PROGRAMA DO DIA 30 de novembro de 2004

RICARDO KOTSCHO

Neste programa fizemos um balanço do trabalho do secretário de imprensa, Ricardo Kostcho, no governo Lula.

Soubemos do jornalista como foi a experiência de atuar nestes dois anos junto à mídia. Debatemos como o secretário vê a imprensa atual.

Como a imprensa retrata o governo petista? Para o jornalista é mais difícil ser oposição ou governo?

Leia o resumo do programa

  Veja o Compacto

DE MENGELE A HERZOG
Arqueologia e atualidade do nazismo

Alberto Dines

São importantíssimos os documentos que pertenceram ao médico-monstro Josef Mengele descobertos pelos repórteres da Folha de S.Paulo. Daí a repercussão na imprensa internacional das matérias publicadas nos domingos 21/11 e 28/11.

Leia na íntegra

Houve avanços nas relações entre governo e imprensa na gestão Lula?

Resultado:

Sim: 29%

Não: 47%

Ficou na mesma: 24%

Aqui você pode participar de fóruns sobre assuntos ligados à imprensa, deixar seu recado no nosso mural e ler as perguntas dos telespectadores.

Perguntas - Aqui são colocadas as perguntas dos telespectadores que chegam por telefone, fax ou e-mail durante o programa e ao longo da semana.

5 Bloco - Leia a opinião dos participantes do programa, sobre o debate.

Editorial:

Bem-vindos ao "Observatório da Imprensa".

Os Presidentes da República, em geral, gostam de ter ao seu lado grandes jornalistas. Jânio Quadros teve Carlos Castello Branco e Evandro Carlos de Andrade, João Goulart teve Raul Ryff, Costa e Silva escolheu Carlos Chagas e Heráclio Salles.


Leia na íntegra

POLÍTICA AUDIOVISUAL
TV e produção independente, avanços com responsabilidade
Nelson Hoineff

A Folha de S.Paulo publicou no domingo (28/11) uma ampla matéria ("TV barra obrigação de exibir independentes") que poderia ser usada nas universidades para mostrar como informações incompletas, ainda que inocentes, podem ser mais desinformativas do que os esforços orgânicos de desinformação.

Leia na íntegra


RESUMO DO PROGRAMA

RICARDO KOTSCHO

O Observatório da Imprensa do dia 30 de novembro entrevistou o jornalista Ricardo Kotscho, que acabara de deixar a Secretaria de Imprensa e Divulgação da Presidência da República.

Participaram do programa, em Brasília, a jornalista de O Globo, Teresa Cruvinel; no Rio de Janeiro, o ombudsman da Folha de S. Paulo, Marcelo Beraba. Em São Paulo, além de Ricardo Kotscho, participou o editorialista do Estado de S. Paulo, Mauro Chaves.

Alberto Dines iniciou a entrevista perguntando a Kotscho sobre vaidades que cercam o poder em Brasília, não só dos políticos, mas dos próprios jornalistas: "Para mim, como eu disse em algumas entrevistas, foi um choque cultural. Era tudo diferente do que eu tinha vivido ao longo de quase quarenta anos. Morar em Brasília, trabalhar no Governo, na cobertura do dia-a-dia do poder, da questão política que é uma coisa que eu não tinha feito antes. É uma competição muito grande e, às vezes, não só entre os veículos, mas entre profissionais do mesmo veículo. E aí vale tudo. E eu ficava no meio. Acho que trabalhar em Brasília é, acima de tudo, uma lição permanente de caráter, mais que de ideologia", respondeu o convidado.

Seguindo a mesma temática, a colunista de O Globo, Tereza Cruvinel, quis saber: "Eu até queria ouvir o Kotscho sobre esta mística criada em torno do jornalismo de Brasília, de que é uma promiscuidade, uma intimidade permanente. Ele, que já foi repórter fora de Brasília, em São Paulo e que aqui estava do outro lado, como ele vê esse relacionamento, que eu acho que é uma oportunidade importante de alguém falar sobre isso, ainda mais alguém numa posição especial como a que ele teve".

Ricardo Kotscho conta: "Eu conheci, em Brasília, funcionários muito dedicados, funcionários de carreira, assim como jornalistas também. Eu acho que o problema de Brasília é outro. É que a concentração de bons jornalistas é muito grande em espaços muito pequenos. Você fica ali num triângulo, Congresso, Palácio do Planalto, Ministérios, a Esplanada. Isso não quer dizer que haja uma promiscuidade, mas eu volto à questão anterior, há uma competição exagerada".

Perguntado pelo jornalista Mauro Chaves se Lula estava realmente preparado para ser presidente, o ex-Secretário lembrou: "Eu acho que ninguém se preparou mais do que o presidente Lula para exercer essa função. Desde que eu o conheço, desde 1978, o contato que ele teve com a realidade brasileira, com pessoas de todos os setores da sociedade, ao longo desses anos, e em muitos momentos eu tive a oportunidade de acompanhá-lo, da participação dele em estudos, em seminários, primeiro no governo paralelo depois no instituto de cidadania, acho que as pessoas mais capazes do Brasil, em todas as áreas, participaram de discussões, de debates e de projetos que foram preparados em conjunto com o presidente Lula".

Marcelo Beraba questionou Kotscho a respeito das entrevistas coletivas dadas pelo Presidente que, segundo ele, eram muito restritas em relação às perguntas e aos participantes: "Você tem razão em alguma coisa, mas em outras não. Nunca ninguém determinou quais as perguntas que deveriam ser feitas, inclusive porque jornalistas muito respeitados da Folha de S. Paulo, onde você trabalha, participaram de várias dessas entrevistas. Entrevistas coletivas você tem em vários formatos. Em um ponto você tem razão e essa é uma frustração minha, eu não consegui fazer isso, é uma entrevista formal, no Salão Leste do Palácio do Planalto. Tentei fazer antes de sair, até pedi ao Presidente. Claro, poderia ser mais e melhor. Foi feita uma pesquisa agora sobre as diferentes áreas do Governo e, em primeiro lugar, ficou educação, das áreas que a população aprova mais, e em segundo a comunicação com a sociedade", afirmou Ricardo Kotscho.

No último bloco do programa, o entrevistado fez suas considerações finais: "Eu agradeço aos colegas que participaram e levantaram tantos assuntos. Acho que cada tema desses é pauta para outros programas e gostaria de ser convidado no futuro para voltar a discutir isso, a minha paixão que é o jornalismo, que é a informação. Muito obrigado a todos".

Tiago Chediak (estagiário)


EDITORIAL

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

Os Presidentes da República, em geral, gostam de ter ao seu lado grandes jornalistas. Jânio Quadros teve Carlos Castello Branco e Evandro Carlos de Andrade, João Goulart teve Raul Ryff, Costa e Silva escolheu Carlos Chagas e Heráclio Salles.

O porquê desta preferência não está muito claro mas o que hoje está claro é que não levaram em consideração um dado crucial: o bom jornalista, por natureza, não convive bem com o poder. Ao contrário, o bom jornalista, geralmente, é avesso aos protocolos, agendas e compromissos inerentes às funções palacianas.

O presidente Luís Inácio Lula da Silva escolheu como Secretário de Imprensa um grande repórter que o acompanhava desde o momento em que iniciou a jornada para chegar ao Palácio do Planalto.

Ricardo Kotscho sempre foi um jornalista de ação, repórter de rua. E talvez por causa do seu passado fuçador, inquieto e inconformado Ricardo Kotscho tenha desistido no meio do primeiro mandato de uma função estratégica, de grande importância política, mas sob o ponto de vista estritamente jornalístico, muito inconfortável.

O jornalista busca a verdade, o funcionário público serve-se da verdade e nem sempre os interesses convergem. Quando o Presidente decidiu não renovar o visto do correspondente Larry Rother, do New York Times, Ricardo Kotscho, aqui neste Observatório, mostrou ao Brasil inteiro, de forma transparente, digna e superior, a contrariedade de um profissional comprometido com a defesa da liberdade mas rigorosamente fiel aos seus deveres funcionais.

Ricardo Kotscho volta a este Observatório não apenas para fazer um balanço destes dois anos nos bastidores do poder mas, sobretudo, para relembrar a sua experiência num posto de observação privilegiado sobre o comportamento da imprensa diante do poder.


ARTIGO
Por Alberto Dines

DE MENGELE A HERZOG
Arqueologia e atualidade do nazismo

Alberto Dines

São importantíssimos os documentos que pertenceram ao médico-monstro Josef Mengele descobertos pelos repórteres da Folha de S.Paulo. Daí a repercussão na imprensa internacional das matérias publicadas nos domingos 21/11 e 28/11.

Os papéis de Mengele não apenas desvendam a arqueologia do nazismo, mas o atualizam e o adaptam às circunstâncias em que aqueles textos foram escritos. Avaliar este material tão-somente dentro da perspectiva da 2ª Guerra Mundial é confiná-lo a uma esfera temporal enganosa. O nazismo hitlerista pode ter sido erradicado em Nuremberg, 1945, mas os seus fundamentos foram modernizados e levados adiante.

As matrizes ideológicas que permeiam os documentos desvendados pela Folha precisam ser recortadas e colocadas no contexto e ambiente em que foram escritos. Indispensável lembrar que dos 19 anos que o carrasco viveu no Brasil, cerca de 15 coincidiram com a ditadura militar.

O homem não era um tolo, sabia exatamente o que se passava mesmo que os jornais e revistas brasileiros, a partir de 1968, estivessem sob censura. O Mein Kampf de Hitler para ele era secundário, mais importante era a sua reanimação diante do turbilhão do fim dos anos 1960.

A importância dos papéis de Mengele reside justamente nesta reanimação do ideário nazista original e seu ajustamento à conjuntura da Guerra Fria e, sobretudo, ao panorama latino-americano dominado pelos militares de extrema-direita. Ao que consta, são os únicos textos neonazistas redigidos por um nazista da velha guarda.

Crucial e valioso é o ensaio sobre a perniciosa influência dos meios de comunicação de massa controlados por um povo que, segundo o autor, era dominado por um "espírito perverso". Mengele não identifica este povo, mas deixa muito claro que são os judeus.

Estende-se sobre a perniciosa influência dos meios de comunicação sobre a juventude e, não contente, mostra que a maioria dos psicanalistas americanos pertencem à mesma raça "nobre" do fundador da psicologia dos complexos sexuais reprimidos (Folha, 28/11, págs. A28 e A29).

Pressão dos gorilas

Para entender a dimensão dos arquivos de Mengele desencavados pela Folha é imperioso adicioná-los às não menos sensacionais revelações do repórter Uki Goñi no seu recém-lançado livro A verdadeira Odessa (Editora Record, 448 pp., Rio de Janeiro, 2004). No Globo (21/11, pág. 51), Goñi mostra que o médico não era um paranóico e "visionário" solitário.

Mengele não estava sozinho, a prova são os dados numéricos sobre a repressão na Argentina a partir da ditadura ali instalada em 1976: dos 8.956 desaparecidos, 1.296 eram judeus assumidos, 12% do total de presos. "A matança foi desproporcional porque a comunidade judaica não somava mais de 1% da população", anota Goñi.

Se lembrarmos a raiva dos militares contra os psicanalistas argentinos (cuja maioria era também constituída de judeus), entende-se por que Mengele investiu contra os seguidores de Freud.

Goñi rememora o episódio em que o coronel Ramón Camps, chefe da polícia de Buenos Aires, revelou para a imprensa estrangeira os termos com os quais extraiu do jornalista Jacobo Timerman sua "confissão" de sionismo. A ela deve somar-se a violenta pressão dos gorilas portenhos contra a Editora Abril da Argentina (então a mais importante do país) levando seus proprietários a deixar o país.

Josef Mengele já não vivia na Argentina (seguramente assustado com o seqüestro do seu camarada Adolf Eichmann). Agora estava escondido e impregnado com o que se passava no seu refúgio, o Brasil. Grandes grupos de comunicação brasileiros tinham não apenas acionistas, mas jornalistas judeus.

Jornalista morto

Em janeiro de 1969, em seguida à promulgação do AI-5, num interrogatório conduzido na 2ª Seção do 1º Exército (com sede Rio de Janeiro), o chefe daquela operosa repartição, o então coronel César Montagna, insistiu com um jornalista judeu por que razão um jornal tão ostensivamente católico como o Jornal do Brasil tinha um editor-chefe judeu.

Curiosamente, poucos anos depois (dezembro de 1973), numa sucessão de demissões, o jornalão livrou-se dos seus incômodos judeus.

Pela avaliação dos repórteres da Folha, o ensaio sobre os meios de comunicação e a propagação das "misérias do nosso tempo" pelos judeus teria sido escrito no fim dos anos 1960. Mas estaria perfeitamente atual no início e meados da década de 1970.

Em outubro de 1975, em São Paulo, foram presos algumas dezenas de jornalistas. Muitos pertenciam aos quadros da TV Cultura. O secretário de Cultura do Estado era o judeu José Mindlin. De todos os jornalistas encarcerados o único que morreu nas mãos da repressão foi o jornalista Vladimir Herzog. Judeu.

Mengele não estava sozinho.


OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET

POLÍTICA AUDIOVISUAL
TV e produção independente, avanços com responsabilidade
Nelson Hoineff

A Folha de S.Paulo publicou no domingo (28/11) uma ampla matéria ("TV barra obrigação de exibir independentes") que poderia ser usada nas universidades para mostrar como informações incompletas, ainda que inocentes, podem ser mais desinformativas do que os esforços orgânicos de desinformação.

Um grande esforço de desinformação, como se sabe, vem sendo perpetrado por boa parte da mídia desde que foi apresentado o projeto de criação da Ancinav (Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual), em agosto deste ano. Começou por buscar os excessos que havia na primeira versão do projeto (entre os quais algumas propostas seguramente concentracionistas, que poderiam induzir indesejáveis interferências no conteúdo) para torpedear todo o seu teor.

A maioria desses excessos caiu por terra logo na primeira reunião do Conselho Superior de Cinema - e ao longo das dez outras que se seguiram. Mas os ataques ao projeto continuaram, e nem sempre no campo das idéias.

É muito possível que uma rejeição tão genérica se deva simplesmente à imagem que restou de um projeto que acabou sendo preparado e lançado de forma atabalhoada. Mas é possível também que tal reação seja mais cerebral do que intuitiva - e tenha como base o repúdio à intenção, de fato contida no projeto, de se criar no Brasil alguma forma de regulação à distribuição do conteúdo audiovisual.

Controle estrangeiro

É preciso que se entenda que a regulação em si não é fruto de uma agenda ideológica inventada pelo governo brasileiro. Ela existe, solidamente implantada, em países como os EUA, a França, a Grã Bretanha e a Alemanha, para ficar só no grupo dos mais liberais.

Nesses países a lei distingue o emissor do produtor, cria condições para que as emissoras de televisão sejam impelidas a buscar em produtores externos parcelas substanciais de sua programação, estabelece porcentuais para isso e determina a participação das emissoras de TV na produção dessas obras. Trata-se, em quase todos os casos, de preceitos regulatórios não restritivos, mas inclusivos. Não se tira de um lado para dar ao outro. Apenas se preconiza direitos e oportunidades isonômicas à produção audiovisual, como é praxe em todas as demais indústrias.

Nos mercados em que existe esse tipo de regulação o resultado tem sido o fortalecimento da televisão - que exibe uma programação melhor e mais diversificada - e dos produtores que trabalham para prover o conteúdo que as emissoras vendem ou distribuem. Essa é a regra que vige nas relações entre emissores e produtores de televisão em todo o mundo.

Há diferenças entre os modelos. Mas o que não existe, no mundo civilizado, são casos em que o produtor de TV seja constrangido a não ter o direito de sequer disputar o espaço de produção dentro do mercado em que atua. Tal situação configura uma forma de censura que as sociedades de todos esses países dificilmente aceitariam.

Entre os principais argumentos que as emissoras de televisão brasileiras têm apresentado para fugir a qualquer forma de regulação está o alto índice de nacionalização de sua programação. Elas agem como se o perigo estivesse nos empresários estrangeiros que estariam dispostos a controlar de qualquer maneira a programação vista pelo povo brasileiro.

Pontos comuns

Durante o III Encontro Internacional de Televisão, realizado nos dias 25 e 26 de novembro, no Rio, o nome Rudolph Murdoch foi um dos mais citados, obviamente em decorrência da recente fusão Sky-DirecTV.

Para muitos dos participantes do encontro, entre eles importantes executivos de televisão, Murdoch parece ter entre seus principais objetivos de vida o de exterminar a identidade cultural da nação brasileira. A imagem insistentemente vendida é que são as emissoras brasileiras que estão lutando bravamente contra esse monstrengo do colonialismo cultural, exibindo, apesar de todas as dificuldades, uma programação altamente nacionalizada.

A insustentabilidade dessa tese chega aos limites do humorístico. Pastores evangélicos ou vendedores de tapetes, por exemplo, também são brasileiros. E os programas que apresentam, em muitas redes, são, ademais, produções independentes. Pelo raciocínio exposto, quem montar uma grade de programação composta exclusivamente por pregações evangélicas e vendas de tapetes "shiraz" terá o maior índice de nacionalização e exibição de produção independente do país.

As sutilezas que existem no caso da televisão brasileira - e é isso que o texto da Folha tem visível dificuldade de captar - começam pelo fato de que as emissoras de TV utilizam o mesmo discurso mas estão falando de coisas diferentes. Exatamente por essa razão é que foram obrigadas a dividir suas formas institucionais de representação: desde a semana passada, a Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão) interpreta os pontos de vista da Rede Globo, enquanto a Abra (Associação Brasileira de Radiodifusores) interpreta os de todas as outras, que são completamente diferentes.

É uma briga de cachorro grande, onde a produção independente brasileira é o elo mais fraco - um elo capilar dentro da cadeia, que pode ser rompido a qualquer momento. Ocorre, então, que não é politicamente cabível à produção independente brasileira buscar confrontações irreversíveis com as redes de televisão. O que ela deve fazer, em vez disso, é buscar pontos de interesse comum que possam levar a parcerias, não apenas comerciais mas principalmente políticas. Nesse quadro, o clima de Fla x Flu pode ser bom para render manchetes de página, dar a ilusão do contraditório e despertar a atenção de alguns leitores. Mas nem remotamente interpreta o que de fato acontece na dinâmica da formulação das políticas públicas para o setor.

Embrulhando peixe

Não há, nesse contexto, uma queda-de-braço entre produtores independentes e emissoras de televisão. E não há por várias razões. Em primeiro lugar, seria necessário determinar se a disputa é com a Globo ou se com o conjunto formado por todas as outras emissoras, que são braços bem diferentes. Em segundo porque qualquer dos braços seria mais forte que o dos produtores. Em terceiro, porque nenhum produtor, seja lá do que for, quer criar um ambiente de conflito permanente com seus clientes.

O que o produtor independente de TV quer é abrir mercado com esses clientes, e estabelecer alianças sólidas que decorram do entendimento de que a pluralização da produção televisiva é boa para todo mundo. Ele quer provar que a comercialização da produção independente é capaz de trazer mais qualidade, mais competitividade e menores custos para as emissoras.

É isso que interessa aos produtores - e também à sociedade brasileira. O que não interessa é a idéia de que os produtores estão vencendo a queda de braço, ou fazendo um a zero no Fla x Flu, e muito menos empurrando pela goela das emissoras um produto que elas não desejam.

O mercado de televisão não é um reality show, embora os jornais às vezes não percebam a diferença entre uma coisa e outra. No mundo real, nenhum produtor pensa em tornar-se inimigo a priori de quem compra e faz a difusão dos seus produtos. Isso pode ser bom para um jornalismo sensacionalista, que é efêmero como a duração de uma manchete de página. A página estará no dia seguinte embrulhando peixe, mas os produtores de televisão permanecerão no mercado quando as manchetes já forem outras.

Por um mercado saudável

Vamos aos fatos. O artigo do projeto da Ancinav a que o texto da Folha se refere (o antigo artigo 90) rezava que as emissoras firmarão anualmente um compromisso público para a exibição de um porcentual mínimo de obras de produção independente. Sua intenção é nobre, mas resultaria inviável por um conjunto de razões.

A primeira é de ordem prática: esse compromisso não é para ser firmado por cinco ou seis redes de televisão, mas por cada uma das emissoras no país, que são mais de 2.000. Mais de dois milhares de emissoras tão diferentes entre si que algumas não dispõem sequer de equipamentos de gravação e reprodução - e muito menos têm a autonomia das redes para firmar acordos de programação. Não há como obter dessas emissoras o compromisso de que estarão no ar no domingo seguinte...

A segunda razão é que um compromisso público dessa natureza quer dizer pouca coisa ou quase nada. Não existe a possibilidade de aplicação de sanções para a quebra desse compromisso. Por conseguinte, não existe compromisso algum.

Um substitutivo apresentado no âmbito do Conselho Superior de Cinema instituía simplesmente uma quota de tela para a exibição de produção independente. É uma alternativa bem melhor, seguramente a melhor entre todas as apresentadas. A principal razão para que se desconfie de sua eficácia, no entanto, está contida na própria matéria da Folha, quando esta descreve as quatro maiores produtoras independentes do país. Entre elas está a O2 (a maior produtora de publicidade da América Latina, e que produz Cidade dos Homens juntamente com a Globo) e também a Gugu Produções - a qual, segundo a matéria, está fechando o ano com faturamento de 4,5 milhões de reais e que acaba de investir 11 milhões de reais na construção de sua sede e outros 2 milhões de reais em equipamentos. Isso não é investimento típico de produtora independente, mas de emissora de televisão. Por outro lado, não seria difícil imaginar de onde viria a cota de produção independente do SBT, por exemplo.

Outra razão para que se reflita sobre a aplicação da quota de tela pura e simples está nas peculiaridades da televisão brasileira e no entendimento do que deveria ser a estratégia para modernizar a relação viciada que historicamente ocorre entre emissoras e produtores. O monolitismo do modelo brasileiro de televisão está na raiz disso. Em nenhum outro lugar do planeta ele é tão sólido. É como se estivéssemos lidando com dois modelos de televisão que convivem sob a capa de um só: o da Globo e o de todas as outras.

A Globo bate na tecla de que está sendo punida por um crime que não cometeu. Há dois erros nesse argumento. O primeiro é que a regulação não existe para punir ninguém, mas para criar um mercado mais saudável - o que, em grande parte, a própria ação da Globo vem preconizando. O segundo é que não se pode legislar pontualmente. O que vale para uma tem que valer para as outras.

Traços de amadorismo

A matéria da Folha cita Metamorphoses, novela que a produtora Casablanca realizou para a Record, como um exemplo de produto que conseguiu conquistar "uma brecha na programação". A realidade, infelizmente, não é essa.

O caso de Metamorphoses (ao qual este Observatório já se referiu em outras ocasiões) exprime uma distorção grave nesta relação, que cabe aos produtores e à sociedade evitar que se repita. Uma situação em que se transferiu para uma só parceira, a produtora, todos os ônus financeiros de um fracasso anunciado. O desastre em que o projeto (em si uma grande fogueira de vaidades, intrigas e despreparo) se constituiu desabou inteiramente sobre uma das partes, circunstancialmente a maior finishing house do país - que, portanto, pôde bancar os altos custos de uma idéia natimorta.

Mas não é exemplo de conquista alguma e só aconteceu por um capricho da própria Casablanca, bem aproveitado pela rede que abrigou, quase de graça, um produto concebido com traços constrangedores de amadorismo. Não é exatamente isso que se está pensando quando se fala da necessidade de implantação de mecanismos de apoio à produção independente de TV no país.

Choque de culturas

Neste ambiente corroído por tantas distorções, a única forma responsável de ação não está na busca do confronto predatório, mas da oportunidade para a mudança da cultura vigente no mercado televisivo.

Não existe outra alternativa visível e ainda assim as dificuldades são muitas. A primeira é que essa cultura (mais especificamente a noção de que exibidora e produtora são a mesma coisa) existe desde que a televisão se instalou no país. É algo consolidado há muito tempo, cristalizado pela ação inercial e amparado pela falsa premissa de que as emissoras de televisão não receberam do Estado apenas a concessão para transmitir e comercializar programação, mas também a licença para monopolizar a produção.

A segunda dificuldade é o fato de emissoras com ideários tão diferentes darem a falsa impressão de que, pelo menos no que tange à relação com a produção independente, estão falando em uníssono.

É difícil entender o que faz a Globo aceitar o papel de defender o que ela própria não acredita, já que sua relação com a produção de conteúdo é bem distinta da relação sustentada pelas demais emissoras. Trata-se visivelmente de uma questão de princípio, mas que se torna cada vez mais ruidosa. Basta interpretar com um mínimo de seriedade a história política recente da televisão brasileira para perceber que essa posição será revista em breve - tal como no ano passado as circunstâncias provocaram a mudança da postura da emissora em relação às mudanças no artigo 222 da Constituição, que trata da presença do capital estrangeiro nas empresas de comunicação.

Quando a Globo se tornar franca aliada das produtoras independentes - e é inevitável que isso aconteça em pouco tempo - então estarão criadas condições básicas para a mudança da cultura em todo o ambiente da televisão brasileira.

Enquanto isso não acontece, a estratégia política para fortalecer a produção independente junto à televisão não consiste em confrontar todas as emissoras de uma só vez, mas em criar canais de intersecção (não apenas de diálogo) entre as emissoras e a produção. É precisamente nisso que consiste uma terceira proposta, que acabou contemplada pelo comitê civil do Conselho Superior de Cinema. Criou-se um Condecine (Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica e Audiovisual Brasileira) para as emissoras de televisão - e descontos neste Condecine para as emissoras que trabalharem com percentuais superiores a 20% de produção independente.

Há aí uma discreta analogia com o que aconteceu no artigo 39 da Medida Provisória 2228-1, que criou uma grande taxação para as programadoras de TV por assinatura e uma boa redução para as que aplicarem a taxa na co-produção de obras brasileiras. O expediente provocou muitas fraudes que ainda estão por ser corrigidas, mas gerou 20 milhões de reais para a produção e colocou o produto brasileiro em redes internacionais que não cogitavam dessa possibilidade.

No caso das emissoras abertas, o substitutivo aprovado ao artigo 90 pode numericamente não representar muita coisa. Mas o foco da questão não está no volume de dinheiro gerado para a produção, e sim na sua significação política. O que é de fato relevante é que pela primeira vez em mais de 50 anos de televisão no Brasil um preceito legislativo é criado no âmbito da produção e distribuição de conteúdo. Um vínculo é estabelecido entre as taxações a que as emissoras estão sujeitas e o volume de produções independentes que elas estiverem comprando.

O resultado pode ser menos visível e de menor impacto que o estabelecimento da quota de tela, por exemplo. Mas será muito mais eficaz e consistente. Além disso, é notável o fato de que essa aprovação tenha sido conseguida por consenso dentro do Conselho Superior de Cinema, com o voto inclusive dos representantes das televisões. Esse é um fato político que não pode ser desprezado.

Nunca se avançou tanto no sentido de quebrar resistências e começar a mudar uma cultura entranhada há cinco décadas, mantendo-se ao mesmo tempo um clima de cooperação - não de guerra - entre os produtores de televisão e as emissoras que serão as compradoras e exibidoras de seus produtos.

Essa foi uma das grandes conquistas do projeto de lei que será entregue ao presidente da República para que ele o envie ao Congresso. Resultou de uma costura política improvável e que, sem alarde nem proselitismo, pode começar a mudar uma relação viciada há meio século.

Quanto às manchetes levianas, elas prestariam um favor ao leitor se continuassem se ocupando do casamento do Luciano Huck.


5º BLOCO

Veja o que disseram os convidados após o programa:

São Paulo:

Mauro Chaves - Editorialista Estado de S. Paulo
"Foi muito interessante; chegou a um certo momento eu provoquei um pouco, porque você pega um colega que está no governo e faz uma provocação dupla, mas acho que valeu bastante, foi interessante e fluiu bem, tanto que achei o tempo curto."


PERGUNTAS

E-mails recebidos na semana de 30/11 a 07/12:

Denilson da Silva, Osório / RS
Prezado Dines, gostaria de fazer os seguintes questionamentos ao entrevistado: Você (Ricardo) que esteve muito próximo do presidente Lula como vê o desempenho do Governo na área social e também econômica? Você "comunga" das mesmas críticas que setores da oposição e também da ala mais a esquerda dentro do próprio PT, fazem ao governo nessas duas áreas? E ainda, qual a relação do presidente Lula com esses setores e com essas críticas principalmente após o resultado do segundo turno?

Carlos Cavalcanti
Caro senhor, por que não se questiona a liberdade de comunicação através da imprensa do audiovisual e, igualmente, não se abre o direito da sociedade civil poder criticar, ou até de rejeitar, um programa da imprensa do audiovisual?

Maria Antonia de Abreu Sampaio Leme
Lamentável a entrevista do jornalista em questão. Parecia um contorcionista se desviando dos dardos. Falou, falou, e... relativizou tudo. Ou não queria ou não podia falar. Que acusação velada ao governo do PT que isso representou, hein? Mais do que se tivesse respondido às perguntas. Quanto aos demais participantes do programa: o ombudsman da FSP foi magnífico, o editorialista do OESP, sensacional e a Teresa Cruvinel estava ali para ajudar o Kotscho a se esconder das perguntas. Enfim, pelo 'não dito' percebemos a extensão da tragédia desse governo que aí está. Que os brasileiros aprendam a votar para depois não se arrependerem. Sem pão e com o circo fechado para balanço, o que restará do governo Lula?


Telefonemas recebidos em 30/11:

Houston Alves, Cedró / CE
Qual o maior oponente de Lula nas próxima eleição, o senador Tasso, o governador Alckmin ou o Garotinho?

Lincon Lima, Rio de Janeiro
Kotscho, você tendo acompanhado sempre o governo Lula, como vê o geral descontentamento dos intelectuais com o governo?

Renata Magalhães, Rio de Janeiro
Queria que você comentasse o comercial feito pelo Duda Mendonça, veiculado apenas uma vez com o custo de oito milhões, sendo feito após sua censura outro comercial para substitui-lo.

Álvaro Araújo, Marília / SP
Kotscho, como o governo Lula vai trabalhar a questão do ensino superior no Brasil? Ele já comentou sobre isso com você?

Mauro Passos, Belo Horizonte / MG
Kotscho afirmou que o presidente Lula conhece tudo sobre o Brasil, mas em um debate com o Garotinho, Lula não sabia qual era o imposto SID. Hoje ele já sabe?

Jorge Henrique, Niterói / RJ
Kotscho, em sua entrevista na Caros Amigos você respondeu que não sairia do governo, o que mudou desde então?

Djalma Santos, Olinda / PE
O Presidente Lula afirmou que os dois primeiros anos do seu governo foram de "amigos" e que os dois últimos seriam do "trabalho e da eficiência", então quer dizer que quem saiu não era competente?

Fernanda Haddad, Barretos / SP
Como jornalista, qual a sua opinião sobre a "despetização" do governo Lula?

Alceu Carvalho, Marília / SP
Você pode comentar melhor o caso da expulsão do jornalista americano pelo governo Lula?

Marcos Vieira, Recife / PE
Mauro Chaves, qual a sua intenção ao fazer a pergunta sobre a escolaridade de Lula?

Vaílton Ferreira, São Paulo
O que você acha da discussão sobre a abertura dos arquivos da ditadura?

João Ribeiro de Assis, Rio de Janeiro
O governo Lula é manipulado por um poder paralelo chamado FMI. Este governo não existe.

Eduardo Braga, Palmas / TO
Kotscho, por que você deixou o governo Lula se ainda acredita nele?

Antônio Carlos, Araçaí / MG
Como você vê a precariedade dos jornalistas atualmente?

Rui Fulgêncio, Belo Horizonte / MG
Kotscho, qual a sua opinião agora, fora do governo, sobre o Conselho Federal de Jornalismo?

Jaime de Souza, São Paulo
Qual seria o limite entre a ética jornalística e a liberdade de imprensa?

Alexandre Alves, Vale do Paraíba / SP
Kotscho, você acha que ainda há espaço para um certo romantismo no jornalismo?

Estevão Antunes, São Gonçalo / RJ
Onde estão os dez milhões de empregos que o Lula prometeu?

José Caetano da Luz, Rio Branco / AC
As crônicas do Diogo Mainardi afetam de alguma maneira o humor do presidente Lula?

Lincoln Vargas, Niterói / RJ
Kotscho, neste momento você diria que um jornalista ligado ao governo, como assessor de imprensa, por exemplo, pode ser absolutamente imparcial?



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