RESUMO DO PROGRAMA
MÍDIA E ATENTADOS EM SÃO PAULO
O Observatório da Imprensa do dia 23 de
maio debateu o pânico que a maior cidade da América Latina viveu nos
últimos dias. Durante mais de uma semana, São Paulo foi aterrorizada por
293 atentados, com um saldo de 160 mortos.
Alberto Dines, em seu editorial, disse:
"Marcola, o bandido, mudou tudo. Os cadernos de cidade finalmente foram
valorizados, os repórteres de rua foram reabilitados, as autoridades
descobriram que não podem continuar dizendo uma coisa e fazendo outra.
Marcola desarrumou as rotinas das redações, mostrou que jornais diários
devem trabalhar com igual intensidade todos os dias da semana e que não
adianta fingir que está tudo bem, quando na realidade, quase tudo anda
muito mal."
Participaram do programa, em São Paulo,
o juiz Wálter Maierovitch e o jornalista da TV Cultura, Renato Lombardi
e no Rio de Janeiro, a professora de Antropologia, Alba Zaluar e o
editor de opinião do Globo, Aluízio Maranhão.
O juiz Wálter Maierovitch comentou
sobre a transformação da violência no Brasil: "Mais do que um crime
organizado, ela também deve ser considerada um crime politizado. Na
realidade houve, infelizmente, um upgrade. Nós saímos das quadrilhas e
bandos e passamos para organizações especiais, mafiosas, que têm a
ousadia de decretar guerra ao estado. E essas organizações, que hoje são
especiais, adotaram técnicas terroristas, técnicas que transformaram São
Paulo em uma Bagdá. Podemos observar bem que hoje existe, nessa
criminalidade, um órgão de cúpula e um órgão de governo. E esse órgão de
governo tem uma potentíssima rede que faz com que essa cúpula se
comunique com a base e, mais do que isso, uma rede capilar que entra
pelos estados e é transnacional. Basta ver as armas que vêm do Paraguai
para abastecer o PCC (Primeiro Comando da Capital). Nesse episódio,
conseguiram dividendos, conseguiram que o estado capitulasse a ponto de
mandar avião com advogado para se encontrar com a liderança. Além disso,
o próprio estado se posicionou como não tendo havido um acordo, quando
todos os indícios mostram que houve acordo. Vale dizer que o estado
virou prisioneiro do PCC."
A professora Alba Zaluar explicou o
pouco conhecimento da sociedade sobre as facções criminosas: "Nós temos
muito pouco conhecimento, ainda, de como operam esses comandos. Alguns
colegas fizeram estudos do Comando Vermelho na década de 1980. Existe um
estudo de um jornalista em São Paulo sobre o PCC. Mas, de fato, todos
nós fomos pegos de surpresa. Ninguém esperava, ninguém poderia prever
que isso estava para acontecer em São Paulo. O que isso nos revela? Que
nossa preocupação, a importância que nós demos durante todos esses 26
anos, até um pouco mais, 30 anos, ao crescimento dessas organizações
criminosas, sejam elas pequenas ou os comandos, foi muito pouca. Esse
descaso com essa formação de organizações criminosas, nos levou a um
grande desconhecimento de como elas operam. Nós sabemos pelos estudos em
outros países, na Europa e na própria Colômbia, que essas organizações
operam por meio de redes, especialmente no caso do tráfico de drogas.
Porque os jogos e a prostituição podem ser muito mais centralizados. No
caso do tráfico de drogas, não. Necessariamente, há essa disseminação de
bocas de fumo, onde possam chegar ao usuário. Isso cria para a
organização uma série de problemas a respeito de como garantir a
lealdade, como exercer comando em uma direção, como conseguir
obediência. De fato, o que surpreende no caso brasileiro é que isso foi
conseguido de uma forma muito rápida. A máfia italiana tem uma história
de mais de 150 anos. Quando o tráfico de drogas se instala, começa a
desestruturar a organização, que estava muito mais baseada em uma
estrutura de poder do que em uma estrutura empresarial, que é
característica do tráfico de drogas."
O jornalista Aluízio Maranhão opinou
sobre a cobertura da imprensa paulista nos atentados do PCC em São Paulo
e a comparou com a cobertura da imprensa do Rio de Janeiro: "A posição
da imprensa carioca durante a ação do Exército nas favelas foi clara e
francamente favorável, enquanto a imprensa paulistana foi o contrário.
Refletindo sobre isso, a conclusão a que cheguei é que a distância
geográfica também influenciava naquele momento a posição editorial da
imprensa em São Paulo. Era uma coisa distante acontecendo no Rio de
Janeiro e, olhando friamente a ação do Exército, as Forças Armadas nas
ruas é uma ação perigosa. Agora, quero evitar uma espécie de torneio
Rio/São Paulo, isso não vai levar a nada. Acho que, por ter trabalhado
nove ou dez anos em São Paulo, sei da competência da imprensa paulista e
sei também de suas características próprias, algumas delas diferentes
das características da imprensa carioca. A imprensa carioca tem uma
tradição longa de reportagem de cidade muito ativa. O Globo é um dos
três maiores jornais do país e o único dos três a dar manchetes com
polícia, porque tem tudo a ver. Não só com a história do jornal, que
nesses oitenta anos sempre cobriu intensamente o dia-a-dia do Rio de
Janeiro, mas porque a violência é, infelizmente, uma mazela gravíssima.
E agora fica claro que esse é um problema nacional."
O também jornalista Renato Lombardi
falou sobre a mídia, o sistema carcerário e as autoridades: "Foi uma
surpresa para as autoridades, tanto do sistema carcerário quanto da
Secretaria de Segurança Pública, mas para alguns jornalistas não foi
surpresa nenhuma o que aconteceu. Enquanto as autoridades negociam com o
crime organizado para poder encontrar uma tranqüilidade no sistema
carcerário – em São Paulo existem 144 unidades prisionais, quase 45% dos
presos do país – alguns jornalistas que cobrem essa área sabiam o que
estava acontecendo porque as pessoas que controlam o crime organizado
dentro e fora da cadeia continuam cada vez mais atuantes. Esse partido
criminoso domina os pontos de drogas de toda a capital da grande São
Paulo e também do interior, domina o tráfico de armas, que é algo muito
sério. Combater a ação dos criminosos era o estado que deveria fazer,
dar cesta-básica para as famílias dos presos, condição e, ao mesmo
tempo, ter essas pessoas nas mãos. Então, alguns jornais têm escrito
muito sobre isso. Agora, o grande problema dessa história é que ninguém
imaginaria as conseqüências, nem as autoridades, nem a mídia."
EDITORIAL
Bem-vindos
ao Observatório da Imprensa.
A votação da
urna eletrônica da semana passada não foi recorde, mas registrou um
número muito expressivo de votantes: 2.382 no total. O assunto era a
matéria de capa da revista Veja do fim de semana anterior. Daqui a pouco
você saberá os resultados exatos, mas uma coisa ficou clara – o leitor
brasileiro desenvolveu um olhar crítico e já não recebe passivamente
tudo o que a imprensa leva até ele. A nossa sondagem não tem validade
científica, mas reflete uma tendência inquestionável: nosso
cidadão-leitor já não aceita passivamente tudo o que a mídia lhe
oferece. Nosso leitorado aprendeu a julgar, principalmente aqueles que
querem fazê-lo de tolo.
Marcola, o
bandido, mudou tudo: os cadernos de cidade finalmente foram valorizados,
os repórteres de rua foram reabilitados, as autoridades descobriram que
não podem continuar dizendo uma coisa e fazendo outra. Marcola
desarrumou as rotinas das redações, mostrou que jornais diários devem
trabalhar com igual intensidade todos os dias da semana e que não
adianta fingir que está tudo bem quando na realidade quase tudo anda
muito mal.
Marcola
mostrou que eleições não são os únicos instrumentos de mudança. A quatro
meses do próximo pleito percebe-se que as mudanças devem ocorrer agora,
imediatamente, antes que seja tarde.
Marcola
mostrou que a violência não se concentra no Rio de Janeiro, é um
fenômeno nacional que envolve não apenas os presídios e as favelas, mas
também o Congresso. A corrupção não é um ilícito isolado e confinado ao
caixa dois dos partidos. A corrupção deixa seqüelas em todas as esferas
da sociedade. Marcola juntou-as.
Marcola
mostrou que para entender Marcola é preciso ir um pouco além das frases
feitas e posturas politicamente corretas. O bandido nos acordou para as
conquistas democráticas que já havíamos esquecido. Marcola relembrou a
repressão e a justiça sumária nos becos escuros.
O fenômeno
Marcola tem apenas 9 dias de vida. Difícil interromper o seu curso.
ARTIGO
Por Alberto Dines
ARMANI vs.
HUGO BOSS
New-look da Folha para enfrentar
o botox do Estadão
Alberto Dines
Jornais mudam
de visual para se diferenciar dos concorrentes – mas, no Brasil, a
cosmética vigente torna-os iguais. O novo look da Folha de
S.Paulo, adotado no domingo (21/5), tinha como um dos seus objetivos
afastá-la do Estadão. Os fados caprichosos decidiram o contrário:
os concorrentes acabaram assemelhados.
É certo que o logotipo, as fontes
tipográficas, o desenho e as opções gráficas dos dois jornalões são
distintos, mas o que os torna indistintos são as razões que os
empurraram para a sala de cirurgia: disputam o mesmo público. E este
público tem uma peculiaridade – não lê jornais. E como não lê jornais
não será atraído pela linguagem, teor, qualidade ou autoria dos textos,
mas sim pela embalagem e a aparência do que foi impresso naquelas
páginas.
Por mais diferentes que sejam as
palhetas de cores e o arranjo das páginas do Estadão e da
Folha, ambos têm as mesmas necessidades e apelam para os mesmos
impulsos. Querem mais leitoras e mais jovens entre seus assinantes e
partem do mesmo preconceito: mulheres e jovens não querem densidade da
informação, querem leveza, entretenimento. E na busca desta leveza os
jornalões acabam recorrendo ao mesmo arsenal de cacoetes.
Palheta de cores
Por ocasião do face-lifting do
Estadão este Observador percebeu uma inclinação para o conceito
Armani. Para facilitar a comparação e nivelá-los no plano das metáforas
fashion a opção da Folha pode ser denominada Hugo Boss.
Equivalem-se, a diferença reside apenas na etiqueta. Pretendem ser
light e clean, mas para serem efetivamente light e
clean teriam que procurar os leitores mais sofisticados. Partiram
então na direção contrária: a caricatura de modernidade.
Pretendiam inventar uma nova palheta de
cores e acabaram utilizando o batido verde-mar encontrado pelo Valor
há meia dúzia de anos e depois reproduzido no Estadão.
400 anos de história
Para organizar a sua rica vitrine de
colunistas, a Folha contentou-se em padronizar as dimensões das
colunas o que lhe valeu merecida e corajosa fustigada de Janio Freitas
no primeiro dia (domingo, 21) da "nova fase". Na quinta (25), foi a vez
do colunista Demétrio Magnoli reclamar a perda de "quase um quinto" do
seu espaço. "De que serve opinião sem fato ou contexto histórico?",
perguntou.
Sob o ponto de vista jornalístico
nenhuma novidade, o que significa uma clara opção pelo retrocesso. A
cadernização do jornal ficou ainda mais aberrante, já que o uso
abundante de cores nas capas dos cadernos exigiu uma diminuição no
número de suas páginas e produziu uma inédita duplicação (dois cadernos
de "Cotidiano", dois de "Mundo" etc.). Em dezembro, quando aumentar o
número de anúncios, teremos duas "Ilustradas" ou dois primeiros cadernos
– o primeiro caderno-1 e o primeiro caderno-2.
Quando o novo visual do Estadão
já parecia surrado, o seu incansável marketing inventou a milionária
campanha de anúncios onde a humanidade foi dividida em dois segmentos –
os "Ão-ão-ão" e os "Inhos." Vamos ver o que o marketing da Folha
aprontará dentro de alguns meses quando a maquiagem testada no último
domingo começar a esmaecer.
Jornais sempre apostaram na
continuidade, por isso existem há 400 anos. Agora, enquanto discutem a
sua sobrevivência, os jornalões brasileiros brincam de trocar de cara.
Isso tem um preço.
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET
GUERRA COM A BOLÍVIA
Acabou o gás da cobertura da imprensa?
Luciano Martins Costa
Analistas do mercado de capitais, quem
diria, encerraram a semana recomendando ações da Petrobras. A empresa
anunciou antecipação de investimentos na exploração de jazidas próprias de
gás no Espírito Santo, e revelou o patenteamento de uma nova tecnologia
para produção de óleo tipo diesel a partir da soja. Foi o que bastou para
que a percepção de imagem da empresa apresentasse uma completa revolução,
elevando suas ações a perspectivas absolutamente inversas às que a
imprensa nos apresentou logo após as medidas de expropriação alardeadas
pelo novo presidente da Bolívia, Evo Morales.
A seguir na observação da sucessão das
notícias e seus efeitos reais na economia, teríamos que cobrir de
ridículo todo o circo armado pela mídia sul-americana nos últimos dias.
Mas é tão flagrante a falta de credibilidade da imprensa entre os
poderosos que decidem o destino do dinheiro disponível no mundo, que
alguns analistas não chegaram a dedicar mais do que um parágrafo à crise
provocada pela Bolívia. As manchetes dando conta de nova guerra no fim
do mundo foram quase completamente ignoradas ao fim de poucos dias.
Os números outra vez falaram mais alto.
Alguém mais ousado chegou a considerar que "a Petrobras é um Estado mais
poderoso que a Bolívia". O relatório semestral de economia emitido
regularmente pelo FMI em abril, dissecado nas planilhas dos analistas,
mostrava uma previsão de crescimento mundial maior – de 4,5% para 4,9% –
para este ano, em relação à projeção anterior. Crescimento exige
energia, e a Petrobras joga esse jogo.
Preço de face
Como o principal fator de risco no
contexto internacional continua sendo o preço do petróleo, a habilidade
da Petrobras em ocupar o noticiário com uma estratégia agressiva, mas
serena, composta de ações afirmativas, acaba por colocá-la em posição
privilegiada entre as alternativas do capital internacional.
Acrescente-se a isso o fato de que o semestre revela tendência a uma
maior distribuição no fluxo dos investimentos, e poderemos concluir que,
na verdade, a estatal brasileira de energia nunca esteve nem mesmo nas
proximidades do apocalipse que nos foi pintado pela imprensa.
Os investidores seguem protegidos, uma
vez que têm suas próprias e privilegiadas fontes de informação. E o
cidadão comum, aquele que ainda pensa na Petrobras como um patrimônio da
nacionalidade – sentimento exacerbado pela imprensa no auge da crise com
a Bolívia –, como fica? Certamente, vai acordar um dia destes se
sentindo idiota, revendo toda indignação a que foi induzido e lentamente
se dando conta de que seus sentimentos cívicos foram manipulados.
A capa da revista Veja na qual o
presidente da República foi retratado com a marca de um sapato no
traseiro, vai representar o quê, daqui a umas semanas? Vai significar
algo mais, nas bibliotecas das escolas, daqui a alguns anos, do que puro
lixo? E os destemperos do presidente do PFL, Jorge Bornhausen, a exigir
a guerra contra os bolivianos, e o rosto sempre afogueado do senador do
PSDB amazonense Artur Virgílio, elevados a personagens de destaque nas
escolhas dos editores, o que terão retratado?
Se entrarmos pelo viés econômico do
noticiário, vamos dar no beco da irrelevância. Analistas costumam dizer
que, para os negócios, o noticiário político não vale hoje mais do que
5% dos fatores a serem considerados. Se entrarmos pela política, vamos
nos dar conta de que a imprensa compra pelo preço de face o circo das
disputas partidárias, e o transfere para qualquer editoria, seja a
economia, seja a seção policial ou o caderno de esportes.
O que importa saber
A política externa do atual governo é
vulnerável a muitas críticas, e parecem ter razão os especialistas
quando alertam que questões fundamentais para o país não podem
permanecer tão dependentes da conversa "maneira" do presidente Lula da
Silva. No entanto, em algum momento a imprensa deveria reconhecer que a
atitude de serenidade e firmeza mantida pelo governo – evitando o
confronto e tomando medidas para reduzir a dependência do gás boliviano
no curto prazo – acaba dando resultados que nunca seriam alcançados com
as retaliações exigidas nas bravatas da oposição assumidas pela mídia.
Por último, convém registrar o vareio
de bola que os gestores de crise da Petrobras deram na imprensa. Uma
seqüência inteligente de press releases, declarações espontâneas
e entrevistas bem planejadas levou à opinião pública, por iniciativa da
diretoria de comunicação da estatal, os elementos essenciais para
esvaziar o cenário de guerra que se armava. Expostas as armas da
Petrobras, a imprensa perdeu o gás e mudou de assunto.
Ainda estamos longe de uma solução
definitiva para a crise do gás. Mas, segundo analistas, as ações da
Petrobras devem ganhar sustentabilidade nas próximas semanas, por conta
da apresentação de melhores perspectivas de médio e longo prazos, que é
o que os investidores querem saber. Quem se apavorou com as manchetes e
se livrou de suas ações, perdeu.
Ganham os de sempre.
5º BLOCO
Veja o que disseram os
convidados após o programa:
Rio de
Janeiro:
Aluízio Maranhão – Editor de Opinião / O Globo
"Acho
que a pauta foi ampla, diversificada. As questões principais foram,
praticamente, todas abordadas. Só acho que deveria ter um pouco mais de
tempo."
Alba Zaluar – Professora de Antropologia / UERJ
"Achei o programa ótimo, mas gostaria de ter falado mais
sobre o medo."
PERGUNTAS
E-mails:
Acácio Rodrigues Filho, Tatuí / SP
Gostaria de deixar minha indignação pela Revista Veja, pelos denuncismos
publicados, onde a honra dos denunciados é deixada de lado, e o
jornalismo jogado no lixo com os exageros de suas falsas reportagens.
Acredito que a revista Veja tenha políticos envolvidos que querem
fuzilar com os denuncismos o PT e Governistas, isso já ocorria antes do
Presidente Lula ser eleito.
Leni Girardi Malavasi, Valinhos / SP
Prezados senhores, desde pequena, sempre me lembro de haver um jornal em
casa. Era tão obrigatório como o relógio. Saber as horas, saber as
notícias. Mesmo depois do advento da TV, ler as notícias, analisadas sob
diferentes pontos de vista, era muito interessante. Agora, as coisas
mudaram tanto que, quando chega o jornal, leio as manchetes, irrito-me e
viro-o do lado contrário. Tenho mais dois meses de assinatura de jornal
diário e já não agüento mais. Salvo alguns bons articulistas ou
entrevistas ótimas como a do Chico Buarque, o jornal está parecendo mais
um fofoqueiro mal intencionado do que um veículo de informações.
Extrapolou. Fui também, durante algum tempo, assinante da Veja. Imagine!
Hoje tenho até vergonha de pensar nisso. Não gosto nem de olhar para ela
que ainda fica me mandando exemplares toda semana. Parece uma dessas
revistas fúteis que invadem a privacidade de artistas de novelas a fim
de vender cada vez mais, não importa como. Conheço pessoas que nunca
leram jornal nem abriram um livro e hoje assinam a Veja para ficarem bem
informadas. Pobres bois, na boiada... Na TV, então, é um pouco (muito)
pior, pois ela atinge mais pessoas, contamina mais depressa. Há muito
bonequinho animado, mas sem nenhuma emoção, lendo qualquer coisa que o
patrão lhes coloque na frente, apenas em troca de um ótimo salário. Pelo
dinheiro e pelo poder, mata-se a ética, a verdade e o decoro. Para se
estar bem informado, é necessário uma mídia honesta e bem intencionada
que divulgue fatos relevantes e os analise sem vassalagens, sem segundas
intenções e sem defesas hipócritas, camuflando interesses ocultos e
inconfessáveis. Por tudo isso, ultimamente, tenho me refugiado na
lucidez de um Saramago, ou mergulhado nos encantos de uma música ou nos
intrincados labirintos de um bom filme de detetives. Abdiquei do relógio
já faz algum tempo, para me sentir mais livre e estava disposta a fazer
o mesmo com as notícias, alienando-me e ignorando tudo. Mas, no meio de
todas essas nuvens escuras, o sol começou a brilhar de novo quando
conheci as edições semanais do Observatório e as revistas Caros Amigos e
Carta Capital. Assistindo o programa todas as terças-feiras e assinando
as duas revistas, vou começar uma nova era: ficar bem informada de mãos
dadas com a verdade, sem me irritar com as hipocrisias e as más
intenções que tenho lido, visto e ouvido ultimamente. Aliás, vendo e
ouvindo o Observatório da Imprensa passei a enxergar as notícias de modo
muito mais lúcido e com muito mais transparência. Nunca como antes.
Adriano
As autoridades paulistas foram negligentes desde 2001, o processo de
melhor investir na segurança foi noticiado pela mídia, mas as
autoridades não tomaram nenhuma providência com relação a isso. Gostaria
de
fazer uma pergunta aos convidados do programa: se as providências
tivessem sido tomadas em 2001, como a mudança da legislação teria
melhorado a segurança?
Moises
Bom dia! Confesso que não sou fã do ex-governador Garotinho mas acho um
tremendo massacre o que as Organizações Globo estão fazendo contra ele.
Eu que pensava que na Net as informações sobre política fossem mais
livres, vejo que não, o sistema está dominado. Eu vasculho muitos sites,
todos eles divulgaram a notícia da liminar cassada de Garotinho no dia
13/05, mas nenhum mostra o direito de resposta decidido provisoriamente
pelo TJ do RJ, em favor daquele estado contra o jornal O Globo.
Ivana Mendes
Prezado Alberto Dines, o Globo de hoje - domingo 21 de maio de 2006, do
qual sou assinante - mais uma vez traz uma matéria sobre a qual quero
comentar. Não leio Extra, O Dia etc. (apenas em busca de alguma matéria
pontual, e nem quero supor como tratam o assunto que vou abordar...). O
título da matéria é “Tráfico faz granada com cilindro de oxigênio”,
assinada pelo jornalista Antônio Werneck. Em uma blitz a polícia
encontra junto com outros armamentos um tipo de granada que é feita com
cilindro de oxigênio que são usados em ambulância. Ele dá a receita para
se fazer o artefato: os bandidos enchem o recipiente com pólvora,
pregos, bilhas e usam um pavio rústico para acioná-lo. A detonação é
rápida e o raio de destruição é maior que o das granadas usadas pelas
forças armadas. Dá também outros modelos e tipos. Você acha que este é
um bom jornalismo? Quantas pessoas lerão a matéria e ficarão estimuladas
a preparar uma coisa tão simplória e com tanto poder de destruição?
Seria ótimo eu ter uma destas no meu sítio, para jogar em algum bandido,
não? Você acha que é censura proibir este tipo de veiculação? Tenho
também muitas restrições quanto a certas matérias que divulgam o nome
dos traficantes, sua importância, seu poder. Não acha que para estas
pessoas isto representa a glória, o reconhecimento de sua força,
aumentando ainda mais o seu poder? Como os outros países, tipo Estados
Unidos, Inglaterra, França, tratam estes assuntos? Seria muito bom
ouvi-lo.
Nelson Andrade
Antecipando-me ao tema do próximo programa, seria importante baixarmos o
véu da hipocrisia que se instala nessas pseudo-autoridades. Querer
colocar a responsabilidade nas operadoras de telefonia móvel por conta
do uso de celulares nas cadeias, fere nossa diferencial capacidade de
pensar. Todos sabemos que por trás desse sistema penitenciário falido,
existe uma indústria que ganha muito com esse estado de coisas. Se a lei
não prevê a proibição de aparelhos nas cadeias, que o diretor da
penitenciária proíba, ou tem alguém acima dele interessado que continue
assim?
Bruno de Castro, Recife / PE – TV Comunitária Canal Capibaribe
Já venho percebendo uma mudança social positiva na programação das
emissoras de TV brasileiras. A sociedade está mais exigente não só no
consumo, mas na escolha da programação televisiva. Quem assistiu o
Fantástico no último domingo teve uma bela oportunidade de ver uma
programação informativa, social e educativa. Perfeito!!!! Estão
aprendendo a rever os valores e a nossa sorte é ter emissoras como a TVE
para motivar e fortalecer essas mudanças na mídia. Parabéns!!
Ronaldo Flores, Caxias do Sul / RS
Diante dos fatos ocorridos na semana passada no Brasil, sendo que os
mesmos não são novidade, mas na verdade obtiveram seu ápice somente
agora, a população civil, em sua maioria, começa a considerar a
possibilidade da adoção da pena de morte no Brasil. Sendo a vida um
direito fundamental garantido constitucionalmente pela nossa lei maior,
peço a consideração da mesa em relação a este, em meu ponto de vista,
grande equívoco por parte da maioria da sociedade.
Berto Peixoto
Fala-se muito do tráfico de armas. No entanto pesquisas mostram que a
grande maioria das armas usadas no crime é de origem local. Por que esta
questão é sempre tratada dividindo responsabilidades entre o Governo
Federal e os estados, ao invés de se deixar claro quem tem ingerência
sobre o quê? Já que para o Exército ou Polícia Federal tem sempre que
pedir permissão para agir?
Por que insistem em querer bloquear o "espaço" telefônico celular se
mais preciso e eficaz seria coibir a entrada de celulares, de
carregadores, e por fim corte de energia se for o caso? E a imprensa não
insiste nessa cobrança, do mesmo jeito que dedicou tanto tempo com
mensalão e caixa 2.
Arcírio Batalha Gouvêa Neto, Rio de Janeiro – Jornalista
Pergunto ao juiz Maierovitch: o que falta para ser criado um Código
Penal e um Código de Execuções Penais modernos, atuais e que realmente
abordem a realidade da criminalidade no Brasil? Por que essa demora,
essa lentidão em aplicar esses novos códigos? A quem essa prática
interessa? Existem quais motivos que impedem sua aplicação?
Rubens Crevelone dos Santos, Praia Grande / SP
Olá Dines e participantes, pergunto ao juiz Walter Maierovitch: o PCC
direcionou os ataques para os três níveis da administração:
1) Municipal - Através das empresas de transportes, de concessão
municipal;
2) Estadual - Através da Polícia do estado de São Paulo;
3) Federal - Através dos bancos, de concessão federal.
Não atacaram o cidadão comum, nem os usuários dos ônibus, nem os
usuários dos bancos; nem mesmo um vigia de banco ou motorista de ônibus
foi atacado. Estaria o PCC se posicionando politicamente diante da
sociedade?
Lucio Carvalho, Alegrete / RS
Boa noite Observatório da Imprensa, gostaria de saber por que não é
usado pelo Judiciário de forma urgente, o recurso da Internet ou de
vídeoconferência para o julgamento dos presos de segurança máxima,
evitando os riscos e a atenção para escoltas, trânsitos interrompidos e
viagens superfaturadas. A sociedade sabe que a videoconferência para o
julgamento faz parte da solução moderna.
Rodrigo Ciconet Dornelles
Esse programa faz tudo, menos discutir a atuação da imprensa (muito
menos os oligopólios dos meios de comunicação). Infelizmente, a
programação da TV é um lixo - até mesmo os programas das redes públicas
deixam muito a desejar. O programa Observatório da Imprensa, que se
propõe a analisar a imprensa desse país, dialoga, na maioria das vezes,
com jornalistas vinculados aos grandes conglomerados de jornais, tvs e
rádios do país. Do meu ponto de vista não é um programa sério, onde a
mídia independente - aquela que não tem rabo-preso com qualquer empresa
ou multinacional - está presente. Não se discute os problemas da mídia
brasileira como, por exemplo, a questão de não haver liberdade de
imprensa. Como pode haver liberdade de imprensa em um país onde os meios
de comunicação estão nas mãos de meia dúzia de famílias há mais de 50
anos, pelo menos? Por que não se discute que os canais de TV são uma
concessão pública? Por que não se discute mídias alternativas? Por que
não se discute como é feita a nomeação do ministro das Comunicações?
Como, por exemplo, quem o indica? A quais interesses ele responde? Aos
interesses do povo ou aos interesses da classe dominante? Por que não se
discutem esses pontos e outros tão polêmicos e controversos?
Luís Antonio do Amaral, São Paulo – Professor
Sr. Dines, pelo respeito que tenho a este espaço de pensamento e de
reflexão da sociedade, aproveito para parabenizá-lo pelo excelente
trabalho e, ao mesmo tempo, lamentar por estar lecionando quando da
exibição do Observatório, somente podendo assisti-lo quando estou
ausente da sala de aula e também para denunciar o grau de violência que
cerca parte da sociedade e a inobservância das questões que estão sendo
debatidas em decorrência da violência explícita que assolou nosso país,
conforme o repúdio enviado em tempo real ao programa Negros em Foco.
Luciano da Silva
Saudações, gostaria de receber um e-mail que satisfizesse minha
curiosidade, a saber: quais são os limites da imprensa? Quero saber se a
imprensa tem, e tendo de onde vem, o direito de me fotografar ou me
filmar sem minha autorização?
Lygia Malaguti
Caro Alberto Dines, você não acha que colocar no mesmo nível R$ 29,00 da
dívida do Lula que o Delúbio teria pago e o Caixa 2, não é nivelar
valores tão diferentes?
Carlos Washington Santos Menezes
Por que o Observatório da Imprensa nunca falou nada sobre o silêncio
mortal da grande mídia com relação à existência, há mais de 10 anos, do
Foro de São Paulo e de seus objetivos, sendo que nosso presidente eleito
discursou na comemoração dos 15 anos do Foro em julho do ano passado?
Detalhe: na campanha eleitoral, quando questionado por Boris Casoy da
existência do Foro, o então candidato sugeriu que o Boris nunca mais
tocasse neste assunto!
Kleane Nogueira, Goiânia / GO
Parabéns pelo programa desta terça-feira (23/05). É importante
discutirmos os exageros da mídia, principalmente neste episódio ocorrido
em São Paulo que, particularmente, me chocou pelo exagero da imprensa.
Abraços, até a próxima terça!
Telefonemas:
Luidge de
Oliveira, Belo Horizonte / MG
Alba, a
senhora acha que a imprensa está mais preocupada em espetacularizar a
violência do que discutir soluções?
Marcio
Alessandro Francisco, Américo Brasiliense / SP
Maierovitch, o que o senhor acha de notícias relevantes sobre a
criminalidade serem debatidas em programas de auditório e fofoca?
Douglas Tavares,
Recife / PE
Renato, muitas vezes a imprensa explicita golpes e atos criminosos
cometidos por bandidos. Isso não acaba sendo uma escola para esses
marginais?
Antônio Vazquez,
Rio de Janeiro
Maierovitch, durante a liberação de doze mil presos no dia das mães,
não estaria o ex-governador Alckmin fazendo caixa dois para sua campanha
à presidência?
Ivo Pereira, Rio
de Janeiro
Se por acaso acabasse esse tratamento diferenciado para o crime do
colarinho branco, que tem regalias, se a cadeia fosse igual para todos,
os crimes políticos não acabariam? E a legalização das drogas não
poderia ser uma opção, tendo em vista países com baixo índice de
violência como a Holanda?
Alexandre
Menezes, São Gonçalo / RJ
Será que se houvesse uma maior punição aos compradores de drogas, o
problema da violência não se resolveria? Eles não são coniventes com o
tráfico?
Paulo Sérgio,
Rio de Janeiro
Por que será que o PFL, tendo governado São Paulo por doze anos, não
conseguiu acabar com a criminalidade no estado?
Jânio Ferreira,
Rio de Janeiro
A estrutura familiar e a falta de afetividade entre as pessoas não
deveriam ser mais discutidas, e não apenas as drogas, a violência etc?
Lúcio Rocha,
Belo Horizonte / MG
No Brasil temos milhares de pessoas poderosas soltas, como Paulo Maluf,
por exemplo. Essas impunidades não estimulam facções criminosas?
Ruy Fulgêncio,
Belo Horizonte / MG
Está acontecendo o que o PCC queria, estão fazendo o marketing do medo.
Se a violência deve ser tratada como uma doença, como curá-la, se até as
autoridades também estão contaminadas?
Luiz Caldeira,
Rio de Janeiro
Maierovitch, o senhor acredita que o crime brasileiro está ligado às FARC?
Diogo Gomes, Rio
de Janeiro
Os senhores acham que a educação é a melhor saída para acabar com a
criminalidade no Brasil?
Sérgio Pessoa,
João Pessoa / PA
Por que o sistema penitenciário de São Paulo não segue o exemplo da
penitenciária agrícola de Pernambuco?
Aldo Silva, Sapé
/ PA
Quais as medidas que podem ser tomadas para que a criminalidade diminua?
Que tipo de investimentos podem ser feitos nos presídios?
Luiz Antônio da
Costa, Rio de Janeiro
Até quando a mídia vai tratar os políticos diferente de como trata os
bandidos?
José Joaquim
Cardoso, Porto Alegre / RS
Com tantos elogios que fizeram ao Marcola, será que vão votar nele para
presidente?
Sérgio Torres,
Rio de Janeiro
Os senhores não acham que o “endeusamento” do Marcola feito pela mídia,
não o está transformando em herói nacional?
Carlos Max, Rio
de Janeiro
O que os policiais corruptos em São Paulo vão pensar daqui para frente?
Aurene Ferreira,
Maceió / AL
O que o cidadão poderia fazer para tentar conter essa violência?
Eribelto
Ferreira, Arapiroca / AL
Será que o crime organizado não está patrocinando as vagas de
carcereiro?
Átila de Souza,
Rio de Janeiro
A imprensa não glamouriza o marginal, como o Marcola, e sataniza quando
um jornalista é atingido, como é o caso do Elias Maluco?
Lúcia Bara, Rio
de Janeiro
Os senhores não acham que essa tragédia em São Paulo, com tantas mortes,
não seria influência dessa corrupção dos políticos que varre o nosso
país? Isso não seria uma revolta da sociedade?
Jorge Leite,
Espírito Santo
O que foi feito pelas autoridades em São Paulo a respeito das TVs que
chegaram no presídio?
Sócrates Magno,
Bahia
O fato de você ver um bandido como o Marcola sendo, constantemente,
estampado em capas de revistas de circulação nacional, não faz com que o
criminoso tenha, também, o sonho de se ver na capa de uma revista? A
imprensa não deveria evitar esse tipo de comportamento?
Cassino
Medeiros, São Gonçalo / RJ
As denúncias da imprensa, quando são de origem de bandidos e marginais,
não seriam perigosas para a nossa sociedade?