PROGRAMA DO DIA 31 DE AGOSTO DE 2004

OLIMPÍADAS

Neste programa fizemos um balanço da cobertura da mídia nas Olimpíadas em Atenas. A imprensa fez uma cobertura de acordo com os resultados dos atletas brasileiros ou houve exagero?

O esporte amador só é lembrado em dias de Olimpíada, neste aspecto, qual a responsabilidade da mídia?

Fizemos também um balanço da segurança nesta Olimpíada, houve dificuldade de trabalho para os jornalistas por causa da severa vigilância na Grécia?

Leia o resumo do programa

  Veja o Compacto

INVASÃO N'O TEMPO
Algemas estréiam nas redações

Alberto Dines

Como fotografia, a seqüência é quase banal. Uma pessoa algemada num país onde os grandes criminosos jamais deixam-se fotografar, no máximo chamaria a atenção pela raridade. Dramático é o que se depreende das informações da legenda ou da matéria ao lado. Trágica é a constatação: agentes da Polícia Federal, a mais qualificada das nossas polícias, invadiram as instalações de um jornal, exaltados, deram voz de prisão a dois editores e algemaram um deles.

Leia na íntegra

A imprensa exagerou na torcida pelo Brasil durante as Olimpíadas?

Resultado:

Sim: 16%

Não: 84%

Aqui você pode participar de fóruns sobre assuntos ligados à imprensa, deixar seu recado no nosso mural e ler as perguntas dos telespectadores.

Perguntas - Aqui são colocadas as perguntas dos telespectadores que chegam por telefone, fax ou e-mail durante o programa e ao longo da semana.

5 Bloco - Leia a opinião dos participantes do programa, sobre o debate.

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

As Olimpíadas acabaram no domingo e hoje já deveriam estar fora das primeiras páginas não fosse a extraordinária façanha no qual foi envolvido involuntariamente o nosso maratonista Vanderlei Cordeiro.

Mas o que chama a atenção foi o fato de que hoje, terça-feira, os três grandes jornais nacionais deixaram de lado suas transcendentais preocupações com o estado do mundo e do país para comentar a participação brasileira na grande competição de Atenas.


Leia na íntegra

OLIMPÍADAS 2004
O "infotainment" subiu ao pódio

Ricardo A. Setti (*)

Encerradas as Olimpíadas da Grécia, começam a ser feitos os tradicionais balanços sobre a participação brasileira - tida como a melhor até hoje, apesar de algumas duras decepções - suas causas, conseqüências e lições que encerram. A nós, jornalistas, seria útil tentar analisar o que foi nossa cobertura dos Jogos, especialmente a feita pelo veículo que atinge o maior número de consumidores de informação: a televisão.

Leia na íntegra


RESUMO DO PROGRAMA

OLIMPÍADAS

O Observatório da Imprensa do dia 31 de agosto contou com a presença dos jornalistas Jorge Kajuru, Roberto Falcão (Coordenador de Imprensa para os Jogos Panamericanos de 2007) e Antônio Nascimento (Editor do caderno de esportes de O Globo) debatendo um tema bastante recente: a cobertura da mídia nas Olimpíadas de Atenas.

"Antes de decidirmos se devemos dar mais ênfase ao hipismo ou ao iatismo, que nos deram grandes alegrias, convém discutir o papel da imprensa e este papel não se resume apenas à cobertura dos grandes eventos, mas inclui, principalmente, o estilo dos esportes ditos amadores, sobretudo aqueles que não despertam grandes paixões e não atraem multidões. Estamos aqui para discutir a mídia diante do maior evento do mundo", afirmou Dines, logo no início do seu editorial.

Jorge Kajuru iniciou sua participação no programa dizendo-se decepcionado com a cobertura dos Jogos Olímpicos: "As emissoras de TV transmitem o jogo em Porto Alegre com o narrador e o comentarista nos estúdios. Transmitem jogos da Seleção Brasileira no Uruguai, do Rio de Janeiro ou de São Paulo, e isso também passou a acontecer nos grandes eventos. Na hora do evento, você vê um time limitado de profissionais lá e a maioria aqui, fazendo a cobertura dos estúdios. Para mim, isso é uma traição ao anunciante, ao telespectador e ao ouvinte. O telespectador tem que cobrar das emissoras uma cobertura mais digna e mais presente. A cobertura foi muito abaixo do esperado".

O jornalista Roberto Falcão, recém-chegado de Atenas onde trabalhou nos jogos pelo COB, confirmou a dificuldade de se cobrir tamanho evento com um número limitado de pessoas: "O coordenador e o editor têm que fazer a cada dia uma série de opções, porque você tem uma quantidade de eventos, uma programação extensa e você não consegue cobri-lo com a quantidade de repórteres que tem. Têm jornais que trabalharam somente com um repórter em Atenas".

Antônio Nascimento atentou para a preocupação do Globo com o exagero do ufanismo: "Houve sempre a preocupação de exaltar os atletas, não massacrar aqueles que perderam, mas ser críticos, sim, em relação ao desempenho na competição".

Outra questão debatida foi o fato de ex-atletas serem usados como comentaristas. Para Kajuru, a maioria dos jornalistas não tem coragem de assumir, mas desconhecem muitos esportes, errando nas transmissões. Sendo assim, o ideal seria ter um ex-jogador e um jornalista cobrindo os jogos.

Dines perguntou a Falcão sobre a pressão a que os atletas brasileiros estariam sendo submetidos pela mídia. "A pressão pela medalha existe em qualquer esporte de alto nível. Em relação aos atletas brasileiros, eles não sofreram mais ou menos pressão do que os atletas de outros países. É claro que aquele atleta que tem uma expectativa menor sobre ele sofre menos pressão, e muitas vezes rende mais por causa disso", respondeu o jornalista.

Kajuru atentou para a importância de se discutir o papel do COB. Segundo ele, terminadas as Olimpíadas, está na hora de se discutir a organização: "O Ministério dos Esportes do Governo Lula é, nada mais nada menos, do que um escritório político de um partido de coligação do PT. Na minha opinião, é uma vergonha a forma como o COB distribui as verbas para os esportes no Brasil".

Outra questão abordada por Dines foi o papel da internet na cobertura esportiva. De acordo com Roberto Falcão, a internet não tem ainda o seu lugar na cobertura dos grandes eventos: "Não se sabe se a internet pode ser tratada como imprensa escrita ou como imprensa eletrônica. O próprio COI não sabe como tratar a internet, o que o COI faz é proibir que tenha imagem em movimento nos sites que não compraram direitos".

Na rodada final dos comentários, Antônio Nascimento afirmou que os telespectadores podem ficar tranqüilos com a qualidade das coberturas esportivas: "Com o crescimento do esporte no Brasil, os jornais vão se aperfeiçoando mais, os esportes vão tendo mais espaço nos jornais, e os profissionais esportivos também vão se aprimorar mais."

Kajuru pediu licença a Dines para falar a respeito do Conselho Federal de Jornalismo: "Está sendo difícil ver no Governo Lula um Conselho de Imprensa."

Falcão finalizou confirmando a importância das Olimpíadas: "A Olimpíada é bastante conveniente porque, de quatro em quatro anos, nos dá possibilidade de fazer uma série de análises que não fazemos no dia-a-dia, a imprensa então se torna mais importante, porque o papel dela é primeiro informar e segundo analisar."

Bruna Tiziano (estagiária)


EDITORIAL

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

As Olimpíadas acabaram no domingo e hoje já deveriam estar fora das primeiras páginas não fosse a extraordinária façanha no qual foi envolvido involuntariamente o nosso maratonista Vanderlei Cordeiro.

Mas o que chama a atenção foi o fato de que hoje, terça-feira, os três grandes jornais nacionais deixaram de lado suas transcendentais preocupações com o estado do mundo e do país para comentar a participação brasileira na grande competição de Atenas.

Pode-se dizer que o esporte deixou os cadernos especializados para subir no pódio das páginas mais nobres, as dos editoriais. Tudo indica que terminou a sede de medalhas e a pressão sobre os atletas e vai começar a pressão sobre as entidades esportivas, sobre o governo e os patrocinadores.

Faltam três anos para os jogos Panamericanos aqui no Rio, faltam quatro anos para a nova edição dos Jogos Olímpicos em Pequim e antes de decidirmos se devemos dar mais ênfase ao hipismo e ao iatismo que nos deram dois ouros convém discutir o papel da imprensa. E este papel não se resume à cobertura dos grandes eventos mas inclui principalmente o estímulo aos esportes ditos amadores, sobretudo aqueles que não despertam grandes paixões e não atraem grandes multidões.

Discutir a mídia é a nossa obrigação e hoje estamos aqui exatamente para isso - para discutir a mídia diante do maior evento esportivo do mundo. E lembrar que este evento foi imaginado não para promover a xenofobia e sim a aproximação entre os povos.


ARTIGO
Por Alberto Dines

INVASÃO N'O TEMPO
Algemas estréiam nas redações

Alberto Dines

Como fotografia, a seqüência é quase banal. Uma pessoa algemada num país onde os grandes criminosos jamais deixam-se fotografar, no máximo chamaria a atenção pela raridade. Dramático é o que se depreende das informações da legenda ou da matéria ao lado. Trágica é a constatação: agentes da Polícia Federal, a mais qualificada das nossas polícias, invadiram as instalações de um jornal, exaltados, deram voz de prisão a dois editores e algemaram um deles.

Nem no pranteado Estado Novo de Getúlio Vargas fizeram-se tais flagrantes. Jornalistas eram exilados; oficinas, empasteladas; e jornais, colocados sob intervenção. Os esbirros de então tinham, aparentemente, mais pudores do que os de hoje - obedeciam às ordens, mas preferiam ficar na sombra, não queriam aparecer.

A esfarrapada desculpa de que os federais de Belo Horizonte obedeciam a uma determinação da Justiça Eleitoral é ainda mais absurda. O magistrado determinou uma busca na tipografia do jornal O Tempo para descobrir exemplares de um jornal clandestino que supostamente era lá impresso e infringia os regulamentos eleitorais. Tudo no condicional. O meritíssimo não mandou invadir o jornal, dar voz de prisão ou algemar editores.

No mandado não estavam previstos os desmandos.

A PF excedeu-se no cumprimento da missão judicial e adicionou à absurda diligência sua carga de subjetividades. O problema é exatamente este: não houve violência física, a intimidação durou apenas 20 minutos, mas ela reflete um perigoso ambiente contra os meios de comunicação. O espírito do confronto eleitoral baixou no corpo dos bravos agentes da lei.

Não aconteceu por acaso, num passe mediúnico. De repente, a imprensa tornou-se a culpada das mazelas, bode expiatório para descarregar frustrações e exacerbações partidárias. O governo federal não tem culpa, a direção do partido majoritário não pode ser responsabilizada pela estúpida ação policial, mas é imperioso reconhecer que o tom de represália no encaminhamento do anteprojeto do Conselho Federal de Jornalismo e os retoques que o texto sofreu na Casa Civil irradiou-se para outras esferas e escalões. A mídia tornou-se uma espécie de Geni, saco de pancada dos ressentidos e, sobretudo, dos ensandecidos.

É preciso que se diga que a imprensa não mudou, quem mudou foram os seus críticos. Nesta temporada eleitoral, os meios de comunicação comportam-se dentro dos mesmos parâmetros da eleição anterior, potencialmente mais tensa e, não obstante, tranqüila. Não se justificam, portanto, as atuais tensões e exaltações.

Imperioso constatar que são justas e cabíveis muitas queixas contra a imprensa. Caso contrário este Observatório não existiria há tanto tempo e com tanta aceitação. Acontece que as falhas não são novas - aconteceram no mandato de Itamar Franco, repetiram-se nos dois governos de FHC e estenderam-se até esta primeira metade do governo Lula.

São disfunções crônicas. O recente surto de denuncismo e os linchamentos midiáticos dele decorrentes não foram diferentes dos anteriores. Porém, no passado as críticas e acusações à mídia jamais materializaram-se em ações ou retaliações como as acontecidas quinta-feira, 26/8, nas Alterosas.

Ao dar ordem de prisão ao diretor de O Tempo, Theodomiro Braga, e algemar o editor Almerindo Camilo sem ordem de prisão ou culpa formada, a Polícia Federal não cumpria determinações superiores - simplesmente cedia a uma ambientação. Entrava no clima. E clima, como se sabe vem do grego, klima, inclinação.

Antes que se transforme em tendência incontrolável, convém derreter esta bola de neve. Se há alguém que pode fazê-lo com a necessária urgência e indiscutível autoridade, este alguém é o governo. Mesmo que nada tenha a ver com este peixe.

Curiosas foram as reações ao episódio. Na sexta-feira, apenas a Folha ouriçou-se, lembrada da invasão do seu prédio pelos agentes da Receita Federal por ordem de Collor de Melo. Os demais jornalões reagiram burocraticamente. O Ministério da Justiça não se manifestou - esqueceu que era árbitro e assumiu que era parte. Mas o presidente do TSE, ministro Sepúlveda Pertence, percebeu o perigo e manifestou a sua preocupação. Os semanários passaram ao largo no fim de semana. Nenhum jornal opinou sobre o assunto. Na segunda-feira, a inusitada ocorrência evaporara por completo.

A ABI reagiu pronta e energicamente, tal como fez tão logo divulgou-se o projeto do Conselho Federal de Jornalismo. Também o Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais. E a Fenaj, que se apresenta como entidade representativa dos jornalistas e pivô da grande querela que divide os jornalistas brasileiros, sumiu do mapa. Ficaram as algemas que a PF resolveu incluir no panorama do jornalismo brasileiro.


OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET

OLIMPÍADAS 2004
O "infotainment" subiu ao pódio

Ricardo A. Setti (*)

Encerradas as Olimpíadas da Grécia, começam a ser feitos os tradicionais balanços sobre a participação brasileira - tida como a melhor até hoje, apesar de algumas duras decepções - suas causas, conseqüências e lições que encerram. A nós, jornalistas, seria útil tentar analisar o que foi nossa cobertura dos Jogos, especialmente a feita pelo veículo que atinge o maior número de consumidores de informação: a televisão.

Vista com um mínimo de distanciamento, a cobertura da televisão - canais abertos e canais por assinatura, especializados ou não em esportes - percorreu em maior ou menos grau, com raríssimas exceções, cinco diferentes vertentes que consistiram em:

1. torcer pelos brasileiros, em qualquer modalidade ou circunstância;

2. comemorar as poucas vitórias, e tentar a todo custo justificar as derrotas;

3. consolar, via transmissões ou mesmo pessoalmente, os atletas derrotados;

4. considerar "excelente" a participação brasileira, ainda quando o atleta ou a equipe teve desempenho bisonho e ficou em último lugar, como ocorreu com o handebol masculino;

5. afirmar ao público que certamente em Pequim, em 2008, tudo vai melhorar.

Será isso jornalismo? Terá sido a cobertura dos Jogos minimamente isenta, preocupada em apurar fatos e bastidores, ir atrás da informação exclusiva, ligar causa e efeito?

Não há dúvida de que as emissoras, em graus diferentes, fizeram um grande investimento na cobertura dos Jogos. Equipes numerosas foram levadas a Atenas. Houve um esforço hercúleo para, no caso das emissoras abertas, encaixar as competições na grade de programação. Técnicos e ex-atletas com excelente grau de conhecimento viram-se convocados a comentar eventos e dissecar seus meandros - dessa vez sem serem incomodados pelo corporativismo da exigência do diploma de jornalista para estar na mídia. Repórteres, produtores, editores, comentaristas e apresentadores trabalharam muito, muitas vezes no limite da resistência física. Não há dúvida, também, de que o público teve à sua disposição uma cobertura farta e variada. Ainda assim, a resposta às duas perguntas do parágrafo anterior é "não".

Informação com entretenimento

A razão talvez seja que, em nenhuma outra área do jornalismo, aí incluído o show business, estão misturados em tão alto grau a informação e o entretenimento - uma das grandes pragas que ameaçam o jornalismo contemporâneo. A emoção, como sabemos, é a própria alma do esporte. Ela está na glória da vitória, na decepção da derrota, na superação dos limites, nas trapaças do imprevisto, nos dramas e êxtases que um megaevento como as Olimpíadas comportam. Ela constitui, igualmente, a matéria-prima por excelência do entretenimento - na música, no teatro, na dança e, sobretudo, no cinema e na TV.

Não é fácil ao jornalismo esportivo resistir a misturar duas coisas que compartilham de idêntico fio condutor. Adicione-se a este outros fatores que encerram na própria natureza sérios conflitos de interesse: nos esportes, as emissoras têm que lidar simultaneamente com o fato jornalístico a ser coberto e com o evento que precisaram "comprar" e que, portanto, exige o máximo de audiência para que o retorno financeiro seja compensador. Pronto, está feita a cama para o infotainment, a palavra híbrida com que os americanos batizam essa mixórdia.

Na verdade, o fenômeno não é novo. Mas o fato é que a televisão, nessa área, cada vez mais intervém na realidade que cobre - não apenas influenciando in loco a atitude e o próprio desempenho dos atletas, mas editando as reportagens com elementos ficcionais. Por mais que a emoção do esporte seja suficiente para encantar a alma humana, a realidade que ocorre em estádios, ginásios e piscinas é pouco, não basta, não é suficiente para o grau de espetaculosidade que a TV anseia exibir.

Assim, lá vêm os cortes arbitrários de imagem, os trechos de partidas ou provas em videoclip, os atletas forçados a "representar" alegria, tristeza, júbilo ou orgulho nacional diante das câmaras, as famílias de atletas tendo sua intimidade e até seus telefonemas "produzidos" para filmagens, os trechos em câmara lenta ou acelerados, o fundo musical. Quem não se lembra da inevitável musiquinha que acompanhava as vitórias de Ayrton Senna na Fórmula-1 transmitida pela Globo, com o indefectível grito de "Brasiiilll" produzido em estúdio com efeito de eco? (A Globo, como se sabe, continua usando o grito em quase toda disputa esportiva em que o Brasil é envolvido).

A TV quer até torcer por nós

Mas o veículo TV carrega em si uma natureza tão prepotente que, mesmo com todo esse tipo de manipulação no produto que despeja para o público, ela não fica satisfeita: precisa, também, torcer - não apenas com o torcedor, mas, muitas vezes, pelo torcedor. O público, de certa forma, vê "editado" pelos veículos até esse seu direito incontestável e elementar. Não é suficiente, para a TV, portanto, "produzir" a emoção que ela apresenta na telinha: é preciso, adicionalmente, tentar "produzir" a que o telespectador sente em casa.

No caso dos Jogos, à carga de emoção intrínseca ao esporte, somada à que a TV produz, ainda se juntou uma velha conhecida - a patriotada nas transmissões. Ela poderia ser tolerável se tivesse se limitado às transmissões dos narradores propriamente dita, uma vez que há décadas, desde a era do rádio, incorporou-se aos usos e costumes nacionais. Mas, infelizmente, não parou por aí: invadiu o comportamento de grande número de comentaristas, adentrou o terreno dos especialistas e instalou-se, mesmo, naquele último terreno em que se esperava que a preocupação de informar, pura e simplesmente, se sobrepusesse minimamente às demais: a reportagem.

Os exemplos, entre os vários tipos de profissionais, foram inúmeros. Vários comentaristas torciam mais do que comentavam detalhes das provas. Entre os especialistas não-jornalistas, houve um, na SporTV, durante uma prova de hipismo, que se esqueceu do assinante e passou a se dirigir diretamente ao cavaleiro Rodrigo Pessoa, como se ele pudesse ouvir lá de Atenas: "Aí, Rodrigo. Agora acalme o cavalo. Não deixe que ele faça isso ou aquilo. Cuidado com esse obstáculo. Isso, continue assim...". A ginasta Daiane dos Santos, terminada a prova que a deixou em 5º lugar, longe da medalha de ouro que a mídia apregoava como inevitável, viu-se acossada por ofertas de justificativas feitas por repórteres: o responsável pela colocação teria sido o joelho, a emoção, os juízes, o fato de ser a primeira entre oito ginastas a apresentar-se. Precisou ela própria, com candura e coragem, dizer que errou, e pronto - e que a nota recebida era justa.

Durante todo o tempo, presenciamos repórteres dizendo a atletas, antes de competições, que iriam torcer por eles, ou parabenizando-os, como tietes, depois delas. Foram abundantes as perguntas chochas, que permitem ao entrevistado ir para onde quiser e não esclarecem nada, do tipo "Como você se sentiu quando...?" - de novo, a busca da emoção, e não da informação - em vez de perguntas factuais que poderiam iluminar detalhes importantes dos eventos, da atuação dos brasileiros, do comportamento dos adversários e dos juízes.

Matérias "engraçadinhas"

Com exceções honrosas, os repórteres também deitaram e rolaram na produção de matérias "bem humoradas", "engraçadinhas", cheias de trocadilhos entre texto e imagem, de alegorias aos deuses do Olimpo, de brincadeirinhas com atletas, turistas brasileiros e cidadãos de Atenas, cujo esmero em não parecerem "sérias" incluíam o tom de voz. O "estilo Tino Marcos", repórter global especialista nesse tipo de matéria - seja qual for o teor do que cobre, mesmo quando o assunto não comporta graça alguma - encontrou seguidores ferrenhos na própria Globo e invadiu os canais especializados. Inclusive a ESPN, normalmente elogiável pela excelência de suas coberturas e que, na média, realizou um bom trabalho na Grécia: em contraste com seus colegas, um de seus repórteres, extremamente ativo e diligente, conseguiu a proeza de imprimir esse viés a todas as suas reportagens sobre competições e atletas.

Ninguém, naturalmente, pode ter nada contra o humor. O problema desse tipo de matéria, no entanto, além de significar interpretação se sobrepondo à reportagem, é que, repetindo-se, ela mistura, nivela e descaracteriza na mesma massa amorfa o sucesso e o fracasso, o absurdo e o correto, o feito heróico e o desempenho bisonho. Será jornalismo?

Quanto aos apresentadores, com as elogiáveis exceções de praxe, como o sóbrio, bem informado e atento Milton Leite, da ESPN, foi aquilo que se sabe: não havia jogos nem disputas na tela, mas "nós" e "eles". Em nome da "emoção", valeu quase tudo - no caso do apresentador de programas policiais e ex-locutor esportivo José Luiz Datena, até chegar a milímetros de ofender os adversários, durante suas narrativas gritalhonas pela Band.

Estreiteza de horizontes

Voltou à cena a quase intransponível dificuldade de pronunciar corretamente nomes em idiomas com os quais, presume-se, tais profissionais devam ter alguma familiaridade, como o francês, o inglês e até o espanhol (grandes profissionais vão à luta e conseguem descobrir como pronunciar em alemão, chinês ou grego). Brigou-se bastante com os adjetivos pátrios: um corredor das Ilhas Maurício - fértil arquipélago no Oceano Índico, a sudeste da costa da África - foi o tempo todo tratado como sendo da Mauritânia, tórrido país árabe no noroeste do continente africano ocupado em mais de dois terços pelo deserto do Saara. À falta de saber que existe, por exemplo, o adjetivo letão, dizia-se "o atleta da Letônia".

Sem contar a desinformação sobre acontecimentos, circunstâncias e pessoas extra-esporte que apareciam nas imagens do pool da Athens Olimpic Broadcast, geradora das transmissões. Nessas ocasiões, grande parte dos apresentadores exibiu uma constrangedora estreiteza de horizontes jornalísticos, como aliás é quase de praxe acontecer. Basta lembrar a catatonia do narrador Galvão Bueno, da Globo, quando, destacado para uma cobertura esportiva em Buenos Aires em dezembro de 2001, desabou sobre sua cabeça a responsabilidade de, enquanto repórteres qualificados não chegavam à Argentina, informar algo sobre gravíssima crise que levou o presidente Fernando de la Rua à renúncia.

Em Atenas, o basquete feminino do Brasil enfrenta a Espanha, e da platéia alguém levanta uma bandeira estranha - nenhum narrador parecia saber tratar-se do pavilhão que extremistas querem para um País Basco independente. Atletas medíocres da ilha de Chipre fazem o público delirar, ante o silêncio do narrador que visivelmente ignora o problema político a separar, neste país independente, as comunidades grega, majoritária, da turca, ligada ao país vizinho e inimigo histórico da Grécia. No Estádio Olímpico, a bela sueca Carolina Kluft vence a prova do heptatlo feminino, enrola-se na bandeira de seu país, vai confraternizar com as adversárias. A TV foca, na platéia, um casal de meia idade que a aplaude. Silêncio do narrador, que desconhecia tratar-se dos reis suecos Carlos Gustavo e Sílvia. Outras figuras públicas, como a rainha Sofia, da Espanha, a princesa Anne, da Grã-Bretanha, presidentes, primeiros-ministros e até velhos atletas do passado passaram em branco por quase todos os narradores.

É claro nem todos os apresentadores escorregaram. E também é certo que muitos repórteres e comentaristas conseguiram produzir bom jornalismo nas Olimpíadas - felizmente. No conjunto da cobertura, porém, foram engolfados pelo infotainment. Foi ele quem subiu ao pódio na Grécia.

(*) Jornalista


5º BLOCO

Veja o que disseram os convidados após o programa:

Rio de Janeiro:

Antônio Nascimento - Editor de Esportes de O Globo
"Eu acho que o ponto fundamental desse debate é a criação de uma política de esporte, o telespectador que também acha isso tem que exercer criticamente o seu poder de escolha."

Roberto Falcão - Coord. Imprensa Pan 2007
"É importante a discussão do jornalismo no caso dos jogos olímpicos porque nos dá a oportunidade de analisar o comportamento da imprensa em relação ao esporte, e chamar a atenção para a importância dessa cobertura específica."

São Paulo:

Jorge Kajuru - Jornalista
"Como sempre, eu achei oportuno o programa. O Observatório é único, admirável e só de ter a transparência, liberdade e comando de um jornalista de reserva moral como o Alberto Dines, fica difícil se fazer crítica. Porém eu não posso sair de nenhum programa sem fazer alguma crítica. Primeiro, eu achei um absurdo o Roberto Falcão não opinar sobre o Comitê Olímpico Brasileiro, sobre a discussão da distribuição de verbas às confederações esportivas deste país, enfim, sobre o COB; ele não pode participar de um programa como esse, porque aí ele não é jornalista, é assessor de imprensa e esse programa é para jornalista. Então eu não entendi a participação dele num assunto que deveria ser mais discutido. E eu dei o exemplo da Copa do Mundo: depois de ganhar a Copa se esqueceu de tudo que acontece de podre no futebol brasileiro. O Sr. Ricardo Teixeira hoje é amigo da direção da Rede Globo, é figura de destaque no Jornal Nacional como autoridade brasileira e antes da Copa houve um Globo Repórter em cima dele. Então, agora que terminaram as Olimpíadas vamos achar que fomos bem demais, a melhor participação brasileira e vamos esquecer de discutir realmente o Ministério do Esporte - que na minha opinião virou um escritório político, nada mais do que isso - e discutir o que o COB recebe e como esse dinheiro é distribuído. Essa discussão é fundamental para a sobrevivência de cada atleta. Eu repito: os nossos atletas são de ouro, mas os nossos cartolas não são de ouro, nem prata, nem bronze. Acho que apenas nesse ponto faltou uma discussão mais ampla e com gente que pudesse falar."


PERGUNTAS

E-mails recebidos na semana de 31/08 a 07/09:

Sérgio de Souza Torres
No último domingo, quando Dora Kramer se despediu, para surpresa dos leitores, o JB publicou no rodapé da coluna que a partir desta terça-feira Coisas da Política passaria a ser escrita por Augusto Nunes. Hoje, nem coluna, nem Augusto e desde ontem na seção de cartas silêncio total, o que é inconcebível, dada a popularidade da colunista e as referências de apoio constante ao seu trabalho. Como se o espaço sagrado de Carlos Castello Branco nem Dora Kramer jamais tivessem existido. Lembra, assim, a obra de George Orwell, de apagar os registros como forma de destruir a realidade. Não estou tratando aqui de divergência de uma jornalista com seus patrões, o que é natural e não é da minha conta. Falo de censura à liberdade de expressão dos leitores e de respeito de um veículo às suas tradições. Se a idéia persistir, nada a fazer, apenas deixar de assinar o jornal. Fica a sugestão de utilizar o antigo espaço com a seção de obituário.

Gustavo Brasil
Kajuru, não acho que todo mundo deva ser igual a mim, que não me empolgo com as Olimpíadas em geral e acho modalidades individuais chatíssimas. Mas também não acho que a tv aberta deva parar tudo (como acontecia nos anos 70 e 80) para mostrar tudo que rola nos jogos porque as Olimpíadas são muito grandes, com muitas modalidades e em horários diversos e acho que isso hoje em dia é função da tv a cabo, segmentada. A tv aberta tem outra função, que é de ser um painel e acho que isso a Globo cumpriu bem. Pode ter perdido uma vez ou outra, mas duvido que no todo haja um arrependimento da parte dos programadores.

Alceu Raposo
Prezado sr. Dines, temos assistido à discussão em torno do projeto de lei que criaria o "Conselho de Jornalismo" e a preocupação por parte desta categoria com possíveis retaliações e/ou intervenções do poder do Estado. Então nos deparamos com a situação vivida pela imprensa mineira que parece ter sido "amordaçada" pelo atual governo do Estado de Minas Gerais que tem demonstrado o seu poder ao calar a voz dos jornalistas que ousam denunciar as ações intransigentes e autoritárias deste. Os movimentos sociais continuam a acontecer como no caso dos servidores da saúde e dos professores estaduais que foram para as ruas denunciar as precárias condições de trabalho e que, no entanto, foram recebidos nas ruas como no "pesadelo da ditadura militar" sofrendo a ação covarde de bombas de gás lacrimogêneo e spray de pimenta. O que nos faz refletir sobre o papel que a mídia mineira tem assumido na propagação da verdade, pois poucos foram os meios de comunicação que ousaram denunciar tais fatos. Então, o que entendemos é que a preocupação da imprensa com o bom desempenho do Brasil nas Olimpíadas não foi excessiva, mas por outro lado o silêncio desta com assuntos tão importantes quanto saúde e educação tem sido grande. Será que para constituir notícia na saúde é preciso que morram pessoas sem atendimentos e na educação a notícia será veiculada apenas por propagandas enganosas feitas pelo governo de Minas que diz ter um Estado onde as crianças começam mais cedo a freqüentar a escola, mas que em contrapartida não diz ter profissionais mal remunerados, sem condições de trabalho e segurança para os quais até o direito de manifestação é negado?

Jairo Falcucci Beraldo
Kajuru, esperamos você de volta aqui em Goiás e você deve estar sabendo, está perto! Só senti que meu querido Dines não mencionou sua ex-rádio aqui em Gyn! Esperamos com agrado as pessoas de bem (se você não fosse não estaria neste programa de altíssimo nível). Não gostava de você, depois das porradas que tomou aqui, aprendi no mínimo a te respeitar.

Hilton Lima, São Paulo
Fiquei impressionado com a notícia divulgada pelo site Uol Esporte, de que o COB, a exemplo de Sidney, havia negado credenciais para os sites de notícias, situação que obrigou os repórteres a comprar ingressos para trazer as notícias, concedendo apenas aos "meios tradicionais" (rádio, tv e mídia impressa). Eu acompanhei os jogos pela internet, pois considero um meio rápido e eficaz. Gostaria de saber o que o Kajuru pensa disso.

Gustav Barucci, Campinas / SP
O Kajuru está criticando a Globo sem base, ou então me responda qual é a base? Ele disse que transmitiam os jogos sem estarem lá... mentira, todos os jogos que vi, lá estavam os jornalistas! Disse que colocam ex ou atuais jogadores ou esportistas para comentar sem um jornalista ao lado, outra mentira, a Globo sempre manteve um esportista e um jornalista juntos nos comentários. Então qual é a do Kajuru? Ele ficou com esta aura de polêmico e agora está se perdendo?

Ricardo Faria, São José dos Campos / SP - Jornalista
Parabéns Dines, a presença do Jorge Kajuru faz a diferença. Quanto correu de grana e para onde foi canalizada? Quem ganhou com as Olimpíadas, como sempre, foram os cartolas.

Lucas Barp, Vacaria / RS
Kajuru, se você estivesse no comando do COB você mudaria alguma coisa? Que atitude você acha que deve ser tomada em relação ao fato da maratona em que um padre parou o brasileiro?

Paulo Celso Pucciarelli, Mococa / SP
Dines, acho que Folha de São Paulo e o Estadão deram uma cobertura exemplar, com repórteres buscando informações em todos os esportes disputados, claro, com preferência para os atletas brasileiros. A televisão a cabo fez uma miscelânea completa, em certos momentos, querendo alcançar o dom da ubiqüidade, transmitindo jogos aos pedaços, com flashes de polo aquático, hipismo, handebol etc. Mesmo com essa miscelânea de informações "em certos momentos", destaque-se na televisão a participação do Álvaro José, da Band, com informações precisas de quem acompanha o esporte e o pessoal do José Trajano, na tv a cabo.

Mery Cipriano
Olá Dines, acredito que a imprensa exagerou na pressão que fez em cima dos nossos atletas olímpicos. O caso que mais me chamou a atenção foi quanto à Daiane. Eu não estava acompanhando os jogos pela Globo (só em alguns momentos - em que não era o Galvão Bueno a narrar), mas meu irmão disse que, após a decepção da perda de medalhas por parte da Daiane, uma repórter da Globo fez quatro perguntas que remetiam à mesma coisa, como que querendo ver a Daiane dos Santos chorar.
Repórter - "Você acha que os juizes foram injustos na nota?"
Daiane - "Não, eles estão certos, eu errei!"
Repórter - "Você acha que merecia uma nota melhor?"
Repórter - "O problema foi você se apresentar primeiro?"
Ao que a pobre Daiane respondia a mesma coisa! Acredito que foi exagero.

José Roberto de Rezende, Campo Mourão / PR
Boa noite a todos, gostaria de saber por que não se faz cobertura das paraolimpíadas?

Dalton Muniz, Campinas / SP
Olá! Gostaria de saber se vocês não acham um absurdo a Rede Globo fazer aquela fusão do hino nacional com o "tema da vitória" da F1 que tocou sempre que o Brasil ganhava uma medalha? Daqui a pouco vai haver crianças achando que aquela música faz parte de nosso hino.

Vicente Passani, Goiânia / GO
Parabenizo a Jorge Kajuru pela sinceridade nos comentários... Tomara que seu retorno a nosso estado ocorra em breve... Cuide de sua saúde! Que Deus o abençoe.

Ives Leite, Taubaté / SP
Gostaria de perguntar ao jornalista Roberto Falcão, concordando com o Kajuru, se ele assume que o COB distribui muito mal a verba aos atletas dando uma atenção a mais ao estado do Rio de Janeiro, sendo que em outros estados brasileiros (como o Paraná e a Bahia) são celeiros de grandes atletas.

Altair Barbosa da Silva Junior, São Paulo
Kajuru, a imprensa tem culpa de alguns atletas se sentirem pressionados a ganhar algum tipo de medalha ou título para o Brasil?

Alexandre Bento, Rio de Janeiro
Sabemos que os negros têm enorme potencial para o esporte, principalmente o atletismo. Os negros no Brasil são pobres e o esporte seria uma ótima saída do mundo do crime. Não acham que seria responsabilidade do COB investir forte em Vilas Olímpicas próximas às favelas e periferias do Brasil?

Domingos Pessoa, São Paulo
O que os debatedores tão ilustres acham da afirmação: "Numa guerra a primeira vítima é a verdade"? Os locutores nas transmissões têm algumas muletas como você vê: "agora eu vou estar transmitindo" ao invés de "agora vou transmitir". Não acham os debatedores desnecessária a reinvenção da roda?

William Caldas, Belo Horizonte / MG
Ah, se todos os repórteres esportivos tivessem a mesma coragem do Jorge Kajuru. É um problema termos apresentadores de TV como o Galvão Bueno. Parcial e direcionado... esse é o foco dos seus comentários.

Rosaura Cordeiro, Brasilia / DF
Acho que a Band foi bem na Olimpíada. Vi muitas competições que, em outros anos, só via em vt. Por que uma tv estatal não contrata o Kajuru e entrega a ele a programação sobre os esportes com assuntos como preparação, investimentos, treinamentos, campeonatos no Brasil? Como pode o Kajuru ficar fora da tv? O único jornalista-comentarista que me fez assistir programa sobre futebol (que eu nem gosto).

Jefferson, Belo Horizonte / MG
Gostaria de saber se a tentativa de protesto feita pelo atleta do tae-ken-do brasileiro surtiu algum efeito no COB?

Alberto, Rio de Janeiro
Nos últimos Jogos Olímpicos de Inverno uma empresa dos EUA teve grandes lutas judiciais com a NBC pela transmissão dos jogos pela Internet. Nenhuma emissora brasileira transmite Olimpíadas de Inverno, mesmo as categorias onde existem atletas brasileiros... Agora nos jogos de verão comentam que um atleta do atletismo participou! Mas não se mostra durante esses eventos os acontecimentos! Por que a Internet não pode servir para difusão paga ou gratuita de eventos que as tvs não têm interesse de transmitir?

Victor Abdallah Neto, São Paulo
Boa noite, faço uma pergunta e ao mesmo tempo um desabafo... Por que não há menção nenhuma na mídia a respeito das Paraolimpíadas? Será que os brasileiros que estarão em Atenas são menos brasileiros que aqueles que já voltaram? Acredito que os portadores de necessidades especiais são até "mais" heróis do que os demais atletas... pois além de suas próprias limitações esses atletas não possuem apoio nem durante suas competições! Abraços a todos!

Moisés Costa, Praia Grande / SP
Prezados senhores, só recentemente parei para assistir com certa assiduidade o Observatório da Imprensa e posso afirmar que se trata do melhor programa da televisão aberta brasileira. Tão bom que acho que deveria ser até cobrada uma taxa pois o nível das discussões é altíssimo. Brincadeiras à parte, parabéns à toda a equipe, sem exceções.

Achel Tinoco - Escritor
Perfeito o programa de ontem. Parabéns! Parece que as televisões do Brasil e a imprensa de um modo geral montaram toda uma estrutura de transmissão e apostaram suas fichas e o sucesso de audiência apenas sobre o Twiste Carpado da ginasta Daiane dos Santos, deixando como pano de fundo ou renegados a terceiro plano os outros esportes e ou outros atletas. Prepararam a festa antes do tempo. Então decretaram que o brilho mais intenso e faustoso seria o da medalha de ouro de Daiane, tudo como certo e escrito pelos deuses da mídia para os deuses do Olimpo. Os deuses, ao que parece, não foram consultados e não conspiraram para um resultado único e definitivo que a consagraria como a maior dentre todas as mulheres de Atenas. Daiane perdeu. E perdeu com dignidade, porque segundo ela mesma declarou a seguir, cometeu um erro, mas iria treinar com afinco para se apresentar melhor noutra oportunidade. Perdeu, portanto, com elegância e aceitou a derrota com serenidade, demonstrando o verdadeiro espírito olímpico, diferentemente de alguns jornalistas que ainda lhe quiseram imputar algum subterfúgio que amenizasse a dor do povo brasileiro, uma dor que em verdade nem ela mesma sentia, porque estava consciente de que o esporte é feito de vitórias e também de derrotas, que ensinarão um atleta a ser vencedor amanhã. Cabe então perguntar o quanto essa pressão da imprensa sobre determinados atletas atrapalha ou não no seu desenvolvimento final. E mais: a medalha conquistada por Robert Scheidt, por exemplo, tem um peso, um brilho e uma importância menores do que aquela que "estava" ganha por Daiane, mas não o foi? O que vemos diariamente é a exposição excessiva e injustificável de determinados atletas em detrimento de outros. Não bastasse, a propaganda apaixonada, mas exagerada, claro está, e por que não dizer enganosa sobre a quantidade de medalhas que nossos atletas trariam dos jogos, deixa no telespectador um sentimento de decepção quando deveria ser de orgulho e alegria porque estamos lá representados. As medalhas que ganharemos são justamente aquelas para as quais nossos atletas foram preparados adequadamente para ganhar. Além disso, é enrolação dos meios de comunicação que faz a pulso do Brasil um país olímpico e campeão antes mesmo dos resultados finais, quando na verdade não o somos. E não somos por uma simples razão: falta de apoio, de estruturação e de investimento. Enquanto que nos Estados Unidos se gasta em média 3 milhões de dólares por cada atleta que vai ganhar uma medalha, no Brasil se gasta quase nada. E mesmo com esse quase nada, ainda obtemos resultados surpreendentes e milagrosos. Por quê? Porque os nossos atletas são talentosos e obstinados, são guerreiros destemidos, que lutam a qualquer preço para fazer bonito lá fora, como fizeram Daiane, Honorato, Scheidt, Joana Maranhão, e todos os outros que estão em Atenas e correm pelo mundo afora com o nome do Brasil às costas orgulhosamente. Desse modo, cabe à imprensa brasileira torcer sim por nossos atletas, apoiá-los e valorizá-los, mas todos com o mesmo valor, com justiça e honestidade, para que possamos competir com igualdade de condição com quaisquer outros povos. E vencer e perder, com um verdadeiro orgulho de ser brasileiro.

Alexandre Monteiro, Rio de Janeiro
Parabéns ao programa que me fez substituir o Casseta e Planeta!

Junio Fernandes Gontijo, Divinópolis / MG
A mídia brasileira é "sem educação"! É inaceitável a omissão da mídia sobre um assunto tão importante para o desenvolvimento do país: o ensino público. Os meios de comunicação se ocupam de todos os assuntos, muitos até absolutamente dispensáveis, mas não têm "peito" de encarar a questão do ensino público no Brasil. E quando se referem ao tema é sempre no intuito de denegrir a imagem do professor! O eterno bode-expiatório dessa ferida nacional. Ora, é muito fácil (e covarde) atacar o mais fraco. Em MG, um professor de 1ª a 4ª série recebe piso salarial de R$ 212; de 5ª a 8ª R$ 288. O governo estadual destina para merenda escolar R$ 0,15/aluno. Infelizmente, esse "quadro-negro" não é privilégio só de MG. Todos sabemos disso. Também sabemos que não há desenvolvimento apenas dando prioridade às questões econômica e financeiras. Mas a mídia prefere fazer coro a essa tendência: a economia, a economia, a economia... Quanto à educação, pobrezinha, ninguém quer se haver com ela. Nem mesmo a mídia. Falta educação ao jornalista? Ou o tema realmente é menor?

Tibiriçá da Costa, Rio de Janeiro
Prezado Dines, no momento em que os meios de comunicação atravessam uma fase de total mediocridade, é lamentável que você fique contra o Conselho Federal de Jornalismo. Precisamos urgentemente melhorar o rádio a televisão e os jornais. Temos de ter gente com aptidão e bem preparada. Diferente do que ocorre hoje. Lembre da conversa com o Jô Soares de 1999.

Sonia Pinheiro, Rio de Janeiro
Como o jornal pode contribuir para a intolerância: o Globo de 05/09/04 coloca em grande manchete sobre "a filha lésbica de Cheney"... No entanto, dá uma pequena notícia num canto de página em 6/09 "Mulheres sul-africanas estão casando sem saber", fato gravíssimo.


Telefonemas recebidos em 31/08:

Cristina de Souza, Goiânia / GO
Kajuru, você tem algum despeito com a Rede Globo? Você só critica! A mídia faz o atleta?

Elio Rodrigues, Manaus /AM
Kajuru, o Governo Federal incentivou essas Olimpíadas?

Alberto de Castro, Rio de Janeiro
Kajuru, quem sustenta de fato a Tv Globo é o governo. O governo dá a concessão e depois compra através da propaganda.

Luana Lopes, Petrópolis / RJ
Kajuru, o que você acha do Galvão Bueno elogiar tanto o Rubens Barrichelo?

Josenil Ferreira, Recife / PE
O grande problema das transmissões nessas Olimpíadas foi a saturação que elas causam.

Alessandro J. Caprário, Florianópolis / SC
O Brasil não deveria enviar atletas mais experientes ao invés de promessas?

Agnaldo Vander, Minas Gerais
Kajuru, a imprensa colocou muita pressão na Daiane?

Suad Fhalil, Rio de Janeiro
Falcão, por que a CBF não coloca mais jogos da seleção no Maracanã?

Elias Perbone, Tambaú / SP
Kajuru, faltou incentivo para os atletas ou eles foram passear?

Adriano Bezerra, Itapecerica da Serra / SP
Nascimento, a mídia pode influenciar ativamente na difusão das modalidades esportivas ou esse papel é exclusivo do governo?

Gabriel Borba, Imbé / RS
A exceção na cobertura dos jogos foi o jornalista Álvaro José, da TV Bandeirantes, sempre centrado e sem exagero ufanista?

Alex Diogo Medeiros, Cuiabá / MT
A imprensa tem culpa porque colocou muita pressão na Daiane. A Band e a Globo só deram cobertura à vela depois dos prêmios.

Felly de Oliveira, São Luís / MA
Como vocês vêem o fato da imprensa estar focada mais para o lado comercial das Olimpíadas, esquecendo do seu verdadeiro valor?

Jaime de Souza, São Paulo
A qualidade dos comentários e narrações de esportes da tv brasileira precisa melhorar?

Humberto Ferreira, Rio de Janeiro
Se a seleção masculina de futebol tivesse se classificado para as Olimpíadas, as outras conquistas como as do vôlei seriam esquecidas com a cobertura dos craques da bola?

Francisco de Oliveira, Recife / PE
Kajuru, você está mais magro! Os programas esportivos deveriam ter mais gente como você!

Wagner Palma, Vitória da Conquista / BA
Kajuru, depois do desempenho do futebol feminino é possível criar um campeonato nacional?

Marcos Antônio de Medeiros, Caicó / RN
Dines, por que as televisões públicas no Brasil não transmitem eventos esportivos como fazem as emissoras portuguesas e espanholas?

Teresa Martins, Petrópolis / RJ
Kajuru, vale a pena levar tantos atletas sem chance para os Jogos Olímpicos?

Gustavo Franco, Nova Iguaçu / RJ
É viável fazer uma pré-programação das Olimpíadas, divulgando outros esportes menos conhecidos?

Cristina Cunha, Caruaru / PE
Falcão, você acha que o Rio de Janeiro vai atrair a imprensa internacional no Pan 2007? O evento tem força em todo o continente?

Tânia Amaral, Rio de Janeiro
Kajuru, nossa admiração por você é tanta que nunca mais se assistiu à Band no horário que era o seu programa, essa é a nossa forma de protesto!

Cláudio Oliveira, Sorocaba / SP
Kajuru, os locutores brasileiros torcem mais do que transmitem. Isso é válido?

Nirla Cavalcante, Petrolina / PE
Como fazer uma cobertura que cative o público sem ser nacionalista em demasia?

Marcelo Marostica, São Leopoldo / RS
Nascimento, você acha normal o jornalista da Globo ter colocado a Daiane falando com a mãe meia hora antes da competição, não pode ter atrapalhado?

Orlando Arantes, Goiânia / GO
Nascimento, a média geral dos torcedores comemora sem entender determinados esportes como a vela e o hipismo, não seria a hora de cobrir melhor determinados esportes?

José Lourenço, São Paulo
Falcão, por que os apresentadores cometem tantos erros na transmissão dos jogos, eles não são devidamente preparados para isso? Não deveria haver um aperfeiçoamento desses profissionais?

Tiago Moreira, Teresina / PI
Kajuru, o que é que você acha de usar atletas como comentaristas? Eles comentam ou torcem?


Faxes recebidos em 31/08:

Ana Paula Coelho
Acho interessante que todos cobrem resultados dos atletas, inclusive a imprensa, mas ninguém faz críticas à falta de investimentos, apoio e incentivos, leva-se muito tempo para a formação de um campeão.

Marco Antônio, Belo Horizonte / MG
Kajuru, como pode a imprensa fazer uma verdadeira cobertura esportiva, bem como os bastidores, querendo levar a notícia nua e crua aos telespectadores e ser podado ou censurado pelo poder público? Cite-se o exemplo do que aconteceu com a transmissão do jogo Brasil x Argentina em Belo Horizonte.

Jorge Eduardo de Lima, Rio de Janeiro
Com todo respeito, discordo do jornalista Nascimento. A imprensa dá cobertura aquilo que dá retorno. E é por isso que o futebol e agora o vôlei e o automobilismo são divulgados. Aliás, há muito tempo o futebol deixou de ser esporte e é sim business.



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