PROGRAMA DO DIA 27 DE FEVEREIRO DE 2007

CASO JOÃO HÉLIO E A MÍDIA

O Observatório da Imprensa da última terça feira, dia 27 de fevereiro, debateu a cobertura feita pelos meios de comunicação no caso do bárbaro assassinato do menino João Hélio.

Leia o resumo do programa

  Veja o Compacto

O CAZAQUISTÃO É AQUI
Falta aparecer o Borat para gozar as hipocrisias
Alberto Dines

As declarações da psicanalista Eliane Mantega, mulher do ministro da Fazenda, vão ganhar os prêmios "Maria Antonieta de Ibiúna" e "Avestruz de Ouro" concedidos aos campeões da categoria "De Costas para a Vida".

Leia na íntegra

A mídia conseguirá manter a violência urbana em pauta?

Resultado:

Sim: 40%

Não: 40%

Tanto faz: 20%

Aqui você pode participar de fóruns sobre assuntos ligados à imprensa, deixar seu recado no nosso mural e ler as perguntas dos telespectadores.

Perguntas - Aqui são colocadas as perguntas dos telespectadores que chegam por telefone, fax ou e-mail durante o programa e ao longo da semana.

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

Os telejornais desta noite estavam encharcados de sangue. Sangue de crianças manchando as mãos de criminosos pouco mais velhos do que crianças, numa rotina duplamente trágica. Mas algo começa a acontecer.


Leia na íntegra

CASO JOÃO HÉLIO
Uma vida em sete quilômetros
Gilson Caroni Filho

Publicado originalmente na Agência Carta Maior, 23/2/2007

Os 7 km que marcaram o calvário de João Hélio, morto ao ser arrastado pelo lado de fora do carro em que estava, revela mais que uma violência epidêmica. Evidencia vazio de sentido e ausência de projeto - tema que a parcela conservadora da sociedade e seus colossos midiáticos não pretendem discutir.

Leia na íntegra


RESUMO DO PROGRAMA

CASO JOÃO HÉLIO E A MÍDIA

O Observatório da Imprensa do dia 27 de fevereiro discutiu o comportamento da mídia diante de tantos casos de violência, como a terrível morte do menino João Hélio, após um assalto, mês passado, no Rio de Janeiro. O programa quis saber: a imprensa está sabendo esclarecer e cobrar com a finalidade de combater a violência?

Participaram do programa, em São Paulo, o diretor do Projeto Portinari, João Candido Portinari; em Brasília, a colunista política do Globo, Tereza Cruvinel e o filósofo Renato Janine Ribeiro e, no Rio, o diretor de jornalismo da TV Bandeirantes, Arnaldo César.

João Candido Portinari falou sobre sua reação ao noticiário da morte do menino João Hélio e o que o motivou a disponibilizar as obras de Portinari para campanhas contra a violência: "Nós vivemos nesse ambiente de tensão, de medo e de restrição à nossa liberdade de ir e vir, mas o caso do João Hélio ultrapassou todos os limites possíveis. Depois que li a notícia, isso não saiu mais da minha cabeça e foi criando em mim a necessidade de pensar no que eu posso fazer e no que cada um de nós, no seu mundo ou na sua atividade profissional, pode fazer também. O Portinari foi um pintor que lutou a vida toda contra a violência, na sua arte e na sua militância política, e na obra dele está um grito contra a violência. Eu pensei que essa poderia ser a minha contribuição. Eu poderia disponibilizar, gratuitamente, toda a obra para aqueles que desejam utilizá-la em campanhas contra a violência ou qualquer atividade que pudesse ajudar a atacar esse problema que está vitimando a todos."

Tereza Cruvinel opinou sobre o que o Governo pode fazer para combater a violência: "O Poder Público está devendo uma mensagem de urgência. A sociedade parece que não ouviu e não entendeu isso. Nosso problema da violência é muito grande, então não há uma solução. A questão do menor infrator é apenas um aspecto mas não é o centro da questão. Do ponto de vista policial, criminal, o problema do narcotráfico é central. A união do Governo Federal com os estados brasileiros para enfrentar o narcotráfico e o crime organizado precisa ser grande e, até agora, tivemos apenas um ensaio de uma aliança entre a União e o Estado, através da Força Nacional de Segurança. Se for esse o caminho, precisa avançar. Mais estados querem fazer essa experiência. Temos o problema de uma juventude que não teve educação, numa sociedade consumista e de jovens negros, de 15 a 24 anos, que estão morrendo. As estatísticas mostram claramente isso, onde é que a violência está ceifando vidas que representam o futuro do país. É necessária uma política para a juventude, alternativas dentro da legalidade para que ela não busque no crime alguma forma de vida. Tem o problema social e o criminal. Essas duas coisas não querem dialogar. Quem acha que a questão é social, acha que é só isso. Quem acha que é penal, gosta também de ignorar os argumentos sobre a questão social subjacente à violência. O Poder Público tem que responder rápido nas duas frentes. O presidente Lula disse que no dia 6 de março, quando ele terá uma reunião com os governadores, colocará sobre a mesa não só o tema do PAC, que era o objetivo da reunião, mas também a questão da violência e da segurança. Até agora não sabemos se levará uma proposta ou se ficamos nessa colaboração tão tímida ainda entre o Governo Federal e os estados. Esse é o caminho. Acho que nosso problema nem os estados resolvem sozinhos nem a União pode resolver sozinha. Só com uma conjugação de esforços."

Renato Janine Ribeiro disse ter ficado barbarizado com a morte de João Hélio: "Eu estou em estado de choque com tudo isso que aconteceu. Esse menino foi assassinado de maneira muito cruel. Eu li os jornais até o momento de ter a certeza de que a morte dele não tinha sido fruto do acaso. Quer dizer, até o momento de ter a certeza de que os assassinos sabiam que estavam arrastando um menino daquela idade. Eu também tenho filho pequeno e, certamente, isso pesa. Além disso, eu não pensei que fosse ver um ato tão desumano. Eu me sinto, um pouco, no lugar das primeiras pessoas que chegaram a um campo de concentração nazista e viram os farrapos humanos que estavam lá. Eu acho que nós estamos diante de uma extinção da compaixão, de uma abolição dos sentimentos de humanidade. É uma coisa que foi feita de forma sistemática pelo nazismo. Por isso, no meu artigo, eu comparei a atitude desses assassinos à dos nazistas. O que fazer em função disso, realmente, eu não saberia dizer, não saberia propor. O que eu sinto é um descompasso muito grande entre o clamor da sociedade brasileira, que é um grito, e o que as instituições oferecem. Quando, depois disso, o juiz fala que a pena é de três anos para o menor, a população tem a sensação de impunidade, de desdém pela vida. Eu me preocupo com a legitimidade desse modo de pensar, que está muito afastado de uma reação de indignação a esse tipo de crime."

Arnaldo César esclarece o fato de a imprensa ter divulgado os desenhos escolares do menino João Hélio: "Eu não acho que seja sensacionalismo. Eu acredito que isso foi um artifício usado pela mídia, não foi só a mídia eletrônica, mas também a impressa, que explorou esses desenhos. Eles foram usados em um momento de comoção. Essa comoção não acontece apenas na sociedade. Ela acontece também dentro das redações. Os jornalistas também ficaram chocados com a violência que eles tinham que descrever. Foi uma comoção geral e, por isso, o uso desses recursos. Eu não vejo nenhum tipo de manipulação por parte da imprensa. A própria família deu entrevista, depois a imprensa cobriu a missa de sétimo dia. Todas as TVs, revistas e jornais estavam lá na igreja. Eu acho que usamos desses recursos para levar todas essas informações. Talvez o desenho tenha sido uma forma de humanizar a situação, que é muito bruta, muito violenta para todos nós."


EDITORIAL

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

Os telejornais desta noite estavam encharcados de sangue. Sangue de crianças manchando as mãos de criminosos pouco mais velhos do que crianças, numa rotina duplamente trágica. Mas algo começa a acontecer.

Vinte dias depois, o menino João Hélio venceu a inércia e continua em pauta, emocionando e indignando o país inteiro. É um milagre de persistência, considerando que sobreviveu ao carnaval e superou nossa vocação para a amnésia.

Para esta sobrevivência, triste reconhecer, foram decisivas as bárbaras circunstâncias do assassinato do menino. Mas há outro dado que convém acrescentar: a revolta foi encabeçada pelas mulheres. Foram elas que empurraram o debate para uma esfera muito além da política convencional e até agora jamais alcançada.

Embora não tenham se confrontado diretamente, governo e imprensa estiveram e ainda estão em posições opostas e conflitantes. Porque a imprensa foi tão bem sucedida na mobilização da sociedade, o governo trancou-se e aferrou-se à questão da diminuição da maioridade penal esquecido do seu papel maior como o narrador das grandes comoções nacionais.

Para compensar a frieza e o distanciamento do mundo oficial, surgiram iniciativas individuais que revelaram o sentido de comunhão e comunidade há muito tempo arquivado. Entre estas iniciativas, a da família de Candido Portinari que abriu mão dos direitos de reprodução de cinco mil obras do nosso maior pintor, desde que utilizadas em mensagens de solidariedade.

A perplexidade do filósofo Renato Janine Ribeiro diante da crueldade que domina a cena brasileira é outro momento de excepcional importância neste episódio. Estamos aprendendo a encarar e conviver com o sofrimento, com as dúvidas.

Por tudo isso, essa é uma quaresma que dificilmente será esquecida. Ela pode marcar o reencontro com a nossa humanidade.


ARTIGO
Por Alberto Dines

O CAZAQUISTÃO É AQUI
Falta aparecer o Borat para gozar as hipocrisias
Alberto Dines

As declarações da psicanalista Eliane Mantega, mulher do ministro da Fazenda, vão ganhar os prêmios "Maria Antonieta de Ibiúna" e "Avestruz de Ouro" concedidos aos campeões da categoria "De Costas para a Vida".

Compreende-se o seu incômodo em aparecer como vítima de um seqüestro múltiplo junto com o ilustre marido e os filhos, mas a sua complacência com os bandidos que assaltaram a mão armada a chácara dos amigos em Ibiúna é ultrajante: "Eles só queriam dinheiro... foram supergentis... ladrões-de-galinha".

Com fraseado mais coloquial e igual distanciamento, reproduziu a doutrina palaciana adotada para enfrentar a indignação que tomou conta do Brasil (sobretudo das brasileiras) diante da barbaridade cometida contra o menino João Hélio, no Rio. Para o quase ex-ministro Márcio Thomas Bastos, a violência é um processo que precisa ser enfrentado por outro processo, atalhos "emocionais" nada resolvem. Resolvem sim, Excelência, processos inanimados costumam ir para o lixo da História.

Compromisso contínuo

A mídia engoliu esta, como engole qualquer coisa politicamente correta mesmo quando moralmente revoltante. A mídia está mais esbaforida do que nunca, seu estoque de adrelina evaporou com o calor do verão. O governo não está interessado em dar prioridade às questões que envolvem impunidade. É tabu. Levado às últimas conseqüências, um debate sobre o tema fatalmente transbordaria para o Dossiêgate que acaba de ser chutado mais uma vez para escanteio.

Decidiu o Procurador-Geral da República que o senador Aloízio Mercadante não pode ser indiciado pela Polícia Federal por ter direito a foro especial. Está certo, todos estão certos, os culpados mudaram-se para endereços desconhecidos. Com a decisão, a compra do dossiê contrabandeado para as páginas da IstoÉ ficou na esfera dos aloprados municipais do PT. O dinheiro foi arranjado por eles, eles é que desenvolveram este tipo de "jornalismo investigativo".

Em outras palavras: o "processo" que culminou com um dos maiores crimes eleitorais dos últimos tempos vai continuar rolando nas gavetas de baixo - e por muito tempo, já que o delegado Paulo Lacerda anunciou que ficará mais seis meses à frente da Polícia Federal.

Na esfera palaciana, o único processo que interessa tocar é o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento). De olho nas bolhas e euforias que produzirá na publicidade, a mídia esquece a sua decisiva contribuição para dar qualidade, consistência e sustentabilidade a este crescimento.

Amostra desta modesta contribuição foi a matéria de capa da Veja sobre a extorsão por telefone, o tal "Disque-Seqüestro" (edição 1996, de 21/2/2007). A modalidade é conhecida há alguns anos, na internet há tempos corriam advertências, ninguém prestava atenção. De repente, uma reportagem de capa numa semana morta, pré-momesca, e o cidadão descobre como enfrentar este novo tipo de ameaça à sua segurança. Os bandidos terão que inventar outro passatempo para as suas horas vagas nos presídios. E os editores terão que adotar outros critérios para programar o seu calendário: todas as edições são importantes, mesmo quando coincidem com feriados, festas, férias.

O compromisso da imprensa com a sociedade é contínuo, apesar das delícias da praia e da montanha.

Filosofar em público

No domingo (18/2), no caderno "+Mais!" da Folha de S.Paulo, o filósofo Renato Janine Ribeiro produziu um dos mais comoventes desabafos sobre o martírio do menino João Hélio. Não foi uma tomada de posição, mas uma dramática exposição de perplexidades e doloridas opções penais diante do horror que estamos condenados a assistir.

Este Observatório chamou a atenção, a mídia tinha outras preocupações e só retornou ao filósofo na semana seguinte (domingo, 25/2), na mesma Folha: em três textos antagônicos, apenas um deles (da professora Olgária Matos) procurou entendê-lo.

Deve existir algum código na ANJ (Associação Nacional de Jornais) para obrigar os associados a absterem-se de comentar textos publicados pelos concorrentes - assim, evitam-se polêmicas capazes de abalar a instituição. A verdade é que não chamou a atenção dos sensíveis radares da mídia este filósofo que não tem respostas prontas na ponta da língua, nem palavras de ordem, entregue à revolta de conviver com as diversas crueldades exibidas pela sociedade brasileira.

Renato Janine Ribeiro quer filosofar em público, fazer pensar, quer compartilhar o seu cartesianismo - penso, logo existo - com a comunidade. A mídia não entra nessa. Não tem tempo para sofrer dilemas, prefere a fulanização, sentenças instantâneas para limpar a pauta.

Aventureiros e descendentes

A tragédia brasileira é que os vetores mais poderosos da sociedade são conflitantes - nada os atrai, tudo os distrai. Ou afasta. Para o governo e governantes punir é perigoso, suicídio, equivale a andar em areia movediça. Para a mídia, a questão crucial de Crime e Castigo só serve para os cadernos dominicais, em resenhas sobre Dostoievski. Nos chamados dias úteis, é perfeitamente inútil, não cabe. Mas o ser humano também existe e pensa no meio da semana. Não há lugar: a maldita segmentação e a sua filha espúria, a cadernização, não deixam.

A mídia sabe, mas não se aflige: sujeitos a guincho, apenas os veículos mal-estacionados. O resto é impune, impunível, inimputável. Ou coitadinhos "ladrões-de-galinha", "supergentis" que "só querem um dinheirinho". Sem falar nos "amigos da casa", cada vez em maior número.

O Brasil tem jeito, basta convocar urgentemente o repórter Borat para arrasar as hipocrisias deste imenso Portugal e a sua mídia insensível com os 50 mortos nas estradas mineiras em fevereiro - só num desastre morreram 16, que mereceram 10 linhas - e com as seis chacinas paulistanas nas quais foram para o beleléu quase 30 cidadãos.

O Cazaquistão é aqui, mas os aventureiros cazaques e seus descendentes, os cruéis cossacos, estão bem disfarçados.


OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET

CASO JOÃO HÉLIO
Uma vida em sete quilômetros
Gilson Caroni Filho

Publicado originalmente na Agência Carta Maior, 23/2/2007

Os 7 km que marcaram o calvário de João Hélio, morto ao ser arrastado pelo lado de fora do carro em que estava, revela mais que uma violência epidêmica. Evidencia vazio de sentido e ausência de projeto - tema que a parcela conservadora da sociedade e seus colossos midiáticos não pretendem discutir.

Viver é procurar um sentido para nossos desejos e realizá-los no trajeto.Os sete quilômetros que marcaram o calvário de João Hélio Fernandes, seis anos, morto ao ser arrastado pelo lado de fora do carro em que estava, revela mais que uma violência epidêmica. Evidencia vazio de sentido e ausência de projeto. Um país que, por seus fracionamentos internos, não logrou constituir uma comunidade de pessoas que compartilham destino comum, mostra sua face mais bruta.

O bárbaro assassinato do garoto foi habilmente instrumentalizado pela parcela conservadora da sociedade brasileira e seus colossos midiáticos. Não se pretende debater causas ou promover o pensamento crítico a respeito das complexas bases sociais onde estão assentadas as verdadeiras raízes da violência. Isso, segundo a bílis vomitada na imprensa, é discussão periférica, discurso dos que pregam a inércia ante a ação criminosa.

O que está em curso é um projeto de linchamento, uma vingança classista que, paradoxalmente, clama, ao mesmo tempo, pela Lei de Talião e por uma legislação penal mais severa. Não peçam sensatez nesse momento.Não mencionem a necessidade de implementação de políticas públicas de inclusão. O que vale para os dispositivos agenciados é a desnaturação do "outro" de classe. Algo que o revele como anomalia a ser eliminada. Custe o que custar, doa a quem doer.

Legislação penal mais rigorosa e sistemas prisionais mais punitivos não são apenas demandas simplórias.São,antes de tudo, plataformas de uma ideologia que pretende ocultar o aspecto central do problema: nossa sociedade é estruturalmente violenta e antidemocrática. E é assim que funcionam seus mecanismos fundamentais de reprodução.

Defensores de direitos humanos são apresentados, na estrutura narrativa da grande mídia, como românticos que produzem platitudes a partir de esquemas sociológicos abstratos.Pessoas que ainda não compreenderam que cidadania não requer sujeitos de direito, mas consumidores pacificados pela punição da malta que, sem poder, partilha o imaginário consumista.

O sociólogo Luiz Eduardo Soares, em réplica aos que consideram o Estatuto da Criança e do Adolescente pouco severo indaga: "qual severidade melhor serviria á sociedade brasileira? Aquela que é adjetiva, que faz profissão de fé na retórica da intolerância, da dureza policial, do vigor punitivo, mas que na prática concorre para a reprodução da irracionalidade institucionalizada?"

Melhor homenagem

Afinal, o que desejamos? Consolidar avanços ou reforçar descasos? As manifestações conservadoras não deixam dúvida. Discussões sobre desigualdade e exclusão não estão na ordem do dia.

A matéria de capa da revista Época (edição 457, de 19/02/2007) não poderia ser mais didática. O sugestivo título "As lições da Colômbia para o Brasil" remete ao modelo desejado. O texto da jornalista Ruth Aquino não deixa dúvida quanto aos propósitos editoriais da publicação. "Como argumentar que no Brasil falta dinheiro para a segurança, se o PIB da Colômbia equivale ao do Estado do Paraná (US$98 bilhões) e o PIB do Brasil é oito vezes maior,US$ 796 bilhões". E a marcha batida ao uribismo vai até a última linha.

O que não se revela ao leitor é que a política de "segurança democrática" desvia recursos humanos e econômicos que poderiam estar sendo aplicados em soluções de longo prazo, fato que contrariaria os interesses dos grupos de maior poder econômico.Também não são mencionadas as relações estreitas do governo com grupos paramilitares, responsáveis pelo tráfico de cocaína e ataques aos direitos humanos. É omitido ao longo da reportagem que o presidente Uribe ignora com freqüência recomendações da Comissão de Direitos Humanos da ONU e do Gabinete do Alto Comissariado para os Direitos Humanos das Nações Unidas em Bogotá. Será esse o projeto de país das Organizações Globo? Um Estado que tem em seu entorno o tráfico e o extermínio?

Talvez devêssemos aprofundar o debate a partir das palavras do saudoso Hélio Pellegrino. " Somos humanos na medida de renúncias decisivas, de recalques e exílios amargos, de perdas e danos que ferem de morte nossas exigências ordinárias"( Édipo e Liberdade, 1989). Ou partimos daí ou nos deixaremos levar pela recorrente folhetinização de tragédias.

A melhor homenagem que se pode prestar a memória de João Hélio é não fazer de sua tragédia pretexto para o fascismo de sempre.


PERGUNTAS

E-mails:

Sylvio Pélico Leitão Filho, Rio de Janeiro
Muito se tem escrito e falado sobre o triste episódio do pequeno João, arrastado até a morte em ação covarde de um grupo de jovens meliantes. Enquanto integrantes dos poderes Legislativo, Judiciário e Executivo discutem assuntos irrelevantes, a exemplo de quem deve ganhar mais no fim do mês, esquecem de reformar a legislação que poderia amenizar a violência que impera nas cidades. Responsabilidade criminal, por faixa etária, benefícios carcerários e outros pontos jurídicos, se debatidos seriamente, poderiam resolver grande parte dos problemas, inclusive se diferentes aspectos forem incluídos, em ampla discussão nacional, como o planejamento familiar.

Ricardo, Florianópolis / SC
Há muito tempo que a televisão substituiu a escola. Muitos livros já abordaram isso. Por que o discurso da imprensa e dos formadores de opinião não inclui o papel da televisão na educação das nossas crianças e adultos? Outro dia o jornal de maior audiência denunciava a violência e depois a mesma rede de TV exibia um filme ambientado nos EUA, que se tratava de uma verdadeira aula de violência. O que os senhores acham disso?

Eloir, Rio de Janeiro - Engenheiro Civil
A imprensa, principalmente a televisiva, enfatiza apenas o caráter denunciativo da matéria (constata o estado de violência em que vivemos), passando a idéia de que não podemos fazer nada. Um exemplo é a matéria do Jornal Nacional sobre o quanto os imóveis transformaram-se em castelos medievais. A imprensa não cumpre seu papel social quando não busca as causas da violência. Poderia fazê-lo se entrevistasse especialistas no assunto.

Katia
Acho que é preciso reconhecer que há pessoas adultas, e alguns adolescentes também, que não têm condições de viver em liberdade, pois são irrecuperáveis, não sabem o que é remorso. Por exemplo: o tal Champinha, a Suzane que planejou a morte dos pais, o estudante que atirou no cinema, os estudantes que colocaram fogo no índio... eles, na minha opinião, devem ser mantidos vigiados! Existem esses monstros em todas as classes, com todos os níveis de educação e classe social! Eles são psicopatas! Nem todos são pobres ou incultos. Isso aí! As causas sociais não explicam o crime hediondo! Os autores são psicopatas.

Haroldo Pedreira
Uma criança nossa foi arrastada cruelmente por outras crianças nossas. O que há com as nossas crianças? Uma coisa que tenho pensado freqüentemente é que não podemos ficar indignados quando nossas crianças - que desde antes de nascer já são tratadas por nós como animais - venham, ao crescer, se comportar como animais. Que dizem?

Sônia Magalhães
Olá, boa noite. Estou assistindo ao programa Observatório da Imprensa sobre o caso bárbaro da morte do menino. Nele, e em todas as coberturas que vi e li, não vi ninguém falar em aborto. Entre tantos fatores que pesam para criar um ambiente capaz de criar atos bárbaros, quero salientar que esses rapazes assassinos são antes e acima de tudo, filhos do desamor. Nossa sociedade precisa repensar urgentemente como obriga mulheres que não querem ter filhos, a tê-los. Os homens que são pais, muitas vezes não se responsabilizam, as mães, quando não os jogam na lata de lixo, provavelmente tratam esses filhos como se fossem lixo. Nossa sociedade é hipócrita e machista. Não se pode obrigar uma pessoa a ter um filho não desejado. É uma barbaridade obrigar gente não desejada a existir, mães que não amam seus filhos a criá-los. Talvez no fundo desse terrível acontecimento, o motivo maior fosse o da inveja de um garoto amado pela mãe.


Telefonemas:

Pablo Pires, Belo Horizonte / MG
Algumas emissoras de TV e jornais exploraram desenhos feitos pelo menino João Hélio na escola. O que isso tem de relevante em termos jornalísticos? Não é uma exploração sensacionalista em cima do caso?

Magno Oliveira, Rio de Janeiro
Dines, novelas têm imitado os acontecimentos da vida real, como o incêndio do ônibus no Rio e o assassinato do milionário da Mega Sena. O autor diz que usa fatos como estes como forma de denúncia. O senhor não acredita que isso pode banalizar ainda mais a violência?

Elisa Pereira, Curitiba / PR
Tereza, o Congresso não está jogando para a torcida, criando leis no embalo de um crime tão traumático? Não seria o caso de se discutir finalmente uma reforma no Código Penal por inteiro?

Luiz Rabelo, Brasília / DF
João Cândido Portinari, o senhor não acha que a imprensa poderia liderar um mutirão da sociedade civil para dar início a mudanças práticas? Ela não poderia ser um elemento aglutinador de iniciativas?

Alexsandro Alves de Oliveira, Aracaju / SE
Será que o brasileiro não está tomado pela emoção e, por isso, culpando mais o menor infrator e discutindo a maioridade penal ao invés do sistema vigente?

Sandro Florêncio, Jaboatão dos Guararapes / PE
Será que o modo como é superexposta a violência não faz com que nos acostumemos com isso?

Patrícia Correa, Recife / PE
A imprensa não poderia coordenar um debate por soluções efetivas e a partir delas cobrar dos governos soluções? No caso de menores infratores, não era melhor exigir centros de recuperação eficientes ao invés de simplesmente fazer campanha pela redução da maioridade penal?

Ilma de Souza, Rio de Janeiro
Os jornalistas têm conhecimento que casos de violência bárbara acontecem em comunidades de baixa renda. No entanto, a comoção só toma proporções grandes quando as vítimas são de classes mais privilegiadas. Por que isso acontece?

Tenório Curvelo, Vitória / ES
A gente ouve que o problema da violência depende de tantos fatores que acaba causando um círculo vicioso. Ou seja, as pessoas assumem um conformismo de que não há saída. Como romper essa inércia?

Antonio Ferraz, Porto Alegre / RS
Não seria a hora de deixar a hipocrisia de lado e iniciar uma campanha de moralização do Congresso?

Maria Lúcia, Rio de Janeiro
Gostaria de saber por que a imprensa não observa o tipo de adolescente que pratica crimes? Por exemplo: é possível comparar o crime do João Hélio com aquele menor que matou a avó?



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