PROGRAMA DO DIA 05 DE SETEMBRO DE 2006

TVS PÚBLICAS

Neste programa, o Observatório da Imprensa debateu as principais questões que envolvem a tv pública no país: conteúdo, programação e iniciativas conjuntas.

Leia o resumo do programa

  Veja o Compacto

JORNAIS DESFIBRADOS
Estranhamento é o caminho da inovação
Alberto Dines

Os empresários de jornal estão mais preocupados com as empresas do que com os jornais que editam. Se fosse o contrário, os jornais talvez estivessem melhores e as empresas menos vulneráveis. Pela segunda vez em pouco mais de um mês o patronato desperdiçou uma oportunidade de ouro para exibir a disposição e o ânimo da imprensa brasileira.

Leia na íntegra

A TV pública pode contribuir para melhorar a qualidade da TV comercial?

Resultado:

Sim: 87%

Não: 13%

Aqui você pode participar de fóruns sobre assuntos ligados à imprensa, deixar seu recado no nosso mural e ler as perguntas dos telespectadores.

Perguntas - Aqui são colocadas as perguntas dos telespectadores que chegam por telefone, fax ou e-mail durante o programa e ao longo da semana.

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

Você já nos conhece, sabe que uma das nossas marcas e o nosso compromisso é caminhar na contra-corrente. Por isso, enquanto a mídia se distrai ou se empolga com a guerra eleitoral, este “Observatório” está mais preocupado com o chamado “day after”, o dia seguinte.


Leia na íntegra

JORNALISTAS & ASSESSORES DE IMPRENSA
Profissões diferentes requerem códigos de ética diferentes

Eugênio Bucci

Versão reduzida da palestra proferida no Primeiro Seminário Nacional "Ética no Jornalismo", organizado pela Fenaj e pelo Sindicato dos Jornalistas de Londrina e Região, 31/3/2006, em Londrina (PR)

O Código de Ética do jornalismo no Brasil repousa sobre um conflito de interesses. Temos praticado o exercício de conciliar duas funções legítimas, dignas, justas e éticas, necessárias à informação da sociedade brasileira, mas que não constituem o mesmo ofício. Jornalismo e assessoria de imprensa são duas profissões diferentes e não podem ser regidas por um mesmo Código de Ética.

Leia na íntegra


RESUMO DO PROGRAMA

TVS PÚBLICAS

O Observatório da Imprensa do dia 05 de setembro discutiu o papel das TVs públicas no Brasil.

Alberto Dines, em seu editorial, disse: "Não é a primeira vez que este Observatório trata da TV pública. Na verdade, cada vez em que falamos de Televisão somos obrigados a mencionar a necessidade de implementar a TV pública em nosso país. Mas é a primeira vez que este Observatório, hóspede das mais importantes emissoras da TV pública brasileira, converte-se em anfitrião e não apenas destas emissoras mas também da ABEPEC, a Associação Brasileira das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais. É preciso lembrar que todas as emissoras de Televisão e Rádio são concessões públicas, portanto têm compromissos com a sociedade. São igualmente públicas."

Participaram do programa, no Rio de Janeiro, a diretora-presidente da TVE Brasil, Beth Carmona; em São Paulo, o presidente da ABEPEC, Jorge da Cunha Lima e o diretor-presidente da TV Cultura, Marcos Mendonça; e em Brasília, o presidente da Radiobrás, Eugênio Bucci.

Jorge da Cunha Lima falou sobre as principais questões levantadas na reunião, que aconteceu em Belo Horizonte, onde foi discutido o futuro das Televisões públicas no Brasil: "Na ABEPEC, nós reunimos dezenove geradoras de TV pública do Brasil e diversos níveis de tecnologia, de gestão e de estrutura jurídica institucional. Nós queremos aproximar essas emissoras para que elas ganhem um caráter definitivo de Televisão pública. A TV pública é, exatamente, uma Televisão que está voltada para o interesse da sociedade. Então, nós discutimos muito na reunião a questão dos conteúdos. O que quer dizer a TV pública? Para nós, o telespectador é o cidadão que merece ter uma opinião crítica sobre as coisas, que merece ter uma análise dos acontecimentos, ter uma programação educativa e cultural complementar à formação escolar, ao contrário da TV comercial, onde a pessoa é muito mais um consumidor que um cidadão. É completamente diferente a atitude da Televisão comercial e da TV pública. O Estado brasileiro ainda não percebeu a importância da TV pública. A verba ainda é muito pequena, não temos recursos para produzir os conteúdos que nós sabemos produzir. A TV também tem que ter uma completa independência, apesar de receber dinheiro do Poder Público."

Eugênio Bucci explicou o que falta para a TV pública ser uma alternativa viável: "Um dos grandes problemas da TV pública no Brasil tem sido a pressão política que por ela é exercida. Nós estamos, no entanto, às vésperas de uma eleição presidencial disputada, conversando abertamente e com grande grau de companheirismo sobre o futuro da Televisão pública. Isso aconteceu agora, no final de semana, em Belo Horizonte, vai acontecer na semana que vem na TV Cultura, em São Paulo. Nós estamos construindo pouco a pouco uma união, um entendimento de que há aspectos que nos unificam e que nos permitem trabalhar em conjunto. Eu tenho certeza que, dado ao avanço que já aconteceu, nós vamos chegar ao final desse ano com um acúmulo importante e com possibilidade de troca de programação e co-produção para sermos, de fato, uma alternativa à TV comercial no Brasil."

Marcos Mendonça deu sua opinião sobre a falta de verba para Televisões públicas: "O maior desafio é saber se o Brasil quer, realmente, uma TV pública de alta qualidade, de alto nível, de alta competência. Nós temos profissionais, temos capacidade, temos alcance, temos o gosto popular pela Televisão. Mas é preciso recursos para produzir algo de qualidade para esse gosto popular. A nossa música, por exemplo, está fora da TV brasileira. Não existe mais um espetáculo musical na rede comercial. Hoje, está tudo na TV pública. Nós temos competência de fazê-lo, mas não temos recursos. Para que haja os recursos, há necessidade de uma conscientização da sociedade e do poder político. No Brasil, as Televisões públicas vivem em uma situação de absoluta e total precariedade. A verba ainda é muito pequena, nós não temos recursos para produzir os conteúdos que nós sabemos produzir."

Beth Carmona acredita que, para que as Televisões públicas possam se tornar melhores, é preciso uma união de diversos setores na sociedade: "A construção dessa TV pública depende de todos. É uma Televisão que, para existir no Brasil com essa qualidade, com essa intensidade, vai necessitar de um telespectador mais exigente, um Governo mais consciente e os empresários mais participantes. Na verdade, essa Televisão precisa sim de recursos. Esses recursos podem vir de várias fontes e a natureza da sua programação tem que estar sempre muito antenada e muito objetiva na relação do seu compromisso e da sua missão. Portanto, acho que somos todos fiscais e colaboradores. A Televisão pública brasileira vai ser forte e terá continuidade na medida em que profissionais, empresários, Governo e telespectadores fiquem atentos à essa questão."


EDITORIAL

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

Você já nos conhece, sabe que uma das nossas marcas e o nosso compromisso é caminhar na contra-corrente. Por isso, enquanto a mídia se distrai ou se empolga com a guerra eleitoral, este “Observatório” está mais preocupado com o chamado “day after”, o dia seguinte.

Dentro de um mês ou no máximo dois, dependendo do número de turnos da eleição presidencial, estaremos diante de um problema concreto: qual será a agenda para a televisão brasileira? A simples mudança tecnológica de tv analógica para tv digital será suficiente para mudar os nossos paradigmas? Mudar apenas o sistema de transmissão e recepção não significaria consagrar a impressão de que a imagem é mais importante do que o conteúdo?

Não é a primeira vez que este Observatório trata da tv pública. Na verdade, cada vez em que falamos de televisão somos obrigados a mencionar a necessidade de implementar a tv pública em nosso país. Mas é a primeira vez que este "Observatório", hóspede das mais importantes emissoras da tv pública brasileira, converte-se em anfitrião e não apenas destas emissoras mas também da Abepec, a Associação Brasileira das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais.

É preciso lembrar que todas, todas as emissoras de televisão e rádio são concessões públicas, portanto têm compromissos com a sociedade, são igualmente públicas. Não podemos esquecer também que o nosso conceito de tv pública ainda não se iguala à modelar tv pública inglesa, a famosa BBC, ou à versão americana, o PBS.

Chegaremos lá. Mas a etapa mais importante é a que nos aguarda nos próximos meses: desenvolver uma parceria sólida, um compartilhamento da programação, uma atuação pactuada.

Uma coisa é certa: este Observatório ou a sua versão diária radiofônica só conseguiram viabilizar-se graças à existência no Brasil de uma televisão com forte vocação pública. Somos uma modesta amostra do que pode uma tv pública.


ARTIGO
Por Alberto Dines

JORNAIS DESFIBRADOS
Estranhamento é o caminho da inovação
Alberto Dines

Os empresários de jornal estão mais preocupados com as empresas do que com os jornais que editam. Se fosse o contrário, os jornais talvez estivessem melhores e as empresas menos vulneráveis. Pela segunda vez em pouco mais de um mês o patronato desperdiçou uma oportunidade de ouro para exibir a disposição e o ânimo da imprensa brasileira.

Em seguida ao seqüestro da equipe da TV Globo pelos narcoterroristas do PCC divulgou-se aquela desastrosa conclamação endossada pelas cinco entidades empresariais de mídia. Com um erro gramatical no título, formatação burocrática e conteúdo desfocado, tanto a mídia como os mediadores se apresentaram de forma tíbia perante os mediados – a sociedade.

A imprensa de um país é a sua grande narradora, dá o tom e estabelece paradigmas. Ameaçada ostensivamente pelos bandidos, não poderia claudicar na resposta nem parecer desfibrada. Para garantir o seu mandato como porta-voz da cidadania – inclusive perante os demais poderes da República – nossa imprensa precisaria encorpar a voz e reforçar o desempenho.

Comissários & comissárias

A segunda oportunidade foi desperdiçada três semanas depois, durante o 6º Congresso Brasileiro de Jornais. No exato momento em que os lobbies da internet, das operadoras de telefonia e da publicidade internacional juntam-se para decretar o fim dos jornais e do jornalismo de qualidade, e para se apresentarem como seus substitutos, nossa imprensa organiza um convescote para comemorar a sua incapacidade de responder aos desafios tecnológicos tal como já fizera nas décadas 20 e 50 do século passado, quando o rádio e a TV ameaçaram o seu protagonismo.

Caso tenha acompanhado pelos jornais a frouxa cobertura do congresso de jornais, o leitor fiel deve ter ficado efetivamente convencido de que se trata de uma espécie em extinção. O último dos dinossauros certamente morreu de forma mais gloriosa, com um tremendo berro. O mesmo acontecerá com os derradeiros leões antes de serem erradicados da savana africana.

Mas os indômitos quality papers, que ao longo de quatro séculos ensinaram a humanidade a acompanhar as mutações da realidade, preparam-se para sair de cena desnorteados, desprovidos até do instinto de sobrevivência. A deletéria convivência com lobistas e consultores está desfibrando nossos grandes jornais.

O patronato jornalístico brasileiro cansou; essa personificação de Quarto Poder desgasta, exige vigilância, disposição de luta, vocação missionária. Nas redações alguns de seus comissários & comissárias parecem eufóricos diante da possibilidade de esquecer o Hezbollah, os cataclismos e assim ficarem livres para cuidar de gastronomia e decoração (de acordo com a metáfora utilizada pelo diretor de redação do mais pujante jornal regional brasileiro, citado pela revista The Economist e, não por casualidade, de propriedade do presidente da ANJ ).

Benditos antropólogos

Ocuparam o pódio do congresso os principais gatekeepers da nossa imprensa diária. Representaram as suas empresas, deram os seus recados com o brilho habitual. Ninguém lhes pediu uma poção ou a agenda apta a animar nosso jornalismo e, junto com ele, o emperrado sistema de produzir avanços.

Coube ao antropólogo Roberto DaMatta, mediador do debate entre as estrelas Otavio Frias Filho, Sandro Vaia, Marcelo Rech e Josemar Gimenez, oferecer a palavra mágica: o jornal deve exercer o estranhamento. O Globo, que melhor descreveu este debate, não registrou a reação da douta platéia ao inesperado e raro vocábulo (1/9, pág. 14).

Roberto DaMatta é colaborador de jornais, atento observador da mídia, não está afeito ao jargão nem aos procedimentos habituais das redações. Mas ofereceu uma bandeira simples e, ao mesmo tempo, perturbadora.

Estranhamento é espanto, relutância, resistência. Quando jornais conseguem espantar e espicaçar, acaba a letargia provocada pelo excesso de informações. Então os leitores acordam, reagem, notam diferenças, perguntam. Ao terminar de ler uma matéria, num diário ou num semanário, o cidadão deve estranhar: por que razão só agora chamam a minha atenção para isto?

Estranhamento é uma sensação de incômodo. Agradável incômodo – vontade de saber mais e entender tudo. Estranhamento não é palavra usual nas colunas mundanas nem nas páginas onde se ensina o leitor a ficar rico. Muito menos nas pensatas ou gritatas que se alternam nas páginas de opinião. Estranhamento é uma forma superior de duvidar. Ferramenta essencial do ceticismo.

Benditos antropólogos que diante de tantos caciques reinventam as palavras e apenas com elas desvendam o caminho da inovação.


OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET

JORNALISTAS & ASSESSORES DE IMPRENSA
Profissões diferentes requerem códigos de ética diferentes

Eugênio Bucci

Versão reduzida da palestra proferida no Primeiro Seminário Nacional "Ética no Jornalismo", organizado pela Fenaj e pelo Sindicato dos Jornalistas de Londrina e Região, 31/3/2006, em Londrina (PR)

O Código de Ética do jornalismo no Brasil repousa sobre um conflito de interesses. Temos praticado o exercício de conciliar duas funções legítimas, dignas, justas e éticas, necessárias à informação da sociedade brasileira, mas que não constituem o mesmo ofício. Jornalismo e assessoria de imprensa são duas profissões diferentes e não podem ser regidas por um mesmo Código de Ética.

Agora, quando a Federação Nacional dos Jornalistas se prepara para rever o seu Código de Ética no seu próximo congresso, que deve acontecer no ano que vem, o debate sobre o tema se torna mais que necessário. Vejamos alguns pontos que ilustram muito bem o que é esse conflito de interesses a que me refiro. No artigo 10o, tanto na sua versão atual como na que se propõe para figurar no novo Código, lemos o seguinte:

"O jornalista não pode exercer cobertura jornalística pelo órgão em que trabalha, em instituições públicas e privadas, onde seja funcionário, assessor ou empregado".

Aparentemente, o que está escrito ali é o que o jornalista não pode fazer. O que mais impressiona, porém, é o que esse artigo deixa subentendido como uma prática permitida ao jornalista: ele pode ser, ao mesmo tempo, repórter num jornal e assessor de imprensa num órgão de governo. Não há um veto para isso no Código de Ética. Quer dizer: o jornalista pode acumular as duas funções; só o que ele não pode é exercer cobertura jornalística, para o jornal em que trabalha, sobre a instituição em que também trabalha. Ocorre que a simples autorização tácita para esse acúmulo de atividades já é, em si mesmo, antiética. E o nosso Código não apenas o permite, ele consagra esse acúmulo de funções nitidamente conflitantes.

Conflito ululante

Quando assumi a presidência da Radiobrás, em 2003, interrompi as colunas que assinava na Folha de S.Paulo, no Jornal do Brasil e em algumas outras publicações. Os conflitos entre a função pública que eu passaria a exercer e a condição de colunista inviabilizariam a credibilidade tanto da minha função pública quanto da minha função de colunista em jornais independentes. Não posso ser, ao mesmo tempo, crítico de mídia e presidente de uma estatal que tem três emissoras de TV, cinco emissoras de rádio e duas agências de notícia na internet. O que pensaria o leitor? Será que ele confiaria na independência do meu ponto de vista?

O leitor teria, no mínimo, uma ponta de desconfiança. Mas, para o nosso Código de Ética, tudo estaria bem. Para ele, o jornalista pode ser repórter do Estado de S.Paulo, da Folha de S. Paulo e da Rede Globo e ao mesmo tempo ser assessor de imprensa do Ministério da Cultura ou do Ministério da Fazenda. Só o que ele não pode é fazer matéria sobre esses ministérios. Francamente, é um descalabro.

E se o jornalista for repórter de uma emissora de rádio e ao mesmo tempo assessor de imprensa do PFL? Poderá ele fazer uma reportagem sobre o PT? O nosso código diz que sim. Ele só não pode fazer uma reportagem sobre o PFL. Ora, se ele, sendo assessor do PFL, assalariado do PFL, realizar uma reportagem denunciando o PT por alguma razão, não haverá nisso um ululante conflito de interesses? Para o Código de Ética da Fenaj, não há problema algum. Mas é claro que, para qualquer cidadão de bom senso, há nisso um problema brutal.

Clientes distintos

Há outros problemas constrangedores. Cito apenas mais um. Na proposta de pequenas alterações no Código, a ser aprovadas num congresso programado para 2007, o artigo 7° ganha a seguinte redação:

"O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade dos fatos, e seu trabalho se pautará pela abertura às mais variadas opiniões sobre os fatos, pela precisa apuração dos acontecimentos e sua correta divulgação".

Em se tratando de uma equipe de repórteres e editores de uma revista ou de uma emissora de rádio ou de qualquer instituição jornalística, cumprir à risca esse artigo é um dever óbvio, não há o que se discutir. Mas, aí vem a pergunta: isso vale para um assessor de imprensa? Será que um assessor de imprensa da Coca-Cola deve ouvir a Pepsi-Cola antes de divulgar um release? E um assessor da Igreja Universal do Reino de Deus, terá de ouvir sempre a Assembléia de Deus quando preparar notas sobre o fenômeno evangélico no Brasil? Se alguém aqui me disser que esse artigo vale para os que trabalham em redações, mas vale "mais ou menos" para quem é assessor de imprensa, pois é isso o que se diz nos corredores, eu pergunto: como uma categoria pode pretender ter um código de ética cujos artigos valem para alguns de seus integrantes e não valem para outros?

É por essas e outras que o Código de Ética da Fenaj fica muito a dever a outros códigos que já existem por aí, em empresas jornalísticas brasileiras. Os bons veículos de informação, por pressão da sociedade, por clareza e por exigências naturais do ofício do jornalismo, já recusam, nos seus quadros, a existência desse tipo de duplo emprego. Quanto a nós, na Fenaj, não podemos nos contentar com um código que esteja atrás daquilo que já é a prática nos melhores veículos de comunicação.

A profissão de jornalista tem como cliente o cidadão, o leitor, o telespectador. Nesse sentido, o jornalista se obriga – em virtude da qualidade do trabalho que vai oferecer – a ouvir, por exemplo, lados distintos que tenham participação numa mesma história. Ouvir todos os envolvidos, buscar a verdade, fazer as perguntas mais incômodas para as suas fontes em nome da busca da verdade é um dever de todo jornalista.

O assessor de imprensa, cuja atividade, eu repito, é digna, necessária, ética e legítima, tem como cliente não o cidadão, não o leitor, mas aquele que o emprega ou aquele que contrata os seus serviços. O que o assessor procura, com toda a legitimidade, é veicular a mensagem que interessa àquele que é o seu cliente, àquele que o contrata, e não há nada de errado com isso. É um ofício igualmente digno, mas não é jornalismo. A distinção entre os dois clientes estabelece uma distinção que corta de cima a baixo os dois fazeres.

O objetivo do assessor de imprensa é cultivar e difundir a boa imagem daquele que o contrata. Para isso, ele não mentirá – é evidente que não, compromisso com a verdade também faz parte da ética do assessor de imprensa, ele não tapeará a opinião pública, não cometerá nenhuma indignidade –, mas dará mais realce ao que interessa ao seu cliente. Muitos alegam que o jornalista também trabalha para um patrão, o que é verdade. Só que o patrão não é o seu cliente. Tanto para o patrão do jornalista como para o jornalista empregado, é fundamental que o cliente de ambos – o leitor, o telespectador, o ouvinte, o internauta – acredite que eles buscam a verdade. Por isso, o compromisso deles é com seu cliente direto, o cidadão que consome a informação jornalística. Jornalistas e assessores trabalham para clientes distintos, para atender a necessidades distintas. Por isso, devem ser regidos por normas distintas.

Interesses corporativos

Para que isso fique mais claro, há um paralelo possível que se pode traçar entre o mundo da comunicação social e o mundo jurídico. Juízes, advogados e promotores públicos são todos operadores do Direito, egressos das faculdades de Direto. Todos lidam com as leis, com a Justiça, fazem funcionar o sistema jurídico. Não obstante, sabem que exercem funções distintas e, por isso, pertencem a ordens profissionais distintas, filiam-se a códigos de ética específicos. Não porque advogados pretendam promover a injustiça em oposição a juízes que pretendem fazer valer a lei, mas porque seus ofícios concentram particularidades que são inconciliáveis e, sem demérito para promotores, advogados e juízes, essas três categorias são categorias diferentes. É assim que, ao se tornar juiz de direito, um advogado deve se desfiliar da Ordem dos Advogados do Brasil, devolvendo sua carteira à entidade.

Separar os ofícios de assessoria de imprensa e de jornalismo será um grande benefício para a profissão de jornalista, que terá direito a um Código de Ética sem ambigüidades – como as que vemos no artigo 10º e no artigo 7º. Será um benefício para os assessores de imprensa, que poderão aprofundar, num código específico, as particularidades do seu fazer. Mas, acima de tudo, será um grande benefício para o cidadão que tem direito à informação de qualidade.

Nós, jornalistas filiados à Fenaj, somos, involuntariamente, autores de uma grande impostura que está sendo transmitida à sociedade brasileira: a de que jornalista e assessor de imprensa são a mesma profissão. Isso desinforma e deseduca a sociedade – que passa a ter dificuldade para distinguir uma coisa da outra. Em todos os outros países em que busquei paralelos com o quadro brasileiro não encontrei nada semelhante ao que temos aqui. Em muitos lugares, aliás, quando o profissional assume um posto de assessoria de imprensa, o jornalista entrega sua carteira para a ordem ou ao sindicato dos jornalistas, se licencia e vai exercer uma outra profissão.

Precisamos enfrentar esse debate. Isso representa uma enorme dificuldade para os sindicatos, que têm o seu financiamento vindo de assessores e de jornalistas, indistintamente. Compreendo: se não bem operada, essa transição poderá representar um baque relevante no financiamento dos nossos sindicatos. Mas isso não pode ser um motivo que nos impeça de olhar de frente o problema, porque a distinção não pode ser dada por interesses corporativos, ou pior, a distinção não pode ser obstruída por interesses corporativos – por mais vitais que sejam as fórmulas de financiamento dessas entidades.

As nossas profissões – que são duas, não são uma só – dependem disso para o seu aprimoramento.


PERGUNTAS

E-mails:

Igor de Freitas
Prezado Dines, àqueles que levianamente criticam a imprensa por abandonar os grandes temas, recomendo a leitura da página do obituário da edição de 31/08/2006, de O Globo, na qual se dá a notícia dos 30 dias de morte do juiz Mello Porto. Um abraço.

Edu César, Porto Alegre / RS – Criador e editor do site Papo de Bola
Pessoal do Observatório, boa noite. É a primeira vez que mando um e-mail, mas acompanho o programa há muito tempo já, e cumprimento o Dines pela iniciativa, que é um exemplo altamente positivo para o nosso jornalismo. Sobre o tema em debate: fazer TV pública de qualidade, acredito que já fazemos há bastante tempo. Uma pergunta que deixaria é: como fazer o público valorizar a programação das TVs públicas, se a grossa maioria do povo, sejamos honestos, dá de ombros para ela e só se importa com as TVs comerciais? Quais meios poderiam ser adotados neste sentido, de fazer o público ter maior interesse em assistir às TVs públicas e não se prender apenas às TVs comerciais? Um grande abraço a todos (deixo um especial à minha conterrânea Cláudia) e felicidades sempre.

Ademar Pelonha, Carnaubais / RN
Boa noite, a TV pública sofre alguma discriminação da TV comercial?

Henrique Silva
Existe melhoria na formação da opinião do telespectador de TV pública? Como quantificar essa melhoria? Loterias geram benefícios para o fundo penitenciário e crédito educativo. A TV pública não pode ser também beneficiada?

Carlos Eduardo G. Marchetti, Mariana / MG – Estudante
Diante da conhecida importância da TV pública para a população, como atrair o grande público, sabendo que este se encontra cativado por imagens, espetáculo e entretenimento e indiferente quanto ao conteúdo?

Luiz Fernando F. Gonçalves, Santos / SP
Boa noite, parabéns pelo programa! Gostaria de fazer uma pergunta: por que motivo é tão difícil que as obras (literárias, musicais, filmes, entrevistas etc.) do acervo cultural nacional sejam colocadas à disposição para a consulta on-line?

Paulo Nolasco de Andrade
No programa de ontem, senti um certo constrangimento nos participantes, inclusive, salvo engano, observei alguns sorrisos desconfiados. Falavam sobre a independência e democracia da TV pública. O diretor da TV Cultura de São Paulo foi fundador do PSDB, teve vários mandatos pelo PSDB e, até onde sei, está intimamente ligado aos doze anos da gestão do PSDB em São Paulo. Pedir ao senhor Mendonça que fale sobre a independência e democracia da TV Cultura de São Paulo, desculpe-me, é brincadeira. Coincidentemente, às 00:30h de hoje foi transmitida uma entrevista com o candidato do PT ao governo paulista e foi anunciado que as entrevistas com os outros candidatos continuariam, só que às 20:00h. Realmente a TV Cultura de São Paulo é democrática. Sabendo-se dos índices de audiência das TVs públicas, além de mim, quantos eleitores assistiram à entrevista do Mercadante?

Fatima Priscilla
Gostei muito do programa, pena que quando mudei de canal estava no último bloco, quase no final. Sou estudante de jornalismo (3º período) e estou pegando justamente a matéria “História da Imprensa” e foi bem legal assistir, mesmo que no final. Não conhecia o programa e fiquei muito feliz em saber que tem um programa específico da imprensa que é algo muito importante, já que é ela que influencia a massa. Só gostaria que fosse mais cedo. Obrigada pela atenção e mais uma vez parabéns!


Telefonemas:

Lenita Alckmin, Guaratinguetá / SP
Vocês não acham que a programação deveria ser mais divulgada?

Fabiano Ruso, Rio de Janeiro
O cidadão brasileiro, enquanto receptor, está pronto para receber uma programação apurada, cultural da TV pública?

Josias Silva, Rio de Janeiro
Qual a solução para os jornalistas do futuro, já que o mercado está restrito e cada vez mais exigente? Para quem não fez estágio, seria um problema?

Marcos Antônio de Medeiros, Caicó / RN
Por que a TV pública não investe nas transmissões esportivas?

Jackson Silva, Rio de Janeiro
Qual o caminho que os jornalistas recém-formados podem seguir, já que vivemos em uma inconseqüência da convergência entre mídias?

Vítor Magalhães, Rio de Janeiro
Beth, você não acha que as empresas privadas anunciam pouco em TVs públicas?

Melquíades Junior, Limoeiro do Norte / CE
Marcos, a autonomia das TVs públicas nos estados não acaba gerando uma submissão às políticas locais? Como evitar isso?

Rodrigo Torquato, Rio de Janeiro
Eugênio, a TV pública contempla o segmento social das camadas mais pobres?

Washington Forte, Fortaleza / CE
Jorge, como distinguir as TVs públicas das estatais, pois muitas atuam como TV estatal, levando o nome de TV pública?



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