RESUMO DO PROGRAMA
ÂNCORAS
O
programa Observatório da Imprensa do dia 14 de dezembro discutiu o papel
do âncora no telejornalismo. O debate foi suscitado pela recente crise
nos EUA, onde os apresentadores Dan Rather, da CBS e Tom Brokaw, da NBC,
dois dos mais importantes âncoras americanos, anunciaram suas
aposentadorias. Alberto Dines, em editorial, explicou que o âncora tem
como função amarrar o espectador, ancorá-lo em assuntos sobre os quais
nunca ouviu falar, países que não sabe localizar no mapa ou problemas
completamente estranhos à sua experiência. E perguntou: "Se os assuntos
dos jornais televisivos fossem apresentados de forma mais simplificada,
o âncora seria tão importante?"
Participaram, ao vivo, do programa Maria Lydia Flandoli, âncora do
Jornal da Gazeta e Florestan Fernandes, apresentador da Radiobrás, ambos
em São Paulo. No Rio de Janeiro, o professor de Comunicação Social, Luís
Carlos Bittencourt e, via internet, dos EUA, o também professor de
Comunicação, Antônio Brasil.
Maria
Lydia começou o debate dizendo que a discussão sobre o papel do âncora
depende muito do modelo adotado por cada país. Lembra que o modelo
americano, no qual o âncora é transformado em uma estrela e é mais
importante que a própria notícia, é a referência do telejornalismo
brasileiro. No modelo europeu, no entanto, a figura do âncora não
existe, pois a opinião dele ofende o discernimento do telespectador
europeu. Florestan Fernandes ressaltou que, aqui no Brasil, cada vez
mais, repórteres vêm ancorando telejornais: "é uma questão de transmitir
a credibilidade do repórter ao jornal."
O
professor Antônio Brasil afirmou que o modelo atual de jornalismo está
falido: "o que estamos vendo não é só o envelhecimento dos âncoras é o
envelhecimento desse modelo autoritário de jornalismo". Luís Carlos
Bittencourt, no entanto, acredita que a mudança dos âncoras nos EUA não
reflete uma transformação e sim uma renovação conservadora.
Florestan
Fernandes concluiu: "os telejornais estão muito técnicos e muito de
acordo com os interesses das empresas. Acho melhor que não haja opinião
do âncora porque essa opinião será a do dono da empresa e não a do
apresentador".
Thaissa
Lemos (estagiária)
EDITORIAL
Bem-vindos
ao Observatório da Imprensa.
A notícia
tem cara? Na tv, a cara da notícia é a cara do âncora ou da âncora.
No jornal a informação é impessoal, transmitida por palavras que
formam idéias que formam juízos e se transformam em opiniões. No rádio,
as palavras dependem da voz de um intermediário, antigamente chamado de
locutor ou speaker que acrescentava inflexões ou emoções. A televisão,
que é filha do cinema e do espetáculo, foi a responsável pela criação
do intérprete da notícia, aquele ou aquela profissional que empresta a
sua imagem e às vezes a sua pessoa para converter a informação num
relato, numa história, verossímil e interessante, capaz de prender a
atenção do espectador e não deixar que ele se distraia.
Âncora não
é uma palavra que surgiu por acaso, a função do âncora é essa
mesma, amarrar o espectador, ancorá-lo em assuntos sobre os quais nunca
ouviu falar, países que não sabe localizar no mapa, problemas
completamente estranhos à sua experiência.
No
momento em que alguns dos mais famosos âncoras americanos estão
deixando os seus postos e o jornalismo televisivo parece enfrentar a sua
hora da verdade este Observatório da Imprensa não pode deixar de fazer
uma provocação. E o telespectador? Ele precisa realmente de um
tradutor? Se os assuntos dos jornais televisivos fossem apresentados de
forma mais simplificada, o âncora seria tão importante?
ARTIGO
Por Alberto Dines
CONSELHO FEDERAL DE JORNALISMO
CFJ continua inútil, mas o debate é essencial
Alberto Dines
O melhor
do projeto do Conselho Federal de Jornalismo foi a discussão que
provocou - a mais intensa, a mais ampla e a mais rica dos últimos 50
anos. Seus desdobramentos foram tão espontâneos e livres que chegaram
à legitimidade da própria Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas)
em assumir-se como patrocinadora da nova entidade.
Mesmo
bombardeado por jornalistas, juristas, parlamentares, acadêmicos,
empresários e organizações da sociedade civil, o projeto serviu como
catalisador de uma salutar controvérsia que, embora tardia (deveria ter
ocorrido durante os trabalhos da Constituinte), já não pode ser disfarçada
nem adiada.
A
imprensa e a sociedade brasileira não precisavam nem pediram a criação
do CFJ, mas o acolhimento do projeto pelo governo e o seu encaminhamento
ao Congresso produziu uma centelha que não pode ser desperdiçada.
Desarmar
este impulso, como pretende a Mesa da Câmara dos Deputados, significa
castigar a sociedade retirando-lhe o direito de participar ou, pelo
menos, conhecer questões fundamentais relacionadas com o exercício do
jornalismo e o funcionamento de uma imprensa diversificada, livre de
constrangimentos políticos, econômicos e corporativos.
Pior do
que o arquivamento do projeto original é a manobra para sepultar o
substitutivo que a Fenaj foi obrigada a produzir diante da enorme pressão
que sobre ela se armou.
Ao
admitir publicamente que estava errada, inclusive em premissas básicas
como o nome, concepção, estrutura e função do novo órgão, a Fenaj
indicou uma disposição que o Legislativo - na condição de grande fórum
nacional - não pode ignorar. Se a Fenaj tem algo a acrescentar, nada
justifica a afobação para abreviar a inusitada e utilíssima temporada
de transparência dos últimos quatro meses.
Compostura
perdida
Prova da
imperiosa necessidade de manter aceso o debate em torno da imprensa e do
jornalismo é a própria figura do relator indicado para examinar o
projeto que cria o CFJ - agora apensado a outro, anterior, que cria a
Ordem dos Jornalistas do Brasil. O deputado Nelson Proença (PPS-RS) é
um dos campeões de desregulamentação da mídia. Para ele, a FCC
americana é coisa de comunistas.
O mais
grave, porém, é que o premiado com a relatoria é também o feliz
proprietário de uma rede de rádios no interior do Rio Grande do Sul. A
duplicidade configura um gritante conflito de interesses e uma evidente
inconstitucionalidade. É líquido e certo: o concessionário de um
serviço público não pode ser ungido para um mandato popular ou
vice-versa. O legislador não pode acumular funções, ser fiscal e
fiscalizado.
Nelson
Proença não é exceção, é a regra. Grande parte dos plenários da Câmara
e do Senado é constituída por parlamentares-concessionários de
emissoras de rádio e de TV. Alguns fingem um afastamento protocolar ou
licenciamento, a maioria nem se dá ao trabalho de manter as aparências
e o decoro. Se o presidente do Senado, José Sarney, é um potentado da
mídia eletrônica regional, por que razão seus colegas do baixo clero
não podem gozar dos mesmíssimos privilégios?
Esta
aberração não será coibida com a criação do CNJ. Porém, mantida a
discussão suscitada pelo desastrado projeto, será possível alcançar
questões de grande magnitude que desfiguram a democracia e prejudicam
diretamente nossa sociedade em matéria de informação, cultura e
entretenimento. Quando o legislador deixar de ser concessionário de rádio
e TV estará em condições para encarar a concentração da mídia -
mãe de todos os problemas.
É óbvio
que ao Executivo não interessa criar mais atritos na sua base
parlamentar. Escaldado no primeiro round, o governo certamente não vai
querer repetir a dose. Melhor assim. Este é um assunto que interessa
principalmente à sociedade: se o Legislativo perdeu a compostura,
pode-se recorrer ao Judiciário.
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET
NOTAS
DE UM LEITOR
O lugar da imprensa na batalha dos arquivos
Luiz Weis
Por definição, o maior inimigo do
segredo há de ser sempre o jornalista, que vive de e para informar o público
de tudo aquilo que, nas sociedades democráticas, é seu direito
conhecer. (Jornalistas há também que vivem de divulgar coisas de que o
público não precisa ser informado, por tratarem da intimidade alheia,
mas essa é outra história.)
O direito às informações de
interesse coletivo incide em primeiro lugar e mais intensamente sobre o
que se passa no âmbito do Estado - não apenas porque o que aí se
faz ou se deixa de fazer afeta a vida das populações, mas sobretudo
porque elas constituem a fonte última de legitimação dos atos dos
governantes e legisladores.
Com isso não se pretende negar que
também o Estado deve ter uma esfera de privacidade, para proteger não
os seus agentes, mas o interesse nacional, entendido este como sinônimo
do interesse comum do conjunto dos cidadãos do país, segundo os parâmetros
- decerto imperfeitos, mas insubstituíveis - da ordem democrática.
Por isso, existe uma tensão inerente
entre jornalista e autoridade sobre o que, quando e como pode sair da
redoma estatal para o ar livre.
Para ele, no limite, é tudo, já e por
inteiro. Para ela, tudo, já e por inteiro, só quando for compatível
com as proverbiais "razões de Estado" - algo que ele quase
sempre considera, com bons motivos, um eufemismo para razões dos
detentores do poder estatal, de acordo com a Regra de Ricupero: o que é
bom a gente divulga, o que é ruim a gente esconde. No mais, a ver.
Benditas reportagens
Esse é o pano de fundo mais geral para
a questão que entrou para a ordem do dia graças a um erro de imprensa.
Em outubro, o Correio Braziliense deu como sendo do jornalista
Vladimir Herzog, morto pela ditadura, fotos que se veio a saber serem do
padre canadense Leopoldo d'Astous, molestado pela ditadura.
Para o que se seguiu, o erro é
irrelevante: as benditas reportagens do Correio tiraram de vez a
pasta do tubo. E obrigaram o governo a dar uma reposta ao clamor, a que
não ficou alheio este Observatório, pela abertura dos arquivos
da ditadura [veja abaixo].
Mas a resposta não serviu - e é
dever do jornalista, para ser coerente com a sua dupla condição de
inimigo número 1 do segredo e de alvo preferencial de todas as
ditaduras, pressionar por outra, mais adequada aos imperativos da
democracia e aos valores republicanos.
Essa pressão, diga-se desde logo,
reconhece, como antes mencionado, que o Estado tem direito a seus
segredos. Mas reconhece, no mínimo com a mesma ênfase, que todo
segredo de Estado é uma lesão a direitos alheios - de pessoas,
setores sociais e, evidentemente, de outros Estados também (cujos
segredos, conforme o Estado e os fatos a que se refiram, podem lesar o
direito do Estado brasileiro, por exemplo, às verdades que lhe são
sonegadas).
Sem perder de vista essa equação, a
imprensa, no entender deste leitor, deveria pressionar em duas frentes.
Uma, de ordem geral, outra, específica.
Sigilo eterno
No primeiro caso, é preciso erradicar
da legislação baixada na sexta-feira passada pelo governo, a passagem
que, afinal, dá o dito por não dito, ao permitir que o Estado mantenha
sepultos até o fim dos tempos os segredos que bem entender.
É assim, como deu nos jornais: o
inciso 2 do artigo 6° do decreto do presidente Lula proíbe o acesso a
documentos cujo sigilo "for imprescindível à segurança da
sociedade e do Estado" - mesmo quando tiver expirado o prazo do
segredo (5 anos, para documentos "reservados"; 10 para
"confidenciais"; 20 para "secretos" e 30 para
"ultra-secretos").
Pelo decreto, a decisão sobre o que é
imprescindível ou prescindível caberá a uma comissão de nível
ministerial (Casa Civil, Justiça, Relações Exteriores, Segurança
Institucional e Direitos Humanos), mais a Advocacia Geral da União.
A Casa Civil baixará as "normas
complementares" de atuação do colegiado. A julgar pela tradição,
normas complementares, ou que nome tenham esses adendos - ou
contrabandos, como se diz na gíria parlamentar - podem ser tão ou
mais importantes do que aquilo que complementam.
É bem verdade - e é positivo -
que essa Comissão de Averiguação e Análise de Informações
Sigilosas terá o poder de rever as categorias em que a burocracia civil
e militar enquadrou cada documento, portanto os prazos teóricos de sua
divulgação.
Mas isso não torna menos inadmissível
a brecha aberta para o "sigilo eterno", como desde a primeira
e boa hora a imprensa tratou de chamar a esperteza.
O jabuti na árvore
Aliás, por falar em esperteza, nem a
velhinha de Taubaté acreditará que foram produto de uma trapalhada
burocrática os trechos ainda mais restritivos que constavam
"indevidamente" da primeira versão do texto divulgado pelo
Planalto e afinal recolhido, já pronto para sair no Diário Oficial.
Não que o governo seja uma ilha de
competência, como bem se sabe. Mas o que levou o secretário Nilmário
Miranda, dos Direitos Humanos, a gritar "parem as máquinas"
lembra o folclórico jabuti no alto da árvore que não enganava os
velhos políticos mineiros - se o bicho está lá é porque alguém o
colocou, fazendo o que ele não conseguiria pela própria natureza.
A reportagem de Cristiane Jungblut e
Evandro Éboli, no Globo de sábado, conta a inside story do
texto que o Planalto acabou chamando de "versão primitiva"
- um cabo-de-guerra que durou cinco horas. E foi o Globo, salvo
prova em contrário, que avisou Nilmário que o divulgado não batia com
o combinado.
Pelo jeito, a "imprescindibilidade"
pode ter ido parar no decreto levado pelas mesmas mãos que pousaram o
quelônio na versão da medida provisória abatida a tempo.
Adiante. Essa comissão não pode ficar
como está - e é papel do jornalista brigar para que não fique. Ela
deve incluir representantes de pelo menos duas organizações da
sociedade: a Ordem dos Advogados do Brasil e a Associação Brasileira
de Imprensa. Sim, passarão por suas mãos papéis secretos cujo dono
exclusivo ainda será o Estado. Paciência.
Criem-se, até onde for possível,
salvaguardas para evitar que eles contem aqui fora o que leram lá
dentro. Mas quem garante que os outros comissionários se comportarão,
invariavelmente, como se supõe que se comportem os padres-confessores?
Arquivistas ou carcereiros
Essas são boas brigas, mas a mãe de
todas as batalhas em que a imprensa poderia prestar o serviço público
de se engajar é outra: a do acesso aos arquivos específicos da
ditadura. Mais especificamente ainda, aos arquivos da repressão.
Pressione-se o governo para encontrar a
fórmula jurídica que dê tratamento especial a essa documentação e
para obrigar os seus arquivistas - ou melhor, os seus carcereiros,
como na magistral ilustração (de assinatura ilegível) da página 2 da
Folha de S.Paulo de 11/12 - a buscá-los nos socavões onde os
enfurnaram.
Exemplificando: uma coisa são os papéis
trancafiados no Itamaraty, no Forte Apache, ou onde quer que seja,
contendo eventualmente informações cabeludas sobre o conflito
Brasil-Estados Unidos por causa do acordo nuclear com a Alemanha, entre
1974 e 1976, digamos; outra coisa é tudo que possa haver de memória
oficial sobre os crimes da ditadura contra os direitos humanos nesse
mesmo período.
Nos dois casos, a verdade histórica
precisa ser conhecida, duela a quién duela. Mas o desvendamento
da crônica secreta de animosidades entre governos - algo tão antigo
como a sua mesma existência - pode esperar; não toda a eternidade,
mas pode esperar.
O que não pode esperar, nem muito
menos deve ser tratado como se fosse mercadoria do mesmo estoque,
guardados do mesmo baú, é o registro de seja lá o que disser respeito
às políticas e ações de repressão dos golpistas de 1964 e seus
sucessores - sem excluir os atos de terrorismo paraestatal cometidos
no governo daquele último general que saiu pela porta dos fundos e
pediu que se esquecessem o seu nome.
Relevância e urgência
A liberação dessa papelada, das gravações,
filmes e vídeos em poder do Estado - que, embora democrático, e,
goste ou não, é o único fiel depositário dos textos, sons e imagens
dos anos de chumbo que ainda não tiverem sido privatizados - tem a
mesma relevância e urgência invocadas para a edição de medidas
provisórias.
Relevância, primeiro, em respeito às
vítimas diretas e indiretas dos braços repressivos, fardados e
paisanos, que obedeciam ordens superiores ou agiam com a sua tácita
aprovação; segundo, porque só se podem esquecer, se é disso que se
trata, sofrimentos conhecidos e só se podem virar páginas já lidas;
terceiro, porque saber é um verbo intransitivo: o que os brasileiros
farão com o que vierem a saber de seu passado relativamente recente não
pode servir de pretexto para limitar o seu acesso a respeito.
E urgência porque o caso das fotos do
falso Vlado Herzog no Correio Braziliense revelou algo de que se
poderia desconfiar, mas até então não era politicamente correto
comentar: que o passado não passou nas cabeças de um certo número de
oficiais da ativa (para não falar dos pijamas crispados da tigrada da
organização Guararapes).
A primeira nota do Exército demonstrou
que ainda hoje ocupam posições na hierarquia militar senhores que nada
esqueceram e nada aprenderam. Já que o país acaba de (re)conhecer as
suas idéias, é urgente que (re)conheça também os fatos delas
indissociáveis. A plena informação, no caso, terá os mesmos poderes
medicinais do veneno de cobra usado contra picada de cobra.
E se é para extinguir rancores de
parte a parte, em nome da pátria comum, mire-se o Brasil na África do
Sul. Para passar o apartheid a limpo, o instrumento foi a Comissão da
Verdade e Reconciliação instituída no governo Mandela. Note-se o
nome: uma coisa precede a outra.
Por fim, é vantajoso para o governo
separar os arquivos da repressão dos demais e criar procedimentos
diferentes para a sua liberação. Pelo menos os diplomatas já não terão
motivos para formar com os militares a frente de resistência que
mostrou a sua força na longa noite palaciana da última quinta-feira.
(Salvo, quem sabe, quanto aos documentos sobre a participação
brasileira na Operação Condor.)
Pode até não ser verdade que os povos
que desconheçam a própria história estejam condenados a repeti-la.
Mas, por via das dúvidas, convém não facilitar. E a imprensa, que não
se cansou de invocar a democracia para fulminar como liberticida o
projeto do Conselho Federal de Jornalismo, tampouco pode fugir da linha
de frente na batalha dos arquivos.
[Texto fechado às 13h18 de 11/12]
5º BLOCO
Veja o que disseram os
convidados após o programa:
Rio de
Janeiro:
Luís
Carlos Bittencourt - prof. Jornalismo Univ. Veiga de Almeida
"Devido ao tempo reduzido não pudemos aprofundar o tema, mas foi
de grande importância."
São
Paulo:
Maria
Lydia Flandoli - Âncora Jornal da Gazeta
"Eu senti que abordamos muitos aspectos e não tivemos tempo para,
uma coisa ao menos, deixar para reflexão: sobre o desafio. Se nós
estamos à beira ou vivendo um crepúsculo dos âncoras, qual é o
desafio, no sentido de não aceitar isso passivamente, se o âncora é
uma figura em extinção ou se é um modelo que tem que ser trabalhado,
que desafio é esse que hoje nós enfrentamos? Eu não consigo
identificar o desafio. Faltou aprofundarmos um pouco nisso."
Florestan
Fernandes Jr. - Jornalista
"Gostei do programa, que foi reflexivo, a gente sai daqui inquieto,
pensando. Já há algum tempo eu estava incomodado com essa fórmula
antiga de telejornal no Brasil, eu acho até porque a gente está
vivendo um outro momento, politicamente conturbado, difícil, e acho que
com o bombardeio de informação tão grande não dá mais para ter esse
tradicionalismo pesado, arrastado, sem criatividade. O que o programa me
trouxe de importante foi a reflexão de pensar que a gente pode seguir
outros caminhos e que certamente a tevê brasileira até por ser bem
feita, vai procurar esses caminhos. O problema continua sendo a questão
que foi levantada no programa, do monopólio que existe nas telecomunicações
no Brasil. O controle político ainda é muito grande nessas
emissoras."
PERGUNTAS
E-mails recebidos na
semana de 14/12 a 21/12:
George
Spencer Soares, Recife / PE
Assisto algumas tevês interativas pela Internet. Elas estão indo pelo
mesmo caminho das rádios, lendo matérias nos sites, como falou o
Florestan Fernandes, e os apresentadores se colocando como âncoras...
Será que eles vão manter os mesmos vícios, só com a mídia
diferente?
Ronaldo
Serpa, Campos / RJ
Não sei se estou errado, por afinidade com determinado partido, me
passa a impressão que este âncora, grande jornalista que trabalhou
muito anos na Folha de São Paulo, sem crucifica-lo, tem preconceito com
determinado partido. Desculpe minha ignorância de telespectador.
Diógenes
Nicolau Lawand
Maria Lydia faz o que fala... Realmente seus programas sempre utilizaram
positivamente a inteligência dos ouvintes/telespectadores. Listas de
notícias - tudo bem... Mas aprofundá-las no debate com diferentes é
sensacional. Só tenho pena que finalizou aquele programa do meio-dia
que Maria Lydia realizava na TV Gazeta. Posso saber o motivo? Parabéns
Maria Lydia... Parabéns Observatório da Imprensa pelo convite à
pessoas como ela... Vida e responsabilidade com coragem é o convite de
Maria Lydia.
José
Simões Ribeiro, Guarulhos / SP - Suboficial Reformado da FAB
Meu Caro Dines, tenho tido a atenção com o Observatório da Imprensa
que o tema merece. A única coisa sensata que acontece na mídia. Em que
pese a textura crítica da visão do Observatório. A questão é que
temo pelo que o tema possa cair na própria visão da mesma mídia e
acabe por se tornar um prolongamento dela, no próprio interesse dela.
Uma espécie de ir buscar lã e voltar tosquiado. Por exemplo, uma
questão de altíssima indagação vem tomando corpo nos últimos dias,
após a nota do Exército. A questão da Anistia. Esse assunto vem sendo
tratado na mídia corrupta, a normal, como defesa dos golpistas da
Constituição de 46, travestido de defesa de interesse nacional, em
ataque desrespeitoso à Constituição de 88. A própria crítica aberta
a Cony, inclusive com a presença de Miguel Reale, professores da USP e
outros, no Estadão. (Matéria de 15/11/04) Sabemos que representantes
da sociedade como Dalmo Dallari, Chico de Oliveira, Frederico Mendonça,
Cesar Benjamim, Emir Sader, José Carlos de Assis, José Carlos Dias e
muitos outros, não comungam da visão direitista dos primeiros. No
entanto não são ouvidos propositadamente. O que ocorre é que a
anistia dos injustiçados fica com a visão prejudicada perante a
sociedade, pelo tipo de abordagem marqueteira dos citados com Miguel
Reale. Ele carrega na atualidade a visão dos golpistas contra os
anistiandos e anistiados do país. E a mídia que sobreviveu ao golpe
como meeira do arbítrio, como tão bem colocou Cony em sua auto defesa,
acaba posando, na visão de Reale, como constatadora apenas de fatos e
não de apoiadora de uma visão revanchista aproveitadora do momento.
Espero que o Observatório da Imprensa, partindo de sua pessoa que
conhece de perto a injustiça, não permita o respaldo à visão da
mídia nesse capítulo da Anistia, trazendo ao enfoque o assunto, com a
visão dos intelectuais citados, contrários aos pensamento de
marqueteiros políticos e governamentais, que sobrevivem da própria
mídia. O Observatório tem uma missão preponderante, quando vivemos
sob a batuta de uma mídia que apoiou o golpe do qual sobreviveu
financeiramente, durante mais de três décadas. O recente proer da
mídia é um acinte a qualquer benefício dos anistiados, em que pese o
ressarcimento milionário, este sim, de um marqueteiro de sindicato como
o Lavorato. Aguardamos a interferência do Observatório da Imprensa na
justa defesa constitucional dos anistiados.
Telefonemas recebidos em 14/12:
Lya
Ferraz, Rio de Janeiro
Com a mudança do âncora, necessariamente há uma mudança na linha
editorial do jornal?
Evandro
Fernandes, São Paulo
Dines, existem âncoras no rádio também? Pode ser feita essa comparação?
Carlos
Alberto, Rio de Janeiro
O jornalista Boris Casoy pode ser considerado um marco na "ancoragem"
do Brasil?
Heloisa
Moraes, São Paulo
Eu acho que o William Bonner está sendo um pouco pretensioso achando que
os telespectadores tem capacidade de entender uma notícia e ter sua própria
opinião sobre cada assunto?
Roberto
Pereira, Rio de Janeiro
Os telejornais noticiam o que querem, os âncoras americanos também. Qual
a real diferença?
Paulo
Roberto de Santos, Imbuguaçu / SP
Os jornais de emissoras da TV aberta sofrem ou não de pressão por
interesses externos?
João
Faustino, Belo Horizonte
O âncora é o maior representante da ditadura da empresa. Ele só lê o
que lhe é mandado. Assim como acontece com esse programa. O âncora é um
censor. Não lê todas as perguntas dos telespectadores.
Antônio
Marques Júnior, Rio de Janeiro
A expressão do âncora ao transmitir um notícia, pode ser tendenciosa na
recepção e no entendimento por parte do telespectador?
Carlos
Moraes, Cascavel / PR
Os apresentadores nada mais são que "vacas de presépio" da
linha editorial das emissoras, já os âncoras têm a condição de
comentar e até ir contra a linha editorial da emissora.
João
Ribeiro Queirós, Rio de Janeiro
Acho que os apresentadores hoje são quase atores, pois lêem textos
decorados e representam interesses específicos e não o interesse público.
Willian
Mendes, São Sebastião / SP
Qual a diferença entre um âncora de jornal e um âncora de debate?
Antônio
Uchunisch, Pedreira / SP
O que você acha da expressão tendenciosa que os âncoras transmitem ao
passar uma notícia?
Raphaela
Rodrigues, Rio de Janeiro
É possível fazer jornalismo vertical no pouco tempo permitido no
telejornalismo?
João
Oliveira, São Paulo
Por que os negros são tão poucos na função de âncora?
Simone
Maria, Recife / PE
Na sua opinião a figura do âncora poderia ser totalmente retirada e as
matérias apresentadas pelos próprios repórteres?
Décio Júnior,
São Carlos / SP
Maria Lydia, qual é a sua opinião sobre a tendência de âncora adotada
pelo "Jornal Hoje" da TV Globo, onde os apresentadores trocam
comentários?
Rui Fulgêncio,
Belo Horizonte / MG
Antonio Brasil, como seria um novo formato de telejornal sem âncoras?
José
Paulo Arastes, Salvador / BA
Dines, se o telejornal é um "produto" das redes de TV, a figura
do âncora que é uma estrela não é fundamental para valorizar esse
produto?
Paulo
Xavier, Recife / PE
Eu gostaria de saber o que os participantes acham do jornalismo feito pelo
SBT, que usa mulheres bonitas como âncoras para chamar audiência?
André
Machado, Uruguaiana / RS
Por que a imprensa chama de coalizão os invasores estrangeiros e de
terroristas os que reagem em seu próprio território?