RESUMO DO PROGRAMA
A MÍDIA COMO BODE EXPIATÓRIO
O Observatório da
Imprensa do dia 9 de maio discutiu os ataques à mídia feitos pelos
políticos que se sentem pressionados por denúncias, tomando como exemplo
o caso do ex-governador Garotinho que resolveu fazer uma greve de fome
como protesto à imprensa em função de denúncias.
Alberto Dines, em seu
editorial, disse: "O time de detratores da imprensa foi ampliado há 15
dias com a entrada em campo do ex-governador Garotinho. O Globo
desvendou as irregularidades no financiamento da sua pré-candidatura, a
Folha de S. Paulo foi ainda mais longe revelando que um dos seus
financiadores era um assaltante e a resposta de Anthony Garotinho foi
começar uma greve de fome como protesto pelo comportamento da imprensa."
Participaram do
programa, no Rio, os jornalistas Luiz Antônio Novaes e Ana Arruda
Callado; em Brasília, o cientista político Walder de Góes e, em São
Paulo, o também jornalista Luiz Weis.
O jornalista Luiz
Antônio Novaes, editor-executivo do jornal O Globo, revelou como começou
a investigar o caso Garotinho: "Fizemos o que há de mais simples no
jornalismo, apurar uma informação que já circulava. A primeira
informação que Garotinho já tinha gasto 1 milhão na pré-campanha do PMDB
foi dada pelo José Dirceu. Nós fomos atrás e no início não conseguimos,
mas depois percebemos que não seria difícil apurar porque Garotinho
tinha colocado essas informações na Internet. Maravilha, que começo bom
para investigar! Investigar porque Garotinho é um pré-candidato e deve
ser investigado como qualquer outro. E foi procurando os nomes das
entidades que tinham doado dinheiro para a pré-campanha do Garotinho que
se descobriu. Não foi uma questão de um, dois dias, a apuração demorou
uns quinze dias. E duas pontas foram descobertas: entidades com
endereços de fachada e entidades com diretores ou sócios responsáveis
que mal respondiam nossos contatos e que, por sua vez, na cadeia de
informação, iam dar em ONGs que tinham recebido dinheiro do Governo do
estado. O dinheiro saía do Governo do estado sob responsabilidade de
Rosinha e ia para essas ONGs, cujos serviços também até hoje não foram
esclarecidos. Não só as entidades de lá que deram dinheiro ao Garotinho,
mas também as entidades que receberam dinheiro da Rosinha não
esclareceram totalmente, até hoje, o que fazem. Foi assim que nasceu a
matéria."
O também jornalista
Luiz Weis opinou a respeito da liberdade de imprensa: "Na semana
passada, o presidente Lula assinou um documento que ratifica o
compromisso do Governo com a liberdade de imprensa. Ele fez um pequeno
discurso e fez uma pergunta que eu notei: ‘Houve algum momento na
história do Brasil ou do mundo em que a imprensa, quando as coisas não
estão boas, deixasse de ser vilã?’ A resposta evidentemente é não.
Sempre foi, só que nunca tanto assim. E acho que há algumas razões
estruturais ligadas à interface entre mídia e política que mudou
radicalmente desde a universalização da televisão, quando ela passou
realmente a ser um grande meio de comunicação. A mídia se tornou, em uma
escala impensável em qualquer outro tempo precedente, uma arena
política. Quando se tem uma circunstância, que está longe de ser
exclusividade do Brasil, de um processo de descrédito da política e de
seus políticos, isso de alguma maneira contamina a credibilidade da
mídia. A imprensa é vista, como de fato ela é, um agente político. Então
cria-se um clima fácil para fazê-la de vilã. Isso é feito pelos próprios
políticos que na antevéspera se beneficiaram com a própria mídia."
A jornalista Ana
Arruda Callado ressaltou: "A mídia tem muitos defeitos. Acho até que
esse episódio denota um lado positivo. Eu estava muito pessimista,
achando que o jornalismo não estava cumprindo sua função de quarto
poder, de vigilância. Creio que a ditadura criou um vício que é difícil
de perder, aquela imprensa meio press release, que só ouve. Então, a
investigação estava muito esquecida. Se os políticos estão chiando, é
porque a imprensa está melhorando. É um bom sinal. E é curioso porque
nenhum poder gosta da imprensa correta, a imprensa vigilante, que
respeita o direito de informação da população. Quando os jornais
começaram a surgir na Europa, Dom João VI proibiu a imprensa em
Portugal, que ainda não existia. E é assim até hoje. E se está havendo
ataque à imprensa, é porque ela está melhorando muito, mas ainda falta
melhorar muito mais."
Walder de Góes,
crítico político, analisou a postura de Garotinho: "O Garotinho está
fazendo uma obra política perfeita. Não tinha a menor possibilidade de
ser candidato a Presidente e iria fazer qualquer coisa. Nessas
condições, de fazer o que está fazendo, sai candidato do PMDB a deputado
federal, elege doze no Rio de Janeiro, sai fazendo campanha pelo país,
elegendo amigos do PMDB, pega um pedaço maior e consolida o voto
evangélico. Tudo é produto de coincidências, isso não foi calculado,
pode até ser em alguma medida, mas o fato é que assim está acontecendo."
EDITORIAL
Bem-vindos
ao Observatório da Imprensa.
O gás
boliviano, a entrevista-bomba de Silvio Pereira e a operação sanguessuga
estão dominando as atenções da mídia, mas na sombra, quase às
escondidas, estão acontecendo coisas incríveis. Uma delas está sendo
revelada em primeira mão pelo site do Observatório: o presidente do
Senado Renan Calheiros empossou no dia 3 de maio o suplente do senador
Delcídio Amaral, Antônio João Hugo Rodrigues do PTB. Isto é
inconstitucional e ilegal porque o novo senador é dono de empresas de tv
e rádio no Mato Grosso do Sul, um parlamentar não pode ser
concessionário de serviços públicos. Veja no site do Observatório da
Imprensa todos os detalhes desta aberração.
A imprensa
virou o saco de pancadas preferido dos políticos e governantes quando
pegos em flagrante delito. Como quarto poder, a função da imprensa é
fiscalizar os demais poderes e servir à sociedade mas, entre nós, quando
a imprensa cumpre com a sua função social, paga por isso.
O ex-todo
poderoso José Dirceu bateu na imprensa quando esta revelou a extensão do
mensalão, Tarso Genro, então presidente do PT, bateu na imprensa quando
lhe faltaram outros argumentos para defender o seu partido. Quando
Severino Cavalcanti já não conseguia explicar o seu mensalinho, partiu
para atacar a imprensa.
O time de
detradores da imprensa foi ampliado há 15 dias com a entrada em campo do
ex-governador Garotinho. O Globo desvendou as irregularidades no
financiamento da sua pré-candidatura, a Folha de S. Paulo foi ainda mais
longe revelando que um dos seus financiadores era um assaltante e a
resposta de Anthony Garotinho foi começar uma greve de fome como
protesto pelo comportamento da imprensa.
A dieta de
Garotinho virou piada e alimenta os cartunistas há exatos 10 dias, mas é
preciso não esquecer que a carreira de muitos caudilhos populistas
latino-americanos começou exatamente assim: fazendo da imprensa o bode
expiatório.
ARTIGO
Por Alberto Dines
OCTÁVIO
FRIAS DE OLIVEIRA
Outros tempos, o mesmo refrão
Alberto Dines
Os comentaristas políticos desprezaram,
os cadernos ditos "literários" acharam que não era com eles (e não era
mesmo), a editora não está entre as "queridinhas" das redações e, assim,
passou em brancas nuvens o lançamento das memórias do general Sylvio
Frota, Ideais Traídos – a mais grave crise dos governos militares
narrada por um de seus protagonistas (Jorge Zahar, Rio, 2006), com
apresentação de Celso Castro e Maria Celina d’Araujo.
As memórias de Sylvio Frota são
burocráticas, difíceis de ler, mas oferecem informações preciosas. Mais
do que a radiografia de um linha-dura é uma tomografia do "pensamento
militar" – e nela aparece intacta a ojeriza à imprensa. No momento em
que esta ojeriza está sendo modernizada e assimilada pela
esquerda, pela direita macartista e pelos populistas, convém revê-la em
estado natural.
A mídia e alguns círculos acadêmicos
colocaram a dupla G-G (Geisel-Golbery) no panteão dos heróis e, com
isso, varreram "o outro lado" que ofereceria os contrastes para desenhar
os personagens, situações e ações que marcaram o início da chamada
"distensão lenta e gradual".
Fica visível um preconceito, aliás
pouco acadêmico, de privilegiar uma facção em detrimento da outra
quando, na realidade, a "linha dura" e a "linha branda" fazem parte do
mesmo fenômeno. Estiveram juntas no início (março de 1964), na
radicalização (dezembro de 1968) e ao longo do governo Médici (até
1973).
Só conflitaram na escolha do seu
sucessor – os "duros", paradoxalmente a favor de um civil (Leitão de
Abreu), e os "brandos" apostando num militar castelista (Ernesto
Geisel) que, ironicamente, não serviu na Força Expedicionária Brasileira
(FEB) e não se mostrava muito afinado, em plena Guerra Fria, com alguns
dos paradigmas ditos "ocidentais".
O Pacote de Abril, de 1977, merece ser
examinado porque seus efeitos estão até hoje incorporados à nossa
legislação político-eleitoral e, tudo indica, para sempre (pág. 344). O
episódio do "Voto sionista" (pág. 191) reforça alguns traços
preconceituosos do general Geisel que o jornalista e historiador Elio
Gaspari já insinuara na sua monumental obra sobre a ditadura militar.
Semanas depois
Num momento em que a imprensa volta a
servir de bode-expiatório é oportuno lembrar uma passagem do livro onde
o autor escancara o seu desapreço pela imprensa. É mais uma homenagem ao
publisher da Folha de S.Paulo, Octávio Frias de Oliveira,
que naqueles dias difíceis de 1975-76 soube tourear as pressões sobre o
seu jornal enquanto outros se acomodavam à autocensura.
Às páginas 256-257 está o fac-símile do
Aviso de 22/01/76, do ministro do Exército Sylvio Frota ao seu colega
Armando Falcão, ministro da Justiça:
Senhor Ministro: há dois ou três
dias venho pedindo a V.Exa enérgicas providências contra a Imprensa
e, em particular, a de São Paulo, que através de artigos violentos,
injustos e revoltantes, tem procurado lançar o Exército contra o
Governo e desmoralizar um de seus mais insignes Chefes movimentado,
por necessidade do serviço, em virtude de decisão presidencial.
Não obstante as providências que,
estou convicto, V. Exa tomou, esta campanha difamatória prosseguiu
hoje no jornal FOLHA DE SÃO PAULO, agora em termos ultrajantes ao
Exército.
Dentro do espírito que norteia o
comportamento dos militares, espírito este de disciplina,
compreensão e acatamento às decisões do Comandante Supremo das
Forças Armadas, mostram-se todos, Generais e Oficiais, indignados
com esta atitude da Imprensa que, valendo-se de uma circunstância de
serviço, provoca, talvez guiada por elementos dissociadores nela
infiltrados, a mais legítima repulsa.
Permita-me, Senhor Ministro,
perguntar que imagem fará o povo do nosso Exército lendo o artigo
que tenho a honra de encaminhar a V. Exa, em anexo, assinado pelo
jornalista Alberto Denis [sic].
Em face do exposto, solicito a V.
Exa seja responsabilizado o autor de tais infâmias, nos termos da
Lei de Segurança Nacional, esperando que, desta vez, seja atendido o
pedido do Ministro do Exército, que o faz em nome da defesa de sua
classe e da dignidade de um General de probidade e caráter ilibados,
com relevantes serviços prestados à Pátria, que está tendo sua honra
conspurcada.
Renovo a V. Exa. etc.etc.
Os informantes do ministro erraram ao
identificar o nome do jornalista cujos artigos apareciam com as iniciais
A. D. (os articulistas da página 2 da Folha eram então
identificados por iniciais, seguindo o padrão há muito adotado pelo
Estadão). Eis o texto que na manhã de 22 de janeiro de 1976 foi
publicado na página 2 da Folha e que tanto incomodou o ministro
Frota:
Uma Vitória da Arena
Um suspiro de alívio toma conta do
País. O governador Paulo Egídio toma alento para fazer sua profissão
de fé antitotalitária sem medo de ser enquadrado como comunista,
jornais ganham sua desenvoltura, políticos se desanuviam, militares
se solidarizam com o presidente Geisel no verdadeiro "esprit de
corps" em torno do valores da corporação.
Até o secretário de Segurança do
estado, abandonando a postura de caçador, volta-se para sua função
precípua, qual seja a segurança coletiva, num salutar, ainda que
tardio, renascimento de seu espírito público. Cada um, à sua
maneira, se deixa penetrar pelo clima de distensão que, afinal,
começa a peneirar em todos os setores e níveis da Nação.
Não houve um ato isolado na troca
de comando no II Exército. Nesta magnitude, qualquer movimento ganha
majestade e importância. Na exoneração do comandante do II Exército
houve uma decisão doutrinária de reconduzir a Revolução ao modelo
democrático que a inspirou e lhe deu a sustentação popular inicial.
O programa de 1968 recebeu seu primeiro grande abalo e o espírito de
1964 ganhou sua primeira revitalização, doze anos depois.
Um país não pode crescer apenas
impulsionado pela histeria anti-subversiva. Não há exemplo, na
história, de nenhuma nação que engrandecesse no frenesi da
violência, a não ser a URSS. Pergunta-se: é a Rússia o paradigma da
linha dura brasileira? Ou aconteceu, como já dissemos antes, que
nesta longa perseguição, caça e caçador tenham se identificado de
tal forma que o modelo comunista foi insensivelmente adotado como
padrão para os anticomunistas?
É preciso que as classes produtoras
e meios empresariais que, por longo tempo, alimentaram com recursos
e ânimo as empreitadas da violência em São Paulo, convençam-se
definitivamente de que o progresso econômico só pode ocorrer onde
exista o progresso de valores. Os diretores de "marketing" deveriam
saber que uma sociedade oprimida não compra, toma.
Se os acontecimentos da
segunda-feira fazem parte de uma política, é preciso então que haja
conseqüência. A vitória da Arena, por exemplo, terá de ser
conseguida nas urnas e, isto, além do óbvio, é relativamente fácil –
desde que não se entregue ao MDB a capitalização de todas as boas e
nobres causas.
É preciso não esquecer que foi o
presidente Geisel, da Arena, o autor do grande safanão na linha dura
e não o presidente da Oposição, Ulisses Guimarães. Esta ousadia deve
ser transformada em votos.
Quando operários, jornalistas,
políticos e estudantes deixarem de ser torturados e mortos em
dependências militares, então será retirado do partido da Oposição
seu grande triunfo, sua plataforma emocional. Quando o Governo
dissolver o encadeamento entre corrupção e histeria ideológica que
se instalou nos meios acadêmicos (veja-se agora o caso da UFRJ),
sindicais, empresariais e administrativos, então a Arena terá meios
de eleger vereadores e fazer seus prefeitos, sem precisar recorrer
ao instrumental de intimidação e arbítrio.
O general Ednardo de um lado, os
falecidos Herzog e Fiel, de outro, representam a trágica divisão que
se implantou no País. Mesmo sem guerra, temos instalada entre nós
uma catastrófica secessão, partindo a Nação ao meio. Veja-se que nas
eleições de 1965, quando a Oposição foi vitoriosa, a plataforma que
a consagrou não envolvia direitos humanos, liberdade de imprensa,
redistribuição da renda. O próprio presidente Castelo apoiou vários
candidatos a governador da Oposição, talvez a única vitória
eleitoral da Revolução. Foi uma disputa entre partidos, política, e
não um confronto apocalíptico de vida e morte, onde vale tudo.
Esta mortal estigmatização –
comunista é todo aquele que ousa discordar e patriota todo aquele
que se põe a caçar comunistas – infelizmente começava a
configurar-se na pessoa do general Ednardo à frente do II Exército.
Chegou a vez de mudar, e não apenas
de comandos, mas de espírito. Homens de bem não podem mais ser
presos como se fossem criminosos e criminosos não podem continuar
impunes, só porque empunham a bandeira ideológica. Chegou a vez da
Aliança Renovadora Nacional renovar-se e assumir o seu papel
reformador. Foi ela a grande beneficiada das ocorrências em São
Paulo. (A.D.)
***
O ministro Armando Falcão procurou
Octávio Frias de Oliveira e transmitiu oralmente os termos da reclamação
do colega militar. O publisher da Folha só informou ao
articulista de seu jornal sobre a queixa semanas depois. Não queria
intimidá-lo.
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET
CREDIBILIDADE EM QUESTÃO
Pesquisa revela a (des)confiança na mídia
Venício A. de Lima
No Dia da
Imprensa, ao assinar solenemente a Declaração de Chapultepec, o
presidente da República reafirmou aos empresários da grande mídia seu
compromisso com a liberdade de imprensa, lembrou a responsabilidade
proporcional ao seu poder que jornais e jornalistas devem ter, e
manifestou sua confiança na sabedoria e no discernimento da população em
relação às notícias veiculadas pela mídia.
Na mesma quarta-feira (3/5), o
Jornal Nacional da Rede Globo de Televisão noticiou seminário sobre
o tema realizado na Câmara dos Deputados, fez críticas a "tropeços" do
governo e, além da cerimônia no Palácio do Planalto, acrescentou a
seguinte informação:
"E no Dia da Imprensa, uma pesquisa
da rede inglesa BBC e da agência Reuters em dez países mostrou que
os brasileiros acreditam mais na imprensa do que no governo: 45%
acreditam que os meios de comunicação são confiáveis e 30%
consideram o governo confiável. Entre os dez países, o Brasil ficou
em 8º lugar em relação à confiança na mídia – ao lado da Coréia, e à
frente apenas da Alemanha. E os brasileiros demonstraram o pior
índice de confiança no governo. Na pesquisa sobre a confiabilidade
das empresas, a TV Globo ficou em primeiro lugar no Brasil.
Quem se der ao trabalho de ler as 22
páginas do relatório da pesquisa – Trust in the Media – verá que ela
revela muito mais sobre a grande mídia brasileira do que o sugerido na
breve notícia do JN e nas matérias publicadas em jornais e
revistas que trataram do assunto entre nós.
A pesquisa foi realizada pelo Instituto
GlobeScan para a BBC, a Reuters e o The Media Center, e entrevistou
10.230 adultos em 10 países – Inglaterra, Estados Unidos, Brasil, Egito,
Alemanha, Índia, Indonésia, Nigéria, Rússia e Coréia do Sul – nos meses
de março e abril deste ano.
No Brasil, o trabalho foi realizado
pela GfK Indicator e foram ouvidos, por telefone, mil adultos de nove
regiões metropolitanas – Belém, Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza,
Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo – no período
de 16 a 22 de março.
Fonte de informação
Uma primeira constatação que se pode
fazer é que, considerando o período em que a pesquisa foi realizada – 11
meses depois do início do "escândalo político midiático" e das
revelações diárias, na grande mídia, de denúncias de corrupção
envolvendo genericamente "o governo" – não é de surpreender que apenas
30% dos entrevistados manifestassem confiança no governo. Ao contrário.
Talvez se possa até mesmo dizer que esse percentual é surpreendentemente
elevado.
O que de fato chama a atenção é que
mais da metade dos entrevistados – ou 55% – tenham dito que não confiam
nas informações obtidas através da mídia. Entre todos os países
pesquisados, esse percentual é igual ao da Coréia do Sul e só não é
maior do que o obtido na Alemanha (57%).
A pesquisa revelou também que o Brasil
é, comparativamente, o país onde os entrevistados estão mais
descontentes com a sua própria mídia, conforme expresso em diferentes
indicadores:
**
80% (oitenta e não dezoito, como consta da matéria "Brasil: mídia é mais
confiável que governo", publicada em O Globo em 3/5/2006, pág A
31) disseram que a mídia exagera na cobertura das notícias ruins;
**
64% (sessenta e quatro) concordam que raramente encontram na grande
mídia as informações que gostariam de obter;
**
45% (quarenta e cinco) não concordam que a cobertura da grande mídia
seja acurada; e
**
44% (quarenta e quatro) declaram ter trocado de fonte de informação nos
últimos 12 meses por haver perdido a confiança.
Advertência reiterada
Outra revelação importante é de que
somente 20% (vinte) dos entrevistados brasileiros declaram confiar nos
blogs como fonte de informação, enquanto os jornais impressos foram
apontados por 68% (sessenta e oito) como as fontes mais confiáveis.
O quadro que emerge da pesquisa da
GlobeScan no Brasil, portanto, é de uma grande mídia que exagera na
cobertura apenas do que é ruim e na qual a maioria não confia nem
encontra o que quer. Além disso, quase a metade dos entrevistados não
acredita que ela cubra os fatos corretamente e declara haver mudado de
fonte de informação por falta de confiança.
O enquadramento da cobertura que a
grande mídia fez da própria pesquisa da GlobeScan – salientando o que é
positivo para ela e escondendo o que é negativo – não seria um exemplo
que confirma a percepção que a maioria dos entrevistados revela?
Não seria essa avaliação muito próxima
daquela que outras pesquisas de opinião no Brasil indicam como sendo a
da maioria da população sobre a cobertura que a grande mídia tem
oferecido ao país da crise política nos últimos meses?
Se for, faz sentido a advertência feita
por experientes analistas e políticos no correr desse longo processo de
crise, e que agora foi reiterada pelo próprio presidente da República no
Dia da Imprensa:
"Se engana aquele que escreve
alguma coisa sem imaginar ou sem acreditar que o povo tenha
capacidade de discernimento para saber o que é exagero, o que é
verdade, o que é mentira".
5º BLOCO
Veja o que disseram os
convidados após o programa:
Rio de
Janeiro:
Ana Arruda Callado -
Jornalista
"O
Góes falou muito e se perdeu um pouco, mas sempre é bom discutir vários
temas."
Luiz Antônio Novaes -
Editor-Executivo O Globo
"Faltou
debater alguns assuntos, mas o tempo é curto. Um dos assuntos foi a
pressão que o governo Lula faz sobre a imprensa."
São Paulo:
Luiz Weis - Jornalista
"Hoje
o ponto alto do programa foi tentar mostrar que quando se fala na
imprensa como bode expiatório, precisamos lembrar que ela também tem
culpa."
PERGUNTAS
E-mails:
Luiz, Santos / SP
Qual seria a verdadeira intenção do Garotinho com a greve de fome?
Sensibilizar quem? Existe um público mínimo de ingênuos para se
sensibilizar com isso e gerar algum ganho político?
Edivaldo Alves do Nascimento
Saudações. Dines, sou seu admirador por isto o motivo deste e-mail.
Por forças do destino não consegui realizar meu sonho profissional de
ter me formado em jornalismo. Por isso tenho me sentido inútil ao ver
tantos desmandos ocorrendo na política e aparentemente não poder fazer
nada. Mas, como dizia Boris Casoy, é preciso passar o Brasil a limpo.
Pergunto: Dines, por que a ABI não pode realizar um ato contínuo de
esclarecimento junto à opinião pública para que ela pratique cidadania,
ou seja, para que a população cobre o que lhe é de direito? A ABI não
pode vir a público e convocar todos os órgãos de imprensa para que seja
veiculada diariamente em todo os meios de comunicação, uma propaganda
que cobre ações dignas dos políticos, para que o Brasil se torne um país
justo? Não sei se estou me fazendo entender. Será que em nome de um
Brasil melhor, esta imprensa – Globo, SBT, Band, JB, Rádio Eldorado,
Jovem Pan, Estadão, Folha, Ibest, UOL, Terra etc. – não pode se unir e
tornar um sonho realidade? Desculpe se pareço um personagem tipo “Muito
além do jardim” mas sonhar ainda é possível!
Pedro Rocha
Quando acusada de manipular a informação, a imprensa se põe de vítima
que nem os políticos. A diferença é que a imprensa tem o poder e o
espaço da mídia. Nesse momento ela se une num corporativismo que nada
difere de outras classes e de setores empresariais. Quem critica a
imprensa então? Vocês?
Luiz Raphael Teixeira
Novaes, não concorda que Garotinho esteja realizando a greve de fome
para alimentar a si mesmo?
Rubens Crevelone dos Santos, Praia Grande / SP
Caro Dines e demais participantes, um dos entrevistados disse que o
Garotinho foi investigado assim como todo candidato deve ser. Onde
estava a imprensa quando o senador tucano Eduardo Azeredo fundava o "valérioduto"
em 1998?
Alípio da Silva
Gostaria de saber até onde a falta de disciplina, a falta de ética e as
atitudes questionáveis de Lula e seus companheiros estão influenciando
na vida do brasileiro zeloso e decente que, no presente momento, está
com a dignidade agredida frente a tanta falta de vergonha?
Telefonemas:
Cristóvão Cruz, Pelotas / RS
Novaes, a TV Globo simplesmente ignorou as imagens da greve de fome do
Garotinho, apenas citou em notas. Isso é válido para um meio de
comunicação?
Carlos Roberto, Rio de Janeiro
Novaes, qual a perspectiva do jornal O Globo em relação ao
acompanhamento da “novela” Garotinho?
Roberto Lima, Rio de Janeiro
Walder de Góes, qual a diferença entre o direito de resposta que O Globo
ofereceu e o direito de resposta que Garotinho pede? Ele estaria
exigindo várias páginas inteiras. Isso é real? Estaria ele respaldado
pela lei de imprensa?
Emiliano Chaves, São Paulo
Ana Arruda, a Veja não exagerou colocando chifres e rabinho de diabo em
um homem que se diz evangélico? Não foi uma violência?
Álvaro Matarago, São Paulo
Será que a imprensa não está, de fato, denegrindo a honra e a moral de
um homem honesto como o ex-governador?
Jerusa da Silva, Divinópolis / MG
Novaes, por que
O Globo ataca tanto o Garotinho e não outros políticos?
Carlos Henrique Lopes, Fortaleza / CE
A greve de fome não é um erro de estratégia do Garotinho?
Isolda Bonabeu, Santa Maria / RS
Novaes, por que você só critica o Lula e o Garotinho, esquecendo do
Alckmin?
Rosalvo de Oliveira Júnior,
Brasília / DF
Até que ponto os interesses privados dos donos dos meios de comunicação
se confundem com o interesse público de informar?
Arilton Queirós, Salvador / BA
Por que alguns meios de comunicação são partidários? Isso não seria
incorreto?
Eduardo Rodrigues, Brasília / DF
É moral, ilegal ou legal que ONGs façam doações a partidos ou políticos?
José Guilherme Araújo, Rio de Janeiro
A Rede Globo tem o poder de derrubar quem lhe convier?
Gabriel Borba, Rio Grande do Sul
A TV Globo só comenta sobre a greve de fome do Garotinho. A Band está
fazendo uma grande cobertura. Quem está correto, qual o comportamento
correto da imprensa?
Rumenin Marcos, Caruaru / PE
Aonde a greve de Garotinho vai dar?
Edílson Baptista, Fortaleza / CE
Por que o Alckmin teve a audácia de colocar um chapéu que representa o
Nordeste?
José Ferreira, Nova Olinda / CE
O que está acontecendo com o Garotinho não seria um fingimento para
ganhar votos?
Carlos Sergio Martins, São Gonçalo / RJ
Através do voto nulo, será que conseguiríamos tirar esses corruptos?
Carlos Oliveira, Recife / PE
É verdade que Rosinha está tentando receber alta quantia da Rede Globo,
em nome de um débito que as organizações Globo teriam com o Governo do
Estado?
Enilson Nunes, Volta Redonda / RJ –
Professor
A imprensa tem ou não, em histórico recente, perseguido determinados
candidatos à presidência da República?
Hamilton Galdino, Belo Horizonte / MG
A imprensa não deveria cobrar desculpas desses políticos que dizem que
ela mente?
Jorge Alberto, Rio de Janeiro
Jornalistas participam do programa, mas por que não falam de Alckmin?
Rubens Góes, São Vicente / SP
A mídia não deveria pegar mais pesado com esses políticos?
Daniel Domingos, Diamante do Norte / PR
Dines, se a imprensa é realmente transparente, por que toda vez que
aparece um deputado ou senador do PT envolvido com um tipo de corrupção
ela informa o nome do político e seu partido, mas quando o político é de
outro partido, não informam?
Bruno Brandão, Rio de Janeiro
O Garotinho colocou condições à mídia para acabar com a greve de fome.
Elas são viáveis?
Mário Sérgio Molvão, Rio de Janeiro
Até onde a imprensa vê o atual momento político como uma crise das
instituições causada pelo processo liberal? Esse processo ainda pode ser
visto como uma solução para um projeto de país como o Brasil?
Sonia Souza, Pedro Leopoldo / MG
Depois da descoberta do mensalão, várias outras “bombas” estouraram.
Como escolher um candidato?
Jorge Pereira, Rio de Janeiro
Os funcionários do Governo do Estado podem fazer greve de fome como o
ex-governador? Afinal, alguns ganham R$150,00.
Zamir de Oliveira, Rio de Janeiro
A sociedade pode confiar plenamente na
imprensa, já que existem partes tendenciosas?
Daniele Gomes, Rio de Janeiro
Já que a TV Globo não dá direito de resposta para o Garotinho, por que
as outra emissoras não o fazem?
Antonio Ventura, Brasília / DF
Por que a imprensa muitas vezes omite os fatos?
Antonio Vasques, Rio de Janeiro
Como apenas agora o Garotinho foi desmascarado?
Sergio de Souza, Rio de Janeiro
Dines, qual o artigo da Constituição que fala que a mídia é o quarto
poder?
Gustavo César, Recife / PE
O que vocês acham da atitude do ex-governador?
Walmir do Nascimento, Recife / PE
A Globo tem como provar tudo o que denuncia a respeito de Garotinho?
Josivaldo Mandes, Recife / PE
Novaes, A TV Globo fez isso contra o Garotinho por preconceito
religioso?
Jânio Costa, Duque de Caxias / RJ
Novaes, o político tem razão ao criticar O Globo por imparcialidade?
Raimundo Soares, Pará de Minas / MG
As revistas semanais estão passando, realmente, credibilidade à
população?
Gilson Silbério, Volta Redonda / RJ
Ana Arruda, a revista Isto É teria favorecido Garotinho em sua matéria.
Qual foi o maior banditismo da imprensa? Foi a capa da Isto É ou o caso
do Pró-Consult em 1991?
Magdala Viana, Niterói / RJ
Ana Arruda, você não acha que corre o risco de ao invés de desmoralizar
Garotinho, sacralizá-lo? Há uma denúncia a ser comprovada de que a Isto
É pertence ao Garotinho. Vocês confirmam isso?