RESUMO DO PROGRAMA
A
MÁFIA DO APITO
O
Observatório da Imprensa do dia 4 de outubro de 2005, debateu a ação
da mídia na cobertura da manipulação de resultados no futebol
brasileiro.
Alberto
Dines, em seu editorial, disse: "O escândalo dos juízes
fraudadores é grande demais para ser tratado como caso isolado,
pontual. Não adianta algemar os culpados, é preciso mandá-los para o
"xilindró". É preciso, sobretudo, sanear um sistema que
favorece a má-fé, beneficia a improbidade e tira do povo seus únicos
motivos de alegria."
Participaram,
em Brasília, o deputado federal Sílvio Torres; em São Paulo, o
jornalista Jorge Kajuru; e no Rio de Janeiro, o jornalista Sérgio du
Bocage e o diretor presidente do diário Lance!, Walter de Mattos Júnior.
Sílvio
Torres, respondendo a Dines sobre o escândalo dos juízes e sobre a CPI
da CBF Nike, falou: "É um fato, que embora não seja inusitada a
manipulação de resultados, mas pela amplitude, pela vinculação com
empresários de jogos de bingo, e também pela demonstração da
fragilidade da organização do futebol brasileiro, é realmente
preocupante. Acho que o futebol brasileiro, que tem talentos dentro do
campo, infelizmente ainda deve muito em termos de dirigentes. Precisamos
urgentemente fazer uma avaliação para frente, do que nós pretendemos
para o futebol, para que não tenhamos, como tivemos agora, motivos para
nos desencantarmos (...) Acho que a CPI apresentou resultados, como o
estatuto do torcedor, a lei de moralização, a paralisação de
determinados procedimentos que eram totalmente inaceitáveis, e grande
parte deles hoje já não existem, mas infelizmente aqueles crimes de
evasão de divisas, sonegação fiscal, desvio de dinheiro,
especialmente no nosso caso da CPI da CBF Nike; repousam ainda no Ministério
Público.
Sobre a
validade da própria justiça desportiva, Sérgio du Bocage explicou:
"Hoje no jornal Tribuna da Imprensa, o Hélio Fernandes fez uma série
de afirmações com relação a todo esse processo que está acontecendo
na arbitragem, e ele é contra essa anulação dos 11 jogos, assim como
eu também sou. Ele exemplifica dizendo que o árbitro Edílson, na hora
em que ele apitou, era todo avalizado pela CBF. E por fim ele critica a
postura do Luís Zveiter, presidente do STJD, pelo fato de que ele, como
desembargador, não poderia estar atuando em uma outra instância fora
da justiça, e a partir daí, começa todo o erro desse processo. (...)
Este escândalo do apito já está entrosado no futebol,
lamentavelmente, não é de hoje que escutamos denúncias como essa que
aconteceu, de que há algum tipo de envolvimento, não só na
arbitragem, como se vê hoje em dia, existem vários empresários
envolvidos no futebol. Acho que a coisa que mais nos surpreendeu foi a
forma como foi revelado, ou seja, um juiz, envolvido inclusive com jogos
de internet e bingos eletrônicos, manipulando tudo em beneficio próprio.
Jorge
Kajuru sobre a máfia do apito disse: "Como é que um juiz tem um
diploma falso e continua apitando? O Ricardo Teixeira, o Armando
Marques, a Federação de São Paulo sabiam. Se na época da CPI do
Futebol tivesse sido investigado e se os comandos do futebol tivessem
sido sérios, responsáveis, nós já teríamos descoberto essa
malandragem do árbitro Edílson antes e não agora. (...) Inocente
nessa história toda, só tem um lado, é o torcedor, portanto eu não
sou contra cancelar os jogos não, sou a favor de paralisar o campeonato
brasileiro, enquanto não se apurar tudo, e só quando tudo for apurado
que se reinicie o campeonato brasileiro."
Walter de
Mattos Júnior também falou sobre o escândalo: "Acho que poderia
ter sido evitado porque esse juiz apresentou um diploma acadêmico falso
à CBF. Denunciamos essa irregularidade no Jornal Lance! e foi dada a
ele uma segunda chance, a qual ele apresentou um outro diploma de curso
supletivo, quando a imprensa foi atrás do Armando Marques, ele omitiu
detalhes de como ele cursou e obteve aquele diploma, ou seja, estamos
vivendo uma crise que no fundo tem a ver com um processo que nós
precisamos fazer, um processo de limpeza no futebol brasileiro."
Fernanda Carvalho Jorge (estagiária)
EDITORIAL
Bem-vindos
ao Observatório da Imprensa.
A
discussão sobre o referendo das armas começou mal, a matéria de capa
da última edição de "Veja" infringe todas as normas de
isenção, eqüidistância e responsabilidade jornalística. A mídia
eletrônica, porque depende de concessões, está obrigada pela justiça
eleitoral a manter-se neutra. O jornalismo impresso é absolutamente
livre mas isso não significa que a imprensa deva descambar para a
licenciosidade. "Veja" menosprezou a opinião dos leitores e
pisoteou o princípio da pluralidade. As sete razões de
"Veja" para votar "não" representam um
"sim" ao facciosismo.
Obras
não são sinônimo de progresso, se o desenvolvimento não é
sustentável, é atraso. O bispo franciscano Dom Luiz Cappio há anos
vem pregando contra o projeto de transposição das águas do rio São
Francisco. Não quiseram ouvi-lo, por isso recorreu ao recurso extremo,
a greve de fome. Está sem comer há oito dias e o governo ainda não se
mexeu. Está nas mãos da imprensa a tarefa de converter este protesto
pacífico e profundamente tocante num movimento capaz de sensibilizar
aqueles que ainda se iludem com os projetos mirabolantes.
O
presidente Lula não dá sorte quando se refere à imprensa. Ontem, na
Fiesp, novamente pisou na bola. Não atacou a imprensa mas atacou o
denuncismo que, segundo ele, está solto há quatro ou cinco meses. Não
são quatro meses, Excelência, são cinco meses. E não é denuncismo,
são acusações concretas, cabais, que levaram o governo a remover
ministros, admitir publicamente que foi traído e até a pedir
desculpas.
A
corrupção estava nas primeiras páginas dos primeiros cadernos,
confinadas aos editoriais e às seções de política. Há 10 dias a
corrupção transbordou e chegou aos cadernos de esporte. Graças à
mesma "Veja" descobrimos que ao lado das máfias do mensalão
e do caixa dois há também uma máfia do apito que manipula os jogos de
futebol em benefício de uma quadrilha de apostadores na Loteca.
O país
do futebol descobriu estarrecido que a sua porção mais ingênua e mais
pura, por isso a mais legítima e representativa, foi tomada de assalto
pela mesma bandalheira que desmoralizou utopias e lideranças
partidárias.
No caso
das investigações sobre a corrupção política está ficando claro
que as CPIs estão sendo sutilmente manipuladas para não irem muito
fundo. O cidadão-leitor não está muito familiarizado com as sutilezas
políticas, não repara na armação das pizzas. Mas o cidadão-torcedor,
este é um expert e não se deixa ludibriar tão facilmente. Os cartolas
não conseguirão manobrar como manobram certas lideranças políticas.
O escândalo dos juizes fraudadores é grande demais para ser tratado
como caso isolado, pontual. Não adianta algemar os culpados, é preciso
mandá-los para o xilindró. É preciso, sobretudo, sanear um sistema
que favorece a má-fé, beneficia a improbidade e tira do povo os seus
únicos motivos de alegria.
ARTIGO
Por Alberto Dines
OS MIMOS DA VEJA
"Não" ao desarmamento, "sim" ao facciosismo
Alberto Dines
A matéria de capa da última Veja
(nº 1925, 5/10/2005, págs.78-86), sob o título geral "7 razões
para votar não", é um clássico do jornalismo panfletário, capaz
de convencer alguns indecisos por algum tempo e confundir outros para
sempre.
Para começar: a matéria é prepotente
e precipitada. Deliberadamente facciosa, sequer tenta uma isenção
formal. Neste início da temporada de debates sobre o referendo das
armas, com ainda três edições antes do 23 de outubro, ao invés de
ensaiar uma progressiva troca de idéias capaz de suscitar o contraditório
e algum esclarecimento antes de se acionar a urna, a revista berra para
o leitor – "Cala boca, você não sabe nada".
Nas edições seguintes será obrigada
a subir de tom, esgoelar-se, pisotear a razão, apelar para emoções
ainda mais fortes. Em algum momento desta cruzada o leitor perceberá
que foi ludibriado, não lhe deram tempo para pensar nem lhe ofereceram
alternativas para exercer o seu discernimento.
É evidente que a questão preparada
pelo TSE foi mal escolhida e mal formulada. Também é evidente que a
omissão do governo em matéria de segurança – como em outras questões
cruciais dominadas por palavras de ordem "politicamente corretas"
– só favorece o "não" ao desarmamento.
Com a exceção do prefeito paulista
José Serra e desde segunda-feira (3/10) da governadora fluminense
Rosinha Mateus, ambos favoráveis ao "sim", nenhuma autoridade
dispôs-se a discutir a questão com as respectivas comunidades.
O poder público retraiu-se, o Estado
lava as mãos, esquecido de que na verdade ele é que está sendo
julgado. Entregou a discussão às duas frentes parlamentares,
multipartidárias (que, por isso, não conseguem formular uma estratégia
argumentativa comum) e às ONGs dos dois campos.
Sob o pretexto de não influir, o
governo eclipsou-se. Abriu mão de ser governo. Aos adeptos do
"sim" oferece a perspectiva de um milagre, aos militantes do
"não" presenteia com a certeza de que ao cidadão só resta a
opção de defender-se sozinho.
Papel mediador
O vácuo não é só do governo, também
é dos partidos. Nenhum deles conseguiu a unanimidade, todos divididos
– o que explica as frentes multipartidárias. O vácuo está sendo
preenchido inicialmente por um bonapartismo do tipo Veja, em
seguida o será pelo cesarismo de algum demagogo tipo Severino escondido
num partido-arapuca.
Veja
abdicou da sua capacidade de persuadir. Não confia nela ou não confia
no leitor. Prefere o rolo compressor da argumentação curta, frenética
e fartamente ilustrada. Aquele recurso das páginas 78-79 é pura
propaganda, nenhum parentesco com jornalismo. Ao lado de um
"inocente" revolver calibre 38 o título proclama: "O
referendo pode proibir a venda desta arma..."; e conclui, na página
frontal: "...mas nada pode fazer para tirar este arsenal das mãos
dos bandidos" – e mostra 32 granadas e sacos de munição de
grosso calibre.
A comprovação do facciosismo de Veja
foi dada na primeira rodada do horário do TSE, na segunda-feira, quando
a matéria de capa publicada dias antes foi exibida pelo partido do
"não" como argumento definitivo em favor de suas teses.
Parecia jogada ensaiada.
Ao contrário da mídia eletrônica
controlada pela Justiça Eleitoral, a mídia impressa -- a imprensa --
é desregulamentada, livre. Imprensa livre não significa imprensa
entregue à licenciosidade. O "Jornal Nacional" da
segunda-feira (3/10) e o "Globo" do dia seguinte mostraram
como se argumenta com competência, como é possível oferecer ao público
elementos para a formação de juízos sem impor-lhe conclusões. Ao
mostrar que 61% das armas apreendidas no Rio nos últimos seis anos
passaram por pessoas sem antecedentes criminais, oferece-se ao eleitor
do referendo um elemento para ajudá-lo a tomar decisões. É, em última
análise, um argumento favorável ao "sim" mas é, antes de
tudo, um estímulo à reflexão.
Referendos e plebiscitos em países com
partidos inconsistentes – e desde que ministrados em doses apropriadas
– podem aumentar o grau de participação popular e agilizar a tomada
de decisões. Sem uma imprensa lúcida, responsável, capacitada para o
seu papel mediador, tanto o "sim" como o "não"
podem tornar-se exercícios fúteis, espécie de "cara ou
coroa" para decidir o destino de uma nação.
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET
TRANSPOSIÇÃO DAS ÁGUAS
As metáforas de São Francisco, o rio
Ulisses Capozzoli
A idéia de que o futuro está no
passado pode surpreender muita gente, mas este desconcerto talvez sugira
apenas uma apreensão convencional da história. Claro que não se pode
falar de um confinamento, como se tudo estivesse definitivamente
estabelecido. A questão aqui é que, para se inventar o futuro, é
preciso revisitar a história. Neste estágio, parece profundamente
necessário que uma perspectiva como essa ilumine da forma mais
promissora uma questão que ganha corpo entre os debates nacionais,
apesar da vergonhosa omissão da imprensa: a transposição das águas
do rio São Francisco.
Dois fatos, ao longo da semana passada,
acenam com a possibilidade de que a discussão ganhe espaço nos
jornais, até agora com todos os sentidos voltados para os
acontecimentos políticos em Brasília, como se estes fossem ocorrências
inéditas e não históricas.
O primeiro deles é a série de cinco
reportagens sobre o rio, exibida pelo Jornal Nacional e por isso
mesmo com eco pelas vastidões deste país. O segundo, a greve de fome
deflagrada pelo bispo da cidade de Barra, na Bahia, d. Luís Flávio
Cappio, contrário ao desvio das águas do São Francisco.
Ao menos no segundo caso, a imprensa
deve morder a isca. O bispo, que entre 1993-94 fez o percurso de quase
2.800 quilômetros entre a nascente do rio, na belíssima Serra da
Canastra, no sul de Minas Gerais, até sua foz, na divisa entre Alagoas
e Sergipe, garante que só abandonará o protesto se o governo desistir
dos planos de transposição das águas. Caso contrário promete
"entregar a vida" (Folha de S. Paulo, pág A 17, 02/10)
A postura do bispo é uma atração típica
para certo jornalismo rasteiro, tópico como as velhas pomadas para
dores lombares, e, certamente, vai pontuar nos jornais no melhor estilo
dos dramalhões de telenovelas. Na edição do domingo (2/10), a Folha
de S. Paulo já trazia uma página "suja" (com anúncio,
no clichê jornalístico) com o bispo Cappio.
A idéia da transposição, retomada
pelo governo e refutada pelo bispo, é antiga – daí outra conveniência,
neste caso dupla, de uma revisão histórica.
Legado positivista
O primeiro a defender o desvio de águas
do São Francisco para amenizar a carência hídrica em Pernambuco, Paraíba,
Ceará e Rio Grande do Norte teria sido o intendente do município de
Crato e deputado pelo Ceará, Marcos Antonio de Macedo, em 1847.
Entre 1852 e 1854, o engenheiro civil
Henrique Guilherme Fernando Halfeld fez um detalhado levantamento do
Vale do São Francisco – que deu origem ao Atlas e Relatório
Concernente à Exploração do Rio São Francisco, desde a Cachoeira de
Pirapora até ao Oceano Atlântico, uma obra deliciosa de se
consultar, entre outras razões pelas belas ilustrações. Aqui, pela
primeira vez, foram consideradas as viabilidades técnicas do projeto,
mas as dificuldades, inclusive financeiras, fizeram com que fosse
arquivadas – o mesmo destino que tiveram iniciativas que vieram a
seguir, com o engenheiro cearense Tristão Franklin Alencar de Lima, em
1886, e com a Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas, em 1913 e
1919.
O Departamento Nacional de Obras e
Saneamento retomou a idéia e, entre 1981-85, refez os planos
considerando a transposição de um volume de até 300 metros cúbicos
por segundo. Em 1994 foi a vez do Ministério da Integração Regional
reexaminar o projeto. Em 1996 foi criado um grupo de trabalho para
avaliar o impacto do projeto e, no ano seguinte, considerados, entre
outros, os custos financeiros do empreendimento.
A posição do bispo Cappio, que
estimulou um pedido de desistência da obra pela Conferência Nacional
dos Bispos do Brasil (CNBB) (Estado de S.Paulo, 29/5/2005, pág A
17) evidencia que, quase 160 anos depois, a sugestão de Marcos Antonio
de Macedo ainda divide opiniões.
A controvérsia reflete a história da
introdução da ciência e das soluções técnicas no Brasil, resultado
de um acidente napoleônico que trouxe para cá a corte portuguesa, em
1808. Desde então, as soluções de pontes, estradas e outras emergências,
como a transposição dessas águas, sempre foram concebidas de forma
localizada, sem levar em conta seus efeitos colaterais.
É reflexo também do legado
positivista que permeou o meio científico brasileiro com visão
restrita da natureza do conhecimento, tanto do ponto de vista científico
quanto, digamos, de aplicação técnica. Para não deixar dúvida, o
legado positivista está na bandeira nacional: "Ordem e
Progresso", idéia sem nenhuma aceitação epistemológica em
abordagens contemporâneas, como a teoria do caos.
Corrupção endêmica
E aqui é preciso dizer que a imprensa,
como fazia no Império, mantém-se ainda hoje restrita às preocupações
com o poder central, ciosa dos benefícios políticos que pode tirar
desses tediosos embates corporativos, sem nenhuma perspectiva promissora
de transformação política estrutural.
A televisão tocou no assunto transposição
das águas do São Francisco, mostrou as cenas e ouviu as histórias.
Também aqui, certamente, é interessante dizer que o material da TV
Globo estava pronto há meses e só não havia ido para o ar pela eclosão
da chamada "crise política" em Brasília.
Mas a televisão é efêmera o bastante
para não consolidar opiniões, ao menos em casos de maior complexidade,
como o que envolve as águas do Velho Chico – em outros tempos, quando
as estradas eram poucas e ruins (continuam péssimas), batizado de
"Rio da Unidade Nacional".
Para a discussão ganhar profundidade e
abrangência, a mídia impressa, especialmente os jornais, teriam a
obrigação de envolver-se sob a forma de reportagens críticas, ouvindo
todos os lados, fundamento elementar do bom jornalismo. O problema é
que no jornalismo praticado neste momento no país, mesmo os fundamentos
foram deixados de lado, substituídos pela crítica de gabinete, escrita
sob encomenda dos donos dos jornais, na forma de editoriais e artigos
editorializados nas páginas de opinião.
No caso da transposição das águas do
São Francisco, até agora fomos contraditoriamente salvos pela
incapacidade de passar da teoria à prática. Isso significa dizer que,
se a transposição pensada entre 1981-85, de 300 metros cúbicos por
segundo, tivesse sido feita, neste momento, em lugar de uma solução,
teríamos dois problemas. E isto porque, desde então, ficou claro que a
retirada desse volume de água do São Francisco comprometeria
inevitavelmente a geração de energia elétrica. Significa também que
o "apagão" ocorrido sob o governo FHC (risco que ele disse
desconhecer para, em seguida, responsabilizar um ministro, como se não
fosse um ministro do governo dele) teria sido ainda mais dramático.
O "apagão" no governo FHC
reintroduziu a oferta de tochas (ainda disponíveis na rede de
supermercados Pão de Açúcar), o que significa considerar que,
metaforicamente, nos levou de volta à época das cavernas. Mas essa metáfora,
ao que tudo indica, não foi suficientemente apreendida, refletindo uma
dificuldade endêmica para o olhar histórico.
Ao lado de um "apagão" mais
dramático (quem sabe a que ponto retrocederíamos num estágio anterior
às tochas?), a oferta de água na região carente certamente não teria
sido amenizada, resultado da conjugação de problemas técnicos, históricos
e ambientais que permanecem.
Do ponto de vista técnico, a evaporação
das águas sob a incidência direta de raios solares na região tropical
(que pode chegar a 3 mil milímetros/ano) esvaziaria boa parte do volume
bombeado com enorme dispêndio de energia elétrica (já reduzida pela
diminuição na oferta de água para fazer girar as turbinas),
comprometendo os resultados finais.
Do lado histórico, a corrupção endêmica
no Brasil teria produzido, sem a menor dúvida, volumes e volumes de denúncias
que nunca seriam apuradas a fundo. E se fossem, ninguém seria
responsabilizado. E se chegássemos ao estágio da apuração, os
recursos roubados nunca retornariam aos cofres públicos. (A evidência
de que os acontecimentos teriam esse curso não estaria suficientemente
demonstrada no caso de desvio de recursos pelo juiz Nicolau dos Santos
Neto, o "Lalau", em São Paulo?)
Praga bíblica
Quanto aos danos ambientais, quem se
dispuser a percorrer um trecho aleatório da BR-381, a Fernão Dias, que
liga São Paulo a Belo Horizonte, em fase de conclusão de duplicação,
encontrará exemplo mais que convincente.
Localizada no Sudeste, a região mais
desenvolvida do país, a Fernão Dias é uma demonstração clara de
corrupção (formalmente denunciada na Justiça por superfaturamento), má
qualidade de serviços realizados (e por isso mesmo uma ameaça à
segurança de seus usuários), além de abuso descarado e ainda assim
impune, de fundamentos ambientais (invasão e destruição de matas
ciliares, destruição de patrimônio paisagístico etc).
Comparando: se a Fernão Dias, no
sudeste, os desrespeitos são inúmeros e permanecem impunes, o que
esperar de áreas mais remotas dominadas pelo coronelismo mais arcaico,
como a região que seria percorrida pelos canais de transposição de águas
do São Francisco?
Entre outras dificuldades envolvendo a
transposição do Rio São Francisco, há necessidade de recalque (bombeamento)
de centenas de metros e escavação de túneis que chegam, em alguns
trechos, a 15 quilômetros de comprimento por outros 8 metros de diâmetro,
encarecendo imprevisivelmente as obras.
Em artigo publicado na Folha de
S.Paulo (20/9, pág. A3), o ministro da Integração Nacional Ciro
Gomes defende a transposição com argumentos sociais, contrariando
ponto de vista oposto defendido, na mesma página, pelo governador João
Alves Filho, de Sergipe.
Ciro Gomes baseia-se em dados que
especialistas de capacidade reconhecida em problemas hídricos do
Nordeste, como João Suassuna, da Fundação Joaquim Nabuco, olha com
desconfiança. Num de seus artigos sobre a transposição das águas do
rio, Suassuna refere-se a uma montanha de dados desencontrados e deixa
entrever que este caos pode refletir uma estratégia de confundir uma
visão crítica mais acertada envolvendo essa iniciativa. Por trás
deste cenário teríamos uma continuidade da "indústria da
seca", tópico mais que conhecido, embora nunca superado, da história
nacional.
Quanto ao governador do Sergipe,
refere-se a exemplos de fracasso como o desvio das águas que
alimentavam o Mar de Aral, na ex-União Soviética, juntamente com o
efeito-estufa, um dos mais dramáticos acidentes ambientais da história
da civilização. O Mar de Aral está secando em função disso e, como
numa praga bíblica, navios que no passado recente foram embarcações
pesqueiras agora são devorados pela corrosão num deserto salgado que já
foi o leito do piscoso Mar de Aral.
Senso de realidade
O problema do artigo do governador
sergipano é que ele carrega nas tintas, o que significa dizer que
comparar a experiência do Mar de Aral com a transposição pretendida
para o São Francisco (127 metros cúbicos, de acordo com o ministro
Ciro Gomes) equivale a comparar laranjas a bananas. Ambas são frutas,
mas muito diferentes entre si.
O drama do São Francisco é amplo,
profundo e histórico. Exigira, mesmo numa abordagem rápida, um espaço
que tenderia a cansar um leitor mais apressado.
Resultado do abandono de cinco séculos,
suas águas que recebem esgotos in natura (uma dessas crueldades ainda
em prática no Brasil) além de contaminações químicas e assoreamento
por destruição das matas ciliares, não são exatamente o paraíso que
se pode pensar à primeira vista. Mas é um rio promissor, que não está
morto, daí o significado amplo de sua metáfora como "rio da
unidade nacional".
O Velho Chico reflete políticas sumárias
oficiais do passado recente, entre elas o Pro-Várzeas, deflagrado pelo
governo militar com apoio amplo e irrestrito da oligarquia agropecuária,
ávida de lucros rápidos, lixando-se para os custos ambientais. O Pro-Várzeas,
sozinho, contribuiu para destruição de um imenso ecossistema em todas
as áreas em que foi praticado, especialmente pela retificação dos
cursos de rios com a justificativa de inibir inundações em períodos
chuvosos.
O que seria do Egito e por conseqüência
de toda a história da cultura, já que o Egito esteve na base da formação
da Grécia (Tales de Mileto, tido como o primeiro filósofo, andou pelo
Egito antes de iniciar sua produção filosófica na Grécia), sem as
inundações do rio Nilo?
Outra evidência da visão curta dos
generais esteve na posição oficial que o então ministro do
Planejamento, João Paulo dos Reis Velloso, defendeu em 1970, quando do
Congresso de Estocolmo, para debater questões ambientais planetárias.
Segundo o ministro, o Brasil tinha "rios à vontade para ser poluídos",
traduzindo a interpretação militar de que preocupações ambientais
eram apenas uma estratégia dos países desenvolvidos para evitar que nações
emergentes, como o Brasil, tivessem acesso às suas pretensões.
Como se vê, a exemplo de Shakespeare,
"nada é novo sob o Sol", ao menos de um ponto de vista histórico.
Até agora, ao menos nos jornais, uma
única voz sensata se fez ouvir em relação à transposição das águas
do rio São Francisco: Washington Novaes, no artigo "No mistifório
do São Francisco", que saiu na edição de sexta-feira (30/9, pág.
A2) do Estado de S. Paulo. Seu escrito termina com uma
surpreendente citação do bispo Luiz Flávio Cappio, sobre a decisão
de ir às últimas conseqüências argumentando que "quando a razão
se extingue, a loucura é o caminho".
Para Novaes, esta posição é
"assustadora".
Assustadora, apesar de recorrente, pode
se acrescentar.
Assim, se sobrou algum senso de
realidade em Brasília, seria de se esperar que as obras de transposição
não fossem iniciadas antes de um diálogo mais inteligível, em escala
nacional, coerente com a imagem do rio. Mas para viabilizar uma
necessidade dessa natureza a imprensa deve assumir suas
responsabilidades. Em vez de continuar omissa e, com o estrago feito,
assentar o traseiro no conforto das salas bem arejadas e, então, apenas
criticar.
5º BLOCO
Veja o que disseram os
convidados após o programa:
Rio de
Janeiro:
Walter
de Mattos Júnior - Dir. Pres. Diário Lance!
"Foi ótimo, pena que passa rápido."
Sérgio
du Bocage - Jornalista
"Gosto do programa, é super interessante não só para quem é
jornalista, mas também para quem quer ser jornalista. É como o Dines
diz, faz o público ler jornal de uma maneira diferenciada."
São
Paulo:
Jorge
Kajuru - Jornalista
"Semanalmente este programa acaba sendo uma aula para quem quer
fazer jornalismo de verdade. Estou com minha alma lavada, participei de
um programa onde pude falar tudo."
PERGUNTAS
E-mails:
Sérgio
de Souza Tôrres, Rio de Janeiro – Administrador
No momento em que, como o próprio Observatório acaba de reconhecer, o
Congresso se prepara para colocar a pizza no forno, a imprensa em
uníssono passa a falar da corrupção no futebol, fato tão antigo no
Brasil como o próprio esporte. Deixando de pontuar esse fato, a mídia
e esse Observatório não estariam colaborando para que a pizza fique
mais saborosa?
Edson
Junior, Salvador / BA
Caros amigos, boa noite. Gostaria de colocar duas questões:
1° - A máfia do apito também chegou no futebol paulista e a
Federação já divulgou que alguns jogos poderão ser anulados também
mas nada tirará o título do São Paulo e não haverá rebaixamento.
Nesta base, vocês acham que acontecerá o mesmo com o Campeonato
Brasileiro, principalmente da série "B", já que este já
está nas fases decisivas?
2° - Vocês acham que este escândalo poderá apressar a formação da
Liga dos Clubes de Futebol?
Nelson
Rodrigues Junior, Contagem / MG – Func. Público
Amigos, sempre procurei na TV um "foro" onde poderia ser
ouvido, e tenho certeza que este é. Minha pergunta é para o Kajuru: o
senhor já foi, ou é perseguido por políticos? Como a gente pode
conviver com isto no ano de 2005?
Arthur
Vargas – Estudante de jornalismo
Boa noite a todos, gostaria de fazer uma pergunta ao Jorge Kajuru: com
tantos escândalos no futebol, citados pelos participantes, qual o
motivo do caso Edílson ter tomado as grandes proporções que tomou? Os
outros tiveram algum motivo para não ganharem a grandeza do caso atual?
Fabrizio
Lenci, São Paulo
Estou muito decepcionado com a capa e a matéria publicada na revista
Veja neste domingo, acho que a colocação da revista foi infeliz e anti
ética. Realmente espero que esta semana a Veja publique 7 motivos para
votar "sim". Um grande veículo da mídia, como é a Veja,
não pode tomar partido para um lado nessa situação, enfim a matéria
foi muito infeliz.
Jean
Tomceac, São Paulo – Estudante
A minha pergunta refere-se ao sentido da divulgação desta fraude no
futebol. Diversas vezes o futebol foi usado como meio de desviar a
atenção da grande massa, pelo menos foi assim na década de 70! Será
que isto não veio à tona, justamente neste momento tão delicado, para
abafar as CPIs?
Gilson
Sampaio
Caro Dines, gostaria que fosse colocada a excrescência que é a
Timemania. Mais uma vez, o povo vai pagar a conta dos dirigentes
desonestos. Essa nova loteria é para pagar dívidas com o governo!
Imprensa e jornalistas promiscuídos com dirigentes jamais provocariam
um debate público. Abraço com admiração.
José
Carlos da Silva, Aracaju / SE
Oi Kajuru, tudo bem? Como um grande admirador seu, desejo que você
continue com essa sua forma franca de falar e expor suas opiniões. A
minha pergunta é a seguinte: você não acha que os dois árbitros
aceitaram a culpa fácil demais? Será que eles não estão sendo usados
como laranjas para encobrir um escândalo muito maior, pois em
escândalo algum foi tão fácil assumir a culpa como eles fizeram.
Fernando
Monçores Velloso, Rio de Janeiro – Psiquiatra
Os nossos políticos continuam imorais. Na eleição anterior, movidos
pela promessa de aumento de salário (cerca de R$10.000,00), eles
elegeram o Severino. Agora, num upgrade financeiro (um bilhão e meio de
reais), eles elegeram o candidato do governo graças à falta de pudor
do Governo Federal, que resolveu "liberar a verba". Acho que
já passou a hora de nos aquietarmos. Nas próximas eleições, vote
zero!
Iara
Maurente
Prezado Dines, minha admiração e respeito. No artigo "Por que o
PT errou e Chaui acertou" poderias ter reproduzido, também, o
material dela na Folha - dando oportunidade de confrontar e acordar
melhor contigo, ou não. Pelo dito, entendi que a Marilena saiu-se
melhor que o PT, mas sem a entrevista, preciso confiar por demais em ti.
Cordialmente.
Telefonemas:
Eduardo
Melido, Rio de Janeiro
Kajuru, a mídia, pelo que escutei neste programa, sabe de muita
roubalheira. Será que só se faz alguma coisa se a TV Globo ou a Veja
denunciam? Onde está o resto da imprensa?
Professor
Emilson Costa, Volta Redonda / RJ
Kajuru, a mídia não está repercutindo uma série de assuntos ligados
à anulação dos jogos. Como ficam os anunciantes que pagaram por
espaço publicitário nas transmissões? E os telespectadores que
compraram o pay-per-view da partida, como ficam?
Márcio
Fonseca, Porto Alegre / RS
Sílvio, não é o caso do Ministério Público e os próprios deputados
ficarem de olho na riqueza instantânea de alguns clubes que de repente
ficam milionários e saem fazendo contratações grandiosas?
Éder
Pereira, São Lourenço da Mata / PE
Kajuru, a mídia está comprometida com interesses econômicos a ponto
de tirar do povo a credibilidade na sua maior fonte de entretenimento?
Paulo
Damasceno, Salvador / BA
Bocage, sou torcedor do Vitória e um dos jogos do meu time na segunda
divisão foi apitado por um desses juizes do esquema. Mas na segundona
os jogos não foram cancelados. Não há tanta mídia como na primeira
divisão e por isso acaba havendo dois pesos e duas medidas. O que
vocês acham disso?
Genaro
Campregher, Varginha / MG
Walter, o senhor acha que a anulação das partidas foi uma forma de dar
satisfação à mídia e provar que o campeonato ainda tem
credibilidade?
Luan
Martins, São Luiz / MA
Walter, a mídia vai continuar investigando se esse esquema já secou?
Ou se existem outros semelhantes?
Edmilson
Ferraz, Niterói / RJ
Kajuru, qual p benefício que o futebol traz para a sociedade? Eles
movimentam bilhões e nem imposto eles pagam.
Luiz
Carlos de Andrade, Búzios / RJ
Kajuru, quem apostou na loteria e foi lesado por esse árbitro? Como
deve agir?
Paulo
da Paes, Rio de Janeiro
Kajuru, já não bastasse a corrupção explícita e impune da parte dos
cartolas, agora é o escândalo da máfia do apito. Haverá punição
para os maus árbitros e uma limpeza no futebol como um todo ou o
Campeonato Brasileiro está condenado à morte?
Iracy
dos Santos, Campinas / SP
Estamos vivendo no tempo da ditadura? O Kajuru sofreu muitas
represálias em função das denúncias que fez. Por que não o deixam
falar?
Carlos
Eduardo da Silva, Rio de Janeiro
Vocês não estão esquecendo que apesar do nome "Superior", o
STJD é apenas um órgão da própria CBF?
Eduardo
da Silva, Nova Lima / MG
Kajuru, a população que comprou ingresso para os jogos anulados deve
fazer o quê? Abaixo assinado?
Divaldo
Viana, Barra do Coqueiro / SE
A anulação dos jogos não foi uma atitude precipitada no STJD?
Frederico
Almeida, Belo Horizonte / MG
Kajuru, o direcionamento que está sendo dado a esse escândalo do
futebol não é para acobertar o escândalo da área política?
Maria
Lúcia Lopes, Rio de Janeiro
Kajuru, você se sente injustiçado pelo fato de ter sofrido tantas
denúncias a ponto de perder o emprego na Band e ver tudo sendo
revelado? Não vai entrar com um processo?
João
Marinho, Rio de Janeiro
Kajuru, se essas apostas eletrônicas são ilegais, por que a Polícia
Federal não investiga e coíbe este tipo de prática?
Adelmo
Costa, Salvador / BA
As partidas apitadas pelo outro árbitro também serão canceladas?
Flávio
Verli, Belo Horizonte / MG
Dines, diante de qualquer forma de monitoramento da imprensa,
jornalistas e profissionais do meio citam o termo "censura".
Será que o monitoramento de casos arbitrários, como o da Veja dessa
semana, é fazer censura?
Saulo
Aparecido, Belo Horizonte / MG
Kajuru, o que você acha dos presidentes de clubes de futebol que não
respeitam os torcedores e os jogadores?
Manoel
Jesus, Araruama / RJ
Bocage, o que você acha do fato de pessoas da CBF estarem ligadas,
através de parentes, a times de futebol? Kajuru, os resultados da
denúncia que você fez há um tempo são exemplos da impunidade no
futebol?
Márcio
Fonseca, Porto Alegre / RS
Kajuru, tem como mudarmos as regras com o cancelamento dos jogos pelo
STJD? Sílvio, por que a CPI Nike / CBF não deu em nada?
Maicon
Freitas, Jaboatão dos Guararapes / PE
Kajuru, por que será que a partir do momento em que a Globo obteve com
exclusividade os direitos de transmissão dos jogos da seleção
brasileira e do Campeonato Brasileiro, as denúncias contra a CBF
cessaram? Seria coincidência ou conveniência?
Ismael
da Silva, Belo Horizonte / MG
Sílvio, você concorda que a imprensa deveria ir mais fundo nas
investigações para passar para o eleitor uma certa clareza, permitindo
que ele possa observar a intenção de seu candidato eleito?
Márcio
Antônio, Belo Horizonte / MG
Kajuru, o que você acha do José Roberto Wright fazer comentários
sobre a arbitragem, uma vez que, na década de 80, ele excluiu o
Atlético Mineiro da final do mundial de interclubes? Quando os clubes
mineiros deixarão de ser vítimas das más arbitragens?