RESUMO DO PROGRAMA
TERROR
E MÍDIA (ATENTADO EM MADRI)
No
Observatório da Imprensa que foi ao ar no dia 23 de março, foi debatida
a cobertura do atentado de 11 de março em Madri. Participaram, ao vivo,
o cientista político Renato Lessa, o embaixador João Almino e os
jornalistas Marcos Augusto Gonçalves (editor de opinião da Folha de S.
Paulo) e Luiz Carlos Ramos (O Estado de S. Paulo). E gravaram
depoimentos os jornalistas Luiz Garcia, do Globo; Lluís Bassets, do El
País; e Anelise Infante, correspondente do Globo na Espanha.
No
editorial de abertura do programa, Alberto Dines ressaltou que os grupos
terroristas buscam o espetáculo e a visibilidade dos seus atos para
atingir seus objetivos, e fazem isso através da mídia: "O 11 de setembro
foi concebido e executado, em todos os detalhes, para ser exibido ao
vivo e em cores para o mundo inteiro. E também o 11 de março foi
concebido e executado para influir nas eleições que se realizariam dias
depois". Na opinião de Alberto Dines, o terrorismo é o nome da guerra
contemporânea, onde a mídia se revela como palco de batalha para
interesses de governos e organizações políticas, ampliando essa guerra
em escalas mundiais.
A
respeito da questão da mídia, Marcos Augusto Gonçalves considerou que
ela faz parte do cálculo e do processo terrorista, e tem consciência
disso, mas não pode abdicar de noticiar esse tipo de acontecimento.
Sendo assim, ela acaba se tornando refém do terrorismo. Porém, o editor
analisa: "por outro lado, é só através da mídia que se pode articular,
discutir e estabelecer um processo de tomada de consciência, como
aconteceu na Espanha".
Tentando
tirar proveito da situação para garantir melhor resultado eleitoral, o
presidente José Maria Aznar assegurou à imprensa que o ETA, grupo
separatista basco, foi o autor do atentado. No entanto, as evidências
apontaram membros da Al Qaeda como os verdadeiros autores. Isso revelou
a mentira do governo espanhol e resultou na vitória eleitoral do
candidato de oposição Zapateiro, mesmo quando as pesquisas apontavam a
vitória certa do candidato da situação.
Na
opinião de Luiz Garcia, essa foi uma tentativa deliberada e até
agressiva de setores do Estado de forçar a mídia a dar determinada
versão dos fatos, o que é um acontecimento extremamente raro numa
democracia ocidental.
O
jornalista Luiz Carlos Ramos, que esteve em Madri cobrindo o atentado
pelo Estado de S. Paulo, explica o rápido processo de esclarecimento do
eleitorado espanhol. Para ele, existem duas interpretações a respeito
dessa virada: "uma é que o povo teria ficado com medo depois do ato
terrorista e, a partir disso, teria se curvado aos terroristas e a
segunda versão é o voto de protesto, é o voto daquele que não aceita
mentira".
O
cientista político Renato Lessa acrescentou que o candidato de Aznar era
favorito nas pesquisas eleitorais quando somente 55% estavam dispostos a
votar. Contudo, 65% do eleitorado compareceu para votar, o que alterou
completamente a base demográfica do eleitorado. "Essas pessoas que não
estavam dispostas a votar, evidentemente, foram mobilizadas em função da
mentira que acabou caracterizando a atitude do governo espanhol perante
o evento", finalizou.
Elisa
Antoun (estagiária)
EDITORIAL
Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.
O
terrorista detesta segredos, precisa de divulgação, sem ela, não
aterroriza. Em silêncio, o terror perde sua eficácia. Nos últimos 100
anos todos os atentados terroristas buscaram o espetáculo do terror,
quanto mais sangue e mortes, melhor.
A única
ação política violenta com enorme repercussão internacional sem
derramar uma gota de sangue talvez tenha sido o seqüestro do transatlântico
português "Santa Maria" em alto mar, perto do Recife, em
1961, executado por anarquistas para chamar a atenção do mundo para a
ditadura salazarista.
A causa
palestina só ficou conhecida nas olimpíadas de Munique em 1972 quando
terroristas palestinos seqüestraram e liquidaram quase toda delegação
olímpica israelense.
O 11 de
setembro em Nova York foi concebido e executado em todos os detalhes
para ser exibido ao vivo e em cores para o mundo inteiro. Também o 11
de março em Madri foi concebido e executado para influir nas eleições
que se realizariam dias depois. Mas ao manipular as primeiras informações
sobre a autoria do massacre, o premiê José Maria Aznar acabou sendo
derrotado fragorosamente. Quis usar o terror, foi derrubado por ele.
Ontem, 11
dias depois, foi a vez do premiê israelense, Ariel Sharon acreditar que
poderia servir-se do terror e mandou assassinar o líder religioso
palestino Achmed Yassin. Imaginava que seria facilmente assimilado. O
repúdio foi total.
Terrorismo
é o nome da guerra contemporânea. E a relação mídia-terror é a sua
ampliação em escala mundial. Somos parte dela, vítimas das bombas e
dos efeitos das bombas. Os terroristas, todos os terroristas são
devotos da morte. Querem corpos despedaçados mas também querem mentes
aterrorizadas.
ARTIGO
Por Alberto Dines
STF
vs. CÂMARA
Faroeste na Praça dos Três Poderes
Alberto
Dines
A República
virou de cabeça para baixo na última quinta-feira (18/3): o Supremo
Tribunal Federal (STF) esqueceu que o direito à informação sobrepõe-se
a todos os direitos e a Câmara dos Deputados esqueceu que não pode
sobrepor-se às decisões do STF.
Como se não
bastassem os bangue-bangues políticos, partidários e governativos, por
algumas horas imperou na Praça dos Três Poderes, em Brasília, uma
fuzilaria institucional.
Tudo começou
quando o ministro Cézar Peluso acolheu uma liminar interposta por um
dos investigados pela CPI da Pirataria e proibiu que o seu depoimento,
marcado para 10 horas daquela quinta, na Câmara, fosse registrado por
qualquer meio de comunicação.
A Mesa
Diretora da Câmara pediu reconsideração e, antes do início da sessão
do STF que deveria examina-la, decidiu fazer a transmissão do
depoimento de Law Kim Chong através dos seus próprios veículos de
comunicação (rádio e TV) - e, ao mesmo tempo, transferiu-o para as
14 horas.
Mais
tarde, o STF voltou atrás e cassou a liminar que impôs o embargo
informativo. O ministro Peluso, que acolheu o pedido de liminar,
justificou-se dizendo que não se podia voltar aos tempos do faroeste
quando publicavam-se os cartazes e fotos com os dizeres
"Procura-se" antes mesmo que o acusado fosse julgado.
O
presidente do STF, ministro Maurício Corrêa, um dos gatilhos mais rápidos
naquele logradouro da Capital Federal, reclamou contra a infração
constitucional cometida pelo presidente da Câmara, deputado João Paulo
Cunha (PT-SP), e este respondeu que a liminar limitava o embargo a um
determinado horário.
A verdade
é que neste fogo cruzado ninguém lembrou-se de lamentar, protestar ou,
pelo menos, discutir a censura legalizada que vigorou por algumas horas
na Capital Federal, em 18 de março.
O clima
de faroeste só pode acontecer na terra de ninguém, no vácuo
institucional. Se Law Kin Chong é ou não o maior contrabandista do país,
se as CPIs são ou não instrumentos válidos de investigação, são
todas questões menores diante dos perigosos precedentes armados por um
ministro da nossa Suprema Corte e o presidente da Câmara dos Deputados.
O
tiroteio não produziu mortos ou feridos, mas a Senhora República saiu
abalada.
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET
ATAQUES
A MADRI
Mídia espanhola e as mentiras de Estado
Flavio de Mattos, de Barcelona (*)
A utilização
eleitoral de 200 mortes e 1.500 feridos foi a gota d'água que fez
transbordar a paciência de uma parte importante da população
espanhola. Desde a manhã dos ataques aos trens em Madrid, quinta-feira
(11-M), até a noite de sábado (13/3), o governo insistia em atribuir
ao grupo separatista ETA a autoria do atentado [veja remissões abaixo].
Somente quando já haviam milhares de pessoas concentradas diante das
sedes do Partido Popular, exigindo resposta para a pergunta "Quién
ha sido?", o ministro do Interior Ángel Acebes admitiu que
"havia uma outra linha de investigação". As razões da
insistência estavam nas eleições do domingo seguinte.
Durante
toda campanha eleitoral espanhola a ETA havia sido vendida como o dragão
que ameaçava o país, alimentado pelo PSOE - e o PP, como São Jorge,
a única salvação. Um atentado de al-Quaeda, além de acabar com a
vida daquelas pessoas, destruía, também, o roteiro. A tentativa de
estelionato eleitoral foi um tiro que saiu pela culatra e o partido da
direita perdeu uma eleição tida como ganha, mesmo que sem maioria
parlamentar absoluta.
Acostumado
a manipular as informações visando sempre seus interesses, o governo
espanhol não se deu conta de que a realidade não se rendia à sua
vontade. E quanto mais insistia em distorcer a verdade, mais ela crescia
e lhe devorava. Esse comportamento deixou patente a falta de princípios
éticos da direita espanhola na condução das questões de Estado.
Quitou as dúvidas que as pessoas ainda pudessem ter em relação às
mentiras anteriores. Representou o fim da inocência no julgamento das ações
do governo. O raciocínio simples que mudou o resultado das eleições
foi no seguinte sentido: se essas pessoas são capazes de mentir sobre
os cadáveres de 200 compatriotas, que dirá sobre as "armas de
destruição massiva" de Iraque ou sobre o derramamento de petróleo
nas praias do Cantábrico.
Desta
vez, o que fez a diferença foi a presença maciça da imprensa
internacional, transmitindo ao vivo todos os detalhes dos atentados,
todas as entrevistas coletivas das autoridades, e buscando informações
para contrastá-las. O governo deparou-se com um tipo de cobertura a que
não estava acostumado. Jornalistas fazendo perguntas incômodas, repórteres
que não se conformavam com respostas escorregadias e que saíam da
pauta determinada pelo esquema de imprensa do governo.
A
cobertura a que se assistia pela BBC, que mobilizou um batalhão de
jornalistas e equipes a Madri, pela TV5 francesa, pela RAI, ou pela
cadeia CNN, nada tinha que ver com o que mostravam as emissoras
espanholas, especialmente a TVE, a emissora estatal.
Como na
aldeia global de McLuhan, a informação não tem mais fronteiras. Muitíssima
gente pôde ver que, enquanto o ministro de Interior espanhol teimava em
fazer as pessoas acreditarem na tese ETA, no resto do mundo não havia dúvida
de que al-Qaeda estava por trás do atentado. Esta informação correu
rapidamente por internet e as pessoas passavam umas às outras os endereços
de páginas web dos meios internacionais de comunicação. A cada hora
que passava ficava mais patente a distância entre a versão do governo
e a realidade dos fatos. Os próprios jornalistas espanhóis se
surpreenderam com esse tipo de cobertura e alguns órgãos locais
passaram a também avanças sobre outras fontes de informação.
Favas contadas
O
atentado ocorreu por volta das 7h30 de quinta-feira. A primeira
manifestação oficial se deu às 12h, com o comparecimento do candidato
do PP, Mariano Raroy, diante da imprensa para ler uma declaração
condenando os ataques. Não citou ETA em nenhum momento, mas deixou
subentendido que havia sido o grupo separatista basco e não respondeu a
perguntas.
Às 13h
é o ministro Ángel Acebes que se apresenta e, este sim, diz que não
lhe cabia nenhuma dúvida de que a ETA estava por trás dos ataques.
Disse que o grupo buscava fazer um massacre na Espanha e havia
conseguido seus objetivos. Desqualificou as negativas do ex-líder do
partido Batasuna, Arnaldo Ortegui, que desde as primeiras horas da manhã
já havia dito que a ETA nada tinha que ver com esse atentado,
sustentando que a autoria deveria ser buscada entre os ativistas islâmicos.
Seu partido, Batasuna, foi posto na ilegalidade ano passado sob a acusação
de ser o braço político da ETA. À época Ortegui era tido como o
"porta-voz" do grupo separatista; mas, agora, para negar o
ataque, sua palavra não tinha valor. Sem citar diretamente a Ortegui,
Acebes chamou de "miseráveis" as pessoas que estavam fazendo
o que chamou de "intoxicação midiática", negando a tese
oficial do governo.
Nos veículos
de informação espanhóis de alcance nacional, até àquele momento não
havia saído nenhuma referência à entrevista de Arnaldo Otegui negando
a autoria a participação da ETA nos ataques. Somente os veículos do
País Basco e de Catalunha, dentro do território espanhol, colocaram
imagem e voz do ex-líder da extinta Batasuna no ar.
Essa é
uma prática muito comum no jornalismo espanhol. Nem sempre o outro lado
é considerado merecedor de ser escutado. Durante todo o processo de
condução à ilegalidade do partido basco, nenhum de seus dirigentes
teve suas opiniões levadas ao grande público. Nem os jornais se davam
ao trabalho de entrevistar-lhes para contrastar as posições.
Um
partido constituído dentro das leis vigentes, com milhares de votos,
com representantes no Parlamento nacional, no Parlamento autônomo do País
Basco e dirigindo diversas prefeituras, foi posto na ilegalidade com os
votos da maioria absoluta detida pelo PP, o partido do governo. As únicas
vozes ouvidas na ocasião foram as da direita, que propôs e defendeu a
ilegalização. No caso do atentado, porém, foi a imprensa
internacional que fez a diferença. Ortegui aparecia em todos os canais
de informações das televisões por assinatura. E para desespero do
governo espanhol, o resto do mundo não só dava voz ao porta-voz de
Batasuna, como, também, lhe dava crédito.
Mentiras
recorrentes
Às 14h,
ao vivo para todo o mundo, o presidente de governo José Maria Aznar
apresentou uma declaração institucional do Executivo com uma condenação
veemente ao terrorismo. Só que, precavidamente, como já havia feito
Raroy, não citava explicitamente a ETA em momento algum. Usava o mesmo
vocabulário que costumava usar contra o grupo separatista basco, que
sempre fazia questão de denominar como "bando terrorista",
para retirar-lhe qualquer legitimidade política. Suas palavras,
contudo, poderiam ser aplicadas ao terrorismo de qualquer origem.
Aznar é
um mestre da velha escola da esperteza. Defende-se atacando,
desqualifica o adversário em vez de contestar suas teses, não
economiza recursos sórdidos para impor suas posições. E, como dizem
os espanhóis, joga a pedra e esconde a mão. Por suas declarações públicas,
nunca poderia ser acusado de mentir. Porém, se de público não
comprometia sua palavra, era longe das câmeras que utilizava toda sua
veemência para tentar salvar a cara de governo, que temia os prejuízos
eleitorais de um atentado de caráter islâmico.
Antes de
se dirigir à nação, Aznar telefonou a todos os diretores dos
principais jornais, emissoras de televisão e rádio do país para lhes
garantir sua "convicção" de que ETA era responsável pelo
atentado.
"Ha
sido ETA, no tengas la menor duda", disse textualmente o premiê a
Antonio Franco, diretor de El Periódico, de Barcelona. Em artigo
publicado na terça-feira (16/3), o jornalista relata que essas foram as
palavras do presidente de governo no primeiro telefonema, realizado por
volta de 13h30. Com a garantia presidencial, decidiu a manchete da edição
extra que iria para as bancas pouco depois: "El 11-M de ETA".
Na página interna destacou: "El Gobierno acusa a ETA y califica de
'miserable' el rumor de que los autores podían ser islamistas".
Franco
explicou mais tarde que não lhe passava pela cabeça que o presidente
do governo de seu país pudesse estar expressando uma posição da qual
não tivesse a convicção formada pelas informações que detinha. O
jornalista relata que Aznar lhe telefonou outra vez no final do dia,
ratificou que havia sido ETA a autora do atentado e, segundo disse, lhe
"pediu cordialmente que não se enganasse".
Franco
manifesta sua estranheza em relação ao fato de que o presidente de
governo do Estado espanhol pudesse estar mentindo. Não estava
recordando que a verdade nunca havia sido um bem valorizado na atual
administração. Para relembrar apenas um dos episódios mais
relevantes, Aznar e seus ministros passaram meses mentido a toda a nação
sobre o vazamento de petróleo do navio Prestige nas costas de Galícia,
norte de Espanha. Era o então vice-presidente Mariano Raroy o
encarregado de dar ao público as informações sobre o caso. Sempre
tentando minimizar a gravidade da crise, suas explicações eram
desmentidas a cada dia pelas grandes quantidades de óleo cru que poluíam
as praias galegas. Ainda assim o governo insistia que havia apenas três
ou quarto pequenos furos no casco do navio afundado, que logo seriam
sanadas. E desastre ecológico foi um dos maiores já registrado no
mundo, ainda que não reconhecido em sua dimensão pelo governo.
E em relação
às tristemente famosas "armas de destruição massivas" de
Iraque, nem compensa estender-se. Um ano depois do ataque já viraram
paradigma de mentira de Estado. Mas isso podia parecer irrelevante
quando havia duzentos cadáveres sobre os trilhos da estação de
Atocha, Santa Eugenia e El Pozo, em Madri.
"Fontes
oficiais"
O
processo de tentativa de manipulação não visava somente a opinião pública
interna da Espanha, ainda que a prioridade fosse convencer os espanhóis
a manter a intenção de votar no PP três dias depois.
Diante da
cobertura "discrepante" que os órgãos internacionais de
comunicação estavam realizando, a Secretaria de Imprensa do palácio
da Moncloa, sede do governo, telefonou, também na mesma tarde da tragédia,
para todos os jornalistas estrangeiros credenciados no palácio. A
recomendação era a mesma, insistir na versão da responsabilidade da
ETA. Como argumento central, o governo afirmava que o grupo já havia
tentado cometer atentados desse tipo tempos atrás, e que por isso,
neste caso, só poderia ser ele o autor dos ataques.
Os
telefonemas tiveram efeito devastadoramente contrário às intenções
do governo. Serviram para fomentar no mundo a imagem de dirigentes de
republiquetas. Oriundos de democracias fortes e consolidadas, com uma
tradição histórica de imprensa livre, todos os jornalistas ficaram
chocados com a tentativa de condicionamento da cobertura. O Círculo de
Corresponsales Estrangeros de España denunciou em uma nota a atitude do
governo.
Também a
ministra de Assuntos Estrangeiros Ana Palácios atuou para difundir
internacionalmente a versão da participação da ETA no atentado.
Telefonou aos chanceleres de diversos países europeus pedindo-lhes que
respaldassem a tese do governo espanhol. Na TV5 francesa, o chanceler
daquele país confirmava, constrangido, o recebimento do pedido, numa
entrevista na qual evitava comentar mais o assunto "para não avançar
em questões eleitorais de Espanha".
Ana Palácios
também mandou, na mesma quinta-feira (17h25), um telegrama a todos os
embaixadores espanhóis recomendando-lhes que trabalhassem pela versão
oficial junto à imprensa e às autoridades dos países em que se
encontravam. Afirmava que "forças políticas" estavam
empenhadas em confundir a opinião pública sobre a autoria da matança.
Anexo ao telegrama, como prova da veracidade da afirmação, uma notícia
da agência oficial EFE, com o texto da coletiva do ministro Acebes, na
qual ele afirmava não caber nenhuma dúvida que havia sido ETA. Ou
seja, o governo cria a versão oficial, a agência do governo publica e
o próprio governo faz uso da notícia como prova de veracidade do
"fato".
O Comitê
de Empregados da Agência EFE divulgou um comunicado na terça-feira
(16/3), denunciando que nos três dias que se seguiram do atentado às
eleições o noticiário da agência foi submetido uma censura rigorosa.
Os textos foram manipulados com o intuito de atender os interesses
eleitorais do Partido Popular. Diz a nota que EFE sabia, desde a mesma
manhã dos ataques, que se havia um celular configurado em árabe numa
bolsa-mochila que não explodiu; que havia sido encontrada uma camioneta
com detonadores e uma fita cassete em árabe na estação de onde os
trens partiram; e que entre os mortos estaria o cadáver de um dos
terroristas.
Os
jornalistas da agência informaram que foram proibidos de divulgar
depoimentos e comentários de integrantes de qualquer dos partidos de
oposição. Outra proibição, emitida pelo diretor de EFE Miguel Platón,
foi a de divulgar qualquer notícia que não fosse proveniente das
fontes oficiais. E para defender a agência das acusações, a diretora
de Comunicação de EFE, Ana Osma, afirmou que não houve manipulação
porque "todas as informações difundidas pela agência provinham
sempre de fontes oficiais".
Última
pergunta
A
estrutura de comunicação do Estado é grande e importante. A maior
parte dos jornais, grandes ou pequenos, se socorre do noticiário da Agência
EFE para complementar o que não pode ser coberto por seus repórteres.
O mesmo passa com as emissoras de televisão e de rádio.
Os
dirigentes dos veículos que integram o sistema de comunicação pública
são nomeados pelo chefe do Executivo. Neste regime parlamentarista monárquico,
o chefe do Executivo vem a ser o parlamentar que encabeça a lista do
partido mais votado - em geral, o presidente do partido. Os dirigentes
dos órgãos do Executivo são nomeados entre os quadros do partido do
governo. Nesse cenário, acaba sendo quase "natural" que os
interesses do partido majoritário se confundam com os interesses do
governo, e com o que deveria ser o interesse público. O governo passa a
ser uma extensão do partido. Às oposições sobra muito pouca margem
para exercer seu papel de fiscalização, especialmente quando o partido
no poder tem a maioria absoluta de votos no Congresso e pode votar
qualquer coisa o conhecido sistema de "rolo compressor".
Já a
responsabilidade dos meios privados de comunicação da Espanha nas
manobras que visavam confundir os eleitores não é pequena. Existe, porém,
um caldo de cultura que facilita, e muito, a atuação manipuladora de
quem esteja no poder neste país. Para nós, brasileiros, que temos uma
história de jornalismo de resistência, é difícil entender como
funcionam as redações aqui - e por quê. Não notamos no material
jornalístico a mesma liberdade de especulação sobre as informações
como no Brasil - onde, muitas vezes se chega às raias da
irresponsabilidade.
As notícias
nos jornais espanhóis quase sempre são frias e limitam-se a relatar
fatos ocorridos, com frases do tipo: "disse ontem que" e abre
aspas. São produzidas poucas matérias antecipando fatos e prevendo
acontecimentos. As autoridades quase sempre fazem a pauta e não
costumam ser questionadas em suas atitudes. Nas entrevistas, as
perguntas são sempre muito cuidadosas, para não ferir suscetibilidades.
Nas
coletivas sobre os atentados transmitidas pelas televisões não se
ouviu nenhum repórter perguntar abertamente sobre al-Qaeda aos
ministros do PP ou a Aznar. Usavam a mesma linguagem cheia de eufemismos
que utilizava o governo. Perguntavam pela "outra linha de investigação"
quando queriam perguntar pelo terrorismo islâmico.
Na única
coletiva em que Aznar se dignou a responder algumas perguntas, um repórter
apresentou a seguinte questão: "Talvez este não seja o momento
adequado para a minha pergunta mas, ao se confirmar a segunda linha de
investigação, estaria o sr. disposto a admitir haver-se equivocado em
alguma decisão de política exterior?" Uma pergunta absolutamente
esotérica para a massa de telespectadores, que queria saber se Aznar se
arrependia de haver defendido a invasão do Iraque depois do atentado de
al-Qaeda. Resposta de Aznar: "O sr. tem razão, este não é o
momento". E encerrou a coletiva.
Caso
resolvido
Praticamente
não existem jornais independentes em Espanha. Os maiores estão ligados
aos partidos políticos. El Mundo é ligado ao PP e El País, ao PSOE. São
bons jornais nas coberturas gerais e absolutamente tendenciosos na
cobertura política.
No caso
do atentado de 11-M, o papel mais importante de reação interna à
manipulação coube à emissora de rádio Cadena SER, do grupo Prisa,
que edita El País. Ela e o canal de televisão a cabo do mesmo grupo, a
CCN-Plus, eram as vozes destoantes do amém geral. Apesar de os índices
de audiência massivos pertencerem as emissoras estatais TVE-1 e RNE-1,
parte do público tinha acesso a informações em que as versões
originais eram recebidas com reservas. A debilidade dessas redes residia
no fato de serem ligadas ao partido da oposição. Sua credibilidade
estava sempre sendo posta em dúvida pelos representantes do governo,
que ironicamente às acusavam de manipulação e distorção das informações.
E a população ficava sem saber quem tinha razão.
A falta
de pudor na tentativa de controlar a informação que o Partido Popular
demonstrou deve ter servido para decretar o fim da inocência em
Espanha. Até aqui se tinha como "normal" que o partido no
poder condicionasse a linha informativa dos veículos públicos, que se
tornam assim órgãos oficiais do governo contra o interesse público.
Até aqui tinha-se como natural que os veículos privados fossem
alinhados com determinados partidos políticos, como órgãos auxiliares
de propaganda. Daqui para frente, com a experiência vivida no método
de contrastar informação e versões, que se viu possível, espera-se
que o povo espanhol passe a exigir de seus meios de comunicação mais
responsabilidade com os fatos e mais respeito com cidadão. E passe a
exigir seu direito de ter acesso a uma informação veraz, que lhe
permita fazer seu próprio julgamento e adotar suas decisões sem
condicionamentos abjetos. Mesmo porque é uma ignomínia que tenhamos de
discutir manipulação eleitoral da informação quando deveríamos
estar lamentando a morte de 202 pessoas, estudantes e trabalhadores a
caminho do trabalho.
Essas
mudanças, na Espanha, não serão tão imediatas como o desejável. Na
quinta-feira (18/3), o governo abriu o segredo de dois relatórios
confidenciais de seu serviço secreto para tentar demonstrar que não
manipulou a divulgação das informações sobre o atentado.
O
ministro porta-voz Eduardo Zaplana afirmou que foram passadas à nação
as avaliações recebidas dos órgãos de inteligência. Estes garantiam
que a ETA havia cometido os atentados. Sua intenção era limpar a
imagem de mentiroso do governo espanhol, que se havia consolidado em
todo o mundo nesses últimos dias. O governo preferiu difundir a imagem
de incompetente, com um serviço secreto que não sabe distinguir bascos
de islamitas.
Para o
jornal El Mundo, o caso está resolvido. Sua manchete de sexta-feira
(19/3) foi: "El gobierno prueba que no mintió desclasificando
documentos del CEI".
5º BLOCO
Veja o que disseram os
convidados após o programa:
Rio de
Janeiro:
Renato
Lessa - Cientista Político
"Acho que o programa foi muito útil porque permitiu que a gente
tenha uma visão crítica do que saiu na imprensa sobre o atentado da
Espanha e sobre o terrorismo. É bom porque desafia a nossa visão
tradicional sobre as coisas. É importante também que a prática jornalística
seja acompanhada de reflexão."
São
Paulo:
Luiz
Carlos Ramos - Jornalista / O Estado de S. Paulo
"Lamentavelmente o terrorismo usa o marketing e para que o
terrorista não se manifeste tanto, é importante que o chefe de Estado
tenha equilíbrio e pense um pouco pela paz."
Marcos
Augusto Gonçalves - Editor de Opinião / Folha de S. Paulo
"A gente talvez tenha falado muito de terrorismo e pouco de mídia.
A mídia tem um papel muito importante a desempenhar nesse processo de
esclarecimento, de elaboração em torno do que é o terrorismo e como
enfrentá-lo."
PERGUNTAS
E-mails recebidos na
semana de 23/03 a 30/03:
Welington Nunes Chalegre
Gostaria de ouvir suas idéias a respeito de terrorismo, principalmente
sobre o que é terrorismo e quem o pratica, pois a única coisa que vejo
é a manipulação de informações. E pior ainda, as notícias sobre
terrorismo normalmente vêm carregadas de "preconceito
ocidental". Ao invés de notícias de fato, vemos opiniões. Claro
que qualquer perda de vida é algo injustificável mas, a meus olhos, uma
vida de um cidadão americano ou israelense vale mais que uma vida
palestina, iraquiana ou afegã. Agradeço a vocês por ter a oportunidade
de ter este programa na minha casa semanalmente. Um grande abraço a
todos.
Samuel
Prezados senhores, é comum ouvirmos nos meios de comunicação frases das
seguintes maneiras: "Terroristas palestinos matam judeus."
"Soldados israelenses matam palestinos." A diferença de impacto
causada pelas palavras terroristas e soldados é muito grande. Sendo o
objetivo final do terror causar impacto através de mortes, pergunto: A
mídia está sendo imparcial quanto à veiculação de atos terroristas,
causados por um estado ou grupos?
Sérgio Torres, Rio de Janeiro
Discordo da abertura do programa. A ação israelense foi um ato de
guerra, específico contra um inimigo declarado, um terrorista. O atentado
de Madrid, assim como o do WTC, foi um ato covarde, contra populações
civis. Os espanhóis sabiam e discordavam da posição do governo de apoio
à invasão do Iraque. Mas ainda assim estavam prontos a votar com seu
candidato. Mudaram de opinião à última hora devido ao medo inspirado
pelo atentado. Acabaram assim reforçando os métodos terroristas, o que
será pior para o país.
Para avaliar o golpe de 64 contra a esquerda basta imaginar o atual
governo Lula sem justiça livre, Ministério Público independente e
imprensa livre, com partido único e Congresso subserviente. Como Cuba ao
longo de todos esses anos. Os protagonistas de hoje são rigorosamente os
de ontem: Teríamos tido totalitarismo político com incompetência
administrativa. Guevara com Waldomiros num mesmo saco. Assim, o movimento
de 64 terminou sendo um mal. Mas um mal necessário. A alternativa teria
sido muito pior. Na ilha foram 10.000 mortos. Por enquanto. E olha que a
União Soviética com a sua utopia socialista já foi para o brejo há
muito tempo.
Orlando Marques, São Paulo
Olá, parabéns. Dois vizinhos estão brigando, um fraco e outro forte,
você vai ajudar a bater no fraco, ele terá a chance de se vingar com a
arma que for possível. Bush acaba de dizer que Israel tem o direito de se
defender. Então parabéns pelas bombas na Espanha. Claro há perdas
humanas, sim mas são apenas 2% das perdas humanas no Iraque. A palavra
terrorismo só é atribuída à violência de pessoas pobres sobre pessoas
ricas? O inverso é auto-defesa. EUA provoca guerras para vender armas?
Então que agüentem as conseqüências. Parabéns pelo jornalismo de
qualidade e imparcialidade.
Daniel Vasconcelos, São Francisco / Califórnia - EUA
Pergunta geopolítica para o Embaixador João Almino, na sua opinião, os
ataques terroristas dos últimos anos tendem a confirmar a teoria de
Samuel Huntington sobre o "Choque das Civilizações" que afirma
que as disputas mundiais são essencialmente culturais?
Celio Borba, Curitiba / PR
A mídia mundial parece que teme o poder imperial americano, as verdades
são veladas, povos são dizimados pelo exército terrorista do medíocre
Bush para tomarem as riquezas e o poder das outras nações!
Ana Paula Ribeiro Lima Ferreira, Rio de Janeiro
Prezados, atualmente estou sem TV na minha casa, mas quando eu tinha, não
perdia um programa de vocês. O Observatório é indispensável para quem
faz comunicação, é uma ferramenta de inestimável valor e deveria ter
sua exibição como obrigatória nas faculdades, pelo menos essa é a
minha opinião, como estudante que sou. Só queria dizer, ou melhor,
escrever, que adorei a cara nova do site e que lamento imensamente não
ter mais TV para poder vê-los. Sempre que posso, ao receber as
newsletters que vocês mandam, dou uma olhadinha no site e participo das
pesquisas. Um abraço para toda a equipe do Observatório. Vocês são
10!!!
Homero
Estimado Dines, sem querer lhe pautar (mas já lhe pautando), penso que
você não pode deixar de levar à discussão em seu programa o conteúdo
relativo à imprensa mencionado pelo entrevistado na reportagem de capa da
revista Carta Capital n. 283 (desta semana).
Telefonemas recebidos em 23/03:
Danilo Ferreira, Recife / PE
O baixo nível cultural destes países que se envolvem em guerras
religiosas se reflete diretamente no terrorismo?
Alcir de Souza, Rio de Janeiro
Por que nenhum órgão da grande mídia tocou no assunto do terrorismo político
dos EUA em relação ao Brasil?
Luciano Demazzi, Loanda / PR
Freqüentemente dizem que vivemos em uma época onde a ciência e a
tecnologia desenvolveram-se muito mais do que em toda a existência
humana. Porém não se pode afirmar que essas importantes e inegáveis
conquistas do homem lhe tenham proporcionado igual evolução no terreno
da ética, da moral e muito menos da conscientização do ser humano. O
resultado está aí diante dos olhos de todos.
André Luiz Pereira, Pindamonhangaba / SP
Por que quando há um atentado como o da Espanha, a imprensa não levanta
a possibilidade da autoria do atentado ser de alguém interessado em
incriminar os suspeitos mais óbvios?
Fábio Pina, Brasília / DF
O maior terrorista de todos foi Bush, porque quem saiu lucrando com os
atentados foi ele, que estava em baixa e agora está ganhando
popularidade.
Luci Cardoso, Salvador / BA
Gostaria de saber quais são os reais motivos dessa guerra.
Josenilson Frutuoso, Fortaleza / CE
O capitalismo selvagem, liderado pelos Estados Unidos, não é um tipo de
terrorismo?
Benedito Simões, São Luís / MA
No discurso de Chirac, ele falou que era contra a guerra do Iraque porque
não participaria da reconstrução do país, e não por motivos humanitários.
João Humberto, Canoas / RS
A resistência dos palestinos em aceitar o sistema econômico mundial, que
é totalmente desigual, não seria um motivo a mais para a sua revolta?
Henri Zorvato, Porto Alegre / RS
Bush não deveria estar também sendo julgado como criminoso de guerra?
Luís Alberto, Curitiba / PR
Toda essa onda de atentados terroristas encontra sua origem na Palestina.
Do ponto de vista geopolítico, para a Palestina, esse tipo de ação não
surtiu nenhum efeito positivo para a questão palestina.
Hélio, Belo Horizonte / MG
O terrorismo é tudo aquilo que degrada a humanidade, inclusive atos de
governantes. E esse tipo de "terrorismo" não recebe nenhum tipo
de atenção da imprensa.
Moisés Moreira Rodrigues, Alegrete / RS
Será que não são terroristas também os governos de países da América
Latina que para pagar dívidas do FMI acabam por fragilizar e prejudicar
ainda mais a sua população?
Paulo de Castro, São Paulo
Você considera que existe alguma diferença ética entre o terrorismo de
Estado (feito, por exemplo, em Israel) e o terrorismo clandestino de facções
como o ETA e a Al-Qaeda?
Marco Antônio, São Paulo
Há possibilidade de que nas próximas eleições americanas exista um
ataque terrorista para eleger Bush? E se isso acontecer quais seriam as
conseqüências disto?
Lennon Santiago, São Paulo
Renato Lessa, os atentados não são uma forma de chamar atenção, por
exemplo, para que o povo, principalmente o palestino, sofra? Será que se
fosse resolvida a questão entre Israel e Palestina o terrorismo não
acabaria?
Carlos Somavila, Pinhais / PR
Os EUA não deveriam sair do Iraque para que não existam mais esses atos
como o da Espanha?
Maria das Dores, Santa Luzia / MG
Gostaria que comentassem o erro diplomático da ONU ao afirmar, de
cara, que foi um atentado da autoria do ETA e no final acabou descobrindo
que não foi.
Nassar Jadão, Teresina / PI
Embaixador João Almino, neste contexto do terrorismo existe um vilão ou
um mocinho se os dois lados têm seus acertos e erros?
Luiz Tadeu, São Bernardo / SP
Renato Lessa, a mídia desde o "11 de Setembro" não está sendo
muito conivente com o terrorismo?
Sandro Ferreira, Curitiba / PR
O que os terroristas querem não é mesmo esse caos que existe sempre
depois de seus atos? Eles não praticam esses atos esperando já estas
respostas?
Sérgio Rodrigues, São Paulo
Por que estão tentando desculpar o terrorismo de estado de Israel e
qualificar o resto do terrorismo em geral?
Sidnei Flausino, Felixlândia / MG
Com o ataque na Espanha, o próximo seria em Israel?
Carlos Alberto Carvalho, Feira de Santana / BA
A interferência dos EUA na política interna em países do terceiro mundo
não é uma forma de terrorismo?
Dailton Colman, Cascavel / PR
Acho interessante como esse episódio da Espanha fez mais pessoas se
interessarem em ir para as urnas votar. Isso, num regime em que o voto não
é obrigatório. Acho que isso é um bom exemplo para a democracia
brasileira.
Faxes recebidos em 23/03:
Rogério Silva, Rio de Janeiro
Se as bombas foram colocadas em Madri por causa da Guerra no Iraque, não
seria mais lógico que os atentados acontecessem em Londres ou nos Estados
Unidos?
Jacob Herszenhut, Rio de Janeiro
Sobre a morte de Yassin:
"Condenado à prisão perpétua pela prática de crimes de genocídio,
e depois solto, Ahmed Yassin desperdiçou a chance que lhe ofereceu Israel
de tornar-se um homem digno e até participar do processo de paz.
Preferiu, no entanto, continuar trilhando o caminho do crime: o ideal
seria a destruição de todos os israelenses, não importando fossem eles
de direita, de esquerda, do movimento Paz Agora, árabes israelenses, ou
mesmo turistas ou árabes de passagem, até porque as bombas carregadas
pelos "mártires" - que alcançarão o paraíso, e usufruirão
das 40.000 virgens - não discriminam as suas vítimas; matam
igualmente a todos.
Sempre que uma tentativa de acordo estava por se firmar, Yassin, o cérebro
do Hamas, explodia com esta possibilidade, determinando um atentado em
Israel, da forma mais abjeta possível, aquela que pudesse produzir o
maior horror, de modo a forçar uma retaliação do governo. Agora mesmo,
bastou que Ariel Sharon anunciasse a retirada da Faixa de Gaza, para que o
Hamas, que assumiu orgulhosamente o atentado, detonasse com este gesto de
paz, matando 10 israelenses e ferindo dezenas. Sua morte demonstra que,
apesar de tudo, a justiça prevalecerá e o crime não compensa."
Júlio Tomazzoli, Tramandaí / RS
Se ocorresse um atentado terrorista no Brasil quais seriam as conseqüências?
Até que ponto o governo brasileiro seria capaz de lidar com esse tipo de
acontecimento?