RESUMO DO PROGRAMA
ELEIÇÕES
O
Observatório da Imprensa do dia 5 de outubro analisou a cobertura da
mídia nas últimas eleições municipais. Houve favorecimento da
imprensa para algum candidato? As pesquisas realmente têm um valor
positivo no processo eleitoral? Os chamados marketeiros possuem
capacidade para eleger seus candidatos? Todos esses assuntos foram
abordados por nossos convidados durante o programa.
Participaram
desta edição do Observatório direto de São Paulo a socióloga
Fátima Pacheco Jordão e o coordenador do Observatório Brasileiro de
Mídia José Coelho Sobrinho. Nos estúdios em Brasília esteve o
cientista político e professor da UNB Henrique Carlos de Castro. No Rio
de Janeiro nosso convidado foi Marcus Figueiredo, professor do IUPERJ e
coordenador do Laboratório de Pesquisa em Comunicação Política e
Opinião Pública.
Em seu
editorial Alberto Dines lembrou a importância da imprensa na garantia
da lisura nas eleições e chamou atenção para "os erros nas
previsões cometidos por 2 grandes institutos de pesquisa, o Data Folha
e o IBOPE, ambos no tocante à disputa paulistana." E terminou
afirmando: "Eleição é um fato político, mas o desempenho da
imprensa também é um fato político."
A
socióloga Fátima Jordão iniciou o debate comentando as pesquisas de
intenção de voto: "As pesquisas representam exatamente a opinião
do leitor. A mídia cobre o discurso dos candidatos, os comentários dos
jornalistas e a pesquisa é a única área de expressão do próprio
eleitor." E depois, fez um alerta: "Se as pesquisas não forem
publicadas, elas continuarão a ser feitas e utilizadas apenas pelos
manipuladores de campanha."
Em
seguida Marcus Figueiredo, professor do IUPERJ afirmou: "A nossa
imprensa na cobertura em relação as pesquisas continua usando o mesmo
padrão, que é o padrão internacional, no qual pesquisas orientam não
só marketeiros, não só os eleitores mas também a mídia. É através
do resultado da pesquisa que a pauta de cobertura da eleição fica
orientada."
Sobre os
erros de previsão de alguns institutos de pesquisa, o cientista
político Henrique de Castro disse que "muitas vezes as pesquisas
erram por erros metodológicos ou por alguns erros que são
completamente impossíveis de nós mensurarmos, como por exemplo um
certo temor do eleitorado em dar a resposta."
Perguntado
a respeito do grande destaque dado pelos jornais às pesquisas, José
Coelho Sobrinho afirmou: "No momento de eleição o que o público
mais deseja saber é de resultados, e na maioria das vezes o editor, o
jornal, ele não se atreve a fazer uma avaliação de pesquisa ou fazer
um trabalho mais de análise dos fatos eleitorais."
Em
seguida Marcus Figueiredo comentou sobre favorecimentos da imprensa no
decorrer da campanha. "O caso que mais destaco foi o Estadão. O
jornal Estado de São Paulo ao longo do período todo, ou seja, desde
abril do início do ano até a semana passada, teve um comportamento
pró Serra. No sentido de dar cobertura a muito mais material
jornalístico positivo em relação a candidatura José Serra do que dos
demais candidatos."
Henrique
de Castro acrescentou: "Eu acredito que há favorecimento a
candidaturas por parte de setores da mídia porque os setores da mídia,
que são empresariais, tem interesses econômicos e políticos nos
resultados das eleições." Já sobre os debates entre candidatos
afirmou: "O eleitor vota numa imagem, então muitas vezes essa
imagem do candidato não quer ser maculada pelo debate. Os candidatos,
quando estão numa situação bastante cômoda, procuram se expor o
menos possível (...) nesse sentido, o debate político que deveria ser
o centro de uma eleição passa ao largo."
Na rodada
final do programa. José Coelho Sobrinho disse: "Não dá para
imaginar que um modelo de uma determinada eleição sirva para outras
eleições."
Henrique
Castro encerrou sua participação afirmando: " A imprensa
repercute muito mais do que de fato é a real importância do marketing
político numa eleição."
Marcus
Figueiredo, em sua conclusão, afirmou que "a cobertura da imprensa
vem se modernizando, vem melhorando, ainda que exista em alguns momentos
preferências políticas."
Fátima
Pacheco conclui: "Quero ressaltar, no caso dessas eleições, a
autonomia do eleitor, a qualidade e a capacidade que ele teve de avaliar
administrações, gestões."
Tiago Chediak (estagiário)
EDITORIAL
Bem-vindos
ao "Observatório da Imprensa".
Você
acredita que uma eleição resume-se apenas aos discursos em palanques,
passeatas, carreatas e o horário de propaganda eleitoral? Isto foi no
passado - eleição hoje tem marqueteiros, pesquisas de intenção de
voto, debates entre candidatos. Eleição é o teste máximo do processo
democrático e o papel da mídia é decisivo para garantir a lisura e
evitar a interferência do poder político ou do poder econômico.
Basta
ver que em quase sete anos de existência este Observatório já tratou
de eleições em 17 edições sendo que doze delas focalizadas em eleições
brasileiras. Muitos destes programas focalizaram o destaque e a freqüência,
quase uma obsessão, de divulgar pesquisas de intenção de voto que
acabaram por substituir o debate de idéias. Chegamos a designar esta
febre como pesquisismo ou pesquisite e parece que não foi exagero.
Além
das surpresas naturais de qualquer eleição, o que chamou a atenção
no pleito do último domingo foram os erros nas previsões cometidos por
dois grandes institutos de pesquisa, o Datafolha e o Ibope, ambos no
tocante à disputa paulistana.
Qualquer
previsão, por mais científica que seja, corre o risco de não ser
confirmada tantos são os imponderáveis, mas a pergunta que este
Observatório da Imprensa vê-se obrigado a repetir tem a ver com uma
questão puramente jornalística: em que código ou manual está escrito
que no dia da eleição os jornais são obrigados a adivinhar os
resultados das urnas mais de 12 horas antes do início da apuração?
O leitor
compra o jornal para saber coisas efetivamente acontecidas ou quer
participar de um exercício divinatório, tipo loteria ou mega-sena? E
será que esta adivinhação não pode induzir os indecisos a fazer a opção
pelo candidato que vai ganhar? Convém pensar sobre isso. Eleição é
um fato político mas o desempenho da imprensa também é um fato político.
ARTIGO
Por Alberto Dines
ELEIÇÕES
/ PRIMEIRO TURNO
Pitonisas e magos foram os derrotados
Alberto Dines
Coroas de
louros para os vitoriosos, coroas de flores para os vencidos. Além
delas, duas auspiciosas notícias fúnebres: a pesquisite levou tremenda
surra e, o marqueteirismo, sova histórica. Bom para a política, bom
para a democracia, melhor ainda para o jornalismo.
Na
realidade, foi uma coça só: a devoção desmedida às pesquisas e o
culto exagerado ao marketing político fazem parte do mesmo fenômeno,
pontas do mesmo processo. A carnavalização eleitoral depaupera e
deforma tanto o jogo político como a sua cobertura jornalística.
Símbolo
da pesquisite, na realidade sua inventora, a Folha de S.Paulo saiu
visivelmente machucada do primeiro turno do pleito paulista. O jornalão
tanto usou as pesquisas que chegou a criar uma empresa especializada, o
Datafolha, da qual é principal cliente. Sua veneração pelas sondagens
converteu aquilo que parecia ser mais um de seus modismos sazonais numa
de suas marcas.
Graças a
isso, a numerologia converteu-se em procedimento jornalístico
rotineiro, mesmo fora da temporada eleitoral. Exemplo clássico do círculo
vicioso - inventa-se uma pseudoverdade que logo será levada à opinião
pública como sua autêntica manifestação. Auto-engano exógeno.
Obrigação
divinatória?
Nos últimos
anos não foram poucos os casos em que uma denúncia (em geral produzida
por um grampo, vídeo ou dossiê secreto) acionava imediatamente uma
sondagem de opinião que, antes mesmo de investigada e confirmada,
transformava-se numa condenação sumária.
A
pesquisite é a filha dileta da Era do Factóide - muito visível ao
longo dos anos 1990, injusto atribuí-la apenas à Folha. Todos os
jornalões (inclusive o combalido Jornal do Brasil) tentaram clonar o
recurso criando empresas especializadas ou associando-se a entidades
acadêmicas. Um dia descobriram que sairia mais barato e menos
comprometedor divulgar o resultado do Datafolha e dos demais institutos
concorrentes. A Folha adorou, transformada em monopólio da profecia.
Agora veio o troco: ficou isolada na berlinda já que o Ibope, o Vox
Populi ou o Sensus apenas produzem informações - não são veículos.
Este
Observatório há anos chama a atenção para os males do pesquisismo e
da pesquisite que acometem nossa mídia [remissões abaixo]. A revista
Veja finalmente despertou para o assunto e na edição corrente (nº
1874, de 8/10/04), com uma excelente investigação de cinco páginas,
colocou sob suspeita a enxurrada de referendos [leia a íntegra da matéria
no primeiro bloco da rubrica Entre Aspas, nesta edição].
Fiada na
sua infalibilidade e na da sua subsidiária, a Folha foi o único dos três
jornalões nacionais a antecipar em manchete na edição de domingo
(3/10) os resultados numéricos de um pleito que ainda não se
realizara:
* Serra
alcança 37%; Marta tem 34%
No subtítulo,
num esforço para garantir-se de eventuais surpresas, a constatação de
que havia um empate técnico. Perdida no meio do texto da primeira página,
a preciosa informação sobre a margem de erro: 2 pontos. Folha e
Datafolha ferraram-se sozinhas. Deu Serra 43,5% e Marta 35,8% - nem
sombra de empate.
O
concorrente O Estado de S.Paulo, desobrigado de defender uma empresa
associada, reproduziu os resultados do Datafolha e comparou-os com os do
Ibope:
* Marta e
Serra se alternam em primeiro lugar
No subtítulo
preveniu-se de algum tropeço dos institutos e tirou o corpo fora:
"Serra lidera uma das pesquisas e Marta, a outra. Mas ambas apontam
empate técnico". Quem divulga erros também está errado.
O Globo,
atento ao Rio, seu mercado preferencial, comprometeu-se menos e, ao invés
de uma profecia categórica, saiu-se com o óbvio ululante.
* Disputa
sobre 2º turno é voto a voto
Certamente
não perdeu um único leitor. E onde está escrito que jornais responsáveis
estão obrigados a adivinhar os resultados de uma votação? Em que
manual ou código de jornalismo está determinado que no dia da eleição
a missão do jornal é fingir-se de pitonisa e antecipar o que ainda não
aconteceu?
Religião
marqueteira
Além dos
riscos e escorregões inerentes à perigosa roleta dos vaticínios, a
antecipação de prévias contém indiscutível carga indutora.
Indecisos em geral decidem pelo vencedor. E às vezes os indecisos fazem
a diferença.
Embora os
regulamentos eleitorais vigentes não proíbam a divulgação de
sondagens na véspera ou no dia da eleição, a mídia mais responsável
deveria exercer um autocontrole e abster-se soberanamente deste
profetismo. Ganharia dose dupla de credibilidade - ao recusar previsões
sempre perigosas e ao abrir mão de um direito que pode comprometer sua
imparcialidade.
Veículos
isentos devem abster-se da tentação divinatória, mesmo que no dia da
eleição sejam obrigados a produzir manchetes menos trepidantes e mais
mornas.
Nas edições
do day after (segunda, 4/10), enquanto o Estado apontava o erro das duas
previsões que veiculou, a Folha viu-se compelida a agarrar-se às projeções
da afilhada Datafolha. O Estado ficou mais à vontade, a Folha menos.
Erraram ambos ao achar que sondagens de opinião são absolutamente
"científicas" e devem ser obrigatoriamente publicadas no dia
da eleição.
Assim
como o Datafolha transformou-se em show-room do profetismo mediático, o
publicitário Duda Mendonça foi convertido em vitrine dos poderes mágicos
do marketing político. Há uma relação muito nítida entre a devoção
cega às sondagens e a devoção cega aos truques de marketing.
O
primeiro grande feito de Duda Mendonça foi eleger o herdeiro de Paulo
Maluf, o desconhecido Celso Pitta, como prefeito de São Paulo (1996).
Em seguida, apesar de acusado de propaganda enganosa, converteu-se numa
espécie de parceiro dos deuses quando emplacou Luiz Inácio Lula da
Silva na presidência da República depois de três derrotas sucessivas.
Políticos
sempre fizeram marketing político - para eles próprios. É o que se
chama faro e carisma. Modernamente passaram a ser acompanhados por
especialistas em imagem e comunicação, mas o candidato e seu staff é
que dão a palavra final sobre as estratégias e linhas de ação. São
políticos e a eleição é o momento máximo do processo político:
abdicar dele é a suprema traição. Candidatos não podem ser
manipulados como marionetes sujeitos a scripts que variam de acordo com
os resultados de cada pesquisa. Em pleitos diretos e democráticos o
papel do marketing é complementar.
Não foi
por acaso que Paulo Maluf (cria da ditadura militar) tornou-se apóstolo
da religião marqueteira. Também não é por acaso que a charmosa Marta
Suplicy, cliente de Duda Mendonça, perdeu o primeiro turno e seu adversário
José Serra - careca, com olheiras e fama de antipático - teve um
índice de rejeição mínimo.
Menos
pesquisas e menos marketing, mais política e mais debate. A imprensa e
a democracia agradecem.
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET
ELEIÇÕES
PAULISTANAS
Jornais ajudaram tucano e prejudicaram a prefeita
Luiz Antonio Magalhães
Os dois
jornais de maior circulação na cidade de São Paulo - a Folha de
S.Paulo e O Estado de S.Paulo - favoreceram o candidato do PSDB à
prefeitura da capital, o ex-ministro José Serra, e prejudicaram a
prefeita Marta Suplicy (PT), que tenta a reeleição. É o que revelam
os levantamentos de dois institutos ligados a instituições universitárias
reconhecidas pela excelência de suas pesquisas - o Iuperj (Instituto
Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro), da Universidade Candido
Mendes, e o Observatório Brasileiro de Mídia, cuja pesquisa foi feita
em parceria com a Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade
de São Paulo.
O
comportamento dos dois jornais foi acompanhados por metodologias
distintas, mas o resultado foi o mesmo: os levantamentos mostram que ao
longo da campanha Folha e Estado, Jornal da Tarde, Agora São Paulo e Diário
de S. Paulo publicaram mais matérias negativas sobre Marta Suplicy do
que sobre José Serra. Além disso, as matérias positivas ou neutras
sobre o tucano foram sempre muito mais freqüentes do as relativas à
prefeita. E, na reta final da campanha eleitoral, Folha e Estado
intensificaram as notícias negativas sobre Marta e aumentaram as matérias
positivas sobre Serra.
A
pesquisa do Iuperj catalogou as notícias em três categorias:
positivas, neutras e negativas. Foi realizada uma contagem das matérias
com essas características publicadas em cada jornal. O resultado, como
se pode ver abaixo, é esclarecedor.
Na Folha
de S.Paulo, Serra, ex-colunista do jornal, obteve, desde o início da
pesquisa, no final de abril, uma alta taxa de notícias neutras (em
torno de 60% do total). E assim foi até a campanha esquentar, no início
de setembro. Dali em diante, as notícias neutras caíram para um
patamar entre 30% e 40% do total. Ao mesmo tempo, cresceram as notícias
positivas, que vinham oscilando em torno de 20% e subiram para 40% nos
três últimos levantamentos antes da eleição de domingo (3/10). As
notícias negativas a respeito do tucano permaneceram estáveis em cerca
de 20% a 30% do total até a última quinzena antes do pleito, quando caíram
para 20% do total das matérias publicadas.
Pela
metodologia do Iuperj, as notícias neutras, positivas e negativas sobre
Marta Suplicy foram divididas em dois tipos - as que faziam referência
à candidata e as que tratavam da prefeita. Nos dois casos, Marta
recebeu um tratamento bem diferente daquele dispensado a José Serra.
Segundo
as conclusões do Iuperj, a Folha publicou uma média de 60% de notícias
negativas sobre a "prefeita Marta" no início da campanha,
tendo baixado esta média para 20% nos mês de junho e começo de julho.
No final de julho, a taxa de matérias negativas subiu para 50%,
aumentando para 60% no começo de agosto, declinando para 50% no início
de setembro e subindo mais uma vez na reta final da campanha, quando
beirou os 60%. As notícias neutras sobre a prefeita oscilaram, durante
a maior parte da campanha, na faixa de 40% do total. Na última quinzena
de setembro, este tipo de matéria diminuiu, atingindo apenas 20% do
total.
As notícias
positivas, por outro lado, chegaram a 40% em junho e, daí para frente,
despencaram. Entre 8 de julho e 18 de agosto, o noticiário favorável
à prefeita na Folha praticamente sumiu, permanecendo abaixo de 10% do
total, o que chegou a gerar críticas do próprio ombudsman do jornal.
Talvez em função do alerta de Marcelo Beraba, a redação da Folha se
esforçou para soltar algumas notícias boas para a prefeita entre 2 e
15 de setembro, quando a taxa atingiu 30%. No final da campanha, porém,
o jornal voltou a prejudicar Marta e deu pouco mais de 20% das matérias
positivas.
O
tratamento que a Folha dispensou à "candidata Marta" foi
ligeiramente melhor do que o observado em relação à "prefeita
Marta", mas ainda bem menos complacente do que em relação a José
Serra. Em linhas gerais, predominou na campanha o uso de notícias
neutras (cerca de 60% até o início de setembro, quando a taxa caiu
para 30% e voltou a subir para 40% no mês anterior ao pleito). As notícias
positivas jamais ultrapassaram 30% do total, tendo ficado abaixo de 10%
no início da campanha. Já as notícias negativas chegaram a superar a
soma das neutras e positivas no início da campanha, permanecendo na
casa dos 30% entre julho e setembro e subindo para 40% à medida que as
eleições se aproximavam.
Estadão:
edições sem notícias ruins sobre Serra
No Estado
de S. Paulo, ainda segundo a pesquisa do Iuperj, o apoio a Serra ocorreu
de forma semelhante ao que se verificou na Folha. O tucano foi
privilegiado com notícias positivas, que permaneceram na casa de 30% do
total ao longo da campanha, subindo para algo em torno de 40% e 50% na
reta final. As notícias neutras superaram as positivas e as matérias
depreciativas sobre Serra estiveram sempre abaixo das demais, em índices
inferiores a 10% do que saía publicado. Houve um levantamento, em
junho, em que os pesquisadores não encontraram uma única notícia
negativa a respeito de Serra no Estadão.
Em relação
à "prefeita Marta", o Estadão conseguiu pegar ainda mais
pesado do que o concorrente. A partir de junho, as notícias negativas
sobre a gestão petista na prefeitura de São Paulo ficaram sempre acima
de 50%, tendo oscilado entre incríveis 60% e 70% nos meses de julho e
agosto. Ou seja, de cada 10 matérias que saíram no Estadão sobre
Marta, 6 ou 7 falavam mal da prefeita. As notícias positivas jamais
superaram a casa dos 30% do total de matérias, tendo a taxa ficado em
0% em um dos levantamentos de julho. Já as notícias neutras oscilaram
entre 20% e 40%.
Da mesma
maneira que a Folha, o Estadão também tratou um pouco melhor a
"candidata Marta", mas com uma diferença abissal em relação
a Serra. No Estado, a candidatura petista recebeu a maior parte da
cobertura neutra (cerca de 60% do total até agosto, quando caiu para a
faixa de 40% a 50%). As notícias negativas sempre superaram as
positivas, tendo oscilado entre 20% e 40% do total. As matérias
positivas ficaram sempre abaixo de 30%, chegando a 10% quando as
positivas estavam em 20%.
Observatório
de Mídia: Marta apanhou mais
Já o
levantamento do Observatório Brasileiro de Mídia divulgado em 1° de
outubro envolve duas pesquisas sobre a cobertura das eleições
municipais, realizadas com os cinco maiores jornais paulistanos: além
da Folha e Estado, foram incluídos o Agora São Paulo, Diário de
S.Paulo e Jornal da Tarde. As análises referem-se às semanas dos dias
2 a 8 de setembro e 9 a 15 de setembro. Foi o segundo levantamento do
instituto, que também separou Marta Suplicy em duas personagens: a
candidata e a prefeita.
A
"candidata Marta", que na primeira pesquisa havia obtido 181
citações negativas na somatória dos cinco jornais, na segunda
registrou 112 matérias negativas. Na semana de 9 a 15, a candidata
continuava no primeiro lugar do ranking de matérias negativas, com 156
citações desfavoráveis. Como no primeiro monitoramento, em segundo
lugar aparece a "prefeita Marta", com 56 citações desfavoráveis
no estudo de 2 a 8 de setembro e com 94, no seguinte.
Em relação
ao candidato do PSDB José Serra foram publicadas, na primeira semana,
78 matérias positivas, 66 neutras e 46 negativas. No segundo estudo
foram 54 matérias positivas, 70 neutras e apenas 31 negativas. Na
terceira semana, Serra contabilizou 72 matérias favoráveis, 88 contrárias
e 98 neutras.
Comparando
as duas candidaturas, verifica-se o seguinte placar de notícias
negativas, pela ordem dos levantamentos: Marta 181, Serra 46; Marta 112,
Serra 31; e Marta 156, Serra 88.
No
acumulado das três semanas, não houve grandes variações. A candidata
Marta ficou na liderança das matérias negativas com 449 citações
desfavoráveis, 240 positivas e 204 neutras. Na seqüência, vem a
prefeita Marta Suplicy, com 214 textos negativos, 42 neutros e 63
positivos. José Serra somou 165 citações negativas, 234 neutras e 204
positivas.
O
Observatório Brasileiro de Mídia criou um critério adicional para a
aferição qualitativa das matérias. Além da classificação entre as
categorias positiva, neutra e negativa, o instituto criou o que chamou
de "morfômetro" - uma nota de 2 a 10 a cada matéria, de
acordo com sua localização na página e com os elementos gráficos,
como foto e outros recursos.
Na
comparação do "morfômetro", a candidata Marta obteve 91,62%
de referências negativas na semana de 2 a 8 de setembro e 92,37% na
pesquisa de 9 a 15 de setembro. Em segundo lugar, ficou a prefeita Marta
com 59,11% de matérias desfavoráveis na semana de 2 a 8 de setembro e
59,71% na semana de 9 a 15 de setembro. Entre as matérias que citaram
José Serra na primeira pesquisa, 15,64% eram desfavoráveis, 35,49%
neutras e 48,87% positivas. Já no estudo seguinte, as porcentagens são
de 9,91% de textos desfavoráveis, 57,02% de neutros e 33,07% de
positivos. E no último levantamento: 34,90%; 41,75% e 23,35%,
respectivamente.
Os dados
acumulados mostram que 67,03% das matérias que citam Marta prefeita são
desfavoráveis, 12,22% neutras e 20,75% positivas. A candidata Marta
teve 49,58% de matérias negativas; 26,96% de neutras e 23,46% de
positivas. As porcentagens relativas à candidatura José Serra nas três
semanas avaliadas são: 26,58% de negativas; 39,22% de neutras e 34,20%
de positivas.
A
Venezuela é aqui
Críticos
de mídia das mais variadas partes do planeta escreveram sobre a
ostensiva campanha da mídia venezuelana para tirar Hugo Chávez da
presidência da Venezuela. Lá, os jornais não tiveram vergonha de
assumir um verdadeiro movimento golpista para derrubar Chávez. Não deu
certo, porque o presidente se submeteu ao julgamento da sociedade e,
mais de uma vez, saiu vencedor. Mas a imprensa local não desiste e
continua em franca oposição ao líder bolivariano.
Na
capital da maior cidade da América Latina, a julgar pelos resultados
dos dois levantamentos descritos acima, a imprensa paulistana decidiu
adotar o paradigma venezuelano para tentar eleger o candidato que mais
lhe apetece. A julgar pelo resultado do primeiro turno das eleições,
estão tendo melhores resultados do que os seus congêneres de Caracas.
O perigo é essa moda pegar.
5º BLOCO
Veja o que disseram os
convidados após o programa:
Rio
de Janeiro:
Marcus
Figueiredo - Prof. IUPERJ / Coord. DOXA
"Creio que está na hora do Observatório da Imprensa criar um debate
sobre as eleições proporcionais. A mídia não informa o eleitor sobre
este aspecto das eleições."
São
Paulo:
Fátima
Pacheco Jordão - Socióloga
"Acho que o programa abordou todos os aspectos essenciais, a visão do
eleitor, do candidato, dos bastidores políticos e o papel da mídia que é
central. Acho que foi um programa equilibrado e deu ao telespectador um
panorama bastante rico do processo."
José
Coelho Sobrinho - Coord. Observatório Bras. de Mídia
"O programa foi interessante porque conseguiu fazer com que os
telespectadores comecem a pensam a mídia de uma forma diferente em relação
às eleições. De que forma o jornal, o debate em televisão, a
participação de marqueteiros no comportamento do candidato, pode fazer
com que o eleitor escolha determinado candidato."
PERGUNTAS
E-mails recebidos na
semana de 05/10 a 19/10:
Eduardo Guimarães, São Paulo - Comerciante
Sr. Alberto Dines, com todo respeito sobre a escolha da pauta do programa
de hoje do Observatório da Imprensa, peço-lhe, encarecidamente, que não
permita que o programa termine sem abordar a questão dos estudos do
Iuperj, do ECA e do próprio Observatório Brasileiro de Mídia, cujo
lançamento foi escondido pelos maiores jornais paulistas, sobre a
cobertura tendenciosa da imprensa paulista em favor de José Serra e
contra Marta Suplicy.
Silvia Malta Mandarino
Sr. Alberto, por um lado acho que, realmente, nada deve ser proibido.
Entretanto, às pesquisas não se deveria dar tanto destaque, como
matéria de primeira página! Creio que não instrui. Só transforma,
tudo, num torneio. Sinto que já evoluímos bastante em questão de
eleições, mas ainda engatinhamos no que se refere à opinião dos
eleitores. São influenciados, sim. Ouvi muita gente dizer que votaria em
sicrano, mas votará em beltrano só para impedir a vitória de um
determinado candidato. Isto é voto? A imprensa não se sente
co-responsável por este prejuízo? Ademais, os erros tiraram toda a
credibilidade, se é que isto é importante para o eleitor. Está mais do
que na hora de crescermos também nesse quesito.
Marcio Pinheiro - Jornalista
Olá, tenho duas pergunta para Marcus Figueiredo:
1 - Há diferentes maneiras de o eleitor formar seu voto: seja na conversa
com amigos, horário eleitoral, pelo jornal etc, e a pesquisa de opinião.
De todas essas formas, a pesquisa seria a mais "forte" na
formação da opinião do leitor?
2 - Qual a melhor maneira de cobrirmos a campanha para vereador?
Valdecir Moura, Estrela / RS
Boa noite Observatório! Na minha cidade aconteceram fatos relacionados ao
assunto em pauta que foi um verdadeiro carnaval. Um "jornalzinho"
local promoveu um espetáculo de falta de ética, distribuindo exemplares
gratuitos com pesquisas em que o candidato A obtinha enorme vantagem sobre
o candidato B e muito mais absurdos publicados. Pois bem, a eleição
acabou e o candidato B venceu por uma enorme vantagem. Como cidadão
estrelense, gostaria de saber, perguntando aos convidados: existe algum
órgão que possa controlar os abusos cometidos por setores de imprensa
local? Podem responder por estes atos?
Lauro Henrique Santos Oliveira Lima
Todo eleitor tende a querer ganhar. É comum quando o candidato do amigo
não se elege, ele usar o termo "perdeu". E ele ganhou. Não se
fala que a cidade perdeu por determinado candidato ser eleito ou não e
sim do eleitor perder ou ganhar.
Andréa Mello Rego, Recife / PE
Dines, concordo com suas preocupações. Como leitora de jornal, sinto
empobrecedora a cobertura jornalística que enfatiza em demasia as
pesquisas. Em vez de trazer matérias que suscitem à reflexão e ao
debate de idéias, a mídia muitas vezes se resume a discorrer sobre os
números da última pesquisa eleitoral, o que pouco contribui para a
politização do eleitorado e para o confronto das propostas dos
candidatos.
Carlos Henrique
Prezados senhores, parabéns pelo tema do programa. Sou professor de
Estatística aqui na UFV e sou Ph.D. em Estatística pela universidade
estadual da Carolina do Norte, Raleigh, EUA. Creio que o grande problema
está na divulgação das pesquisas pela mídia. Os resultados de uma
pesquisa precisam ser estudados e interpretados cientificamente antes da
divulgação. Pessoalmente já examinei resultados de inúmeras pesquisas
divulgadas em jornais e verifiquei que a matéria publicada (apontando
eventuais ganhadores) não estava inteiramente correta. As pesquisas
influenciam a opinião dos eleitores e este é, na minha opinião, um dos
pontos positivos, estimular o eleitor a escolher melhor o seu voto. Sou
amplamente favorável à divulgação das pesquisas pois os institutos que
realizam as pesquisas e os jornais que as divulgam é que correm o risco
de divulgarem resultados que posteriormente serão comprovados ou não,
com a apuração dos votos. Com o passar dos anos os fatos falam por si!
José Adailton, Matão / SP
Se a pesquisa influi, e acredito nisso, o que fazer para os indecisos não
sofrerem influências? Proibir as pesquisas nos jornais? A linha editorial
do Observatório da Imprensa às vezes me faz lembrar os fascistas. É um
paradoxo mas não consigo evitar tal pensamento. Quero deixar bem claro
que isto em absoluto não é uma acusação. É apenas um exercício de
reflexão. Este questionamento da grande imprensa supõe que o leitor de
discernimento mediano é incapaz de ter um raciocínio próprio para
enxergar as entrelinhas... Somos uns cordeirinhos e, portanto, devemos ser
tangidos para longe dos lobos. A grande imprensa escrita pouco tem a
influenciar o indeciso. Este em sua grande maioria não lê absolutamente
nada de jornal. O indeciso é o eleitor de periferia economicamente
falando. Por outro lado, a TV esta sim é a vilã, o Big Brother. O resto
é balela.
A imprensa não é manipuladora, ela é tendenciosa. Nem o próprio
Observatório da Imprensa é neutro e equânime. A imprensa não deve ser
cerceada com o tal de conselho. Ela deve ser unicamente julgada pelo
leitor ou telespectador. O Observatório deveria ser apenas uma vitrine e
não um crítico radical. O leitor médio tem seu desconfiômetro e não
vê com bom olhos certos radicalismos. A imprensa ainda é nossa tribuna,
não a avacalhem.
Rogério Bacalhau
Assisti ao último programa do dia 05/10. Tentei ligar para dar minha
opinião, mas só dava ocupado. Por isso anotei o e-mail de vocês para
escrever depois. Bom, a pergunta do programa era se as pesquisas
eleitorais influenciam as pessoas. A minha resposta é sim! Influenciam as
pessoas que estão com dúvidas, ou que simplesmente votam em quem está
em primeiro lugar nas pesquisas, pois acham que estão jogando seu voto
fora se votarem no segundo lugar. Alguém cogitou a possibilidade de se
apresentar as pesquisas depois de determinada data das eleições. Eu não
sou favorável a isto. Seria melhor nenhum tipo de divulgação de
pesquisas eleitorais nem antes, nem próximo às eleições. Acredito que
é um grande erro esse tipo de divulgação. Parabéns pela pauta do
programa e por trazer esse tema ao debate.
Humberto Miranda do Nascimento, Campinas / SP
Que a Rede Globo esta sempre foi governista, não há dúvidas. E é
entusiasta do governo Lula sem dúvida alguma. Por outro lado, com a muito
provável eleição do tucano José Serra em São Paulo, a Folha de S.
Paulo se tornará o principal veículo de comunicação (de mídia
impressa) de resistência ao Governo Federal. Não estou falando apenas de
críticas naturais a qualquer governo, mas de uma postura editorial
deliberada e sistematicamente oposicionista, inclusive nas matérias.
Trata-se mesmo é de "novo lacerdismo", embora Lula não tenha
nada de Getúlio. Já o Estadão, que tem uma linha jornalística mais
clara, com os fatos mais satisfatoriamente cobertos, mesmo que os
editorialistas sejam conservadores, a postura de crítica jornalística é
mais condizente com o que se espera no conteúdo de suas matérias. A
Folha, não. Cobrir um fato para a Folha significa opinar sobre quem
realmente ela atinge ao dar uma versão noticiosa, seja menos ou mais
favorável às ações de governos petistas e tucanos, em particular,
respectivamente. Exemplo: se o prefeito recém eleito de Unaí, um dos
suspeitos junto com o irmão das mortes de fiscais do ministério do
trabalho, em Minas Gerais, fosse do PT, haveria um questionamento ético
do PT com um belo editorial sobre isso na Folha. Mas como ele não é
petista, não é notícia. Então, o que é notícia? Esclareço. Além de
minhas próprias observações, baseio minha opinião nas pesquisas do
IUPERJ e ECA, que demonstraram que há uma abordagem frequentemente mais
negativa para petistas que tucanos, muito embora ambos exerçam cargos
executivos em São Paulo, petistas na Prefeitura e tucanos no governo
estadual. "Ah!, mas a eleição agora é municipal". Não se
trata disso, mas da exposição de Alkmin na candidatura de Serra e as
críticas direcionadas à prefeitura fora do contexto eleitoral, que
seriam críticas negativas sistemáticas à sua administração, principal
cardápio da campanha tucana. Gostaria que comentasse o tema, caro
jornalista Alberto Dines. Meus respeitos.
Telefonemas recebidos em 05/10:
Arthur de Lucca, Goiânia / GO
Pesquisas deveriam ser só para uso interno dos contratantes. Deveria-se
proibir publicações. O eleitor deve escolher seu candidato sem se
preocupar com o que a maioria está escolhendo (voto útil) e manter sua
convicção no candidato ideal.
Rosita Lopes, Rio de Janeiro
Estou indignada pois o jornal Extra de Domingo mostrava em sua primeira página
uma manchete que indagava se a vitória do César Maia seria logo no
primeiro turno ou se ele precisaria de um segundo turno para vencer.
Rita Silveira, Porto Alegre / RS
Acredito que deve haver uma normatização da data para a divulgação da
última pesquisa eleitoral. Desta forma, todos os jornais dariam as
pesquisas mas não influenciariam o eleitor na última hora.
Ricardo Paris, Rio de Janeiro
A renúncia do Moreira Franco em Niterói foi vontade política ou vontade
de mídia?
Carlos Henrique, Cachoeiro de Itapemirim / ES
Considerando o nível cultural da população não seria mais interessante
que os jornais dessem mais atenção à estrutura política e ideológica
do candidato em detrimento da sua imagem?