RESUMO DO PROGRAMA
RÁDIO
O
Observatório da Imprensa do dia 03 de maio comemorou 7 anos no ar traçando
um panorama atual do rádio no país. Humor, futebol, prestação de
serviço, jornalismo, todas as vertentes do veículo, que possui cerca
de noventa e cinco milhões de ouvintes, foram apresentadas neste
programa especial.
Em nosso
estúdio, no Rio de Janeiro, esteve o radialista e jornalista Haroldo de
Andrade.
Em seu
editorial Alberto Dines disse que "hoje o rádio está na
vanguarda, é a palavra de ordem, sobretudo porque o rádio hoje está
acoplado às novas tecnologias da informação".
Sobre as
rádios do interior, Haroldo de Andrade disse: "Eu não concordo
com emissoras de grandes capitais, como Rio de São Paulo, transmitindo
para o interior. Isso impede, com muito vigor, que figuras da própria
cidade, do próprio município ganhem projeção".
Em
seguida acrescentou: "Hoje o rádio é prestação de serviço. Eu
tenho orgulho de ser radialista, muito orgulho. Eu sei que posso ser útil
as pessoas, que o rádio com sua prestação de serviços pode ser útil
e eu fui um dos líderes disso (....) Eu acho que o rádio de hoje
trabalha mal, perdendo todos os grandes anunciantes, o rádio vive do
comércio e o comércio não atravessa uma fase das mais satisfatórias".
Com uma
experiência de 57 anos de profissão, Haroldo de Andrade falou do
momento atual das rádios no país: "Outro pecado que o rádio
cometeu foi não se renovar e não se renovando, não fazendo dos
profissionais consagrados verdadeiros mestres, os jovens procuram seguir
para a televisão, que é um veículo mais moderno, mais completo. E
para dirigir emissoras de rádio, radialistas, já que nós temos um número
absurdo de políticos que apenas usam o rádio, além do grande número
de emissoras religiosas".
Ainda em
Curitiba, no início de sua carreira, Haroldo de Andrade cometeu sua
maior gafe, ele nos contou: "Eu dei a mensagem comercial da Casa
Tiradentes e entrei na notícia final, procedente de Roma, dizendo que
havia sido descoberta a correspondência de Mussolini e Clara Petacci.
Como eu havia acabado de falar de preço de calça em um anúncio,
joguei no ar o seguinte: Foi descoberta a grande correspondência íntima
entre Mussolini e Clara Petacci, divulga-se que o dutche guardava com
muito amor e carinho as calças de Clarita Petacci".
Tiago Chediak (estagiário)
EDITORIAL
Bem-vindos
ao Observatório da Imprensa.
Voltamos à
era do rádio: há uma década falar sobre o rádio significava um
mergulho no passado, exercício de nostalgia. Hoje, o rádio está na
vanguarda, é a palavra de ordem, sobretudo porque o rádio hoje está
acoplado às novas tecnologias da informação. É a modernidade. É a
democratização da informação num país com as nossas dimensões e
exclusões.
Justamente
por isso escolhemos o rádio para comemorar os nossos aniversários.
Sim, aniversários – não fazemos por menos: há nove anos, em fins de
abril de 1996, começamos o nosso site. E no dia cinco de maio de 98,
portanto, há sete anos, iniciamos as emissões semanais deste
Observatório da Imprensa pela televisão aqui na Tv Educativa no Rio de
Janeiro.
O
rádio entra nesta história intencionalmente: amanhã, quarta-feira,
vamos tentar nos engajar na nova era do rádio com um programa diário
na Rádio Cultura-FM de São Paulo, que poderá ser ouvido
simultaneamente em nosso site de segunda à sexta, às nove da manhã e
depois em qualquer horário. E o que é melhor, muito em breve a Rádio
MEC FM, do Rio, também vai transmitir o programa.
Este
Observatório passa a ser efetivamente multimeios, passa a ser
efetivamente nacional e efetivamente público porque reúne um
empreendimento do terceiro setor - o instituto Projor, uma empresa
federal - a proprietária da TVE Brasil e da Rádio MEC e uma entidade
estadual - a Fundação Padre Anchieta, detentora da TV e da Rádio
Cultura.
Olhamos
para o futuro mas não podemos esquecer de prestar contas a você
telespectador que nos privilegiou com a sua atenção. Nestes sete anos
quase ininterruptos fizemos 325 edições semanais quase sempre ao vivo.
Trouxemos a estes estúdios 725 debatedores e gravamos entrevistas com
1283 especialistas. A participação do cidadão-telespectador foi
impressionante: recebemos 6800 telefonemas e 3200 emails. Estamos na
rede aberta de tv em 23 dos 27 estados e na tv por assinatura em todas
as unidades da federação.
Mas
infelizmente nesta edição festiva somos obrigados a encarar as duras
realidades da imprensa brasileira: hoje, dia mundial da liberdade de
expressão, nenhum veículo lembrou-se da inédita sentença divulgada
há quatro dias que condena à prisão domiciliar ao longo de 18 meses o
jornalista Jorge Kajuru. É a primeira vez que um jornalista será preso
desde o fim da ditadura. O mais patético é que o autor da ação que
culminou com a drástica sentença, é um dono de jornal, "O
Popular" de Goiânia. Vamos ingressar no Guiness, o livro dos
recordes, pela porta dos fundos. Voltaremos ao assunto.
ARTIGO
Por Alberto Dines
PROEZA DA MÍDIA BRASILEIRA
Dono de jornal manda prender jornalista
Alberto Dines
O único jornal que registrou
devidamente a condenação do jornalista Jorge Kajuru a 18 meses de
detenção foi a Folha de S.Paulo (sexta 29/4, primeira página).
Ao que consta é a primeira prisão de um jornalista no Brasil desde o
fim da ditadura.
A Associação Nacional dos Jornais terá
mais um motivo para acionar suas poderosas baterias e repudiar a nova
violência cometida contra a liberdade de expressão no Brasil junto à
mídia e entidades internacionais.
Dificilmente o fará. Simplesmente
porque a ANJ não irá condenar um dos seus mais eminentes associados,
autor da ação contra Kajuru. Trata-se de Jaime Câmara Jr., presidente
das Organizações Jaime Câmara, grupo empresarial que edita um dos
mais importantes diários da região central – O Popular, de Goiânia,
com larga penetração em Brasília –, e controla um poderoso
conglomerado de jornais, rádios e emissoras de TV nos estados de Goiás
e Tocantins.
Esta patética ambigüidade da entidade
máxima da indústria da comunicação impressa amorteceu a repercussão
da sentença proferida pelo tribunal goiano. A Folha furou a
cortina de silêncio graças à manobra de classificar a autora da ação
contra Kajuru como "afiliada da Globo", e assim conseguiu
evitar um confronto contra uma associação empresarial que tanto
prestigia. Ocorre que as Organizações Jaime Câmara, antes de fazerem
parte da Rede Globo, são proprietárias desde 1938 do Popular,
um dos mais importantes diários regionais do país.
Cúmplice silenciosa
Tudo indica que o empresariado da mídia
brasileira engolirá esta violência contra um jornalista da mesma forma
plácida com que engoliu outras violações que favorecem os seus
interesses. Exemplo recente: o virtual desmantelamento do Conselho de
Comunicação Social, com a imposição do nome do "imortal"
lobista Arnaldo Niskier para presidi-lo, passou em brancas nuvens porque
desde a Constituinte o empresariado não mede esforços para emascular
este órgão auxiliar do Congresso, considerado como alavanca do
processo de regulamentação dos meios de comunicação social.
Jorge Kajuru – que a Folha
insiste em designar como radialista embora seja colaborador habitual da
sua editoria de Esportes – é o bode expiatório de uma imprensa
formalmente corajosa, fingidamente independente e evidentemente cúmplice
daqueles que querem dominá-la.
Em plena vigência do regime democrático,
na qualidade de impassível testemunha e silenciosa cúmplice, a mídia
brasileira assiste à incrível proeza de um dono de jornal que manda
prender um jornalista.
***
Em tempo: Durante o IV Encontro
Regional sobre Liberdade de Imprensa, iniciativa da ANJ e da Organização
das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco),
realizado na segunda-feira (2/5), no Rio, para promover a Rede de Defesa
da Liberdade de Imprensa, a entidade patronal divulgou uma nota "em
defesa da liberdade de imprensa na Venezuela". Embora ocorrido
sob seus olhos, o episódio Kajuru não mereceu mínima menção dos
paladinos da "liberdade de imprensa". Como era de se esperar.
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET
A COLETIVA DO PRESIDENTE
Mídia pega leve e Lula dá olé
Luiz Weis
É de não acreditar. Só depois que
terminou a primeira coletiva formal do presidente Lula, na sexta-feira,
29, quando ele já se retirava do Salão Oeste (ou Leste, conforme o
jornal que se leia) do Palácio do Planalto, uma repórter lhe fez a única
pergunta que não poderia ter deixado de ser feita nos 79 minutos (ou
80, ou 115, conforme o jornal) da entrevista que ele levou 850 dias (ou
849, conforme o jornal) para dar.
Afinal, três dias antes (conforme
todos os jornais), Lula tinha dito que o povo, em vez de ficar
reclamando dos juros, devia "levantar o traseiro" e ir atrás
de crédito mais barato, mesmo porque, segundo ele, hoje em dia se pode
abrir e fechar conta em banco pelo computador.
Mas nenhum dos 14 entrevistadores tomou
a iniciativa de interpelá-lo sobre a expressão que se distingue de
todas as impropriedades já proferidas pelo loquaz presidente nestes 28
meses de governo, por ter ofendido os sentimentos de muitos brasileiros,
a julgar pelo aluvião de mensagens de protesto enviados à mídia –
um fato sem precedentes, em se tratando de alguma fala de Lula.
"O senhor acha mesmo que se o
brasileiro levantar o traseiro os juros vão baixar", perguntou a
repórter, ao que o presidente devolveu, com reduza: "Responda você."
A rigor, pode-se argumentar que a
pergunta certa seria outra: não propriamente sobre a relação entre o
estado do traseiro e o custo do dinheiro, mas sobre a reação indignada
dos que se sentiram ofendidos pela forma com que o chefe do governo os
culpou pelos juros extorsivos do cheque especial e do cartão de crédito.
Será que o presidente, com todo o
respeito, não achava que era o caso de pedir desculpas aos brasileiros
feridos no seu amor-próprio?, podia-se indagar dele. Mas, assado ou
assim, o traseiro tinha que aparecer na entrevista, quantas e quaisquer
que fossem as perguntas sobre o problema objetivo da política monetária
e da ganhança dos bancos.
A ausência daquela palavra pode não
ter preenchido uma lacuna, como seria o caso de dizer se se quisesse
fazer sarcasmo, mas representa o ponto extremo da falta de combatividade
– no sentido jornalístico, bem entendido – dos participantes da
entrevista que entrou para a história da presidência Lula apenas
porque "sempre tem uma primeira vez", como ele chegou dizendo.
Meia mordaça
Pegar na veia de Lula, em vez de pegar
leve nele, era ainda mais necessário por causa do pecado original do
formato da entrevista – a proibição da réplica (embora transgredida
sem maiores conseqüências por três perguntadores).
Essa meia mordaça, a impossibilidade
de o autor da pergunta contestar de bate-pronto o que acabou de ouvir,
permitiu a um político reconhecidamente bom de boca – apesar da
"quase-lógica" de suas falas improvisadas, no dizer de uma
pesquisadora – dar um olé.
"Excelente desempenho",
elogiou pouco depois na edição online da Folha de S.Paulo o colunista
Kennedy Alencar. No dia seguinte, o insuspeitíssimo O Estado de S.Paulo,
embora ressaltasse que "um chefe de governo precisa ser muito
incompetente para sair derrotado de tais situações", intitulou o
seu editorial a respeito "O melhor do presidente".
Segundo a unanimidade dos relatos e o
que mostrou a TV, o entrevistado acusou o golpe apenas uma vez, quando o
repórter Roberto Maltchik, da Rádio Gaúcha, representando também as
oito outras emissoras credenciadas no Planalto, perguntou se ele dorme
bem com "a realidade da população brasileira" que tinha sido
eleito "com a tarefa de melhorar".
Mas o desconforto durou pouco. Em
instantes Lula se refez do que talvez considerasse, no íntimo, uma
provocação – e saiu declamando em 757 palavras o que o faz dormir
"o sono dos justos todo santo dia": melhorias no emprego, no
salário mínimo, nas matriculas universitárias, no comércio exterior,
na relação com o FMI, nos programas sociais… E encaçapou: "É
para isso que eu trabalho, meu querido".
Meia-verdade
Nessas horas é que a limitação do
direito de pergunta do entrevistador mostra quanto vale. Pois mesmo que
tivesse vindo para a entrevista com a lição na ponta da língua, só
quebrando o protocolo o jornalista poderia contrapor ao presidente números
como os que apareceriam no sábado na melhor matéria da imprensa sobre
as suas incorreções – "Lula utiliza dado errado para defender o
mínimo", de Gustavo Patu, da Folha de S.Paulo.
O texto demonstra por que não fica em
pé a afirmação de Lula de que "o Brasil vive hoje, talvez, um
dos seus melhores momentos no que diz respeito ao salário mínimo".
Já o Globo, em matéria não assinada, destacou a "meia-verdade"
de Lula sobre a queda do déficit da Previdência. (Caiu em março sobre
fevereiro, mas subiu na comparação com o primeiro trimestre de 2004.)
Ainda no Globo, o leitor Charles Marcel
Paixão Milner flagrou a contradição de Lula que, segundos depois de
dizer que o governo erra "muito", saiu-se com um "é difícil
reconhecer um erro num governo que acerta tanto".
Com a regra do jogo francamente favorável
ao presidente, os seus mais de 20 anos de janela ao microfone, os
conselhos do seu personal trainer de mídia Duda Mendonça, podia-se
passar perfeitamente bem sem o que a colunista Dora Kramer chamou de
"reverência e, em alguns momentos, franca amabilidade dos
entrevistadores". De fato, faltou clima para as "cobranças
mais fortes" que seriam de desejar.
"É difícil dizer qual dos dois
lados se mostrou mais frustrante", criticou Janio de Freitas, na
Folha. Páginas adiante, o colunista de mídia Nelson de Sá observou
que "os correspondentes palacianos sorriam ou riam à solta e
erguiam perguntas que deixavam Lula mais e mais simpático". No
Globo, o comentarista político Merval Pereira concluiu: "A
entrevista não doeu". E a sua homóloga de economia Míriam Leitão
atacou o "quase monólogo".
Respostas "pirotécnicas"
A atitude do reportariado é uma parte
do problema. Outra foi o predomínio de perguntas sobre assuntos econômicos
– 8 em 17 (incluindo as réplicas e as duplas contrabandeadas). Falar
de economia quem sabe fosse tudo que Lula quisesse. Pelo menos o assunto
rendeu as respostas mais extensas e, diria a oposição, mais
"pirotécnicas".
É verdade que a economia está no
centro das atenções, mesmo da mídia não especializada. Basta ver a
freqüência com que o tema e suas variações estão nas manchetes da
grande imprensa. É verdade ainda que, dado o ineditismo do encontro,
como escreveu o colunista Fernando Rodrigues, da Folha, "seria
impossível sabatinar o presidente sobre todos os temas relevantes da
República em pouco mais de uma hora", numa entrevista que
"tinha ares de algo excepcional".
Mas que ficaram faltando as perguntas
presumivelmente mais incômodas para o presidente, isso também é
verdade.
A começar daquela que o colunista
Janio de Freitas apontou, na mosca: "Presidente, por que, afinal de
contas, dois anos e quatro meses para dar uma entrevista coletiva(…)?
O que houve ou há que o presidente Lula sentiu a necessidade de não se
ver perguntado?"
Para a maioria dos analistas políticos,
seja lá "o que houve ou há", a decisão de começar a dar
entrevistas – Lula deu a entender que virão outras, não
necessariamente em Brasília – se explica pela aproximação do ano
eleitoral. E, de fato, Lula ganhou o dia. No sábado, os três
principais jornais deram ao acontecimento um total de 49 títulos
(incluindo editoriais e colunas assinadas), espalhados por 22 páginas.
Mas também se fartaram de relacionar o
que se deixou de perguntar: o fracasso da reforma ministerial tida como
essencial para a "governabilidade", as atividades do ministro
José Dirceu como "chanceler paralelo" (expressão do Estado
no domingo), a sua rivalidade com o aliado Aldo Rebelo na coordenação
política do governo, a pobreza da agenda legislativa do Planalto e a inédita
perda de controle do Executivo sobre a pauta da Câmara, o excesso de
medidas provisórias que a travam, a carga tributária e a derrota do
governo na MP dos impostos…
Este leitor acrescentaria outra
pergunta – além, naturalmente, daquela do traseiro.
Lula lê jornal?
Em dado momento da entrevista, o
presidente Lula disse à repórter Renata Giraldi, de O Dia, que estava
surpreso ao saber por ela que "o serviço de segurança da Presidência
desaconselhou a sua ida à favela da Rocinha, mesmo diante do lançamento
do microcrédito e da inauguração da farmácia popular". O
entrevistado ainda agradeceu à entrevistadora a informação recebida.
Três perguntas e respostas adiante,
foi a vez da repórter Tânia Monteiro, do Estado, merecer a gratidão
presidencial. Ela queria saber se Lula concordava com o ministro do
Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, que havia afirmado que o governo
não se entende. Do entrevistado, textualmente: "Eu agradeço ficar
sabendo pela tua boca e vou perguntar para o Furlan qual é o problema
de falta de sintonia que existe".
Pena que não ocorreu a nenhum dos
cinco entrevistadores seguintes indagar do presidente da República se
ele não lê jornais. Pois tanto a informação do veto da segurança à
sua ida à Rocinha quanto a da crítica de Furlan – diante das quais
reagiu como se não tivesse idéia prévia de uma coisa e outra – saíram
em letra de forma, nos respectivos diários onde trabalham as
entrevistadoras.
Não foi à toa que pelo menos meia dúzia
de textos dos jornais de sábado se perguntaram por que, diante do que
se passou – ou melhor, não se passou – na véspera, Lula tanto
tardou a convocar uma coletiva em palácio.
Torcedor de futebol que se preze não só
vai ao campo, mas também, voltando para casa, ouve os comentaristas de
rádio; no dia seguinte, lê no jornal – se tiver esse costume –
tudo sobre o jogo a que assistiu.
No caso da entrevista de Lula, dado que
a maioria dos brasileiros nela eventualmente interessada tinha mais o
que fazer entre 10h30 de um dia útil, quando a sessão devia começar,
e as 12h05, quando terminou, a dependência do que a mídia levasse ao
ar naquela noite ou publicasse no dia seguinte não era uma questão de
gosto, mas de necessidade.
Escolha discutível
Daí a importância do "tudo
sobre" nos jornalões do sábado. Os três grandes concordaram –
e deram em manchete – que o essencial da entrevista esteve em Lula
dizer que um dos maiores erros do governo foi "a gente ainda não
ter feito com que os juros não sejam o único padrão de controle da
inflação" (na resposta a Fábio Pannunzio, da TV Bandeirantes).
Embora unânime, a escolha é discutível.
Porque, ao ser perguntado pela entrevistadora seguinte (Cristiane
Jungblut, do Globo) no que mais o governo poderia estar pensando para
segurar os preços, primeiro Lula tirou o corpo, citando o falecido
Ulysses Guimarães: "Nem tudo o que você pode fazer na economia
você pode avisar antes, porque se avisar não faz". Depois, gastou
852 palavras para garantir que não irá fazer "como já foi feito
neste país", ou seja, "uma pirotecnia", e sim "com
o melhor senso possível".
Somado à "total confiança"
que disse ter em relação ao ministro Antonio Palocci – "somos
unha e carne", comparou, em outra resposta –, as garantias
reiteradas por Lula talvez devessem ter prevalecido nos títulos de
primeira página sobre os tais "outros instrumentos"
antiinflacionários.
Pois o sumo dessa entrevista banhada em
política econômica é que, para o bem ou para o mal, vem aí mais do
mesmo. Na política monetária (juros altos) e na política fiscal
(robustos superávits primários).
O editorial do Globo, embora
sustentando que o ponto alto da entrevista foi o reconhecimento de que
debelar a alta dos preços não é problema apenas no Banco Central,
pegou direito o espírito da coisa: "(…) afastar temores,
restabelecer confianças, foi o que Lula conseguiu ontem, ao reafirmar
princípios estratégicos da política econômica e proteger a política
econômica do movimento político de pressão contra ela que vinha
ganhando força nas últimas semanas (…). Se alguém tinha dúvidas,
deixou de tê-las ontem pela manhã".
Pior do que gafe
O Estado disse quase o mesmo. Depois da
"apaixonada convicção" com que Lula defendeu Palocci,
conclui o seu editorial, "será perda de tempo duvidar da solidez
da posição do ministro – e da aversão de Lula ao aventureirismo em
política econômica".
Globo, Estado e Folha registraram o
abismo entre o Lula da entrevista e o Lula dos improvisos. "O
presidente", beliscou a Folha, "não precisa dessa modalidade
de contato com a imprensa para incorrer em gafes".
Mas a imprensa, nessa modalidade de
contato com o presidente, precisa ser mais contundente e menos amável
– o que é pior do que uma gafe.
[Texto fechado às 17h55 de 2/5]
5º BLOCO
Veja o que disseram os
convidados após o programa:
Rio de
Janeiro:
Haroldo
de Andrade – Comunicador e jornalista
"No gênero, nunca vi coisa que tivesse a grandeza do programa que
acabamos de fazer e com certeza programas melhores virão."
PERGUNTAS
E-mails recebidos na
semana de 03/05 a 10/05:
Clara, Porto Alegre / RS
Sou ouvinte de rádio desde que me conheço por gente, sempre foi e
será o companheiro de todas as horas. Onde ouço boa música,
informação, claro que não é em todas as emissoras. Gosto de rádio.
Ouvi muitas novelas que mais tarde foram exibidas na televisão. É o
companheiro de muitos trabalhadores, porque as notícias chegam
primeiro. Por tudo isso o rádio nunca perderá o seu lugar nos lares
brasileiros. Boa noite.
Luciana Flavia, Arapiraca / AL
Como o sr. qualifica os processos de interiorização do rádio e de
formação de grandes redes via satélite?
Paulo Madureira, Rio de Janeiro
Parabéns pelos 7 anos de programa! Gostaria de saber do Haroldo de
Andrade qual é a opinião dele sobre a "nacionalização" das
programações, já que uma das características do rádio é o
regionalismo.
Lincoln Brasil Martins Pereira, São
José dos Campos / SP
Gostaria de saber dos profissionais de rádio aí presentes o que eles
têm a dizer da triste situação das rádios AM, no Brasil, depois se
serem "sufocadas" pelo advento das FMs. E o rádio digital?
Será que "pega" no Brasil? Que fim levou a Rádio Relógio do
Rio de Janeiro? Ela era única!
Fábio
Aqui no Piauí, o radiojornalismo só é forte no esporte. É essa a
realidade do Brasil? O esporte é a força do rádio?
Paulo Victor Palmeira, Rio de
Janeiro
Dá-lhe Observatório! Parabéns pelo aniversário de sete anos no ar e,
também, pela expansão rumo às ondas do rádio. Sou espectador do
programa desde 98, quando praticamente começava meu curso de
jornalismo, iniciado em 1997. Em função de problemas particulares, eu
tranquei a faculdade algum tempo depois. No entanto, continuo
interessado em acompanhar os debates sobre o trabalho da imprensa, bem
como seu universo, daí a importância do Observatório da Imprensa.
Espero que, em breve, também possa ouvi-los, agora diariamente, na
Rádio MEC (Rio). Mais uma vez, congratulações à toda a equipe e
obrigado pelo cuidado na elaboração e apresentação do programa que
vocês exibem. Como resultado, estão colhendo, além da audiência, que
espero ser crescente, o respeito dos profissionais da comunicação.
Telefonemas recebidos em 03/05:
Luís Silva, São Pedro / MG
Qual a situação dos profissionais que trabalham nas rádios
comunitárias, já que estes não têm carteira assinada e não são
homologados pelo goveno?
Georgina Santos, Rio de Janeiro
Ouvi o seu programa durante dez anos, dos 16 aos 26 anos de idade, sinto
falta de você no rádio. Por que Haroldo de Andrade não volta?
Vagno Ualberto Pereira, Salvador /
BA
Quais são as principais diferenças hoje do rádio para a TV?
Tércio Saccol, Porto Alegre
Sou radialista e o programa está excelente, as matérias muito bem
feitas.
Marcos Roberto, Monte Aprazível /
SP
Haroldo de Andrade, o que você acha dessa grande aproximação das
rádios comunitárias com o público ouvinte?
Cládio Faustino, Campinas / SP
Não é uma incoerência o valor que o rádio recebe da publicidade, já
que é um formador de opinião? Qual o futuro do rádio AM?
Ubirajara Coelho, Salvador / BA
A segmentação das rádios principalmente com ênfase nos setores
populares e religiosos não fecha o mercado para programas mais
culturais?
Sérgio Hirle, Belo Horizonte / MG
Como você lida, no seu trabalho com radialista, com o repórter e a
assessoria de imprensa para chegar na fonte?
Evandro Luís, Lorena / SP
Você acha que as retransmissoras das grandes redes como Transamérica e
Jovem Pan são nocivas para os profissionais do rádio que perdem
espaço no mercado?
Marcos Vinícius, Rio de Janeiro
Por que realmente o Haroldo de Andrade saiu da Rádio Globo?
Paulo Isaías, Pelotas / RS
O que acha da crescente participação das rádios comunitárias no
dial?
Cícero Adriano, Catalão / GO
O que o rádio pode trazer de diferencial em relação a outros meios
como a televisão e a internet?
Edson Souza, Aracajú / SE
O que você acha do crescimento das rádios evangélicas?
Paulo Henrique, Parnaíba / PI
O que você acha da evolução das rádios comunitárias?
José Lopes, Cariacica / ES
O jeito como o senhor saiu da Rádio Globo foi uma facada nas costas,
você merecia um melhor tratamento?
Angélica Pinheiro Santana, São
Paulo
Quais são as principais diferenças das antigas emissoras de rádio
para as novas?
André Soares, Nova Iguaçu / RJ
Como uma rádio comunitária pode crescer e se tornar mais ouvida?
José Pedro Moraes, Novo Horizonte /
SP
Por que acabou o projeto "Minerva"?
Gláucio Nascimento Álvares, São
Gonçalo / RJ
O senhor se aposentou ou tem algum projeto para rádio? Qual foi o
motivo da sua saída da Rádio Globo?
Ruy Fulgêncio, Belo Horizonte / MG
O que profissionais experientes como o senhor podem acrescentar a essa
nova era do rádio marcada pelas novas tecnologias?