PROGRAMA DO DIA 03 de maio de 2005

RÁDIO

Na ocasião do sétimo ano do programa abordamos a questão do rádio no Brasil.

Meio de comunicação que teve seu período áureo nas décadas de 40 e 50, o rádio soube sobreviver à televisão e mantém, ainda hoje, sua importância no cenário da mídia nacional.

Leia o resumo do programa

  Veja o Compacto

PROEZA DA MÍDIA BRASILEIRA
Dono de jornal manda prender jornalista

Alberto Dines

O único jornal que registrou devidamente a condenação do jornalista Jorge Kajuru a 18 meses de detenção foi a Folha de S.Paulo (sexta 29/4, primeira página). Ao que consta é a primeira prisão de um jornalista no Brasil desde o fim da ditadura.

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O presidente da República deve tornar rotineiras as coletivas à imprensa?

Resultado:

Sim: 87%

Não: 13%

Aqui você pode participar de fóruns sobre assuntos ligados à imprensa, deixar seu recado no nosso mural e ler as perguntas dos telespectadores.

Perguntas - Aqui são colocadas as perguntas dos telespectadores que chegam por telefone, fax ou e-mail durante o programa e ao longo da semana.

5 Bloco - Leia a opinião dos participantes do programa, sobre o debate.

Editorial:

Bem-vindos ao "Observatório da Imprensa".

Voltamos à era do rádio: há uma década falar sobre o rádio significava um mergulho no passado, exercício de nostalgia. Hoje, o rádio está na vanguarda, é a palavra de ordem, sobretudo porque o rádio hoje está acoplado às novas tecnologias da informação. É a modernidade. É a democratização da informação num país com as nossas dimensões e exclusões.


Leia na íntegra

A COLETIVA DO PRESIDENTE
Mídia pega leve e Lula dá olé

Luiz Weis

É de não acreditar. Só depois que terminou a primeira coletiva formal do presidente Lula, na sexta-feira, 29, quando ele já se retirava do Salão Oeste (ou Leste, conforme o jornal que se leia) do Palácio do Planalto, uma repórter lhe fez a única pergunta que não poderia ter deixado de ser feita nos 79 minutos (ou 80, ou 115, conforme o jornal) da entrevista que ele levou 850 dias (ou 849, conforme o jornal) para dar.

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RESUMO DO PROGRAMA

RÁDIO

O Observatório da Imprensa do dia 03 de maio comemorou 7 anos no ar traçando um panorama atual do rádio no país. Humor, futebol, prestação de serviço, jornalismo, todas as vertentes do veículo, que possui cerca de noventa e cinco milhões de ouvintes, foram apresentadas neste programa especial.

Em nosso estúdio, no Rio de Janeiro, esteve o radialista e jornalista Haroldo de Andrade.

Em seu editorial Alberto Dines disse que "hoje o rádio está na vanguarda, é a palavra de ordem, sobretudo porque o rádio hoje está acoplado às novas tecnologias da informação".

Sobre as rádios do interior, Haroldo de Andrade disse: "Eu não concordo com emissoras de grandes capitais, como Rio de São Paulo, transmitindo para o interior. Isso impede, com muito vigor, que figuras da própria cidade, do próprio município ganhem projeção".

Em seguida acrescentou: "Hoje o rádio é prestação de serviço. Eu tenho orgulho de ser radialista, muito orgulho. Eu sei que posso ser útil as pessoas, que o rádio com sua prestação de serviços pode ser útil e eu fui um dos líderes disso (....) Eu acho que o rádio de hoje trabalha mal, perdendo todos os grandes anunciantes, o rádio vive do comércio e o comércio não atravessa uma fase das mais satisfatórias".

Com uma experiência de 57 anos de profissão, Haroldo de Andrade falou do momento atual das rádios no país: "Outro pecado que o rádio cometeu foi não se renovar e não se renovando, não fazendo dos profissionais consagrados verdadeiros mestres, os jovens procuram seguir para a televisão, que é um veículo mais moderno, mais completo. E para dirigir emissoras de rádio, radialistas, já que nós temos um número absurdo de políticos que apenas usam o rádio, além do grande número de emissoras religiosas".

Ainda em Curitiba, no início de sua carreira, Haroldo de Andrade cometeu sua maior gafe, ele nos contou: "Eu dei a mensagem comercial da Casa Tiradentes e entrei na notícia final, procedente de Roma, dizendo que havia sido descoberta a correspondência de Mussolini e Clara Petacci. Como eu havia acabado de falar de preço de calça em um anúncio, joguei no ar o seguinte: Foi descoberta a grande correspondência íntima entre Mussolini e Clara Petacci, divulga-se que o dutche guardava com muito amor e carinho as calças de Clarita Petacci".

Tiago Chediak (estagiário)


EDITORIAL

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

Voltamos à era do rádio: há uma década falar sobre o rádio significava um mergulho no passado, exercício de nostalgia. Hoje, o rádio está na vanguarda, é a palavra de ordem, sobretudo porque o rádio hoje está acoplado às novas tecnologias da informação. É a modernidade. É a democratização da informação num país com as nossas dimensões e exclusões.

Justamente por isso escolhemos o rádio para comemorar os nossos aniversários. Sim, aniversários – não fazemos por menos: há nove anos, em fins de abril de 1996, começamos o nosso site. E no dia cinco de maio de 98, portanto, há sete anos, iniciamos as emissões semanais deste Observatório da Imprensa pela televisão aqui na Tv Educativa no Rio de Janeiro.

O rádio entra nesta história intencionalmente: amanhã, quarta-feira, vamos tentar nos engajar na nova era do rádio com um programa diário na Rádio Cultura-FM de São Paulo, que poderá ser ouvido simultaneamente em nosso site de segunda à sexta, às nove da manhã e depois em qualquer horário. E o que é melhor, muito em breve a Rádio MEC FM, do Rio, também vai transmitir o programa.

Este Observatório passa a ser efetivamente multimeios, passa a ser efetivamente nacional e efetivamente público porque reúne um empreendimento do terceiro setor - o instituto Projor, uma empresa federal - a proprietária da TVE Brasil e da Rádio MEC e uma entidade estadual - a Fundação Padre Anchieta, detentora da TV e da Rádio Cultura.

Olhamos para o futuro mas não podemos esquecer de prestar contas a você telespectador que nos privilegiou com a sua atenção. Nestes sete anos quase ininterruptos fizemos 325 edições semanais quase sempre ao vivo. Trouxemos a estes estúdios 725 debatedores e gravamos entrevistas com 1283 especialistas. A participação do cidadão-telespectador foi impressionante: recebemos 6800 telefonemas e 3200 emails. Estamos na rede aberta de tv em 23 dos 27 estados e na tv por assinatura em todas as unidades da federação.

Mas infelizmente nesta edição festiva somos obrigados a encarar as duras realidades da imprensa brasileira: hoje, dia mundial da liberdade de expressão, nenhum veículo lembrou-se da inédita sentença divulgada há quatro dias que condena à prisão domiciliar ao longo de 18 meses o jornalista Jorge Kajuru. É a primeira vez que um jornalista será preso desde o fim da ditadura. O mais patético é que o autor da ação que culminou com a drástica sentença, é um dono de jornal, "O Popular" de Goiânia. Vamos ingressar no Guiness, o livro dos recordes, pela porta dos fundos. Voltaremos ao assunto.


ARTIGO
Por Alberto Dines

PROEZA DA MÍDIA BRASILEIRA
Dono de jornal manda prender jornalista

Alberto Dines

O único jornal que registrou devidamente a condenação do jornalista Jorge Kajuru a 18 meses de detenção foi a Folha de S.Paulo (sexta 29/4, primeira página). Ao que consta é a primeira prisão de um jornalista no Brasil desde o fim da ditadura.

A Associação Nacional dos Jornais terá mais um motivo para acionar suas poderosas baterias e repudiar a nova violência cometida contra a liberdade de expressão no Brasil junto à mídia e entidades internacionais.

Dificilmente o fará. Simplesmente porque a ANJ não irá condenar um dos seus mais eminentes associados, autor da ação contra Kajuru. Trata-se de Jaime Câmara Jr., presidente das Organizações Jaime Câmara, grupo empresarial que edita um dos mais importantes diários da região central – O Popular, de Goiânia, com larga penetração em Brasília –, e controla um poderoso conglomerado de jornais, rádios e emissoras de TV nos estados de Goiás e Tocantins.

Esta patética ambigüidade da entidade máxima da indústria da comunicação impressa amorteceu a repercussão da sentença proferida pelo tribunal goiano. A Folha furou a cortina de silêncio graças à manobra de classificar a autora da ação contra Kajuru como "afiliada da Globo", e assim conseguiu evitar um confronto contra uma associação empresarial que tanto prestigia. Ocorre que as Organizações Jaime Câmara, antes de fazerem parte da Rede Globo, são proprietárias desde 1938 do Popular, um dos mais importantes diários regionais do país.

Cúmplice silenciosa

Tudo indica que o empresariado da mídia brasileira engolirá esta violência contra um jornalista da mesma forma plácida com que engoliu outras violações que favorecem os seus interesses. Exemplo recente: o virtual desmantelamento do Conselho de Comunicação Social, com a imposição do nome do "imortal" lobista Arnaldo Niskier para presidi-lo, passou em brancas nuvens porque desde a Constituinte o empresariado não mede esforços para emascular este órgão auxiliar do Congresso, considerado como alavanca do processo de regulamentação dos meios de comunicação social.

Jorge Kajuru – que a Folha insiste em designar como radialista embora seja colaborador habitual da sua editoria de Esportes – é o bode expiatório de uma imprensa formalmente corajosa, fingidamente independente e evidentemente cúmplice daqueles que querem dominá-la.

Em plena vigência do regime democrático, na qualidade de impassível testemunha e silenciosa cúmplice, a mídia brasileira assiste à incrível proeza de um dono de jornal que manda prender um jornalista.

***

Em tempo: Durante o IV Encontro Regional sobre Liberdade de Imprensa, iniciativa da ANJ e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), realizado na segunda-feira (2/5), no Rio, para promover a Rede de Defesa da Liberdade de Imprensa, a entidade patronal divulgou uma nota "em defesa da liberdade de imprensa na Venezuela". Embora ocorrido sob seus olhos, o episódio Kajuru não mereceu mínima menção dos paladinos da "liberdade de imprensa". Como era de se esperar.


OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET

A COLETIVA DO PRESIDENTE
Mídia pega leve e Lula dá olé

Luiz Weis

É de não acreditar. Só depois que terminou a primeira coletiva formal do presidente Lula, na sexta-feira, 29, quando ele já se retirava do Salão Oeste (ou Leste, conforme o jornal que se leia) do Palácio do Planalto, uma repórter lhe fez a única pergunta que não poderia ter deixado de ser feita nos 79 minutos (ou 80, ou 115, conforme o jornal) da entrevista que ele levou 850 dias (ou 849, conforme o jornal) para dar.

Afinal, três dias antes (conforme todos os jornais), Lula tinha dito que o povo, em vez de ficar reclamando dos juros, devia "levantar o traseiro" e ir atrás de crédito mais barato, mesmo porque, segundo ele, hoje em dia se pode abrir e fechar conta em banco pelo computador.

Mas nenhum dos 14 entrevistadores tomou a iniciativa de interpelá-lo sobre a expressão que se distingue de todas as impropriedades já proferidas pelo loquaz presidente nestes 28 meses de governo, por ter ofendido os sentimentos de muitos brasileiros, a julgar pelo aluvião de mensagens de protesto enviados à mídia – um fato sem precedentes, em se tratando de alguma fala de Lula.

"O senhor acha mesmo que se o brasileiro levantar o traseiro os juros vão baixar", perguntou a repórter, ao que o presidente devolveu, com reduza: "Responda você."

A rigor, pode-se argumentar que a pergunta certa seria outra: não propriamente sobre a relação entre o estado do traseiro e o custo do dinheiro, mas sobre a reação indignada dos que se sentiram ofendidos pela forma com que o chefe do governo os culpou pelos juros extorsivos do cheque especial e do cartão de crédito.

Será que o presidente, com todo o respeito, não achava que era o caso de pedir desculpas aos brasileiros feridos no seu amor-próprio?, podia-se indagar dele. Mas, assado ou assim, o traseiro tinha que aparecer na entrevista, quantas e quaisquer que fossem as perguntas sobre o problema objetivo da política monetária e da ganhança dos bancos.

A ausência daquela palavra pode não ter preenchido uma lacuna, como seria o caso de dizer se se quisesse fazer sarcasmo, mas representa o ponto extremo da falta de combatividade – no sentido jornalístico, bem entendido – dos participantes da entrevista que entrou para a história da presidência Lula apenas porque "sempre tem uma primeira vez", como ele chegou dizendo.

Meia mordaça

Pegar na veia de Lula, em vez de pegar leve nele, era ainda mais necessário por causa do pecado original do formato da entrevista – a proibição da réplica (embora transgredida sem maiores conseqüências por três perguntadores).

Essa meia mordaça, a impossibilidade de o autor da pergunta contestar de bate-pronto o que acabou de ouvir, permitiu a um político reconhecidamente bom de boca – apesar da "quase-lógica" de suas falas improvisadas, no dizer de uma pesquisadora – dar um olé.

"Excelente desempenho", elogiou pouco depois na edição online da Folha de S.Paulo o colunista Kennedy Alencar. No dia seguinte, o insuspeitíssimo O Estado de S.Paulo, embora ressaltasse que "um chefe de governo precisa ser muito incompetente para sair derrotado de tais situações", intitulou o seu editorial a respeito "O melhor do presidente".

Segundo a unanimidade dos relatos e o que mostrou a TV, o entrevistado acusou o golpe apenas uma vez, quando o repórter Roberto Maltchik, da Rádio Gaúcha, representando também as oito outras emissoras credenciadas no Planalto, perguntou se ele dorme bem com "a realidade da população brasileira" que tinha sido eleito "com a tarefa de melhorar".

Mas o desconforto durou pouco. Em instantes Lula se refez do que talvez considerasse, no íntimo, uma provocação – e saiu declamando em 757 palavras o que o faz dormir "o sono dos justos todo santo dia": melhorias no emprego, no salário mínimo, nas matriculas universitárias, no comércio exterior, na relação com o FMI, nos programas sociais… E encaçapou: "É para isso que eu trabalho, meu querido".

Meia-verdade

Nessas horas é que a limitação do direito de pergunta do entrevistador mostra quanto vale. Pois mesmo que tivesse vindo para a entrevista com a lição na ponta da língua, só quebrando o protocolo o jornalista poderia contrapor ao presidente números como os que apareceriam no sábado na melhor matéria da imprensa sobre as suas incorreções – "Lula utiliza dado errado para defender o mínimo", de Gustavo Patu, da Folha de S.Paulo.

O texto demonstra por que não fica em pé a afirmação de Lula de que "o Brasil vive hoje, talvez, um dos seus melhores momentos no que diz respeito ao salário mínimo". Já o Globo, em matéria não assinada, destacou a "meia-verdade" de Lula sobre a queda do déficit da Previdência. (Caiu em março sobre fevereiro, mas subiu na comparação com o primeiro trimestre de 2004.)

Ainda no Globo, o leitor Charles Marcel Paixão Milner flagrou a contradição de Lula que, segundos depois de dizer que o governo erra "muito", saiu-se com um "é difícil reconhecer um erro num governo que acerta tanto".

Com a regra do jogo francamente favorável ao presidente, os seus mais de 20 anos de janela ao microfone, os conselhos do seu personal trainer de mídia Duda Mendonça, podia-se passar perfeitamente bem sem o que a colunista Dora Kramer chamou de "reverência e, em alguns momentos, franca amabilidade dos entrevistadores". De fato, faltou clima para as "cobranças mais fortes" que seriam de desejar.

"É difícil dizer qual dos dois lados se mostrou mais frustrante", criticou Janio de Freitas, na Folha. Páginas adiante, o colunista de mídia Nelson de Sá observou que "os correspondentes palacianos sorriam ou riam à solta e erguiam perguntas que deixavam Lula mais e mais simpático". No Globo, o comentarista político Merval Pereira concluiu: "A entrevista não doeu". E a sua homóloga de economia Míriam Leitão atacou o "quase monólogo".

Respostas "pirotécnicas"

A atitude do reportariado é uma parte do problema. Outra foi o predomínio de perguntas sobre assuntos econômicos – 8 em 17 (incluindo as réplicas e as duplas contrabandeadas). Falar de economia quem sabe fosse tudo que Lula quisesse. Pelo menos o assunto rendeu as respostas mais extensas e, diria a oposição, mais "pirotécnicas".

É verdade que a economia está no centro das atenções, mesmo da mídia não especializada. Basta ver a freqüência com que o tema e suas variações estão nas manchetes da grande imprensa. É verdade ainda que, dado o ineditismo do encontro, como escreveu o colunista Fernando Rodrigues, da Folha, "seria impossível sabatinar o presidente sobre todos os temas relevantes da República em pouco mais de uma hora", numa entrevista que "tinha ares de algo excepcional".

Mas que ficaram faltando as perguntas presumivelmente mais incômodas para o presidente, isso também é verdade.

A começar daquela que o colunista Janio de Freitas apontou, na mosca: "Presidente, por que, afinal de contas, dois anos e quatro meses para dar uma entrevista coletiva(…)? O que houve ou há que o presidente Lula sentiu a necessidade de não se ver perguntado?"

Para a maioria dos analistas políticos, seja lá "o que houve ou há", a decisão de começar a dar entrevistas – Lula deu a entender que virão outras, não necessariamente em Brasília – se explica pela aproximação do ano eleitoral. E, de fato, Lula ganhou o dia. No sábado, os três principais jornais deram ao acontecimento um total de 49 títulos (incluindo editoriais e colunas assinadas), espalhados por 22 páginas.

Mas também se fartaram de relacionar o que se deixou de perguntar: o fracasso da reforma ministerial tida como essencial para a "governabilidade", as atividades do ministro José Dirceu como "chanceler paralelo" (expressão do Estado no domingo), a sua rivalidade com o aliado Aldo Rebelo na coordenação política do governo, a pobreza da agenda legislativa do Planalto e a inédita perda de controle do Executivo sobre a pauta da Câmara, o excesso de medidas provisórias que a travam, a carga tributária e a derrota do governo na MP dos impostos…

Este leitor acrescentaria outra pergunta – além, naturalmente, daquela do traseiro.

Lula lê jornal?

Em dado momento da entrevista, o presidente Lula disse à repórter Renata Giraldi, de O Dia, que estava surpreso ao saber por ela que "o serviço de segurança da Presidência desaconselhou a sua ida à favela da Rocinha, mesmo diante do lançamento do microcrédito e da inauguração da farmácia popular". O entrevistado ainda agradeceu à entrevistadora a informação recebida.

Três perguntas e respostas adiante, foi a vez da repórter Tânia Monteiro, do Estado, merecer a gratidão presidencial. Ela queria saber se Lula concordava com o ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, que havia afirmado que o governo não se entende. Do entrevistado, textualmente: "Eu agradeço ficar sabendo pela tua boca e vou perguntar para o Furlan qual é o problema de falta de sintonia que existe".

Pena que não ocorreu a nenhum dos cinco entrevistadores seguintes indagar do presidente da República se ele não lê jornais. Pois tanto a informação do veto da segurança à sua ida à Rocinha quanto a da crítica de Furlan – diante das quais reagiu como se não tivesse idéia prévia de uma coisa e outra – saíram em letra de forma, nos respectivos diários onde trabalham as entrevistadoras.

Não foi à toa que pelo menos meia dúzia de textos dos jornais de sábado se perguntaram por que, diante do que se passou – ou melhor, não se passou – na véspera, Lula tanto tardou a convocar uma coletiva em palácio.

Torcedor de futebol que se preze não só vai ao campo, mas também, voltando para casa, ouve os comentaristas de rádio; no dia seguinte, lê no jornal – se tiver esse costume – tudo sobre o jogo a que assistiu.

No caso da entrevista de Lula, dado que a maioria dos brasileiros nela eventualmente interessada tinha mais o que fazer entre 10h30 de um dia útil, quando a sessão devia começar, e as 12h05, quando terminou, a dependência do que a mídia levasse ao ar naquela noite ou publicasse no dia seguinte não era uma questão de gosto, mas de necessidade.

Escolha discutível

Daí a importância do "tudo sobre" nos jornalões do sábado. Os três grandes concordaram – e deram em manchete – que o essencial da entrevista esteve em Lula dizer que um dos maiores erros do governo foi "a gente ainda não ter feito com que os juros não sejam o único padrão de controle da inflação" (na resposta a Fábio Pannunzio, da TV Bandeirantes).

Embora unânime, a escolha é discutível. Porque, ao ser perguntado pela entrevistadora seguinte (Cristiane Jungblut, do Globo) no que mais o governo poderia estar pensando para segurar os preços, primeiro Lula tirou o corpo, citando o falecido Ulysses Guimarães: "Nem tudo o que você pode fazer na economia você pode avisar antes, porque se avisar não faz". Depois, gastou 852 palavras para garantir que não irá fazer "como já foi feito neste país", ou seja, "uma pirotecnia", e sim "com o melhor senso possível".

Somado à "total confiança" que disse ter em relação ao ministro Antonio Palocci – "somos unha e carne", comparou, em outra resposta –, as garantias reiteradas por Lula talvez devessem ter prevalecido nos títulos de primeira página sobre os tais "outros instrumentos" antiinflacionários.

Pois o sumo dessa entrevista banhada em política econômica é que, para o bem ou para o mal, vem aí mais do mesmo. Na política monetária (juros altos) e na política fiscal (robustos superávits primários).

O editorial do Globo, embora sustentando que o ponto alto da entrevista foi o reconhecimento de que debelar a alta dos preços não é problema apenas no Banco Central, pegou direito o espírito da coisa: "(…) afastar temores, restabelecer confianças, foi o que Lula conseguiu ontem, ao reafirmar princípios estratégicos da política econômica e proteger a política econômica do movimento político de pressão contra ela que vinha ganhando força nas últimas semanas (…). Se alguém tinha dúvidas, deixou de tê-las ontem pela manhã".

Pior do que gafe

O Estado disse quase o mesmo. Depois da "apaixonada convicção" com que Lula defendeu Palocci, conclui o seu editorial, "será perda de tempo duvidar da solidez da posição do ministro – e da aversão de Lula ao aventureirismo em política econômica".

Globo, Estado e Folha registraram o abismo entre o Lula da entrevista e o Lula dos improvisos. "O presidente", beliscou a Folha, "não precisa dessa modalidade de contato com a imprensa para incorrer em gafes".

Mas a imprensa, nessa modalidade de contato com o presidente, precisa ser mais contundente e menos amável – o que é pior do que uma gafe.

[Texto fechado às 17h55 de 2/5]


5º BLOCO

Veja o que disseram os convidados após o programa:

Rio de Janeiro:

Haroldo de Andrade – Comunicador e jornalista
"No gênero, nunca vi coisa que tivesse a grandeza do programa que acabamos de fazer e com certeza programas melhores virão."


PERGUNTAS

E-mails recebidos na semana de 03/05 a 10/05:

Clara, Porto Alegre / RS
Sou ouvinte de rádio desde que me conheço por gente, sempre foi e será o companheiro de todas as horas. Onde ouço boa música, informação, claro que não é em todas as emissoras. Gosto de rádio. Ouvi muitas novelas que mais tarde foram exibidas na televisão. É o companheiro de muitos trabalhadores, porque as notícias chegam primeiro. Por tudo isso o rádio nunca perderá o seu lugar nos lares brasileiros. Boa noite.

Luciana Flavia, Arapiraca / AL
Como o sr. qualifica os processos de interiorização do rádio e de formação de grandes redes via satélite?

Paulo Madureira, Rio de Janeiro
Parabéns pelos 7 anos de programa! Gostaria de saber do Haroldo de Andrade qual é a opinião dele sobre a "nacionalização" das programações, já que uma das características do rádio é o regionalismo.

Lincoln Brasil Martins Pereira, São José dos Campos / SP
Gostaria de saber dos profissionais de rádio aí presentes o que eles têm a dizer da triste situação das rádios AM, no Brasil, depois se serem "sufocadas" pelo advento das FMs. E o rádio digital? Será que "pega" no Brasil? Que fim levou a Rádio Relógio do Rio de Janeiro? Ela era única!

Fábio
Aqui no Piauí, o radiojornalismo só é forte no esporte. É essa a realidade do Brasil? O esporte é a força do rádio?

Paulo Victor Palmeira, Rio de Janeiro
Dá-lhe Observatório! Parabéns pelo aniversário de sete anos no ar e, também, pela expansão rumo às ondas do rádio. Sou espectador do programa desde 98, quando praticamente começava meu curso de jornalismo, iniciado em 1997. Em função de problemas particulares, eu tranquei a faculdade algum tempo depois. No entanto, continuo interessado em acompanhar os debates sobre o trabalho da imprensa, bem como seu universo, daí a importância do Observatório da Imprensa. Espero que, em breve, também possa ouvi-los, agora diariamente, na Rádio MEC (Rio). Mais uma vez, congratulações à toda a equipe e obrigado pelo cuidado na elaboração e apresentação do programa que vocês exibem. Como resultado, estão colhendo, além da audiência, que espero ser crescente, o respeito dos profissionais da comunicação.


Telefonemas recebidos em 03/05:

Luís Silva, São Pedro / MG
Qual a situação dos profissionais que trabalham nas rádios comunitárias, já que estes não têm carteira assinada e não são homologados pelo goveno?

Georgina Santos, Rio de Janeiro
Ouvi o seu programa durante dez anos, dos 16 aos 26 anos de idade, sinto falta de você no rádio. Por que Haroldo de Andrade não volta?

Vagno Ualberto Pereira, Salvador / BA
Quais são as principais diferenças hoje do rádio para a TV?

Tércio Saccol, Porto Alegre
Sou radialista e o programa está excelente, as matérias muito bem feitas.

Marcos Roberto, Monte Aprazível / SP
Haroldo de Andrade, o que você acha dessa grande aproximação das rádios comunitárias com o público ouvinte?

Cládio Faustino, Campinas / SP
Não é uma incoerência o valor que o rádio recebe da publicidade, já que é um formador de opinião? Qual o futuro do rádio AM?

Ubirajara Coelho, Salvador / BA
A segmentação das rádios principalmente com ênfase nos setores populares e religiosos não fecha o mercado para programas mais culturais?

Sérgio Hirle, Belo Horizonte / MG
Como você lida, no seu trabalho com radialista, com o repórter e a assessoria de imprensa para chegar na fonte?

Evandro Luís, Lorena / SP
Você acha que as retransmissoras das grandes redes como Transamérica e Jovem Pan são nocivas para os profissionais do rádio que perdem espaço no mercado?

Marcos Vinícius, Rio de Janeiro
Por que realmente o Haroldo de Andrade saiu da Rádio Globo?

Paulo Isaías, Pelotas / RS
O que acha da crescente participação das rádios comunitárias no dial?

Cícero Adriano, Catalão / GO
O que o rádio pode trazer de diferencial em relação a outros meios como a televisão e a internet?

Edson Souza, Aracajú / SE
O que você acha do crescimento das rádios evangélicas?

Paulo Henrique, Parnaíba / PI
O que você acha da evolução das rádios comunitárias?

José Lopes, Cariacica / ES
O jeito como o senhor saiu da Rádio Globo foi uma facada nas costas, você merecia um melhor tratamento?

Angélica Pinheiro Santana, São Paulo
Quais são as principais diferenças das antigas emissoras de rádio para as novas?

André Soares, Nova Iguaçu / RJ
Como uma rádio comunitária pode crescer e se tornar mais ouvida?

José Pedro Moraes, Novo Horizonte / SP
Por que acabou o projeto "Minerva"?

Gláucio Nascimento Álvares, São Gonçalo / RJ
O senhor se aposentou ou tem algum projeto para rádio? Qual foi o motivo da sua saída da Rádio Globo?

Ruy Fulgêncio, Belo Horizonte / MG
O que profissionais experientes como o senhor podem acrescentar a essa nova era do rádio marcada pelas novas tecnologias?



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