PROGRAMA DO DIA 05 de outubro de 2004

ELEIÇÕES

O comportamento da mídia durante a campanha para as eleições municipais foi o tema do último programa. Fizemos um balanço e uma análise da cobertura da imprensa. Houve parcialidade na mídia?

O Observatório brasileiro de mídia da USP fez uma pesquisa nos principais jornais paulistas e divulgou os resultados esta semana. A maioria dos jornais publicou matérias negativas da atual prefeita e candidata Marta Suplicy e divulgou matérias favoráveis ao candidato de oposição, José Serra.

Como estão as coberturas nas principais cidades do país?

Leia o resumo do programa

  Veja o Compacto

ELEIÇÕES / PRIMEIRO TURNO
Pitonisas e magos foram os derrotados

Alberto Dines

Coroas de louros para os vitoriosos, coroas de flores para os vencidos. Além delas, duas auspiciosas notícias fúnebres: a pesquisite levou tremenda surra e, o marqueteirismo, sova histórica. Bom para a política, bom para a democracia, melhor ainda para o jornalismo.

Leia na íntegra

As pesquisas eleitorais podem influir no voto dos indecisos?

Resultado:

Sim: 89%

Não: 11%

Aqui você pode participar de fóruns sobre assuntos ligados à imprensa, deixar seu recado no nosso mural e ler as perguntas dos telespectadores.

Perguntas - Aqui são colocadas as perguntas dos telespectadores que chegam por telefone, fax ou e-mail durante o programa e ao longo da semana.

5 Bloco - Leia a opinião dos participantes do programa, sobre o debate.

Editorial:

Bem-vindos ao "Observatório da Imprensa".

Você acredita que uma eleição resume-se apenas aos discursos em palanques, passeatas, carreatas e o horário de propaganda eleitoral? Isto foi no passado - eleição hoje tem marqueteiros, pesquisas de intenção de voto, debates entre candidatos. Eleição é o teste máximo do processo democrático e o papel da mídia é decisivo para garantir a lisura e evitar a interferência do poder político ou do poder econômico.


Leia na íntegra

ELEIÇÕES PAULISTANAS
Jornais ajudaram tucano e prejudicaram a prefeita

Luiz Antonio Magalhães

Os dois jornais de maior circulação na cidade de São Paulo - a Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo - favoreceram o candidato do PSDB à prefeitura da capital, o ex-ministro José Serra, e prejudicaram a prefeita Marta Suplicy (PT), que tenta a reeleição. É o que revelam os levantamentos de dois institutos ligados a instituições universitárias reconhecidas pela excelência de suas pesquisas - o Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro), da Universidade Candido Mendes, e o Observatório Brasileiro de Mídia, cuja pesquisa foi feita em parceria com a Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo.

Leia na íntegra


RESUMO DO PROGRAMA

ELEIÇÕES

O Observatório da Imprensa do dia 5 de outubro analisou a cobertura da mídia nas últimas eleições municipais. Houve favorecimento da imprensa para algum candidato? As pesquisas realmente têm um valor positivo no processo eleitoral? Os chamados marketeiros possuem capacidade para eleger seus candidatos? Todos esses assuntos foram abordados por nossos convidados durante o programa.

Participaram desta edição do Observatório direto de São Paulo a socióloga Fátima Pacheco Jordão e o coordenador do Observatório Brasileiro de Mídia José Coelho Sobrinho. Nos estúdios em Brasília esteve o cientista político e professor da UNB Henrique Carlos de Castro. No Rio de Janeiro nosso convidado foi Marcus Figueiredo, professor do IUPERJ e coordenador do Laboratório de Pesquisa em Comunicação Política e Opinião Pública.

Em seu editorial Alberto Dines lembrou a importância da imprensa na garantia da lisura nas eleições e chamou atenção para "os erros nas previsões cometidos por 2 grandes institutos de pesquisa, o Data Folha e o IBOPE, ambos no tocante à disputa paulistana." E terminou afirmando: "Eleição é um fato político, mas o desempenho da imprensa também é um fato político."

A socióloga Fátima Jordão iniciou o debate comentando as pesquisas de intenção de voto: "As pesquisas representam exatamente a opinião do leitor. A mídia cobre o discurso dos candidatos, os comentários dos jornalistas e a pesquisa é a única área de expressão do próprio eleitor." E depois, fez um alerta: "Se as pesquisas não forem publicadas, elas continuarão a ser feitas e utilizadas apenas pelos manipuladores de campanha."

Em seguida Marcus Figueiredo, professor do IUPERJ afirmou: "A nossa imprensa na cobertura em relação as pesquisas continua usando o mesmo padrão, que é o padrão internacional, no qual pesquisas orientam não só marketeiros, não só os eleitores mas também a mídia. É através do resultado da pesquisa que a pauta de cobertura da eleição fica orientada."

Sobre os erros de previsão de alguns institutos de pesquisa, o cientista político Henrique de Castro disse que "muitas vezes as pesquisas erram por erros metodológicos ou por alguns erros que são completamente impossíveis de nós mensurarmos, como por exemplo um certo temor do eleitorado em dar a resposta."

Perguntado a respeito do grande destaque dado pelos jornais às pesquisas, José Coelho Sobrinho afirmou: "No momento de eleição o que o público mais deseja saber é de resultados, e na maioria das vezes o editor, o jornal, ele não se atreve a fazer uma avaliação de pesquisa ou fazer um trabalho mais de análise dos fatos eleitorais."

Em seguida Marcus Figueiredo comentou sobre favorecimentos da imprensa no decorrer da campanha. "O caso que mais destaco foi o Estadão. O jornal Estado de São Paulo ao longo do período todo, ou seja, desde abril do início do ano até a semana passada, teve um comportamento pró Serra. No sentido de dar cobertura a muito mais material jornalístico positivo em relação a candidatura José Serra do que dos demais candidatos."

Henrique de Castro acrescentou: "Eu acredito que há favorecimento a candidaturas por parte de setores da mídia porque os setores da mídia, que são empresariais, tem interesses econômicos e políticos nos resultados das eleições." Já sobre os debates entre candidatos afirmou: "O eleitor vota numa imagem, então muitas vezes essa imagem do candidato não quer ser maculada pelo debate. Os candidatos, quando estão numa situação bastante cômoda, procuram se expor o menos possível (...) nesse sentido, o debate político que deveria ser o centro de uma eleição passa ao largo."

Na rodada final do programa. José Coelho Sobrinho disse: "Não dá para imaginar que um modelo de uma determinada eleição sirva para outras eleições."

Henrique Castro encerrou sua participação afirmando: " A imprensa repercute muito mais do que de fato é a real importância do marketing político numa eleição."

Marcus Figueiredo, em sua conclusão, afirmou que "a cobertura da imprensa vem se modernizando, vem melhorando, ainda que exista em alguns momentos preferências políticas."

Fátima Pacheco conclui: "Quero ressaltar, no caso dessas eleições, a autonomia do eleitor, a qualidade e a capacidade que ele teve de avaliar administrações, gestões."

Tiago Chediak (estagiário)


EDITORIAL

Bem-vindos ao "Observatório da Imprensa".

Você acredita que uma eleição resume-se apenas aos discursos em palanques, passeatas, carreatas e o horário de propaganda eleitoral? Isto foi no passado - eleição hoje tem marqueteiros, pesquisas de intenção de voto, debates entre candidatos. Eleição é o teste máximo do processo democrático e o papel da mídia é decisivo para garantir a lisura e evitar a interferência do poder político ou do poder econômico.

Basta ver que em quase sete anos de existência este Observatório já tratou de eleições em 17 edições sendo que doze delas focalizadas em eleições brasileiras. Muitos destes programas focalizaram o destaque e a freqüência, quase uma obsessão, de divulgar pesquisas de intenção de voto que acabaram por substituir o debate de idéias. Chegamos a designar esta febre como pesquisismo ou pesquisite e parece que não foi exagero.

Além das surpresas naturais de qualquer eleição, o que chamou a atenção no pleito do último domingo foram os erros nas previsões cometidos por dois grandes institutos de pesquisa, o Datafolha e o Ibope, ambos no tocante à disputa paulistana.

Qualquer previsão, por mais científica que seja, corre o risco de não ser confirmada tantos são os imponderáveis, mas a pergunta que este Observatório da Imprensa vê-se obrigado a repetir tem a ver com uma questão puramente jornalística: em que código ou manual está escrito que no dia da eleição os jornais são obrigados a adivinhar os resultados das urnas mais de 12 horas antes do início da apuração?

O leitor compra o jornal para saber coisas efetivamente acontecidas ou quer participar de um exercício divinatório, tipo loteria ou mega-sena? E será que esta adivinhação não pode induzir os indecisos a fazer a opção pelo candidato que vai ganhar? Convém pensar sobre isso. Eleição é um fato político mas o desempenho da imprensa também é um fato político.


ARTIGO
Por Alberto Dines

ELEIÇÕES / PRIMEIRO TURNO
Pitonisas e magos foram os derrotados

Alberto Dines

Coroas de louros para os vitoriosos, coroas de flores para os vencidos. Além delas, duas auspiciosas notícias fúnebres: a pesquisite levou tremenda surra e, o marqueteirismo, sova histórica. Bom para a política, bom para a democracia, melhor ainda para o jornalismo.

Na realidade, foi uma coça só: a devoção desmedida às pesquisas e o culto exagerado ao marketing político fazem parte do mesmo fenômeno, pontas do mesmo processo. A carnavalização eleitoral depaupera e deforma tanto o jogo político como a sua cobertura jornalística.

Símbolo da pesquisite, na realidade sua inventora, a Folha de S.Paulo saiu visivelmente machucada do primeiro turno do pleito paulista. O jornalão tanto usou as pesquisas que chegou a criar uma empresa especializada, o Datafolha, da qual é principal cliente. Sua veneração pelas sondagens converteu aquilo que parecia ser mais um de seus modismos sazonais numa de suas marcas.

Graças a isso, a numerologia converteu-se em procedimento jornalístico rotineiro, mesmo fora da temporada eleitoral. Exemplo clássico do círculo vicioso - inventa-se uma pseudoverdade que logo será levada à opinião pública como sua autêntica manifestação. Auto-engano exógeno.

Obrigação divinatória?

Nos últimos anos não foram poucos os casos em que uma denúncia (em geral produzida por um grampo, vídeo ou dossiê secreto) acionava imediatamente uma sondagem de opinião que, antes mesmo de investigada e confirmada, transformava-se numa condenação sumária.

A pesquisite é a filha dileta da Era do Factóide - muito visível ao longo dos anos 1990, injusto atribuí-la apenas à Folha. Todos os jornalões (inclusive o combalido Jornal do Brasil) tentaram clonar o recurso criando empresas especializadas ou associando-se a entidades acadêmicas. Um dia descobriram que sairia mais barato e menos comprometedor divulgar o resultado do Datafolha e dos demais institutos concorrentes. A Folha adorou, transformada em monopólio da profecia. Agora veio o troco: ficou isolada na berlinda já que o Ibope, o Vox Populi ou o Sensus apenas produzem informações - não são veículos.

Este Observatório há anos chama a atenção para os males do pesquisismo e da pesquisite que acometem nossa mídia [remissões abaixo]. A revista Veja finalmente despertou para o assunto e na edição corrente (nº 1874, de 8/10/04), com uma excelente investigação de cinco páginas, colocou sob suspeita a enxurrada de referendos [leia a íntegra da matéria no primeiro bloco da rubrica Entre Aspas, nesta edição].

Fiada na sua infalibilidade e na da sua subsidiária, a Folha foi o único dos três jornalões nacionais a antecipar em manchete na edição de domingo (3/10) os resultados numéricos de um pleito que ainda não se realizara:

* Serra alcança 37%; Marta tem 34%

No subtítulo, num esforço para garantir-se de eventuais surpresas, a constatação de que havia um empate técnico. Perdida no meio do texto da primeira página, a preciosa informação sobre a margem de erro: 2 pontos. Folha e Datafolha ferraram-se sozinhas. Deu Serra 43,5% e Marta 35,8% - nem sombra de empate.

O concorrente O Estado de S.Paulo, desobrigado de defender uma empresa associada, reproduziu os resultados do Datafolha e comparou-os com os do Ibope:

* Marta e Serra se alternam em primeiro lugar

No subtítulo preveniu-se de algum tropeço dos institutos e tirou o corpo fora: "Serra lidera uma das pesquisas e Marta, a outra. Mas ambas apontam empate técnico". Quem divulga erros também está errado.

O Globo, atento ao Rio, seu mercado preferencial, comprometeu-se menos e, ao invés de uma profecia categórica, saiu-se com o óbvio ululante.

* Disputa sobre 2º turno é voto a voto

Certamente não perdeu um único leitor. E onde está escrito que jornais responsáveis estão obrigados a adivinhar os resultados de uma votação? Em que manual ou código de jornalismo está determinado que no dia da eleição a missão do jornal é fingir-se de pitonisa e antecipar o que ainda não aconteceu?

Religião marqueteira

Além dos riscos e escorregões inerentes à perigosa roleta dos vaticínios, a antecipação de prévias contém indiscutível carga indutora. Indecisos em geral decidem pelo vencedor. E às vezes os indecisos fazem a diferença.

Embora os regulamentos eleitorais vigentes não proíbam a divulgação de sondagens na véspera ou no dia da eleição, a mídia mais responsável deveria exercer um autocontrole e abster-se soberanamente deste profetismo. Ganharia dose dupla de credibilidade - ao recusar previsões sempre perigosas e ao abrir mão de um direito que pode comprometer sua imparcialidade.

Veículos isentos devem abster-se da tentação divinatória, mesmo que no dia da eleição sejam obrigados a produzir manchetes menos trepidantes e mais mornas.

Nas edições do day after (segunda, 4/10), enquanto o Estado apontava o erro das duas previsões que veiculou, a Folha viu-se compelida a agarrar-se às projeções da afilhada Datafolha. O Estado ficou mais à vontade, a Folha menos. Erraram ambos ao achar que sondagens de opinião são absolutamente "científicas" e devem ser obrigatoriamente publicadas no dia da eleição.

Assim como o Datafolha transformou-se em show-room do profetismo mediático, o publicitário Duda Mendonça foi convertido em vitrine dos poderes mágicos do marketing político. Há uma relação muito nítida entre a devoção cega às sondagens e a devoção cega aos truques de marketing.

O primeiro grande feito de Duda Mendonça foi eleger o herdeiro de Paulo Maluf, o desconhecido Celso Pitta, como prefeito de São Paulo (1996). Em seguida, apesar de acusado de propaganda enganosa, converteu-se numa espécie de parceiro dos deuses quando emplacou Luiz Inácio Lula da Silva na presidência da República depois de três derrotas sucessivas.

Políticos sempre fizeram marketing político - para eles próprios. É o que se chama faro e carisma. Modernamente passaram a ser acompanhados por especialistas em imagem e comunicação, mas o candidato e seu staff é que dão a palavra final sobre as estratégias e linhas de ação. São políticos e a eleição é o momento máximo do processo político: abdicar dele é a suprema traição. Candidatos não podem ser manipulados como marionetes sujeitos a scripts que variam de acordo com os resultados de cada pesquisa. Em pleitos diretos e democráticos o papel do marketing é complementar.

Não foi por acaso que Paulo Maluf (cria da ditadura militar) tornou-se apóstolo da religião marqueteira. Também não é por acaso que a charmosa Marta Suplicy, cliente de Duda Mendonça, perdeu o primeiro turno e seu adversário José Serra - careca, com olheiras e fama de antipático - teve um índice de rejeição mínimo.

Menos pesquisas e menos marketing, mais política e mais debate. A imprensa e a democracia agradecem.


OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET

ELEIÇÕES PAULISTANAS
Jornais ajudaram tucano e prejudicaram a prefeita

Luiz Antonio Magalhães

Os dois jornais de maior circulação na cidade de São Paulo - a Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo - favoreceram o candidato do PSDB à prefeitura da capital, o ex-ministro José Serra, e prejudicaram a prefeita Marta Suplicy (PT), que tenta a reeleição. É o que revelam os levantamentos de dois institutos ligados a instituições universitárias reconhecidas pela excelência de suas pesquisas - o Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro), da Universidade Candido Mendes, e o Observatório Brasileiro de Mídia, cuja pesquisa foi feita em parceria com a Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo.

O comportamento dos dois jornais foi acompanhados por metodologias distintas, mas o resultado foi o mesmo: os levantamentos mostram que ao longo da campanha Folha e Estado, Jornal da Tarde, Agora São Paulo e Diário de S. Paulo publicaram mais matérias negativas sobre Marta Suplicy do que sobre José Serra. Além disso, as matérias positivas ou neutras sobre o tucano foram sempre muito mais freqüentes do as relativas à prefeita. E, na reta final da campanha eleitoral, Folha e Estado intensificaram as notícias negativas sobre Marta e aumentaram as matérias positivas sobre Serra.

A pesquisa do Iuperj catalogou as notícias em três categorias: positivas, neutras e negativas. Foi realizada uma contagem das matérias com essas características publicadas em cada jornal. O resultado, como se pode ver abaixo, é esclarecedor.

Na Folha de S.Paulo, Serra, ex-colunista do jornal, obteve, desde o início da pesquisa, no final de abril, uma alta taxa de notícias neutras (em torno de 60% do total). E assim foi até a campanha esquentar, no início de setembro. Dali em diante, as notícias neutras caíram para um patamar entre 30% e 40% do total. Ao mesmo tempo, cresceram as notícias positivas, que vinham oscilando em torno de 20% e subiram para 40% nos três últimos levantamentos antes da eleição de domingo (3/10). As notícias negativas a respeito do tucano permaneceram estáveis em cerca de 20% a 30% do total até a última quinzena antes do pleito, quando caíram para 20% do total das matérias publicadas.

Pela metodologia do Iuperj, as notícias neutras, positivas e negativas sobre Marta Suplicy foram divididas em dois tipos - as que faziam referência à candidata e as que tratavam da prefeita. Nos dois casos, Marta recebeu um tratamento bem diferente daquele dispensado a José Serra.

Segundo as conclusões do Iuperj, a Folha publicou uma média de 60% de notícias negativas sobre a "prefeita Marta" no início da campanha, tendo baixado esta média para 20% nos mês de junho e começo de julho. No final de julho, a taxa de matérias negativas subiu para 50%, aumentando para 60% no começo de agosto, declinando para 50% no início de setembro e subindo mais uma vez na reta final da campanha, quando beirou os 60%. As notícias neutras sobre a prefeita oscilaram, durante a maior parte da campanha, na faixa de 40% do total. Na última quinzena de setembro, este tipo de matéria diminuiu, atingindo apenas 20% do total.

As notícias positivas, por outro lado, chegaram a 40% em junho e, daí para frente, despencaram. Entre 8 de julho e 18 de agosto, o noticiário favorável à prefeita na Folha praticamente sumiu, permanecendo abaixo de 10% do total, o que chegou a gerar críticas do próprio ombudsman do jornal. Talvez em função do alerta de Marcelo Beraba, a redação da Folha se esforçou para soltar algumas notícias boas para a prefeita entre 2 e 15 de setembro, quando a taxa atingiu 30%. No final da campanha, porém, o jornal voltou a prejudicar Marta e deu pouco mais de 20% das matérias positivas.

O tratamento que a Folha dispensou à "candidata Marta" foi ligeiramente melhor do que o observado em relação à "prefeita Marta", mas ainda bem menos complacente do que em relação a José Serra. Em linhas gerais, predominou na campanha o uso de notícias neutras (cerca de 60% até o início de setembro, quando a taxa caiu para 30% e voltou a subir para 40% no mês anterior ao pleito). As notícias positivas jamais ultrapassaram 30% do total, tendo ficado abaixo de 10% no início da campanha. Já as notícias negativas chegaram a superar a soma das neutras e positivas no início da campanha, permanecendo na casa dos 30% entre julho e setembro e subindo para 40% à medida que as eleições se aproximavam.

Estadão: edições sem notícias ruins sobre Serra

No Estado de S. Paulo, ainda segundo a pesquisa do Iuperj, o apoio a Serra ocorreu de forma semelhante ao que se verificou na Folha. O tucano foi privilegiado com notícias positivas, que permaneceram na casa de 30% do total ao longo da campanha, subindo para algo em torno de 40% e 50% na reta final. As notícias neutras superaram as positivas e as matérias depreciativas sobre Serra estiveram sempre abaixo das demais, em índices inferiores a 10% do que saía publicado. Houve um levantamento, em junho, em que os pesquisadores não encontraram uma única notícia negativa a respeito de Serra no Estadão.

Em relação à "prefeita Marta", o Estadão conseguiu pegar ainda mais pesado do que o concorrente. A partir de junho, as notícias negativas sobre a gestão petista na prefeitura de São Paulo ficaram sempre acima de 50%, tendo oscilado entre incríveis 60% e 70% nos meses de julho e agosto. Ou seja, de cada 10 matérias que saíram no Estadão sobre Marta, 6 ou 7 falavam mal da prefeita. As notícias positivas jamais superaram a casa dos 30% do total de matérias, tendo a taxa ficado em 0% em um dos levantamentos de julho. Já as notícias neutras oscilaram entre 20% e 40%.

Da mesma maneira que a Folha, o Estadão também tratou um pouco melhor a "candidata Marta", mas com uma diferença abissal em relação a Serra. No Estado, a candidatura petista recebeu a maior parte da cobertura neutra (cerca de 60% do total até agosto, quando caiu para a faixa de 40% a 50%). As notícias negativas sempre superaram as positivas, tendo oscilado entre 20% e 40% do total. As matérias positivas ficaram sempre abaixo de 30%, chegando a 10% quando as positivas estavam em 20%.

Observatório de Mídia: Marta apanhou mais

Já o levantamento do Observatório Brasileiro de Mídia divulgado em 1° de outubro envolve duas pesquisas sobre a cobertura das eleições municipais, realizadas com os cinco maiores jornais paulistanos: além da Folha e Estado, foram incluídos o Agora São Paulo, Diário de S.Paulo e Jornal da Tarde. As análises referem-se às semanas dos dias 2 a 8 de setembro e 9 a 15 de setembro. Foi o segundo levantamento do instituto, que também separou Marta Suplicy em duas personagens: a candidata e a prefeita.

A "candidata Marta", que na primeira pesquisa havia obtido 181 citações negativas na somatória dos cinco jornais, na segunda registrou 112 matérias negativas. Na semana de 9 a 15, a candidata continuava no primeiro lugar do ranking de matérias negativas, com 156 citações desfavoráveis. Como no primeiro monitoramento, em segundo lugar aparece a "prefeita Marta", com 56 citações desfavoráveis no estudo de 2 a 8 de setembro e com 94, no seguinte.

Em relação ao candidato do PSDB José Serra foram publicadas, na primeira semana, 78 matérias positivas, 66 neutras e 46 negativas. No segundo estudo foram 54 matérias positivas, 70 neutras e apenas 31 negativas. Na terceira semana, Serra contabilizou 72 matérias favoráveis, 88 contrárias e 98 neutras.

Comparando as duas candidaturas, verifica-se o seguinte placar de notícias negativas, pela ordem dos levantamentos: Marta 181, Serra 46; Marta 112, Serra 31; e Marta 156, Serra 88.

No acumulado das três semanas, não houve grandes variações. A candidata Marta ficou na liderança das matérias negativas com 449 citações desfavoráveis, 240 positivas e 204 neutras. Na seqüência, vem a prefeita Marta Suplicy, com 214 textos negativos, 42 neutros e 63 positivos. José Serra somou 165 citações negativas, 234 neutras e 204 positivas.

O Observatório Brasileiro de Mídia criou um critério adicional para a aferição qualitativa das matérias. Além da classificação entre as categorias positiva, neutra e negativa, o instituto criou o que chamou de "morfômetro" - uma nota de 2 a 10 a cada matéria, de acordo com sua localização na página e com os elementos gráficos, como foto e outros recursos.

Na comparação do "morfômetro", a candidata Marta obteve 91,62% de referências negativas na semana de 2 a 8 de setembro e 92,37% na pesquisa de 9 a 15 de setembro. Em segundo lugar, ficou a prefeita Marta com 59,11% de matérias desfavoráveis na semana de 2 a 8 de setembro e 59,71% na semana de 9 a 15 de setembro. Entre as matérias que citaram José Serra na primeira pesquisa, 15,64% eram desfavoráveis, 35,49% neutras e 48,87% positivas. Já no estudo seguinte, as porcentagens são de 9,91% de textos desfavoráveis, 57,02% de neutros e 33,07% de positivos. E no último levantamento: 34,90%; 41,75% e 23,35%, respectivamente.

Os dados acumulados mostram que 67,03% das matérias que citam Marta prefeita são desfavoráveis, 12,22% neutras e 20,75% positivas. A candidata Marta teve 49,58% de matérias negativas; 26,96% de neutras e 23,46% de positivas. As porcentagens relativas à candidatura José Serra nas três semanas avaliadas são: 26,58% de negativas; 39,22% de neutras e 34,20% de positivas.

A Venezuela é aqui

Críticos de mídia das mais variadas partes do planeta escreveram sobre a ostensiva campanha da mídia venezuelana para tirar Hugo Chávez da presidência da Venezuela. Lá, os jornais não tiveram vergonha de assumir um verdadeiro movimento golpista para derrubar Chávez. Não deu certo, porque o presidente se submeteu ao julgamento da sociedade e, mais de uma vez, saiu vencedor. Mas a imprensa local não desiste e continua em franca oposição ao líder bolivariano.

Na capital da maior cidade da América Latina, a julgar pelos resultados dos dois levantamentos descritos acima, a imprensa paulistana decidiu adotar o paradigma venezuelano para tentar eleger o candidato que mais lhe apetece. A julgar pelo resultado do primeiro turno das eleições, estão tendo melhores resultados do que os seus congêneres de Caracas. O perigo é essa moda pegar.


5º BLOCO

Veja o que disseram os convidados após o programa:

Rio de Janeiro:

Marcus Figueiredo - Prof. IUPERJ / Coord. DOXA
"Creio que está na hora do Observatório da Imprensa criar um debate sobre as eleições proporcionais. A mídia não informa o eleitor sobre este aspecto das eleições."

São Paulo:

Fátima Pacheco Jordão - Socióloga
"Acho que o programa abordou todos os aspectos essenciais, a visão do eleitor, do candidato, dos bastidores políticos e o papel da mídia que é central. Acho que foi um programa equilibrado e deu ao telespectador um panorama bastante rico do processo."

José Coelho Sobrinho - Coord. Observatório Bras. de Mídia
"O programa foi interessante porque conseguiu fazer com que os telespectadores comecem a pensam a mídia de uma forma diferente em relação às eleições. De que forma o jornal, o debate em televisão, a participação de marqueteiros no comportamento do candidato, pode fazer com que o eleitor escolha determinado candidato."


PERGUNTAS

E-mails recebidos na semana de 05/10 a 19/10:

Eduardo Guimarães, São Paulo - Comerciante
Sr. Alberto Dines, com todo respeito sobre a escolha da pauta do programa de hoje do Observatório da Imprensa, peço-lhe, encarecidamente, que não permita que o programa termine sem abordar a questão dos estudos do Iuperj, do ECA e do próprio Observatório Brasileiro de Mídia, cujo lançamento foi escondido pelos maiores jornais paulistas, sobre a cobertura tendenciosa da imprensa paulista em favor de José Serra e contra Marta Suplicy.

Silvia Malta Mandarino
Sr. Alberto, por um lado acho que, realmente, nada deve ser proibido. Entretanto, às pesquisas não se deveria dar tanto destaque, como matéria de primeira página! Creio que não instrui. Só transforma, tudo, num torneio. Sinto que já evoluímos bastante em questão de eleições, mas ainda engatinhamos no que se refere à opinião dos eleitores. São influenciados, sim. Ouvi muita gente dizer que votaria em sicrano, mas votará em beltrano só para impedir a vitória de um determinado candidato. Isto é voto? A imprensa não se sente co-responsável por este prejuízo? Ademais, os erros tiraram toda a credibilidade, se é que isto é importante para o eleitor. Está mais do que na hora de crescermos também nesse quesito.

Marcio Pinheiro - Jornalista
Olá, tenho duas pergunta para Marcus Figueiredo:
1 - Há diferentes maneiras de o eleitor formar seu voto: seja na conversa com amigos, horário eleitoral, pelo jornal etc, e a pesquisa de opinião. De todas essas formas, a pesquisa seria a mais "forte" na formação da opinião do leitor?
2 - Qual a melhor maneira de cobrirmos a campanha para vereador?

Valdecir Moura, Estrela / RS
Boa noite Observatório! Na minha cidade aconteceram fatos relacionados ao assunto em pauta que foi um verdadeiro carnaval. Um "jornalzinho" local promoveu um espetáculo de falta de ética, distribuindo exemplares gratuitos com pesquisas em que o candidato A obtinha enorme vantagem sobre o candidato B e muito mais absurdos publicados. Pois bem, a eleição acabou e o candidato B venceu por uma enorme vantagem. Como cidadão estrelense, gostaria de saber, perguntando aos convidados: existe algum órgão que possa controlar os abusos cometidos por setores de imprensa local? Podem responder por estes atos?

Lauro Henrique Santos Oliveira Lima
Todo eleitor tende a querer ganhar. É comum quando o candidato do amigo não se elege, ele usar o termo "perdeu". E ele ganhou. Não se fala que a cidade perdeu por determinado candidato ser eleito ou não e sim do eleitor perder ou ganhar.

Andréa Mello Rego, Recife / PE
Dines, concordo com suas preocupações. Como leitora de jornal, sinto empobrecedora a cobertura jornalística que enfatiza em demasia as pesquisas. Em vez de trazer matérias que suscitem à reflexão e ao debate de idéias, a mídia muitas vezes se resume a discorrer sobre os números da última pesquisa eleitoral, o que pouco contribui para a politização do eleitorado e para o confronto das propostas dos candidatos.

Carlos Henrique
Prezados senhores, parabéns pelo tema do programa. Sou professor de Estatística aqui na UFV e sou Ph.D. em Estatística pela universidade estadual da Carolina do Norte, Raleigh, EUA. Creio que o grande problema está na divulgação das pesquisas pela mídia. Os resultados de uma pesquisa precisam ser estudados e interpretados cientificamente antes da divulgação. Pessoalmente já examinei resultados de inúmeras pesquisas divulgadas em jornais e verifiquei que a matéria publicada (apontando eventuais ganhadores) não estava inteiramente correta. As pesquisas influenciam a opinião dos eleitores e este é, na minha opinião, um dos pontos positivos, estimular o eleitor a escolher melhor o seu voto. Sou amplamente favorável à divulgação das pesquisas pois os institutos que realizam as pesquisas e os jornais que as divulgam é que correm o risco de divulgarem resultados que posteriormente serão comprovados ou não, com a apuração dos votos. Com o passar dos anos os fatos falam por si!

José Adailton, Matão / SP
Se a pesquisa influi, e acredito nisso, o que fazer para os indecisos não sofrerem influências? Proibir as pesquisas nos jornais? A linha editorial do Observatório da Imprensa às vezes me faz lembrar os fascistas. É um paradoxo mas não consigo evitar tal pensamento. Quero deixar bem claro que isto em absoluto não é uma acusação. É apenas um exercício de reflexão. Este questionamento da grande imprensa supõe que o leitor de discernimento mediano é incapaz de ter um raciocínio próprio para enxergar as entrelinhas... Somos uns cordeirinhos e, portanto, devemos ser tangidos para longe dos lobos. A grande imprensa escrita pouco tem a influenciar o indeciso. Este em sua grande maioria não lê absolutamente nada de jornal. O indeciso é o eleitor de periferia economicamente falando. Por outro lado, a TV esta sim é a vilã, o Big Brother. O resto é balela.

A imprensa não é manipuladora, ela é tendenciosa. Nem o próprio Observatório da Imprensa é neutro e equânime. A imprensa não deve ser cerceada com o tal de conselho. Ela deve ser unicamente julgada pelo leitor ou telespectador. O Observatório deveria ser apenas uma vitrine e não um crítico radical. O leitor médio tem seu desconfiômetro e não vê com bom olhos certos radicalismos. A imprensa ainda é nossa tribuna, não a avacalhem.

Rogério Bacalhau
Assisti ao último programa do dia 05/10. Tentei ligar para dar minha opinião, mas só dava ocupado. Por isso anotei o e-mail de vocês para escrever depois. Bom, a pergunta do programa era se as pesquisas eleitorais influenciam as pessoas. A minha resposta é sim! Influenciam as pessoas que estão com dúvidas, ou que simplesmente votam em quem está em primeiro lugar nas pesquisas, pois acham que estão jogando seu voto fora se votarem no segundo lugar. Alguém cogitou a possibilidade de se apresentar as pesquisas depois de determinada data das eleições. Eu não sou favorável a isto. Seria melhor nenhum tipo de divulgação de pesquisas eleitorais nem antes, nem próximo às eleições. Acredito que é um grande erro esse tipo de divulgação. Parabéns pela pauta do programa e por trazer esse tema ao debate.

Humberto Miranda do Nascimento, Campinas / SP
Que a Rede Globo esta sempre foi governista, não há dúvidas. E é entusiasta do governo Lula sem dúvida alguma. Por outro lado, com a muito provável eleição do tucano José Serra em São Paulo, a Folha de S. Paulo se tornará o principal veículo de comunicação (de mídia impressa) de resistência ao Governo Federal. Não estou falando apenas de críticas naturais a qualquer governo, mas de uma postura editorial deliberada e sistematicamente oposicionista, inclusive nas matérias. Trata-se mesmo é de "novo lacerdismo", embora Lula não tenha nada de Getúlio. Já o Estadão, que tem uma linha jornalística mais clara, com os fatos mais satisfatoriamente cobertos, mesmo que os editorialistas sejam conservadores, a postura de crítica jornalística é mais condizente com o que se espera no conteúdo de suas matérias. A Folha, não. Cobrir um fato para a Folha significa opinar sobre quem realmente ela atinge ao dar uma versão noticiosa, seja menos ou mais favorável às ações de governos petistas e tucanos, em particular, respectivamente. Exemplo: se o prefeito recém eleito de Unaí, um dos suspeitos junto com o irmão das mortes de fiscais do ministério do trabalho, em Minas Gerais, fosse do PT, haveria um questionamento ético do PT com um belo editorial sobre isso na Folha. Mas como ele não é petista, não é notícia. Então, o que é notícia? Esclareço. Além de minhas próprias observações, baseio minha opinião nas pesquisas do IUPERJ e ECA, que demonstraram que há uma abordagem frequentemente mais negativa para petistas que tucanos, muito embora ambos exerçam cargos executivos em São Paulo, petistas na Prefeitura e tucanos no governo estadual. "Ah!, mas a eleição agora é municipal". Não se trata disso, mas da exposição de Alkmin na candidatura de Serra e as críticas direcionadas à prefeitura fora do contexto eleitoral, que seriam críticas negativas sistemáticas à sua administração, principal cardápio da campanha tucana. Gostaria que comentasse o tema, caro jornalista Alberto Dines. Meus respeitos.


Telefonemas recebidos em 05/10:

Arthur de Lucca, Goiânia / GO
Pesquisas deveriam ser só para uso interno dos contratantes. Deveria-se proibir publicações. O eleitor deve escolher seu candidato sem se preocupar com o que a maioria está escolhendo (voto útil) e manter sua convicção no candidato ideal.

Rosita Lopes, Rio de Janeiro
Estou indignada pois o jornal Extra de Domingo mostrava em sua primeira página uma manchete que indagava se a vitória do César Maia seria logo no primeiro turno ou se ele precisaria de um segundo turno para vencer.

Rita Silveira, Porto Alegre / RS
Acredito que deve haver uma normatização da data para a divulgação da última pesquisa eleitoral. Desta forma, todos os jornais dariam as pesquisas mas não influenciariam o eleitor na última hora.

Ricardo Paris, Rio de Janeiro
A renúncia do Moreira Franco em Niterói foi vontade política ou vontade de mídia?

Carlos Henrique, Cachoeiro de Itapemirim / ES
Considerando o nível cultural da população não seria mais interessante que os jornais dessem mais atenção à estrutura política e ideológica do candidato em detrimento da sua imagem?



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