RESUMO DO PROGRAMA
TV
DIGITAL
O
Observatório da Imprensa do dia 14 de fevereiro debateu a implantação da
TV digital no país.
Alberto
Dines, em seu editorial, ressaltou: "O que é que você espera da TV
Digital? Uma imagem fabulosa, um som fantástico, mais interatividade,
mais portabilidade e mais serviços. Em matéria de conteúdo teremos o
número de canais multiplicados por dez, mas em matéria de diversidade da
programação, quais serão as novidades? A TV Digital está sendo pensada
para desconcentrar ou concentrar ainda mais a propriedade dos meios de
comunicação? Atrás da tecnologia há uma discussão política e
institucional que este Observatório não pode ignorar. A produção de
conteúdo continuará nas mesmas mãos e nas mesmas empresas? A TV Digital
permitirá novas alternativas em matéria de informação e entretenimento?"
Participaram, em Brasília, o Ministro das Comunicações, Hélio Costa; em
São Paulo, o jornalista Luís Nassif; e no Rio de Janeiro, o jornalista
Nelson Hoineff.
Hélio
Costa, questionado por Dines sobre as possibilidades de empresas de
telefonia produzirem conteúdo, respondeu: "É um problema delicado esta
transição da TV analógica para a TV Digital. Qual é a participação das
empresas de telecomunicações na TV Digital? Neste momento, nós temos
alguns marcos regulatórios que definem claramente o que é radiodifusão e
o que é telecomunicação. Nós temos uma lei de telecomunicações e nós
temos o Código Brasileiro de Radiodifusão, que é uma lei de 1962. Fica
bem definido o papel de cada um no modelo que nós temos no Brasil. Na
verdade, as empresas de telecomunicação só podem, tecnicamente pela lei,
transportar som, imagem e conteúdo de outros. Ela não pode neste momento
fazer conteúdo, até porque a Constituição impede isso. Nós da Comissão
de Comunicação da Câmara dos Deputados precisamos iniciar a discussão da
Lei Geral de Comunicação Social, esta sim, poderá acomodar certamente a
questão da radiodifusão com a telecomunicação, mas na medida em que nós
estamos na transição da TV analógica para a TV Digital, é muito
importante fazermos uma relação com o que aconteceu no passado, quando
nós tivemos também a transformação do telefone fixo para celular, do
celular para o analógico e depois para o digital. Houve uma revolução no
sistema de telefonia brasileiro, e na verdade nós não fizemos uma
discussão profunda como estamos fazendo nesse momento em que a televisão
sai do analógico e vai para o digital."
O
ministro das Comunicações argumentou a respeito da questão colocada pelo
jornalista Luís Nassif de que o modelo japonês não possibilitaria
diversidade: "Vou tentar colocar de forma bem clássica as distinções dos
três padrões. O padrão japonês conseguiu dividir em 13 módulos os 6 MHZ
e dá o direito de você juntar esses 13 módulos da maneira que você
quiser. Você pode fazer alta definição com dois desses módulos. Pode
fazer também, simultaneamente, a interatividade, portabilidade e
mobilidade dentro dos 6 MHZ, sem sacrifício da imagem de alta definição.
No entanto, quando se tenta fazer isso com o padrão europeu, você
sacrifica a imagem de alta definição. Você não consegue ter uma imagem
de alta definição, fazendo, ao mesmo tempo, dentro dos 6 MHZ, a
portabilidade e a mobilidade."
Hélio
Costa fez uma avaliação a pedido do jornalista Nelson Hoineff sobre a
transição para a TV Digital em outros países: "A sua questão deve ser
analisada dentro do seguinte contexto: onde é que se tem hoje 100% de TV
Digital? Em nenhum lugar, nem nos Estados Unidos. Lá tem programação
digital em alta definição, mas ainda se faz, no máximo, 15% da
programação. Na Europa não se faz nenhuma transmissão em alta definição
porque a Europa decidiu por um padrão que não contempla a alta definição
no momento. Ela só faz transmissão em baixa definição em três cidades e
começa em primeiro de abril a fazer a portabilidade e a mobilidade.
Então, fica difícil se fazer uma análise porque isso só seria possível
no momento que estiver em curso a TV Digital em um país. E não tem
nenhum país 100% com TV Digital. Todos eles estão planejando desligar
entre 2009, 2010 e 2011 a TV analógica. Mas para isso, nós ainda temos
três, quatro, cinco anos pela frente. No Brasil nós imaginamos que vai
demorar de dez a quinze anos pelo menos. Agora, no desenvolvimento de
conteúdo, o Brasil compete com os Estados Unidos, disparadamente melhor
do que a Europa porque, tirando os maravilhosos documentários da BBC, a
Europa faz a televisão que nós fazíamos há quinze, vinte anos. Nós
competimos com a Europa em primeiríssimo nível. Nós competimos com os
Estados Unidos e, certamente, competimos na Ásia. Nós temos de
modernizar o nosso conteúdo sem, ainda, muito espaço para fazer expansão
desse conteúdo. Mas a criatividade brasileira é tão extraordinária que
nós sabemos que ela ocorre no cinema, na televisão, no audiovisual de
modo geral. Nós não temos problemas nesse sentido. Eu vejo com muita
facilidade a participação do Brasil no mercado global de conteúdo. Ao
mesmo tempo, a integração das mídias vem naturalmente porque nós vamos
ter todo esse marco regulatório fazendo esta convergência das mídias. Eu
não vejo dificuldade."
EDITORIAL
Bem-vindos
ao Observatório da Imprensa.
Nosso
Observatório radiofônico está em novo patamar, além da Rádio
Cultura FM de São Paulo e das rádios MEC AM e FM do Rio, passamos a
ser transmitidos diariamente pelo sistema Radiobrás - as rádios
Nacional do Rio, de Brasília (AM e FM) e ainda por ondas curtas para
todo o Brasil. Em nosso site você encontra os horários e as posições
no dial.
O que é
que você espera da Tv Digital? Uma imagem fabulosa, um som fantástico,
mais interatividade, mais portabilidade e mais serviços. Em matéria de
conteúdo teremos o número de canais multiplicados por dez. Mas em matéria
de diversidade da programação, quais serão as novidades?
A Tv
Digital está sendo pensada para desconcentrar ou concentrar ainda mais
a propriedade dos meios de comunicação?
Nas últimas
semanas os jornais e a própria televisão começaram a discutir
publicamente o padrão que será adotado, se o japonês, se o europeu ou
o americano. Mas, esta é uma questão muito técnica. Atrás da
tecnologia há uma discussão política e institucional que este
Observatório não pode ignorar.
A produção
de conteúdo continuará nas mesmas mãos e nas mesmas empresas? O
mercado produtor será enriquecido com novos concorrentes ou
continuaremos dependendo dos mesmos agentes? A Tv Digital permitirá
novas alternativas em matéria de informação e entretenimento?
A
sociedade brasileira quer apenas novas tecnologias ou quer também mudanças
estruturais? A questão resume-se a uma pergunta: se é para manter os
mesmos paradigmas, os mesmos preconceitos e o mesmo padrão cultural então
para que precisamos da Tv Digital?
ARTIGO
Por Alberto Dines
GUERRA SANTA DAS CHARGES
Sem amarrar fatos, análises ficam soltas
Alberto Dines
Fim de semana rico em reflexões e
opiniões, parecia até um renascimento do jornalismo semanal.
Interpretações e opiniões para todos os gostos, liberdade de expressão
concreta e disponível.
Na Veja, a entrevista do filósofo
Tariq Ramadan, guru do reformismo muçulmano (páginas amarelas,
pp.11-15). Na edição dominical do Estado de S.Paulo o sociólogo
polonês Zygmund Bauman vê a civilização contemporânea como um Titanic
ameaçado pelos icebergs do terrorismo e da catástrofe ambiental
(caderno "Cultura, pp.1, 8-9).
No primeiro caderno da Folha de
S.Paulo, uma audaciosa "Carta aberta às elites religiosas muçulmanas"
onde Contardo Calligaris desafia os imames a anatemizar o ódio e
o terror (pág. A 21).
No caderno "Mais!" um autêntico
fórum onde o historiador americano Robert Darnton sugere que a violência
provocada pela publicação das charges foi acirrada pelas tecnologias
da comunicação que dramatizaram o choque dos dois sistemas de valores,
o ocidental e o oriental (pág. 4). O filósofo francês Alain
Finkielkraut segue na mesma linha ao chamar a atenção para a globalização
do ódio e a "era dos fanáticos sem fronteiras". Enquanto o
escritor americano Jack Milles reconhece que no seio das principais
religiões há um amplo movimento para privilegiar o fundamentalismo.
Dado crucial
Esta riqueza analítica e teórica,
produzida pelas melhores cabeças acadêmicas, não encontra respaldo em
análises feitas por jornalistas com base nos fatos mais recentes.
O episódio serve como exemplo do um duplo preconceito ora em vigor na
imprensa brasileira:
1. Só acadêmicos detêm o monopólio
da profundidade;
2. Os fatos devem correr soltos, sem a
costura interpretativa produzida por aqueles que com eles lidam
cotidianamente.
Jornalistas ficam assim relegados à
função de "fechadores de páginas" enquanto aos acadêmicos,
sobretudo estrangeiros, é oferecido o privilégio quase exclusivo da
cogitação.
Enquanto as edições dominicais
estavam sendo produzidas e fechadas, uma reportagem do New York Times
disponibilizada na edição online na quinta à tarde (e publicada em
sua edição de sexta-feira, 10/2) introduzia uma informação que
alterava substancialmente as brilhantes reflexões publicadas dias
depois.
O repórter Hassan Fatah, baseado no Líbano,
revelou que em dezembro realizou-se em Meca uma reunião da Organização
das Conferências Islâmicas da qual participaram os 57 países-membros,
e onde se examinou a necessidade de reagir à onda antiislâmica na
Europa.
O imam dinamarquês Abu Laman
participou do encontro e, em seguida, percorreu diversas capitais árabes
para encontrar-se com jornalistas e autoridades para mostrar-lhes a coleção
das charges publicadas e outras tantas inéditas e apócrifas (informação
confirmada pelo Economist de 11/2/2006, pág. 25). Significa que
os violentos protestos no mundo islâmico foram orquestrados dois meses
antes do seu início e um mês antes da republicação dos desenhos.
A matéria do NYTimes, apesar de
introduzir um dado crucial para o entendimento do episódio, só foi
reproduzida pelo Globo (sexta, 10/2, pág. 27) e em seguida caiu
na vala comum do chamado "pescoção" (o mutirão das redações
brasileiras quando se produzem as edições das sextas, sábados e
domingos).
Colagem eficiente
Mesmo antes da revelação do NYTimes
faltou mostrar que a islamofobia ocidental, embora deplorável,
é contestada por duas ações islamofílicas de âmbito
multinacional:
**
A reação da Comunidade Européia e da Otan aos massacres perpetrados
pelos sérvios na ex-Iugoslávia contra bósnios, kosovares e albaneses,
todos islâmicos, em meados dos anos 1990.
**
As cobranças da União Européia à Turquia para relaxar a repressão
à resistência curda. A nação curda é islâmica e tem sido
sistematicamente perseguida pelos turcos, sírios, iranianos e
iraquianos (durante a ditadura de Saddam Hussein) que não admitem a sua
soberania.
Outra avaliação que a pressa não
permitiu costurar e escapou aos analistas de origem acadêmica diz
respeito ao alegado reacionarismo dos veículos que reproduziram as
charges. O tradicional semanário alemão Die Zeit ostenta no seu
expediente a figura do social-democrata Helmut Schmidt.
Na França, Le Monde, Liberation
e Charlie Hebdo, assumidamente de esquerda, reproduziram alguns
cartuns. Por uma questão de princípio. O jornalista Jean Daniel,
diretor do progressista Nouvel Observateur, condenou as charges
porque eram de mau gosto.
Não podem ser tachados como racistas
ou islamofóbos os jornalistas árabes ou muçulmanos presos nos
últimos dias por reproduzir as imagens dinamarquesas:
**
Os iemenitas do al-Hurrya, Yemen Observer e al-Rai
al-Aam
**
Os editores de Errisala e Iqraa, da Argélia
**
O editor do jornal Peta, da Indonésia
**
Os malásios do Sarawak Tribune
**
Os jordanianos do al-Mehwar e Shihan; etc., etc.
Para ser devidamente compreendida e
desativada, além das grandes elucubrações acadêmicas a "Guerra
Santa das Charges" exige antes de tudo uma colagem paciente e
eficiente da massa de informações.
Pela primeira vez em décadas as
atitudes politicamente corretas podem ser encontradas nos dois campos.
Anularam-se. Graças a Deus.
Hora de amarrar os fatos.
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET
TV DIGITAL
A verdadeira natureza do embate digital
Nelson Hoineff
A Embratel e a NET formalizaram na
quarta-feira (8/2) o acordo para a distribuição de serviços de
telefonia da primeira pela rede de cabos da segunda. Na prática, isso
é o primeiro passo para a distribuição de serviços integrados de
telefonia, dados e sinais de TV por assinatura, mais conhecido como triple-play.
Nos EUA, o assinante desse tipo de
serviço já está pagando até 29,90 dólares por mês para ter acesso
a chamadas nacionais ilimitadas, banda larga e sinais de TV via internet.
Não poderia ser de outra maneira, aliás, porque todos esses sinais são
da mesma natureza. A cobrança de chamadas telefônicas a cada vez que
um número é discado tornou-se anacrônica há muito tempo.
O triple-play é a evolução
natural da venda de serviços de comunicação convergentes. A questão
está bem resolvida entre as operadoras de serviços de telefonia e de
TV por assinatura, que compartilham vendas, instalação, distribuição
de sinais de TV e transmissão de voz.
O mesmo está longe de acontecer no que
diz respeito ao transporte de conteúdo. Há uma batalha entre rádiodifusores
e operadoras de telecomunicações que se estende há anos – e que se
intensificou com a aproximação do deadline para a definição
do modelo brasileiro de televisão digital. As duas partes reconhecem a
sinergia entre suas atividades, mas nenhuma quer abrir mão do que
consideram seus direitos.
Convergência tecnológica
Os rádiodifusores têm apelado
sistematicamente para a Constituição: sustentam que a Carta Magna já
prevê a diferenciação de atribuições de um e outro e que, portanto,
não há nada a mudar. As teles, por seu lado, adotam o discurso da
situação de fato: defendem a tese de que cabe ao usuário a decisão
sobre a forma que deseja receber serviços convergentes.
É por isso que a disputa entre teles e
rádiodifusores acabou polarizando o debate sobre a implantação da TV
digital no país em torno da questão da mobilidade. Os rádiodifusores
têm usado o discurso da transmissão digital móvel aberta e gratuita
como cláusula pétrea para o negócio. Essa posição aparentemente
coincide com a do ministro das Comunicações Hélio Costa, e implica a
escolha do padrão japonês ISDB, que permite a transmissão de sinais
de televisão para aparelhos celulares sem a utilização de canais de
telefonia.
As emissoras de televisão atribuem
também às teles pressões para que esse tipo de transmissão não
possa ser feita exclusivamente através das faixas dos rádiodifusores,
e tenha que ser efetuada através de uma faixa adicional. Isso
implicaria a escolha do padrão europeu DVB. As teles argumentam que
isso já acontece hoje com o rádio. O usuário pode comprar aparelhos
celulares que recebam sinais de rádio FM, mas os sinais de telefonia e
de rádio trafegam em faixas separadas.
O foco principal da questão, no
entanto, situa-se no sentido oposto. Os rádiodifusores querem evitar
que as teles tenham o direito de produzir e distribuir conteúdo, o que
representaria, segundo eles, uma concorrência desleal. O argumento
principal é que todas as receitas dos rádiodifusores advém unicamente
da venda do espaço publicitário e que a pulverização da oferta
inviabilizaria os seus negócios. As emissoras batem na tecla de que,
com capital estrangeiro restrito a 30% do controle, não há como fazer
face às operadoras, que na sua maioria têm grandes investimentos
externos.
Na quinta-feira (9/2), o ministro Hélio
Costa admitiu que a convergência tecnológica vai mesmo forçar uma
revisão nas leis que regem os setores da radiodifusão e das
telecomunicações – além, eventualmente, da própria Constituição.
O ministro não quer nem ouvir falar em mudar a Lei Geral de
Telecomunicações para garantir às empresas de telefonia o direito de
distribuir conteúdo. Vários setores insistem na mudança imediata da
LGT e pedem o adiamento da decisão sobre a TV digital. Na internet
circulam pelo menos duas listas colhendo assinaturas para isso. Mas, por
enquanto, a única extensão de prazo foi de um mês (para 10 de março)
e não há dúvida que a transição para o ambiente digital será
definida por decreto.
Espaço da banalidade
Existem hoje no Brasil perto de 100
milhões de telefones celulares, quase 50% a mais do que o número de
receptores de televisão. O número de usuários de vídeo móvel em
todo o mundo cresceu quase 120% em 2005, para cerca de 50 milhões. Para
o usuário, os aplicativos audiovisuais já são tão importantes quanto
as aplicações telefônicas – e isso crescerá bastante nos próximos
anos. O denominador comum entre o que pensam as teles e os rádiodifusores
situa-se, portanto, na demanda por conteúdo.
Demanda por conteúdo não significa a
distribuição do mesmo conteúdo por diferentes meios, mas de conteúdos
originais para cada meio. Ninguém vai preferir ver a novela das 8 pelo
celular, mas a necessidade da criação de conteúdos específicos vai
crescer exponencialmente. Celulares T-DMB, lançados recentemente na Coréia,
permitem recepção em alta qualidade de sinais de televisão distribuídos
por operadores de TV para telefonia móvel. Por isso, é muito difícil
olhar para o futuro da radiodifusão e das telecomunicações no Brasil
sem enxergar a necessidade de uma profunda revolução nos mecanismos de
construção de conteúdo.
Isto significa desde a pesquisa de
modelos de conteúdo que levem em conta atribuições específicas das
plataformas digitais – como a interatividade – até o
desenvolvimento de mecanismos de produção adequados a essa demanda. É
impossível, em resumo, pensar num ambiente de construção de conteúdo
para a mídia convergente onde não estejam presentes, em grande escala,
os produtores de conteúdo desvinculados das emissoras e, por que não,
a própria academia. Não se deve esquecer que das universidades vieram
as grandes contribuições para o desenvolvimento do modelo de TV
digital que será implantado no Brasil.
Os rádiodifusores insistem que
transmissões em HDTV são imprescindíveis para que a televisão
brasileira possa manter sintonia com o desenvolvimento do meio no resto
do mundo. Estão absolutamente corretos neste ponto. Mas a construção
de uma programação original e competitiva é muito mais importante do
que isso. A televisão por assinatura no Brasil acaba de aumentar seu share
para 28%. O que isso reflete é o envelhecimento do modelo de programação
da televisão aberta, que, cá entre nós, jamais foi um padrão para o
mundo (exceto em espasmos da teledramaturgia) e atualmente é muito
menos.
A verdade é que a televisão aberta
brasileira não está fazendo jus ao extraordinário potencial do meio:
ela está preguiçosa, antiga, pouco inspirada. Falta-lhe a auto-estima
necessária para o aprimoramento, o que é condição para o
desenvolvimento de qualquer atividade comercial ou cultural e, de resto,
para o crescimento de qualquer ser humano.
Não é esse desprezo por si mesma que
vai tornar a televisão mais competitiva num ambiente digital. As tardes
de domingo não vão melhorar se a definição da imagem for maior e o
áudio, mais intenso. A televisão só vai melhorar se conseguir crescer
intelectualmente, renovar seu público, acompanhar pelo menos o
desenvolvimento educacional da população, provar aos mais jovens que
ela não é o espaço para a banalidade, mas para a criação, a invenção,
a conquista das mentes e dos corações dos espectadores.
Mediocridade e excelência
As emissoras gostam de minimizar essa
questão. Sustentam que a qualidade do que é produzido é questão de
foro íntimo e que qualquer reflexão sobre isso significa uma tomada de
posição em favor do controle externo ou até da censura.
Esse é um grande erro. A insistência
nessa tese representa um dos maiores desserviços que a televisão
aberta poderia prestar ao usuário e também à nobreza do veículo.
Sugere que os grandes inimigos da televisão aberta não são as teles,
muito menos as formas alternativas de produção e difusão de conteúdo.
O inimigo está lá dentro, sustentando um modelo de construção de
programação que só tem enfraquecido intelectualmente o veículo,
afastando-o da população mais jovem e provocando resultados comerciais
dos quais a própria televisão se queixa todos os dias. Quem não dá a
mínima bola para isso não está defendendo a televisão aberta. Está
servindo ao seu encolhimento.
A televisão digital que será
implantada a partir do próximo mês no Brasil terá transmissões em
HDTV e capacidade interativa através de uma linha de retorno que virá
possivelmente pelas operadoras de telefonia ou de TV por assinatura.
Muito provavelmente terá também a capacidade de enviar sinais para
aparelhos celulares sem a intermediação das teles. Todos esses avanços
vão imediatamente se incorporar aos novos paradigmas do meio e ficarão
por aí, se as emissoras não aproveitarem a oportunidade para fazer o
que de fato pode ser revolucionário para a televisão: a mudança dos
seus padrões de qualidade e desempenho.
Isto só pode se dar com o
reconhecimento que, ressalvadas as exceções de praxe, o que a televisão
aberta brasileira está oferecendo neste momento ao espectador fica bem
abaixo do respeito que as emissoras devem ter com o seu usuário e com a
grandeza do meio que utilizam. E também com o entendimento que uma nova
cultura – de programação e de utilização dos meios de produção
– tem que tomar o lugar da convicção absurda, porém sedimentada, de
que a televisão é o espaço da estupidez.
A verdadeira disputa na implantação
da TV digital no Brasil não se dá entre os rádiodifusores e as teles.
Ela acontece entre a mediocridade e a excelência. O lado que vencer
essa batalha é que vai determinar o que será a televisão brasileira
dos próximos 50 anos.
5º BLOCO
Veja o que disseram os
convidados após o programa:
Rio de
Janeiro:
Nelson Hoineff – Jornalista
"O programa foi muito bom,
este tema é muito interessante de ser debatido, porém o programa deveria ter
mais tempo."
PERGUNTAS
E-mails:
Nelson
Com mais canais, a tv vai ganhar ainda
mais poder. É urgente aumentar o nível cultural do povo para gerar
equilíbrio.
Elisabeth Torres
Prezado Dines, gostaria que o programa de vocês de hoje, sobre TV Digital,
abordasse um ponto que não está aparecendo na discussão relacionada a esse
tema: Como o governo brasileiro vai se posicionar nessa questão de forma a
garantir que a implantação da TVD permita que obtenhamos acessibilidade na
programação, algo que ainda não existe na transmissão convencional mas está
previsto na legislação (Lei 10.098 já regulamentada e que contempla
necessidades das pessoas com deficiências sensoriais)? Há que se observar que
a acessibilidade na televisão não se resume apenas à transmissão. Nesse caso
da TVD é preocupante como o telespectador vai interagir com o sistema, como
será o seu aparelho de mando. Por exemplo: esses aparelhos apresentam menus,
que também devem ser acessíveis.
Marcelo, Belo Horizonte / MG
O formato da tela da tv na transmissão digital será widescreen 16 por 9,
ou standard 4 por 3?
Heverton, Porto Alegre / RS
Deveria haver um mecanismo que possibilitasse à sociedade, através de seus
órgãos, produzir conteúdos sem censura da concessionária. Caso isso não
aconteça, corre-se o risco de continuar do jeito que está, ou seja, a emissão
de mensagens fica a critério de poucos privilegiados e a população sem o
direito de emitir, atendo-se ao papel de mero receptor. Pergunta: Qual a
proposta do governo para ampliar a atuação da população no processo de
comunicação com a implantação da TV Digital no Brasil? Há esse interesse?
Cesar Ricardo Parafatti, Indaiatuba / SP – Formado em Comércio Exterior
Ministro Hélio Costa, se os cientistas brasileiros que pesquisaram o
assunto TV Digital dizem que já desenvolvem softwares melhores para uso e
aperfeiçoamento dos padrões digitais existentes, por que não adiar a escolha
e ao mesmo tempo temporariamente adotar um "sistema brasileiro" por um
prazo determinado até que se cheguem a conclusões mais precisas de qual
padrão adotar, permitindo até mesmo negociar em melhores condições com os
"proprietários" de um determinado padrão e assim não necessitar
pagar royalties pelo seu uso aos mesmos e diminuir nossa dependência
tecnológica?
Gustavo Gindre
O ministro Hélio Costa defendeu que as atuais emissoras de TV poderão
transmitir simultaneamente quatro programações e chegou a falar na
"multiplicação de canais". Mas, o ministro esqueceu que o decreto
52.795 de 31 de outubro de 1963, que regulamenta o Código Brasileiro de
Telecomunicações, de 1962, afirma no parágrafo terceiro do artigo 10 que
"a mesma entidade ou as pessoas que integram o seu quadro societário e
diretivo não poderão ser contempladas com mais de uma outorga do mesmo tipo de
serviço de radiodifusão na mesma localidade. (Redação dada pelo Decreto nº
2.108, de 24.12.1996)".
Márcia Torres
Estou assistindo a entrevista sobre a TV Digital e percebi que o ministro
falou que o Brasil é o país que tem maior número de canais de TV Aberta.
Parece uma informação truncada, pois a maioria dos municípios brasileiros
não tem recepção de sinal das TVs abertas, tanto que o número de
parabólicas no Brasil é muito grande. Esse discurso dele de que a TV Digital
vai atingir grande parte da população está ficando chato... Como vai atingir
a população se o sinal não chega na maioria dos municípios? E outra coisa, o
que adianta a população receber via celular, se a maioria não tem celular? A
qualidade da imagem realmente é fundamental? As televisões abertas já estão
praticamente digitalizadas, e o Brasil tem um padrão próprio para a
transmissão digital. Por que o japonês?
Júnio Freitas, Manaus / AM – Bacharel em Ciência da Computação
Caro Ministro Hélio Costa, por que em vez de adotarmos um padrão
internacional e pagarmos uma grande quantia pelos royalties dos mesmos, o
governo não cria uma equipe para a construção de um padrão totalmente
brasileiro? Como o governo vai investir em mão de obra nacional para produção
tecnológica tanto de software como de hardware ou de serviços de apoio, que
abrangerá todo esse mercado que está por vir?
Marcelo Ramos Prado, Bauru / SP – Técnico de Telecom
Gostaria de saber do Sr. Ministro Hélio Costa qual a largura de banda para
transmissão de dados na interabilidade, em cada um dos padrões que existem no
mercado, e se essa largura de banda será também utilizada para acesso ao
conteúdo da internet ou a redes privadas.
Pedro Sanches, Cuiabá / MT – Arqueólogo
Exmo Ministro, considerando o fato de que quase uma centena de
instituições de pesquisa estão envolvidas no desenvolvimento da Tv Digital no
Brasil, por que estamos reféns de europeus, americanos ou japoneses na
definição de um padrão? Por que não pode haver um padrão brasileiro, um
quarto padrão que possa apresentar baixo custo ou liberdade de exposição
independente, como ocorre na internet? O que impede a independência
tecnológica da Tv Digital brasileira?
Telefonemas:
Alexandre Teixeira, Passos / MG
Ministro, o telespectador vai ter que pagar assinatura para assistir a tevê
digital como paga hoje pela tevê a cabo?
Luiz Felipe de Moraes, Rio de Janeiro – Prof. de telecomunicação da UFRJ
Ministro, o padrão japonês é um padrão que vai manter um monopólio que
existe hoje, ao contrário dos outros dois. Qual é a sua opinião?
Joni Oliveira, Porto Alegre / RS
Quando vai começar a tevê digital?
Geraldo Salgado, São Paulo
Em que a Rede Globo está influindo na decisão da adoção do sistema para a TV
Digital?
Eduardo Felipe, Rio de Janeiro
Ministro, não é utopia todas essas informações da TV Digital na televisão
aberta?
Oscar Grunal, Porto Alegre / RS
Dines, na realidade não são quatro os sistemas? O sistema americano, o
europeu, o japonês e o SBTVD brasileiro, ou o sistema brasileiro é uma
proposta de alteração em cima dos três primeiros sistemas?
Alexandre Machado, Recife / PE
Já está disponível no mercado o conversor para transformar a tevê analógica
em digital?
Silvana Soares, Belo Horizonte / MG
Ministro, qual o motivo das licitações e as concorrências estarem paradas no
ministério? Qual é a perspectiva de andamento?
Ricardo Soares, Porto Alegre / RS
Como estão as liberações das rádios comunitárias?
Antônio Marconi, Aracajú / SE
Quais as perspectivas de concessões de rádios comunitárias aqui em Sergipe e
em todo o Brasil?
Robson Shimity, Rio de Janeiro
A geração de comerciais seria gerenciada por quem?
Paco Fonseca, Recife / PE
Qual é a sua opinião sobre as rádios comunitárias aqui no Brasil?
Norman Nogueira, São Gonçalo / RJ
Há previsão de quando será a retirada da assinatura telefônica?
Regiane Alves, Natal / RN
Ministro, por que o sistema de Tv Digital não começa pelas tevês estatais?
Hudson, Belo Horizonte / MG
Com a TV Digital pode haver muita exclusão social. O governo federal tem algum
plano para poder inibir a exclusão e qual seria este sistema?
Márcio Fonseca, Porto Alegre / RS
Ministro, por que não escolher o modelo japonês ao invés do europeu?
Jorge Andrade, Rio de Janeiro
Nassif, por que você acha que a TV Digital japonesa é mais adequada para o
Brasil, já que o Japão aprimora a tecnologia e não a inventa?
Silvia de Oliveira, Juiz de Fora / MG
Ministro, como funciona a navegação da Net pela tevê?
Adriano Alves, Bento Gonçalves / RS – Jornalista
Paralelo à questão da discussão sobre o padrão da TV Digital, como o senhor
vê a questão das novas concessões das tevês educativas e comerciais que
reaqueceriam o mercado?
Charles Almeida, Rio de Janeiro
As comunidades de classe baixa foram convidadas a participar desta reunião
sobre a TV Digital?
Patrícia Alves, Rio de Janeiro
Vamos continuar a mercê de uma minoria que manipula as telecomunicações? Elas
são concessões públicas e fazem uso como se fosse privado.