RESUMO DO PROGRAMA
RICARDO
KOTSCHO
O
Observatório da Imprensa do dia 30 de novembro entrevistou o jornalista
Ricardo Kotscho, que acabara de deixar a Secretaria de Imprensa e
Divulgação da Presidência da República.
Participaram do programa, em Brasília, a jornalista de O Globo, Teresa
Cruvinel; no Rio de Janeiro, o ombudsman da Folha de S. Paulo, Marcelo
Beraba. Em São Paulo, além de Ricardo Kotscho, participou o
editorialista do Estado de S. Paulo, Mauro Chaves.
Alberto
Dines iniciou a entrevista perguntando a Kotscho sobre vaidades que
cercam o poder em Brasília, não só dos políticos, mas dos próprios
jornalistas: "Para mim, como eu disse em algumas entrevistas, foi um
choque cultural. Era tudo diferente do que eu tinha vivido ao longo de
quase quarenta anos. Morar em Brasília, trabalhar no Governo, na
cobertura do dia-a-dia do poder, da questão política que é uma coisa que
eu não tinha feito antes. É uma competição muito grande e, às vezes, não
só entre os veículos, mas entre profissionais do mesmo veículo. E aí
vale tudo. E eu ficava no meio. Acho que trabalhar em Brasília é, acima
de tudo, uma lição permanente de caráter, mais que de ideologia",
respondeu o convidado.
Seguindo
a mesma temática, a colunista de O Globo, Tereza Cruvinel, quis saber:
"Eu até queria ouvir o Kotscho sobre esta mística criada em torno do
jornalismo de Brasília, de que é uma promiscuidade, uma intimidade
permanente. Ele, que já foi repórter fora de Brasília, em São Paulo e
que aqui estava do outro lado, como ele vê esse relacionamento, que eu
acho que é uma oportunidade importante de alguém falar sobre isso, ainda
mais alguém numa posição especial como a que ele teve".
Ricardo
Kotscho conta: "Eu conheci, em Brasília, funcionários muito dedicados,
funcionários de carreira, assim como jornalistas também. Eu acho que o
problema de Brasília é outro. É que a concentração de bons jornalistas é
muito grande em espaços muito pequenos. Você fica ali num triângulo,
Congresso, Palácio do Planalto, Ministérios, a Esplanada. Isso não quer
dizer que haja uma promiscuidade, mas eu volto à questão anterior, há
uma competição exagerada".
Perguntado pelo jornalista Mauro Chaves se Lula estava realmente
preparado para ser presidente, o ex-Secretário lembrou: "Eu acho que
ninguém se preparou mais do que o presidente Lula para exercer essa
função. Desde que eu o conheço, desde 1978, o contato que ele teve com a
realidade brasileira, com pessoas de todos os setores da sociedade, ao
longo desses anos, e em muitos momentos eu tive a oportunidade de
acompanhá-lo, da participação dele em estudos, em seminários, primeiro
no governo paralelo depois no instituto de cidadania, acho que as
pessoas mais capazes do Brasil, em todas as áreas, participaram de
discussões, de debates e de projetos que foram preparados em conjunto
com o presidente Lula".
Marcelo
Beraba questionou Kotscho a respeito das entrevistas coletivas dadas
pelo Presidente que, segundo ele, eram muito restritas em relação às
perguntas e aos participantes: "Você tem razão em alguma coisa, mas em
outras não. Nunca ninguém determinou quais as perguntas que deveriam ser
feitas, inclusive porque jornalistas muito respeitados da Folha de S.
Paulo, onde você trabalha, participaram de várias dessas entrevistas.
Entrevistas coletivas você tem em vários formatos. Em um ponto você tem
razão e essa é uma frustração minha, eu não consegui fazer isso, é uma
entrevista formal, no Salão Leste do Palácio do Planalto. Tentei fazer
antes de sair, até pedi ao Presidente. Claro, poderia ser mais e melhor.
Foi feita uma pesquisa agora sobre as diferentes áreas do Governo e, em
primeiro lugar, ficou educação, das áreas que a população aprova mais, e
em segundo a comunicação com a sociedade", afirmou Ricardo Kotscho.
No último
bloco do programa, o entrevistado fez suas considerações finais: "Eu
agradeço aos colegas que participaram e levantaram tantos assuntos. Acho
que cada tema desses é pauta para outros programas e gostaria de ser
convidado no futuro para voltar a discutir isso, a minha paixão que é o
jornalismo, que é a informação. Muito obrigado a todos".
Tiago
Chediak (estagiário)
EDITORIAL
Bem-vindos
ao Observatório da Imprensa.
Os
Presidentes da República, em geral, gostam de ter ao seu lado grandes
jornalistas. Jânio Quadros teve Carlos Castello Branco e Evandro Carlos
de Andrade, João Goulart teve Raul Ryff, Costa e Silva escolheu Carlos
Chagas e Heráclio Salles.
O porquê
desta preferência não está muito claro mas o que hoje está claro é
que não levaram em consideração um dado crucial: o bom jornalista,
por natureza, não convive bem com o poder. Ao contrário, o bom
jornalista, geralmente, é avesso aos protocolos, agendas e compromissos
inerentes às funções palacianas.
O
presidente Luís Inácio Lula da Silva escolheu como Secretário de
Imprensa um grande repórter que o acompanhava desde o momento em que
iniciou a jornada para chegar ao Palácio do Planalto.
Ricardo
Kotscho sempre foi um jornalista de ação, repórter de rua. E talvez
por causa do seu passado fuçador, inquieto e inconformado Ricardo
Kotscho tenha desistido no meio do primeiro mandato de uma função
estratégica, de grande importância política, mas sob o ponto de vista
estritamente jornalístico, muito inconfortável.
O
jornalista busca a verdade, o funcionário público serve-se da verdade
e nem sempre os interesses convergem. Quando o Presidente decidiu não
renovar o visto do correspondente Larry Rother, do New York Times,
Ricardo Kotscho, aqui neste Observatório, mostrou ao Brasil inteiro, de
forma transparente, digna e superior, a contrariedade de um profissional
comprometido com a defesa da liberdade mas rigorosamente fiel aos seus
deveres funcionais.
Ricardo
Kotscho volta a este Observatório não apenas para fazer um balanço
destes dois anos nos bastidores do poder mas, sobretudo, para relembrar
a sua experiência num posto de observação privilegiado sobre o
comportamento da imprensa diante do poder.
ARTIGO
Por Alberto Dines
DE
MENGELE A HERZOG
Arqueologia e atualidade do nazismo
Alberto Dines
São
importantíssimos os documentos que pertenceram ao médico-monstro Josef
Mengele descobertos pelos repórteres da Folha de S.Paulo. Daí a
repercussão na imprensa internacional das matérias publicadas nos
domingos 21/11 e 28/11.
Os papéis
de Mengele não apenas desvendam a arqueologia do nazismo, mas o
atualizam e o adaptam às circunstâncias em que aqueles textos foram
escritos. Avaliar este material tão-somente dentro da perspectiva da 2ª
Guerra Mundial é confiná-lo a uma esfera temporal enganosa. O nazismo
hitlerista pode ter sido erradicado em Nuremberg, 1945, mas os seus
fundamentos foram modernizados e levados adiante.
As
matrizes ideológicas que permeiam os documentos desvendados pela Folha
precisam ser recortadas e colocadas no contexto e ambiente em que foram
escritos. Indispensável lembrar que dos 19 anos que o carrasco viveu no
Brasil, cerca de 15 coincidiram com a ditadura militar.
O homem não
era um tolo, sabia exatamente o que se passava mesmo que os jornais e
revistas brasileiros, a partir de 1968, estivessem sob censura. O Mein
Kampf de Hitler para ele era secundário, mais importante era a sua
reanimação diante do turbilhão do fim dos anos 1960.
A importância
dos papéis de Mengele reside justamente nesta reanimação do ideário
nazista original e seu ajustamento à conjuntura da Guerra Fria e,
sobretudo, ao panorama latino-americano dominado pelos militares de
extrema-direita. Ao que consta, são os únicos textos neonazistas
redigidos por um nazista da velha guarda.
Crucial e
valioso é o ensaio sobre a perniciosa influência dos meios de comunicação
de massa controlados por um povo que, segundo o autor, era dominado por
um "espírito perverso". Mengele não identifica este povo,
mas deixa muito claro que são os judeus.
Estende-se
sobre a perniciosa influência dos meios de comunicação sobre a
juventude e, não contente, mostra que a maioria dos psicanalistas
americanos pertencem à mesma raça "nobre" do fundador da
psicologia dos complexos sexuais reprimidos (Folha, 28/11, págs. A28 e
A29).
Pressão
dos gorilas
Para
entender a dimensão dos arquivos de Mengele desencavados pela Folha é
imperioso adicioná-los às não menos sensacionais revelações do repórter
Uki Goñi no seu recém-lançado livro A verdadeira Odessa (Editora
Record, 448 pp., Rio de Janeiro, 2004). No Globo (21/11, pág. 51), Goñi
mostra que o médico não era um paranóico e "visionário"
solitário.
Mengele não
estava sozinho, a prova são os dados numéricos sobre a repressão na
Argentina a partir da ditadura ali instalada em 1976: dos 8.956
desaparecidos, 1.296 eram judeus assumidos, 12% do total de presos.
"A matança foi desproporcional porque a comunidade judaica não
somava mais de 1% da população", anota Goñi.
Se
lembrarmos a raiva dos militares contra os psicanalistas argentinos
(cuja maioria era também constituída de judeus), entende-se por que
Mengele investiu contra os seguidores de Freud.
Goñi
rememora o episódio em que o coronel Ramón Camps, chefe da polícia de
Buenos Aires, revelou para a imprensa estrangeira os termos com os quais
extraiu do jornalista Jacobo Timerman sua "confissão" de
sionismo. A ela deve somar-se a violenta pressão dos gorilas portenhos
contra a Editora Abril da Argentina (então a mais importante do país)
levando seus proprietários a deixar o país.
Josef
Mengele já não vivia na Argentina (seguramente assustado com o seqüestro
do seu camarada Adolf Eichmann). Agora estava escondido e impregnado com
o que se passava no seu refúgio, o Brasil. Grandes grupos de comunicação
brasileiros tinham não apenas acionistas, mas jornalistas judeus.
Jornalista
morto
Em
janeiro de 1969, em seguida à promulgação do AI-5, num interrogatório
conduzido na 2ª Seção do 1º Exército (com sede Rio de Janeiro), o
chefe daquela operosa repartição, o então coronel César Montagna,
insistiu com um jornalista judeu por que razão um jornal tão
ostensivamente católico como o Jornal do Brasil tinha um editor-chefe
judeu.
Curiosamente,
poucos anos depois (dezembro de 1973), numa sucessão de demissões, o
jornalão livrou-se dos seus incômodos judeus.
Pela
avaliação dos repórteres da Folha, o ensaio sobre os meios de
comunicação e a propagação das "misérias do nosso tempo"
pelos judeus teria sido escrito no fim dos anos 1960. Mas estaria
perfeitamente atual no início e meados da década de 1970.
Em
outubro de 1975, em São Paulo, foram presos algumas dezenas de
jornalistas. Muitos pertenciam aos quadros da TV Cultura. O secretário
de Cultura do Estado era o judeu José Mindlin. De todos os jornalistas
encarcerados o único que morreu nas mãos da repressão foi o
jornalista Vladimir Herzog. Judeu.
Mengele não
estava sozinho.
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET
POLÍTICA
AUDIOVISUAL
TV e produção independente, avanços com responsabilidade
Nelson Hoineff
A Folha
de S.Paulo publicou no domingo (28/11) uma ampla matéria ("TV
barra obrigação de exibir independentes") que poderia ser usada
nas universidades para mostrar como informações incompletas, ainda que
inocentes, podem ser mais desinformativas do que os esforços orgânicos
de desinformação.
Um grande
esforço de desinformação, como se sabe, vem sendo perpetrado por boa
parte da mídia desde que foi apresentado o projeto de criação da
Ancinav (Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual), em agosto deste
ano. Começou por buscar os excessos que havia na primeira versão do
projeto (entre os quais algumas propostas seguramente concentracionistas,
que poderiam induzir indesejáveis interferências no conteúdo) para
torpedear todo o seu teor.
A maioria
desses excessos caiu por terra logo na primeira reunião do Conselho
Superior de Cinema - e ao longo das dez outras que se seguiram. Mas os
ataques ao projeto continuaram, e nem sempre no campo das idéias.
É muito
possível que uma rejeição tão genérica se deva simplesmente à
imagem que restou de um projeto que acabou sendo preparado e lançado de
forma atabalhoada. Mas é possível também que tal reação seja mais
cerebral do que intuitiva - e tenha como base o repúdio à intenção,
de fato contida no projeto, de se criar no Brasil alguma forma de regulação
à distribuição do conteúdo audiovisual.
Controle
estrangeiro
É
preciso que se entenda que a regulação em si não é fruto de uma
agenda ideológica inventada pelo governo brasileiro. Ela existe,
solidamente implantada, em países como os EUA, a França, a Grã
Bretanha e a Alemanha, para ficar só no grupo dos mais liberais.
Nesses países
a lei distingue o emissor do produtor, cria condições para que as
emissoras de televisão sejam impelidas a buscar em produtores externos
parcelas substanciais de sua programação, estabelece porcentuais para
isso e determina a participação das emissoras de TV na produção
dessas obras. Trata-se, em quase todos os casos, de preceitos regulatórios
não restritivos, mas inclusivos. Não se tira de um lado para dar ao
outro. Apenas se preconiza direitos e oportunidades isonômicas à produção
audiovisual, como é praxe em todas as demais indústrias.
Nos
mercados em que existe esse tipo de regulação o resultado tem sido o
fortalecimento da televisão - que exibe uma programação melhor e
mais diversificada - e dos produtores que trabalham para prover o
conteúdo que as emissoras vendem ou distribuem. Essa é a regra que
vige nas relações entre emissores e produtores de televisão em todo o
mundo.
Há
diferenças entre os modelos. Mas o que não existe, no mundo
civilizado, são casos em que o produtor de TV seja constrangido a não
ter o direito de sequer disputar o espaço de produção dentro do
mercado em que atua. Tal situação configura uma forma de censura que
as sociedades de todos esses países dificilmente aceitariam.
Entre os
principais argumentos que as emissoras de televisão brasileiras têm
apresentado para fugir a qualquer forma de regulação está o alto índice
de nacionalização de sua programação. Elas agem como se o perigo
estivesse nos empresários estrangeiros que estariam dispostos a
controlar de qualquer maneira a programação vista pelo povo
brasileiro.
Pontos
comuns
Durante o
III Encontro Internacional de Televisão, realizado nos dias 25 e 26 de
novembro, no Rio, o nome Rudolph Murdoch foi um dos mais citados,
obviamente em decorrência da recente fusão Sky-DirecTV.
Para
muitos dos participantes do encontro, entre eles importantes executivos
de televisão, Murdoch parece ter entre seus principais objetivos de
vida o de exterminar a identidade cultural da nação brasileira. A
imagem insistentemente vendida é que são as emissoras brasileiras que
estão lutando bravamente contra esse monstrengo do colonialismo
cultural, exibindo, apesar de todas as dificuldades, uma programação
altamente nacionalizada.
A
insustentabilidade dessa tese chega aos limites do humorístico.
Pastores evangélicos ou vendedores de tapetes, por exemplo, também são
brasileiros. E os programas que apresentam, em muitas redes, são,
ademais, produções independentes. Pelo raciocínio exposto, quem
montar uma grade de programação composta exclusivamente por pregações
evangélicas e vendas de tapetes "shiraz" terá o maior índice
de nacionalização e exibição de produção independente do país.
As
sutilezas que existem no caso da televisão brasileira - e é isso que
o texto da Folha tem visível dificuldade de captar - começam pelo
fato de que as emissoras de TV utilizam o mesmo discurso mas estão
falando de coisas diferentes. Exatamente por essa razão é que foram
obrigadas a dividir suas formas institucionais de representação: desde
a semana passada, a Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio
e Televisão) interpreta os pontos de vista da Rede Globo, enquanto a
Abra (Associação Brasileira de Radiodifusores) interpreta os de todas
as outras, que são completamente diferentes.
É uma
briga de cachorro grande, onde a produção independente brasileira é o
elo mais fraco - um elo capilar dentro da cadeia, que pode ser rompido
a qualquer momento. Ocorre, então, que não é politicamente cabível
à produção independente brasileira buscar confrontações irreversíveis
com as redes de televisão. O que ela deve fazer, em vez disso, é
buscar pontos de interesse comum que possam levar a parcerias, não
apenas comerciais mas principalmente políticas. Nesse quadro, o clima
de Fla x Flu pode ser bom para render manchetes de página, dar a ilusão
do contraditório e despertar a atenção de alguns leitores. Mas nem
remotamente interpreta o que de fato acontece na dinâmica da formulação
das políticas públicas para o setor.
Embrulhando
peixe
Não há,
nesse contexto, uma queda-de-braço entre produtores independentes e
emissoras de televisão. E não há por várias razões. Em primeiro
lugar, seria necessário determinar se a disputa é com a Globo ou se
com o conjunto formado por todas as outras emissoras, que são braços
bem diferentes. Em segundo porque qualquer dos braços seria mais forte
que o dos produtores. Em terceiro, porque nenhum produtor, seja lá do
que for, quer criar um ambiente de conflito permanente com seus
clientes.
O que o
produtor independente de TV quer é abrir mercado com esses clientes, e
estabelecer alianças sólidas que decorram do entendimento de que a
pluralização da produção televisiva é boa para todo mundo. Ele quer
provar que a comercialização da produção independente é capaz de
trazer mais qualidade, mais competitividade e menores custos para as
emissoras.
É isso
que interessa aos produtores - e também à sociedade brasileira. O
que não interessa é a idéia de que os produtores estão vencendo a
queda de braço, ou fazendo um a zero no Fla x Flu, e muito menos
empurrando pela goela das emissoras um produto que elas não desejam.
O mercado
de televisão não é um reality show, embora os jornais às vezes não
percebam a diferença entre uma coisa e outra. No mundo real, nenhum
produtor pensa em tornar-se inimigo a priori de quem compra e faz a
difusão dos seus produtos. Isso pode ser bom para um jornalismo
sensacionalista, que é efêmero como a duração de uma manchete de página.
A página estará no dia seguinte embrulhando peixe, mas os produtores
de televisão permanecerão no mercado quando as manchetes já forem
outras.
Por um
mercado saudável
Vamos aos
fatos. O artigo do projeto da Ancinav a que o texto da Folha se refere
(o antigo artigo 90) rezava que as emissoras firmarão anualmente um
compromisso público para a exibição de um porcentual mínimo de obras
de produção independente. Sua intenção é nobre, mas resultaria inviável
por um conjunto de razões.
A
primeira é de ordem prática: esse compromisso não é para ser firmado
por cinco ou seis redes de televisão, mas por cada uma das emissoras no
país, que são mais de 2.000. Mais de dois milhares de emissoras tão
diferentes entre si que algumas não dispõem sequer de equipamentos de
gravação e reprodução - e muito menos têm a autonomia das redes
para firmar acordos de programação. Não há como obter dessas
emissoras o compromisso de que estarão no ar no domingo seguinte...
A segunda
razão é que um compromisso público dessa natureza quer dizer pouca
coisa ou quase nada. Não existe a possibilidade de aplicação de sanções
para a quebra desse compromisso. Por conseguinte, não existe
compromisso algum.
Um
substitutivo apresentado no âmbito do Conselho Superior de Cinema
instituía simplesmente uma quota de tela para a exibição de produção
independente. É uma alternativa bem melhor, seguramente a melhor entre
todas as apresentadas. A principal razão para que se desconfie de sua
eficácia, no entanto, está contida na própria matéria da Folha,
quando esta descreve as quatro maiores produtoras independentes do país.
Entre elas está a O2 (a maior produtora de publicidade da América
Latina, e que produz Cidade dos Homens juntamente com a Globo) e também
a Gugu Produções - a qual, segundo a matéria, está fechando o ano
com faturamento de 4,5 milhões de reais e que acaba de investir 11 milhões
de reais na construção de sua sede e outros 2 milhões de reais em
equipamentos. Isso não é investimento típico de produtora
independente, mas de emissora de televisão. Por outro lado, não seria
difícil imaginar de onde viria a cota de produção independente do SBT,
por exemplo.
Outra razão
para que se reflita sobre a aplicação da quota de tela pura e simples
está nas peculiaridades da televisão brasileira e no entendimento do
que deveria ser a estratégia para modernizar a relação viciada que
historicamente ocorre entre emissoras e produtores. O monolitismo do
modelo brasileiro de televisão está na raiz disso. Em nenhum outro
lugar do planeta ele é tão sólido. É como se estivéssemos lidando
com dois modelos de televisão que convivem sob a capa de um só: o da
Globo e o de todas as outras.
A Globo
bate na tecla de que está sendo punida por um crime que não cometeu. Há
dois erros nesse argumento. O primeiro é que a regulação não existe
para punir ninguém, mas para criar um mercado mais saudável - o que,
em grande parte, a própria ação da Globo vem preconizando. O segundo
é que não se pode legislar pontualmente. O que vale para uma tem que
valer para as outras.
Traços
de amadorismo
A matéria
da Folha cita Metamorphoses, novela que a produtora Casablanca realizou
para a Record, como um exemplo de produto que conseguiu conquistar
"uma brecha na programação". A realidade, infelizmente, não
é essa.
O caso de
Metamorphoses (ao qual este Observatório já se referiu em outras ocasiões)
exprime uma distorção grave nesta relação, que cabe aos produtores e
à sociedade evitar que se repita. Uma situação em que se transferiu
para uma só parceira, a produtora, todos os ônus financeiros de um
fracasso anunciado. O desastre em que o projeto (em si uma grande
fogueira de vaidades, intrigas e despreparo) se constituiu desabou
inteiramente sobre uma das partes, circunstancialmente a maior finishing
house do país - que, portanto, pôde bancar os altos custos de uma idéia
natimorta.
Mas não
é exemplo de conquista alguma e só aconteceu por um capricho da própria
Casablanca, bem aproveitado pela rede que abrigou, quase de graça, um
produto concebido com traços constrangedores de amadorismo. Não é
exatamente isso que se está pensando quando se fala da necessidade de
implantação de mecanismos de apoio à produção independente de TV no
país.
Choque
de culturas
Neste
ambiente corroído por tantas distorções, a única forma responsável
de ação não está na busca do confronto predatório, mas da
oportunidade para a mudança da cultura vigente no mercado televisivo.
Não
existe outra alternativa visível e ainda assim as dificuldades são
muitas. A primeira é que essa cultura (mais especificamente a noção
de que exibidora e produtora são a mesma coisa) existe desde que a
televisão se instalou no país. É algo consolidado há muito tempo,
cristalizado pela ação inercial e amparado pela falsa premissa de que
as emissoras de televisão não receberam do Estado apenas a concessão
para transmitir e comercializar programação, mas também a licença
para monopolizar a produção.
A segunda
dificuldade é o fato de emissoras com ideários tão diferentes darem a
falsa impressão de que, pelo menos no que tange à relação com a
produção independente, estão falando em uníssono.
É difícil
entender o que faz a Globo aceitar o papel de defender o que ela própria
não acredita, já que sua relação com a produção de conteúdo é
bem distinta da relação sustentada pelas demais emissoras. Trata-se
visivelmente de uma questão de princípio, mas que se torna cada vez
mais ruidosa. Basta interpretar com um mínimo de seriedade a história
política recente da televisão brasileira para perceber que essa posição
será revista em breve - tal como no ano passado as circunstâncias
provocaram a mudança da postura da emissora em relação às mudanças
no artigo 222 da Constituição, que trata da presença do capital
estrangeiro nas empresas de comunicação.
Quando a
Globo se tornar franca aliada das produtoras independentes - e é
inevitável que isso aconteça em pouco tempo - então estarão
criadas condições básicas para a mudança da cultura em todo o
ambiente da televisão brasileira.
Enquanto
isso não acontece, a estratégia política para fortalecer a produção
independente junto à televisão não consiste em confrontar todas as
emissoras de uma só vez, mas em criar canais de intersecção (não
apenas de diálogo) entre as emissoras e a produção. É precisamente
nisso que consiste uma terceira proposta, que acabou contemplada pelo
comitê civil do Conselho Superior de Cinema. Criou-se um Condecine
(Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica e
Audiovisual Brasileira) para as emissoras de televisão - e descontos
neste Condecine para as emissoras que trabalharem com percentuais
superiores a 20% de produção independente.
Há aí
uma discreta analogia com o que aconteceu no artigo 39 da Medida Provisória
2228-1, que criou uma grande taxação para as programadoras de TV por
assinatura e uma boa redução para as que aplicarem a taxa na co-produção
de obras brasileiras. O expediente provocou muitas fraudes que ainda estão
por ser corrigidas, mas gerou 20 milhões de reais para a produção e
colocou o produto brasileiro em redes internacionais que não cogitavam
dessa possibilidade.
No caso
das emissoras abertas, o substitutivo aprovado ao artigo 90 pode
numericamente não representar muita coisa. Mas o foco da questão não
está no volume de dinheiro gerado para a produção, e sim na sua
significação política. O que é de fato relevante é que pela
primeira vez em mais de 50 anos de televisão no Brasil um preceito
legislativo é criado no âmbito da produção e distribuição de conteúdo.
Um vínculo é estabelecido entre as taxações a que as emissoras estão
sujeitas e o volume de produções independentes que elas estiverem
comprando.
O
resultado pode ser menos visível e de menor impacto que o
estabelecimento da quota de tela, por exemplo. Mas será muito mais
eficaz e consistente. Além disso, é notável o fato de que essa aprovação
tenha sido conseguida por consenso dentro do Conselho Superior de
Cinema, com o voto inclusive dos representantes das televisões. Esse é
um fato político que não pode ser desprezado.
Nunca se
avançou tanto no sentido de quebrar resistências e começar a mudar
uma cultura entranhada há cinco décadas, mantendo-se ao mesmo tempo um
clima de cooperação - não de guerra - entre os produtores de
televisão e as emissoras que serão as compradoras e exibidoras de seus
produtos.
Essa foi
uma das grandes conquistas do projeto de lei que será entregue ao
presidente da República para que ele o envie ao Congresso. Resultou de
uma costura política improvável e que, sem alarde nem proselitismo,
pode começar a mudar uma relação viciada há meio século.
Quanto às
manchetes levianas, elas prestariam um favor ao leitor se continuassem
se ocupando do casamento do Luciano Huck.
5º BLOCO
Veja o que disseram os
convidados após o programa:
São
Paulo:
Mauro
Chaves - Editorialista Estado de S. Paulo
"Foi muito interessante; chegou a um certo momento eu provoquei um
pouco, porque você pega um colega que está no governo e faz uma
provocação dupla, mas acho que valeu bastante, foi interessante e
fluiu bem, tanto que achei o tempo curto."
PERGUNTAS
E-mails recebidos na
semana de 30/11 a 07/12:
Denilson
da Silva, Osório / RS
Prezado Dines, gostaria de fazer os seguintes questionamentos ao
entrevistado: Você (Ricardo) que esteve muito próximo do presidente
Lula como vê o desempenho do Governo na área social e também econômica?
Você "comunga" das mesmas críticas que setores da oposição
e também da ala mais a esquerda dentro do próprio PT, fazem ao governo
nessas duas áreas? E ainda, qual a relação do presidente Lula com
esses setores e com essas críticas principalmente após o resultado do
segundo turno?
Carlos
Cavalcanti
Caro senhor, por que não se questiona a liberdade de comunicação
através da imprensa do audiovisual e, igualmente, não se abre o
direito da sociedade civil poder criticar, ou até de rejeitar, um
programa da imprensa do audiovisual?
Maria
Antonia de Abreu Sampaio Leme
Lamentável a entrevista do jornalista em questão. Parecia um
contorcionista se desviando dos dardos. Falou, falou, e... relativizou
tudo. Ou não queria ou não podia falar. Que acusação velada ao
governo do PT que isso representou, hein? Mais do que se tivesse
respondido às perguntas. Quanto aos demais participantes do programa: o
ombudsman da FSP foi magnífico, o editorialista do OESP, sensacional e
a Teresa Cruvinel estava ali para ajudar o Kotscho a se esconder das
perguntas. Enfim, pelo 'não dito' percebemos a extensão da tragédia
desse governo que aí está. Que os brasileiros aprendam a votar para
depois não se arrependerem. Sem pão e com o circo fechado para balanço,
o que restará do governo Lula?
Telefonemas recebidos em 30/11:
Houston
Alves, Cedró / CE
Qual o maior oponente de Lula nas próxima eleição, o senador Tasso, o
governador Alckmin ou o Garotinho?
Lincon
Lima, Rio de Janeiro
Kotscho, você tendo acompanhado sempre o governo Lula, como vê o geral
descontentamento dos intelectuais com o governo?
Renata
Magalhães, Rio de Janeiro
Queria que você comentasse o comercial feito pelo Duda Mendonça,
veiculado apenas uma vez com o custo de oito milhões, sendo feito após
sua censura outro comercial para substitui-lo.
Álvaro
Araújo, Marília / SP
Kotscho, como o governo Lula vai trabalhar a questão do ensino superior
no Brasil? Ele já comentou sobre isso com você?
Mauro
Passos, Belo Horizonte / MG
Kotscho afirmou que o presidente Lula conhece tudo sobre o Brasil, mas em
um debate com o Garotinho, Lula não sabia qual era o imposto SID. Hoje
ele já sabe?
Jorge
Henrique, Niterói / RJ
Kotscho, em sua entrevista na Caros Amigos você respondeu que não sairia
do governo, o que mudou desde então?
Djalma
Santos, Olinda / PE
O Presidente Lula afirmou que os dois primeiros anos do seu governo
foram de "amigos" e que os dois últimos seriam do
"trabalho e da eficiência", então quer dizer que quem saiu não
era competente?
Fernanda
Haddad, Barretos / SP
Como jornalista, qual a sua opinião sobre a "despetização" do
governo Lula?
Alceu
Carvalho, Marília / SP
Você pode comentar melhor o caso da expulsão do jornalista americano
pelo governo Lula?
Marcos
Vieira, Recife / PE
Mauro Chaves, qual a sua intenção ao fazer a pergunta sobre a
escolaridade de Lula?
Vaílton
Ferreira, São Paulo
O que você acha da discussão sobre a abertura dos arquivos da ditadura?
João
Ribeiro de Assis, Rio de Janeiro
O governo Lula é manipulado por um poder paralelo chamado FMI. Este
governo não existe.
Eduardo
Braga, Palmas / TO
Kotscho, por que você deixou o governo Lula se ainda acredita nele?
Antônio
Carlos, Araçaí / MG
Como você vê a precariedade dos jornalistas atualmente?
Rui Fulgêncio,
Belo Horizonte / MG
Kotscho, qual a sua opinião agora, fora do governo, sobre o Conselho
Federal de Jornalismo?
Jaime de
Souza, São Paulo
Qual seria o limite entre a ética jornalística e a liberdade de
imprensa?
Alexandre
Alves, Vale do Paraíba / SP
Kotscho, você acha que ainda há espaço para um certo romantismo no
jornalismo?
Estevão
Antunes, São Gonçalo / RJ
Onde estão os dez milhões de empregos que o Lula prometeu?
José
Caetano da Luz, Rio Branco / AC
As crônicas do Diogo Mainardi afetam de alguma maneira o humor do
presidente Lula?
Lincoln
Vargas, Niterói / RJ
Kotscho, neste momento você diria que um jornalista ligado ao governo,
como assessor de imprensa, por exemplo, pode ser absolutamente imparcial?