RESUMO DO PROGRAMA
TVS PÚBLICAS
O Observatório da Imprensa do dia 05 de
setembro discutiu o papel das TVs públicas no Brasil.
Alberto Dines, em seu editorial, disse:
"Não é a primeira vez que este Observatório trata da TV pública. Na
verdade, cada vez em que falamos de Televisão somos obrigados a
mencionar a necessidade de implementar a TV pública em nosso país. Mas é
a primeira vez que este Observatório, hóspede das mais importantes
emissoras da TV pública brasileira, converte-se em anfitrião e não
apenas destas emissoras mas também da ABEPEC, a Associação Brasileira
das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais. É preciso lembrar que
todas as emissoras de Televisão e Rádio são concessões públicas,
portanto têm compromissos com a sociedade. São igualmente públicas."
Participaram do programa, no Rio de
Janeiro, a diretora-presidente da TVE Brasil, Beth Carmona; em São
Paulo, o presidente da ABEPEC, Jorge da Cunha Lima e o
diretor-presidente da TV Cultura, Marcos Mendonça; e em Brasília, o
presidente da Radiobrás, Eugênio Bucci.
Jorge da Cunha Lima falou sobre as
principais questões levantadas na reunião, que aconteceu em Belo
Horizonte, onde foi discutido o futuro das Televisões públicas no
Brasil: "Na ABEPEC, nós reunimos dezenove geradoras de TV pública do
Brasil e diversos níveis de tecnologia, de gestão e de estrutura
jurídica institucional. Nós queremos aproximar essas emissoras para que
elas ganhem um caráter definitivo de Televisão pública. A TV pública é,
exatamente, uma Televisão que está voltada para o interesse da
sociedade. Então, nós discutimos muito na reunião a questão dos
conteúdos. O que quer dizer a TV pública? Para nós, o telespectador é o
cidadão que merece ter uma opinião crítica sobre as coisas, que merece
ter uma análise dos acontecimentos, ter uma programação educativa e
cultural complementar à formação escolar, ao contrário da TV comercial,
onde a pessoa é muito mais um consumidor que um cidadão. É completamente
diferente a atitude da Televisão comercial e da TV pública. O Estado
brasileiro ainda não percebeu a importância da TV pública. A verba ainda
é muito pequena, não temos recursos para produzir os conteúdos que nós
sabemos produzir. A TV também tem que ter uma completa independência,
apesar de receber dinheiro do Poder Público."
Eugênio Bucci explicou o que falta para a
TV pública ser uma alternativa viável: "Um dos grandes problemas da TV
pública no Brasil tem sido a pressão política que por ela é exercida.
Nós estamos, no entanto, às vésperas de uma eleição presidencial
disputada, conversando abertamente e com grande grau de companheirismo
sobre o futuro da Televisão pública. Isso aconteceu agora, no final de
semana, em Belo Horizonte, vai acontecer na semana que vem na TV
Cultura, em São Paulo. Nós estamos construindo pouco a pouco uma união,
um entendimento de que há aspectos que nos unificam e que nos permitem
trabalhar em conjunto. Eu tenho certeza que, dado ao avanço que já
aconteceu, nós vamos chegar ao final desse ano com um acúmulo importante
e com possibilidade de troca de programação e co-produção para sermos,
de fato, uma alternativa à TV comercial no Brasil."
Marcos Mendonça deu sua opinião sobre a
falta de verba para Televisões públicas: "O maior desafio é saber se o
Brasil quer, realmente, uma TV pública de alta qualidade, de alto nível,
de alta competência. Nós temos profissionais, temos capacidade, temos
alcance, temos o gosto popular pela Televisão. Mas é preciso recursos
para produzir algo de qualidade para esse gosto popular. A nossa música,
por exemplo, está fora da TV brasileira. Não existe mais um espetáculo
musical na rede comercial. Hoje, está tudo na TV pública. Nós temos
competência de fazê-lo, mas não temos recursos. Para que haja os
recursos, há necessidade de uma conscientização da sociedade e do poder
político. No Brasil, as Televisões públicas vivem em uma situação de
absoluta e total precariedade. A verba ainda é muito pequena, nós não
temos recursos para produzir os conteúdos que nós sabemos produzir."
Beth Carmona acredita que, para que as
Televisões públicas possam se tornar melhores, é preciso uma união de
diversos setores na sociedade: "A construção dessa TV pública depende de
todos. É uma Televisão que, para existir no Brasil com essa qualidade,
com essa intensidade, vai necessitar de um telespectador mais exigente,
um Governo mais consciente e os empresários mais participantes. Na
verdade, essa Televisão precisa sim de recursos. Esses recursos podem
vir de várias fontes e a natureza da sua programação tem que estar
sempre muito antenada e muito objetiva na relação do seu compromisso e
da sua missão. Portanto, acho que somos todos fiscais e colaboradores. A
Televisão pública brasileira vai ser forte e terá continuidade na medida
em que profissionais, empresários, Governo e telespectadores fiquem
atentos à essa questão."
EDITORIAL
Bem-vindos
ao Observatório da Imprensa.
Você já nos conhece,
sabe que uma das nossas marcas e o nosso compromisso é caminhar na
contra-corrente. Por isso, enquanto a mídia se distrai ou se empolga com
a guerra eleitoral, este “Observatório” está mais preocupado com o
chamado “day after”, o dia seguinte.
Dentro de um mês ou
no máximo dois, dependendo do número de turnos da eleição presidencial,
estaremos diante de um problema concreto: qual será a agenda para a
televisão brasileira? A simples mudança tecnológica de tv analógica para
tv digital será suficiente para mudar os nossos paradigmas? Mudar apenas
o sistema de transmissão e recepção não significaria consagrar a
impressão de que a imagem é mais importante do que o conteúdo?
Não é a primeira vez
que este Observatório trata da tv pública. Na verdade, cada vez em que
falamos de televisão somos obrigados a mencionar a necessidade de
implementar a tv pública em nosso país. Mas é a primeira vez que este
"Observatório", hóspede das mais importantes emissoras da tv pública
brasileira, converte-se em anfitrião e não apenas destas emissoras mas
também da Abepec, a Associação Brasileira das Emissoras Públicas,
Educativas e Culturais.
É preciso lembrar que
todas, todas as emissoras de televisão e rádio são concessões públicas,
portanto têm compromissos com a sociedade, são igualmente públicas. Não
podemos esquecer também que o nosso conceito de tv pública ainda não se
iguala à modelar tv pública inglesa, a famosa BBC, ou à versão
americana, o PBS.
Chegaremos lá. Mas a
etapa mais importante é a que nos aguarda nos próximos meses:
desenvolver uma parceria sólida, um compartilhamento da programação, uma
atuação pactuada.
Uma coisa é certa:
este Observatório ou a sua versão diária radiofônica só conseguiram
viabilizar-se graças à existência no Brasil de uma televisão com forte
vocação pública. Somos uma modesta amostra do que pode uma tv pública.
ARTIGO
Por Alberto Dines
JORNAIS
DESFIBRADOS
Estranhamento é o caminho da inovação
Alberto Dines
Os empresários de jornal estão mais
preocupados com as empresas do que com os jornais que editam. Se fosse o
contrário, os jornais talvez estivessem melhores e as empresas menos
vulneráveis. Pela segunda vez em pouco mais de um mês o patronato
desperdiçou uma oportunidade de ouro para exibir a disposição e o ânimo
da imprensa brasileira.
Em seguida ao seqüestro da equipe da TV
Globo pelos narcoterroristas do PCC divulgou-se aquela desastrosa
conclamação endossada pelas cinco entidades empresariais de mídia. Com
um erro gramatical no título, formatação burocrática e conteúdo
desfocado, tanto a mídia como os mediadores se apresentaram de forma
tíbia perante os mediados – a sociedade.
A imprensa de um país é a sua grande
narradora, dá o tom e estabelece paradigmas. Ameaçada ostensivamente
pelos bandidos, não poderia claudicar na resposta nem parecer
desfibrada. Para garantir o seu mandato como porta-voz da cidadania –
inclusive perante os demais poderes da República – nossa imprensa
precisaria encorpar a voz e reforçar o desempenho.
Comissários & comissárias
A segunda oportunidade foi desperdiçada
três semanas depois, durante o 6º Congresso Brasileiro de Jornais. No
exato momento em que os lobbies da internet, das operadoras de
telefonia e da publicidade internacional juntam-se para decretar o fim
dos jornais e do jornalismo de qualidade, e para se apresentarem como
seus substitutos, nossa imprensa organiza um convescote para comemorar a
sua incapacidade de responder aos desafios tecnológicos tal como já
fizera nas décadas 20 e 50 do século passado, quando o rádio e a TV
ameaçaram o seu protagonismo.
Caso tenha acompanhado pelos jornais a
frouxa cobertura do congresso de jornais, o leitor fiel deve ter ficado
efetivamente convencido de que se trata de uma espécie em extinção. O
último dos dinossauros certamente morreu de forma mais gloriosa, com um
tremendo berro. O mesmo acontecerá com os derradeiros leões antes de
serem erradicados da savana africana.
Mas os indômitos quality papers,
que ao longo de quatro séculos ensinaram a humanidade a acompanhar as
mutações da realidade, preparam-se para sair de cena desnorteados,
desprovidos até do instinto de sobrevivência. A deletéria convivência
com lobistas e consultores está desfibrando nossos grandes jornais.
O patronato jornalístico brasileiro
cansou; essa personificação de Quarto Poder desgasta, exige vigilância,
disposição de luta, vocação missionária. Nas redações alguns de seus
comissários & comissárias parecem eufóricos diante da possibilidade de
esquecer o Hezbollah, os cataclismos e assim ficarem livres para cuidar
de gastronomia e decoração (de acordo com a metáfora utilizada pelo
diretor de redação do mais pujante jornal regional brasileiro, citado
pela revista The Economist e, não por casualidade, de
propriedade do presidente da ANJ ).
Benditos antropólogos
Ocuparam o pódio do congresso os
principais gatekeepers da nossa imprensa diária. Representaram as
suas empresas, deram os seus recados com o brilho habitual. Ninguém lhes
pediu uma poção ou a agenda apta a animar nosso jornalismo e, junto com
ele, o emperrado sistema de produzir avanços.
Coube ao antropólogo Roberto DaMatta,
mediador do debate entre as estrelas Otavio Frias Filho, Sandro Vaia,
Marcelo Rech e Josemar Gimenez, oferecer a palavra mágica: o jornal deve
exercer o estranhamento. O Globo, que melhor descreveu este
debate, não registrou a reação da douta platéia ao inesperado e raro
vocábulo (1/9, pág. 14).
Roberto DaMatta é colaborador de
jornais, atento observador da mídia, não está afeito ao jargão nem aos
procedimentos habituais das redações. Mas ofereceu uma bandeira simples
e, ao mesmo tempo, perturbadora.
Estranhamento é espanto, relutância,
resistência. Quando jornais conseguem espantar e espicaçar, acaba a
letargia provocada pelo excesso de informações. Então os leitores
acordam, reagem, notam diferenças, perguntam. Ao terminar de ler uma
matéria, num diário ou num semanário, o cidadão deve estranhar: por que
razão só agora chamam a minha atenção para isto?
Estranhamento é uma sensação de
incômodo. Agradável incômodo – vontade de saber mais e entender tudo.
Estranhamento não é palavra usual nas colunas mundanas nem nas páginas
onde se ensina o leitor a ficar rico. Muito menos nas pensatas ou
gritatas que se alternam nas páginas de opinião. Estranhamento é
uma forma superior de duvidar. Ferramenta essencial do ceticismo.
Benditos antropólogos que diante de
tantos caciques reinventam as palavras e apenas com elas desvendam o
caminho da inovação.
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET
JORNALISTAS &
ASSESSORES DE IMPRENSA
Profissões diferentes requerem códigos de ética diferentes
Eugênio Bucci
Versão reduzida da palestra proferida no Primeiro
Seminário Nacional "Ética no Jornalismo", organizado pela Fenaj e pelo
Sindicato dos Jornalistas de Londrina e Região, 31/3/2006, em Londrina
(PR)
O Código de Ética do jornalismo no
Brasil repousa sobre um conflito de interesses. Temos praticado o
exercício de conciliar duas funções legítimas, dignas, justas e éticas,
necessárias à informação da sociedade brasileira, mas que não constituem
o mesmo ofício. Jornalismo e assessoria de imprensa são duas profissões
diferentes e não podem ser regidas por um mesmo Código de Ética.
Agora, quando a Federação Nacional dos
Jornalistas se prepara para rever o seu Código de Ética no seu próximo
congresso, que deve acontecer no ano que vem, o debate sobre o tema se
torna mais que necessário. Vejamos alguns pontos que ilustram muito bem
o que é esse conflito de interesses a que me refiro. No artigo 10o,
tanto na sua versão atual como na que se propõe para figurar no novo
Código, lemos o seguinte:
"O jornalista não pode exercer
cobertura jornalística pelo órgão em que trabalha, em instituições
públicas e privadas, onde seja funcionário, assessor ou empregado".
Aparentemente, o que está escrito ali é
o que o jornalista não pode fazer. O que mais impressiona, porém, é o
que esse artigo deixa subentendido como uma prática permitida ao
jornalista: ele pode ser, ao mesmo tempo, repórter num jornal e assessor
de imprensa num órgão de governo. Não há um veto para isso no Código de
Ética. Quer dizer: o jornalista pode acumular as duas funções; só o que
ele não pode é exercer cobertura jornalística, para o jornal em que
trabalha, sobre a instituição em que também trabalha. Ocorre que a
simples autorização tácita para esse acúmulo de atividades já é, em si
mesmo, antiética. E o nosso Código não apenas o permite, ele consagra
esse acúmulo de funções nitidamente conflitantes.
Conflito ululante
Quando assumi a presidência da
Radiobrás, em 2003, interrompi as colunas que assinava na Folha de
S.Paulo, no Jornal do Brasil e em algumas outras publicações.
Os conflitos entre a função pública que eu passaria a exercer e a
condição de colunista inviabilizariam a credibilidade tanto da minha
função pública quanto da minha função de colunista em jornais
independentes. Não posso ser, ao mesmo tempo, crítico de mídia e
presidente de uma estatal que tem três emissoras de TV, cinco emissoras
de rádio e duas agências de notícia na internet. O que pensaria o
leitor? Será que ele confiaria na independência do meu ponto de vista?
O leitor teria, no mínimo, uma ponta de
desconfiança. Mas, para o nosso Código de Ética, tudo estaria bem. Para
ele, o jornalista pode ser repórter do Estado de S.Paulo, da
Folha de S. Paulo e da Rede Globo e ao mesmo tempo ser assessor de
imprensa do Ministério da Cultura ou do Ministério da Fazenda. Só o que
ele não pode é fazer matéria sobre esses ministérios. Francamente, é um
descalabro.
E se o jornalista for repórter de uma
emissora de rádio e ao mesmo tempo assessor de imprensa do PFL? Poderá
ele fazer uma reportagem sobre o PT? O nosso código diz que sim. Ele só
não pode fazer uma reportagem sobre o PFL. Ora, se ele, sendo assessor
do PFL, assalariado do PFL, realizar uma reportagem denunciando o PT por
alguma razão, não haverá nisso um ululante conflito de interesses? Para
o Código de Ética da Fenaj, não há problema algum. Mas é claro que, para
qualquer cidadão de bom senso, há nisso um problema brutal.
Clientes distintos
Há outros problemas constrangedores.
Cito apenas mais um. Na proposta de pequenas alterações no Código, a ser
aprovadas num congresso programado para 2007, o artigo 7° ganha a
seguinte redação:
"O compromisso fundamental do
jornalista é com a verdade dos fatos, e seu trabalho se pautará pela
abertura às mais variadas opiniões sobre os fatos, pela precisa
apuração dos acontecimentos e sua correta divulgação".
Em se tratando de uma equipe de
repórteres e editores de uma revista ou de uma emissora de rádio ou de
qualquer instituição jornalística, cumprir à risca esse artigo é um
dever óbvio, não há o que se discutir. Mas, aí vem a pergunta: isso vale
para um assessor de imprensa? Será que um assessor de imprensa da
Coca-Cola deve ouvir a Pepsi-Cola antes de divulgar um release? E
um assessor da Igreja Universal do Reino de Deus, terá de ouvir sempre a
Assembléia de Deus quando preparar notas sobre o fenômeno evangélico no
Brasil? Se alguém aqui me disser que esse artigo vale para os que
trabalham em redações, mas vale "mais ou menos" para quem é assessor de
imprensa, pois é isso o que se diz nos corredores, eu pergunto: como uma
categoria pode pretender ter um código de ética cujos artigos valem para
alguns de seus integrantes e não valem para outros?
É por essas e outras que o Código de
Ética da Fenaj fica muito a dever a outros códigos que já existem por
aí, em empresas jornalísticas brasileiras. Os bons veículos de
informação, por pressão da sociedade, por clareza e por exigências
naturais do ofício do jornalismo, já recusam, nos seus quadros, a
existência desse tipo de duplo emprego. Quanto a nós, na Fenaj, não
podemos nos contentar com um código que esteja atrás daquilo que já é a
prática nos melhores veículos de comunicação.
A profissão de jornalista tem como
cliente o cidadão, o leitor, o telespectador. Nesse sentido, o
jornalista se obriga – em virtude da qualidade do trabalho que vai
oferecer – a ouvir, por exemplo, lados distintos que tenham participação
numa mesma história. Ouvir todos os envolvidos, buscar a verdade, fazer
as perguntas mais incômodas para as suas fontes em nome da busca da
verdade é um dever de todo jornalista.
O assessor de imprensa, cuja atividade,
eu repito, é digna, necessária, ética e legítima, tem como cliente não o
cidadão, não o leitor, mas aquele que o emprega ou aquele que contrata
os seus serviços. O que o assessor procura, com toda a legitimidade, é
veicular a mensagem que interessa àquele que é o seu cliente, àquele que
o contrata, e não há nada de errado com isso. É um ofício igualmente
digno, mas não é jornalismo. A distinção entre os dois clientes
estabelece uma distinção que corta de cima a baixo os dois fazeres.
O objetivo do assessor de imprensa é
cultivar e difundir a boa imagem daquele que o contrata. Para isso, ele
não mentirá – é evidente que não, compromisso com a verdade também faz
parte da ética do assessor de imprensa, ele não tapeará a opinião
pública, não cometerá nenhuma indignidade –, mas dará mais realce ao que
interessa ao seu cliente. Muitos alegam que o jornalista também trabalha
para um patrão, o que é verdade. Só que o patrão não é o seu cliente.
Tanto para o patrão do jornalista como para o jornalista empregado, é
fundamental que o cliente de ambos – o leitor, o telespectador, o
ouvinte, o internauta – acredite que eles buscam a verdade. Por isso, o
compromisso deles é com seu cliente direto, o cidadão que consome a
informação jornalística. Jornalistas e assessores trabalham para
clientes distintos, para atender a necessidades distintas. Por isso,
devem ser regidos por normas distintas.
Interesses corporativos
Para que isso fique mais claro, há um
paralelo possível que se pode traçar entre o mundo da comunicação social
e o mundo jurídico. Juízes, advogados e promotores públicos são todos
operadores do Direito, egressos das faculdades de Direto. Todos lidam
com as leis, com a Justiça, fazem funcionar o sistema jurídico. Não
obstante, sabem que exercem funções distintas e, por isso, pertencem a
ordens profissionais distintas, filiam-se a códigos de ética
específicos. Não porque advogados pretendam promover a injustiça em
oposição a juízes que pretendem fazer valer a lei, mas porque seus
ofícios concentram particularidades que são inconciliáveis e, sem
demérito para promotores, advogados e juízes, essas três categorias são
categorias diferentes. É assim que, ao se tornar juiz de direito, um
advogado deve se desfiliar da Ordem dos Advogados do Brasil, devolvendo
sua carteira à entidade.
Separar os ofícios de assessoria de
imprensa e de jornalismo será um grande benefício para a profissão de
jornalista, que terá direito a um Código de Ética sem ambigüidades –
como as que vemos no artigo 10º e no artigo 7º. Será um benefício para
os assessores de imprensa, que poderão aprofundar, num código
específico, as particularidades do seu fazer. Mas, acima de tudo, será
um grande benefício para o cidadão que tem direito à informação de
qualidade.
Nós, jornalistas filiados à Fenaj,
somos, involuntariamente, autores de uma grande impostura que está sendo
transmitida à sociedade brasileira: a de que jornalista e assessor de
imprensa são a mesma profissão. Isso desinforma e deseduca a sociedade –
que passa a ter dificuldade para distinguir uma coisa da outra. Em todos
os outros países em que busquei paralelos com o quadro brasileiro não
encontrei nada semelhante ao que temos aqui. Em muitos lugares, aliás,
quando o profissional assume um posto de assessoria de imprensa, o
jornalista entrega sua carteira para a ordem ou ao sindicato dos
jornalistas, se licencia e vai exercer uma outra profissão.
Precisamos enfrentar esse debate. Isso
representa uma enorme dificuldade para os sindicatos, que têm o seu
financiamento vindo de assessores e de jornalistas, indistintamente.
Compreendo: se não bem operada, essa transição poderá representar um
baque relevante no financiamento dos nossos sindicatos. Mas isso não
pode ser um motivo que nos impeça de olhar de frente o problema, porque
a distinção não pode ser dada por interesses corporativos, ou pior, a
distinção não pode ser obstruída por interesses corporativos – por mais
vitais que sejam as fórmulas de financiamento dessas entidades.
As nossas profissões – que são duas,
não são uma só – dependem disso para o seu aprimoramento.
PERGUNTAS
E-mails:
Igor de
Freitas
Prezado Dines, àqueles que levianamente criticam a imprensa por
abandonar os grandes temas, recomendo a leitura da página do obituário
da edição de 31/08/2006, de O Globo, na qual se dá a notícia dos 30 dias
de morte do juiz Mello Porto. Um abraço.
Edu
César, Porto Alegre / RS – Criador e editor do site Papo de Bola
Pessoal do Observatório, boa noite. É a primeira vez que mando um
e-mail, mas acompanho o programa há muito tempo já, e cumprimento o
Dines pela iniciativa, que é um exemplo altamente positivo para o nosso
jornalismo. Sobre o tema em debate: fazer TV pública de qualidade,
acredito que já fazemos há bastante tempo. Uma pergunta que deixaria é:
como fazer o público valorizar a programação das TVs públicas, se a
grossa maioria do povo, sejamos honestos, dá de ombros para ela e só se
importa com as TVs comerciais? Quais meios poderiam ser adotados neste
sentido, de fazer o público ter maior interesse em assistir às TVs
públicas e não se prender apenas às TVs comerciais? Um grande abraço a
todos (deixo um especial à minha conterrânea Cláudia) e felicidades
sempre.
Ademar
Pelonha, Carnaubais / RN
Boa noite, a TV pública sofre alguma discriminação da TV comercial?
Henrique
Silva
Existe melhoria na formação da opinião do telespectador de TV pública?
Como quantificar essa melhoria? Loterias geram benefícios para o fundo
penitenciário e crédito educativo. A TV pública não pode ser também
beneficiada?
Carlos
Eduardo G. Marchetti, Mariana / MG – Estudante
Diante da conhecida importância da TV pública para a população, como
atrair o grande público, sabendo que este se encontra cativado por
imagens, espetáculo e entretenimento e indiferente quanto ao conteúdo?
Luiz
Fernando F. Gonçalves, Santos / SP
Boa noite, parabéns pelo programa! Gostaria de fazer uma pergunta: por
que motivo é tão difícil que as obras (literárias, musicais, filmes,
entrevistas etc.) do acervo cultural nacional sejam colocadas à
disposição para a consulta on-line?
Paulo
Nolasco de Andrade
No programa de ontem, senti um certo constrangimento nos participantes,
inclusive, salvo engano, observei alguns sorrisos desconfiados. Falavam
sobre a independência e democracia da TV pública. O diretor da TV
Cultura de São Paulo foi fundador do PSDB, teve vários mandatos pelo
PSDB e, até onde sei, está intimamente ligado aos doze anos da gestão do
PSDB em São Paulo. Pedir ao senhor Mendonça que fale sobre a
independência e democracia da TV Cultura de São Paulo, desculpe-me, é
brincadeira. Coincidentemente, às 00:30h de hoje foi transmitida uma
entrevista com o candidato do PT ao governo paulista e foi anunciado que
as entrevistas com os outros candidatos continuariam, só que às 20:00h.
Realmente a TV Cultura de São Paulo é democrática. Sabendo-se dos
índices de audiência das TVs públicas, além de mim, quantos eleitores
assistiram à entrevista do Mercadante?
Fatima
Priscilla
Gostei muito do programa, pena que quando mudei de canal estava no
último bloco, quase no final. Sou estudante de jornalismo (3º
período) e estou pegando justamente a matéria “História da Imprensa” e
foi bem legal assistir, mesmo que no final. Não conhecia o programa e
fiquei muito feliz em saber que tem um programa específico da imprensa
que é algo muito importante, já que é ela que influencia a massa. Só
gostaria que fosse mais cedo. Obrigada pela atenção e mais uma vez
parabéns!
Telefonemas:
Lenita
Alckmin, Guaratinguetá / SP
Vocês não acham que a programação deveria ser mais divulgada?
Fabiano
Ruso, Rio de Janeiro
O cidadão brasileiro, enquanto receptor, está pronto para receber uma
programação apurada, cultural da TV pública?
Josias
Silva, Rio de Janeiro
Qual a solução para os jornalistas do futuro, já que o mercado está
restrito e cada vez mais exigente? Para quem não fez estágio, seria um
problema?
Marcos
Antônio de Medeiros, Caicó / RN
Por que a TV pública não investe nas transmissões esportivas?
Jackson
Silva, Rio de Janeiro
Qual o caminho que os jornalistas recém-formados podem seguir, já que
vivemos em uma inconseqüência da convergência entre mídias?
Vítor
Magalhães, Rio de Janeiro
Beth, você não acha que as empresas privadas anunciam pouco em TVs
públicas?
Melquíades Junior, Limoeiro do Norte / CE
Marcos, a autonomia das TVs públicas nos estados não acaba gerando uma
submissão às políticas locais? Como evitar isso?
Rodrigo
Torquato, Rio de Janeiro
Eugênio, a TV pública contempla o segmento social das camadas mais
pobres?
Washington Forte, Fortaleza / CE
Jorge, como distinguir as TVs públicas das estatais, pois muitas atuam
como TV estatal, levando o nome de TV pública?