PROGRAMA DO DIA 14 de dezembro de 2004

ÂNCORAS

O Observatório da Imprensa debateu o novo papel dos âncoras no telejornalismo mundial e no país.

A renovação em grandes redes americanas como a CBS e a ABC, pode ser um sintoma desta mudança? De que forma essas alterações podem afetar o público?

Nos Estados Unidos o âncora faz matérias, aqui os locutores são editores-chefes. O jornalismo de tevê está mudando no Brasil, em função do que acontece no mundo?

Alguns estudiosos defendem que o telejornalismo tradicional está com os dias contados. É o fim do âncora?

Leia o resumo do programa

  Veja o Compacto

CONSELHO FEDERAL DE JORNALISMO
CFJ continua inútil, mas o debate é essencial

Alberto Dines

O melhor do projeto do Conselho Federal de Jornalismo foi a discussão que provocou - a mais intensa, a mais ampla e a mais rica dos últimos 50 anos. Seus desdobramentos foram tão espontâneos e livres que chegaram à legitimidade da própria Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) em assumir-se como patrocinadora da nova entidade.

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Aqui você pode participar de fóruns sobre assuntos ligados à imprensa, deixar seu recado no nosso mural e ler as perguntas dos telespectadores.

Perguntas - Aqui são colocadas as perguntas dos telespectadores que chegam por telefone, fax ou e-mail durante o programa e ao longo da semana.

5 Bloco - Leia a opinião dos participantes do programa, sobre o debate.

Editorial:

Bem-vindos ao "Observatório da Imprensa".

A notícia tem cara? Na tv, a cara da notícia é a cara do âncora ou da âncora. No jornal a informação é impessoal, transmitida por palavras que formam idéias que formam juízos e se transformam em opiniões. No rádio, as palavras dependem da voz de um intermediário, antigamente chamado de locutor ou speaker que acrescentava inflexões ou emoções. A televisão, que é filha do cinema e do espetáculo, foi a responsável pela criação do intérprete da notícia, aquele ou aquela profissional que empresta a sua imagem e às vezes a sua pessoa para converter a informação num relato, numa história, verossímil e interessante, capaz de prender a atenção do espectador e não deixar que ele se distraia.


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NOTAS DE UM LEITOR
O lugar da imprensa na batalha dos arquivos

Luiz Weis

Por definição, o maior inimigo do segredo há de ser sempre o jornalista, que vive de e para informar o público de tudo aquilo que, nas sociedades democráticas, é seu direito conhecer. (Jornalistas há também que vivem de divulgar coisas de que o público não precisa ser informado, por tratarem da intimidade alheia, mas essa é outra história.)

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RESUMO DO PROGRAMA

ÂNCORAS

O programa Observatório da Imprensa do dia 14 de dezembro discutiu o papel do âncora no telejornalismo. O debate foi suscitado pela recente crise nos EUA, onde os apresentadores Dan Rather, da CBS e Tom Brokaw, da NBC, dois dos mais importantes âncoras americanos, anunciaram suas aposentadorias. Alberto Dines, em editorial, explicou que o âncora tem como função amarrar o espectador, ancorá-lo em assuntos sobre os quais nunca ouviu falar, países que não sabe localizar no mapa ou problemas completamente estranhos à sua experiência. E perguntou: "Se os assuntos dos jornais televisivos fossem apresentados de forma mais simplificada, o âncora seria tão importante?"

Participaram, ao vivo, do programa Maria Lydia Flandoli, âncora do Jornal da Gazeta e Florestan Fernandes, apresentador da Radiobrás, ambos em São Paulo. No Rio de Janeiro, o professor de Comunicação Social, Luís Carlos Bittencourt e, via internet, dos EUA, o também professor de Comunicação, Antônio Brasil.

Maria Lydia começou o debate dizendo que a discussão sobre o papel do âncora depende muito do modelo adotado por cada país. Lembra que o modelo americano, no qual o âncora é transformado em uma estrela e é mais importante que a própria notícia, é a referência do telejornalismo brasileiro. No modelo europeu, no entanto, a figura do âncora não existe, pois a opinião dele ofende o discernimento do telespectador europeu. Florestan Fernandes ressaltou que, aqui no Brasil, cada vez mais, repórteres vêm ancorando telejornais: "é uma questão de transmitir a credibilidade do repórter ao jornal."

O professor Antônio Brasil afirmou que o modelo atual de jornalismo está falido: "o que estamos vendo não é só o envelhecimento dos âncoras é o envelhecimento desse modelo autoritário de jornalismo". Luís Carlos Bittencourt, no entanto, acredita que a mudança dos âncoras nos EUA não reflete uma transformação e sim uma renovação conservadora.

Florestan Fernandes concluiu: "os telejornais estão muito técnicos e muito de acordo com os interesses das empresas. Acho melhor que não haja opinião do âncora porque essa opinião será a do dono da empresa e não a do apresentador".

Thaissa Lemos (estagiária)


EDITORIAL

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

A notícia tem cara? Na tv, a cara da notícia é a cara do âncora ou da âncora. No jornal a informação é impessoal, transmitida por palavras que formam idéias que formam juízos e se transformam em opiniões. No rádio, as palavras dependem da voz de um intermediário, antigamente chamado de locutor ou speaker que acrescentava inflexões ou emoções. A televisão, que é filha do cinema e do espetáculo, foi a responsável pela criação do intérprete da notícia, aquele ou aquela profissional que empresta a sua imagem e às vezes a sua pessoa para converter a informação num relato, numa história, verossímil e interessante, capaz de prender a atenção do espectador e não deixar que ele se distraia.

Âncora não é uma palavra que surgiu por acaso, a função do âncora é essa mesma, amarrar o espectador, ancorá-lo em assuntos sobre os quais nunca ouviu falar, países que não sabe localizar no mapa, problemas completamente estranhos à sua experiência.

No momento em que alguns dos mais famosos âncoras americanos estão deixando os seus postos e o jornalismo televisivo parece enfrentar a sua hora da verdade este Observatório da Imprensa não pode deixar de fazer uma provocação. E o telespectador? Ele precisa realmente de um tradutor? Se os assuntos dos jornais televisivos fossem apresentados de forma mais simplificada, o âncora seria tão importante?


ARTIGO
Por Alberto Dines

CONSELHO FEDERAL DE JORNALISMO
CFJ continua inútil, mas o debate é essencial

Alberto Dines

O melhor do projeto do Conselho Federal de Jornalismo foi a discussão que provocou - a mais intensa, a mais ampla e a mais rica dos últimos 50 anos. Seus desdobramentos foram tão espontâneos e livres que chegaram à legitimidade da própria Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) em assumir-se como patrocinadora da nova entidade.

Mesmo bombardeado por jornalistas, juristas, parlamentares, acadêmicos, empresários e organizações da sociedade civil, o projeto serviu como catalisador de uma salutar controvérsia que, embora tardia (deveria ter ocorrido durante os trabalhos da Constituinte), já não pode ser disfarçada nem adiada.

A imprensa e a sociedade brasileira não precisavam nem pediram a criação do CFJ, mas o acolhimento do projeto pelo governo e o seu encaminhamento ao Congresso produziu uma centelha que não pode ser desperdiçada.

Desarmar este impulso, como pretende a Mesa da Câmara dos Deputados, significa castigar a sociedade retirando-lhe o direito de participar ou, pelo menos, conhecer questões fundamentais relacionadas com o exercício do jornalismo e o funcionamento de uma imprensa diversificada, livre de constrangimentos políticos, econômicos e corporativos.

Pior do que o arquivamento do projeto original é a manobra para sepultar o substitutivo que a Fenaj foi obrigada a produzir diante da enorme pressão que sobre ela se armou.

Ao admitir publicamente que estava errada, inclusive em premissas básicas como o nome, concepção, estrutura e função do novo órgão, a Fenaj indicou uma disposição que o Legislativo - na condição de grande fórum nacional - não pode ignorar. Se a Fenaj tem algo a acrescentar, nada justifica a afobação para abreviar a inusitada e utilíssima temporada de transparência dos últimos quatro meses.

Compostura perdida

Prova da imperiosa necessidade de manter aceso o debate em torno da imprensa e do jornalismo é a própria figura do relator indicado para examinar o projeto que cria o CFJ - agora apensado a outro, anterior, que cria a Ordem dos Jornalistas do Brasil. O deputado Nelson Proença (PPS-RS) é um dos campeões de desregulamentação da mídia. Para ele, a FCC americana é coisa de comunistas.

O mais grave, porém, é que o premiado com a relatoria é também o feliz proprietário de uma rede de rádios no interior do Rio Grande do Sul. A duplicidade configura um gritante conflito de interesses e uma evidente inconstitucionalidade. É líquido e certo: o concessionário de um serviço público não pode ser ungido para um mandato popular ou vice-versa. O legislador não pode acumular funções, ser fiscal e fiscalizado.

Nelson Proença não é exceção, é a regra. Grande parte dos plenários da Câmara e do Senado é constituída por parlamentares-concessionários de emissoras de rádio e de TV. Alguns fingem um afastamento protocolar ou licenciamento, a maioria nem se dá ao trabalho de manter as aparências e o decoro. Se o presidente do Senado, José Sarney, é um potentado da mídia eletrônica regional, por que razão seus colegas do baixo clero não podem gozar dos mesmíssimos privilégios?

Esta aberração não será coibida com a criação do CNJ. Porém, mantida a discussão suscitada pelo desastrado projeto, será possível alcançar questões de grande magnitude que desfiguram a democracia e prejudicam diretamente nossa sociedade em matéria de informação, cultura e entretenimento. Quando o legislador deixar de ser concessionário de rádio e TV estará em condições para encarar a concentração da mídia - mãe de todos os problemas.

É óbvio que ao Executivo não interessa criar mais atritos na sua base parlamentar. Escaldado no primeiro round, o governo certamente não vai querer repetir a dose. Melhor assim. Este é um assunto que interessa principalmente à sociedade: se o Legislativo perdeu a compostura, pode-se recorrer ao Judiciário.


OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET

NOTAS DE UM LEITOR
O lugar da imprensa na batalha dos arquivos

Luiz Weis

Por definição, o maior inimigo do segredo há de ser sempre o jornalista, que vive de e para informar o público de tudo aquilo que, nas sociedades democráticas, é seu direito conhecer. (Jornalistas há também que vivem de divulgar coisas de que o público não precisa ser informado, por tratarem da intimidade alheia, mas essa é outra história.)

O direito às informações de interesse coletivo incide em primeiro lugar e mais intensamente sobre o que se passa no âmbito do Estado - não apenas porque o que aí se faz ou se deixa de fazer afeta a vida das populações, mas sobretudo porque elas constituem a fonte última de legitimação dos atos dos governantes e legisladores.

Com isso não se pretende negar que também o Estado deve ter uma esfera de privacidade, para proteger não os seus agentes, mas o interesse nacional, entendido este como sinônimo do interesse comum do conjunto dos cidadãos do país, segundo os parâmetros - decerto imperfeitos, mas insubstituíveis - da ordem democrática.

Por isso, existe uma tensão inerente entre jornalista e autoridade sobre o que, quando e como pode sair da redoma estatal para o ar livre.

Para ele, no limite, é tudo, já e por inteiro. Para ela, tudo, já e por inteiro, só quando for compatível com as proverbiais "razões de Estado" - algo que ele quase sempre considera, com bons motivos, um eufemismo para razões dos detentores do poder estatal, de acordo com a Regra de Ricupero: o que é bom a gente divulga, o que é ruim a gente esconde. No mais, a ver.

Benditas reportagens

Esse é o pano de fundo mais geral para a questão que entrou para a ordem do dia graças a um erro de imprensa. Em outubro, o Correio Braziliense deu como sendo do jornalista Vladimir Herzog, morto pela ditadura, fotos que se veio a saber serem do padre canadense Leopoldo d'Astous, molestado pela ditadura.

Para o que se seguiu, o erro é irrelevante: as benditas reportagens do Correio tiraram de vez a pasta do tubo. E obrigaram o governo a dar uma reposta ao clamor, a que não ficou alheio este Observatório, pela abertura dos arquivos da ditadura [veja abaixo].

Mas a resposta não serviu - e é dever do jornalista, para ser coerente com a sua dupla condição de inimigo número 1 do segredo e de alvo preferencial de todas as ditaduras, pressionar por outra, mais adequada aos imperativos da democracia e aos valores republicanos.

Essa pressão, diga-se desde logo, reconhece, como antes mencionado, que o Estado tem direito a seus segredos. Mas reconhece, no mínimo com a mesma ênfase, que todo segredo de Estado é uma lesão a direitos alheios - de pessoas, setores sociais e, evidentemente, de outros Estados também (cujos segredos, conforme o Estado e os fatos a que se refiram, podem lesar o direito do Estado brasileiro, por exemplo, às verdades que lhe são sonegadas).

Sem perder de vista essa equação, a imprensa, no entender deste leitor, deveria pressionar em duas frentes. Uma, de ordem geral, outra, específica.

Sigilo eterno

No primeiro caso, é preciso erradicar da legislação baixada na sexta-feira passada pelo governo, a passagem que, afinal, dá o dito por não dito, ao permitir que o Estado mantenha sepultos até o fim dos tempos os segredos que bem entender.

É assim, como deu nos jornais: o inciso 2 do artigo 6° do decreto do presidente Lula proíbe o acesso a documentos cujo sigilo "for imprescindível à segurança da sociedade e do Estado" - mesmo quando tiver expirado o prazo do segredo (5 anos, para documentos "reservados"; 10 para "confidenciais"; 20 para "secretos" e 30 para "ultra-secretos").

Pelo decreto, a decisão sobre o que é imprescindível ou prescindível caberá a uma comissão de nível ministerial (Casa Civil, Justiça, Relações Exteriores, Segurança Institucional e Direitos Humanos), mais a Advocacia Geral da União.

A Casa Civil baixará as "normas complementares" de atuação do colegiado. A julgar pela tradição, normas complementares, ou que nome tenham esses adendos - ou contrabandos, como se diz na gíria parlamentar - podem ser tão ou mais importantes do que aquilo que complementam.

É bem verdade - e é positivo - que essa Comissão de Averiguação e Análise de Informações Sigilosas terá o poder de rever as categorias em que a burocracia civil e militar enquadrou cada documento, portanto os prazos teóricos de sua divulgação.

Mas isso não torna menos inadmissível a brecha aberta para o "sigilo eterno", como desde a primeira e boa hora a imprensa tratou de chamar a esperteza.

O jabuti na árvore

Aliás, por falar em esperteza, nem a velhinha de Taubaté acreditará que foram produto de uma trapalhada burocrática os trechos ainda mais restritivos que constavam "indevidamente" da primeira versão do texto divulgado pelo Planalto e afinal recolhido, já pronto para sair no Diário Oficial.

Não que o governo seja uma ilha de competência, como bem se sabe. Mas o que levou o secretário Nilmário Miranda, dos Direitos Humanos, a gritar "parem as máquinas" lembra o folclórico jabuti no alto da árvore que não enganava os velhos políticos mineiros - se o bicho está lá é porque alguém o colocou, fazendo o que ele não conseguiria pela própria natureza.

A reportagem de Cristiane Jungblut e Evandro Éboli, no Globo de sábado, conta a inside story do texto que o Planalto acabou chamando de "versão primitiva" - um cabo-de-guerra que durou cinco horas. E foi o Globo, salvo prova em contrário, que avisou Nilmário que o divulgado não batia com o combinado.

Pelo jeito, a "imprescindibilidade" pode ter ido parar no decreto levado pelas mesmas mãos que pousaram o quelônio na versão da medida provisória abatida a tempo.

Adiante. Essa comissão não pode ficar como está - e é papel do jornalista brigar para que não fique. Ela deve incluir representantes de pelo menos duas organizações da sociedade: a Ordem dos Advogados do Brasil e a Associação Brasileira de Imprensa. Sim, passarão por suas mãos papéis secretos cujo dono exclusivo ainda será o Estado. Paciência.

Criem-se, até onde for possível, salvaguardas para evitar que eles contem aqui fora o que leram lá dentro. Mas quem garante que os outros comissionários se comportarão, invariavelmente, como se supõe que se comportem os padres-confessores?

Arquivistas ou carcereiros

Essas são boas brigas, mas a mãe de todas as batalhas em que a imprensa poderia prestar o serviço público de se engajar é outra: a do acesso aos arquivos específicos da ditadura. Mais especificamente ainda, aos arquivos da repressão.

Pressione-se o governo para encontrar a fórmula jurídica que dê tratamento especial a essa documentação e para obrigar os seus arquivistas - ou melhor, os seus carcereiros, como na magistral ilustração (de assinatura ilegível) da página 2 da Folha de S.Paulo de 11/12 - a buscá-los nos socavões onde os enfurnaram.

Exemplificando: uma coisa são os papéis trancafiados no Itamaraty, no Forte Apache, ou onde quer que seja, contendo eventualmente informações cabeludas sobre o conflito Brasil-Estados Unidos por causa do acordo nuclear com a Alemanha, entre 1974 e 1976, digamos; outra coisa é tudo que possa haver de memória oficial sobre os crimes da ditadura contra os direitos humanos nesse mesmo período.

Nos dois casos, a verdade histórica precisa ser conhecida, duela a quién duela. Mas o desvendamento da crônica secreta de animosidades entre governos - algo tão antigo como a sua mesma existência - pode esperar; não toda a eternidade, mas pode esperar.

O que não pode esperar, nem muito menos deve ser tratado como se fosse mercadoria do mesmo estoque, guardados do mesmo baú, é o registro de seja lá o que disser respeito às políticas e ações de repressão dos golpistas de 1964 e seus sucessores - sem excluir os atos de terrorismo paraestatal cometidos no governo daquele último general que saiu pela porta dos fundos e pediu que se esquecessem o seu nome.

Relevância e urgência

A liberação dessa papelada, das gravações, filmes e vídeos em poder do Estado - que, embora democrático, e, goste ou não, é o único fiel depositário dos textos, sons e imagens dos anos de chumbo que ainda não tiverem sido privatizados - tem a mesma relevância e urgência invocadas para a edição de medidas provisórias.

Relevância, primeiro, em respeito às vítimas diretas e indiretas dos braços repressivos, fardados e paisanos, que obedeciam ordens superiores ou agiam com a sua tácita aprovação; segundo, porque só se podem esquecer, se é disso que se trata, sofrimentos conhecidos e só se podem virar páginas já lidas; terceiro, porque saber é um verbo intransitivo: o que os brasileiros farão com o que vierem a saber de seu passado relativamente recente não pode servir de pretexto para limitar o seu acesso a respeito.

E urgência porque o caso das fotos do falso Vlado Herzog no Correio Braziliense revelou algo de que se poderia desconfiar, mas até então não era politicamente correto comentar: que o passado não passou nas cabeças de um certo número de oficiais da ativa (para não falar dos pijamas crispados da tigrada da organização Guararapes).

A primeira nota do Exército demonstrou que ainda hoje ocupam posições na hierarquia militar senhores que nada esqueceram e nada aprenderam. Já que o país acaba de (re)conhecer as suas idéias, é urgente que (re)conheça também os fatos delas indissociáveis. A plena informação, no caso, terá os mesmos poderes medicinais do veneno de cobra usado contra picada de cobra.

E se é para extinguir rancores de parte a parte, em nome da pátria comum, mire-se o Brasil na África do Sul. Para passar o apartheid a limpo, o instrumento foi a Comissão da Verdade e Reconciliação instituída no governo Mandela. Note-se o nome: uma coisa precede a outra.

Por fim, é vantajoso para o governo separar os arquivos da repressão dos demais e criar procedimentos diferentes para a sua liberação. Pelo menos os diplomatas já não terão motivos para formar com os militares a frente de resistência que mostrou a sua força na longa noite palaciana da última quinta-feira. (Salvo, quem sabe, quanto aos documentos sobre a participação brasileira na Operação Condor.)

Pode até não ser verdade que os povos que desconheçam a própria história estejam condenados a repeti-la. Mas, por via das dúvidas, convém não facilitar. E a imprensa, que não se cansou de invocar a democracia para fulminar como liberticida o projeto do Conselho Federal de Jornalismo, tampouco pode fugir da linha de frente na batalha dos arquivos.

[Texto fechado às 13h18 de 11/12]


5º BLOCO

Veja o que disseram os convidados após o programa:

Rio de Janeiro:

Luís Carlos Bittencourt - prof. Jornalismo Univ. Veiga de Almeida
"Devido ao tempo reduzido não pudemos aprofundar o tema, mas foi de grande importância."

São Paulo:

Maria Lydia Flandoli - Âncora Jornal da Gazeta
"Eu senti que abordamos muitos aspectos e não tivemos tempo para, uma coisa ao menos, deixar para reflexão: sobre o desafio. Se nós estamos à beira ou vivendo um crepúsculo dos âncoras, qual é o desafio, no sentido de não aceitar isso passivamente, se o âncora é uma figura em extinção ou se é um modelo que tem que ser trabalhado, que desafio é esse que hoje nós enfrentamos? Eu não consigo identificar o desafio. Faltou aprofundarmos um pouco nisso."

Florestan Fernandes Jr. - Jornalista
"Gostei do programa, que foi reflexivo, a gente sai daqui inquieto, pensando. Já há algum tempo eu estava incomodado com essa fórmula antiga de telejornal no Brasil, eu acho até porque a gente está vivendo um outro momento, politicamente conturbado, difícil, e acho que com o bombardeio de informação tão grande não dá mais para ter esse tradicionalismo pesado, arrastado, sem criatividade. O que o programa me trouxe de importante foi a reflexão de pensar que a gente pode seguir outros caminhos e que certamente a tevê brasileira até por ser bem feita, vai procurar esses caminhos. O problema continua sendo a questão que foi levantada no programa, do monopólio que existe nas telecomunicações no Brasil. O controle político ainda é muito grande nessas emissoras."


PERGUNTAS

E-mails recebidos na semana de 14/12 a 21/12:

George Spencer Soares, Recife / PE
Assisto algumas tevês interativas pela Internet. Elas estão indo pelo mesmo caminho das rádios, lendo matérias nos sites, como falou o Florestan Fernandes, e os apresentadores se colocando como âncoras... Será que eles vão manter os mesmos vícios, só com a mídia diferente?

Ronaldo Serpa, Campos / RJ
Não sei se estou errado, por afinidade com determinado partido, me passa a impressão que este âncora, grande jornalista que trabalhou muito anos na Folha de São Paulo, sem crucifica-lo, tem preconceito com determinado partido. Desculpe minha ignorância de telespectador.

Diógenes Nicolau Lawand
Maria Lydia faz o que fala... Realmente seus programas sempre utilizaram positivamente a inteligência dos ouvintes/telespectadores. Listas de notícias - tudo bem... Mas aprofundá-las no debate com diferentes é sensacional. Só tenho pena que finalizou aquele programa do meio-dia que Maria Lydia realizava na TV Gazeta. Posso saber o motivo? Parabéns Maria Lydia... Parabéns Observatório da Imprensa pelo convite à pessoas como ela... Vida e responsabilidade com coragem é o convite de Maria Lydia.

José Simões Ribeiro, Guarulhos / SP - Suboficial Reformado da FAB
Meu Caro Dines, tenho tido a atenção com o Observatório da Imprensa que o tema merece. A única coisa sensata que acontece na mídia. Em que pese a textura crítica da visão do Observatório. A questão é que temo pelo que o tema possa cair na própria visão da mesma mídia e acabe por se tornar um prolongamento dela, no próprio interesse dela. Uma espécie de ir buscar lã e voltar tosquiado. Por exemplo, uma questão de altíssima indagação vem tomando corpo nos últimos dias, após a nota do Exército. A questão da Anistia. Esse assunto vem sendo tratado na mídia corrupta, a normal, como defesa dos golpistas da Constituição de 46, travestido de defesa de interesse nacional, em ataque desrespeitoso à Constituição de 88. A própria crítica aberta a Cony, inclusive com a presença de Miguel Reale, professores da USP e outros, no Estadão. (Matéria de 15/11/04) Sabemos que representantes da sociedade como Dalmo Dallari, Chico de Oliveira, Frederico Mendonça, Cesar Benjamim, Emir Sader, José Carlos de Assis, José Carlos Dias e muitos outros, não comungam da visão direitista dos primeiros. No entanto não são ouvidos propositadamente. O que ocorre é que a anistia dos injustiçados fica com a visão prejudicada perante a sociedade, pelo tipo de abordagem marqueteira dos citados com Miguel Reale. Ele carrega na atualidade a visão dos golpistas contra os anistiandos e anistiados do país. E a mídia que sobreviveu ao golpe como meeira do arbítrio, como tão bem colocou Cony em sua auto defesa, acaba posando, na visão de Reale, como constatadora apenas de fatos e não de apoiadora de uma visão revanchista aproveitadora do momento. Espero que o Observatório da Imprensa, partindo de sua pessoa que conhece de perto a injustiça, não permita o respaldo à visão da mídia nesse capítulo da Anistia, trazendo ao enfoque o assunto, com a visão dos intelectuais citados, contrários aos pensamento de marqueteiros políticos e governamentais, que sobrevivem da própria mídia. O Observatório tem uma missão preponderante, quando vivemos sob a batuta de uma mídia que apoiou o golpe do qual sobreviveu financeiramente, durante mais de três décadas. O recente proer da mídia é um acinte a qualquer benefício dos anistiados, em que pese o ressarcimento milionário, este sim, de um marqueteiro de sindicato como o Lavorato. Aguardamos a interferência do Observatório da Imprensa na justa defesa constitucional dos anistiados.


Telefonemas recebidos em 14/12:

Lya Ferraz, Rio de Janeiro
Com a mudança do âncora, necessariamente há uma mudança na linha editorial do jornal?

Evandro Fernandes, São Paulo
Dines, existem âncoras no rádio também? Pode ser feita essa comparação?

Carlos Alberto, Rio de Janeiro
O jornalista Boris Casoy pode ser considerado um marco na "ancoragem" do Brasil?

Heloisa Moraes, São Paulo
Eu acho que o William Bonner está sendo um pouco pretensioso achando que os telespectadores tem capacidade de entender uma notícia e ter sua própria opinião sobre cada assunto?

Roberto Pereira, Rio de Janeiro
Os telejornais noticiam o que querem, os âncoras americanos também. Qual a real diferença?

Paulo Roberto de Santos, Imbuguaçu / SP
Os jornais de emissoras da TV aberta sofrem ou não de pressão por interesses externos?

João Faustino, Belo Horizonte
O âncora é o maior representante da ditadura da empresa. Ele só lê o que lhe é mandado. Assim como acontece com esse programa. O âncora é um censor. Não lê todas as perguntas dos telespectadores.

Antônio Marques Júnior, Rio de Janeiro
A expressão do âncora ao transmitir um notícia, pode ser tendenciosa na recepção e no entendimento por parte do telespectador?

Carlos Moraes, Cascavel / PR
Os apresentadores nada mais são que "vacas de presépio" da linha editorial das emissoras, já os âncoras têm a condição de comentar e até ir contra a linha editorial da emissora.

João Ribeiro Queirós, Rio de Janeiro
Acho que os apresentadores hoje são quase atores, pois lêem textos decorados e representam interesses específicos e não o interesse público.

Willian Mendes, São Sebastião / SP
Qual a diferença entre um âncora de jornal e um âncora de debate?

Antônio Uchunisch, Pedreira / SP
O que você acha da expressão tendenciosa que os âncoras transmitem ao passar uma notícia?

Raphaela Rodrigues, Rio de Janeiro
É possível fazer jornalismo vertical no pouco tempo permitido no telejornalismo?

João Oliveira, São Paulo
Por que os negros são tão poucos na função de âncora?

Simone Maria, Recife / PE
Na sua opinião a figura do âncora poderia ser totalmente retirada e as matérias apresentadas pelos próprios repórteres?

Décio Júnior, São Carlos / SP
Maria Lydia, qual é a sua opinião sobre a tendência de âncora adotada pelo "Jornal Hoje" da TV Globo, onde os apresentadores trocam comentários?

Rui Fulgêncio, Belo Horizonte / MG
Antonio Brasil, como seria um novo formato de telejornal sem âncoras?

José Paulo Arastes, Salvador / BA
Dines, se o telejornal é um "produto" das redes de TV, a figura do âncora que é uma estrela não é fundamental para valorizar esse produto?

Paulo Xavier, Recife / PE
Eu gostaria de saber o que os participantes acham do jornalismo feito pelo SBT, que usa mulheres bonitas como âncoras para chamar audiência?

André Machado, Uruguaiana / RS
Por que a imprensa chama de coalizão os invasores estrangeiros e de terroristas os que reagem em seu próprio território?



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