RESUMO DO PROGRAMA
JORNAIS POPULARES
O Observatório da Imprensa exibido
na terça-feira (14/04) pela TVBrasil discutiu o rumo dos jornais
populares no Brasil. Em meio à crise financeira que abala a mídia
impressa em todo o mundo, os veículos de perfil popular parecem ter sido
os menos afetados. A receita para cativar os leitores é simples:
prestação de serviços, noticiário da cidade, apelo sexual, informações
sobre crimes e fofocas do mundo das celebridades. Textos curtos, leves e
muita fotografia em uma clara aproximação com o formato da internet. Um
produto para consumo imediato. A evolução do modelo - se comparado com
os anos de 1960, por exemplo - é incontestável. Não é mais o "jornal que
sai sangue ao ser espremido". Mas política, macroeconomia e noticiário
internacional continuam fora da pauta cotidiana dos jornais populares.
Participaram do programa ao vivo
representantes de três veículos que têm experiência consolidada em
jornalismo popular. No Rio de Janeiro, Alberto Dines recebeu o diretor
de Redação de O Dia, Alexandre Freeland. Formado pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Freeland ocupa o posto de
direção há dois anos. Também no Rio de Janeiro, participou Octávio
Guedes, editor-chefe do Extra, do grupo Infoglobo, que edita O
Globo e Expresso. Formado pela UFF, trabalhou no Jornal do
Brasil, em O Globo e O Dia. Em 1998 passou a integrar
a equipe que lançou o jornal Extra. Em São Paulo, o convidado foi
Antonio Rocha Filho, secretário de Redação do Agora São Paulo. O
jornalista participou do processo de criação e lançamento da publicação.
Trabalha há 20 anos no Grupo Folha, onde já exerceu diversas funções.
Mídia na Semana
Antes de iniciar o debate ao vivo, na
coluna "A Mídia na Semana", Dines comentou os fatos de destaque dos
últimos dias. O caso do jogador Adriano, do Inter de Milão, foi o
primeiro assunto da coluna. Para Dines, a imprensa não respeita
conflitos pessoais. "O carnaval que se fez com a sua vida pessoal é um
exemplo da perversa celebridade promovida pelos meios de comunicação. A
submissão às manchetes em alguns casos pode ser pior do que a
escravidão", criticou.
O outro tema foi a cobertura da
imprensa sobre os escândalos envolvendo o banqueiro Daniel Dantas e o
delegado Protógenes Queiroz: "Ricardo Noblat levantou ontem (13/04) a
questão - de que lado você está?". O jornalista acredita que a polêmica
que corre em blogs e comunidades da internet é enganosa. "Daniel Dantas
está sendo processado porque cometeu irregularidades e o delegado da PF
está sendo investigado porque cometeu arbitrariedades, exorbitou. Quem
está efetivamente do lado da lei deve evitar os engajamentos. Sobretudo
no caso de jornalistas", advertiu.
Momento de consolidação
Ainda antes do debate ao vivo, em
editorial, Dines comentou que enquanto jornais deixam de circular em
todo o mundo, no Brasil o fenômeno da imprensa popular consolida-se. "A
melhoria do transporte de massas e a estabilidade da moeda a partir de
1995 acionaram um processo de ascensão social do qual se beneficiaram
muitos setores da economia. Principalmente a indústria jornalística",
disse. O jornalista alertou que o "deslumbramento" com este modelo de
imprensa não deve esconder as preocupações com a chamada "imprensa de
qualidade".
A reportagem exibida no programa
mostrou a experiência do Super Notícia, publicado em Belo
Horizonte. Lançado há sete anos, o jornal está entre os mais vendidos no
país. Um dos fatores que contribui para o sucesso é a distribuição
inovadora. Além das convencionais bancas de jornal, também é oferecido
por vendedores ambulantes em pontos de grande circulação e em postos
alternativos, como padarias. E o preço é convidativo: R$ 0,25 por
exemplar. Lúcia Castro, Editora Executiva do Super Notícia,
explicou que o jornal não só tirou leitores dos concorrentes, como
também trouxe um público novo. O Diretor Executivo do jornal, Teodomiro
Braga, ressaltou que é uma preocupação da empresa atender aos leitores
de todas as classes sociais, por isto o diário é encontrado também em
favelas e comunidades carentes de Belo Horizonte.
O programa entrevistou o jornalista
Arnaldo César, que foi Editor Executivo de O Dia. A questão de
fundo que precisa ser discutida, na opinião do jornalista, não é o
crescimento ou a queda na circulação dos jornais – independentemente do
perfil em que estejam enquadrados. A grande preocupação de Arnaldo César
é sobre o futuro dos jornais impressos. Desde a virada do século, há uma
migração de leitores dos impressos para a internet. Os jornais estão
conseguindo exercer o papel de formadores da opinião pública do país,
imprescindível em um ambiente democrático?
Uma volta ao passado
No debate ao vivo, Dines comentou que o
fenômeno dos jornais populares não é novo. Hoje, tenta-se "reinventar o
que sempre existiu", disse Dines em referência a jornais do século
passado. O jornalista ressaltou que o Extra, por exemplo,
pertence à Infoglobo, empresa que tem tradição em jornalismo popular.
O Globo e A Noite, no passado, encaixavam-se no perfil de
vespertino popular. Já O Dia, mantém-se no mercado há mais de 50
anos sempre com o mesmo modelo, mas com alterações na linha editorial. O
Grupo Folha também atua no segmento há décadas. Para Octávio Guedes "não
está se inventando a roda". O editor-chefe do Extra relembrou que
no número de lançamento de O Globo, havia uma matéria especial
sobre um problema que ainda é assunto de destaque nos jornais populares,
os buracos nas ruas da cidade. Octávio Guedes ponderou que não há
diferença entre jornalismo popular e "de qualidade". O que difere é "bom
ou mau jornalismo".
Antonio Rocha Filho comentou que a
estabilidade da moeda alcançada em meados dos anos de 1990 propiciou o
ressurgimento dos jornais populares. O Agora foi produto deste
período em que as empresas de comunicação passaram a investir em novos
projetos. Desde o início, apresentou um modelo diferente dos jornais que
circulavam em São Paulo ao privilegiar a prestação de serviços para o
leitor. O que é importante para o cotidiano do leitor em diversos
setores, como saúde e trabalho, é notícia. Nos últimos anos, o Agora
passou a focar na chamada economia popular, voltando-se para a cobertura
da Previdência Social, para atender a uma demanda dos leitores. Para o
secretário de Redação do Agora, o que difere o jornalismo popular
de hoje do que foi publicado no passado é o sensacionalismo. Atualmente,
há conteúdo de apelo popular, mas com menor destaque.
A nomenclatura aplicada aos modelos de
jornalismo também foi criticada por Alexandre Freeland. Se o jornalismo
classificado como popular é dirigido para as classes econômicas menos
favorecidas, o "jornalismo de qualidade" deveria ser voltado somente
para a elite? O diretor de Redação de O Dia afirmou que não faz
"jornalismo para jornalistas", mas sim para o leitor. O jornal deve ser
um produto útil. Freeland relembrou que o salto de qualidade do jornal
ocorreu nos anos de 1990, na gestão de Ary Carvalho. Houve uma "injeção
de qualidade" no jornal, mas com o foco no mesmo tipo de leitor. O
jornalista ponderou que há espaço para política e economia nos jornais
populares e citou como exemplo uma recente denúncia sobre funcionários
fantasmas da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro.
O leitor que participa
No Rio de Janeiro, um boneco de pano de
tamanho humano faz sucesso entre os leitores do Extra. É o "João
Buracão". Confeccionado por um borracheiro carioca para chamar a atenção
para um buraco que, apesar dos constantes pedidos, não era tapado pelas
autoridades, o boneco foi descoberto por um repórter do jornal e logo
foi "adotado" pelo Extra. Agora, "João Buracão" é disputado por
moradores de ruas esburacadas. Problemas que levavam meses para serem
resolvidos desaparecem em questão de dias. O leitor denuncia, "João
Buracão" vai ao local, o jornal publica a notícia e logo depois o buraco
é tapado. Uma dor de cabeça para prefeitos e uma ferramenta para os
leitores. Recentemente, O Dia lançou o "Repórter Lampião", um
concorrente para o boneco. Leitores levam um lampião para ruas com
recorrentes problemas de iluminação pública para forçar as autoridades a
tomar providências.
Dines perguntou sobre as
características do jornalismo popular: o "mix" da composição da
informação é o mesmo do chamado jornalismo de qualidade, incluindo doses
de política, economia e internacional? "O jornalismo popular fala do que
o povo quer falar ou já está falando", disse Freeland. O jornalista
comentou que a participação dos leitores na produção do jornal é
imprescindível. Freeland revelou que na cobertura do caso do jogador
Adriano, o "principal repórter" foi o leitor. Compradores do jornal
telefonavam para a redação para oferecer informações sobre o paradeiro
do atacante. "Neste caso, o leitor pautou e foi repórter", disse.
A questão da concorrência com jornais
gratuitos foi discutida no debate. Dines questionou se a gratuidade
interfere na credibilidade do produto. Para Octávio Guedes, jornais como
Metro e Destak devem se questionar se estão falando para o
público certo e com o tom adequado. O jornalista comentou que no Rio de
Janeiro há jornais compactos "semi-gratuitos", que custam entre R$0,25 e
R$0,60. Voltados para a venda em transportes públicos, atendem as
classes C, D e E. Um fenômeno curioso levantado pelo jornalista foi a
reciclagem dos exemplares. Ao final da viagem de trem ou ônibus, depois
de ler o jornal, consumidores revendem o produto por um terço do preço a
outros passageiros.
Jornalismo "quase" de graça
Alexandre Freeland comentou que o fato
de pagar pelo jornal estimula o leitor a cobrar qualidade. A venda em
banca funciona como uma "assinatura" renovada diariamente. É um
investimento que "tem que dar retorno", frisou. Freeland considera que
os gratuitos, apesar da boa qualidade técnica, não "têm muita
personalidade". Em São Paulo, o fenômeno não se consolidou. Para Antonio
Rocha Filho, apesar de bem executados, os jornais gratuitos "não atendem
ao que se propõem".
A migração dos leitores da mídia
impressa para a internet foi outro tema discutido no Observatório.
Octávio Guedes considera que a concorrência com a web obriga os jornais
em papel a buscar sempre o melhor. O "jornalista preguiçoso" não tem
mais espaço no mercado de trabalho. Com a velocidade da internet, a
busca por notícias exclusivas para não repetir a informação deve ser
constante. Quando um jornalista comparece a uma entrevista coletiva e
chega à redação para escrever a matéria que será publicada no dia
seguinte, tanto a chefia quanto os internautas já sabem as informação
por meio da rede mundial. "Está cada vez mais difícil ser repórter",
disse. Para Alexandre Freeland, a internet é uma ameaça à primeira
vista, mas pode ser uma aliada ao obrigar o constante aperfeiçoamento. É
uma importante ferramenta de diálogo com o leitor. Antonio Rocha Filho
ressaltou que a busca por notícias na rede é "pura e simples", cabe ao
jornal impresso uma análise mais aprofundada dos fatos.
EDITORIAL
Bem-vindos
ao Observatório da Imprensa.
Quando a imprensa é
notícia, geralmente a notícia não é boa, alguma coisa está errada.
Nas duas últimas décadas, o noticiário
sobre a mídia não tem sido alentador. Depois das bolhas relacionadas com
as novas tecnologias, vieram os modismos que descaracterizaram a
essência da imprensa. Agora estamos em plena temporada das catástrofes
em série, com o fechamento de jornais em todo o mundo, alguns já
centenários.
A boa notícia é brasileira: enquanto a
chamada grande imprensa estaciona e patina nas mesmas tiragens,
consolida-se o fenômeno da imprensa popular. Aquilo que aconteceu na
Inglaterra e Estados Unidos no fim do século 19 começa a acontecer aqui
no início do século 21.
A melhoria do transporte de massas e a
estabilidade da moeda a partir de 1995 acionaram um processo de ascensão
social do qual beneficiaram-se muitos setores da economia.
Principalmente a indústria jornalística.
Nesta edição do Observatório da Imprensa
vamos falar de um mercado que em 2008 exibiu cerca de um milhão e
duzentos mil exemplares diários, o que pode significar, no mínimo, o
dobro de leitores. Leitor não é um mero consumidor, é um cidadão que se
integra ao processo de produção de conhecimento. processo irreversível,
sem volta.
Mas este deslumbramento com a imprensa
popular não deve esconder as preocupações com a chamada imprensa de
qualidade. Sem ela, nivelamos tudo por baixo e quem paga é a democracia.
ARTIGO
Por Alberto Dines
EFEMÉRIDES,
RELEITURAS
Euclides volta ao Estadão. Em
grande estilo
Alberto Dines
Há tempos que nossa imprensa não
consegue organizar uma efeméride com tanta inteligência e propriedade. O
centenário da morte de Euclides da Cunha deveria ser lembrado no próximo
dia 15 de agosto (sábado), mas o Estado de S.Paulo preferiu
encarar a tarefa com uma saudável disposição jornalística.
No lugar das maçarocas habituais que
serão empilhadas junto aos interessantíssimos "cadernos especiais" que
nunca são lidos, a direção do jornalão preferiu produzir uma temporada
euclideana iniciada em março e que poderá estender-se até o fim do ano.
Euclides da Cunha é um banquete para
todos os gostos: os fãs de dramas sentimentais e tragédias gregas já
foram regalados com o seriado da Globo (Desejo) apresentando em
1990 (reprisado em 1995-1996). A sangrenta e shakespeariana tragédia em
Piedade (ou A Tragédia da Piedade ou ainda Uma Tragédia
Brasileira), passional e patética, sem vilões, quanto mais lembrada
mais compaixão desperta.
O soberbo Os Sertões, os livros
subseqüentes, os relatos sobre o Alto Purus e a obra póstuma trazem um
tom telúrico que contrasta vivamente com a noção amena de "Brasil
brasileiro, mulato inzoneiro".
Reportagem e reedição
As rememorações do Estadão
começaram com a série de reportagens realizadas por Daniel Piza e Tiago
Queiroz (fotos), no início de março, no território percorrido por
Euclides no Alto Purus. E prosseguiram auspiciosamente na edição de
domingo (12/4, caderno Cultura, pág. D-14) com o início da
republicação de todos os textos e reportagens produzidos a convite do
amigo-camarada Júlio Mesquita na antiga A Província de S. Paulo
(hoje O Estado de S. Paulo).
Com ortografia atualizada e comentados
por Walnice Nogueira Galvão – nossa euclidista mor –, os textos de
Euclides deixam a primeira página do jornal para ganhar uma dimensão
poligráfica, cósmica, que talvez não tivessem em 1888 (quando começaram
a ser publicados).
O primeiro texto ("A Pátria e a
Dinastia"), de 22 de dezembro de 1888, soa como um ensurdecedor ataque
ao monarquismo pouco antes da sua derrubada. Ensurdecedor porque o
fraseado e o palavreado são tão elaborados que lembram o clangor de uma
poderosa banda marcial cuja força é perceptível, mas não seus acordes.
Graças ao Estadão estamos
percorrendo um fascinante museu da imprensa e da cultura, examinando um
texto perfeitamente entendido pelos 1.200 leitores que compraram a
primeira edição de Os Sertões (1902), convertido 121 anos depois
num quase enigma idiomático. A primeira frase tem doze linhas (nas
medidas de hoje), três vírgulas, cinco adjetivos, dois advérbios de
modo. E apesar do emaranhado gongórico, arrasadora.
Euclides e Hipólito
Esta viagem pelo jornalismo do fim do
século 19 é um complemento à releitura do texto de abertura da edição de
junho de 1808 do Correio Braziliense. Os dois autores, Hipólito
da Costa e Euclides da Cunha, nasceram com uma diferença de 92 anos
(1774 e 1866, respectivamente) e exibem curiosas semelhanças.
Polígrafos, multidisciplinares, um era
maçom e o outro, positivista. Hipólito era um atento observador das
transformações do seu tempo, anticlerical, antiescravista, fascinado
pela ciência e novas tecnologias, democrata (admirador da revolução
norte-americana, porém sem coragem de assumir-se antimonarquista).
Euclides era um cientista, darwinista, filósofo, convicto democrata,
ferrenhamente republicano, pan-americanista.
A convergência que nos interessa é a
relação com o jornalismo. Hipólito é o pai do jornalismo brasileiro e
seu primeiro teórico. Euclides é o primeiro grande repórter, testemunha
ocular e, ao mesmo tempo, pensador.
Jornalistas? No tempo de Hipólito, as
palavras journalisme (em francês) e jornalismo não haviam sido
cunhadas. No tempo de Euclides, o jornal era composto por uma soma
enorme de informações telegraphicas, entremeadas por opiniões,
geralmente veementes. Alguns estudiosos – como a própria Walnice
Nogueira Galvão – afirmam que Euclides da Cunha escrevia em jornal, mas
não era propriamente um jornalista.
Em breve conheceremos os seus despachos
sobre a quarta expedição contra Antônio Conselheiro em Canudos (1897) e
estaremos em condições de julgar se são reportagens ou literatura. Ou –
melhor ainda – se são um produto transgênico, combinação de jornalismo e
literatura. Euclides seria assim o expoente de um new journalism
gorado, que não chegou a maturar porque o autor, para sobreviver,
precisou dedicar-se a outras atividades.
O Estadão está oferecendo a
jornalistas e leitores uma esplêndida oportunidade para degustar um
vintage da melhor qualidade. Num tempo em que as vindimas são tantas
e inexpressivas que ninguém as distingue.
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET
COBERTURA DO PODER
Pobres deles, tão perseguidos
Eugênio Bucci
Primeiro ato
Quando o escândalo no Senado ainda não
era tão escandaloso assim, quando tudo não passava de discussões em
torno de uma residência suntuosa à beira do lago, ou seja, uma autêntica
mansão, cujo proprietário, então diretor-geral do mesmo Senado, julgara
por bem não declará-la como sua à Receita Federal; quando ainda não se
sabia nem a metade do que hoje se sabe, o presidente da casa, senador
José Sarney, reclamou da imprensa.
"Nós estamos sendo o que
popularmente se chama de boi de piranha. Enquanto tudo passa, nós
ficamos aqui na frente. E os grandes problemas não estão surgindo.
Está se discutindo pequenas coisas" [ver no Globo Online (12/3/2009)
ou na Folha de S.Paulo (13/3/2009), na matéria "Sarney usa
polícia do Senado para vigiar casa"].
Ah, sim, havia também, naqueles dias,
um questionamento sobre o uso de agentes da segurança do Senado para
vigiar a casa de Sarney em São Luís (MA), mas isso não vem ao caso. Logo
entrariam em pauta as horas extras, as quase duzentas diretorias e, mais
recentemente, as contas de celulares, os jatinhos fretados e,
finalmente, a idéia – lançada pelo senador Cristovam Buarque – de se
submeter a plebiscito a manutenção ou a extinção do Parlamento. Está
tudo aí, nas páginas dos jornais – páginas que, na opinião de alguns,
como se sabe, são a fonte de todos os problemas. Esses jornais não têm
coração. Fizeram do pobre Senado "o que popularmente se chama de boi de
piranha".
Segundo ato
Estado de S.Paulo
de quinta-feira (9/4), página A8: "Câmara culpa mídia por imagem
negativa". Lá vamos nós outra vez com a mesma ladainha. O discurso, na
véspera, foi do presidente da Câmara, Michel Temer, em plenário. Eis o
que ele disse:
"Menos as notícias, talvez mais as
manchetes e as fotos visam colocar a Câmara dos Deputados em
confronto com a opinião pública. Veja que a cultura política vai
sendo construída de uma maneira que, se nós não repudiarmos um
pouco, não tivermos uma ação muito concreta em relação a isso, não
estaremos fazendo um benefício à democracia."
Outros deputados o secundaram, à
esquerda e à direita. "Os editores estabelecem um tema e os jornalistas
são obrigados a enquadrar a realidade naquele tema", diagnosticou o
líder do PT, Cândido Vaccarezza. "Não importa o que o deputado fale.
Isso pega a todos. Não contribui para a democracia." Na seqüência, falou
também Ronaldo Caiado, do DEM: "É inaceitável. Não é possível essa
campanha difamatória que aumenta a cada dia".
E isso por quê? Simplesmente porque
fora noticiado, naqueles dias, que a Câmara destinaria 80 milhões de
reais para reformar apartamentos funcionais dos parlamentares. Os
representantes do povo, do PT ao DEM, passando pelo PMDB, discordam
entre si sobre as mais diversas matérias, mas, nisso, estão de acordo: a
culpada é a imprensa.
Terceiro ato
Quanto mais eu ouço autoridades
reclamando de jornalistas, mais tenho vontade de ler jornais. Algo estão
querendo esconder de mim. Ainda bem que existe a imprensa. Ainda bem que
essas autoridades estão incomodadas. A existência de órgãos noticiosos
que pelo menos procuram ser independentes é uma garantia muito maior do
que a gente normalmente imagina.
Dia desses, eu conversava com um amigo
meu que mora numa cidade do interior. Ele estava encafifado com um
e-mail que recebera, dando conta de uma falcatrua envolvendo familiares
de gente que despacha no Palácio do Planalto. Nada de muito excepcional:
todos os dias circulam mensagens caluniosas na internet – e algumas até
parecem verdadeiras. Às vezes, confundem as pessoas. E ele estava
confuso. Foi então que, falando sozinho, enquanto eu apenas escutava,
meu amigo foi chegando por sua conta a uma conclusão sensata. Ele, que
não morre de amores pela revista Veja, disse, um tanto aliviado:
"Ah, pensa bem: você acha que se isso fosse verdade a Veja ia
deixar barato?"
Trocando em miúdos: o meu interlocutor,
embora seja ácido em relação ao comportamento habitual dos meios de
comunicação, sente segurança de viver num país em que a imprensa pode
fiscalizar o poder, pode denunciar o que quer que seja. Mais ainda: ele
sente que os jornalistas estão vigilantes, mesmo que de vez em quando
passem das medidas. Ele confia que, se alguma prática ilícita estiver em
curso, os repórteres, mais cedo ou mais tarde, vão descobrir e vão
publicar. Essa possibilidade não resolve tudo, mas pelo menos o
tranqüiliza. Melhor assim.
Quarto ato
A opinião pública está perplexa. Além
da Câmara e do Senado, há histórias mal contadas também na Assembléia
Legislativa do estado de São Paulo. Reportagens de Silvia Amorim no
Estadão (6 e 7/4) revelaram centenas de contratações sem concurso e
privilégios injustificados de ex-integrantes das mesas diretoras, que
conservam gabinetes especiais e outras regalias.
Alguém minimamente ajuizado acha mesmo
que tudo não passa de uma campanha difamatória? Alguém acha que não
existem caixas pretas? Alguém não gostaria de saber para onde vai o
dinheiro do contribuinte? Por acaso alguém acha que não é nosso direito
conhecer em detalhes todas essas contas? Será que alguém acha que abrir
os números do Senado, da Câmara e das Assembléias não seria um benefício
para a democracia?
Sexta-feira da Paixão, meio-dia, mais
ou menos. Eu caminho bestamente sob o sol pelas alamedas da cidade
universitária, onde sou professor nos dias úteis. Não ando só. A meu
lado, uma advogada vai conversando comigo, enquanto percorremos um
itinerário incerto entre os prédios vazios, nas cercanias da Politécnica
da USP.
"A imprensa é a melhor forma que nós
temos de controle social", ela argumenta. Eu concordo. A expressão
"controle social", nesse caso, é mais que adequada. Imagino um conselho
de representantes sindicais e representantes "da sociedade civil"
encarregado de exercer "controle social" em instituições públicas. Seus
integrantes ganhariam diárias, além de passagens e hospedagem em
Brasília. Nada contra os conselhos, por favor, mas vale perguntar: será
que fariam um controle mais eficiente do que esse que é exercido por uma
imprensa livre? Modestamente, penso que não.
A imprensa é sensível para as
necessidades do público, é especialmente sensível para as carências e
aspirações da sociedade. Ela vive disso. Exatamente por isso, ecoa de
modo relativamente eficaz os reclamos dos cidadãos.
Ainda bem que existe imprensa. Ainda
bem que existe opinião pública. Ainda bem que ela está perplexa.
Seguimos o passeio e mudamos de assunto. Aquele monumento de colunas em
granito tem cara de fascista. O prédio da Faculdade de Arquitetura e
Urbanismo precisa de uma restauração. Que filme a gente podia ver hoje à
tarde?
Quinto ato
Falei aqui da revista Veja e vou
falar de novo. Na edição corrente (nº 2108, de 15/4/2009), ela deu capa
para a reforma do Enem, que será o novo critério de seleção para
centenas de universidades brasileiras, públicas e privadas. Reproduzo, a
seguir, o primeiro parágrafo da reportagem, assinada por Camila Pereira,
Monica Weinberg e Renata Betti:
"Mais de 5 milhões de jovens se
preparam neste ano para o vestibular, etapa crucial na vida de um
estudante brasileiro. Em 2010, cerca de 1,5 milhão conseguirão
ingressar numa universidade – mais gente do que nunca. A novidade é
que parte desse grupo não fará o tradicional vestibular, mas será
avaliada por meio de outro sistema, anunciado pelo Ministério da
Educação (MEC) na semana passada. Trata-se da maior mudança já feita
no concurso desde 1911, quando ele surgiu no Brasil. Uma verdadeira
revolução. Diga-se desde logo: se as intenções forem cumpridas, o
novo sistema não prejudicará o mérito. Os melhores alunos
continuarão a ser os escolhidos."
Parece um discurso panfletário contra o
governo Lula? Nem de longe. Aliás, se essas mesmas palavras tivessem
sido pronunciadas pelo presidente da República, alguém logo veria nelas
uma reedição do "nunca antes na História deste país". E, no entanto,
trata-se de uma reportagem da Veja. Uma reportagem baseada em
fatos e em planos bem delineados. Uma reportagem que recolhe depoimentos
de gente do ramo, com autoridade na área. Uma reportagem que transmite
ao leitor uma visão positiva da reforma pretendida pelo MEC.
Penso comigo: como é que os adeptos das
teorias conspiratórias da mídia explicariam essa capa? Qual a intenção
oculta que veriam por trás? Qual a armação? Será mais uma jogada
maquiavélica para beneficiar a candidatura de José Serra?
Sexto ato
Aqui estou eu, cara a cara com a tela
do meu computador. Sei que, outra vez, os leitores deste Observatório
irão se insurgir contra mim. Alguns talvez queiram me injuriar outra
vez. Dirão que defendo a "mídia dos patrões". Afirmarão que sou
sustentado por organizações da direita. Olho para a tela, acendo um
cigarro e prossigo. Quase sorrio. Passa pela minha lembrança uma canção
de João Bosco e Aldir Blanc: "Eu estou de bem comigo, e isso é difícil".
Algo de estrutural está mudando no
Brasil, e os fanáticos das teorias conspiratórias não perceberam. Antes,
até alguns anos após o fim da ditadura militar, o poder político e o
poder da mídia se entrelaçavam perigosamente, em promiscuidade – com
exceções conhecidas. À medida que a democracia ganhou vigor,
complexidade e ritmo, esses campos se distanciaram um pouco. A imprensa
– ainda bem, outra vez – revela as contradições sociais. Dá voz a elas,
ainda que de forma desequilibrada. A mídia – não gosto dessa palavra
como sinônimo de imprensa, mas ela me escapou –, senhoras e senhores, a
mídia é contraditória. Espelha conflitos. A imprensa não pode ser
compreendida pelo prisma dos ordenamentos partidários. Muitas vezes,
infelizmente, ela se deixa tragar por esse tipo de alinhamento, mas, na
sua essência, ela segue outra lógica – e cresce à medida que sabe ser
fiel a essa outra lógica.
É por isso que tenho insistido: a
imprensa não fez do Senado "a bola da vez" ou "um boi de piranha". Ela
não está em campanha para desmoralizar a Câmara dos Deputados. Ela
comete erros, muitos e graves, mas, na sua essência, ela se afirma
quando fiscaliza o poder em favor da cidadania. E, em linhas gerais, é
isso o que explica o intenso noticiário sobre a administração do Poder
Legislativo. É isso também que explica a pauta sobre a reforma do
vestibular por iniciativa do MEC, que vem despertando comentários
favoráveis em tantos veículos diferentes. É controle social, como alguém
me disse, de modo ponderado e perspicaz.
Tenho, no currículo, um amontoado de
escritos críticos contra as principais empresas de – vá lá – mídia deste
país. Contra quase todas. Não retiro nada do que escrevi. Não retiro uma
vírgula. Com a mesma tranqüilidade, escrevo agora que, hoje, no Brasil,
o nosso maior problema não é a imprensa – embora esta ainda tenha muitos
problemas a resolver. O nosso maior problema está no poder público.
Mesmo as transformações regulatórias que a mídia requer dependem, hoje,
mais do poder público do que da própria mídia. A democracia precisa de
benefícios, como gostam de dizer os deputados. Mas esses benefícios
precisam vir da transparência que eles mesmos forem capazes de adotar
para as suas próprias prestações de contas. Precisam vir da
racionalidade do nosso sistema de ensino. Ainda bem, digo de novo, ainda
bem que não dependem do julgamento que as autoridades têm feito dos
nossos jornalistas.
A imprensa que precisamos ter é uma
imprensa independente e plural, que não aceite ser controlada por
governos, por anunciantes, por autoridades e pelos loquazes pregadores
da conspiração permanente. O primeiro passo para quem quer melhorá-la é
reconhecer e fortalecer sua independência. O resto vai se ajeitando no
caminho.
PERGUNTAS
E-mails:
Lorena Rogêdo
Prezado Alexandre, tenho 28 anos, sou formada em Direito pela UFMG, tenho
pós-graduação na Alemanha e já trabalhei até na ONU de Viena. Agora que
voltei ao Brasil, meu maior desejo seria ingressar no campo do jornalismo,
mas o fato de ser graduada em outro curso tem fechado as portas para mim.
Você considera que há a possibilidade de eu conseguir alguma oportunidade
nesse ramo sem o curso de jornalismo? Pergunto a você pois sei que teve
uma experiência na Alemanha e lá não há a exigência desse pré-requisito.
Agradeço imensamente.
Neivaldo
Rodrigues, Itaperuna / RJ
Gostaria de saber o que é preciso para abrir um jornal popular.
Obrigado.
Telefonemas:
Álvaro Sales, Minas Gerais
Freeland, de certa forma os jornais populares e o jornalismo feito por
eles não estaria deixando de lado o potencial intelectual e criativo que o
jornalismo pode ter?
João Simões, Minas
Gerais
Como a mídia pode trabalhar divulgando e denunciando atividades do
governo se ela depende dele?
André Messias,
Campo Grande / MS
Antonio, há diferenças entre o jornalismo popular e o jornalismo
comunitário?
Sanderley Firmino,
Vitória / ES
Como é visto o ensino de jornalismo social / popular nas faculdades? Os
cursos de jornalismo estão preparados para esta tendência?
Siméia Santana,
Rio de Janeiro
A diferença do público leitor dos jornais ditos populares e dos demais
jornais é basicamente o nível de instrução dessas pessoas?
Vinícius Gomes,
Niterói / RJ
Há como os jornais populares apelarem menos ao sensacionalismo e
comentarem mais temáticas sociais?
Carlos Henrique
Teixeira, São Paulo – Economista
Qual a motivação de um jornal popular?
José Ricardo,
Jaboatão dos Guararapes / PE
O Observatório da Imprensa é um programa excelente! Parabéns e beijos a
todos da redação!
Niel Cha,
Pernambuco
O que faz um jornal popular superar em vendas jornais tradicionais como
o “Diário de Pernambuco”?
Antônio
Castiglioga, Rio de Janeiro
Octávio, o viés do jornal “Extra” não seria popularesco, mais apelativo
do que popular?
José Eliomar,
Natal / RN – Sociólogo
Antonio, a expressão “jornalismo popular” não desqualifica o jornalismo
e serve apenas como apelo mercadológico?
Thalita Prado da
Silveira, Niterói / RJ – Psicóloga
O surgimento de personagens populares como o João Buracão não ocasiona a
perda da credibilidade do discurso político no jornalismo, já que
transfere a voz do povo para personagens fictícios?
Alessandro
Carvalho, Minas Gerais – Radialista
Qual o futuro do jornal impresso?
Adriano Santos,
Nova Iguaçu / RJ – Comerciante
Acredito que os jornais populares prestam um serviço negativo para a
sociedade, já que se preocupam muito mais com a novela das oito do que
com coisas importantes. A vantagem está apenas no preço, que prova que é
possível fazer um jornalismo barato.
Astrogildo
Milagres, Santo Antônio de Pádua / RJ – Jornalista
Será que essas empresas que se destinam a fazer jornalismo popular estão
querendo apenas aumentar o número de leitores ou estão preocupadas em
fazer jornalismo?
Wellington José,
Recife / PE
O jornalismo popular estaria elevando ao estrelato criminosos que se
vêem como figuras públicas de grande projeção?
Maria Cândida
Guimarães, Minas Gerais – Jornalista e Professora
Será que o público que não lia está se acostumando a realmente ler ou
estão se habituando apenas a ler sobre crimes, escândalos e outras
pautas desses jornais?
Patrícia Guedes,
Aracaju / SE
Octávio, os jornais populares precisam expor mulheres seminuas para
vender?
Mário Neves Campos
Filho, São Paulo
Antonio, por que os jornais que se identificam como “grande imprensa”
não conseguem baratear o custo de seus exemplares?