PROGRAMA DO DIA 23 DE MAIO DE 2006

MÍDIA E ATENTADOS EM SÃO PAULO

A série de atentados que começou em São Paulo e se estendeu para outros estados foi o tema do Observatório da Imprensa.

A mídia esteve a altura dos acontecimentos? Soube informar ao cidadão a gravidade do caso?

Leia o resumo do programa

  Veja o Compacto

ARMANI vs. HUGO BOSS
New-look da Folha para enfrentar o botox do Estadão
Alberto Dines

Jornais mudam de visual para se diferenciar dos concorrentes – mas, no Brasil, a cosmética vigente torna-os iguais. O novo look da Folha de S.Paulo, adotado no domingo (21/5), tinha como um dos seus objetivos afastá-la do Estadão. Os fados caprichosos decidiram o contrário: os concorrentes acabaram assemelhados.

Leia na íntegra

A mídia consegue mostrar a real dimensão da violência em São Paulo?

Resultado:

Sim: 10%

Não: 90%

Aqui você pode participar de fóruns sobre assuntos ligados à imprensa, deixar seu recado no nosso mural e ler as perguntas dos telespectadores.

Perguntas - Aqui são colocadas as perguntas dos telespectadores que chegam por telefone, fax ou e-mail durante o programa e ao longo da semana.

5 Bloco - Leia a opinião dos participantes do programa, sobre o debate.

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

A votação da urna eletrônica da semana passada não foi recorde, mas registrou um número muito expressivo de votantes: 2.382 no total. O assunto era a matéria de capa da revista Veja do fim de semana anterior. Daqui a pouco você saberá os resultados exatos, mas uma coisa ficou clara – o leitor brasileiro desenvolveu um olhar crítico e já não recebe passivamente tudo o que a imprensa leva até ele. A nossa sondagem não tem validade científica, mas reflete uma tendência inquestionável: nosso cidadão-leitor já não aceita passivamente tudo o que a mídia lhe oferece. Nosso leitorado aprendeu a julgar, principalmente aqueles que querem fazê-lo de tolo.


Leia na íntegra

GUERRA COM A BOLÍVIA
Acabou o gás da cobertura da imprensa?

Luciano Martins Costa

Analistas do mercado de capitais, quem diria, encerraram a semana recomendando ações da Petrobras. A empresa anunciou antecipação de investimentos na exploração de jazidas próprias de gás no Espírito Santo, e revelou o patenteamento de uma nova tecnologia para produção de óleo tipo diesel a partir da soja. Foi o que bastou para que a percepção de imagem da empresa apresentasse uma completa revolução, elevando suas ações a perspectivas absolutamente inversas às que a imprensa nos apresentou logo após as medidas de expropriação alardeadas pelo novo presidente da Bolívia, Evo Morales.

Leia na íntegra


RESUMO DO PROGRAMA

MÍDIA E ATENTADOS EM SÃO PAULO

O Observatório da Imprensa do dia 23 de maio debateu o pânico que a maior cidade da América Latina viveu nos últimos dias. Durante mais de uma semana, São Paulo foi aterrorizada por 293 atentados, com um saldo de 160 mortos.

Alberto Dines, em seu editorial, disse: "Marcola, o bandido, mudou tudo. Os cadernos de cidade finalmente foram valorizados, os repórteres de rua foram reabilitados, as autoridades descobriram que não podem continuar dizendo uma coisa e fazendo outra. Marcola desarrumou as rotinas das redações, mostrou que jornais diários devem trabalhar com igual intensidade todos os dias da semana e que não adianta fingir que está tudo bem, quando na realidade, quase tudo anda muito mal."

Participaram do programa, em São Paulo, o juiz Wálter Maierovitch e o jornalista da TV Cultura, Renato Lombardi e no Rio de Janeiro, a professora de Antropologia, Alba Zaluar e o editor de opinião do Globo, Aluízio Maranhão.

O juiz Wálter Maierovitch comentou sobre a transformação da violência no Brasil: "Mais do que um crime organizado, ela também deve ser considerada um crime politizado. Na realidade houve, infelizmente, um upgrade. Nós saímos das quadrilhas e bandos e passamos para organizações especiais, mafiosas, que têm a ousadia de decretar guerra ao estado. E essas organizações, que hoje são especiais, adotaram técnicas terroristas, técnicas que transformaram São Paulo em uma Bagdá. Podemos observar bem que hoje existe, nessa criminalidade, um órgão de cúpula e um órgão de governo. E esse órgão de governo tem uma potentíssima rede que faz com que essa cúpula se comunique com a base e, mais do que isso, uma rede capilar que entra pelos estados e é transnacional. Basta ver as armas que vêm do Paraguai para abastecer o PCC (Primeiro Comando da Capital). Nesse episódio, conseguiram dividendos, conseguiram que o estado capitulasse a ponto de mandar avião com advogado para se encontrar com a liderança. Além disso, o próprio estado se posicionou como não tendo havido um acordo, quando todos os indícios mostram que houve acordo. Vale dizer que o estado virou prisioneiro do PCC."

A professora Alba Zaluar explicou o pouco conhecimento da sociedade sobre as facções criminosas: "Nós temos muito pouco conhecimento, ainda, de como operam esses comandos. Alguns colegas fizeram estudos do Comando Vermelho na década de 1980. Existe um estudo de um jornalista em São Paulo sobre o PCC. Mas, de fato, todos nós fomos pegos de surpresa. Ninguém esperava, ninguém poderia prever que isso estava para acontecer em São Paulo. O que isso nos revela? Que nossa preocupação, a importância que nós demos durante todos esses 26 anos, até um pouco mais, 30 anos, ao crescimento dessas organizações criminosas, sejam elas pequenas ou os comandos, foi muito pouca. Esse descaso com essa formação de organizações criminosas, nos levou a um grande desconhecimento de como elas operam. Nós sabemos pelos estudos em outros países, na Europa e na própria Colômbia, que essas organizações operam por meio de redes, especialmente no caso do tráfico de drogas. Porque os jogos e a prostituição podem ser muito mais centralizados. No caso do tráfico de drogas, não. Necessariamente, há essa disseminação de bocas de fumo, onde possam chegar ao usuário. Isso cria para a organização uma série de problemas a respeito de como garantir a lealdade, como exercer comando em uma direção, como conseguir obediência. De fato, o que surpreende no caso brasileiro é que isso foi conseguido de uma forma muito rápida. A máfia italiana tem uma história de mais de 150 anos. Quando o tráfico de drogas se instala, começa a desestruturar a organização, que estava muito mais baseada em uma estrutura de poder do que em uma estrutura empresarial, que é característica do tráfico de drogas."

O jornalista Aluízio Maranhão opinou sobre a cobertura da imprensa paulista nos atentados do PCC em São Paulo e a comparou com a cobertura da imprensa do Rio de Janeiro: "A posição da imprensa carioca durante a ação do Exército nas favelas foi clara e francamente favorável, enquanto a imprensa paulistana foi o contrário. Refletindo sobre isso, a conclusão a que cheguei é que a distância geográfica também influenciava naquele momento a posição editorial da imprensa em São Paulo. Era uma coisa distante acontecendo no Rio de Janeiro e, olhando friamente a ação do Exército, as Forças Armadas nas ruas é uma ação perigosa. Agora, quero evitar uma espécie de torneio Rio/São Paulo, isso não vai levar a nada. Acho que, por ter trabalhado nove ou dez anos em São Paulo, sei da competência da imprensa paulista e sei também de suas características próprias, algumas delas diferentes das características da imprensa carioca. A imprensa carioca tem uma tradição longa de reportagem de cidade muito ativa. O Globo é um dos três maiores jornais do país e o único dos três a dar manchetes com polícia, porque tem tudo a ver. Não só com a história do jornal, que nesses oitenta anos sempre cobriu intensamente o dia-a-dia do Rio de Janeiro, mas porque a violência é, infelizmente, uma mazela gravíssima. E agora fica claro que esse é um problema nacional."

O também jornalista Renato Lombardi falou sobre a mídia, o sistema carcerário e as autoridades: "Foi uma surpresa para as autoridades, tanto do sistema carcerário quanto da Secretaria de Segurança Pública, mas para alguns jornalistas não foi surpresa nenhuma o que aconteceu. Enquanto as autoridades negociam com o crime organizado para poder encontrar uma tranqüilidade no sistema carcerário – em São Paulo existem 144 unidades prisionais, quase 45% dos presos do país – alguns jornalistas que cobrem essa área sabiam o que estava acontecendo porque as pessoas que controlam o crime organizado dentro e fora da cadeia continuam cada vez mais atuantes. Esse partido criminoso domina os pontos de drogas de toda a capital da grande São Paulo e também do interior, domina o tráfico de armas, que é algo muito sério. Combater a ação dos criminosos era o estado que deveria fazer, dar cesta-básica para as famílias dos presos, condição e, ao mesmo tempo, ter essas pessoas nas mãos. Então, alguns jornais têm escrito muito sobre isso. Agora, o grande problema dessa história é que ninguém imaginaria as conseqüências, nem as autoridades, nem a mídia."


EDITORIAL

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

A votação da urna eletrônica da semana passada não foi recorde, mas registrou um número muito expressivo de votantes: 2.382 no total. O assunto era a matéria de capa da revista Veja do fim de semana anterior. Daqui a pouco você saberá os resultados exatos, mas uma coisa ficou clara – o leitor brasileiro desenvolveu um olhar crítico e já não recebe passivamente tudo o que a imprensa leva até ele. A nossa sondagem não tem validade científica, mas reflete uma tendência inquestionável: nosso cidadão-leitor já não aceita passivamente tudo o que a mídia lhe oferece. Nosso leitorado aprendeu a julgar, principalmente aqueles que querem fazê-lo de tolo.

Marcola, o bandido, mudou tudo: os cadernos de cidade finalmente foram valorizados, os repórteres de rua foram reabilitados, as autoridades descobriram que não podem continuar dizendo uma coisa e fazendo outra. Marcola desarrumou as rotinas das redações, mostrou que jornais diários devem trabalhar com igual intensidade todos os dias da semana e que não adianta fingir que está tudo bem quando na realidade quase tudo anda muito mal.

Marcola mostrou que eleições não são os únicos instrumentos de mudança. A quatro meses do próximo pleito percebe-se que as mudanças devem ocorrer agora, imediatamente, antes que seja tarde.

Marcola mostrou que a violência não se concentra no Rio de Janeiro, é um fenômeno nacional que envolve não apenas os presídios e as favelas, mas também o Congresso. A corrupção não é um ilícito isolado e confinado ao caixa dois dos partidos. A corrupção deixa seqüelas em todas as esferas da sociedade. Marcola juntou-as.

Marcola mostrou que para entender Marcola é preciso ir um pouco além das frases feitas e posturas politicamente corretas. O bandido nos acordou para as conquistas democráticas que já havíamos esquecido. Marcola relembrou a repressão e a justiça sumária nos becos escuros.

O fenômeno Marcola tem apenas 9 dias de vida. Difícil interromper o seu curso.


ARTIGO
Por Alberto Dines

ARMANI vs. HUGO BOSS
New-look da Folha para enfrentar o botox do Estadão
Alberto Dines

Jornais mudam de visual para se diferenciar dos concorrentes – mas, no Brasil, a cosmética vigente torna-os iguais. O novo look da Folha de S.Paulo, adotado no domingo (21/5), tinha como um dos seus objetivos afastá-la do Estadão. Os fados caprichosos decidiram o contrário: os concorrentes acabaram assemelhados.

É certo que o logotipo, as fontes tipográficas, o desenho e as opções gráficas dos dois jornalões são distintos, mas o que os torna indistintos são as razões que os empurraram para a sala de cirurgia: disputam o mesmo público. E este público tem uma peculiaridade – não lê jornais. E como não lê jornais não será atraído pela linguagem, teor, qualidade ou autoria dos textos, mas sim pela embalagem e a aparência do que foi impresso naquelas páginas.

Por mais diferentes que sejam as palhetas de cores e o arranjo das páginas do Estadão e da Folha, ambos têm as mesmas necessidades e apelam para os mesmos impulsos. Querem mais leitoras e mais jovens entre seus assinantes e partem do mesmo preconceito: mulheres e jovens não querem densidade da informação, querem leveza, entretenimento. E na busca desta leveza os jornalões acabam recorrendo ao mesmo arsenal de cacoetes.

Palheta de cores

Por ocasião do face-lifting do Estadão este Observador percebeu uma inclinação para o conceito Armani. Para facilitar a comparação e nivelá-los no plano das metáforas fashion a opção da Folha pode ser denominada Hugo Boss. Equivalem-se, a diferença reside apenas na etiqueta. Pretendem ser light e clean, mas para serem efetivamente light e clean teriam que procurar os leitores mais sofisticados. Partiram então na direção contrária: a caricatura de modernidade.

Pretendiam inventar uma nova palheta de cores e acabaram utilizando o batido verde-mar encontrado pelo Valor há meia dúzia de anos e depois reproduzido no Estadão.

400 anos de história

Para organizar a sua rica vitrine de colunistas, a Folha contentou-se em padronizar as dimensões das colunas o que lhe valeu merecida e corajosa fustigada de Janio Freitas no primeiro dia (domingo, 21) da "nova fase". Na quinta (25), foi a vez do colunista Demétrio Magnoli reclamar a perda de "quase um quinto" do seu espaço. "De que serve opinião sem fato ou contexto histórico?", perguntou. 

Sob o ponto de vista jornalístico nenhuma novidade, o que significa uma clara opção pelo retrocesso. A cadernização do jornal ficou ainda mais aberrante, já que o uso abundante de cores nas capas dos cadernos exigiu uma diminuição no número de suas páginas e produziu uma inédita duplicação (dois cadernos de "Cotidiano", dois de "Mundo" etc.). Em dezembro, quando aumentar o número de anúncios, teremos duas "Ilustradas" ou dois primeiros cadernos – o primeiro caderno-1 e o primeiro caderno-2.

Quando o novo visual do Estadão já parecia surrado, o seu incansável marketing inventou a milionária campanha de anúncios onde a humanidade foi dividida em dois segmentos – os "Ão-ão-ão" e os "Inhos." Vamos ver o que o marketing da Folha aprontará dentro de alguns meses quando a maquiagem testada no último domingo começar a esmaecer.

Jornais sempre apostaram na continuidade, por isso existem há 400 anos. Agora, enquanto discutem a sua sobrevivência, os jornalões brasileiros brincam de trocar de cara. Isso tem um preço.


OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET

GUERRA COM A BOLÍVIA
Acabou o gás da cobertura da imprensa?

Luciano Martins Costa

Analistas do mercado de capitais, quem diria, encerraram a semana recomendando ações da Petrobras. A empresa anunciou antecipação de investimentos na exploração de jazidas próprias de gás no Espírito Santo, e revelou o patenteamento de uma nova tecnologia para produção de óleo tipo diesel a partir da soja. Foi o que bastou para que a percepção de imagem da empresa apresentasse uma completa revolução, elevando suas ações a perspectivas absolutamente inversas às que a imprensa nos apresentou logo após as medidas de expropriação alardeadas pelo novo presidente da Bolívia, Evo Morales.

A seguir na observação da sucessão das notícias e seus efeitos reais na economia, teríamos que cobrir de ridículo todo o circo armado pela mídia sul-americana nos últimos dias. Mas é tão flagrante a falta de credibilidade da imprensa entre os poderosos que decidem o destino do dinheiro disponível no mundo, que alguns analistas não chegaram a dedicar mais do que um parágrafo à crise provocada pela Bolívia. As manchetes dando conta de nova guerra no fim do mundo foram quase completamente ignoradas ao fim de poucos dias.

Os números outra vez falaram mais alto. Alguém mais ousado chegou a considerar que "a Petrobras é um Estado mais poderoso que a Bolívia". O relatório semestral de economia emitido regularmente pelo FMI em abril, dissecado nas planilhas dos analistas, mostrava uma previsão de crescimento mundial maior – de 4,5% para 4,9% – para este ano, em relação à projeção anterior. Crescimento exige energia, e a Petrobras joga esse jogo.

Preço de face

Como o principal fator de risco no contexto internacional continua sendo o preço do petróleo, a habilidade da Petrobras em ocupar o noticiário com uma estratégia agressiva, mas serena, composta de ações afirmativas, acaba por colocá-la em posição privilegiada entre as alternativas do capital internacional. Acrescente-se a isso o fato de que o semestre revela tendência a uma maior distribuição no fluxo dos investimentos, e poderemos concluir que, na verdade, a estatal brasileira de energia nunca esteve nem mesmo nas proximidades do apocalipse que nos foi pintado pela imprensa.

Os investidores seguem protegidos, uma vez que têm suas próprias e privilegiadas fontes de informação. E o cidadão comum, aquele que ainda pensa na Petrobras como um patrimônio da nacionalidade – sentimento exacerbado pela imprensa no auge da crise com a Bolívia –, como fica? Certamente, vai acordar um dia destes se sentindo idiota, revendo toda indignação a que foi induzido e lentamente se dando conta de que seus sentimentos cívicos foram manipulados.

A capa da revista Veja na qual o presidente da República foi retratado com a marca de um sapato no traseiro, vai representar o quê, daqui a umas semanas? Vai significar algo mais, nas bibliotecas das escolas, daqui a alguns anos, do que puro lixo? E os destemperos do presidente do PFL, Jorge Bornhausen, a exigir a guerra contra os bolivianos, e o rosto sempre afogueado do senador do PSDB amazonense Artur Virgílio, elevados a personagens de destaque nas escolhas dos editores, o que terão retratado?

Se entrarmos pelo viés econômico do noticiário, vamos dar no beco da irrelevância. Analistas costumam dizer que, para os negócios, o noticiário político não vale hoje mais do que 5% dos fatores a serem considerados. Se entrarmos pela política, vamos nos dar conta de que a imprensa compra pelo preço de face o circo das disputas partidárias, e o transfere para qualquer editoria, seja a economia, seja a seção policial ou o caderno de esportes.

O que importa saber

A política externa do atual governo é vulnerável a muitas críticas, e parecem ter razão os especialistas quando alertam que questões fundamentais para o país não podem permanecer tão dependentes da conversa "maneira" do presidente Lula da Silva. No entanto, em algum momento a imprensa deveria reconhecer que a atitude de serenidade e firmeza mantida pelo governo – evitando o confronto e tomando medidas para reduzir a dependência do gás boliviano no curto prazo – acaba dando resultados que nunca seriam alcançados com as retaliações exigidas nas bravatas da oposição assumidas pela mídia.

Por último, convém registrar o vareio de bola que os gestores de crise da Petrobras deram na imprensa. Uma seqüência inteligente de press releases, declarações espontâneas e entrevistas bem planejadas levou à opinião pública, por iniciativa da diretoria de comunicação da estatal, os elementos essenciais para esvaziar o cenário de guerra que se armava. Expostas as armas da Petrobras, a imprensa perdeu o gás e mudou de assunto.

Ainda estamos longe de uma solução definitiva para a crise do gás. Mas, segundo analistas, as ações da Petrobras devem ganhar sustentabilidade nas próximas semanas, por conta da apresentação de melhores perspectivas de médio e longo prazos, que é o que os investidores querem saber. Quem se apavorou com as manchetes e se livrou de suas ações, perdeu.

Ganham os de sempre.


5º BLOCO

Veja o que disseram os convidados após o programa:

Rio de Janeiro:
Aluízio Maranhão – Editor de Opinião / O Globo
"Acho que a pauta foi ampla, diversificada. As questões principais foram, praticamente, todas abordadas. Só acho que deveria ter um pouco mais de tempo."

Alba Zaluar – Professora de Antropologia / UERJ
"Achei o programa ótimo, mas gostaria de ter falado mais sobre o medo."


PERGUNTAS

E-mails:

Acácio Rodrigues Filho, Tatuí / SP
Gostaria de deixar minha indignação pela Revista Veja, pelos denuncismos publicados, onde a honra dos denunciados é deixada de lado, e o jornalismo jogado no lixo com os exageros de suas falsas reportagens. Acredito que a revista Veja tenha políticos envolvidos que querem fuzilar com os denuncismos o PT e Governistas, isso já ocorria antes do Presidente Lula ser eleito.

Leni Girardi Malavasi, Valinhos / SP
Prezados senhores, desde pequena, sempre me lembro de haver um jornal em casa. Era tão obrigatório como o relógio. Saber as horas, saber as notícias. Mesmo depois do advento da TV, ler as notícias, analisadas sob diferentes pontos de vista, era muito interessante. Agora, as coisas mudaram tanto que, quando chega o jornal, leio as manchetes, irrito-me e viro-o do lado contrário. Tenho mais dois meses de assinatura de jornal diário e já não agüento mais. Salvo alguns bons articulistas ou entrevistas ótimas como a do Chico Buarque, o jornal está parecendo mais um fofoqueiro mal intencionado do que um veículo de informações. Extrapolou. Fui também, durante algum tempo, assinante da Veja. Imagine! Hoje tenho até vergonha de pensar nisso. Não gosto nem de olhar para ela que ainda fica me mandando exemplares toda semana. Parece uma dessas revistas fúteis que invadem a privacidade de artistas de novelas a fim de vender cada vez mais, não importa como. Conheço pessoas que nunca leram jornal nem abriram um livro e hoje assinam a Veja para ficarem bem informadas. Pobres bois, na boiada... Na TV, então, é um pouco (muito) pior, pois ela atinge mais pessoas, contamina mais depressa. Há muito bonequinho animado, mas sem nenhuma emoção, lendo qualquer coisa que o patrão lhes coloque na frente, apenas em troca de um ótimo salário. Pelo dinheiro e pelo poder, mata-se a ética, a verdade e o decoro. Para se estar bem informado, é necessário uma mídia honesta e bem intencionada que divulgue fatos relevantes e os analise sem vassalagens, sem segundas intenções e sem defesas hipócritas, camuflando interesses ocultos e inconfessáveis. Por tudo isso, ultimamente, tenho me refugiado na lucidez de um Saramago, ou mergulhado nos encantos de uma música ou nos intrincados labirintos de um bom filme de detetives. Abdiquei do relógio já faz algum tempo, para me sentir mais livre e estava disposta a fazer o mesmo com as notícias, alienando-me e ignorando tudo. Mas, no meio de todas essas nuvens escuras, o sol começou a brilhar de novo quando conheci as edições semanais do Observatório e as revistas Caros Amigos e Carta Capital. Assistindo o programa todas as terças-feiras e assinando as duas revistas, vou começar uma nova era: ficar bem informada de mãos dadas com a verdade, sem me irritar com as hipocrisias e as más intenções que tenho lido, visto e ouvido ultimamente. Aliás, vendo e ouvindo o Observatório da Imprensa passei a enxergar as notícias de modo muito mais lúcido e com muito mais transparência. Nunca como antes.

Adriano
As autoridades paulistas foram negligentes desde 2001, o processo de melhor investir na segurança foi noticiado pela mídia, mas as autoridades não tomaram nenhuma providência com relação a isso. Gostaria de fazer uma pergunta aos convidados do programa: se as providências tivessem sido tomadas em 2001, como a mudança da legislação teria melhorado a segurança?

Moises
Bom dia! Confesso que não sou fã do ex-governador Garotinho mas acho um tremendo massacre o que as Organizações Globo estão fazendo contra ele. Eu que pensava que na Net as informações sobre política fossem mais livres, vejo que não, o sistema está dominado. Eu vasculho muitos sites, todos eles divulgaram a notícia da liminar cassada de Garotinho no dia 13/05, mas nenhum mostra o direito de resposta decidido provisoriamente pelo TJ do RJ, em favor daquele estado contra o jornal O Globo.

Ivana Mendes
Prezado Alberto Dines, o Globo de hoje - domingo 21 de maio de 2006, do qual sou assinante - mais uma vez traz uma matéria sobre a qual quero comentar. Não leio Extra, O Dia etc. (apenas em busca de alguma matéria pontual, e nem quero supor como tratam o assunto que vou abordar...). O título da matéria é “Tráfico faz granada com cilindro de oxigênio”, assinada pelo jornalista Antônio Werneck. Em uma blitz a polícia encontra junto com outros armamentos um tipo de granada que é feita com cilindro de oxigênio que são usados em ambulância. Ele dá a receita para se fazer o artefato: os bandidos enchem o recipiente com pólvora, pregos, bilhas e usam um pavio rústico para acioná-lo. A detonação é rápida e o raio de destruição é maior que o das granadas usadas pelas forças armadas. Dá também outros modelos e tipos. Você acha que este é um bom jornalismo? Quantas pessoas lerão a matéria e ficarão estimuladas a preparar uma coisa tão simplória e com tanto poder de destruição? Seria ótimo eu ter uma destas no meu sítio, para jogar em algum bandido, não? Você acha que é censura proibir este tipo de veiculação? Tenho também muitas restrições quanto a certas matérias que divulgam o nome dos traficantes, sua importância, seu poder. Não acha que para estas pessoas isto representa a glória, o reconhecimento de sua força, aumentando ainda mais o seu poder? Como os outros países, tipo Estados Unidos, Inglaterra, França, tratam estes assuntos? Seria muito bom ouvi-lo.

Nelson Andrade
Antecipando-me ao tema do próximo programa, seria importante baixarmos o véu da hipocrisia que se instala nessas pseudo-autoridades. Querer colocar a responsabilidade nas operadoras de telefonia móvel por conta do uso de celulares nas cadeias, fere nossa diferencial capacidade de pensar. Todos sabemos que por trás desse sistema penitenciário falido, existe uma indústria que ganha muito com esse estado de coisas. Se a lei não prevê a proibição de aparelhos nas cadeias, que o diretor da penitenciária proíba, ou tem alguém acima dele interessado que continue assim?

Bruno de Castro, Recife / PE – TV Comunitária Canal Capibaribe
Já venho percebendo uma mudança social positiva na programação das emissoras de TV brasileiras. A sociedade está mais exigente não só no consumo, mas na escolha da programação televisiva. Quem assistiu o Fantástico no último domingo teve uma bela oportunidade de ver uma programação informativa, social e educativa. Perfeito!!!! Estão aprendendo a rever os valores e a nossa sorte é ter emissoras como a TVE para motivar e fortalecer essas mudanças na mídia. Parabéns!!

Ronaldo Flores, Caxias do Sul / RS
Diante dos fatos ocorridos na semana passada no Brasil, sendo que os mesmos não são novidade, mas na verdade obtiveram seu ápice somente agora, a população civil, em sua maioria, começa a considerar a possibilidade da adoção da pena de morte no Brasil. Sendo a vida um direito fundamental garantido constitucionalmente pela nossa lei maior, peço a consideração da mesa em relação a este, em meu ponto de vista, grande equívoco por parte da maioria da sociedade.

Berto Peixoto
Fala-se muito do tráfico de armas. No entanto pesquisas mostram que a grande maioria das armas usadas no crime é de origem local. Por que esta questão é sempre tratada dividindo responsabilidades entre o Governo Federal e os estados, ao invés de se deixar claro quem tem ingerência sobre o quê? Já que para o Exército ou Polícia Federal tem sempre que pedir permissão para agir?
Por que insistem em querer bloquear o "espaço" telefônico celular se mais preciso e eficaz seria coibir a entrada de celulares, de carregadores, e por fim corte de energia se for o caso? E a imprensa não insiste nessa cobrança, do mesmo jeito que dedicou tanto tempo com mensalão e caixa 2.

Arcírio Batalha Gouvêa Neto, Rio de Janeiro – Jornalista
Pergunto ao juiz Maierovitch: o que falta para ser criado um Código Penal e um Código de Execuções Penais modernos, atuais e que realmente abordem a realidade da criminalidade no Brasil? Por que essa demora, essa lentidão em aplicar esses novos códigos? A quem essa prática interessa? Existem quais motivos que impedem sua aplicação?

Rubens Crevelone dos Santos, Praia Grande / SP
Olá Dines e participantes, pergunto ao juiz Walter Maierovitch: o PCC direcionou os ataques para os três níveis da administração:
1) Municipal - Através das empresas de transportes, de concessão municipal;
2) Estadual - Através da Polícia do estado de São Paulo;
3) Federal - Através dos bancos, de concessão federal.
Não atacaram o cidadão comum, nem os usuários dos ônibus, nem os usuários dos bancos; nem mesmo um vigia de banco ou motorista de ônibus foi atacado. Estaria o PCC se posicionando politicamente diante da sociedade?

Lucio Carvalho, Alegrete / RS
Boa noite Observatório da Imprensa, gostaria de saber por que não é usado pelo Judiciário de forma urgente, o recurso da Internet ou de vídeoconferência para o julgamento dos presos de segurança máxima, evitando os riscos e a atenção para escoltas, trânsitos interrompidos e viagens superfaturadas. A sociedade sabe que a videoconferência para o julgamento faz parte da solução moderna.

Rodrigo Ciconet Dornelles
Esse programa faz tudo, menos discutir a atuação da imprensa (muito menos os oligopólios dos meios de comunicação). Infelizmente, a programação da TV é um lixo - até mesmo os programas das redes públicas deixam muito a desejar. O programa Observatório da Imprensa, que se propõe a analisar a imprensa desse país, dialoga, na maioria das vezes, com jornalistas vinculados aos grandes conglomerados de jornais, tvs e rádios do país. Do meu ponto de vista não é um programa sério, onde a mídia independente - aquela que não tem rabo-preso com qualquer empresa ou multinacional - está presente. Não se discute os problemas da mídia brasileira como, por exemplo, a questão de não haver liberdade de imprensa. Como pode haver liberdade de imprensa em um país onde os meios de comunicação estão nas mãos de meia dúzia de famílias há mais de 50 anos, pelo menos? Por que não se discute que os canais de TV são uma concessão pública? Por que não se discute mídias alternativas? Por que não se discute como é feita a nomeação do ministro das Comunicações? Como, por exemplo, quem o indica? A quais interesses ele responde? Aos interesses do povo ou aos interesses da classe dominante? Por que não se discutem esses pontos e outros tão polêmicos e controversos?

Luís Antonio do Amaral, São Paulo – Professor
Sr. Dines, pelo respeito que tenho a este espaço de pensamento e de reflexão da sociedade, aproveito para parabenizá-lo pelo excelente trabalho e, ao mesmo tempo, lamentar por estar lecionando quando da exibição do Observatório, somente podendo assisti-lo quando estou ausente da sala de aula e também para denunciar o grau de violência que cerca parte da sociedade e a inobservância das questões que estão sendo debatidas em decorrência da violência explícita que assolou nosso país, conforme o repúdio enviado em tempo real ao programa Negros em Foco.

Luciano da Silva
Saudações, gostaria de receber um e-mail que satisfizesse minha curiosidade, a saber: quais são os limites da imprensa? Quero saber se a imprensa tem, e tendo de onde vem, o direito de me fotografar ou me filmar sem minha autorização?

Lygia Malaguti
Caro Alberto Dines, você não acha que colocar no mesmo nível R$ 29,00 da dívida do Lula que o Delúbio teria pago e o Caixa 2, não é nivelar valores tão diferentes?

Carlos Washington Santos Menezes
Por que o Observatório da Imprensa nunca falou nada sobre o silêncio mortal da grande mídia com relação à existência, há mais de 10 anos, do Foro de São Paulo e de seus objetivos, sendo que nosso presidente eleito discursou na comemoração dos 15 anos do Foro em julho do ano passado? Detalhe: na campanha eleitoral, quando questionado por Boris Casoy da existência do Foro, o então candidato sugeriu que o Boris nunca mais tocasse neste assunto!

Kleane Nogueira, Goiânia / GO
Parabéns pelo programa desta terça-feira (23/05). É importante discutirmos os exageros da mídia, principalmente neste episódio ocorrido em São Paulo que, particularmente, me chocou pelo exagero da imprensa. Abraços, até a próxima terça!


Telefonemas:

Luidge de Oliveira, Belo Horizonte / MG
Alba, a senhora acha que a imprensa está mais preocupada em espetacularizar a violência do que discutir soluções?

Marcio Alessandro Francisco, Américo Brasiliense / SP
Maierovitch, o que o senhor acha de notícias relevantes sobre a criminalidade serem debatidas em programas de auditório e fofoca?

Douglas Tavares, Recife / PE
Renato, muitas vezes a imprensa explicita golpes e atos criminosos cometidos por bandidos. Isso não acaba sendo uma escola para esses marginais?

Antônio Vazquez, Rio de Janeiro
Maierovitch, durante a liberação de doze mil presos no dia das mães, não estaria o ex-governador Alckmin fazendo caixa dois para sua campanha à presidência?

Ivo Pereira, Rio de Janeiro
Se por acaso acabasse esse tratamento diferenciado para o crime do colarinho branco, que tem regalias, se a cadeia fosse igual para todos, os crimes políticos não acabariam? E a legalização das drogas não poderia ser uma opção, tendo em vista países com baixo índice de violência como a Holanda?

Alexandre Menezes, São Gonçalo / RJ
Será que se houvesse uma maior punição aos compradores de drogas, o problema da violência não se resolveria? Eles não são coniventes com o tráfico?

Paulo Sérgio, Rio de Janeiro
Por que será que o PFL, tendo governado São Paulo por doze anos, não conseguiu acabar com a criminalidade no estado?

Jânio Ferreira, Rio de Janeiro
A estrutura familiar e a falta de afetividade entre as pessoas não deveriam ser mais discutidas, e não apenas as drogas, a violência etc?

Lúcio Rocha, Belo Horizonte / MG
No Brasil temos milhares de pessoas poderosas soltas, como Paulo Maluf, por exemplo. Essas impunidades não estimulam facções criminosas?

Ruy Fulgêncio, Belo Horizonte / MG
Está acontecendo o que o PCC queria, estão fazendo o marketing do medo. Se a violência deve ser tratada como uma doença, como curá-la, se até as autoridades também estão contaminadas?

Luiz Caldeira, Rio de Janeiro
Maierovitch, o senhor acredita que o crime brasileiro está ligado às FARC?

Diogo Gomes, Rio de Janeiro
Os senhores acham que a educação é a melhor saída para acabar com a criminalidade no Brasil?

Sérgio Pessoa, João Pessoa / PA
Por que o sistema penitenciário de São Paulo não segue o exemplo da penitenciária agrícola de Pernambuco?

Aldo Silva, Sapé / PA
Quais as medidas que podem ser tomadas para que a criminalidade diminua? Que tipo de investimentos podem ser feitos nos presídios?

Luiz Antônio da Costa, Rio de Janeiro
Até quando a mídia vai tratar os políticos diferente de como trata os bandidos?

José Joaquim Cardoso, Porto Alegre / RS
Com tantos elogios que fizeram ao Marcola, será que vão votar nele para presidente?

Sérgio Torres, Rio de Janeiro
Os senhores não acham que o “endeusamento” do Marcola feito pela mídia, não o está transformando em herói nacional?

Carlos Max, Rio de Janeiro
O que os policiais corruptos em São Paulo vão pensar daqui para frente?

Aurene Ferreira, Maceió / AL
O que o cidadão poderia fazer para tentar conter essa violência?

Eribelto Ferreira, Arapiroca / AL
Será que o crime organizado não está patrocinando as vagas de carcereiro?

Átila de Souza, Rio de Janeiro
A imprensa não glamouriza o marginal, como o Marcola, e sataniza quando um jornalista é atingido, como é o caso do Elias Maluco?

Lúcia Bara, Rio de Janeiro
Os senhores não acham que essa tragédia em São Paulo, com tantas mortes, não seria influência dessa corrupção dos políticos que varre o nosso país? Isso não seria uma revolta da sociedade?

Jorge Leite, Espírito Santo
O que foi feito pelas autoridades em São Paulo a respeito das TVs que chegaram no presídio?

Sócrates Magno, Bahia
O fato de você ver um bandido como o Marcola sendo, constantemente, estampado em capas de revistas de circulação nacional, não faz com que o criminoso tenha, também, o sonho de se ver na capa de uma revista? A imprensa não deveria evitar esse tipo de comportamento?

Cassino Medeiros, São Gonçalo / RJ
As denúncias da imprensa, quando são de origem de bandidos e marginais, não seriam perigosas para a nossa sociedade?



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