RESUMO DO PROGRAMA
CASO JOÃO HÉLIO E A MÍDIA
O Observatório da
Imprensa do dia 27 de fevereiro discutiu o comportamento da mídia diante
de tantos casos de violência, como a terrível morte do menino João
Hélio, após um assalto, mês passado, no Rio de Janeiro. O programa quis
saber: a imprensa está sabendo esclarecer e cobrar com a finalidade de
combater a violência?
Participaram do
programa, em São Paulo, o diretor do Projeto Portinari, João Candido
Portinari; em Brasília, a colunista política do Globo, Tereza Cruvinel e
o filósofo Renato Janine Ribeiro e, no Rio, o diretor de jornalismo da
TV Bandeirantes, Arnaldo César.
João Candido
Portinari falou sobre sua reação ao noticiário da morte do menino João
Hélio e o que o motivou a disponibilizar as obras de Portinari para
campanhas contra a violência: "Nós vivemos nesse ambiente de tensão, de
medo e de restrição à nossa liberdade de ir e vir, mas o caso do João
Hélio ultrapassou todos os limites possíveis. Depois que li a notícia,
isso não saiu mais da minha cabeça e foi criando em mim a necessidade de
pensar no que eu posso fazer e no que cada um de nós, no seu mundo ou na
sua atividade profissional, pode fazer também. O Portinari foi um pintor
que lutou a vida toda contra a violência, na sua arte e na sua
militância política, e na obra dele está um grito contra a violência. Eu
pensei que essa poderia ser a minha contribuição. Eu poderia
disponibilizar, gratuitamente, toda a obra para aqueles que desejam
utilizá-la em campanhas contra a violência ou qualquer atividade que
pudesse ajudar a atacar esse problema que está vitimando a todos."
Tereza Cruvinel
opinou sobre o que o Governo pode fazer para combater a violência: "O
Poder Público está devendo uma mensagem de urgência. A sociedade parece
que não ouviu e não entendeu isso. Nosso problema da violência é muito
grande, então não há uma solução. A questão do menor infrator é apenas
um aspecto mas não é o centro da questão. Do ponto de vista policial,
criminal, o problema do narcotráfico é central. A união do Governo
Federal com os estados brasileiros para enfrentar o narcotráfico e o
crime organizado precisa ser grande e, até agora, tivemos apenas um
ensaio de uma aliança entre a União e o Estado, através da Força
Nacional de Segurança. Se for esse o caminho, precisa avançar. Mais
estados querem fazer essa experiência. Temos o problema de uma juventude
que não teve educação, numa sociedade consumista e de jovens negros, de
15 a 24 anos, que estão morrendo. As estatísticas mostram claramente
isso, onde é que a violência está ceifando vidas que representam o
futuro do país. É necessária uma política para a juventude, alternativas
dentro da legalidade para que ela não busque no crime alguma forma de
vida. Tem o problema social e o criminal. Essas duas coisas não querem
dialogar. Quem acha que a questão é social, acha que é só isso. Quem
acha que é penal, gosta também de ignorar os argumentos sobre a questão
social subjacente à violência. O Poder Público tem que responder rápido
nas duas frentes. O presidente Lula disse que no dia 6 de março, quando
ele terá uma reunião com os governadores, colocará sobre a mesa não só o
tema do PAC, que era o objetivo da reunião, mas também a questão da
violência e da segurança. Até agora não sabemos se levará uma proposta
ou se ficamos nessa colaboração tão tímida ainda entre o Governo Federal
e os estados. Esse é o caminho. Acho que nosso problema nem os estados
resolvem sozinhos nem a União pode resolver sozinha. Só com uma
conjugação de esforços."
Renato Janine Ribeiro
disse ter ficado barbarizado com a morte de João Hélio: "Eu estou em
estado de choque com tudo isso que aconteceu. Esse menino foi
assassinado de maneira muito cruel. Eu li os jornais até o momento de
ter a certeza de que a morte dele não tinha sido fruto do acaso. Quer
dizer, até o momento de ter a certeza de que os assassinos sabiam que
estavam arrastando um menino daquela idade. Eu também tenho filho
pequeno e, certamente, isso pesa. Além disso, eu não pensei que fosse
ver um ato tão desumano. Eu me sinto, um pouco, no lugar das primeiras
pessoas que chegaram a um campo de concentração nazista e viram os
farrapos humanos que estavam lá. Eu acho que nós estamos diante de uma
extinção da compaixão, de uma abolição dos sentimentos de humanidade. É
uma coisa que foi feita de forma sistemática pelo nazismo. Por isso, no
meu artigo, eu comparei a atitude desses assassinos à dos nazistas. O
que fazer em função disso, realmente, eu não saberia dizer, não saberia
propor. O que eu sinto é um descompasso muito grande entre o clamor da
sociedade brasileira, que é um grito, e o que as instituições oferecem.
Quando, depois disso, o juiz fala que a pena é de três anos para o
menor, a população tem a sensação de impunidade, de desdém pela vida. Eu
me preocupo com a legitimidade desse modo de pensar, que está muito
afastado de uma reação de indignação a esse tipo de crime."
Arnaldo César
esclarece o fato de a imprensa ter divulgado os desenhos escolares do
menino João Hélio: "Eu não acho que seja sensacionalismo. Eu acredito
que isso foi um artifício usado pela mídia, não foi só a mídia
eletrônica, mas também a impressa, que explorou esses desenhos. Eles
foram usados em um momento de comoção. Essa comoção não acontece apenas
na sociedade. Ela acontece também dentro das redações. Os jornalistas
também ficaram chocados com a violência que eles tinham que descrever.
Foi uma comoção geral e, por isso, o uso desses recursos. Eu não vejo
nenhum tipo de manipulação por parte da imprensa. A própria família deu
entrevista, depois a imprensa cobriu a missa de sétimo dia. Todas as
TVs, revistas e jornais estavam lá na igreja. Eu acho que usamos desses
recursos para levar todas essas informações. Talvez o desenho tenha sido
uma forma de humanizar a situação, que é muito bruta, muito violenta
para todos nós."
EDITORIAL
Bem-vindos
ao Observatório da Imprensa.
Os telejornais desta
noite estavam encharcados de sangue. Sangue de crianças manchando as mãos
de criminosos pouco mais velhos do que crianças, numa rotina duplamente
trágica. Mas algo começa a acontecer.
Vinte dias depois,
o menino João Hélio venceu a inércia e continua em pauta, emocionando e
indignando o país inteiro. É um milagre de persistência, considerando
que sobreviveu ao carnaval e superou nossa vocação para a amnésia.
Para esta
sobrevivência, triste reconhecer, foram decisivas as bárbaras
circunstâncias do assassinato do menino. Mas há outro dado que convém
acrescentar: a revolta foi encabeçada pelas mulheres. Foram elas que
empurraram o debate para uma esfera muito além da política convencional
e até agora jamais alcançada.
Embora não tenham
se confrontado diretamente, governo e imprensa estiveram e ainda estão
em posições opostas e conflitantes. Porque a imprensa foi tão bem
sucedida na mobilização da sociedade, o governo trancou-se e aferrou-se
à questão da diminuição da maioridade penal esquecido do seu papel maior
como o narrador das grandes comoções nacionais.
Para compensar a
frieza e o distanciamento do mundo oficial, surgiram iniciativas
individuais que revelaram o sentido de comunhão e comunidade há muito
tempo arquivado. Entre estas iniciativas, a da família de Candido
Portinari que abriu mão dos direitos de reprodução de cinco mil obras do
nosso maior pintor, desde que utilizadas em mensagens de solidariedade.
A perplexidade do
filósofo Renato Janine Ribeiro diante da crueldade que domina a cena
brasileira é outro momento de excepcional importância neste episódio.
Estamos aprendendo a encarar e conviver com o sofrimento, com as
dúvidas.
Por tudo isso, essa
é uma quaresma que dificilmente será esquecida. Ela pode marcar o
reencontro com a nossa humanidade.
ARTIGO
Por Alberto Dines
O CAZAQUISTÃO É
AQUI
Falta aparecer o Borat para gozar as
hipocrisias
Alberto Dines
As declarações da psicanalista Eliane
Mantega, mulher do ministro da Fazenda, vão ganhar os prêmios "Maria
Antonieta de Ibiúna" e "Avestruz de Ouro" concedidos aos campeões da
categoria "De Costas para a Vida".
Compreende-se o seu incômodo em
aparecer como vítima de um seqüestro múltiplo junto com o ilustre marido
e os filhos, mas a sua complacência com os bandidos que assaltaram a mão
armada a chácara dos amigos em Ibiúna é ultrajante: "Eles só queriam
dinheiro... foram supergentis... ladrões-de-galinha".
Com fraseado mais coloquial e igual
distanciamento, reproduziu a doutrina palaciana adotada para enfrentar a
indignação que tomou conta do Brasil (sobretudo das brasileiras) diante
da barbaridade cometida contra o menino João Hélio, no Rio. Para o quase
ex-ministro Márcio Thomas Bastos, a violência é um processo que precisa
ser enfrentado por outro processo, atalhos "emocionais" nada resolvem.
Resolvem sim, Excelência, processos inanimados costumam ir para o lixo
da História.
Compromisso contínuo
A mídia engoliu esta, como engole
qualquer coisa politicamente correta mesmo quando moralmente revoltante.
A mídia está mais esbaforida do que nunca, seu estoque de adrelina
evaporou com o calor do verão. O governo não está interessado em dar
prioridade às questões que envolvem impunidade. É tabu. Levado às
últimas conseqüências, um debate sobre o tema fatalmente transbordaria
para o Dossiêgate que acaba de ser chutado mais uma vez para escanteio.
Decidiu o Procurador-Geral da República
que o senador Aloízio Mercadante não pode ser indiciado pela Polícia
Federal por ter direito a foro especial. Está certo, todos estão certos,
os culpados mudaram-se para endereços desconhecidos. Com a decisão, a
compra do dossiê contrabandeado para as páginas da IstoÉ ficou na
esfera dos aloprados municipais do PT. O dinheiro foi arranjado por
eles, eles é que desenvolveram este tipo de "jornalismo investigativo".
Em outras palavras: o "processo" que
culminou com um dos maiores crimes eleitorais dos últimos tempos vai
continuar rolando nas gavetas de baixo - e por muito tempo, já que o
delegado Paulo Lacerda anunciou que ficará mais seis meses à frente da
Polícia Federal.
Na esfera palaciana, o único processo
que interessa tocar é o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento). De
olho nas bolhas e euforias que produzirá na publicidade, a mídia esquece
a sua decisiva contribuição para dar qualidade, consistência e
sustentabilidade a este crescimento.
Amostra desta modesta contribuição foi
a matéria de capa da Veja sobre a extorsão por telefone, o tal
"Disque-Seqüestro" (edição 1996, de 21/2/2007). A modalidade é conhecida
há alguns anos, na internet há tempos corriam advertências, ninguém
prestava atenção. De repente, uma reportagem de capa numa semana morta,
pré-momesca, e o cidadão descobre como enfrentar este novo tipo de
ameaça à sua segurança. Os bandidos terão que inventar outro passatempo
para as suas horas vagas nos presídios. E os editores terão que adotar
outros critérios para programar o seu calendário: todas as edições são
importantes, mesmo quando coincidem com feriados, festas, férias.
O compromisso da imprensa com a
sociedade é contínuo, apesar das delícias da praia e da montanha.
Filosofar em público
No domingo (18/2), no caderno "+Mais!"
da Folha de S.Paulo, o filósofo Renato Janine Ribeiro produziu um
dos mais comoventes desabafos sobre o martírio do menino João Hélio. Não
foi uma tomada de posição, mas uma dramática exposição de perplexidades
e doloridas opções penais diante do horror que estamos condenados a
assistir.
Este Observatório chamou a
atenção, a mídia tinha outras preocupações e só retornou ao filósofo na
semana seguinte (domingo, 25/2), na mesma Folha: em três textos
antagônicos, apenas um deles (da professora Olgária Matos) procurou
entendê-lo.
Deve existir algum código na ANJ
(Associação Nacional de Jornais) para obrigar os associados a
absterem-se de comentar textos publicados pelos concorrentes - assim,
evitam-se polêmicas capazes de abalar a instituição. A verdade é que não
chamou a atenção dos sensíveis radares da mídia este filósofo que não
tem respostas prontas na ponta da língua, nem palavras de ordem,
entregue à revolta de conviver com as diversas crueldades exibidas pela
sociedade brasileira.
Renato Janine Ribeiro quer filosofar em
público, fazer pensar, quer compartilhar o seu cartesianismo - penso,
logo existo - com a comunidade. A mídia não entra nessa. Não tem tempo
para sofrer dilemas, prefere a fulanização, sentenças instantâneas para
limpar a pauta.
Aventureiros e descendentes
A tragédia brasileira é que os vetores
mais poderosos da sociedade são conflitantes - nada os atrai, tudo os
distrai. Ou afasta. Para o governo e governantes punir é perigoso,
suicídio, equivale a andar em areia movediça. Para a mídia, a questão
crucial de Crime e Castigo só serve para os cadernos
dominicais, em resenhas sobre Dostoievski. Nos chamados dias úteis, é
perfeitamente inútil, não cabe. Mas o ser humano também existe e pensa
no meio da semana. Não há lugar: a maldita segmentação e a sua filha
espúria, a cadernização, não deixam.
A mídia sabe, mas não se aflige:
sujeitos a guincho, apenas os veículos mal-estacionados. O resto é
impune, impunível, inimputável. Ou coitadinhos "ladrões-de-galinha", "supergentis"
que "só querem um dinheirinho". Sem falar nos "amigos da casa", cada vez
em maior número.
O Brasil tem jeito, basta convocar
urgentemente o repórter Borat para arrasar as hipocrisias deste imenso
Portugal e a sua mídia insensível com os 50 mortos nas estradas mineiras
em fevereiro - só num desastre morreram 16, que mereceram 10 linhas - e
com as seis chacinas paulistanas nas quais foram para o beleléu quase 30
cidadãos.
O Cazaquistão é aqui, mas os
aventureiros cazaques e seus descendentes, os cruéis cossacos, estão bem
disfarçados.
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET
CASO JOÃO HÉLIO
Uma vida em sete quilômetros
Gilson Caroni Filho
Publicado originalmente na Agência Carta Maior, 23/2/2007
Os 7 km que marcaram o calvário de João
Hélio, morto ao ser arrastado pelo lado de fora do carro em que estava,
revela mais que uma violência epidêmica. Evidencia vazio de sentido e
ausência de projeto - tema que a parcela conservadora da sociedade e seus
colossos midiáticos não pretendem discutir.
Viver é procurar um sentido para nossos
desejos e realizá-los no trajeto.Os sete quilômetros que marcaram o
calvário de João Hélio Fernandes, seis anos, morto ao ser arrastado pelo
lado de fora do carro em que estava, revela mais que uma violência
epidêmica. Evidencia vazio de sentido e ausência de projeto. Um país que,
por seus fracionamentos internos, não logrou constituir uma comunidade de
pessoas que compartilham destino comum, mostra sua face mais bruta.
O bárbaro assassinato do garoto foi
habilmente instrumentalizado pela parcela conservadora da sociedade
brasileira e seus colossos midiáticos. Não se pretende debater causas ou
promover o pensamento crítico a respeito das complexas bases sociais onde
estão assentadas as verdadeiras raízes da violência. Isso, segundo a bílis
vomitada na imprensa, é discussão periférica, discurso dos que pregam a
inércia ante a ação criminosa.
O que está em curso é um projeto de
linchamento, uma vingança classista que, paradoxalmente, clama, ao mesmo
tempo, pela Lei de Talião e por uma legislação penal mais severa. Não
peçam sensatez nesse momento.Não mencionem a necessidade de implementação
de políticas públicas de inclusão. O que vale para os dispositivos
agenciados é a desnaturação do "outro" de classe. Algo que o revele como
anomalia a ser eliminada. Custe o que custar, doa a quem doer.
Legislação penal mais rigorosa e sistemas
prisionais mais punitivos não são apenas demandas simplórias.São,antes de
tudo, plataformas de uma ideologia que pretende ocultar o aspecto central
do problema: nossa sociedade é estruturalmente violenta e antidemocrática.
E é assim que funcionam seus mecanismos fundamentais de reprodução.
Defensores de direitos humanos são
apresentados, na estrutura narrativa da grande mídia, como românticos que
produzem platitudes a partir de esquemas sociológicos abstratos.Pessoas
que ainda não compreenderam que cidadania não requer sujeitos de direito,
mas consumidores pacificados pela punição da malta que, sem poder,
partilha o imaginário consumista.
O sociólogo Luiz Eduardo Soares, em
réplica aos que consideram o Estatuto da Criança e do Adolescente pouco
severo indaga: "qual severidade melhor serviria á sociedade brasileira?
Aquela que é adjetiva, que faz profissão de fé na retórica da
intolerância, da dureza policial, do vigor punitivo, mas que na prática
concorre para a reprodução da irracionalidade institucionalizada?"
Melhor homenagem
Afinal, o que desejamos? Consolidar
avanços ou reforçar descasos? As manifestações conservadoras não deixam
dúvida. Discussões sobre desigualdade e exclusão não estão na ordem do
dia.
A matéria de capa da revista Época
(edição 457, de 19/02/2007) não poderia ser mais didática. O sugestivo
título "As lições da Colômbia para o Brasil" remete ao modelo desejado. O
texto da jornalista Ruth Aquino não deixa dúvida quanto aos propósitos
editoriais da publicação. "Como argumentar que no Brasil falta dinheiro
para a segurança, se o PIB da Colômbia equivale ao do Estado do Paraná (US$98
bilhões) e o PIB do Brasil é oito vezes maior,US$ 796 bilhões". E a marcha
batida ao uribismo vai até a última linha.
O que não se revela ao leitor é que a
política de "segurança democrática" desvia recursos humanos e econômicos
que poderiam estar sendo aplicados em soluções de longo prazo, fato que
contrariaria os interesses dos grupos de maior poder econômico.Também não
são mencionadas as relações estreitas do governo com grupos paramilitares,
responsáveis pelo tráfico de cocaína e ataques aos direitos humanos. É
omitido ao longo da reportagem que o presidente Uribe ignora com
freqüência recomendações da Comissão de Direitos Humanos da ONU e do
Gabinete do Alto Comissariado para os Direitos Humanos das Nações Unidas
em Bogotá. Será esse o projeto de país das Organizações Globo? Um Estado
que tem em seu entorno o tráfico e o extermínio?
Talvez devêssemos aprofundar o debate a
partir das palavras do saudoso Hélio Pellegrino. " Somos humanos na medida
de renúncias decisivas, de recalques e exílios amargos, de perdas e danos
que ferem de morte nossas exigências ordinárias"( Édipo e Liberdade,
1989). Ou partimos daí ou nos deixaremos levar pela recorrente
folhetinização de tragédias.
A melhor homenagem que se pode prestar a
memória de João Hélio é não fazer de sua tragédia pretexto para o fascismo
de sempre.
PERGUNTAS
E-mails:
Sylvio
Pélico Leitão Filho, Rio de Janeiro
Muito se tem escrito e falado sobre o triste episódio do pequeno João,
arrastado até a morte em ação covarde de um grupo de jovens meliantes.
Enquanto integrantes dos poderes Legislativo, Judiciário e Executivo
discutem assuntos irrelevantes, a exemplo de quem deve ganhar mais no
fim do mês, esquecem de reformar a legislação que poderia amenizar a
violência que impera nas cidades. Responsabilidade criminal, por faixa
etária, benefícios carcerários e outros pontos jurídicos, se debatidos
seriamente, poderiam resolver grande parte dos problemas, inclusive se
diferentes aspectos forem incluídos, em ampla discussão nacional, como o
planejamento familiar.
Ricardo,
Florianópolis / SC
Há muito tempo que a televisão substituiu a escola. Muitos livros já
abordaram isso. Por que o discurso da imprensa e dos formadores de
opinião não inclui o papel da televisão na educação das nossas crianças
e adultos? Outro dia o jornal de maior audiência denunciava a violência
e depois a mesma rede de TV exibia um filme ambientado nos EUA, que se
tratava de uma verdadeira aula de violência. O que os senhores acham
disso?
Eloir,
Rio de Janeiro - Engenheiro Civil
A imprensa, principalmente a televisiva, enfatiza apenas o caráter
denunciativo da matéria (constata o estado de violência em que vivemos),
passando a idéia de que não podemos fazer nada. Um exemplo é a matéria
do Jornal Nacional sobre o quanto os imóveis transformaram-se em
castelos medievais. A imprensa não cumpre seu papel social quando não
busca as causas da violência. Poderia fazê-lo se entrevistasse
especialistas no assunto.
Katia
Acho que é preciso reconhecer que há pessoas adultas, e alguns
adolescentes também, que não têm condições de viver em liberdade, pois
são irrecuperáveis, não sabem o que é remorso. Por exemplo: o tal
Champinha, a Suzane que planejou a morte dos pais, o estudante que
atirou no cinema, os estudantes que colocaram fogo no índio... eles, na
minha opinião, devem ser mantidos vigiados! Existem esses monstros em
todas as classes, com todos os níveis de educação e classe social! Eles
são psicopatas! Nem todos são pobres ou incultos. Isso aí! As causas
sociais não explicam o crime hediondo! Os autores são psicopatas.
Haroldo
Pedreira
Uma criança nossa foi arrastada cruelmente por outras crianças nossas. O
que há com as nossas crianças? Uma coisa que tenho pensado
freqüentemente é que não podemos ficar indignados quando nossas crianças
- que desde antes de nascer já são tratadas por nós como animais -
venham, ao crescer, se comportar como animais. Que dizem?
Sônia
Magalhães
Olá, boa noite. Estou assistindo ao programa Observatório da Imprensa
sobre o caso bárbaro da morte do menino. Nele, e em todas as coberturas
que vi e li, não vi ninguém falar em aborto. Entre tantos fatores que
pesam para criar um ambiente capaz de criar atos bárbaros, quero
salientar que esses rapazes assassinos são antes e acima de tudo, filhos
do desamor. Nossa sociedade precisa repensar urgentemente como obriga
mulheres que não querem ter filhos, a tê-los. Os homens que são pais,
muitas vezes não se responsabilizam, as mães, quando não os jogam na
lata de lixo, provavelmente tratam esses filhos como se fossem lixo.
Nossa sociedade é hipócrita e machista. Não se pode obrigar uma pessoa a
ter um filho não desejado. É uma barbaridade obrigar gente não desejada
a existir, mães que não amam seus filhos a criá-los. Talvez no fundo
desse terrível acontecimento, o motivo maior fosse o da inveja de um
garoto amado pela mãe.
Telefonemas:
Pablo
Pires, Belo Horizonte / MG
Algumas emissoras de TV e jornais exploraram desenhos feitos pelo menino
João Hélio na escola. O que isso tem de relevante em termos
jornalísticos? Não é uma exploração sensacionalista em cima do caso?
Magno
Oliveira, Rio de Janeiro
Dines, novelas têm imitado os acontecimentos da vida real, como o incêndio do
ônibus no Rio e o assassinato do milionário da Mega Sena. O autor diz
que usa fatos como estes como forma de denúncia. O senhor não acredita
que isso pode banalizar ainda mais a violência?
Elisa
Pereira, Curitiba / PR
Tereza, o Congresso não está jogando para a torcida, criando leis no
embalo de um crime tão traumático? Não seria o caso de se discutir
finalmente uma reforma no Código Penal por inteiro?
Luiz
Rabelo, Brasília / DF
João Cândido Portinari, o senhor não acha que a imprensa poderia liderar
um mutirão da sociedade civil para dar início a mudanças práticas? Ela
não poderia ser um elemento aglutinador de iniciativas?
Alexsandro Alves de Oliveira, Aracaju / SE
Será que o brasileiro não está tomado pela emoção e, por isso, culpando
mais o menor infrator e discutindo a maioridade penal ao invés do
sistema vigente?
Sandro
Florêncio, Jaboatão dos Guararapes / PE
Será que o modo como é superexposta a violência não faz com que nos
acostumemos com isso?
Patrícia
Correa, Recife / PE
A imprensa não poderia coordenar um debate por soluções efetivas e a
partir delas cobrar dos governos soluções? No caso de menores
infratores, não era melhor exigir centros de recuperação eficientes ao
invés de simplesmente fazer campanha pela redução da maioridade penal?
Ilma de
Souza, Rio de Janeiro
Os jornalistas têm conhecimento que casos de violência bárbara acontecem
em comunidades de baixa renda. No entanto, a comoção só toma proporções
grandes quando as vítimas são de classes mais privilegiadas. Por que
isso acontece?
Tenório
Curvelo, Vitória / ES
A gente ouve que o problema da violência depende de tantos fatores que
acaba causando um círculo vicioso. Ou seja, as pessoas assumem um
conformismo de que não há saída. Como romper essa inércia?
Antonio
Ferraz, Porto Alegre / RS
Não seria a hora de deixar a hipocrisia de lado e iniciar uma campanha
de moralização do Congresso?
Maria
Lúcia, Rio de Janeiro
Gostaria de saber por que a imprensa não observa o tipo de adolescente
que pratica crimes? Por exemplo: é possível comparar o crime do João
Hélio com aquele menor que matou a avó?