RESUMO DO PROGRAMA
OLIMPÍADAS
O
Observatório da Imprensa do dia 31 de agosto contou com a presença dos
jornalistas Jorge Kajuru, Roberto Falcão (Coordenador de Imprensa para
os Jogos Panamericanos de 2007) e Antônio Nascimento (Editor do caderno
de esportes de O Globo) debatendo um tema bastante recente: a cobertura
da mídia nas Olimpíadas de Atenas.
"Antes de
decidirmos se devemos dar mais ênfase ao hipismo ou ao iatismo, que nos
deram grandes alegrias, convém discutir o papel da imprensa e este papel
não se resume apenas à cobertura dos grandes eventos, mas inclui,
principalmente, o estilo dos esportes ditos amadores, sobretudo aqueles
que não despertam grandes paixões e não atraem multidões. Estamos aqui
para discutir a mídia diante do maior evento do mundo", afirmou Dines,
logo no início do seu editorial.
Jorge
Kajuru iniciou sua participação no programa dizendo-se decepcionado com
a cobertura dos Jogos Olímpicos: "As emissoras de TV transmitem o jogo
em Porto Alegre com o narrador e o comentarista nos estúdios. Transmitem
jogos da Seleção Brasileira no Uruguai, do Rio de Janeiro ou de São
Paulo, e isso também passou a acontecer nos grandes eventos. Na hora do
evento, você vê um time limitado de profissionais lá e a maioria aqui,
fazendo a cobertura dos estúdios. Para mim, isso é uma traição ao
anunciante, ao telespectador e ao ouvinte. O telespectador tem que
cobrar das emissoras uma cobertura mais digna e mais presente. A
cobertura foi muito abaixo do esperado".
O
jornalista Roberto Falcão, recém-chegado de Atenas onde trabalhou nos
jogos pelo COB, confirmou a dificuldade de se cobrir tamanho evento com
um número limitado de pessoas: "O coordenador e o editor têm que fazer a
cada dia uma série de opções, porque você tem uma quantidade de eventos,
uma programação extensa e você não consegue cobri-lo com a quantidade de
repórteres que tem. Têm jornais que trabalharam somente com um repórter
em Atenas".
Antônio
Nascimento atentou para a preocupação do Globo com o exagero do
ufanismo: "Houve sempre a preocupação de exaltar os atletas, não
massacrar aqueles que perderam, mas ser críticos, sim, em relação ao
desempenho na competição".
Outra
questão debatida foi o fato de ex-atletas serem usados como
comentaristas. Para Kajuru, a maioria dos jornalistas não tem coragem de
assumir, mas desconhecem muitos esportes, errando nas transmissões.
Sendo assim, o ideal seria ter um ex-jogador e um jornalista cobrindo os
jogos.
Dines
perguntou a Falcão sobre a pressão a que os atletas brasileiros estariam
sendo submetidos pela mídia. "A pressão pela medalha existe em qualquer
esporte de alto nível. Em relação aos atletas brasileiros, eles não
sofreram mais ou menos pressão do que os atletas de outros países. É
claro que aquele atleta que tem uma expectativa menor sobre ele sofre
menos pressão, e muitas vezes rende mais por causa disso", respondeu o
jornalista.
Kajuru
atentou para a importância de se discutir o papel do COB. Segundo ele,
terminadas as Olimpíadas, está na hora de se discutir a organização: "O
Ministério dos Esportes do Governo Lula é, nada mais nada menos, do que
um escritório político de um partido de coligação do PT. Na minha
opinião, é uma vergonha a forma como o COB distribui as verbas para os
esportes no Brasil".
Outra
questão abordada por Dines foi o papel da internet na cobertura
esportiva. De acordo com Roberto Falcão, a internet não tem ainda o seu
lugar na cobertura dos grandes eventos: "Não se sabe se a internet pode
ser tratada como imprensa escrita ou como imprensa eletrônica. O próprio
COI não sabe como tratar a internet, o que o COI faz é proibir que tenha
imagem em movimento nos sites que não compraram direitos".
Na rodada
final dos comentários, Antônio Nascimento afirmou que os telespectadores
podem ficar tranqüilos com a qualidade das coberturas esportivas: "Com o
crescimento do esporte no Brasil, os jornais vão se aperfeiçoando mais,
os esportes vão tendo mais espaço nos jornais, e os profissionais
esportivos também vão se aprimorar mais."
Kajuru
pediu licença a Dines para falar a respeito do Conselho Federal de
Jornalismo: "Está sendo difícil ver no Governo Lula um Conselho de
Imprensa."
Falcão
finalizou confirmando a importância das Olimpíadas: "A Olimpíada é
bastante conveniente porque, de quatro em quatro anos, nos dá
possibilidade de fazer uma série de análises que não fazemos no
dia-a-dia, a imprensa então se torna mais importante, porque o papel
dela é primeiro informar e segundo analisar."
Bruna
Tiziano (estagiária)
EDITORIAL
Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.
As
Olimpíadas acabaram no domingo e hoje já deveriam estar fora das
primeiras páginas não fosse a extraordinária façanha no qual foi
envolvido involuntariamente o nosso maratonista Vanderlei Cordeiro.
Mas o que
chama a atenção foi o fato de que hoje, terça-feira, os três grandes
jornais nacionais deixaram de lado suas transcendentais preocupações
com o estado do mundo e do país para comentar a participação
brasileira na grande competição de Atenas.
Pode-se
dizer que o esporte deixou os cadernos especializados para subir no
pódio das páginas mais nobres, as dos editoriais. Tudo indica que
terminou a sede de medalhas e a pressão sobre os atletas e vai começar
a pressão sobre as entidades esportivas, sobre o governo e os
patrocinadores.
Faltam
três anos para os jogos Panamericanos aqui no Rio, faltam quatro anos
para a nova edição dos Jogos Olímpicos em Pequim e antes de
decidirmos se devemos dar mais ênfase ao hipismo e ao iatismo que nos
deram dois ouros convém discutir o papel da imprensa. E este papel não
se resume à cobertura dos grandes eventos mas inclui principalmente o
estímulo aos esportes ditos amadores, sobretudo aqueles que não
despertam grandes paixões e não atraem grandes multidões.
Discutir
a mídia é a nossa obrigação e hoje estamos aqui exatamente para isso
- para discutir a mídia diante do maior evento esportivo do mundo. E
lembrar que este evento foi imaginado não para promover a xenofobia e
sim a aproximação entre os povos.
ARTIGO
Por Alberto Dines
INVASÃO
N'O TEMPO
Algemas estréiam nas redações
Alberto Dines
Como
fotografia, a seqüência é quase banal. Uma pessoa algemada num país
onde os grandes criminosos jamais deixam-se fotografar, no máximo
chamaria a atenção pela raridade. Dramático é o que se depreende das
informações da legenda ou da matéria ao lado. Trágica é a constatação:
agentes da Polícia Federal, a mais qualificada das nossas polícias,
invadiram as instalações de um jornal, exaltados, deram voz de prisão
a dois editores e algemaram um deles.
Nem no
pranteado Estado Novo de Getúlio Vargas fizeram-se tais flagrantes.
Jornalistas eram exilados; oficinas, empasteladas; e jornais, colocados
sob intervenção. Os esbirros de então tinham, aparentemente, mais
pudores do que os de hoje - obedeciam às ordens, mas preferiam ficar
na sombra, não queriam aparecer.
A
esfarrapada desculpa de que os federais de Belo Horizonte obedeciam a
uma determinação da Justiça Eleitoral é ainda mais absurda. O
magistrado determinou uma busca na tipografia do jornal O Tempo para
descobrir exemplares de um jornal clandestino que supostamente era lá
impresso e infringia os regulamentos eleitorais. Tudo no condicional. O
meritíssimo não mandou invadir o jornal, dar voz de prisão ou algemar
editores.
No
mandado não estavam previstos os desmandos.
A PF
excedeu-se no cumprimento da missão judicial e adicionou à absurda
diligência sua carga de subjetividades. O problema é exatamente este:
não houve violência física, a intimidação durou apenas 20 minutos,
mas ela reflete um perigoso ambiente contra os meios de comunicação. O
espírito do confronto eleitoral baixou no corpo dos bravos agentes da
lei.
Não
aconteceu por acaso, num passe mediúnico. De repente, a imprensa
tornou-se a culpada das mazelas, bode expiatório para descarregar
frustrações e exacerbações partidárias. O governo federal não tem
culpa, a direção do partido majoritário não pode ser
responsabilizada pela estúpida ação policial, mas é imperioso
reconhecer que o tom de represália no encaminhamento do anteprojeto do
Conselho Federal de Jornalismo e os retoques que o texto sofreu na Casa
Civil irradiou-se para outras esferas e escalões. A mídia tornou-se
uma espécie de Geni, saco de pancada dos ressentidos e, sobretudo, dos
ensandecidos.
É
preciso que se diga que a imprensa não mudou, quem mudou foram os seus
críticos. Nesta temporada eleitoral, os meios de comunicação
comportam-se dentro dos mesmos parâmetros da eleição anterior,
potencialmente mais tensa e, não obstante, tranqüila. Não se
justificam, portanto, as atuais tensões e exaltações.
Imperioso
constatar que são justas e cabíveis muitas queixas contra a imprensa.
Caso contrário este Observatório não existiria há tanto tempo e com
tanta aceitação. Acontece que as falhas não são novas -
aconteceram no mandato de Itamar Franco, repetiram-se nos dois governos
de FHC e estenderam-se até esta primeira metade do governo Lula.
São
disfunções crônicas. O recente surto de denuncismo e os linchamentos
midiáticos dele decorrentes não foram diferentes dos anteriores. Porém,
no passado as críticas e acusações à mídia jamais materializaram-se
em ações ou retaliações como as acontecidas quinta-feira, 26/8, nas
Alterosas.
Ao dar
ordem de prisão ao diretor de O Tempo, Theodomiro Braga, e algemar o
editor Almerindo Camilo sem ordem de prisão ou culpa formada, a Polícia
Federal não cumpria determinações superiores - simplesmente cedia a
uma ambientação. Entrava no clima. E clima, como se sabe vem do grego,
klima, inclinação.
Antes que
se transforme em tendência incontrolável, convém derreter esta bola
de neve. Se há alguém que pode fazê-lo com a necessária urgência e
indiscutível autoridade, este alguém é o governo. Mesmo que nada
tenha a ver com este peixe.
Curiosas
foram as reações ao episódio. Na sexta-feira, apenas a Folha ouriçou-se,
lembrada da invasão do seu prédio pelos agentes da Receita Federal por
ordem de Collor de Melo. Os demais jornalões reagiram burocraticamente.
O Ministério da Justiça não se manifestou - esqueceu que era árbitro
e assumiu que era parte. Mas o presidente do TSE, ministro Sepúlveda
Pertence, percebeu o perigo e manifestou a sua preocupação. Os semanários
passaram ao largo no fim de semana. Nenhum jornal opinou sobre o
assunto. Na segunda-feira, a inusitada ocorrência evaporara por
completo.
A ABI
reagiu pronta e energicamente, tal como fez tão logo divulgou-se o
projeto do Conselho Federal de Jornalismo. Também o Sindicato dos
Jornalistas de Minas Gerais. E a Fenaj, que se apresenta como entidade
representativa dos jornalistas e pivô da grande querela que divide os
jornalistas brasileiros, sumiu do mapa. Ficaram as algemas que a PF
resolveu incluir no panorama do jornalismo brasileiro.
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET
OLIMPÍADAS
2004
O "infotainment" subiu ao pódio
Ricardo A. Setti (*)
Encerradas
as Olimpíadas da Grécia, começam a ser feitos os tradicionais balanços
sobre a participação brasileira - tida como a melhor até hoje,
apesar de algumas duras decepções - suas causas, conseqüências e
lições que encerram. A nós, jornalistas, seria útil tentar analisar
o que foi nossa cobertura dos Jogos, especialmente a feita pelo veículo
que atinge o maior número de consumidores de informação: a televisão.
Vista com
um mínimo de distanciamento, a cobertura da televisão - canais
abertos e canais por assinatura, especializados ou não em esportes -
percorreu em maior ou menos grau, com raríssimas exceções, cinco
diferentes vertentes que consistiram em:
1. torcer
pelos brasileiros, em qualquer modalidade ou circunstância;
2.
comemorar as poucas vitórias, e tentar a todo custo justificar as
derrotas;
3.
consolar, via transmissões ou mesmo pessoalmente, os atletas
derrotados;
4.
considerar "excelente" a participação brasileira, ainda
quando o atleta ou a equipe teve desempenho bisonho e ficou em último
lugar, como ocorreu com o handebol masculino;
5.
afirmar ao público que certamente em Pequim, em 2008, tudo vai
melhorar.
Será
isso jornalismo? Terá sido a cobertura dos Jogos minimamente isenta,
preocupada em apurar fatos e bastidores, ir atrás da informação
exclusiva, ligar causa e efeito?
Não há
dúvida de que as emissoras, em graus diferentes, fizeram um grande
investimento na cobertura dos Jogos. Equipes numerosas foram levadas a
Atenas. Houve um esforço hercúleo para, no caso das emissoras abertas,
encaixar as competições na grade de programação. Técnicos e
ex-atletas com excelente grau de conhecimento viram-se convocados a
comentar eventos e dissecar seus meandros - dessa vez sem serem
incomodados pelo corporativismo da exigência do diploma de jornalista
para estar na mídia. Repórteres, produtores, editores, comentaristas e
apresentadores trabalharam muito, muitas vezes no limite da resistência
física. Não há dúvida, também, de que o público teve à sua
disposição uma cobertura farta e variada. Ainda assim, a resposta às
duas perguntas do parágrafo anterior é "não".
Informação
com entretenimento
A razão
talvez seja que, em nenhuma outra área do jornalismo, aí incluído o
show business, estão misturados em tão alto grau a informação e o
entretenimento - uma das grandes pragas que ameaçam o jornalismo
contemporâneo. A emoção, como sabemos, é a própria alma do esporte.
Ela está na glória da vitória, na decepção da derrota, na superação
dos limites, nas trapaças do imprevisto, nos dramas e êxtases que um
megaevento como as Olimpíadas comportam. Ela constitui, igualmente, a
matéria-prima por excelência do entretenimento - na música, no
teatro, na dança e, sobretudo, no cinema e na TV.
Não é fácil
ao jornalismo esportivo resistir a misturar duas coisas que compartilham
de idêntico fio condutor. Adicione-se a este outros fatores que
encerram na própria natureza sérios conflitos de interesse: nos
esportes, as emissoras têm que lidar simultaneamente com o fato jornalístico
a ser coberto e com o evento que precisaram "comprar" e que,
portanto, exige o máximo de audiência para que o retorno financeiro
seja compensador. Pronto, está feita a cama para o infotainment, a
palavra híbrida com que os americanos batizam essa mixórdia.
Na
verdade, o fenômeno não é novo. Mas o fato é que a televisão, nessa
área, cada vez mais intervém na realidade que cobre - não apenas
influenciando in loco a atitude e o próprio desempenho dos atletas, mas
editando as reportagens com elementos ficcionais. Por mais que a emoção
do esporte seja suficiente para encantar a alma humana, a realidade que
ocorre em estádios, ginásios e piscinas é pouco, não basta, não é
suficiente para o grau de espetaculosidade que a TV anseia exibir.
Assim, lá
vêm os cortes arbitrários de imagem, os trechos de partidas ou provas
em videoclip, os atletas forçados a "representar" alegria,
tristeza, júbilo ou orgulho nacional diante das câmaras, as famílias
de atletas tendo sua intimidade e até seus telefonemas
"produzidos" para filmagens, os trechos em câmara lenta ou
acelerados, o fundo musical. Quem não se lembra da inevitável
musiquinha que acompanhava as vitórias de Ayrton Senna na Fórmula-1
transmitida pela Globo, com o indefectível grito de "Brasiiilll"
produzido em estúdio com efeito de eco? (A Globo, como se sabe,
continua usando o grito em quase toda disputa esportiva em que o Brasil
é envolvido).
A TV quer até
torcer por nós
Mas o veículo
TV carrega em si uma natureza tão prepotente que, mesmo com todo esse
tipo de manipulação no produto que despeja para o público, ela não
fica satisfeita: precisa, também, torcer - não apenas com o
torcedor, mas, muitas vezes, pelo torcedor. O público, de certa forma,
vê "editado" pelos veículos até esse seu direito incontestável
e elementar. Não é suficiente, para a TV, portanto,
"produzir" a emoção que ela apresenta na telinha: é
preciso, adicionalmente, tentar "produzir" a que o
telespectador sente em casa.
No caso
dos Jogos, à carga de emoção intrínseca ao esporte, somada à que a
TV produz, ainda se juntou uma velha conhecida - a patriotada nas
transmissões. Ela poderia ser tolerável se tivesse se limitado às
transmissões dos narradores propriamente dita, uma vez que há décadas,
desde a era do rádio, incorporou-se aos usos e costumes nacionais. Mas,
infelizmente, não parou por aí: invadiu o comportamento de grande número
de comentaristas, adentrou o terreno dos especialistas e instalou-se,
mesmo, naquele último terreno em que se esperava que a preocupação de
informar, pura e simplesmente, se sobrepusesse minimamente às demais: a
reportagem.
Os
exemplos, entre os vários tipos de profissionais, foram inúmeros. Vários
comentaristas torciam mais do que comentavam detalhes das provas. Entre
os especialistas não-jornalistas, houve um, na SporTV, durante uma
prova de hipismo, que se esqueceu do assinante e passou a se dirigir
diretamente ao cavaleiro Rodrigo Pessoa, como se ele pudesse ouvir lá
de Atenas: "Aí, Rodrigo. Agora acalme o cavalo. Não deixe que ele
faça isso ou aquilo. Cuidado com esse obstáculo. Isso, continue
assim...". A ginasta Daiane dos Santos, terminada a prova que a
deixou em 5º lugar, longe da medalha de ouro que a mídia apregoava
como inevitável, viu-se acossada por ofertas de justificativas feitas
por repórteres: o responsável pela colocação teria sido o joelho, a
emoção, os juízes, o fato de ser a primeira entre oito ginastas a
apresentar-se. Precisou ela própria, com candura e coragem, dizer que
errou, e pronto - e que a nota recebida era justa.
Durante
todo o tempo, presenciamos repórteres dizendo a atletas, antes de
competições, que iriam torcer por eles, ou parabenizando-os, como
tietes, depois delas. Foram abundantes as perguntas chochas, que
permitem ao entrevistado ir para onde quiser e não esclarecem nada, do
tipo "Como você se sentiu quando...?" - de novo, a busca da
emoção, e não da informação - em vez de perguntas factuais que
poderiam iluminar detalhes importantes dos eventos, da atuação dos
brasileiros, do comportamento dos adversários e dos juízes.
Matérias
"engraçadinhas"
Com exceções
honrosas, os repórteres também deitaram e rolaram na produção de matérias
"bem humoradas", "engraçadinhas", cheias de
trocadilhos entre texto e imagem, de alegorias aos deuses do Olimpo, de
brincadeirinhas com atletas, turistas brasileiros e cidadãos de Atenas,
cujo esmero em não parecerem "sérias" incluíam o tom de
voz. O "estilo Tino Marcos", repórter global especialista
nesse tipo de matéria - seja qual for o teor do que cobre, mesmo
quando o assunto não comporta graça alguma - encontrou seguidores
ferrenhos na própria Globo e invadiu os canais especializados.
Inclusive a ESPN, normalmente elogiável pela excelência de suas
coberturas e que, na média, realizou um bom trabalho na Grécia: em
contraste com seus colegas, um de seus repórteres, extremamente ativo e
diligente, conseguiu a proeza de imprimir esse viés a todas as suas
reportagens sobre competições e atletas.
Ninguém,
naturalmente, pode ter nada contra o humor. O problema desse tipo de matéria,
no entanto, além de significar interpretação se sobrepondo à
reportagem, é que, repetindo-se, ela mistura, nivela e descaracteriza
na mesma massa amorfa o sucesso e o fracasso, o absurdo e o correto, o
feito heróico e o desempenho bisonho. Será jornalismo?
Quanto
aos apresentadores, com as elogiáveis exceções de praxe, como o sóbrio,
bem informado e atento Milton Leite, da ESPN, foi aquilo que se sabe: não
havia jogos nem disputas na tela, mas "nós" e
"eles". Em nome da "emoção", valeu quase tudo -
no caso do apresentador de programas policiais e ex-locutor esportivo
José Luiz Datena, até chegar a milímetros de ofender os adversários,
durante suas narrativas gritalhonas pela Band.
Estreiteza de
horizontes
Voltou à
cena a quase intransponível dificuldade de pronunciar corretamente
nomes em idiomas com os quais, presume-se, tais profissionais devam ter
alguma familiaridade, como o francês, o inglês e até o espanhol
(grandes profissionais vão à luta e conseguem descobrir como
pronunciar em alemão, chinês ou grego). Brigou-se bastante com os
adjetivos pátrios: um corredor das Ilhas Maurício - fértil arquipélago
no Oceano Índico, a sudeste da costa da África - foi o tempo todo
tratado como sendo da Mauritânia, tórrido país árabe no noroeste do
continente africano ocupado em mais de dois terços pelo deserto do
Saara. À falta de saber que existe, por exemplo, o adjetivo letão,
dizia-se "o atleta da Letônia".
Sem
contar a desinformação sobre acontecimentos, circunstâncias e pessoas
extra-esporte que apareciam nas imagens do pool da Athens Olimpic
Broadcast, geradora das transmissões. Nessas ocasiões, grande parte
dos apresentadores exibiu uma constrangedora estreiteza de horizontes
jornalísticos, como aliás é quase de praxe acontecer. Basta lembrar a
catatonia do narrador Galvão Bueno, da Globo, quando, destacado para
uma cobertura esportiva em Buenos Aires em dezembro de 2001, desabou
sobre sua cabeça a responsabilidade de, enquanto repórteres
qualificados não chegavam à Argentina, informar algo sobre gravíssima
crise que levou o presidente Fernando de la Rua à renúncia.
Em
Atenas, o basquete feminino do Brasil enfrenta a Espanha, e da platéia
alguém levanta uma bandeira estranha - nenhum narrador parecia saber
tratar-se do pavilhão que extremistas querem para um País Basco
independente. Atletas medíocres da ilha de Chipre fazem o público
delirar, ante o silêncio do narrador que visivelmente ignora o problema
político a separar, neste país independente, as comunidades grega,
majoritária, da turca, ligada ao país vizinho e inimigo histórico da
Grécia. No Estádio Olímpico, a bela sueca Carolina Kluft vence a
prova do heptatlo feminino, enrola-se na bandeira de seu país, vai
confraternizar com as adversárias. A TV foca, na platéia, um casal de
meia idade que a aplaude. Silêncio do narrador, que desconhecia
tratar-se dos reis suecos Carlos Gustavo e Sílvia. Outras figuras públicas,
como a rainha Sofia, da Espanha, a princesa Anne, da Grã-Bretanha,
presidentes, primeiros-ministros e até velhos atletas do passado
passaram em branco por quase todos os narradores.
É claro
nem todos os apresentadores escorregaram. E também é certo que muitos
repórteres e comentaristas conseguiram produzir bom jornalismo nas
Olimpíadas - felizmente. No conjunto da cobertura, porém, foram
engolfados pelo infotainment. Foi ele quem subiu ao pódio na Grécia.
(*)
Jornalista
5º BLOCO
Veja o que disseram os
convidados após o programa:
Rio de
Janeiro:
Antônio
Nascimento - Editor de Esportes de O Globo
"Eu acho que o ponto fundamental desse debate é a criação de uma
política de esporte, o telespectador que também acha isso tem que
exercer criticamente o seu poder de escolha."
Roberto
Falcão - Coord. Imprensa Pan 2007
"É importante a discussão do jornalismo no caso dos jogos
olímpicos porque nos dá a oportunidade de analisar o comportamento da
imprensa em relação ao esporte, e chamar a atenção para a
importância dessa cobertura específica."
São
Paulo:
Jorge
Kajuru - Jornalista
"Como sempre, eu achei oportuno o programa. O Observatório é
único, admirável e só de ter a transparência, liberdade e comando de
um jornalista de reserva moral como o Alberto Dines, fica difícil se
fazer crítica. Porém eu não posso sair de nenhum programa sem fazer
alguma crítica. Primeiro, eu achei um absurdo o Roberto Falcão não
opinar sobre o Comitê Olímpico Brasileiro, sobre a discussão da
distribuição de verbas às confederações esportivas deste país,
enfim, sobre o COB; ele não pode participar de um programa como esse,
porque aí ele não é jornalista, é assessor de imprensa e esse
programa é para jornalista. Então eu não entendi a participação
dele num assunto que deveria ser mais discutido. E eu dei o exemplo da
Copa do Mundo: depois de ganhar a Copa se esqueceu de tudo que acontece
de podre no futebol brasileiro. O Sr. Ricardo Teixeira hoje é amigo da
direção da Rede Globo, é figura de destaque no Jornal Nacional como
autoridade brasileira e antes da Copa houve um Globo Repórter em cima
dele. Então, agora que terminaram as Olimpíadas vamos achar que fomos
bem demais, a melhor participação brasileira e vamos esquecer de
discutir realmente o Ministério do Esporte - que na minha opinião
virou um escritório político, nada mais do que isso - e discutir o que
o COB recebe e como esse dinheiro é distribuído. Essa discussão é
fundamental para a sobrevivência de cada atleta. Eu repito: os nossos
atletas são de ouro, mas os nossos cartolas não são de ouro, nem
prata, nem bronze. Acho que apenas nesse ponto faltou uma discussão
mais ampla e com gente que pudesse falar."
PERGUNTAS
E-mails recebidos na
semana de 31/08 a 07/09:
Sérgio de Souza Torres
No último domingo, quando Dora Kramer se despediu, para surpresa dos
leitores, o JB publicou no rodapé da coluna que a partir desta
terça-feira Coisas da Política passaria a ser escrita por Augusto Nunes.
Hoje, nem coluna, nem Augusto e desde ontem na seção de cartas silêncio
total, o que é inconcebível, dada a popularidade da colunista e as
referências de apoio constante ao seu trabalho. Como se o espaço sagrado
de Carlos Castello Branco nem Dora Kramer jamais tivessem existido.
Lembra, assim, a obra de George Orwell, de apagar os registros como forma
de destruir a realidade. Não estou tratando aqui de divergência de uma
jornalista com seus patrões, o que é natural e não é da minha conta.
Falo de censura à liberdade de expressão dos leitores e de respeito de
um veículo às suas tradições. Se a idéia persistir, nada a fazer,
apenas deixar de assinar o jornal. Fica a sugestão de utilizar o antigo
espaço com a seção de obituário.
Gustavo Brasil
Kajuru, não acho que todo mundo deva ser igual a mim, que não me empolgo
com as Olimpíadas em geral e acho modalidades individuais chatíssimas.
Mas também não acho que a tv aberta deva parar tudo (como acontecia nos
anos 70 e 80) para mostrar tudo que rola nos jogos porque as Olimpíadas
são muito grandes, com muitas modalidades e em horários diversos e acho
que isso hoje em dia é função da tv a cabo, segmentada. A tv aberta tem
outra função, que é de ser um painel e acho que isso a Globo cumpriu
bem. Pode ter perdido uma vez ou outra, mas duvido que no todo haja um
arrependimento da parte dos programadores.
Alceu Raposo
Prezado sr. Dines, temos assistido à discussão em torno do projeto de
lei que criaria o "Conselho de Jornalismo" e a preocupação por
parte desta categoria com possíveis retaliações e/ou intervenções do
poder do Estado. Então nos deparamos com a situação vivida pela
imprensa mineira que parece ter sido "amordaçada" pelo atual
governo do Estado de Minas Gerais que tem demonstrado o seu poder ao calar
a voz dos jornalistas que ousam denunciar as ações intransigentes e
autoritárias deste. Os movimentos sociais continuam a acontecer como no
caso dos servidores da saúde e dos professores estaduais que foram para
as ruas denunciar as precárias condições de trabalho e que, no entanto,
foram recebidos nas ruas como no "pesadelo da ditadura militar"
sofrendo a ação covarde de bombas de gás lacrimogêneo e spray de
pimenta. O que nos faz refletir sobre o papel que a mídia mineira tem
assumido na propagação da verdade, pois poucos foram os meios de
comunicação que ousaram denunciar tais fatos. Então, o que entendemos
é que a preocupação da imprensa com o bom desempenho do Brasil nas
Olimpíadas não foi excessiva, mas por outro lado o silêncio desta com
assuntos tão importantes quanto saúde e educação tem sido grande.
Será que para constituir notícia na saúde é preciso que morram pessoas
sem atendimentos e na educação a notícia será veiculada apenas por
propagandas enganosas feitas pelo governo de Minas que diz ter um Estado
onde as crianças começam mais cedo a freqüentar a escola, mas que em
contrapartida não diz ter profissionais mal remunerados, sem condições
de trabalho e segurança para os quais até o direito de manifestação é
negado?
Jairo Falcucci Beraldo
Kajuru, esperamos você de volta aqui em Goiás e você deve estar
sabendo, está perto! Só senti que meu querido Dines não mencionou sua
ex-rádio aqui em Gyn! Esperamos com agrado as pessoas de bem (se você
não fosse não estaria neste programa de altíssimo nível). Não gostava
de você, depois das porradas que tomou aqui, aprendi no mínimo a te
respeitar.
Hilton Lima, São Paulo
Fiquei impressionado com a notícia divulgada pelo site Uol Esporte, de
que o COB, a exemplo de Sidney, havia negado credenciais para os sites de
notícias, situação que obrigou os repórteres a comprar ingressos para
trazer as notícias, concedendo apenas aos "meios tradicionais"
(rádio, tv e mídia impressa). Eu acompanhei os jogos pela internet, pois
considero um meio rápido e eficaz. Gostaria de saber o que o Kajuru pensa
disso.
Gustav Barucci, Campinas / SP
O Kajuru está criticando a Globo sem base, ou então me responda qual é
a base? Ele disse que transmitiam os jogos sem estarem lá... mentira,
todos os jogos que vi, lá estavam os jornalistas! Disse que colocam ex ou
atuais jogadores ou esportistas para comentar sem um jornalista ao lado,
outra mentira, a Globo sempre manteve um esportista e um jornalista juntos
nos comentários. Então qual é a do Kajuru? Ele ficou com esta aura de
polêmico e agora está se perdendo?
Ricardo Faria, São José dos Campos / SP - Jornalista
Parabéns Dines, a presença do Jorge Kajuru faz a diferença. Quanto
correu de grana e para onde foi canalizada? Quem ganhou com as
Olimpíadas, como sempre, foram os cartolas.
Lucas Barp, Vacaria / RS
Kajuru, se você estivesse no comando do COB você mudaria alguma coisa?
Que atitude você acha que deve ser tomada em relação ao fato da
maratona em que um padre parou o brasileiro?
Paulo Celso Pucciarelli, Mococa / SP
Dines, acho que Folha de São Paulo e o Estadão deram uma cobertura
exemplar, com repórteres buscando informações em todos os esportes
disputados, claro, com preferência para os atletas brasileiros. A
televisão a cabo fez uma miscelânea completa, em certos momentos,
querendo alcançar o dom da ubiqüidade, transmitindo jogos aos pedaços,
com flashes de polo aquático, hipismo, handebol etc. Mesmo com essa
miscelânea de informações "em certos momentos", destaque-se
na televisão a participação do Álvaro José, da Band, com
informações precisas de quem acompanha o esporte e o pessoal do José
Trajano, na tv a cabo.
Mery Cipriano
Olá Dines, acredito que a imprensa exagerou na pressão que fez em cima
dos nossos atletas olímpicos. O caso que mais me chamou a atenção foi
quanto à Daiane. Eu não estava acompanhando os jogos pela Globo (só em
alguns momentos - em que não era o Galvão Bueno a narrar), mas meu
irmão disse que, após a decepção da perda de medalhas por parte da
Daiane, uma repórter da Globo fez quatro perguntas que remetiam à mesma
coisa, como que querendo ver a Daiane dos Santos chorar.
Repórter - "Você acha que os juizes foram injustos na nota?"
Daiane - "Não, eles estão certos, eu errei!"
Repórter - "Você acha que merecia uma nota melhor?"
Repórter - "O problema foi você se apresentar primeiro?"
Ao que a pobre Daiane respondia a mesma coisa! Acredito que foi exagero.
José Roberto de Rezende, Campo Mourão / PR
Boa noite a todos, gostaria de saber por que não se faz cobertura das
paraolimpíadas?
Dalton Muniz, Campinas / SP
Olá! Gostaria de saber se vocês não acham um absurdo a Rede Globo fazer
aquela fusão do hino nacional com o "tema da vitória" da F1
que tocou sempre que o Brasil ganhava uma medalha? Daqui a pouco vai haver
crianças achando que aquela música faz parte de nosso hino.
Vicente Passani, Goiânia / GO
Parabenizo a Jorge Kajuru pela sinceridade nos comentários... Tomara que
seu retorno a nosso estado ocorra em breve... Cuide de sua saúde! Que
Deus o abençoe.
Ives Leite, Taubaté / SP
Gostaria de perguntar ao jornalista Roberto Falcão, concordando com o
Kajuru, se ele assume que o COB distribui muito mal a verba aos atletas
dando uma atenção a mais ao estado do Rio de Janeiro, sendo que em
outros estados brasileiros (como o Paraná e a Bahia) são celeiros de
grandes atletas.
Altair Barbosa da Silva Junior, São Paulo
Kajuru, a imprensa tem culpa de alguns atletas se sentirem pressionados a
ganhar algum tipo de medalha ou título para o Brasil?
Alexandre Bento, Rio de Janeiro
Sabemos que os negros têm enorme potencial para o esporte, principalmente
o atletismo. Os negros no Brasil são pobres e o esporte seria uma ótima
saída do mundo do crime. Não acham que seria responsabilidade do COB
investir forte em Vilas Olímpicas próximas às favelas e periferias do
Brasil?
Domingos Pessoa, São Paulo
O que os debatedores tão ilustres acham da afirmação: "Numa guerra
a primeira vítima é a verdade"? Os locutores nas transmissões têm
algumas muletas como você vê: "agora eu vou estar
transmitindo" ao invés de "agora vou transmitir". Não
acham os debatedores desnecessária a reinvenção da roda?
William Caldas, Belo Horizonte / MG
Ah, se todos os repórteres esportivos tivessem a mesma coragem do Jorge
Kajuru. É um problema termos apresentadores de TV como o Galvão Bueno.
Parcial e direcionado... esse é o foco dos seus comentários.
Rosaura Cordeiro, Brasilia / DF
Acho que a Band foi bem na Olimpíada. Vi muitas competições que, em
outros anos, só via em vt. Por que uma tv estatal não contrata o Kajuru
e entrega a ele a programação sobre os esportes com assuntos como
preparação, investimentos, treinamentos, campeonatos no Brasil? Como
pode o Kajuru ficar fora da tv? O único jornalista-comentarista que me
fez assistir programa sobre futebol (que eu nem gosto).
Jefferson, Belo Horizonte / MG
Gostaria de saber se a tentativa de protesto feita pelo atleta do
tae-ken-do brasileiro surtiu algum efeito no COB?
Alberto, Rio de Janeiro
Nos últimos Jogos Olímpicos de Inverno uma empresa dos EUA teve grandes
lutas judiciais com a NBC pela transmissão dos jogos pela Internet.
Nenhuma emissora brasileira transmite Olimpíadas de Inverno, mesmo as
categorias onde existem atletas brasileiros... Agora nos jogos de verão
comentam que um atleta do atletismo participou! Mas não se mostra durante
esses eventos os acontecimentos! Por que a Internet não pode servir para
difusão paga ou gratuita de eventos que as tvs não têm interesse de
transmitir?
Victor Abdallah Neto, São Paulo
Boa noite, faço uma pergunta e ao mesmo tempo um desabafo... Por que não
há menção nenhuma na mídia a respeito das Paraolimpíadas? Será que
os brasileiros que estarão em Atenas são menos brasileiros que aqueles
que já voltaram? Acredito que os portadores de necessidades especiais
são até "mais" heróis do que os demais atletas... pois além
de suas próprias limitações esses atletas não possuem apoio nem
durante suas competições! Abraços a todos!
Moisés Costa, Praia Grande / SP
Prezados senhores, só recentemente parei para assistir com certa
assiduidade o Observatório da Imprensa e posso afirmar que se trata do
melhor programa da televisão aberta brasileira. Tão bom que acho que
deveria ser até cobrada uma taxa pois o nível das discussões é
altíssimo. Brincadeiras à parte, parabéns à toda a equipe, sem
exceções.
Achel Tinoco - Escritor
Perfeito o programa de ontem. Parabéns! Parece que as televisões do
Brasil e a imprensa de um modo geral montaram toda uma estrutura de
transmissão e apostaram suas fichas e o sucesso de audiência apenas
sobre o Twiste Carpado da ginasta Daiane dos Santos, deixando como pano de
fundo ou renegados a terceiro plano os outros esportes e ou outros
atletas. Prepararam a festa antes do tempo. Então decretaram que o brilho
mais intenso e faustoso seria o da medalha de ouro de Daiane, tudo como
certo e escrito pelos deuses da mídia para os deuses do Olimpo. Os
deuses, ao que parece, não foram consultados e não conspiraram para um
resultado único e definitivo que a consagraria como a maior dentre todas
as mulheres de Atenas. Daiane perdeu. E perdeu com dignidade, porque
segundo ela mesma declarou a seguir, cometeu um erro, mas iria treinar com
afinco para se apresentar melhor noutra oportunidade. Perdeu, portanto,
com elegância e aceitou a derrota com serenidade, demonstrando o
verdadeiro espírito olímpico, diferentemente de alguns jornalistas que
ainda lhe quiseram imputar algum subterfúgio que amenizasse a dor do povo
brasileiro, uma dor que em verdade nem ela mesma sentia, porque estava
consciente de que o esporte é feito de vitórias e também de derrotas,
que ensinarão um atleta a ser vencedor amanhã. Cabe então perguntar o
quanto essa pressão da imprensa sobre determinados atletas atrapalha ou
não no seu desenvolvimento final. E mais: a medalha conquistada por
Robert Scheidt, por exemplo, tem um peso, um brilho e uma importância
menores do que aquela que "estava" ganha por Daiane, mas não o
foi? O que vemos diariamente é a exposição excessiva e injustificável
de determinados atletas em detrimento de outros. Não bastasse, a
propaganda apaixonada, mas exagerada, claro está, e por que não dizer
enganosa sobre a quantidade de medalhas que nossos atletas trariam dos
jogos, deixa no telespectador um sentimento de decepção quando deveria
ser de orgulho e alegria porque estamos lá representados. As medalhas que
ganharemos são justamente aquelas para as quais nossos atletas foram
preparados adequadamente para ganhar. Além disso, é enrolação dos
meios de comunicação que faz a pulso do Brasil um país olímpico e
campeão antes mesmo dos resultados finais, quando na verdade não o
somos. E não somos por uma simples razão: falta de apoio, de
estruturação e de investimento. Enquanto que nos Estados Unidos se gasta
em média 3 milhões de dólares por cada atleta que vai ganhar uma
medalha, no Brasil se gasta quase nada. E mesmo com esse quase nada, ainda
obtemos resultados surpreendentes e milagrosos. Por quê? Porque os nossos
atletas são talentosos e obstinados, são guerreiros destemidos, que
lutam a qualquer preço para fazer bonito lá fora, como fizeram Daiane,
Honorato, Scheidt, Joana Maranhão, e todos os outros que estão em Atenas
e correm pelo mundo afora com o nome do Brasil às costas orgulhosamente.
Desse modo, cabe à imprensa brasileira torcer sim por nossos atletas,
apoiá-los e valorizá-los, mas todos com o mesmo valor, com justiça e
honestidade, para que possamos competir com igualdade de condição com
quaisquer outros povos. E vencer e perder, com um verdadeiro orgulho de
ser brasileiro.
Alexandre Monteiro, Rio de Janeiro
Parabéns ao programa que me fez substituir o Casseta e Planeta!
Junio Fernandes Gontijo, Divinópolis / MG
A mídia brasileira é "sem educação"! É inaceitável a
omissão da mídia sobre um assunto tão importante para o desenvolvimento
do país: o ensino público. Os meios de comunicação se ocupam de todos
os assuntos, muitos até absolutamente dispensáveis, mas não têm
"peito" de encarar a questão do ensino público no Brasil. E
quando se referem ao tema é sempre no intuito de denegrir a imagem do
professor! O eterno bode-expiatório dessa ferida nacional. Ora, é muito
fácil (e covarde) atacar o mais fraco. Em MG, um professor de 1ª a 4ª
série recebe piso salarial de R$ 212; de 5ª a 8ª R$ 288. O governo
estadual destina para merenda escolar R$ 0,15/aluno. Infelizmente, esse
"quadro-negro" não é privilégio só de MG. Todos sabemos
disso. Também sabemos que não há desenvolvimento apenas dando
prioridade às questões econômica e financeiras. Mas a mídia prefere
fazer coro a essa tendência: a economia, a economia, a economia... Quanto
à educação, pobrezinha, ninguém quer se haver com ela. Nem mesmo a
mídia. Falta educação ao jornalista? Ou o tema realmente é menor?
Tibiriçá da Costa, Rio de Janeiro
Prezado Dines, no momento em que os meios de comunicação atravessam uma
fase de total mediocridade, é lamentável que você fique contra o
Conselho Federal de Jornalismo. Precisamos urgentemente melhorar o rádio
a televisão e os jornais. Temos de ter gente com aptidão e bem
preparada. Diferente do que ocorre hoje. Lembre da conversa com o Jô
Soares de 1999.
Sonia Pinheiro, Rio de Janeiro
Como o jornal pode contribuir para a intolerância: o Globo de 05/09/04
coloca em grande manchete sobre "a filha lésbica de Cheney"...
No entanto, dá uma pequena notícia num canto de página em 6/09
"Mulheres sul-africanas estão casando sem saber", fato
gravíssimo.
Telefonemas recebidos em 31/08:
Cristina de Souza, Goiânia / GO
Kajuru, você tem algum despeito com a Rede Globo? Você só critica! A
mídia faz o atleta?
Elio Rodrigues, Manaus /AM
Kajuru, o Governo Federal incentivou essas Olimpíadas?
Alberto de Castro, Rio de Janeiro
Kajuru, quem sustenta de fato a Tv Globo é o governo. O governo dá a
concessão e depois compra através da propaganda.
Luana Lopes, Petrópolis / RJ
Kajuru, o que você acha do Galvão Bueno elogiar tanto o Rubens
Barrichelo?
Josenil Ferreira, Recife / PE
O grande problema das transmissões nessas Olimpíadas foi a saturação
que elas causam.
Alessandro J. Caprário, Florianópolis / SC
O Brasil não deveria enviar atletas mais experientes ao invés de
promessas?
Agnaldo Vander, Minas Gerais
Kajuru, a imprensa colocou muita pressão na Daiane?
Suad Fhalil, Rio de Janeiro
Falcão, por que a CBF não coloca mais jogos da seleção no Maracanã?
Elias Perbone, Tambaú / SP
Kajuru, faltou incentivo para os atletas ou eles foram passear?
Adriano Bezerra, Itapecerica da Serra / SP
Nascimento, a mídia pode influenciar ativamente na difusão das
modalidades esportivas ou esse papel é exclusivo do governo?
Gabriel Borba, Imbé / RS
A exceção na cobertura dos jogos foi o jornalista Álvaro José, da TV
Bandeirantes, sempre centrado e sem exagero ufanista?
Alex Diogo Medeiros, Cuiabá / MT
A imprensa tem culpa porque colocou muita pressão na Daiane. A Band e a
Globo só deram cobertura à vela depois dos prêmios.
Felly de Oliveira, São Luís / MA
Como vocês vêem o fato da imprensa estar focada mais para o lado
comercial das Olimpíadas, esquecendo do seu verdadeiro valor?
Jaime de Souza, São Paulo
A qualidade dos comentários e narrações de esportes da tv brasileira
precisa melhorar?
Humberto Ferreira, Rio de Janeiro
Se a seleção masculina de futebol tivesse se classificado para as
Olimpíadas, as outras conquistas como as do vôlei seriam esquecidas com
a cobertura dos craques da bola?
Francisco de Oliveira, Recife / PE
Kajuru, você está mais magro! Os programas esportivos deveriam ter mais
gente como você!
Wagner Palma, Vitória da Conquista / BA
Kajuru, depois do desempenho do futebol feminino é possível criar um
campeonato nacional?
Marcos Antônio de Medeiros, Caicó / RN
Dines, por que as televisões públicas no Brasil não transmitem eventos
esportivos como fazem as emissoras portuguesas e espanholas?
Teresa Martins, Petrópolis / RJ
Kajuru, vale a pena levar tantos atletas sem chance para os Jogos
Olímpicos?
Gustavo Franco, Nova Iguaçu / RJ
É viável fazer uma pré-programação das Olimpíadas, divulgando outros
esportes menos conhecidos?
Cristina Cunha, Caruaru / PE
Falcão, você acha que o Rio de Janeiro vai atrair a imprensa
internacional no Pan 2007? O evento tem força em todo o continente?
Tânia Amaral, Rio de Janeiro
Kajuru, nossa admiração por você é tanta que nunca mais se assistiu à
Band no horário que era o seu programa, essa é a nossa forma de
protesto!
Cláudio Oliveira, Sorocaba / SP
Kajuru, os locutores brasileiros torcem mais do que transmitem. Isso é
válido?
Nirla Cavalcante, Petrolina / PE
Como fazer uma cobertura que cative o público sem ser nacionalista em
demasia?
Marcelo Marostica, São Leopoldo / RS
Nascimento, você acha normal o jornalista da Globo ter colocado a Daiane
falando com a mãe meia hora antes da competição, não pode ter
atrapalhado?
Orlando Arantes, Goiânia / GO
Nascimento, a média geral dos torcedores comemora sem entender
determinados esportes como a vela e o hipismo, não seria a hora de cobrir
melhor determinados esportes?
José Lourenço, São Paulo
Falcão, por que os apresentadores cometem tantos erros na transmissão
dos jogos, eles não são devidamente preparados para isso? Não deveria
haver um aperfeiçoamento desses profissionais?
Tiago Moreira, Teresina / PI
Kajuru, o que é que você acha de usar atletas como comentaristas? Eles
comentam ou torcem?
Faxes recebidos em 31/08:
Ana Paula Coelho
Acho interessante que todos cobrem resultados dos atletas, inclusive a
imprensa, mas ninguém faz críticas à falta de investimentos, apoio e
incentivos, leva-se muito tempo para a formação de um campeão.
Marco Antônio, Belo Horizonte / MG
Kajuru, como pode a imprensa fazer uma verdadeira cobertura esportiva, bem
como os bastidores, querendo levar a notícia nua e crua aos
telespectadores e ser podado ou censurado pelo poder público? Cite-se o
exemplo do que aconteceu com a transmissão do jogo Brasil x Argentina em
Belo Horizonte.
Jorge Eduardo de Lima, Rio de Janeiro
Com todo respeito, discordo do jornalista Nascimento. A imprensa dá
cobertura aquilo que dá retorno. E é por isso que o futebol e agora o
vôlei e o automobilismo são divulgados. Aliás, há muito tempo o
futebol deixou de ser esporte e é sim business.