RESUMO DO PROGRAMA
31
DE MARÇO - UM DIA NA HISTÓRIA
O
Observatório da Imprensa especial de 30 de março lembrou o Golpe Militar
de 1964, que completou 40 anos. Em editorial, Alberto Dines ressaltou:
"31 de março de 1964 foi um dia crucial em nossa história mas a atual
rememoração ou comemoração dos 40 anos do Golpe que derrubou o
presidente João Goulart não trouxe até o momento nenhuma contribuição
significativa. Aquelas páginas negras ficaram esmaecidas e
simplificadas. Daquela tragédia que estendeu-se ao longo de 21 anos
retiraram-se os antecedentes, o elenco foi reduzido, certas passagens
foram aliviadas".
Participaram do debate os jornalistas: Luiz Gutemberg em Brasília, Almyr
Gajardoni em São Paulo e Márcio Moreira Alves no Rio de Janeiro.
Contribuíram com depoimentos na reportagem: Jarbas Passarinho, Fernando
Gabeira, Fernando Pedreira, Wilson Figueiredo, Villas-Bôas Corrêa, Ruy
Mesquita, Seixas Dória, Miguel Arraes, Leonel Brizola, Ferreira Gullar,
Nelson Pereira dos Santos, Fernando Lira, João Pinheiro Neto, Oliveiros
Ferreira, Jacob Gorender, Almino Afonso e Marco Antônio Coelho.
Márcio
Moreira Alves inicia o debate: "Todo conservador prefere a ordem à
justiça. Entre ter ordem e não ter justiça, todo conservador prefere ter
a ordem, e a justiça que se dane".
Almyr
Gajardoni, dando prosseguimento ao debate, recorda: "Em Brasília foi um
dia até relativamente tranqüilo, exatamente porque todo o esforço
militar do Golpe foi dirigido para o Rio de Janeiro. O centro do poder
que devia ser controlado estava no Rio e Brasília foi mais ou menos
abandonada".
Em
depoimento gravado, Leonel Brizola afirmou: "Eu me surpreendi com o
desencadeamento do Golpe. Os golpistas, que eram rigorosamente minoria
dentro das Forças Armadas mas tinham muita força nos comandos, só
conspiraram durante aquele tempo e prepararam uma encenação que assustou
o Governo".
Em outro
depoimento, Miguel Arraes considerou: "Eu tinha a perfeita consciência e
conhecimento dos acontecimentos, de modo que posso dizer que encarei o
Golpe e os militares com tranqüilidade e segurança".
"No dia
31 à tarde foi deflagrado o Golpe pela corporação do Exército em Minas
Gerais e então nos reunimos na UNE; artistas, intelectuais, escritores,
jornalistas, atores e cineastas para nos manter em vigília diante do que
estava acontecendo, tomar pé da situação e ver o que se poderia fazer no
sentido de se defender do Governo", relembrou Ferreira Gullar.
Jarbas
Passarinho declarou: "Nós ficamos ouvindo a Rádio Nacional, que dava
informações, mas todas elas falsas. Diziam que o Castelo Branco tinha
sido preso, que tudo já estava resolvido, quando no dia 1º de abril nós
já soubemos da possibilidade, inclusive, da deposição completa de João
Goulart".
"O Golpe
mostrou que nem os militares estavam preparados para ele, tomaram na
marra e nem as forças democráticas estavam preparadas para reagir ao
Golpe, para resistirem. Houve praticamente uma entrega do país aos
militares", analisou Fernando Lira.
"O
comando dos jornais é que tomou uma posição política contrária à
hipótese da derrubada do Jango. A palavra de ordem foi dada pelo Correio
da Manhã, que foi o primeiro a falar, fez um editorial de primeira
página e, logo em seguida, vieram todos os outros", lembrou Wilson
Figueiredo.
Luiz
Gutemberg finaliza: "Eu tenho a impressão que no Brasil a nossa
capacidade de se interessar por episódios marginais, por fatos
pitorescos e esquecer os sérios acontecimentos, nos condena a
permanentemente estarmos dispostos a repetir episódios lamentáveis,
equívocos fatais e dolorosos como este de 64".
Manoel
Magalhães (estagiário)
EDITORIAL
Bem
vindos ao "Observatório da Imprensa" um dia na história.
Você
sabe o que significa comemorar. Co-memorar é lembrar junto. Re-memorar
é lembrar novamente. Verbos afins e querem dizer que a memória não é
estática, mas dinâmica. Cada retorno no tempo traz um enriquecimento,
novas visões, perspectiva.
31 de março
de 1964 é um dia crucial em nossa história mas a atual rememoração
ou comemoração dos 40 anos do golpe que derrubou o presidente João
Goulart não trouxe até o momento nenhuma contribuição significativa.
Ao contrário. Quatro décadas depois, aquelas páginas negras ficaram
esmaecidas e simplificadas.
Daquela
tragédia que estendeu-se ao longo de 21 anos retiraram-se os
antecedentes, o elenco foi reduzido, certas passagens foram aliviadas e,
sobretudo, foi abandonada a pergunta que o coro costuma repetir ao longo
de cada tragédia - por que, por que? Qual a mecânica que transformou
nossa tradição de quarteladas incruentas, sem crueldades, numa sucessão
incrível de crueldades? E o homem cordial onde foi parar durante os 21
anos? Sobre isso não se fala.
O cidadão
brasileiro hoje sabe menos sobre aquele longínquo dia na história do
que o seu pai que foi testemunha ocular. Deveria ser o contrário. No
jornal "O Globo" de hoje foi publicada uma pesquisa com 480
jovens de 15 a 21 anos realizada por uma universidade carioca. Os
resultados são aterradores:
72% dos
respondentes não sabiam o que aconteceu em 31 de março.
42%
acertaram quando responderam que João Goulart foi deposto mas quase 35%
disseram que o presidente deposto foi Jânio Quadros.
54%
erraram ao indicar a principal conseqüência do AI-5.
75%
erraram ao indicar o nome de um general importante do período 64-85.
35% apontaram o General Franco, ditador da Espanha, outros apontaram o
General Osório. O General Golbery ficou em terceiro lugar.
Na lista
de personagens torturados até a morte durante a ditadura militar, 52%
apontaram corretamente Vladimir Herzog mas outros 32% escolheram
Tiradentes.
Culpa de
quem? Das escolas, dos professores, dos livros didáticos, das famílias
ou da imprensa que não aproveitou algumas rememorações anteriores
para explicar em profundidade o que aconteceu?
A verdade
é que a imprensa lembra o 31 de março de forma constrangida.
Explicitar a derrubada de Goulart implica em explicitar a participação
desta mesma imprensa na conspiração e na auto-censura que ocorreu
depois de 68. São estes constrangimentos que produzem as mágicas onde
o espanholíssimo General Franco torna-se nosso vilão.
Esta edição
do "Observatório da Imprensa" focaliza um dia na história, o
dia em que tudo começou. Os restantes 7.664 dias da ditadura militar
compõem os outros atos desta tragédia.
ARTIGO
Por Alberto Dines
1964 +
40
Um dia na história
Alberto Dines
Foi o capítulo
mais longo, mais negro e mais estudado da história brasileira.
Estendeu-se por 21 anos, terminou formalmente há duas décadas -
ontem - mas as gerações seguintes - hoje - continuam sem entendê-lo
corretamente.
Pencas de
perguntas continuam sem respostas, as mais importantes sequer
formuladas. Golpe ou contragolpe, movimento militar ou civil-militar, a
resistência pretendia a restauração democrática ou apenas o desgaste
do regime militar?
O melhor
formulador de perguntas é o tempo. O 40º aniversário da derrubada do
presidente João Goulart e a instalação de uma implacável ditadura
militar seria uma oportunidade para levantar questões, dúvidas e
produzir relatos mais didáticos e menos passionais. Infelizmente, os
radicalismos que geraram o fato estenderam-se às avaliações quatro décadas
depois.
A
imprensa que foi cúmplice, e depois vítima, parece constrangida. Não
se sente à vontade para ver-se espelhada nas suas páginas. Prefere
generalizar: esquece 1962 e 1963, confunde 1964 com 1968, engasga-se com
a sua parte na lenda do "milagre brasileiro", passa pelo período
1974-78 como se já estivesse tudo clarificado e preserva alguns vilões
que lhe foram de grande utilidade (Delfim Netto, Paulo Maluf e figurões
que continuam aboletados no poder como Sarney e ACM). Contenta-se com a
titulação melodramática tipo "Os Anos de Chumbo", relembra
o romantismo das canções e vai em frente imaginando que em 2014, 2024
ou, quem sabe, em 2064 os pingos sejam finalmente colocados nos ii.
As
"Horas Estelares" ou "Momentos Supremos" não
existem isolados, desconectados dos antecedentes. Nem acontecem por obra
da Divina Providência. Entre a redemocratização de 1945 e o golpe de
1964, registraram-se diversas intervenções militares (ultimato a Getúlio
em 1954, que o levou ao suicídio; contragolpe de 1955 favorecendo JK;
embargo à posse de Jango, em 1961). Fulminantes, cirúrgicas,
acanhadas, nenhuma em tão grande escala, tão incisiva e profunda como
o levante militar iniciado em Minas para depor João Goulart.
Alguma ação
muito grave provocou tamanha reação. A sucessão de quarteladas
incruentas desaguou na maior exibição de crueldade de nossa história
e até hoje desconhecemos a mecânica desta metamorfose.
Tiros
e intimidação
Até o
momento, o retrato de corpo inteiro com verso e reverso do fatídico 31
de março de 1964 ainda não apareceu na imprensa, embora a série de
matérias da Folha de S.Paulo, formatada em estilo de contagem
regressiva, tente reconstruir a progressão dos acontecimentos. Alguns
textos isolados de jornalistas-testemunhas (Carlos Heitor Cony, na
Folha, Márcio Moreira Alves, no Globo) ou protagonistas-cronistas (José
Sarney, Folha) forneceram elementos oportunos. Em compensação, os
surtos de paranóia publicados no portal AOL (http://noticias.aol.com.br/brasil/fornecedores/aol/2004/03/26/0019.adp)
e em CartaCapital ("A imprensa golpista", nº 284, 31/3/04)
mostram quão distantes estão alguns círculos jornalísticos dos seus
compromissos com a causa do esclarecimento.
Difusos e
incompletos permanecem os fundamentos - o antes, o durante e o depois
do golpe. Os infográficos publicados nos últimos dias com a cronologia
do que aconteceu não informam, os relatos não relacionam antecedentes,
e, assim, o grande trauma dilui-se numa cobertura-efeméridade, meia
sonsa. Salvo pequenos focos de luz, a imprensa dá a impressão de que
desincumbe-se por obrigação de uma pauta inconfortável, sem humildade
para um auto-exame e sem ânimo para levantar questões
"politicamente incorretas".
Supondo-se
que a mídia impressa seja aquela que fornece ao cidadão a densidade
informativa para formar juízos, fácil prever que serão os novos
livros ou reedições de obras esgotadas - e não os jornais e
revistas de agora - os fornecedores de subsídios para a compreensão
serena e a visão trágica do que foi a ditadura militar. Mais uma vez,
flagra-se na sociedade brasileira uma compulsão para fugir à dor. Mais
cômodo xingar, tirar o corpo fora e esquecer que, apesar das diferenças
formais, 1964 e 2004 fazem parte do mesmo processo.
A grande
ausente nesta revisão de 1964 feita pela imprensa é a própria
imprensa. A modéstia, no caso, é incriminadora. Desde 1945, os cortes
abruptos do processo político tiveram a imprensa como pivô. A primeira
queda de Getúlio foi apressada pela entrevista de José Américo ao
jornalista Carlos Lacerda, no Correio da Manhã. Com ela acabou a
censura e acabou o Estado Novo.
A segunda
queda de Getúlio começou a ser armada pelo mesmo Lacerda na sua
Tribuna da Imprensa, aliado aos barões da mídia, ao denunciar o
financiamento da Última Hora pelo Banco do Brasil.
Jânio
Quadros renunciou um dia depois de um longo comício televisivo do mesmo
Lacerda. E quando começou a crescer o movimento pela legalidade e posse
do vice João Goulart, os três ministros militares decidiram-se pelo
controle do processo informativo. O Diário de Notícias (Rio), de 30 de
agosto de 1961, saiu com grandes manchas brancas em sua primeira página.
Foi a primeira censura militar dos tempos modernos.
A segunda
tentativa de controle da imprensa, desta vez por parte da tropa fiel a
Jango, deu-se no dia 31 de março de 1964, quando o então Contel
(Conselho Nacional de Telecomunicações) determinou a todas as
emissoras de rádio que se abstivessem de irradiar noticias
"alarmistas". À noitinha, um pelotão de fuzileiros navais (a
tropa de choque do almirante Aragão em defesa de Jango), em uniforme de
combate, parou na porta da antiga sede do Jornal do Brasil (Avenida Rio
Branco, 110), deu alguns tiros para o ar, invadiu o prédio e foi até a
Redação. Não sabiam o que queriam ou queriam apenas intimidar.
Foram-se em seguida (Os idos de março e a queda em abril, pág. 341).
Os
dias seguintes
O sinal
para que a tropa deixasse os quartéis foi dado pelo Correio da Manhã
com a sucessão de editoriais de primeira página nos dias 30 e 31 de
março de 1964 ("Basta" e "Fora!"). O mesmo jornal
que esbravejara em 1961 contra a tentativa de impedir a posse de
Goulart, agora comandava sua derrubada.
A
imprensa deixava de lado sua função mediadora para assumir-se como
protagonista. Em apenas 15 dias, de arauto do que então se chamou de
"revolução", o Correio da Manhã converteu-se em seu único
opositor (a Última Hora, atacada por uma turba de sicários, foi
obrigada a se calar). O resto dos grandes jornais do Rio e de São Paulo
que participaram da conspiração deram o apoio total ao novo governo.
O
bloqueio econômico imposto ao Correio da Manhã não começou
imediatamente, levou tempo. Dez anos mais tarde (1974), depois de
cooptado por um grupo de militares "desenvolvimentistas" e
empreiteiros "desenvolvimenteiros", o jornalão deixava de
circular.
As punições
impostas ao jornalista Helio Fernandes, diretor da Tribuna da Imprensa,
ocorreram no período da ditadura envergonhada convertida em ditadura
escancarada, muito antes do AI-5 (conforme as expressões de Elio
Gaspari). Tudo era noticiado, nada foi suprimido, mas o garrote foi
sendo apertado aos poucos. Houve focos de resistência tanto da parte de
jornalistas (muitos) como de empresários (raros); não se deve minimizá-los
porque o totalitarismo alimenta-se das generalizações e simplificações.
Por outro
lado, não se pode esquecer que a reação à censura em 1968-69 foi
neutralizada pela ampla adesão da grande imprensa à autocensura,
amparada em grande parte pelo poder de Antonio Delfim Netto sobre as
empresas jornalísticas.
A
imprensa alternativa, esta sim, foi uma trincheira. Com garra e inteligência
soube criar uma consciência de oposição. Foi mais efetiva do que a
luta armada, formou quadros, criou consciências. Em vez de sepulturas,
deixou uma bela herança. Infelizmente também olvidada.
Os empresários
de jornais aprenderam a conspirar em 1964 e tomaram gosto. Em 1973, o
Jornal do Brasil conspirou com o general-presidente Emílio Garrastazu Médici
para uma solução continuista e só não foi punido pela dupla
Geisel-Golbery (que ganhou a parada) porque aderiu de corpo e alma ao
seu esquema. A própria "distensão lenta, gradual e segura" só
existiu como metáfora jornalística - a realidade foi outra.
De uma
forma geral, pode-se dizer que de 1808 até 1937 os jornalistas
engajavam-se em causas, Getúlio Vargas foi o primeiro a engajá-los nos
seus interesses; e, a partir de 1964, a parceria imprensa-governo
tornou-se concreta, parte do processo político.
Com estas
notas não se pretende o balanço do que aconteceu nos 7.665 dias que se
seguiram ao 31 de março de 1964. Interessa apenas lembrar, sugerir
referências, localizar omissões, identificar áreas cinzas e buracos
negros. A História não é tribunal, suas sentenças são sempre provisórias,
mas a continuação do processo jornalístico compõe os autos. Nos próximos
dias, saberemos se este aniversário acrescentou algumas páginas.
[Fechado às 18h53 de 29/3/04]
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET
1964 +
40
O jornalismo 40 anos depois
Ivo Lucchesi (*)
É sabido
que, no Brasil, se cultiva certo fascínio em celebrar "datas
redondas". Diferente, pois, não é quanto aos 40 anos da implantação
do regime militar. De propósito, evitei o rótulo tradicionalizado como
"golpe de 64", por entender que o ocorrido na ocasião esteve
bem além de um ímpeto golpista, sob a orquestração de grupos
militares. A verdade histórica, amparada no necessário distanciamento
crítico, deixa claro que a tomada do poder pelas Forças Armadas tinha
pleno endosso de amplos setores da sociedade civil.
Por
conta, então, da quarta década relativa àquele 31 de março, encartes
especiais inundam jornais, profusão de publicações em livros, além
de inúmeros eventos programados que incluem palestras, seminários,
exibição de vídeos, entre outros. Nada contra o fato de novas gerações
terem farta disponibilidade de meios acerca de algo que estruturalmente
modificou os rumos do país. Mais ainda as agendas rememorativas cumprem
seu dever, considerando que a memória, no Brasil, não figura como um
valor de apelo estimado.
De outro
lado, há também de se saber filtrar a tendência a indevidos exageros,
sem mencionar a dose de oportunismo de quem sempre possa estar pronto
para reforçar heroicidade nem sempre ajustada à realidade dos fatos.
Seja como
for, nunca é demais realimentar a defesa da liberdade, até para não
possibilitar o saudosismo daqueles que, em relação à época, tendem a
nutrir a idéia do quanto "aqueles tempos eram melhores", sob
a alegação de que a violência e outros males de agora não existiam.
Mal sabem esses que tanto a violência quanto outros males do presente
estão presos ao fio contínuo da História. Este, aliás, é o problema
entre quem lê os acontecimentos históricos pela via da informação e
quem os lê como capítulos de uma alongada narrativa na qual a
importante personagem é a História como processo.
A deformação
programada
Observemos
um quadro comparativo a respeito das transformações pelas quais passou
a atividade jornalística, ao longo dos abalos gerados pelo processo
histórico. Se por um lado é fato que a vida nacional recuperou a
estabilidade democrática, também não deixa de ser verdadeiro que
partes afetadas em 64 e abortadas em 68, com a vigência do AI-5, nunca
mais foram recuperadas. Entre estas, situa-se a prática jornalística.
É
perceptível e inegável que o regime militar redefiniu o perfil da
comunicação e do sistema educacional. Aí se deu o irremediável
delito. Foi implantado estrategicamente, passo a passo, o processo de
"deformação programada". Ilustremos o fato com alguns
exemplos.
Somente
no Rio de Janeiro, leitores das chamadas classes A e B dispunham de um
leque de opções que, no mínimo, abrigavam quatro jornais: Correio da
Manhã, Diário de Notícias, Jornal do Brasil, O Globo e ainda podiam
flertar com a Última Hora ou a Tribuna da Imprensa. As classes C e D se
dividiam entre O Dia e Luta Democrática.
No cenário
atual - e com sérias restrições - ao leitor carioca mais exigente
restam O Globo e o Jornal do Brasil, já que a Tribuna da Imprensa tem
circulação limitada. Em diferentes momentos, mas por iguais razões,
as amplas opções foram desaparecendo.
Igual
processo ocorreu com emissoras de TV (Rio, Excelsior, antiga Record,
Continental e Tupi). O casamento entre Organizações Globo e governo
foi decisivo para o extermínio de concorrentes. Como conseqüência, o
público se tornou refém de um modelo, a partir do qual fixou preferências
até hoje inalteradas.
O retorno
à normalidade democrática não tem sido capaz de operar transformações
à altura da exigência cultural, sem a qual o país jamais atingirá a
necessária autonomia.
O que mudou?
O
incremento da TV durante o primeiro período do regime militar foi fator
decisivo para o início do desmantelamento do perfil jornalístico até
então vigente no país.
O fascínio
cada vez mais intenso da população pelos encantos da
"imagem" foi lentamente sendo transportado para a imprensa
escrita. Como sintoma inicial, o padrão de letra foi ampliado ao lado
de largos espaços destinados a fotografia. Igualmente as revistas
intensificaram o que nelas, por força do próprio objeto, já era
natural.
Jornais e
revistas - e, adiante, livros - transformaram-se em parceiros da
"ilusão visual", o que reforçava a subordinação do público
às telas de TV. Em seguida, o golpe derradeiro, com a chegada da
televisão colorida. Não tardou para que os jornais também rompessem
com o preto-e-branco a fim de incorporarem a "estética arco-íris".
O império da cultura visual estava assegurado.
Hoje, o público
parece regozijar-se com o fato de ter no país jornais com belíssima
diagramação, parque industrial avançado e máquinas de última geração,
a encobrir a superficialidade dos conteúdos. Diagramação e fotografia
de país desenvolvido em antagônica qualidade quanto a pautas e
enfoques.
Enquanto
estoques de papel poderiam servir para barateamento de livros
importantes, as empresas de comunicação armazenam toneladas com as
quais engrossam e multiplicam seus cadernos diários, a fim de atender a
qualquer tipo de "leitor". Cada vez mais, jornais se tornam
depósitos de variedades, a exemplo da programação de TV e das
revistas. Jornais brasileiros contêm, em suas edições diárias, o
triplo do que qualquer jornal importante põe a circular pelo mundo. Le
Monde", Le Figaro, Libération, Corriere Della Sera, Il Messaggero,
El País, The New York Times, entre infindáveis outros, em nada se
assemelham ao modelo brasileiro, porque permanecem na simples condição
de "jornais", tentando cumprir a missão que, por ofício,
lhes cabe. Em seus países, não houve 31 de março de 1964 e suas
conseqüências, 40 anos após.
(*) Ensaísta,
doutor em Teoria Literária pela UFRJ, professor titular do curso de
Comunicação das Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA) - RJ
5º BLOCO
Veja o que disseram os
convidados após o programa:
São
Paulo:
Almyr
Gajardoni - Jornalista
"Achei que o programa foi muito bom, com grande variedade de
depoimentos, com pessoas atuantes politicamente e que acompanharam todo
o processo do Golpe, enfim, pessoas abalizadas para falar sobre o
assunto."
PERGUNTAS
E-mails recebidos na
semana de 30/03 a 06/04:
Paulo Sérgio Matos, Vila Velha / ES - Estudante
O comentário de Alberto Dines no último programa sobre o desconhecimento
do brasileiro em relação ao Golpe foi objeto de discussão em nossa sala
de aula (Curso de História da Univ. Fed. do ES). O nosso professor
estranhou a surpresa do Jornalista, pois segundo ele, todo brasileiro que
freqüentou um pouco a escola teve conhecimento do Golpe. O grande
problema seria o modo como esse fato foi passado aos alunos (através da
Decoreba Positivista) o que faz com que todos se esqueçam, inclusive de
outros fatos históricos.
José Fernandes Junior
Prezado Dines! Seu artigo sobre 64 na página do Observatório foi digno
de alguém que não deixa de lutar por consciências mais livres em nosso
país. Em tempos onde estamos repletos de exércitos de "carlas peres"
e "bambãns" por todos os lados, fruto de tanta falta de cultura
e informação, termos alguém na permanente luta é um estímulo às
novas gerações, jornalistas ou não. Um forte abraço!
Robson, São Paulo
Até que ponto os EUA tiveram participação no golpe? E se existiu a
participação, como foi essa participação?
Eduardo Paiva, Rio de Janeiro
É impressionante como todos os seminários, debates e programas sobre o
golpe de 64 só apresentem a versão esquerdista do fato. Isso a meu ver
prova que hoje em dia temos um pérfido unilateralismo tanto na mídia
como nos meios pretensamente intelectuais deste país. Não tenho material
para afirmar se os militares salvaram o Brasil da "cubanização"
mas o fato é que as ditaduras de esquerda geralmente duram muito mais do
que as de direita e tanto o Brasil como Cuba são uma prova viva disso.
Nelson de Andrade
Prezado Alberto Dines, assisti ontem o programa especial sobre os 40 anos
do golpe militar de 1964. Programas como o seu (e sua equipe) salvam a TV
aberta brasileira. Me emocionei com seu pronunciamento e outros, pois a
falta de informação tem sido uma marca constante na nossa sociedade.
Tinha 14 anos quando tudo aconteceu e só conheço um pouco pois gosto de
história. Quando dei baixa do exército em 1968 me disseram: lá fora
vocês só têm ouvidos. Fiquei triste com a pesquisa que você citou pois
nossa juventude está muito atraída por big-brothers da vida. Gostaria de
saber onde consigo o resultado completo dessa pesquisa.
Heli Roberto - Técnico em Contabilidade
Márcio Moreira, não seria necessário a imprensa retratar as atitudes do
governo Goulart para entender a dinâmica do golpe de 64?
Eliane
Vejo freqüentemente este programa porque vocês conseguem tratar qualquer
tema com inteligência e veracidade! Foi fantástico o programa. Sou
professora de arte de duas escolas públicas na cidade de Pelotas e quando
vejo televisão é, com certeza, a TV Cultura até porque não temos a TVE
do RJ. Com carinho, um grande abraço.
Fabio Mendes
Jango era político de grande retórica reformista e pouco pragmatismo.
Alguma semelhança com o governo Lula? Estamos preparando em 2004 algo
semelhante a 1964?
Gloria Amarante, Belo Horizonte / MG - Socióloga
Por favor, gostaria de saber como foi organizado o grupo dos "Faixa
Amarelo", que foram a favor do golpe. A organização foi no Brasil
todo ou só em Belo Horizonte? Me recordo deste grupo e nunca li ou vi
comentários a respeito.
Alexandre Vinícius do Carmo, Paraná - Estudante
Estamos vivendo na última semana um "ótimo" exemplo de como a
ditadura militar deixou marcas profundas em nossa sociedade. No final do
ano passado nossa escola passou por um processo eleitoral. Das 3 chapas
candidatas, a vencedora foi a chapa da Professora Doutora Maria José
Justino, eleita com 45% dos votos. Nosso Governador, no entanto, baseado
na lei da lista tríplice, lei esta criada na ditadura militar, nomeou
semana passada a chapa que obteve 30% dos votos, o que gerou indignação
entre os estudantes, funcionários e professores da nossa escola. Desde
então estamos organizando passeatas e protestos. No entanto nossa nova
"diretora" Ana Maria Feijó não se dá ao trabalho de prestar
qualquer tipo de declaração aos estudantes, numa atitude arrogante e
autoritária. Sem contar no silêncio da imprensa paranaense diante de
nossos protestos diários e nosso abaixo-assinado que já arrecadou
algumas centenas de assinaturas. Conseguimos espaço somente na imprensa
"alternativa" (universitária) e uma matéria pequena no Jornal
do Estado. A Gazeta do Povo, o mais importante jornal do Paraná, se cala.
Por que é que em 2004 ainda temos que lutar para que se faça a vontade
das urnas? Qual é a solidez da democracia paranaense? Este e-mail é um
pedido de ajuda na luta de uma causa legítima.
Fábio Cardoso de Araújo
Fica difícil não comparar o presidente Lula e o presidente Jango. Os
dois parecem ter a mesma história na presidência: longo passado
político, ministros competentes e uma aparente dificuldade de gestar a
coisa pública. Será que a geração atual precisa temer um remake de
1964?
Marcelo Pinheiro, São Paulo - Psicólogo
Dines e Lucia, vocês não acham que a passividade da sociedade, uma das
questões que permitiram a ditadura de 64, está presente hoje quando nos
calamos frente a fraqueza do governo em enfrentar os militares na questão
do Araguaia, obrigando-os a divulgar publicamente os documentos secretos
das torturas e barbáries ocorridas lá? Essa atitude não explicita um
perigo institucional vivo dado pela própria sociedade? E mais, essa
passividade calada frente ao desumano, em última instância, não é essa
a mesma fonte que permite as violências atuais que tanto nos queixamos?
Um abraço.
Celio Borba, Curitiba / PR
A imprensa nacional lembra com muita superficialidade os tempos negros da
era em que a ditadura militar e velada do governo Vargas tentou instalar o
regime neo-nazista no país. Será que não há memória e cultura de
informação do passado nas soberbas redações de jornais em nossas
cidades?
Fernando Nabor Lindoso, Recife / PE
Acho que a imprensa não informou o necessário, um fato tão tenebroso da
nossa história.
Sérgio de Souza Tôrres, Rio de Janeiro - Administrador
Alberto Dines, corroborando o testemunho de quantos viveram o momento,
Elio Gaspari, em sua trilogia que se tornou referência para o estudo do
golpe de 64, demonstra que a luta armada da esquerda visava implantar não
a democracia, mas uma ditadura socialista e transformar o Brasil num
"cubão". Por que então a imprensa insiste em apresentar seus
participantes como paladinos da liberdade? Na verdade, a tortura da
direita foi o contraponto ao terrorismo da esquerda, não havendo heróis
nem mártires de qualquer dos lados. E hoje, quarenta anos após, Guevara
foi substituído pelo Waldomiro.
Elaine
Oi pessoal do Observatório. Tenho 26 anos, já escrevi para vocês
elogiando o programa e o Alberto Dines! Gostaria de agradecer novamente
por colaborar com a história política do País, mostrando claramente os
fatos, depoimentos de pessoas que viveram a época do regime militar,
assunto que me interessa muito, principalmente as manifestações de
resistência! Continuem fazendo diferença na programação de TV,
formando novas mentes, mais conscientes, adoro vocês! Gostaria de ver um
bate papo maior com o Fernando Gabeira no programa, pessoa que admiro
demais!
Vitor Aleixo
Senhores, é lamentável observarmos - assustados - os resultados dessa
pesquisa juntos aos jovens. É preocupante o fato de geração após
geração, a história política do Brasil estar sendo apagada da memória
dos nossos jovens, ou pior que isso, parece que ela nem chegou a estar
lá, na forma de consciência de sua própria história, talvez até a
história de alguém da sua própria família.
João Sérgio, Cataguases/MG
Me impressiona como a grande mídia quase nada falou sobre os 40 anos do
lamentável golpe de Estado que mergulhou o país em 20 anos de ditadura.
João Evangelista Rodrigues Neto, Manaus / AM - Engenheiro Civil
Gostaria que os nossos convidados discorressem acerca da acomodação dos
grupos de esquerda no MDB, com o advento do AI-2.
Priscila Moreira
Boa tarde! Meu nome é Priscila, sou gaúcha, fiel à TVE, à Cultura e,
principalmente, ao Observatório da Imprensa. Quero, através deste,
parabenizar a todos que realizam este feito essencial à nós,
telespectadores críticos e sedentos de informações não-superficiais,
fãs que "batem o ponto" na frente da televisão nas terças à
noite. Quero também compartilhar com vocês o reflexo que fizeram e fazem
ainda: Desde de que senti a necessidade de ampliar minha visão no sentido
comunicativo e quase simultaneamente descobri o Observatório, costumo
acompanhar o programa religiosamente. Com o auxílio "indireto"
do Dines, concluí que quero cursar Jornalismo e mais do que isso: quero
trabalhar com comunicação, especificamente na área de edição de
programas infantis na qual tenho boas idéias que valerão bem mais do que
o sensacionalismo de outras. Sei que este é o tipo de informação que
não acrescenta aos demais telespectadores, tampouco à rede televisiva,
mas sei que engrandece àqueles que tiveram parte nisso: Prestei
Vestibular nas Federais do estado, mas não passei por muito pouco. O
sonho do Jornalismo permanece, nem que seja adormecido por alguns anos
tendo em vista o mercado de trabalho, mas o sonho vive e quem sabe não se
realizará para auxiliar nos projetos da esplêndida equipe da Cultura
daqui a alguns anos? Muito obrigada pela atenção e por terem me
influenciado deste tão singular modo. Um abraço gaudério a todos e
obrigada novamente!
Telefonemas recebidos em 30/03:
Pedro Pablo Pinto Pires, Sorocaba / SP
Qual é o risco de acontecer um outro golpe hoje? A crise atual do governo
Lula pode gerar um golpe?
Francisco Costa, Crato / CE
Jango tinha apoio da população e o povo nunca esteve tão organizado
como naquele período. O golpe militar resultou desse fato.
Ermínia Laura Silva Duarte, Belo Horizonte / MG
Existe alguma analogia do governo de esquerda de Jango, em 64, como o
atual governo de Lula?
Marcos Macena, Conde / BA
Qual foi o papel dos Estados Unidos no golpe de 64?
Joaquim Dias Votorantim / SP
Até hoje, em toda manifestação são tocadas músicas do Geraldo Vandré,
por que não se fala das coisas que ele sofreu com o regime militar?
Humberto Ferreira, Rio de Janeiro
Queria desejar muitas felicidades ao programa.
José Aroldo Bezerra Coelho, Fortaleza / CE
Acho que tanto os militares quanto os civis que apoiaram o movimento de 64
adotaram essa postura por causa da onda anti-comunista. Foi o golpe que
atrasou todo o processo de libertação democrática do Brasil.
Everton de Souza, São Paulo
A ditadura foi, de alguma forma, positiva para o país?
Walter Ramos, Guarulhos / SP
Por que a imprensa fala tão mal do governo militar e não vê o lado bom
deste governo? Por que as pessoas só vêem o lado negro do regime
militar?
Sanderley Vieira, Vitória / ES
É possível contextualizar, mesmo que em conjunturas diferentes, a
morte de Vladimir Herzog e a recente morte de Tim Lopes?
Pedro Campos, Vila Velha / ES
Estou muito chateado de um jornalista afirmar que os filhos não estão a
par do assunto do golpe. Será que a ditadura não continua após esses 21
anos? O que foi feito, até hoje, após o término do golpe?
Roberta Soares, Belo Horizonte / MG
Qual o poder efetivo da imprensa, no geral, para a formação da opinião
pública? De que modo os jornais influem na opinião pública brasileira,
se grande parte dos brasileiros é analfabeta funcional? De que modo a
violência estrutural brasileira (extermínio indígena, escravidão)
esteve presente em 64? Não há no Brasil uma tendência ao esquecimento,
ocultação, daquilo que é considerado uma mancha no imaginário
nacional?
Marinez Deconto, Porto Alegre / RS
Por que vários jornalistas, pessoas esclarecidas, se referem ao golpe de
64 como revolução?
José Uchoa Maia, Campinas / SP
Na minha opinião, a juventude não sabe sobre o regime militar porque ela
não busca se informar.
Rogério Santos, São Paulo
Até que ponto a TFP (Tradição Família e Propriedade) teve envolvimento
no golpe de 64?
Ivanildo da Silva, Recife / PE
A imprensa atual deveria mostrar mais sobre essa página negra da nossa
história para nossos jovens.
José Carlos Duarte, Rio de Janeiro
Está muito bom o programa, a cobertura está ótima!
Márcio de Souza Porto, Aracati / CE
Em relação aos depoimentos que estão sendo dados, por que não se faz
uma referência ao dispositivo militar do Jango que era articulado pelo
Gal. Assis Brasil? Havia um dispositivo para garantir a permanência do
Jango no poder? Por que as pessoas sempre se referem ao golpe como um
movimento militar, quando se sabe que ele teve uma base civil, que era a
classe média brasileira com medo do comunismo?
Ana Maria Silveira, Vargem Grande Paulista / SP
O meu pai era governador do estado do Rio na época do golpe, e ele sempre
creditou à imprensa a queda de Jango.
Trajano do Carmo, Itaguaí / RJ
No governo militar a corrupção era maior ou menor que agora?
Baltazar Fernandes, Jabuticabal / SP
Por que o povo não lutou contra o regime?
Silvia Rezende, Ponte Nova / MG
Gostaria que se falasse das pessoas desaparecidas. É verdade que algumas
pessoas foram jogadas na Baía de Guanabara?
Lenon Santiago, São Paulo
Márcio Moreira Alves, em 1964, a resistência partiu de uma classe
"privilegiada": estudantes e intelectuais. 40 anos depois, uma
revolução começaria com o MST, ou o anarquismo seria a solução, uma
vez que as esperanças se frustaram com Tancredo e com o atual presidente?
André Luís, Belo Horizonte / MG
Vocês concordam com o fato de que a ignorância dos jovens, em relação
ao golpe de 64, pode permitir novos movimentos autoritários?
Faxes recebidos em 30/03:
Mariza Pacheco Neves, São Paulo
Será que nós, sobreviventes de 64, estamos esquecendo e minimizando o
golpe? (Será que foi golpe?) Na época, eu tinha 21 anos e talvez 99% dos
que tinham a minha idade, naquela época, passaram "ilesos" àqueles
acontecimentos. Meu pai era da diretoria do sindicato dos bancários de São
Paulo e, como já foi dito no programa, sabíamos que o golpe viria. Por
isso digo: "Será que foi golpe?". Comigo nada aconteceu,
porque, talvez, não tivesse que acontecer. Mas tive amigos desaparecidos
e meu próprio pai sofreu as conseqüências daquelas arbitrariedades.
Muito ainda tem que ser feito para acordar o nosso povo! Não foi só a
classe média alta, mas o pobre daquela época, talvez, pobre de raciocínio,
a classe operária quem mais apoiou o golpe.