PROGRAMA DO DIA 30 de março de 2004

31 DE MARÇO - UM DIA NA HISTÓRIA

Na última terça-feira, 30 de março, apresentamos o especial "31 de março - um dia na história", para lembrar os 40 anos do golpe militar de 64. Foram exibidas imagens históricas e depoimentos de personagens como Leonel Brizola, Miguel Arraes, Ferreira Gullar, Seixas Dória, Ruy Mesquita e Almino Afonso.

Leia o resumo do programa

  Veja o Compacto

1964 + 40
Um dia na história

Alberto Dines

Foi o capítulo mais longo, mais negro e mais estudado da história brasileira. Estendeu-se por 21 anos, terminou formalmente há duas décadas - ontem - mas as gerações seguintes - hoje - continuam sem entendê-lo corretamente.

Pencas de perguntas continuam sem respostas, as mais importantes sequer formuladas. Golpe ou contragolpe, movimento militar ou civil-militar, a resistência pretendia a restauração democrática ou apenas o desgaste do regime militar?

Leia na íntegra

A mídia está conseguindo recontar a história do golpe de 1964?

Resultado:

Sim: 24%

Não: 76%

Aqui você pode participar de fóruns sobre assuntos ligados à imprensa, deixar seu recado no nosso mural e ler as perguntas dos telespectadores.

Perguntas - Aqui são colocadas as perguntas dos telespectadores que chegam por telefone, fax ou e-mail durante o programa e ao longo da semana.

5 Bloco - Leia a opinião dos participantes do programa, sobre o debate.

Editorial:

Bem vindos ao "Observatório da Imprensa" um dia na história.

Você sabe o que significa comemorar. Co-memorar é lembrar junto. Re-memorar é lembrar novamente. Verbos afins e querem dizer que a memória não é estática, mas dinâmica. Cada retorno no tempo traz um enriquecimento, novas visões, perspectiva.


Leia na íntegra

1964 + 40
O jornalismo 40 anos depois

Ivo Lucchesi (*)

É sabido que, no Brasil, se cultiva certo fascínio em celebrar "datas redondas". Diferente, pois, não é quanto aos 40 anos da implantação do regime militar. De propósito, evitei o rótulo tradicionalizado como "golpe de 64", por entender que o ocorrido na ocasião esteve bem além de um ímpeto golpista, sob a orquestração de grupos militares. A verdade histórica, amparada no necessário distanciamento crítico, deixa claro que a tomada do poder pelas Forças Armadas tinha pleno endosso de amplos setores da sociedade civil.

Leia na íntegra


RESUMO DO PROGRAMA

31 DE MARÇO - UM DIA NA HISTÓRIA

O Observatório da Imprensa especial de 30 de março lembrou o Golpe Militar de 1964, que completou 40 anos. Em editorial, Alberto Dines ressaltou: "31 de março de 1964 foi um dia crucial em nossa história mas a atual rememoração ou comemoração dos 40 anos do Golpe que derrubou o presidente João Goulart não trouxe até o momento nenhuma contribuição significativa. Aquelas páginas negras ficaram esmaecidas e simplificadas. Daquela tragédia que estendeu-se ao longo de 21 anos retiraram-se os antecedentes, o elenco foi reduzido, certas passagens foram aliviadas".

Participaram do debate os jornalistas: Luiz Gutemberg em Brasília, Almyr Gajardoni em São Paulo e Márcio Moreira Alves no Rio de Janeiro. Contribuíram com depoimentos na reportagem: Jarbas Passarinho, Fernando Gabeira, Fernando Pedreira, Wilson Figueiredo, Villas-Bôas Corrêa, Ruy Mesquita, Seixas Dória, Miguel Arraes, Leonel Brizola, Ferreira Gullar, Nelson Pereira dos Santos, Fernando Lira, João Pinheiro Neto, Oliveiros Ferreira, Jacob Gorender, Almino Afonso e Marco Antônio Coelho.

Márcio Moreira Alves inicia o debate: "Todo conservador prefere a ordem à justiça. Entre ter ordem e não ter justiça, todo conservador prefere ter a ordem, e a justiça que se dane".

Almyr Gajardoni, dando prosseguimento ao debate, recorda: "Em Brasília foi um dia até relativamente tranqüilo, exatamente porque todo o esforço militar do Golpe foi dirigido para o Rio de Janeiro. O centro do poder que devia ser controlado estava no Rio e Brasília foi mais ou menos abandonada".

Em depoimento gravado, Leonel Brizola afirmou: "Eu me surpreendi com o desencadeamento do Golpe. Os golpistas, que eram rigorosamente minoria dentro das Forças Armadas mas tinham muita força nos comandos, só conspiraram durante aquele tempo e prepararam uma encenação que assustou o Governo".

Em outro depoimento, Miguel Arraes considerou: "Eu tinha a perfeita consciência e conhecimento dos acontecimentos, de modo que posso dizer que encarei o Golpe e os militares com tranqüilidade e segurança".

"No dia 31 à tarde foi deflagrado o Golpe pela corporação do Exército em Minas Gerais e então nos reunimos na UNE; artistas, intelectuais, escritores, jornalistas, atores e cineastas para nos manter em vigília diante do que estava acontecendo, tomar pé da situação e ver o que se poderia fazer no sentido de se defender do Governo", relembrou Ferreira Gullar.

Jarbas Passarinho declarou: "Nós ficamos ouvindo a Rádio Nacional, que dava informações, mas todas elas falsas. Diziam que o Castelo Branco tinha sido preso, que tudo já estava resolvido, quando no dia 1º de abril nós já soubemos da possibilidade, inclusive, da deposição completa de João Goulart".

"O Golpe mostrou que nem os militares estavam preparados para ele, tomaram na marra e nem as forças democráticas estavam preparadas para reagir ao Golpe, para resistirem. Houve praticamente uma entrega do país aos militares", analisou Fernando Lira.

"O comando dos jornais é que tomou uma posição política contrária à hipótese da derrubada do Jango. A palavra de ordem foi dada pelo Correio da Manhã, que foi o primeiro a falar, fez um editorial de primeira página e, logo em seguida, vieram todos os outros", lembrou Wilson Figueiredo.

Luiz Gutemberg finaliza: "Eu tenho a impressão que no Brasil a nossa capacidade de se interessar por episódios marginais, por fatos pitorescos e esquecer os sérios acontecimentos, nos condena a permanentemente estarmos dispostos a repetir episódios lamentáveis, equívocos fatais e dolorosos como este de 64".

Manoel Magalhães (estagiário)


EDITORIAL

Bem vindos ao "Observatório da Imprensa" um dia na história.

Você sabe o que significa comemorar. Co-memorar é lembrar junto. Re-memorar é lembrar novamente. Verbos afins e querem dizer que a memória não é estática, mas dinâmica. Cada retorno no tempo traz um enriquecimento, novas visões, perspectiva.

31 de março de 1964 é um dia crucial em nossa história mas a atual rememoração ou comemoração dos 40 anos do golpe que derrubou o presidente João Goulart não trouxe até o momento nenhuma contribuição significativa. Ao contrário. Quatro décadas depois, aquelas páginas negras ficaram esmaecidas e simplificadas.

Daquela tragédia que estendeu-se ao longo de 21 anos retiraram-se os antecedentes, o elenco foi reduzido, certas passagens foram aliviadas e, sobretudo, foi abandonada a pergunta que o coro costuma repetir ao longo de cada tragédia - por que, por que? Qual a mecânica que transformou nossa tradição de quarteladas incruentas, sem crueldades, numa sucessão incrível de crueldades? E o homem cordial onde foi parar durante os 21 anos? Sobre isso não se fala.

O cidadão brasileiro hoje sabe menos sobre aquele longínquo dia na história do que o seu pai que foi testemunha ocular. Deveria ser o contrário. No jornal "O Globo" de hoje foi publicada uma pesquisa com 480 jovens de 15 a 21 anos realizada por uma universidade carioca. Os resultados são aterradores:

72% dos respondentes não sabiam o que aconteceu em 31 de março.

42% acertaram quando responderam que João Goulart foi deposto mas quase 35% disseram que o presidente deposto foi Jânio Quadros.

54% erraram ao indicar a principal conseqüência do AI-5.

75% erraram ao indicar o nome de um general importante do período 64-85. 35% apontaram o General Franco, ditador da Espanha, outros apontaram o General Osório. O General Golbery ficou em terceiro lugar.

Na lista de personagens torturados até a morte durante a ditadura militar, 52% apontaram corretamente Vladimir Herzog mas outros 32% escolheram Tiradentes.

Culpa de quem? Das escolas, dos professores, dos livros didáticos, das famílias ou da imprensa que não aproveitou algumas rememorações anteriores para explicar em profundidade o que aconteceu?

A verdade é que a imprensa lembra o 31 de março de forma constrangida. Explicitar a derrubada de Goulart implica em explicitar a participação desta mesma imprensa na conspiração e na auto-censura que ocorreu depois de 68. São estes constrangimentos que produzem as mágicas onde o espanholíssimo General Franco torna-se nosso vilão.

Esta edição do "Observatório da Imprensa" focaliza um dia na história, o dia em que tudo começou. Os restantes 7.664 dias da ditadura militar compõem os outros atos desta tragédia.


ARTIGO
Por Alberto Dines

1964 + 40
Um dia na história

Alberto Dines

Foi o capítulo mais longo, mais negro e mais estudado da história brasileira. Estendeu-se por 21 anos, terminou formalmente há duas décadas - ontem - mas as gerações seguintes - hoje - continuam sem entendê-lo corretamente.

Pencas de perguntas continuam sem respostas, as mais importantes sequer formuladas. Golpe ou contragolpe, movimento militar ou civil-militar, a resistência pretendia a restauração democrática ou apenas o desgaste do regime militar?

O melhor formulador de perguntas é o tempo. O 40º aniversário da derrubada do presidente João Goulart e a instalação de uma implacável ditadura militar seria uma oportunidade para levantar questões, dúvidas e produzir relatos mais didáticos e menos passionais. Infelizmente, os radicalismos que geraram o fato estenderam-se às avaliações quatro décadas depois.

A imprensa que foi cúmplice, e depois vítima, parece constrangida. Não se sente à vontade para ver-se espelhada nas suas páginas. Prefere generalizar: esquece 1962 e 1963, confunde 1964 com 1968, engasga-se com a sua parte na lenda do "milagre brasileiro", passa pelo período 1974-78 como se já estivesse tudo clarificado e preserva alguns vilões que lhe foram de grande utilidade (Delfim Netto, Paulo Maluf e figurões que continuam aboletados no poder como Sarney e ACM). Contenta-se com a titulação melodramática tipo "Os Anos de Chumbo", relembra o romantismo das canções e vai em frente imaginando que em 2014, 2024 ou, quem sabe, em 2064 os pingos sejam finalmente colocados nos ii.

As "Horas Estelares" ou "Momentos Supremos" não existem isolados, desconectados dos antecedentes. Nem acontecem por obra da Divina Providência. Entre a redemocratização de 1945 e o golpe de 1964, registraram-se diversas intervenções militares (ultimato a Getúlio em 1954, que o levou ao suicídio; contragolpe de 1955 favorecendo JK; embargo à posse de Jango, em 1961). Fulminantes, cirúrgicas, acanhadas, nenhuma em tão grande escala, tão incisiva e profunda como o levante militar iniciado em Minas para depor João Goulart.

Alguma ação muito grave provocou tamanha reação. A sucessão de quarteladas incruentas desaguou na maior exibição de crueldade de nossa história e até hoje desconhecemos a mecânica desta metamorfose.

Tiros e intimidação

Até o momento, o retrato de corpo inteiro com verso e reverso do fatídico 31 de março de 1964 ainda não apareceu na imprensa, embora a série de matérias da Folha de S.Paulo, formatada em estilo de contagem regressiva, tente reconstruir a progressão dos acontecimentos. Alguns textos isolados de jornalistas-testemunhas (Carlos Heitor Cony, na Folha, Márcio Moreira Alves, no Globo) ou protagonistas-cronistas (José Sarney, Folha) forneceram elementos oportunos. Em compensação, os surtos de paranóia publicados no portal AOL (http://noticias.aol.com.br/brasil/fornecedores/aol/2004/03/26/0019.adp) e em CartaCapital ("A imprensa golpista", nº 284, 31/3/04) mostram quão distantes estão alguns círculos jornalísticos dos seus compromissos com a causa do esclarecimento.

Difusos e incompletos permanecem os fundamentos - o antes, o durante e o depois do golpe. Os infográficos publicados nos últimos dias com a cronologia do que aconteceu não informam, os relatos não relacionam antecedentes, e, assim, o grande trauma dilui-se numa cobertura-efeméridade, meia sonsa. Salvo pequenos focos de luz, a imprensa dá a impressão de que desincumbe-se por obrigação de uma pauta inconfortável, sem humildade para um auto-exame e sem ânimo para levantar questões "politicamente incorretas".

Supondo-se que a mídia impressa seja aquela que fornece ao cidadão a densidade informativa para formar juízos, fácil prever que serão os novos livros ou reedições de obras esgotadas - e não os jornais e revistas de agora - os fornecedores de subsídios para a compreensão serena e a visão trágica do que foi a ditadura militar. Mais uma vez, flagra-se na sociedade brasileira uma compulsão para fugir à dor. Mais cômodo xingar, tirar o corpo fora e esquecer que, apesar das diferenças formais, 1964 e 2004 fazem parte do mesmo processo.

A grande ausente nesta revisão de 1964 feita pela imprensa é a própria imprensa. A modéstia, no caso, é incriminadora. Desde 1945, os cortes abruptos do processo político tiveram a imprensa como pivô. A primeira queda de Getúlio foi apressada pela entrevista de José Américo ao jornalista Carlos Lacerda, no Correio da Manhã. Com ela acabou a censura e acabou o Estado Novo.

A segunda queda de Getúlio começou a ser armada pelo mesmo Lacerda na sua Tribuna da Imprensa, aliado aos barões da mídia, ao denunciar o financiamento da Última Hora pelo Banco do Brasil.

Jânio Quadros renunciou um dia depois de um longo comício televisivo do mesmo Lacerda. E quando começou a crescer o movimento pela legalidade e posse do vice João Goulart, os três ministros militares decidiram-se pelo controle do processo informativo. O Diário de Notícias (Rio), de 30 de agosto de 1961, saiu com grandes manchas brancas em sua primeira página. Foi a primeira censura militar dos tempos modernos.

A segunda tentativa de controle da imprensa, desta vez por parte da tropa fiel a Jango, deu-se no dia 31 de março de 1964, quando o então Contel (Conselho Nacional de Telecomunicações) determinou a todas as emissoras de rádio que se abstivessem de irradiar noticias "alarmistas". À noitinha, um pelotão de fuzileiros navais (a tropa de choque do almirante Aragão em defesa de Jango), em uniforme de combate, parou na porta da antiga sede do Jornal do Brasil (Avenida Rio Branco, 110), deu alguns tiros para o ar, invadiu o prédio e foi até a Redação. Não sabiam o que queriam ou queriam apenas intimidar. Foram-se em seguida (Os idos de março e a queda em abril, pág. 341).

Os dias seguintes

O sinal para que a tropa deixasse os quartéis foi dado pelo Correio da Manhã com a sucessão de editoriais de primeira página nos dias 30 e 31 de março de 1964 ("Basta" e "Fora!"). O mesmo jornal que esbravejara em 1961 contra a tentativa de impedir a posse de Goulart, agora comandava sua derrubada.

A imprensa deixava de lado sua função mediadora para assumir-se como protagonista. Em apenas 15 dias, de arauto do que então se chamou de "revolução", o Correio da Manhã converteu-se em seu único opositor (a Última Hora, atacada por uma turba de sicários, foi obrigada a se calar). O resto dos grandes jornais do Rio e de São Paulo que participaram da conspiração deram o apoio total ao novo governo.

O bloqueio econômico imposto ao Correio da Manhã não começou imediatamente, levou tempo. Dez anos mais tarde (1974), depois de cooptado por um grupo de militares "desenvolvimentistas" e empreiteiros "desenvolvimenteiros", o jornalão deixava de circular.

As punições impostas ao jornalista Helio Fernandes, diretor da Tribuna da Imprensa, ocorreram no período da ditadura envergonhada convertida em ditadura escancarada, muito antes do AI-5 (conforme as expressões de Elio Gaspari). Tudo era noticiado, nada foi suprimido, mas o garrote foi sendo apertado aos poucos. Houve focos de resistência tanto da parte de jornalistas (muitos) como de empresários (raros); não se deve minimizá-los porque o totalitarismo alimenta-se das generalizações e simplificações.

Por outro lado, não se pode esquecer que a reação à censura em 1968-69 foi neutralizada pela ampla adesão da grande imprensa à autocensura, amparada em grande parte pelo poder de Antonio Delfim Netto sobre as empresas jornalísticas.

A imprensa alternativa, esta sim, foi uma trincheira. Com garra e inteligência soube criar uma consciência de oposição. Foi mais efetiva do que a luta armada, formou quadros, criou consciências. Em vez de sepulturas, deixou uma bela herança. Infelizmente também olvidada.

Os empresários de jornais aprenderam a conspirar em 1964 e tomaram gosto. Em 1973, o Jornal do Brasil conspirou com o general-presidente Emílio Garrastazu Médici para uma solução continuista e só não foi punido pela dupla Geisel-Golbery (que ganhou a parada) porque aderiu de corpo e alma ao seu esquema. A própria "distensão lenta, gradual e segura" só existiu como metáfora jornalística - a realidade foi outra.

De uma forma geral, pode-se dizer que de 1808 até 1937 os jornalistas engajavam-se em causas, Getúlio Vargas foi o primeiro a engajá-los nos seus interesses; e, a partir de 1964, a parceria imprensa-governo tornou-se concreta, parte do processo político.

Com estas notas não se pretende o balanço do que aconteceu nos 7.665 dias que se seguiram ao 31 de março de 1964. Interessa apenas lembrar, sugerir referências, localizar omissões, identificar áreas cinzas e buracos negros. A História não é tribunal, suas sentenças são sempre provisórias, mas a continuação do processo jornalístico compõe os autos. Nos próximos dias, saberemos se este aniversário acrescentou algumas páginas. [Fechado às 18h53 de 29/3/04]


OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET

1964 + 40
O jornalismo 40 anos depois

Ivo Lucchesi (*)

É sabido que, no Brasil, se cultiva certo fascínio em celebrar "datas redondas". Diferente, pois, não é quanto aos 40 anos da implantação do regime militar. De propósito, evitei o rótulo tradicionalizado como "golpe de 64", por entender que o ocorrido na ocasião esteve bem além de um ímpeto golpista, sob a orquestração de grupos militares. A verdade histórica, amparada no necessário distanciamento crítico, deixa claro que a tomada do poder pelas Forças Armadas tinha pleno endosso de amplos setores da sociedade civil.

Por conta, então, da quarta década relativa àquele 31 de março, encartes especiais inundam jornais, profusão de publicações em livros, além de inúmeros eventos programados que incluem palestras, seminários, exibição de vídeos, entre outros. Nada contra o fato de novas gerações terem farta disponibilidade de meios acerca de algo que estruturalmente modificou os rumos do país. Mais ainda as agendas rememorativas cumprem seu dever, considerando que a memória, no Brasil, não figura como um valor de apelo estimado.

De outro lado, há também de se saber filtrar a tendência a indevidos exageros, sem mencionar a dose de oportunismo de quem sempre possa estar pronto para reforçar heroicidade nem sempre ajustada à realidade dos fatos.

Seja como for, nunca é demais realimentar a defesa da liberdade, até para não possibilitar o saudosismo daqueles que, em relação à época, tendem a nutrir a idéia do quanto "aqueles tempos eram melhores", sob a alegação de que a violência e outros males de agora não existiam. Mal sabem esses que tanto a violência quanto outros males do presente estão presos ao fio contínuo da História. Este, aliás, é o problema entre quem lê os acontecimentos históricos pela via da informação e quem os lê como capítulos de uma alongada narrativa na qual a importante personagem é a História como processo.

A deformação programada

Observemos um quadro comparativo a respeito das transformações pelas quais passou a atividade jornalística, ao longo dos abalos gerados pelo processo histórico. Se por um lado é fato que a vida nacional recuperou a estabilidade democrática, também não deixa de ser verdadeiro que partes afetadas em 64 e abortadas em 68, com a vigência do AI-5, nunca mais foram recuperadas. Entre estas, situa-se a prática jornalística.

É perceptível e inegável que o regime militar redefiniu o perfil da comunicação e do sistema educacional. Aí se deu o irremediável delito. Foi implantado estrategicamente, passo a passo, o processo de "deformação programada". Ilustremos o fato com alguns exemplos.

Somente no Rio de Janeiro, leitores das chamadas classes A e B dispunham de um leque de opções que, no mínimo, abrigavam quatro jornais: Correio da Manhã, Diário de Notícias, Jornal do Brasil, O Globo e ainda podiam flertar com a Última Hora ou a Tribuna da Imprensa. As classes C e D se dividiam entre O Dia e Luta Democrática.

No cenário atual - e com sérias restrições - ao leitor carioca mais exigente restam O Globo e o Jornal do Brasil, já que a Tribuna da Imprensa tem circulação limitada. Em diferentes momentos, mas por iguais razões, as amplas opções foram desaparecendo.

Igual processo ocorreu com emissoras de TV (Rio, Excelsior, antiga Record, Continental e Tupi). O casamento entre Organizações Globo e governo foi decisivo para o extermínio de concorrentes. Como conseqüência, o público se tornou refém de um modelo, a partir do qual fixou preferências até hoje inalteradas.

O retorno à normalidade democrática não tem sido capaz de operar transformações à altura da exigência cultural, sem a qual o país jamais atingirá a necessária autonomia.

O que mudou?

O incremento da TV durante o primeiro período do regime militar foi fator decisivo para o início do desmantelamento do perfil jornalístico até então vigente no país.

O fascínio cada vez mais intenso da população pelos encantos da "imagem" foi lentamente sendo transportado para a imprensa escrita. Como sintoma inicial, o padrão de letra foi ampliado ao lado de largos espaços destinados a fotografia. Igualmente as revistas intensificaram o que nelas, por força do próprio objeto, já era natural.

Jornais e revistas - e, adiante, livros - transformaram-se em parceiros da "ilusão visual", o que reforçava a subordinação do público às telas de TV. Em seguida, o golpe derradeiro, com a chegada da televisão colorida. Não tardou para que os jornais também rompessem com o preto-e-branco a fim de incorporarem a "estética arco-íris". O império da cultura visual estava assegurado.

Hoje, o público parece regozijar-se com o fato de ter no país jornais com belíssima diagramação, parque industrial avançado e máquinas de última geração, a encobrir a superficialidade dos conteúdos. Diagramação e fotografia de país desenvolvido em antagônica qualidade quanto a pautas e enfoques.

Enquanto estoques de papel poderiam servir para barateamento de livros importantes, as empresas de comunicação armazenam toneladas com as quais engrossam e multiplicam seus cadernos diários, a fim de atender a qualquer tipo de "leitor". Cada vez mais, jornais se tornam depósitos de variedades, a exemplo da programação de TV e das revistas. Jornais brasileiros contêm, em suas edições diárias, o triplo do que qualquer jornal importante põe a circular pelo mundo. Le Monde", Le Figaro, Libération, Corriere Della Sera, Il Messaggero, El País, The New York Times, entre infindáveis outros, em nada se assemelham ao modelo brasileiro, porque permanecem na simples condição de "jornais", tentando cumprir a missão que, por ofício, lhes cabe. Em seus países, não houve 31 de março de 1964 e suas conseqüências, 40 anos após.

(*) Ensaísta, doutor em Teoria Literária pela UFRJ, professor titular do curso de Comunicação das Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA) - RJ


5º BLOCO

Veja o que disseram os convidados após o programa:

São Paulo:

Almyr Gajardoni - Jornalista
"Achei que o programa foi muito bom, com grande variedade de depoimentos, com pessoas atuantes politicamente e que acompanharam todo o processo do Golpe, enfim, pessoas abalizadas para falar sobre o assunto."


PERGUNTAS

E-mails recebidos na semana de 30/03 a 06/04:

Paulo Sérgio Matos, Vila Velha / ES - Estudante
O comentário de Alberto Dines no último programa sobre o desconhecimento do brasileiro em relação ao Golpe foi objeto de discussão em nossa sala de aula (Curso de História da Univ. Fed. do ES). O nosso professor estranhou a surpresa do Jornalista, pois segundo ele, todo brasileiro que freqüentou um pouco a escola teve conhecimento do Golpe. O grande problema seria o modo como esse fato foi passado aos alunos (através da Decoreba Positivista) o que faz com que todos se esqueçam, inclusive de outros fatos históricos.

José Fernandes Junior
Prezado Dines! Seu artigo sobre 64 na página do Observatório foi digno de alguém que não deixa de lutar por consciências mais livres em nosso país. Em tempos onde estamos repletos de exércitos de "carlas peres" e "bambãns" por todos os lados, fruto de tanta falta de cultura e informação, termos alguém na permanente luta é um estímulo às novas gerações, jornalistas ou não. Um forte abraço!

Robson, São Paulo
Até que ponto os EUA tiveram participação no golpe? E se existiu a participação, como foi essa participação?

Eduardo Paiva, Rio de Janeiro
É impressionante como todos os seminários, debates e programas sobre o golpe de 64 só apresentem a versão esquerdista do fato. Isso a meu ver prova que hoje em dia temos um pérfido unilateralismo tanto na mídia como nos meios pretensamente intelectuais deste país. Não tenho material para afirmar se os militares salvaram o Brasil da "cubanização" mas o fato é que as ditaduras de esquerda geralmente duram muito mais do que as de direita e tanto o Brasil como Cuba são uma prova viva disso.

Nelson de Andrade
Prezado Alberto Dines, assisti ontem o programa especial sobre os 40 anos do golpe militar de 1964. Programas como o seu (e sua equipe) salvam a TV aberta brasileira. Me emocionei com seu pronunciamento e outros, pois a falta de informação tem sido uma marca constante na nossa sociedade. Tinha 14 anos quando tudo aconteceu e só conheço um pouco pois gosto de história. Quando dei baixa do exército em 1968 me disseram: lá fora vocês só têm ouvidos. Fiquei triste com a pesquisa que você citou pois nossa juventude está muito atraída por big-brothers da vida. Gostaria de saber onde consigo o resultado completo dessa pesquisa.

Heli Roberto - Técnico em Contabilidade
Márcio Moreira, não seria necessário a imprensa retratar as atitudes do governo Goulart para entender a dinâmica do golpe de 64?

Eliane
Vejo freqüentemente este programa porque vocês conseguem tratar qualquer tema com inteligência e veracidade! Foi fantástico o programa. Sou professora de arte de duas escolas públicas na cidade de Pelotas e quando vejo televisão é, com certeza, a TV Cultura até porque não temos a TVE do RJ. Com carinho, um grande abraço.

Fabio Mendes
Jango era político de grande retórica reformista e pouco pragmatismo. Alguma semelhança com o governo Lula? Estamos preparando em 2004 algo semelhante a 1964?

Gloria Amarante, Belo Horizonte / MG - Socióloga
Por favor, gostaria de saber como foi organizado o grupo dos "Faixa Amarelo", que foram a favor do golpe. A organização foi no Brasil todo ou só em Belo Horizonte? Me recordo deste grupo e nunca li ou vi comentários a respeito.

Alexandre Vinícius do Carmo, Paraná - Estudante
Estamos vivendo na última semana um "ótimo" exemplo de como a ditadura militar deixou marcas profundas em nossa sociedade. No final do ano passado nossa escola passou por um processo eleitoral. Das 3 chapas candidatas, a vencedora foi a chapa da Professora Doutora Maria José Justino, eleita com 45% dos votos. Nosso Governador, no entanto, baseado na lei da lista tríplice, lei esta criada na ditadura militar, nomeou semana passada a chapa que obteve 30% dos votos, o que gerou indignação entre os estudantes, funcionários e professores da nossa escola. Desde então estamos organizando passeatas e protestos. No entanto nossa nova "diretora" Ana Maria Feijó não se dá ao trabalho de prestar qualquer tipo de declaração aos estudantes, numa atitude arrogante e autoritária. Sem contar no silêncio da imprensa paranaense diante de nossos protestos diários e nosso abaixo-assinado que já arrecadou algumas centenas de assinaturas. Conseguimos espaço somente na imprensa "alternativa" (universitária) e uma matéria pequena no Jornal do Estado. A Gazeta do Povo, o mais importante jornal do Paraná, se cala. Por que é que em 2004 ainda temos que lutar para que se faça a vontade das urnas? Qual é a solidez da democracia paranaense? Este e-mail é um pedido de ajuda na luta de uma causa legítima.

Fábio Cardoso de Araújo
Fica difícil não comparar o presidente Lula e o presidente Jango. Os dois parecem ter a mesma história na presidência: longo passado político, ministros competentes e uma aparente dificuldade de gestar a coisa pública. Será que a geração atual precisa temer um remake de 1964?

Marcelo Pinheiro, São Paulo - Psicólogo
Dines e Lucia, vocês não acham que a passividade da sociedade, uma das questões que permitiram a ditadura de 64, está presente hoje quando nos calamos frente a fraqueza do governo em enfrentar os militares na questão do Araguaia, obrigando-os a divulgar publicamente os documentos secretos das torturas e barbáries ocorridas lá? Essa atitude não explicita um perigo institucional vivo dado pela própria sociedade? E mais, essa passividade calada frente ao desumano, em última instância, não é essa a mesma fonte que permite as violências atuais que tanto nos queixamos? Um abraço.

Celio Borba, Curitiba / PR
A imprensa nacional lembra com muita superficialidade os tempos negros da era em que a ditadura militar e velada do governo Vargas tentou instalar o regime neo-nazista no país. Será que não há memória e cultura de informação do passado nas soberbas redações de jornais em nossas cidades?

Fernando Nabor Lindoso, Recife / PE
Acho que a imprensa não informou o necessário, um fato tão tenebroso da nossa história.

Sérgio de Souza Tôrres, Rio de Janeiro - Administrador
Alberto Dines, corroborando o testemunho de quantos viveram o momento, Elio Gaspari, em sua trilogia que se tornou referência para o estudo do golpe de 64, demonstra que a luta armada da esquerda visava implantar não a democracia, mas uma ditadura socialista e transformar o Brasil num "cubão". Por que então a imprensa insiste em apresentar seus participantes como paladinos da liberdade? Na verdade, a tortura da direita foi o contraponto ao terrorismo da esquerda, não havendo heróis nem mártires de qualquer dos lados. E hoje, quarenta anos após, Guevara foi substituído pelo Waldomiro.

Elaine
Oi pessoal do Observatório. Tenho 26 anos, já escrevi para vocês elogiando o programa e o Alberto Dines! Gostaria de agradecer novamente por colaborar com a história política do País, mostrando claramente os fatos, depoimentos de pessoas que viveram a época do regime militar, assunto que me interessa muito, principalmente as manifestações de resistência! Continuem fazendo diferença na programação de TV, formando novas mentes, mais conscientes, adoro vocês! Gostaria de ver um bate papo maior com o Fernando Gabeira no programa, pessoa que admiro demais!

Vitor Aleixo
Senhores, é lamentável observarmos - assustados - os resultados dessa pesquisa juntos aos jovens. É preocupante o fato de geração após geração, a história política do Brasil estar sendo apagada da memória dos nossos jovens, ou pior que isso, parece que ela nem chegou a estar lá, na forma de consciência de sua própria história, talvez até a história de alguém da sua própria família.

João Sérgio, Cataguases/MG
Me impressiona como a grande mídia quase nada falou sobre os 40 anos do lamentável golpe de Estado que mergulhou o país em 20 anos de ditadura.

João Evangelista Rodrigues Neto, Manaus / AM - Engenheiro Civil
Gostaria que os nossos convidados discorressem acerca da acomodação dos grupos de esquerda no MDB, com o advento do AI-2.

Priscila Moreira
Boa tarde! Meu nome é Priscila, sou gaúcha, fiel à TVE, à Cultura e, principalmente, ao Observatório da Imprensa. Quero, através deste, parabenizar a todos que realizam este feito essencial à nós, telespectadores críticos e sedentos de informações não-superficiais, fãs que "batem o ponto" na frente da televisão nas terças à noite. Quero também compartilhar com vocês o reflexo que fizeram e fazem ainda: Desde de que senti a necessidade de ampliar minha visão no sentido comunicativo e quase simultaneamente descobri o Observatório, costumo acompanhar o programa religiosamente. Com o auxílio "indireto" do Dines, concluí que quero cursar Jornalismo e mais do que isso: quero trabalhar com comunicação, especificamente na área de edição de programas infantis na qual tenho boas idéias que valerão bem mais do que o sensacionalismo de outras. Sei que este é o tipo de informação que não acrescenta aos demais telespectadores, tampouco à rede televisiva, mas sei que engrandece àqueles que tiveram parte nisso: Prestei Vestibular nas Federais do estado, mas não passei por muito pouco. O sonho do Jornalismo permanece, nem que seja adormecido por alguns anos tendo em vista o mercado de trabalho, mas o sonho vive e quem sabe não se realizará para auxiliar nos projetos da esplêndida equipe da Cultura daqui a alguns anos? Muito obrigada pela atenção e por terem me influenciado deste tão singular modo. Um abraço gaudério a todos e obrigada novamente!


Telefonemas recebidos em 30/03:

Pedro Pablo Pinto Pires, Sorocaba / SP
Qual é o risco de acontecer um outro golpe hoje? A crise atual do governo Lula pode gerar um golpe?

Francisco Costa, Crato / CE
Jango tinha apoio da população e o povo nunca esteve tão organizado como naquele período. O golpe militar resultou desse fato.

Ermínia Laura Silva Duarte, Belo Horizonte / MG
Existe alguma analogia do governo de esquerda de Jango, em 64, como o atual governo de Lula?

Marcos Macena, Conde / BA
Qual foi o papel dos Estados Unidos no golpe de 64?

Joaquim Dias Votorantim / SP
Até hoje, em toda manifestação são tocadas músicas do Geraldo Vandré, por que não se fala das coisas que ele sofreu com o regime militar?

Humberto Ferreira, Rio de Janeiro
Queria desejar muitas felicidades ao programa.

José Aroldo Bezerra Coelho, Fortaleza / CE
Acho que tanto os militares quanto os civis que apoiaram o movimento de 64 adotaram essa postura por causa da onda anti-comunista. Foi o golpe que atrasou todo o processo de libertação democrática do Brasil.

Everton de Souza, São Paulo
A ditadura foi, de alguma forma, positiva para o país?

Walter Ramos, Guarulhos / SP
Por que a imprensa fala tão mal do governo militar e não vê o lado bom deste governo? Por que as pessoas só vêem o lado negro do regime militar?

Sanderley Vieira, Vitória / ES
É possível contextualizar, mesmo que em conjunturas diferentes, a morte de Vladimir Herzog e a recente morte de Tim Lopes?

Pedro Campos, Vila Velha / ES
Estou muito chateado de um jornalista afirmar que os filhos não estão a par do assunto do golpe. Será que a ditadura não continua após esses 21 anos? O que foi feito, até hoje, após o término do golpe?

Roberta Soares, Belo Horizonte / MG
Qual o poder efetivo da imprensa, no geral, para a formação da opinião pública? De que modo os jornais influem na opinião pública brasileira, se grande parte dos brasileiros é analfabeta funcional? De que modo a violência estrutural brasileira (extermínio indígena, escravidão) esteve presente em 64? Não há no Brasil uma tendência ao esquecimento, ocultação, daquilo que é considerado uma mancha no imaginário nacional?

Marinez Deconto, Porto Alegre / RS
Por que vários jornalistas, pessoas esclarecidas, se referem ao golpe de 64 como revolução?

José Uchoa Maia, Campinas / SP
Na minha opinião, a juventude não sabe sobre o regime militar porque ela não busca se informar.

Rogério Santos, São Paulo
Até que ponto a TFP (Tradição Família e Propriedade) teve envolvimento no golpe de 64?

Ivanildo da Silva, Recife / PE
A imprensa atual deveria mostrar mais sobre essa página negra da nossa história para nossos jovens.

José Carlos Duarte, Rio de Janeiro
Está muito bom o programa, a cobertura está ótima!

Márcio de Souza Porto, Aracati / CE
Em relação aos depoimentos que estão sendo dados, por que não se faz uma referência ao dispositivo militar do Jango que era articulado pelo Gal. Assis Brasil? Havia um dispositivo para garantir a permanência do Jango no poder? Por que as pessoas sempre se referem ao golpe como um movimento militar, quando se sabe que ele teve uma base civil, que era a classe média brasileira com medo do comunismo?

Ana Maria Silveira, Vargem Grande Paulista / SP
O meu pai era governador do estado do Rio na época do golpe, e ele sempre creditou à imprensa a queda de Jango.

Trajano do Carmo, Itaguaí / RJ
No governo militar a corrupção era maior ou menor que agora?

Baltazar Fernandes, Jabuticabal / SP
Por que o povo não lutou contra o regime?

Silvia Rezende, Ponte Nova / MG
Gostaria que se falasse das pessoas desaparecidas. É verdade que algumas pessoas foram jogadas na Baía de Guanabara?

Lenon Santiago, São Paulo
Márcio Moreira Alves, em 1964, a resistência partiu de uma classe "privilegiada": estudantes e intelectuais. 40 anos depois, uma revolução começaria com o MST, ou o anarquismo seria a solução, uma vez que as esperanças se frustaram com Tancredo e com o atual presidente?

André Luís, Belo Horizonte / MG
Vocês concordam com o fato de que a ignorância dos jovens, em relação ao golpe de 64, pode permitir novos movimentos autoritários?


Faxes recebidos em 30/03:

Mariza Pacheco Neves, São Paulo
Será que nós, sobreviventes de 64, estamos esquecendo e minimizando o golpe? (Será que foi golpe?) Na época, eu tinha 21 anos e talvez 99% dos que tinham a minha idade, naquela época, passaram "ilesos" àqueles acontecimentos. Meu pai era da diretoria do sindicato dos bancários de São Paulo e, como já foi dito no programa, sabíamos que o golpe viria. Por isso digo: "Será que foi golpe?". Comigo nada aconteceu, porque, talvez, não tivesse que acontecer. Mas tive amigos desaparecidos e meu próprio pai sofreu as conseqüências daquelas arbitrariedades. Muito ainda tem que ser feito para acordar o nosso povo! Não foi só a classe média alta, mas o pobre daquela época, talvez, pobre de raciocínio, a classe operária quem mais apoiou o golpe.



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