PROGRAMA DO DIA 31 de maio de 2005

JORNALISMO INVESTIGATIVO

Neste programa tratamos de um tema muito familiar aos profissionais da imprensa: o jornalismo investigativo.

Aproveitando o lançamento de três livros que tratam do assunto, debatemos a questão com os três autores jornalistas: Elvira Lobato, Frederico Vasconcelos e Joaquim de Carvalho.

A jornalista Elvira Lobato conta em seu livro "Instinto de Repórter" o passo a passo da produção de 11 matérias que marcaram a sua trajetória de repórter investigativa na Folha de S. Paulo. Frederico Vasconcelos também da Folha está lançando "Juízes no Banco dos Réus", em que relata três casos envolvendo a Justiça Federal de São Paulo nos últimos seis anos e por último, o repórter Joaquim de Carvalho que esmiuça o caso PC Farias na obra "Basta!" onde analisa o caso sem sensacionalismo e com a experiência de quem cobriu o assunto para a revista Veja.

Leia o resumo do programa

  Veja o Compacto

MÍDIA E GOVERNO ENTALADOS
Ninguém quer descobrir quem fez o "Vídeo da Propina"
Alberto Dines

A mídia só pensa naquilo – a CPI dos Correios. Corrupção é assunto quente e o impacto produzido pelo "Vídeo da Propina" não permite tergiversação.

Leia na íntegra

O “vídeo da propina” é um exemplo de jornalismo investigativo?

Resultado:

Sim: 31%

Não: 69%

Aqui você pode participar de fóruns sobre assuntos ligados à imprensa, deixar seu recado no nosso mural e ler as perguntas dos telespectadores.

Perguntas - Aqui são colocadas as perguntas dos telespectadores que chegam por telefone, fax ou e-mail durante o programa e ao longo da semana.

5 Bloco - Leia a opinião dos participantes do programa, sobre o debate.

Editorial:

Bem-vindos ao "Observatório da Imprensa".

Enquanto discutíamos o referendo do desarmamento em nossa última edição, a cidade de São Paulo estava sendo castigada por um dilúvio, o maior em 23 anos. Você tomou conhecimento indireto da catástrofe. Foi quando informamos, já no final, que por causa da chuva a Embratel ficou sem condições de transmitir o áudio da ultima intervenção do convidado presente à TV Cultura, o presidente da ONG que defende o armamento.


Leia na íntegra

ANA PAULA PADRÃO
O canto de sereia da celebridade
Ricardo A. Setti (*)

A ruidosa transferência da jornalista Ana Paula Padrão da Rede Globo para o SBT mobilizou a atenção dos jornais e revistas de grande circulação, mas obteve destaque maior no chamado jornalismo de celebridades e na chamada imprensa de fofocas propriamente dita: certas colunas de jornais, determinadas revistas, seções "especializadas" em portais de informação, programas de TV. Especulou-se sobre o salário, em vários casos com cifras risíveis de tão inverossímeis, comentou-se uma suposta briga com a Globo, falou-se de detalhes – reais ou imaginários – de sua vida pessoal.

Leia na íntegra


RESUMO DO PROGRAMA

JORNALISMO INVESTIGATIVO

O Observatório da Imprensa do dia 31 de maio debateu o jornalismo investigativo, sua importância e peculiaridades.

Alberto Dines iniciou o editorial falando sobre o vídeo que flagrou a negociação de propina nos Correios, divulgado pela revista Veja. "Este tipo de denúncia pode ser classificada como jornalismo investigativo? Já nas primeiras edições do Observatório contestamos o tal ‘jornalismo fiteiro’ onde os jornalistas apenas veiculavam fitas, vídeos e dossiês preparados por gente quase sempre tão corrupta quanto os denunciados". Em seguida falou sobra a importância do jornalismo investigativo propriamente dito. "É um esforço quase sempre anônimo, muitas vezes solitário, exaustivo, arriscado, veiculado por órgãos de imprensa dispostos a investir na defesa do interesse público."

Participaram do programa, Joaquim de Carvalho, repórter do Jornal da Record e autor de ‘Basta!’ e dois repórteres especiais da Folha de São Paulo: Elvira Lobato, autora de ‘Instinto de repórter’, e Frederico Vasconcelos, autor de ‘Juízes no banco dos réus’.

Elvira Lobato iniciou o debate falando sobre a importância da informação em off. "Ela é fundamental porque normalmente é o começo da apuração. A obrigação de revelar a fonte inviabilizaria o nosso trabalho." Deu continuidade afirmando que "as novas fontes de informação, como a internet, facilitam a nossa pesquisa pela rapidez com que você consegue localizar algumas informações. No entanto isso não vai ser o diferencial no seu trabalho. O diferencial é a sua observação no local." Disse ainda: "Talvez a tecnologia moderna nos atrapalhe no sentido de que você ouve menos o outro e assim você pode estar desprezando uma fonte de informação muito importante."

Joaquim de Carvalho relatou algumas das evidências levantadas por ele durante a cobertura do caso PC. "Fui para Alagoas cobrir um caso de queima de arquivo, mas as evidências indicavam crime passional. Apesar disso a imprensa continuou dando versões, até mentirosas. O caso chegou a ser reaberto com uma informação, na minha opinião, errada. Uma fotografia legitimada por um parecer de alguém que não era especialista em imagem." Concluiu afirmando: "Existe uma indústria de pareceres no Brasil. Eu acho que isso deve ser discutido pela imprensa. Você publica uma informação errada, consegue um parecer, legitima ela e isso passa para o grande público como uma informação livre de qualquer suspeita."

Frederico Vasconcelos falou sobre o que o levou a publicar o livro "Juízes no banco dos réus". "Quando eclodiu a operação ‘Anaconda’, houve uma divulgação generalizada de documentos, gravações e referências a processos que tinham muito a ver com a situação que ocorria dentro do Tribunal Regional Federal, onde determinada turma de juízes estava colocada sob suspeição pelo Ministério Público." Concluiu dizendo: "Para investigar o Judiciário você deve ter em mente que está fazendo jornalismo. Você não é juiz e nem procurador para denunciar, não deve fazer julgamento. Neste tipo de investigação não tem muito peso o jornalismo declaratório. O importante é você se fundamentar na consulta aos autos e aprender com a prática do judiciário o respeito ao contraditório. É você quem vai buscar sempre mais versões para um mesmo fato e dá sempre espaço para que a parte acusada se manifeste."

Camilla Rizzo (estagiária)


EDITORIAL

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

Enquanto discutíamos o referendo do desarmamento em nossa última edição, a cidade de São Paulo estava sendo castigada por um dilúvio, o maior em 23 anos. Você tomou conhecimento indireto da catástrofe. Foi quando informamos, já no final, que por causa da chuva a Embratel ficou sem condições de transmitir o áudio da ultima intervenção do convidado presente à TV Cultura, o presidente da ONG que defende o armamento.

Não poderíamos imaginar que o dilúvio real vivenciado por alguns milhões de paulistanos seria convertido numa fuzilaria digital não menos perversa. Foi exatamente isso o que aconteceu. No dia seguinte: uma onda de e-mails evidentemente orquestrados, acusava este Observatório de parcialidade e censura. A tropa de choque dos armeiros esqueceu a chuva, as inundações e desconsiderou as brilhantes intervenções da Deputada Denise Frossard que é contra o desarmamento mas defende as suas idéias de forma brilhante. O advogado Bene Barbosa, a favor do armamento falou o mesmo número de vezes do que o deputado Raul Jungmann, a favor do desarmamento. Procuramos ser equitativos mas a turma do gatilho quer apenas fazer barulho. Como não conseguiu fuzilar S. Pedro por causa do dilúvio a turma do gatilho tentou fuzilar este Observatório. Não conseguiram, nem conseguirão.

Um vídeo de menos de dois minutos está sendo discutido há 3 semanas ininterruptas. A mídia não fala em outra coisa. Os desdobramentos do flagrante da propina nos Correios divulgado pela revista "Veja" gerou uma crise política sem precedentes. Pergunta-se: este tipo de denúncia pode ser classificado como jornalismo investigativo? Já nas primeiras edições deste Observatório contestamos o tal "jornalismo fiteiro" onde os jornalistas apenas veiculavam fitas, vídeos e dossiês preparados por gente quase sempre tão corrupta quanto os denunciados.

Hoje vamos tratar do jornalismo investigativo propriamente dito, aquele empenho idealista de desvendar o que está escondido. Estamos interessados no esforço quase sempre anônimo, muitas vezes solitário, exaustivo, arriscado, veiculado por órgãos de imprensa dispostos a investir na defesa do interesse público.

Por coincidência os três exemplos do jornalismo investigativo que vamos mostrar resultaram em livros que agora estão sendo lançados ou relançados: "Instinto de Repórter" de Elvira Lobato repórter da Folha de S. Paulo, "Basta!" de Joaquim de Carvalho então na "Veja" e hoje na "Record" e "Juízes no Banco dos Réus" de Frederico Vasconcelos também da "Folha". Eles não produziram CPI's mas resgataram os eternos paradigmas da boa reportagem e do bom jornalismo.

Isso não significa que apenas o formato de livro sirva como selo de qualidade do jornalismo investigativo. A sucessão de denúncias do "Globo" inclusive sobre as fraudes nas últimas eleições em Campos, Estado do Rio, comprovam que o bom jornalismo de investigação, independe do formato com que chega ao público. O "vídeo da propina" é legítimo sob o ponto de vista legal. Sob o ponto de vista político é uma bomba-arrasa-quarteirão. Mas a este Observatório da Imprensa neste seu sétimo aniversário interessa lembrar que certos meios de buscar a verdade podem prejudicar a própria verdade.


ARTIGO
Por Alberto Dines

MÍDIA E GOVERNO ENTALADOS
Ninguém quer descobrir quem fez o "Vídeo da Propina"
Alberto Dines

A mídia só pensa naquilo – a CPI dos Correios. Corrupção é assunto quente e o impacto produzido pelo "Vídeo da Propina" não permite tergiversação.

Aquela conversa tranqüila e camarada entre o corrupto e o corruptor jamais poderia ser reproduzida com tamanha força mesmo que fosse ensaiada, retocada, desenhada ou recriada em computador. Aquela happy hour descompromissada e distendida (faltou o uisquinho e uns salgadinhos) é um flagrante inédito, impressionante e definitivo da vexatória e fraterna convivência entre a máquina corruptora e a máquina corrompida depois do expediente.

O "Vídeo da Propina" ganharia fácil um Oscar ou a Palma de Ouro de Denúncia se tal categoria existisse num festival de cinema ou TV. No entanto, nem a mídia (que o divulgou) nem o governo (do qual é vitima) perceberam que o "Vídeo da Propina" é muito mais do que o ponto de partida para o desvendamento de um tenebroso episódio da nossa vida política. Poderia ser, além disso, o meio através do qual as primeiras investigações pudessem ganhar tal velocidade que tornaria secundária a CPI.

Para isso bastaria que tanto a imprensa como o governo dessem mais atenção ao vídeo e às perguntas básicas nele entrelaçadas:

** Quem eram os empresários que armaram o impecável flagrante?

** De que maneira aquela esplêndida peça videográfica foi parar na redação do mais importante semanário brasileiro?

A próxima atração

O governo não se mexeu nesta direção por puro pudor – desconhecia e, por isso, temia a extensão do pantanal nos porões dos Correios. Preferiu concentrar-se durante as primeiras semanas no esforço para impedir a CPI.

A mídia não se mexeu igualmente por pudor – não lhe interessava (como instituição) desvendar suas intimidades à sociedade nem expor os canais de comunicação estabelecidos nos últimos anos entre os interesses contrariados e o chamado "jornalismo investigativo".

Nenhum dos grandes veículos – nem as entidades que os congregam – estão dispostos a condenar a espúria conexão e este tipo de jornalismo a serviço da corrupção simplesmente porque estão à espera de que, numa próxima oportunidade, sejam eles os beneficiados. E na expectativa do próximo prêmio, nossa mídia desenvolveu uma moralidade às avessas na qual as únicas infrações denunciadas são aquelas cometidas por infratores mal-sucedidos. As bem-sucedidas jamais serão conhecidas e a mídia raramente anima-se a investigá-las.

Quando a imprensa e seus procedimentos forem efetivamente assuntos da imprensa, quando os holofotes da mídia puderem dirigir-se à própria mídia, então teremos uma sociedade provida de instrumentos capazes de saneá-la.

Enquanto isso não se dá, aguardemos o próximo vídeo. Uma coisa é certa – será de grande qualidade.


OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET

ANA PAULA PADRÃO
O canto de sereia da celebridade
Ricardo A. Setti (*)

A ruidosa transferência da jornalista Ana Paula Padrão da Rede Globo para o SBT mobilizou a atenção dos jornais e revistas de grande circulação, mas obteve destaque maior no chamado jornalismo de celebridades e na chamada imprensa de fofocas propriamente dita: certas colunas de jornais, determinadas revistas, seções "especializadas" em portais de informação, programas de TV. Especulou-se sobre o salário, em vários casos com cifras risíveis de tão inverossímeis, comentou-se uma suposta briga com a Globo, falou-se de detalhes – reais ou imaginários – de sua vida pessoal.

A chamada imprensa de fofocas mais rasteira em todas as situações seguiu o costumeiro padrão de qualidade: não ouviu uma só palavra da principal interessada, não apresentou uma única fonte de informação minimamente qualificada.

Nos casos em que os fatos foram apresentados de forma correta ou não, concedeu-se à jornalista tratamento de celebridade – como o conferido a atrizes, jogadores de futebol, cantores, modelos, socialites.

O jornalista como celebridade

Isso parece consolidar, na história recente do jornalismo brasileiro, algo que já se esboçara anteriormente em mudanças de emprego semelhantes e que parece o resultado de uma pirueta lógica: um jornalismo de celebridades no qual a celebridade objeto de atenção do jornalismo é, ela própria, uma jornalista.

Ninguém contesta os méritos de Ana Paula Padrão. Realizou um bom trabalho como repórter política em Brasília, desincumbiu-se das tarefas de correspondente da Globo em Nova York e em Londres, adquiriu experiência e maturidade e não teve maiores problemas em ocupar com desenvoltura o lugar de Lilian Witte Fibe quando a direção de jornalismo global, num gesto criativo, resolveu pinçá-la como âncora do Jornal da Globo. Não se limitando a pilotar o telejornal da bancada em São Paulo, Ana Paula Padrão conseguiu espaço para, voltando a ser repórter, realizar boas reportagens, como a série feita no Afeganistão após a derrocada do regime lunático do Talebã pelas forças armadas dos Estados Unidos, em 2001.

Ocorre, porém, que nada garante que Silvio Santos tenha contratado a ex-âncora do Jornal da Globo por seus méritos jornalísticos. O dono do SBT nunca foi muito próximo dessa questão: não entende de jornalismo, tem grande dificuldade em relacionar-se com a mídia como empresário, não faz segredo do quanto desconfia de jornalistas e produziu consideráveis estragos sempre que tentou intervir, ou efetivamente interveio, nos rumos da emissora nesse terreno.

Silvio Santos, critérios insondáveis e Boris Casoy

Os critérios de SS são inteiramente insondáveis. Quando finalmente resolveu criar um jornalismo vigoroso em sua rede de TV, em 1987-88 – quase uma década depois de ter ganho a concessão do governo do general João Figueiredo – Silvio, que não conhecia ninguém no meio, resolveu encarregar da missão o jornalista Marcos Wilson, bom profissional da mídia impressa que, entre outras funções, fora correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires.

Mas o currículo do jornalista contou menos do que a mútua empatia surgida, meses antes, durante a longa, franca e por isto mesmo raríssima entrevista que Marcos Wilson fez com Silvio Santos para o Estado. Publicada a matéria, o empresário e apresentador declarou-se maravilhado com o fato de o repórter ter registrado com precisão e rigor as declarações que fizera, como se isso fosse alguma exceção milagrosa no trabalho dos jornalistas.

O corajoso segundo passo que foi, por iniciativa de Marcos Wilson, Silvio levar para o SBT, em 1988, outro profissional de peso e ainda maior visibilidade da mídia impressa, Boris Casoy – então na Folha de S.Paulo, de que tinha sido editor-chefe – tornou excelentes resultados que já vinham sendo bons. Com o editor-chefe-adjunto Dácio Nitrini, que até hoje o acompanha na Record, Boris tornou o telejornal TJ Brasil respeitado e trouxe para o popularesco SBT audiência, prestígio e retorno de anunciantes. Tal trajetória não se desenvolveu, porém, num permanente mar de rosas.

Houve dificuldades de conciliar a autonomia contratual assegurada a Boris com a estrutura única da área de jornalismo comandada por Marcos Wilson. Com o tempo, separaram-se as equipes e as redações: Boris com o TJ Brasil, Marcos Wilson responsável por todas as demais iniciativas da rede em jornalismo. E Boris só viria a se aborrecer muito depois, com as constantes mudanças na grade de programação decididas por Silvio Santos consultando somente a si mesmo, que tornavam muitas vezes incerto o horário de ir ao ar até da edição do telejornal do próprio dia. Essa situação fez o âncora ceder ao assédio da Record, em 1998.

A sedução dos holofotes

Ana Paula Padrão não deve se iludir. Embora protegida contratualmente, como apregoou, esse tipo de problema certamente vai aparecer em seu caminho, cedo ou tarde. E há fortes indícios de que, embora o dono do SBT esteja ciente das credenciais da jornalista, saiba ou não avaliá-las a contento, a contratação se deu em grande medida por se tratar de uma celebridade global a ser arrebatada à líder do mercado. Aí reside boa parte dos riscos que a jornalista, até aqui com uma carreira ascensional digna de nota, poderá enfrentar.

A sedução dos holofotes da celebridade já afastou do melhor caminho do jornalismo vários profissionais. Não cabe aqui, é claro, julgar a escolha pessoal de ninguém. Qualquer pessoa obviamente tem o direito de optar pelo caminho que quiser, inclusive por esse, e de ser respeitada. Mas, se a pessoa em questão considera que ganha, em geral quem perde é o jornalismo.

Marília Gabriela continua sendo um nome forte, uma entrevistadora de méritos. Sua opção por múltiplos caminhos – entre outras atividades, gravou CD como cantora, desfilou em passarela, atuou em telenovela –, contudo, deixou sem resposta a pergunta de até onde poderia ter chegado quem, 16 anos atrás, mediava debates entre candidatos à Presidência da República.

Pedro Bial muito provavelmente pesou prós e contras, e decidiu-se pelos primeiros, ao aceitar cruzar a linha que separa o jornalismo do entretenimento e tornar-se não apenas apresentador do Fantástico (espécie de síntese da indesejável mistura entre essas duas categorias) como, desde há cinco anos, do Big Brother Brasil – senda que o conduziu a atuar, recentemente, no Casseta & Planeta Urgente. Com certeza, porém, prestava maiores serviços ao jornalismo quando gramava arduamente em reportagens a partir da base de correspondente em Londres, inclusive as que produziu na Europa Oriental em transe no pré e no pós-queda do Muro de Berlim.

A "cultura da celebridade": dupla praga

A "cultura da celebridade" constitui, pois, uma dupla praga para o jornalismo: de um lado, ela faz com que se mobilizem enormes recursos da mídia para a cobertura de algo de importância social nula, mas que tem uma legião de leitores-telespectadores-ouvintes-internautas interessados e, portanto, é terreno fértil para o mercado anunciante; de outro, ameaça ela própria afetar – e enfraquecer – o trabalho de jornalistas de evidência que, de uma ou outra forma, acabam sugados pelo seu vórtice.

Mesmo quem continua no trabalho quotidiano no jornalismo, principalmente mas não apenas nessa grande vitrine que é a TV, não está isento da área de influência dessa "cultura". É cada vez mais freqüente a aparição de jornalistas de peso em notas e reportagens de colunas sociais, de revistas de "famosos", em revistas de fofocas propriamente ditas e em programas de TV do gênero, a maioria francamente lamentáveis.

No caso de jornalistas mulheres, estrelam com assiduidade cada vez maior capas de revistas femininas, superproduzidas e transformadas em modelos de beleza, elegância e sensualidade, são ouvidas em programas fúteis, acabam dando conselhos e falando da vida privada – atitudes a anos-luz de sua missão profissional. Jornalistas homens e mulheres com visibilidade pública tornam-se um chamariz e são disputados como apresentadores de eventos e mestres-de-cerimônias em festas de empresas.

Ser celebridade desvia o jornalista da rota

Tudo isso prejudica enormemente a figura e o trabalho do jornalista. A teia de relações sociais trazida pela condição de celebridade – quando a ela adere o jornalista – vai progressivamente dificultando sua atuação. Fica mais difícil tocar em determinados assuntos, contrariar certos anseios, melindrar determinadas personalidades. Os conflitos de interesse espreitam a cada momento. A imagem de austeridade e independência do jornalista, ferramentas essenciais de seu trabalho, é arranhada. O objetivo profissional e ético do jornalista, sua razão de ser – informar o mais corretamente possível o público – acaba sofrendo inevitáveis desvios de rota.

Perde o jornalista, perde o veículo para o qual ele trabalha, perde a sociedade, a serviço da qual, em última instância, devemos estar todos nós, jornalistas.

Resista ao canto de sereia, Ana Paula.

(*) Jornalista


5º BLOCO

Veja o que disseram os convidados após o programa:

Rio de Janeiro:

Elvira Lobato – Repórter especial Folha de S. Paulo
"Achei o programa ótimo, bem como os convidados."

São Paulo:

Frederico Vasconcelos – Repórter especial Folha de S. Paulo
"Achei que esse programa foi muito aberto, muito democrático, importante principalmente para essa nova geração de jornalistas."

Joaquim de Carvalho – Repórter do Jornal da Record
"Foi um programa maduro, a prova de que nós jornalistas podemos discutir sobre nós mesmos."


PERGUNTAS

E-mails recebidos na semana de 31/05 a 07/06:

Marcelo Idiarte, Porto Alegre / RS
Dines, o sigilo de fonte não permite também que inverdades absurdas se tornem fatos 'inquestionáveis'?

Edson Pessoa
Prezados senhores, claro que esperamos um jornalismo apoiado em meios lícitos e democráticos que forneça conteúdo de informações e nos possibilite tomar decisões na vida civil. Porém negamos qualquer tentativa de formar nossa opinião política, por meios tendenciosos, usando o jornalismo como instrumento. Saudações.

Leamartine Pinheiro de Souza, Rio de Janeiro
O fato do Garganta Profunda ser o 2º nos quadros do FBI só corrobora o que deduzi há longo tempo: Richard Nixon, no caso, fora apenas o boi de piranha ou a cortina de fumaça para a maior vergonha militar da história, a fuga desvairada das forças armadas norte-americanas do Vietnã.

Mauro Cezar Rebello Cordeiro
Prezados senhores e senhoras, mais uma vez sou obrigado a expressar minha revolta diante da parcialidade em relação ao tema do desarmamento. O programa Observatório da Imprensa, exibido no dia 31 de maio de 2005, não só reafirmou sua posição parcial como propagou calúnias a respeito dos telespectadores conscientes. Enviei espontaneamente o meu primeiro e-mail manifestando meu descontentamento com a parcialidade com a qual o tema em questão foi tratado. Quero deixar claro que não faço parte de "orquestra" alguma e acho que, se existe alguma coisa "orquestrada" por alguém, é esse movimento insano de desarmamento da população civil ordeira promovido por organismos internacionais e nacionais com propósitos escusos. Pelo que venho observando a partir do estudo da história da humanidade, em nenhum país do mundo a atitude de desarmamento civil resultou na redução do número de mortes, muito pelo contrário. Observando atentamente as notícias dos últimos 12 meses percebemos uma mudança na tipologia dos crimes, e um considerável aumento dos crimes violentos e com mortes. Os assaltos à mão armada estão se transformando em execuções sumárias com posterior roubo dos pertences das vítimas. Bandidos começam a matar cidadãos desarmados por "esporte". Estamos todos no mesmo barco e a próxima vítima pode ser qualquer um de nós. Semana passada, por exemplo, a vítima foi um parente meu, assassinado na frente do filho de 7 anos, sem ter qualquer pertence roubado. A direção do programa e o apresentador deveriam se informar melhor a respeito do assunto e permanecerem isentos. A parcialidade em relação ao tema foi nítida, clara e óbvia. Solicito, mais uma vez, que um novo programa seja apresentado sobre o importante tema desarmamento, proporcionando igualdade de condições ao professor Bene do Movimento Viva Brasil, e que além dele, outras personalidades como cientistas políticos e historiadores, que discordam do desarmamento, sejam também chamadas. De fato, por questão de justiça, dois outros programas deveriam ser feitos. No primeiro, os convidados seriam em sua totalidade contra o desarmamento, uma vez que no dia 24 de maio não houve um debate, pois a quase totalidade dos membros era a favor do desarmamento. No segundo programa, finalmente, os debatedores deveriam ser metade contra e metade a favor, para permitir um confronto real de idéias. O Brasil precisa de um jornalismo sério, honesto, que informe a população sem manipulá-la. A TVE deveria ter uma atitude digna de ser tomada como exemplo, e de ser lembrada com orgulho por nós brasileiros. Sem mais para o momento.

Vanessa Alcântara, Fortaleza / CE – Repórter do jornal O Povo
Escrevo este e-mail para manifestar minha decepção com o programa Observatório da Imprensa desta emissora. Sou jornalista há 15 anos e tenho pela TV Cultura profundo respeito pelo modo como age eticamente, até o programa veiculado no dia 24 de maio sobre a campanha do desarmamento. Ficou explícito o fato de haver somente "convidados" com a mesma opinião e ficou claro que não houve nenhum cuidado ou interesse em equilibrar o programa com fontes diversas e divergentes. Vi o descaso com que foi tratado o presidente do Movimento Viva Brasil, Bene Barbosa. O único contraponto foi desconectado rapidamente. Por que? Não era interessante para quem? A própria emissora? Com o benefício da dúvida continuo sintonizada na TV Cultura, pelo fato de não ter interesse nenhum em qualquer outra TV aberta. Mas daqui a pouco tenho medo que nem ela sobre.


Telefonemas recebidos em 31/05:

Adalberto Lopes, Belém / PA
Joaquim de Carvalho, você pretende escrever sobre a Igreja Universal, mesmo sendo repórter da Record?

Sanderlei Vieira, Vitória / ES
É possível existir jornalismo investigativo isento no cenário econômico pouco favorável às empresas de comunicação?

Evanildo Aguiar, São Miguel / SP
Joaquim de Carvalho, qual era a sua relação com Kaique Nani, que lhe conseguiu 214 folhas com as declarações de PC Farias?

Clóvis Luiz, Rio Branco / AC
O jornalismo investigativo tem barreiras que não pode ultrapassar?

Sagrado Lamir David, Juiz de Fora / MG
Todos nós sabemos que a frase "aos amigos tudo, aos inimigos a lei" está mais do que instituída no Brasil. Como substituir nas prisões os famosos ladrões de galinha pelos sempre impunes da elite?

Cassiano Medeiros, São Gonçalo / RJ
Você acredita que, como na cobertura do caso PC, houve também sensacionalismo nessa cobertura do caso da Igreja Universal?

George Wallace, Olinda / PE
Joaquim Carvalho, na época, quando você foi a Alagoas, chegou a ser hostilizado pela imprensa local?

João Carlos, Recife / PE
Gostaria de saber se preservar a fonte também é preservar o furo da notícia.

Bernardo Lages, São Carlos / SP
Elvira Lobato, durante sua investigação você sofreu alguma pressão ou ameaça?

Marco Antônio, Osasco / SP
Como vocês vêem tanta corrupção sem punição?

Edir Albino, Brasília
Aqui no Brasil, o poder econômico barra muitas das denúncias. Como você consegue fazer o jornalismo investigativo e se manter no emprego?



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