PROGRAMA DO DIA 01 de março de 2005

A CRIAÇÃO DE UM NOVO JORNAL

Aproveitando o final da novela "Senhora do Destino" de Aguinaldo Silva, falamos sobre a criação de um novo jornal.

Discutimos se este romantismo pode ser real. Há possibilidades econômicas de se fazer um novo jornal no país? Quais as chances de dar certo? Existe espaço?

Fizemos uma analogia com a novela que reabriu um jornal extinto, o Diário de Notícias. Por que os jornalistas não se arriscam hoje como antigamente? O que mudou?

Contamos também um pouco da história do verdadeiro Diário de Notícias. Um jornal tradicional, ligado a UDN, com páginas dedicadas a assuntos militares e educacionais, que foi importante na derrubada de Getúlio Vargas. O jornal foi criado por Orlando Dantas e depois dirigido por seu filho João Dantas.

Leia o resumo do programa

  Veja o Compacto

DEPOIS DA TV BR, A RTVI
Socorro, o governo com televisite aguda!

Alberto Dines

Como sempre a intenção não poderia ser melhor: a causa da desconcentração da mídia merece todo o empenho. Mas, como sempre, o governo se enroscou na hora da realização. O decreto que criou a RTVI (Retransmissora de TV Institucional) na última quinta-feira (24/2) peca pela improvisação, pela falta de transparência e pela oportunidade.

Leia na íntegra

O sonho de um novo jornal de qualidade é possível no Brasil de hoje?

Resultado:

Sim: 68%

Não: 32%

Aqui você pode participar de fóruns sobre assuntos ligados à imprensa, deixar seu recado no nosso mural e ler as perguntas dos telespectadores.

Perguntas - Aqui são colocadas as perguntas dos telespectadores que chegam por telefone, fax ou e-mail durante o programa e ao longo da semana.

5 Bloco - Leia a opinião dos participantes do programa, sobre o debate.

Editorial:

Bem-vindos ao "Observatório da Imprensa".

Hoje é dia dos campeões de audiência. Um deles foi revelado pela revista "Veja". Alguma nova modalidade de reality-show? Não: este campeão de audiência é veterano, tem mais de 80 anos.


Leia na íntegra

RETRANSMISSORAS DE TV INSTITUCIONAIS
O preconceito anti-Estado

Venício A. de Lima (*)

As democracias liberais constituem, por definição, espaços onde deve haver pluralidade e diversidade de idéias. Nelas convive-se, todavia, com uma contradição importante e ainda não resolvida. Como existe uma instituição – a mídia – que tem o poder de construir a representação social dominante e a agenda pública de discussão, nos debates onde ela tem interesse direto, o adversário (indivíduos, instituições ou o próprio Estado) já começa a disputa em desvantagem.

Leia na íntegra


RESUMO DO PROGRAMA

A CRIAÇÃO DE UM NOVO JORNAL

O Observatório da Imprensa de 1° de março debateu a possibilidade de se criar um novo jornal no Brasil, analisando o mercado atual, suas restrições e oportunidades.

Em editorial, Alberto Dines falou sobre um novo fenômeno que estamos vivenciando, a "segunda era do rádio" com o sucesso de novas programações e do próprio jornalismo. Dines também falou sobre o decreto do Ministério das Comunicações que garantiu espaço a prefeituras em canais de televisão. Dines ressaltou que: "Os noticiários locais poderiam ser transmitidos pelas rádios já existentes, concessões públicas." Comentou ainda o sucesso da novela Senhora do Destino, o maior fenômeno de audiência dos últimos tempos. Acrescentou que: " A novela interessa ao programa não apenas pelos recordes, mas porque um de seus vetores dramáticos relaciona-se com a difícil tarefa de se obter recursos destinados ao relançamento de um jornal de qualidade, o Diário de Notícias."

Participaram do programa, no Rio de Janeiro, o autor e escritor da novela Senhora do Destino, Aguinaldo Silva; em São Paulo, o presidente do Diário Lance!, Walter de Mattos, e em Porto Alegre, o vice-presidente da Rede Pampa, Paulo Sérgio Pinto.

Aguinaldo Silva iniciou o debate falando sobre o novo ingrediente inserido na novela: a criação de um jornal de qualidade. "Estava insatisfeito com a forma romantizada que os jornalistas eram retratados nas novelas." Afirmou ainda: "Sinto falta da criação de um jornal novo, diferente, vibrante, idealista, mais voltado para as grandes reportagens. Procurei passar essa necessidade para a novela."

Indagado sobre a possibilidade de se criar um jornal de qualidade no mercado atual, Walter de Mattos respondeu que: "A mídia brasileira passou por uma crise profunda que afetou muito a qualidade dos produtos. Eu acho que o estímulo para uma empreitada nova dessa não contaria, nesse momento, com investimentos de fora. Você teria que ficar restrito a investidores brasileiros, a um empresário ou ao desdobramento de empresas que já existem. Eu vejo isso como uma possibilidade. Para a criação de um novo diário no Brasil, você precisa de condições específicas e identificar uma oportunidade de mercado."

Paulo Sérgio Pinto, após ser questionado por Dines, sobre a possibilidade do jornalista voltar a desempenhar um papel "romântico", apresentado na novela afirmou que: "Invariavelmente o grande jornalista, aquele que emerge do chão de fábrica, se transforma em colunista. Estes colunistas de hoje ganharam um padrão nacional a até internacional. Essas pessoas saíram de suas aldeias para ganharem um espectro muito mais importante do que nós tínhamos no passado." Já Aguinaldo afirmou: "Os jornais se tornaram mais rotineiros. O que eles passam não é tão forte, tão ideal quanto era naquele tempo. Sinto falta dessa relevância do jornalista dentro da sociedade de uma maneira geral. Eu acho que isso é possível que volte a acontecer sim."

Em seu comentário final, Paulo Sérgio defendeu a idéia de que: "Precisamos concentrar nossas forças nas nossas raízes geradoras de emprego. Não existe jornalista sem jornal. Nós temos que conservar essa instituição."

Já Walter de Mattos disse: "Espero que essa fábula do Aguinaldo inspire a classe dos jornalistas, dos empresários e empreendedores para que a gente tenha um produto novo, um grande jornal de qualidade, nacional."

Aguinaldo conclui dizendo: "Embora eu seja um novelista, todos os elementos das minhas novelas acabam saindo do noticiário e dos jornais, ou seja, é dos jornais que eu tiro as minhas tramas, embora depois elas sejam devidamente camufladas. Mas para que eu continue nesse processo de trabalho, eu preciso continuar lendo jornais e preciso que eles se tornem mais palpitantes. Eu acho que esse é o desejo de todo leitor e é isso que a gente precisa."

Camilla Rizzo (estagiária)


EDITORIAL

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

Hoje é dia dos campeões de audiência. Um deles foi revelado pela revista "Veja". Alguma nova modalidade de reality-show? Não: este campeão de audiência é veterano, tem mais de 80 anos.

Estamos na segunda era do rádio e nem desconfiávamos. O Brasil é o segundo país do mundo no número de emissoras de rádio. Só perdemos para os Estados Unidos. E o tipo de programa mais procurado pelo público depois da música pop nacional é o noticiário local.

Pena que o Ministério das Comunicações não soubesse desta pesquisa citada pela "Veja" ao criar mais uma rede televisiva, a RTVI, Retransmissora de Tv Institucional, destinada ao noticiário municipal. Não seria mais lógico que este noticiário local fosse transmitido pelas rádios já existentes e que são concessões públicas? Há 15 dias criou-se a Tv-Brasil destinada aos países vizinhos, na semana passada esta RTVI. Alguém parece ligadão na telinha.

O Brasil inteiro está em suspenso, Brasília aguarda com ansiedade o desfecho de alguns dilemas cruciais e no rol das figuras mais controversas e engraçadas - mais ainda do que Severino Cavalcanti, o novo presidente da Câmara Federal - desponta imbatível o ex-bicheiro, Giovani Improta. Ele é um dos pivôs de "Senhora do Destino", a novela das oito com a maior audiência de todos os tempos: na média são 45 milhões de telespectadores e em alguns momentos já chegou a manter 80 de cada 100 televisores sintonizados na Rede Globo, cifras que certamente aumentarão nos próximos dias à medida que se aproxima o final da novela.

O fenômeno interessa a este "Observatório da Imprensa" não apenas pelos recordes mas porque um dos seus vetores dramáticos relaciona-se com a complicada operação para obter recursos destinados ao relançamento de um jornal de qualidade, o "Diário de Notícias".

Todas as noites, um quarto da população do Brasil vai dormir aflita com o castigo que será imposto à vilã Nazaré ou angustia-se com a escolha que Maria do Carmo fará entre os seus dois pretendentes. Mas no meio de tantas angústias e aflições, gente que não costuma comprar jornal, ou compra muito raramente, de repente descobre que na busca da felicidade, um jornal de qualidade pode fazer a diferença. O "Diário de Notícias" será bem sucedido? Isso só o autor, Aguinaldo Silva, poderá responder.


ARTIGO
Por Alberto Dines

DEPOIS DA TV BR, A RTVI
Socorro, o governo com televisite aguda!

Alberto Dines

Como sempre a intenção não poderia ser melhor: a causa da desconcentração da mídia merece todo o empenho. Mas, como sempre, o governo se enroscou na hora da realização. O decreto que criou a RTVI (Retransmissora de TV Institucional) na última quinta-feira (24/2) peca pela improvisação, pela falta de transparência e pela oportunidade.

Duas semanas antes, no dia 10, o governo criou o canal TV Brasil para permitir que o Estado brasileiro (leia-se as emissoras de TV dos três poderes) comunique-se com os países vizinhos [abaixo, remissões para os artigos "Idéia infeliz, arrazoado pior" e "Uma nova alternativa no ar?"].

Agora, com a RTVI, pretende oferecer à maioria das prefeituras do país a possibilidade de criar um canal de TV local para a "divulgação das atividades do Poder Executivo do Município".

Não é coincidência, trata-se de uma indisfarçável febre televisiva. E como todas as febres, sintoma de alguma disfunção. Não é difícil diagnosticá-la: o início da temporada eleitoral.

Se o governo pretende efetivamente oferecer aos municípios uma cobertura televisiva isenta não precisa recorrer a uma intervenção com todas as aparências de recurso político-eleitoral. Para obter efeito maior e, sobretudo, duradouro, bastaria que, por meio do Ministério das Comunicações, acabasse com as gritantes irregularidades na concessão de canais de rádio e TV – a aberração genética do sistema midiático brasileiro implantada pelo então presidente da República, José Sarney.

Começam na distribuição e renovação dos canais os dois maiores problemas informativos brasileiros: a concentração da mídia em poucas empresas e o controle do noticiário local.

Fiscalização relapsa

Quem examinar o funcionamento do rádio e da TV no Pará, por exemplo, entenderá por que razão o vulcão em ebulição na Terra do Meio só foi revelado depois da morte da missionária Dorothy Stang.

Se o objetivo do governo é democratizar a informação e intensificar a diversidade de opiniões, o caminho será bem diferente do sistema RTVI. Em primeiro lugar, porque a RTVI não funcionará em canais abertos, mas no sistema restrito de TV por assinatura. Em segundo lugar, porque em vez do controle das redes abertas locais pelos deputados e caciques políticos, teremos os prefeitos, geralmente ungidos pelas oligarquias locais, transformados em diligentes produtores de TV.

Quem impedirá que esses burgomestres-âncoras de TV usem os seus canais para perseguir a oposição?

Se o Ministério das Comunicações (eminentemente político-partidário) tem sido visivelmente relapso no controle das concessões do sistema aberto de rádio e TV, se o Ministério da Justiça (teoricamente o braço forte do governo) treme de medo diante do poder dos políticos-concessionários e não consegue impor a adequação de horários na programação da rede aberta de TV, como esperar que o governo vá enfiar-se nos grotões para impedir desmandos dos prefeitos ou seus grupos políticos?

Febre suspeita

É evidente que os lobbies das televisões privadas não gostaram da RTVI, mas isso não significa que o governo está certo ao criá-la. Os lobbies privados estão apenas interessados em saciar os respectivos apetites, despojados de qualquer interesse público.

Espernearam quando o governo do presidente Lula (dando seqüência, à política do ex-ministro da Justiça José Gregori) resolveu enquadrar emissoras de TV que exibiam programação indevida no horário vespertino. O funcionário do Ministério da Justiça foi afastado em pouco mais de 24 horas depois de publicado o ato no Diário Oficial diante da formidável pressão exercida pelos deputados-concessionários (a maioria evangélica, do PL) [veja abaixo remissão para o texto "A TV como campo de batalha"].

Se o governo deseja efetivamente democratizar a mídia local no Brasil, e oxigenar a informação que nela circula, precisará de uma dose extra de coragem para, primeiro, desafiar o conglomerado de interesses político-privados que deformam a informação eletrônica e, depois, enfrentar cerca de 30% dos parlamentares federais que direta ou indiretamente detêm concessões de radiodifusão.

Depois da fragorosa derrota na Câmara dos Deputados e da eleição do rei do fisiologismo, Severino Cavalcanti, para presidi-la, difícil imaginar que o governo do presidente Lula disponha-se a enfrentar o lobby dos parlamentares-concessionários.

Preferiu deixá-los sossegados e encomendou ao seu laboratório de legiferação um decretinho sob medida. Dele acaba de sair um arremedo de solução, a RTVI. Deveria pedir ao mesmo laboratório um remédio para debelar a furiosa febre que 20 meses antes das eleições parece muito suspeita: a televisite aguda.


OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET

RETRANSMISSORAS DE TV INSTITUCIONAIS
O preconceito anti-Estado

Venício A. de Lima (*)

As democracias liberais constituem, por definição, espaços onde deve haver pluralidade e diversidade de idéias. Nelas convive-se, todavia, com uma contradição importante e ainda não resolvida. Como existe uma instituição – a mídia – que tem o poder de construir a representação social dominante e a agenda pública de discussão, nos debates onde ela tem interesse direto, o adversário (indivíduos, instituições ou o próprio Estado) já começa a disputa em desvantagem.

Os empresários de mídia, ou seus representantes, muitas vezes constroem o seu discurso como se existisse um lugar de fala acima e fora de qualquer interesse, um privilegiado lugar neutro de onde eles poderiam, com total isenção, acusar e julgar os adversários.

Dentro dessa falácia, um dos recursos utilizados pelos defensores do status quo legal da mídia no Brasil tem sido desqualificar os seus críticos como sendo anticapitalistas e antiempresariais. É um recurso nem sempre bem intencionado, porque consciente de sua fantasia.

Gostaria de argumentar que existe, ao contrário, na mídia brasileira – hegemonicamente privada e comercial – um arraigado preconceito anti-Estado, que rejeita in limine a maioria das iniciativas do Estado para o setor. Por mais que se ampare no trauma ainda recente dos tempos do Estado autoritário da ditadura militar, esse preconceito não se justifica.

Os empresários de mídia e seus representantes, em oposição clara ao que reza o princípio constitucional sobre a complementaridade dos sistemas privado, público e estatal, agem como se devesse existir apenas um sistema – o sistema privado, isto é, o sistema deles.

As evidências mais recentes desse preconceito anti-Estado são as reações contrárias tanto à criação da TV Brasil – Canal Internacional, quanto à criação das RTVI – Retransmissoras de TV Institucionais. Como já tratei neste Observatório da TV Brasil [veja remissão abaixo para o artigo "Uma nova alternativa no ar?"], vou me ater agora às RTVI.

Conselho paritário

Por meio do Decreto nº 5.371, o presidente da República aprovou, em 17 de fevereiro último, o Regulamento do Serviço de Retransmissão de Televisão e do Serviço de Repetição de Televisão. Pelo regulamento, existem três tipos de serviços de retransmissão de televisão: o comercial, o educativo e o institucional. A novidade é o Serviço de Retransmissão de TV Institucional (RTVI). E o que vem a ser este serviço?

O RTVI é a modalidade destinada a retransmitir, de forma simultânea ou não-simultânea, os sinais oriundos de estação geradora de televisão explorada diretamente pela União. As RTVI só poderão realizar inserções de programação até o percentual de 15% do total de horas da programação retransmitida e que atendam a finalidades institucionais, educativas, artísticas, culturais e informativas. Além disso, o horário disponível para inserção de programação local deverá ser distribuído da seguinte forma: um terço para a divulgação das atividades do Poder Executivo do município; um terço para a divulgação das atividades do Poder Legislativo, preferencialmente para a transmissão de suas sessões; e um terço para entidades representativas da comunidade, sem fins lucrativos, devidamente constituídas e sediadas no município, assegurada a pluralidade de opiniões e representação dos diversos segmentos sociais.

O regulamento ainda prevê a existência de patrocínio, sob a forma de apoio institucional, para a produção da programação a cargo das entidades representativas da comunidade local, entendido como financiamento dos custos relativos à produção da programação ou de um programa específico. Este apoio refere-se somente à veiculação, por meio de som e imagem, de mensagens institucionais da entidade apoiadora, sem qualquer menção a seus produtos ou serviços.

Está ainda prevista a constituição de um conselho de programação composto, de forma paritária, por representantes indicados pelo Poder Executivo municipal; pelo Poder Legislativo municipal, assegurada a representação das diversas correntes partidárias; e por representantes da comunidade eleitos entre os candidatos indicados por entidades representativas locais. Este conselho terá a finalidade de definir diretrizes, acompanhar as inserções de programação, bem como subsidiar o Ministério das Comunicações (MiniCom) no exercício de sua competência fiscalizadora.

Público, privado e estatal

Trata-se, portanto, de retransmissoras não-comerciais, que não podem vender espaços publicitários, e que – nos 15% da programação destinados a inserção local – necessariamente terão forte vínculo com a comunidade. Segundo noticiado, a idéia surgiu na TV Senado, interessada em aumentar o seu alcance até agora limitado apenas aos municípios onde existem operadoras de TV paga. Seria o equivalente à criação de uma rede nacional de TVs exploradas pela União, na qual as afiliadas são as prefeituras municipais. Como se sabe, as redes de afiliadas das TVs privadas comerciais existentes já atingem praticamente a todos os municípios brasileiros.

Quais têm sido os argumentos dos empresários da mídia contra essa iniciativa do Estado? O primeiro argumento é de que o governo não os consultou. O segundo é legalista: dizem que as RTVI não poderiam ser criadas por decreto, somente por lei. Terceiro, alegam que as RTVI serão usadas como moeda de troca política e para propaganda.Quarto, alegam que o MiniCom não terá como fiscalizar as RTVI. E quinto, alegam que as RTVI vão tirar anunciantes das emissoras de TV privadas.

Pergunto a você, leitor: um governo democrática e legitimamente eleito, no exercício de suas funções, precisa consultar os empresários de mídia toda vez que toma uma iniciativa no setor? Pode ser considerado moeda política e propaganda um instrumento autorizado para qualquer prefeitura independente do partido ao qual pertence o eventual ocupante do cargo de prefeito? A alegada incapacidade de fiscalização deve impedir a criação das RTVI ou deve provocar o melhor aparelhamento do MiniCom para poder fiscalizar com eficiência? Como um canal não-comercial poderia tirar anunciantes de canais comerciais?

Na verdade, o preconceito anti-Estado esconde uma questão que nunca é colocada pelos empresários de mídia: as emissoras de rádio e televisão são concessões públicas precárias, renováveis ou não. Vale dizer, não são propriedade privada de ninguém. Elas devem atender prioritariamente ao interesse público e não ao interesse comercial privado dos seus eventuais concessionários.

Diante do histórico preconceito anti-Estado dos empresários de mídia, fica a questão: será um dia possível cumprir o que determina a Constituição, isto é, a complementaridade dos setores privado, público e estatal? A tomar como referência as últimas reações do sistema privado às iniciativas do Estado – democrático e legítimo – só há uma resposta possível e, infelizmente, ela é negativa.

(*) Pesquisador sênior do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (NEMP) da Universidade de Brasília e autor, entre outros, de Mídia: Teoria e Política (Editora Fundação Perseu Abramo, 2ª ed., 2004)


5º BLOCO

Veja o que disseram os convidados após o programa:

Rio de Janeiro:

Aguinaldo Silva – Escritor
"Para mim foi um prazer enorme estar entre os jornalistas. Sempre gosto de dizer que não sou novelista, estou novelista. Na verdade sou jornalista de coração."

São Paulo:

Walter de Mattos – Pres. Diário Lance!
"Eu acho que dentro do propósito de se trabalhar essa idéia do porquê de não termos um jornal novo de qualidade, eu acho que o debate poderia tratar também das dificuldades, dos obstáculos. Até o colega do sul, o Paulo, falou sobre os custos sociais, da questão da excessiva concentração das verbas de mídia no meio televisivo, como é o processo de compra de mídia no Brasil, que é um elemento fundamental para a viabilização do jornal. Falando mais sobre essa dificuldade de se empreender uma coisa nova, por tabela discute-se as dificuldades enfrentadas pelos que já existem. O Brasil é hoje um país muito hostil para novos investidores, a área de mídia, de imprensa é uma área particularmente difícil. Os investimentos requerem uma maturação de longo prazo, não há acesso a capitais. Discutir sobre como criar um setor de imprensa maior nesse país é um debate que pode trazer conseqüências práticas."


PERGUNTAS

E-mails recebidos na semana de 01/03 a 08/03:

Acir João Cardozo, São José dos Pinhais / PR
Boa Noite, não é estranho que uma rede de TV como a Globo coloque em um de seus folhetins a história de reabertura de um jornal que foi fechado pela ditadura, se ela própria, a Rede Globo, sempre manteve laços muito estreitos com os militares no período ditatorial entre 64 e 82?

Mateus
A bem da verdade, nada impede a criação de um jornal de qualidade com preço acessível. Se, no caso do Rio Grande do Sul, pode-se cobrar R$ 0,60 por um folhetim que se autointitula jornal, o Diário Gaúcho (conhecido por Ordinário Gaúcho) cheio de páginas coloridas com fotos dos "globáveis" e outros afins, por que não seria viável um jornal preto e branco com conteúdo pelo mesmo valor? A única coisa que poderia impedir sua maior penetração é a necessidade introjetada no povo de "pão e circo", nos moldes do "Ordinário". Infelizmente, o jornal que deveria oferecer algo de novo no estado (O Sul), não oferece nada mais do que colunas recauchutadas do centro do país e notícias descaradamente copiadas dos sites da internet (Uol, Terra, IG), sem sequer citar a fonte. Resta saber quem teria a coragem e empreendedorismo de lançar o jornal que falta no RS: verídico e crítico. Parabéns pelo programa e pelos temas, estão ótimos!

André Galdo – Engenheiro
Gostaria primeiramente de parabenizar o programa pelo resgate cultural, pelo debate de temas contemporâneos de extrema relevância para a vida de todos nós! A era da informação possibilitou o conhecimento de outras culturas, práticas econômicas globalizadas, crises mundiais e a questão ambiental entre tantos assuntos. Isso gerou uma mudança do próprio ser em relação a forma de observar e julgar os acontecimentos. Nesse processo de conscientização universal qual deve ser a atual forma e mensagem da informação para o telespectador moderno? Qual a expectativa deste telespectador?

Afrânio, Belo Horizonte / MG – Jornalista
O que está acontecendo com o antigo bom programa Observatório da Imprensa? Falar sobre novela da Globo? Tive uma enorme decepção ao começar a assistir ao programa de hoje (01/03/2005), quando vocês comentavam sobre uma telenovela da Globo. O que está acontecendo? Vocês estão sendo pagos para isso? Não tem assunto melhor para comentar, pelo menos sobre os jornais que não dão destaque para o aumento dos deputados? Não podem pelo menos ensinar algo que acrescente à população brasileira, àqueles que assistem o OI? Onde estão vocês jornalistas de gravata? Tem alguém em Brasília olhando vocês? Ou no Rio de Janeiro? Péssimo! Péssimo! Decepção total!

Waldeck
Observo que a metalinguagem é um recurso cada vez mais explorado pela mídia em geral, artifício de um objeto de compreensão elitista onde um povo fetichizado, sem formação, acaba por fim enfeitiçado pela notícia. Será que um novo meio de comunicação deveria se utilizar deste expediente para sobrepor-se ao povo (indivíduo leitor e financiador da mídia em geral)?

Curt Nees, Jaraguá do Sul / SC – Publicitário
Meus prezados, o assunto aumento dos subsídios dos deputados federais ainda vai render muito. A votação desta imoralidade - como de praxe quase todas as outras - será secreta. Só a imprensa, como um todo, poderá reverter, na minha opinião, este quadro. De que forma? Desencadeando uma campanha para que o voto seja aberto, para que o cidadão saiba quem é quem! E, em obtendo êxito - o que espero e torço - a mesma imprensa deve divulgar, voto por voto, o resultado. 2006 está às portas e este trabalho será muito importante para o eleitor. Chega de tantas barbaridades! Basta! No mais, um grande abraço, parabéns e sucesso... sempre!


Telefonemas recebidos em 01/03:

Renato Alves, Ituverava / SP
Não está na hora de se mostrar na novela como se faz o verdadeiro jornalismo, não apenas com críticas, mas também com o lado social?

Rafaela Dias, Porto Alegre / RS
Não caberia no mercado um jornal que apresente matérias com propostas como as expostas na TVE?

Alquino Barros, Porto Alegre / RS
Não seria o caso de se cultivar a qualidade ética no jornalismo?

Roberto Legório, Guariba / SP
É possível um jornal discutir abertamente sobre as desigualdades sociais no Brasil?

Ângela Freitas, Rio de Janeiro
Por que os editores das redações não dão uma maior autonomia aos jornalistas?

Elizabeth Moreira, Manuque / MG
Maria do Carmo deve terminar com o Giovani.

José Hamilton, Seropédica / RJ
Por que o dinheiro fala mais alto nas redações dos jornais, mascarando a retratação fiel do fato?

Nelson Gruhs, Sapucaia do Sul / RS
Enquanto não existir um jornal financiado exclusivamente pelo seus leitores não haverá democracia, nem liberdade de imprensa.

Fernando Telles, Divinópolis / MG
Qual o papel social da novela no desenvolvimento da consciência política do brasileiro?

Laércio Lucena, São Paulo
Como se deve ingressar nessa carreira de escritor de novelas? Existe um padrão na Rede Globo para o texto?

Cristina da Silva, Recife / PE
Quanto tempo o autor demorou para escrever a novela? Ele esperava todo esse sucesso?

Marco Antônio Pereira, Belo Horizonte / MG
Por que as cenas de sexo entre homossexuais na novela?

Pedro Boschi, Niterói / RJ
Por que a Globo insiste em mostrar homossexualismo nas novelas das 8?

Antônio Edson Perez, Porto Alegre / RS
Paulo Sérgio, nós sabemos que na Rede Pampa antes do jornal O Sul sair para as bancas a última palavra é do presidente da Rede Pampa. Isso é democrático?

Docileu Nunes, Beobá / MT
Por que os jornais dão tantas notícias ruins? O povo não está precisando ouvir coisas boas?

Narciso de Almeida, Brasília / DF
Como é ser jornalista em país como o Brasil onde não se tem o hábito de leitura?

Raquel Freitas, Guarulhos / SP
Para vocês, qual o melhor jornal do país?

Raiane Kathelen, Jaboatão / PE
A personagem de Maria do Carmo desfilou numa escola de samba de verdade na novela?

Emilson Nunes Costa, Volta Redonda / RJ
Faço parte de uma nova geração que se caracteriza pelo consumo de jornais internacionais pela internet como New York Times, USA Today, Le Monde e outros. Estão os jornais de hoje preocupados com essa concorrência?

Janaína Santos, Igaraçu / PE
Você usa alguma regra para escrever a novela? Como você faz para trabalhar a relação entre a ficção e a vida real?

Ivan da Silva, Jaboatão / PE
Por que a escolha do nome "Diário de Notícias" para ser retratado na novela?

Paulo Cunha, Salvador / BA
O senhor disse que tentou retratar fielmente os jornalistas. Mais ainda existe o jornalismo romântico retratado em sua novela?

Azelino A. B. Pessoa, São Bernardo do Campo / SP
O que fazer para que a mídia desperte a consciência do povo brasileiro?

Tiago Rego, Paraíso / TO
Na novela, o dono do jornal não tem ligação nenhuma com o jornalismo. É possível, na vida real, que nesta situação um jornal dê certo?

Márcio Faria, Vale do Paraíba / SP
É possível manter a independência editorial de um novo jornal, sem o apoio de um grande grupo de comunicação?

Luciano Fabri, Cachoeiro de Itapemirim / ES
Por que é tão difícil fazer um jornal de qualidade hoje em dia?

Fernanda Haddad, Barretos / SP
Qual a opinião do autor sobre os atuais cursos de graduação em jornalismo? A novela não transmite uma idéia ilusória do que é a profissão em si, mostrando o lado glamouroso de uma redação?

Rogério Silva, Rio de Janeiro
Este tipo de novela pode ter até 100% de audiência que mesmo assim continua sendo um entretenimento de baixa qualidade, assim como João Kleber, Ratinho, Big Brother, etc... O único ponto positivo da novela é a valorização do jornalismo.



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