últimas décadas, o noticiário sobre a mídia não tem sido alentador. Depois das bolhas relacionadas com as novas tecnologias, vieram os modismos que descaracterizaram a essência da imprensa. Agora estamos em plena temporada das catástrofes em série, com o fechamento de jornais em todo o mundo, alguns já centenários.


Leia na íntegra

COBERTURA DO PODER
Pobres deles, tão perseguidos
Eugênio Bucci

Primeiro ato

Quando o escândalo no Senado ainda não era tão escandaloso assim, quando tudo não passava de discussões em torno de uma residência suntuosa à beira do lago, ou seja, uma autêntica mansão, cujo proprietário, então diretor-geral do mesmo Senado, julgara por bem não declará-la como sua à Receita Federal; quando ainda não se sabia nem a metade do que hoje se sabe, o presidente da casa, senador José Sarney, reclamou da imprensa.

Leia na íntegra


RESUMO DO PROGRAMA

JORNAIS POPULARES

O Observatório da Imprensa exibido na terça-feira (14/04) pela TVBrasil discutiu o rumo dos jornais populares no Brasil. Em meio à crise financeira que abala a mídia impressa em todo o mundo, os veículos de perfil popular parecem ter sido os menos afetados. A receita para cativar os leitores é simples: prestação de serviços, noticiário da cidade, apelo sexual, informações sobre crimes e fofocas do mundo das celebridades. Textos curtos, leves e muita fotografia em uma clara aproximação com o formato da internet. Um produto para consumo imediato. A evolução do modelo - se comparado com os anos de 1960, por exemplo - é incontestável. Não é mais o "jornal que sai sangue ao ser espremido". Mas política, macroeconomia e noticiário internacional continuam fora da pauta cotidiana dos jornais populares.

Participaram do programa ao vivo representantes de três veículos que têm experiência consolidada em jornalismo popular. No Rio de Janeiro, Alberto Dines recebeu o diretor de Redação de O Dia, Alexandre Freeland. Formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Freeland ocupa o posto de direção há dois anos. Também no Rio de Janeiro, participou Octávio Guedes, editor-chefe do Extra, do grupo Infoglobo, que edita O Globo e Expresso. Formado pela UFF, trabalhou no Jornal do Brasil, em O Globo e O Dia. Em 1998 passou a integrar a equipe que lançou o jornal Extra. Em São Paulo, o convidado foi Antonio Rocha Filho, secretário de Redação do Agora São Paulo. O jornalista participou do processo de criação e lançamento da publicação. Trabalha há 20 anos no Grupo Folha, onde já exerceu diversas funções.

Mídia na Semana

Antes de iniciar o debate ao vivo, na coluna "A Mídia na Semana", Dines comentou os fatos de destaque dos últimos dias. O caso do jogador Adriano, do Inter de Milão, foi o primeiro assunto da coluna. Para Dines, a imprensa não respeita conflitos pessoais. "O carnaval que se fez com a sua vida pessoal é um exemplo da perversa celebridade promovida pelos meios de comunicação. A submissão às manchetes em alguns casos pode ser pior do que a escravidão", criticou.

O outro tema foi a cobertura da imprensa sobre os escândalos envolvendo o banqueiro Daniel Dantas e o delegado Protógenes Queiroz: "Ricardo Noblat levantou ontem (13/04) a questão - de que lado você está?". O jornalista acredita que a polêmica que corre em blogs e comunidades da internet é enganosa. "Daniel Dantas está sendo processado porque cometeu irregularidades e o delegado da PF está sendo investigado porque cometeu arbitrariedades, exorbitou. Quem está efetivamente do lado da lei deve evitar os engajamentos. Sobretudo no caso de jornalistas", advertiu.

Momento de consolidação

Ainda antes do debate ao vivo, em editorial, Dines comentou que enquanto jornais deixam de circular em todo o mundo, no Brasil o fenômeno da imprensa popular consolida-se. "A melhoria do transporte de massas e a estabilidade da moeda a partir de 1995 acionaram um processo de ascensão social do qual se beneficiaram muitos setores da economia. Principalmente a indústria jornalística", disse. O jornalista alertou que o "deslumbramento" com este modelo de imprensa não deve esconder as preocupações com a chamada "imprensa de qualidade".

A reportagem exibida no programa mostrou a experiência do Super Notícia, publicado em Belo Horizonte. Lançado há sete anos, o jornal está entre os mais vendidos no país. Um dos fatores que contribui para o sucesso é a distribuição inovadora. Além das convencionais bancas de jornal, também é oferecido por vendedores ambulantes em pontos de grande circulação e em postos alternativos, como padarias. E o preço é convidativo: R$ 0,25 por exemplar. Lúcia Castro, Editora Executiva do Super Notícia, explicou que o jornal não só tirou leitores dos concorrentes, como também trouxe um público novo. O Diretor Executivo do jornal, Teodomiro Braga, ressaltou que é uma preocupação da empresa atender aos leitores de todas as classes sociais, por isto o diário é encontrado também em favelas e comunidades carentes de Belo Horizonte.

O programa entrevistou o jornalista Arnaldo César, que foi Editor Executivo de O Dia. A questão de fundo que precisa ser discutida, na opinião do jornalista, não é o crescimento ou a queda na circulação dos jornais – independentemente do perfil em que estejam enquadrados. A grande preocupação de Arnaldo César é sobre o futuro dos jornais impressos. Desde a virada do século, há uma migração de leitores dos impressos para a internet. Os jornais estão conseguindo exercer o papel de formadores da opinião pública do país, imprescindível em um ambiente democrático?

Uma volta ao passado

No debate ao vivo, Dines comentou que o fenômeno dos jornais populares não é novo. Hoje, tenta-se "reinventar o que sempre existiu", disse Dines em referência a jornais do século passado. O jornalista ressaltou que o Extra, por exemplo, pertence à Infoglobo, empresa que tem tradição em jornalismo popular. O Globo e A Noite, no passado, encaixavam-se no perfil de vespertino popular. Já O Dia, mantém-se no mercado há mais de 50 anos sempre com o mesmo modelo, mas com alterações na linha editorial. O Grupo Folha também atua no segmento há décadas. Para Octávio Guedes "não está se inventando a roda". O editor-chefe do Extra relembrou que no número de lançamento de O Globo, havia uma matéria especial sobre um problema que ainda é assunto de destaque nos jornais populares, os buracos nas ruas da cidade. Octávio Guedes ponderou que não há diferença entre jornalismo popular e "de qualidade". O que difere é "bom ou mau jornalismo".

Antonio Rocha Filho comentou que a estabilidade da moeda alcançada em meados dos anos de 1990 propiciou o ressurgimento dos jornais populares. O Agora foi produto deste período em que as empresas de comunicação passaram a investir em novos projetos. Desde o início, apresentou um modelo diferente dos jornais que circulavam em São Paulo ao privilegiar a prestação de serviços para o leitor. O que é importante para o cotidiano do leitor em diversos setores, como saúde e trabalho, é notícia. Nos últimos anos, o Agora passou a focar na chamada economia popular, voltando-se para a cobertura da Previdência Social, para atender a uma demanda dos leitores. Para o secretário de Redação do Agora, o que difere o jornalismo popular de hoje do que foi publicado no passado é o sensacionalismo. Atualmente, há conteúdo de apelo popular, mas com menor destaque.

A nomenclatura aplicada aos modelos de jornalismo também foi criticada por Alexandre Freeland. Se o jornalismo classificado como popular é dirigido para as classes econômicas menos favorecidas, o "jornalismo de qualidade" deveria ser voltado somente para a elite? O diretor de Redação de O Dia afirmou que não faz "jornalismo para jornalistas", mas sim para o leitor. O jornal deve ser um produto útil. Freeland relembrou que o salto de qualidade do jornal ocorreu nos anos de 1990, na gestão de Ary Carvalho. Houve uma "injeção de qualidade" no jornal, mas com o foco no mesmo tipo de leitor. O jornalista ponderou que há espaço para política e economia nos jornais populares e citou como exemplo uma recente denúncia sobre funcionários fantasmas da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro.

O leitor que participa

No Rio de Janeiro, um boneco de pano de tamanho humano faz sucesso entre os leitores do Extra. É o "João Buracão". Confeccionado por um borracheiro carioca para chamar a atenção para um buraco que, apesar dos constantes pedidos, não era tapado pelas autoridades, o boneco foi descoberto por um repórter do jornal e logo foi "adotado" pelo Extra. Agora, "João Buracão" é disputado por moradores de ruas esburacadas. Problemas que levavam meses para serem resolvidos desaparecem em questão de dias. O leitor denuncia, "João Buracão" vai ao local, o jornal publica a notícia e logo depois o buraco é tapado. Uma dor de cabeça para prefeitos e uma ferramenta para os leitores. Recentemente, O Dia lançou o "Repórter Lampião", um concorrente para o boneco. Leitores levam um lampião para ruas com recorrentes problemas de iluminação pública para forçar as autoridades a tomar providências.

Dines perguntou sobre as características do jornalismo popular: o "mix" da composição da informação é o mesmo do chamado jornalismo de qualidade, incluindo doses de política, economia e internacional? "O jornalismo popular fala do que o povo quer falar ou já está falando", disse Freeland. O jornalista comentou que a participação dos leitores na produção do jornal é imprescindível. Freeland revelou que na cobertura do caso do jogador Adriano, o "principal repórter" foi o leitor. Compradores do jornal telefonavam para a redação para oferecer informações sobre o paradeiro do atacante. "Neste caso, o leitor pautou e foi repórter", disse.

A questão da concorrência com jornais gratuitos foi discutida no debate. Dines questionou se a gratuidade interfere na credibilidade do produto. Para Octávio Guedes, jornais como Metro e Destak devem se questionar se estão falando para o público certo e com o tom adequado. O jornalista comentou que no Rio de Janeiro há jornais compactos "semi-gratuitos", que custam entre R$0,25 e R$0,60. Voltados para a venda em transportes públicos, atendem as classes C, D e E. Um fenômeno curioso levantado pelo jornalista foi a reciclagem dos exemplares. Ao final da viagem de trem ou ônibus, depois de ler o jornal, consumidores revendem o produto por um terço do preço a outros passageiros.

Jornalismo "quase" de graça

Alexandre Freeland comentou que o fato de pagar pelo jornal estimula o leitor a cobrar qualidade. A venda em banca funciona como uma "assinatura" renovada diariamente. É um investimento que "tem que dar retorno", frisou. Freeland considera que os gratuitos, apesar da boa qualidade técnica, não "têm muita personalidade". Em São Paulo, o fenômeno não se consolidou. Para Antonio Rocha Filho, apesar de bem executados, os jornais gratuitos "não atendem ao que se propõem".

A migração dos leitores da mídia impressa para a internet foi outro tema discutido no Observatório. Octávio Guedes considera que a concorrência com a web obriga os jornais em papel a buscar sempre o melhor. O "jornalista preguiçoso" não tem mais espaço no mercado de trabalho. Com a velocidade da internet, a busca por notícias exclusivas para não repetir a informação deve ser constante. Quando um jornalista comparece a uma entrevista coletiva e chega à redação para escrever a matéria que será publicada no dia seguinte, tanto a chefia quanto os internautas já sabem as informação por meio da rede mundial. "Está cada vez mais difícil ser repórter", disse. Para Alexandre Freeland, a internet é uma ameaça à primeira vista, mas pode ser uma aliada ao obrigar o constante aperfeiçoamento. É uma importante ferramenta de diálogo com o leitor. Antonio Rocha Filho ressaltou que a busca por notícias na rede é "pura e simples", cabe ao jornal impresso uma análise mais aprofundada dos fatos.


EDITORIAL

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

Quando a imprensa é notícia, geralmente a notícia não é boa, alguma coisa está errada.

Nas duas últimas décadas, o noticiário sobre a mídia não tem sido alentador. Depois das bolhas relacionadas com as novas tecnologias, vieram os modismos que descaracterizaram a essência da imprensa. Agora estamos em plena temporada das catástrofes em série, com o fechamento de jornais em todo o mundo, alguns já centenários.

A boa notícia é brasileira: enquanto a chamada grande imprensa estaciona e patina nas mesmas tiragens, consolida-se o fenômeno da imprensa popular. Aquilo que aconteceu na Inglaterra e Estados Unidos no fim do século 19 começa a acontecer aqui no início do século 21.

A melhoria do transporte de massas e a estabilidade da moeda a partir de 1995 acionaram um processo de ascensão social do qual beneficiaram-se muitos setores da economia. Principalmente a indústria jornalística.

Nesta edição do Observatório da Imprensa vamos falar de um mercado que em 2008 exibiu cerca de um milhão e duzentos mil exemplares diários, o que pode significar, no mínimo, o dobro de leitores. Leitor não é um mero consumidor, é um cidadão que se integra ao processo de produção de conhecimento. processo irreversível, sem volta.

Mas este deslumbramento com a imprensa popular não deve esconder as preocupações com a chamada imprensa de qualidade. Sem ela, nivelamos tudo por baixo e quem paga é a democracia.


ARTIGO
Por Alberto Dines

EFEMÉRIDES, RELEITURAS
Euclides volta ao Estadão. Em grande estilo
Alberto Dines

Há tempos que nossa imprensa não consegue organizar uma efeméride com tanta inteligência e propriedade. O centenário da morte de Euclides da Cunha deveria ser lembrado no próximo dia 15 de agosto (sábado), mas o Estado de S.Paulo preferiu encarar a tarefa com uma saudável disposição jornalística.

No lugar das maçarocas habituais que serão empilhadas junto aos interessantíssimos "cadernos especiais" que nunca são lidos, a direção do jornalão preferiu produzir uma temporada euclideana iniciada em março e que poderá estender-se até o fim do ano.

Euclides da Cunha é um banquete para todos os gostos: os fãs de dramas sentimentais e tragédias gregas já foram regalados com o seriado da Globo (Desejo) apresentando em 1990 (reprisado em 1995-1996). A sangrenta e shakespeariana tragédia em Piedade (ou A Tragédia da Piedade ou ainda Uma Tragédia Brasileira), passional e patética, sem vilões, quanto mais lembrada mais compaixão desperta.

O soberbo Os Sertões, os livros subseqüentes, os relatos sobre o Alto Purus e a obra póstuma trazem um tom telúrico que contrasta vivamente com a noção amena de "Brasil brasileiro, mulato inzoneiro".

Reportagem e reedição

As rememorações do Estadão começaram com a série de reportagens realizadas por Daniel Piza e Tiago Queiroz (fotos), no início de março, no território percorrido por Euclides no Alto Purus. E prosseguiram auspiciosamente na edição de domingo (12/4, caderno Cultura, pág. D-14) com o início da republicação de todos os textos e reportagens produzidos a convite do amigo-camarada Júlio Mesquita na antiga A Província de S. Paulo (hoje O Estado de S. Paulo).

Com ortografia atualizada e comentados por Walnice Nogueira Galvão – nossa euclidista mor –, os textos de Euclides deixam a primeira página do jornal para ganhar uma dimensão poligráfica, cósmica, que talvez não tivessem em 1888 (quando começaram a ser publicados).

O primeiro texto ("A Pátria e a Dinastia"), de 22 de dezembro de 1888, soa como um ensurdecedor ataque ao monarquismo pouco antes da sua derrubada. Ensurdecedor porque o fraseado e o palavreado são tão elaborados que lembram o clangor de uma poderosa banda marcial cuja força é perceptível, mas não seus acordes.

Graças ao Estadão estamos percorrendo um fascinante museu da imprensa e da cultura, examinando um texto perfeitamente entendido pelos 1.200 leitores que compraram a primeira edição de Os Sertões (1902), convertido 121 anos depois num quase enigma idiomático. A primeira frase tem doze linhas (nas medidas de hoje), três vírgulas, cinco adjetivos, dois advérbios de modo. E apesar do emaranhado gongórico, arrasadora.

Euclides e Hipólito

Esta viagem pelo jornalismo do fim do século 19 é um complemento à releitura do texto de abertura da edição de junho de 1808 do Correio Braziliense. Os dois autores, Hipólito da Costa e Euclides da Cunha, nasceram com uma diferença de 92 anos (1774 e 1866, respectivamente) e exibem curiosas semelhanças.

Polígrafos, multidisciplinares, um era maçom e o outro, positivista. Hipólito era um atento observador das transformações do seu tempo, anticlerical, antiescravista, fascinado pela ciência e novas tecnologias, democrata (admirador da revolução norte-americana, porém sem coragem de assumir-se antimonarquista). Euclides era um cientista, darwinista, filósofo, convicto democrata, ferrenhamente republicano, pan-americanista.

A convergência que nos interessa é a relação com o jornalismo. Hipólito é o pai do jornalismo brasileiro e seu primeiro teórico. Euclides é o primeiro grande repórter, testemunha ocular e, ao mesmo tempo, pensador.

Jornalistas? No tempo de Hipólito, as palavras journalisme (em francês) e jornalismo não haviam sido cunhadas. No tempo de Euclides, o jornal era composto por uma soma enorme de informações telegraphicas, entremeadas por opiniões, geralmente veementes. Alguns estudiosos – como a própria Walnice Nogueira Galvão – afirmam que Euclides da Cunha escrevia em jornal, mas não era propriamente um jornalista.

Em breve conheceremos os seus despachos sobre a quarta expedição contra Antônio Conselheiro em Canudos (1897) e estaremos em condições de julgar se são reportagens ou literatura. Ou – melhor ainda – se são um produto transgênico, combinação de jornalismo e literatura. Euclides seria assim o expoente de um new journalism gorado, que não chegou a maturar porque o autor, para sobreviver, precisou dedicar-se a outras atividades.

O Estadão está oferecendo a jornalistas e leitores uma esplêndida oportunidade para degustar um vintage da melhor qualidade. Num tempo em que as vindimas são tantas e inexpressivas que ninguém as distingue.


OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET

COBERTURA DO PODER
Pobres deles, tão perseguidos
Eugênio Bucci

Primeiro ato

Quando o escândalo no Senado ainda não era tão escandaloso assim, quando tudo não passava de discussões em torno de uma residência suntuosa à beira do lago, ou seja, uma autêntica mansão, cujo proprietário, então diretor-geral do mesmo Senado, julgara por bem não declará-la como sua à Receita Federal; quando ainda não se sabia nem a metade do que hoje se sabe, o presidente da casa, senador José Sarney, reclamou da imprensa.

"Nós estamos sendo o que popularmente se chama de boi de piranha. Enquanto tudo passa, nós ficamos aqui na frente. E os grandes problemas não estão surgindo. Está se discutindo pequenas coisas" [ver no Globo Online (12/3/2009) ou na Folha de S.Paulo (13/3/2009), na matéria "Sarney usa polícia do Senado para vigiar casa"].

Ah, sim, havia também, naqueles dias, um questionamento sobre o uso de agentes da segurança do Senado para vigiar a casa de Sarney em São Luís (MA), mas isso não vem ao caso. Logo entrariam em pauta as horas extras, as quase duzentas diretorias e, mais recentemente, as contas de celulares, os jatinhos fretados e, finalmente, a idéia – lançada pelo senador Cristovam Buarque – de se submeter a plebiscito a manutenção ou a extinção do Parlamento. Está tudo aí, nas páginas dos jornais – páginas que, na opinião de alguns, como se sabe, são a fonte de todos os problemas. Esses jornais não têm coração. Fizeram do pobre Senado "o que popularmente se chama de boi de piranha".

Segundo ato

Estado de S.Paulo de quinta-feira (9/4), página A8: "Câmara culpa mídia por imagem negativa". Lá vamos nós outra vez com a mesma ladainha. O discurso, na véspera, foi do presidente da Câmara, Michel Temer, em plenário. Eis o que ele disse:

"Menos as notícias, talvez mais as manchetes e as fotos visam colocar a Câmara dos Deputados em confronto com a opinião pública. Veja que a cultura política vai sendo construída de uma maneira que, se nós não repudiarmos um pouco, não tivermos uma ação muito concreta em relação a isso, não estaremos fazendo um benefício à democracia."

Outros deputados o secundaram, à esquerda e à direita. "Os editores estabelecem um tema e os jornalistas são obrigados a enquadrar a realidade naquele tema", diagnosticou o líder do PT, Cândido Vaccarezza. "Não importa o que o deputado fale. Isso pega a todos. Não contribui para a democracia." Na seqüência, falou também Ronaldo Caiado, do DEM: "É inaceitável. Não é possível essa campanha difamatória que aumenta a cada dia".

E isso por quê? Simplesmente porque fora noticiado, naqueles dias, que a Câmara destinaria 80 milhões de reais para reformar apartamentos funcionais dos parlamentares. Os representantes do povo, do PT ao DEM, passando pelo PMDB, discordam entre si sobre as mais diversas matérias, mas, nisso, estão de acordo: a culpada é a imprensa.

Terceiro ato

Quanto mais eu ouço autoridades reclamando de jornalistas, mais tenho vontade de ler jornais. Algo estão querendo esconder de mim. Ainda bem que existe a imprensa. Ainda bem que essas autoridades estão incomodadas. A existência de órgãos noticiosos que pelo menos procuram ser independentes é uma garantia muito maior do que a gente normalmente imagina.

Dia desses, eu conversava com um amigo meu que mora numa cidade do interior. Ele estava encafifado com um e-mail que recebera, dando conta de uma falcatrua envolvendo familiares de gente que despacha no Palácio do Planalto. Nada de muito excepcional: todos os dias circulam mensagens caluniosas na internet – e algumas até parecem verdadeiras. Às vezes, confundem as pessoas. E ele estava confuso. Foi então que, falando sozinho, enquanto eu apenas escutava, meu amigo foi chegando por sua conta a uma conclusão sensata. Ele, que não morre de amores pela revista Veja, disse, um tanto aliviado: "Ah, pensa bem: você acha que se isso fosse verdade a Veja ia deixar barato?"

Trocando em miúdos: o meu interlocutor, embora seja ácido em relação ao comportamento habitual dos meios de comunicação, sente segurança de viver num país em que a imprensa pode fiscalizar o poder, pode denunciar o que quer que seja. Mais ainda: ele sente que os jornalistas estão vigilantes, mesmo que de vez em quando passem das medidas. Ele confia que, se alguma prática ilícita estiver em curso, os repórteres, mais cedo ou mais tarde, vão descobrir e vão publicar. Essa possibilidade não resolve tudo, mas pelo menos o tranqüiliza. Melhor assim.

Quarto ato

A opinião pública está perplexa. Além da Câmara e do Senado, há histórias mal contadas também na Assembléia Legislativa do estado de São Paulo. Reportagens de Silvia Amorim no Estadão (6 e 7/4) revelaram centenas de contratações sem concurso e privilégios injustificados de ex-integrantes das mesas diretoras, que conservam gabinetes especiais e outras regalias.

Alguém minimamente ajuizado acha mesmo que tudo não passa de uma campanha difamatória? Alguém acha que não existem caixas pretas? Alguém não gostaria de saber para onde vai o dinheiro do contribuinte? Por acaso alguém acha que não é nosso direito conhecer em detalhes todas essas contas? Será que alguém acha que abrir os números do Senado, da Câmara e das Assembléias não seria um benefício para a democracia?

Sexta-feira da Paixão, meio-dia, mais ou menos. Eu caminho bestamente sob o sol pelas alamedas da cidade universitária, onde sou professor nos dias úteis. Não ando só. A meu lado, uma advogada vai conversando comigo, enquanto percorremos um itinerário incerto entre os prédios vazios, nas cercanias da Politécnica da USP.

"A imprensa é a melhor forma que nós temos de controle social", ela argumenta. Eu concordo. A expressão "controle social", nesse caso, é mais que adequada. Imagino um conselho de representantes sindicais e representantes "da sociedade civil" encarregado de exercer "controle social" em instituições públicas. Seus integrantes ganhariam diárias, além de passagens e hospedagem em Brasília. Nada contra os conselhos, por favor, mas vale perguntar: será que fariam um controle mais eficiente do que esse que é exercido por uma imprensa livre? Modestamente, penso que não.

A imprensa é sensível para as necessidades do público, é especialmente sensível para as carências e aspirações da sociedade. Ela vive disso. Exatamente por isso, ecoa de modo relativamente eficaz os reclamos dos cidadãos.

Ainda bem que existe imprensa. Ainda bem que existe opinião pública. Ainda bem que ela está perplexa. Seguimos o passeio e mudamos de assunto. Aquele monumento de colunas em granito tem cara de fascista. O prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo precisa de uma restauração. Que filme a gente podia ver hoje à tarde?

Quinto ato

Falei aqui da revista Veja e vou falar de novo. Na edição corrente (nº 2108, de 15/4/2009), ela deu capa para a reforma do Enem, que será o novo critério de seleção para centenas de universidades brasileiras, públicas e privadas. Reproduzo, a seguir, o primeiro parágrafo da reportagem, assinada por Camila Pereira, Monica Weinberg e Renata Betti:

"Mais de 5 milhões de jovens se preparam neste ano para o vestibular, etapa crucial na vida de um estudante brasileiro. Em 2010, cerca de 1,5 milhão conseguirão ingressar numa universidade – mais gente do que nunca. A novidade é que parte desse grupo não fará o tradicional vestibular, mas será avaliada por meio de outro sistema, anunciado pelo Ministério da Educação (MEC) na semana passada. Trata-se da maior mudança já feita no concurso desde 1911, quando ele surgiu no Brasil. Uma verdadeira revolução. Diga-se desde logo: se as intenções forem cumpridas, o novo sistema não prejudicará o mérito. Os melhores alunos continuarão a ser os escolhidos."

Parece um discurso panfletário contra o governo Lula? Nem de longe. Aliás, se essas mesmas palavras tivessem sido pronunciadas pelo presidente da República, alguém logo veria nelas uma reedição do "nunca antes na História deste país". E, no entanto, trata-se de uma reportagem da Veja. Uma reportagem baseada em fatos e em planos bem delineados. Uma reportagem que recolhe depoimentos de gente do ramo, com autoridade na área. Uma reportagem que transmite ao leitor uma visão positiva da reforma pretendida pelo MEC.

Penso comigo: como é que os adeptos das teorias conspiratórias da mídia explicariam essa capa? Qual a intenção oculta que veriam por trás? Qual a armação? Será mais uma jogada maquiavélica para beneficiar a candidatura de José Serra?

Sexto ato

Aqui estou eu, cara a cara com a tela do meu computador. Sei que, outra vez, os leitores deste Observatório irão se insurgir contra mim. Alguns talvez queiram me injuriar outra vez. Dirão que defendo a "mídia dos patrões". Afirmarão que sou sustentado por organizações da direita. Olho para a tela, acendo um cigarro e prossigo. Quase sorrio. Passa pela minha lembrança uma canção de João Bosco e Aldir Blanc: "Eu estou de bem comigo, e isso é difícil".

Algo de estrutural está mudando no Brasil, e os fanáticos das teorias conspiratórias não perceberam. Antes, até alguns anos após o fim da ditadura militar, o poder político e o poder da mídia se entrelaçavam perigosamente, em promiscuidade – com exceções conhecidas. À medida que a democracia ganhou vigor, complexidade e ritmo, esses campos se distanciaram um pouco. A imprensa – ainda bem, outra vez – revela as contradições sociais. Dá voz a elas, ainda que de forma desequilibrada. A mídia – não gosto dessa palavra como sinônimo de imprensa, mas ela me escapou –, senhoras e senhores, a mídia é contraditória. Espelha conflitos. A imprensa não pode ser compreendida pelo prisma dos ordenamentos partidários. Muitas vezes, infelizmente, ela se deixa tragar por esse tipo de alinhamento, mas, na sua essência, ela segue outra lógica – e cresce à medida que sabe ser fiel a essa outra lógica.

É por isso que tenho insistido: a imprensa não fez do Senado "a bola da vez" ou "um boi de piranha". Ela não está em campanha para desmoralizar a Câmara dos Deputados. Ela comete erros, muitos e graves, mas, na sua essência, ela se afirma quando fiscaliza o poder em favor da cidadania. E, em linhas gerais, é isso o que explica o intenso noticiário sobre a administração do Poder Legislativo. É isso também que explica a pauta sobre a reforma do vestibular por iniciativa do MEC, que vem despertando comentários favoráveis em tantos veículos diferentes. É controle social, como alguém me disse, de modo ponderado e perspicaz.

Tenho, no currículo, um amontoado de escritos críticos contra as principais empresas de – vá lá – mídia deste país. Contra quase todas. Não retiro nada do que escrevi. Não retiro uma vírgula. Com a mesma tranqüilidade, escrevo agora que, hoje, no Brasil, o nosso maior problema não é a imprensa – embora esta ainda tenha muitos problemas a resolver. O nosso maior problema está no poder público. Mesmo as transformações regulatórias que a mídia requer dependem, hoje, mais do poder público do que da própria mídia. A democracia precisa de benefícios, como gostam de dizer os deputados. Mas esses benefícios precisam vir da transparência que eles mesmos forem capazes de adotar para as suas próprias prestações de contas. Precisam vir da racionalidade do nosso sistema de ensino. Ainda bem, digo de novo, ainda bem que não dependem do julgamento que as autoridades têm feito dos nossos jornalistas.

A imprensa que precisamos ter é uma imprensa independente e plural, que não aceite ser controlada por governos, por anunciantes, por autoridades e pelos loquazes pregadores da conspiração permanente. O primeiro passo para quem quer melhorá-la é reconhecer e fortalecer sua independência. O resto vai se ajeitando no caminho.


PERGUNTAS

E-mails:

Lorena Rogêdo
Prezado Alexandre, tenho 28 anos, sou formada em Direito pela UFMG, tenho pós-graduação na Alemanha e já trabalhei até na ONU de Viena. Agora que voltei ao Brasil, meu maior desejo seria ingressar no campo do jornalismo, mas o fato de ser graduada em outro curso tem fechado as portas para mim. Você considera que há a possibilidade de eu conseguir alguma oportunidade nesse ramo sem o curso de jornalismo? Pergunto a você pois sei que teve uma experiência na Alemanha e lá não há a exigência desse pré-requisito. Agradeço imensamente.

Neivaldo Rodrigues, Itaperuna / RJ
Gostaria de saber o que é preciso para abrir um jornal popular. Obrigado.


Telefonemas:

Álvaro Sales, Minas Gerais
Freeland, de certa forma os jornais populares e o jornalismo feito por eles não estaria deixando de lado o potencial intelectual e criativo que o jornalismo pode ter?

João Simões, Minas Gerais
Como a mídia pode trabalhar divulgando e denunciando atividades do governo se ela depende dele?

André Messias, Campo Grande / MS
Antonio, há diferenças entre o jornalismo popular e o jornalismo comunitário?

Sanderley Firmino, Vitória / ES
Como é visto o ensino de jornalismo social / popular nas faculdades? Os cursos de jornalismo estão preparados para esta tendência?

Siméia Santana, Rio de Janeiro
A diferença do público leitor dos jornais ditos populares e dos demais jornais é basicamente o nível de instrução dessas pessoas?

Vinícius Gomes, Niterói / RJ
Há como os jornais populares apelarem menos ao sensacionalismo e comentarem mais temáticas sociais?

Carlos Henrique Teixeira, São Paulo – Economista
Qual a motivação de um jornal popular?

José Ricardo, Jaboatão dos Guararapes / PE
O Observatório da Imprensa é um programa excelente! Parabéns e beijos a todos da redação!

Niel Cha, Pernambuco
O que faz um jornal popular superar em vendas jornais tradicionais como o “Diário de Pernambuco”?

Antônio Castiglioga, Rio de Janeiro
Octávio, o viés do jornal “Extra” não seria popularesco, mais apelativo do que popular?

José Eliomar, Natal / RN – Sociólogo
Antonio, a expressão “jornalismo popular” não desqualifica o jornalismo e serve apenas como apelo mercadológico?

Thalita Prado da Silveira, Niterói / RJ – Psicóloga
O surgimento de personagens populares como o João Buracão não ocasiona a perda da credibilidade do discurso político no jornalismo, já que transfere a voz do povo para personagens fictícios?

Alessandro Carvalho, Minas Gerais – Radialista
Qual o futuro do jornal impresso?

Adriano Santos, Nova Iguaçu / RJ – Comerciante
Acredito que os jornais populares prestam um serviço negativo para a sociedade, já que se preocupam muito mais com a novela das oito do que com coisas importantes. A vantagem está apenas no preço, que prova que é possível fazer um jornalismo barato.

Astrogildo Milagres, Santo Antônio de Pádua / RJ – Jornalista
Será que essas empresas que se destinam a fazer jornalismo popular estão querendo apenas aumentar o número de leitores ou estão preocupadas em fazer jornalismo?

Wellington José, Recife / PE
O jornalismo popular estaria elevando ao estrelato criminosos que se vêem como figuras públicas de grande projeção?

Maria Cândida Guimarães, Minas Gerais – Jornalista e Professora
Será que o público que não lia está se acostumando a realmente ler ou estão se habituando apenas a ler sobre crimes, escândalos e outras pautas desses jornais?

Patrícia Guedes, Aracaju / SE
Octávio, os jornais populares precisam expor mulheres seminuas para vender?

Mário Neves Campos Filho, São Paulo
Antonio, por que os jornais que se identificam como “grande imprensa” não conseguem baratear o custo de seus exemplares?



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