PROGRAMA DO DIA 09 de março de 2004

DEFESA DO CONSUMIDOR

Neste programa o Observatório discutiu o papel da imprensa, cada vez mais importante, na defesa do direito do consumidor. Há hoje várias colunas em jornais e tevês, mas a mídia deveria abrir mais espaço para este nicho de mercado? As colunas já registram um aumento do número de casos de abusos ao direito do consumidor e, conseqüentemente, das ações contra as empresas. Vamos saber porque o problema está se agravando. Vamos também analisar se a imprensa está investigando e cobrindo corretamente as denúncias de cartelização e irregularidades em serviços terceirizados.

Leia o resumo do programa

  Veja o Compacto

MÍDIA & WALDOGATE
O que interessa é iluminar a área cinzenta

Alberto Dines

Nosso Observatório da Imprensa na TV não é picadeiro nem tribunal, muito menos um paredón. Como tem sido explicado, a idéia central do projeto é estimular o cidadão-telespectador a pensar a mídia. Oferecer-lhe subsídios para "não ler jornais do mesmo jeito".

Leia na íntegra

Você conta com a mídia para defender os seus direitos de consumidor?

Resultado:

Sim: 53%

Não: 47%

Aqui você pode participar de fóruns sobre assuntos ligados à imprensa, deixar seu recado no nosso mural e ler as perguntas dos telespectadores.

Perguntas - Aqui são colocadas as perguntas dos telespectadores que chegam por telefone, fax ou e-mail durante o programa e ao longo da semana.

5 Bloco - Leia a opinião dos participantes do programa, sobre o debate.

Editorial:

Bem vindos ao "Observatório da Imprensa".

O resultado da urna eletrônica desta semana é muito favorável a você. A pergunta era: "a imprensa deve preservar a fonte que denunciou Waldomiro Diniz?" Quando começou a última edição tínhamos 53% dos quase 900 votantes dizendo que, neste caso, a imprensa não deveria preservar a fonte. Apesar das manifestações emitidas durante o programa fechamos a urna com praticamente o mesmo percentual, apesar do aumento dos votantes. Isso significa que você sabe o que quer. E nós o estamos ajudando.


Leia na íntegra

NOVOS PROTAGONISTAS
A internet está matando a imprensa?

Carlos Castilho (*)

Geralmente, quem faz esta pergunta ou é um jornalista assustado com a avalancha de mudanças deflagradas pela cibernética no setor da informação ou algum dos novos gurus da tecnologia, messianicamente convencido de que no futuro tudo vai ser diferente.

Leia na íntegra


RESUMO DO PROGRAMA

DEFESA DO CONSUMIDOR

O Observatório da Imprensa de 09 de março analisou o espaço que a mídia dedica à defesa do consumidor. Em editorial, Alberto Dines ressaltou: "Nesta sociedade de consumo somos cada vez menos cidadãos e cada vez mais consumidores. Raros são hoje aqueles que não estão insatisfeitos com, pelo menos, um fornecedor, um produto, uma loja, um prestador de serviços ou um banco. As grandes empresas criaram o SAC, Serviço de Atendimento ao Consumidor, mas muito destes serviços hoje são terceirizados, o funcionário que atende o reclamante não tem vínculo algum com a empresa reclamada, sua intermediação é burocrática, quase desinteressada. Nestes últimos anos, a mídia vem fazendo esta intermediação".

Participaram do debate: o diretor do Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor do Ministério da Justiça, Ricardo Morishita, em Brasília; o diretor executivo do Procon, Gustavo Marrone, em São Paulo; e a Procuradora de Justiça, Lea Freire e a editora de Defesa do Consumidor do jornal O Globo, Nadja Sampaio, ambas no Rio de Janeiro.

Logo no início do debate, Lea Freire comentou: "mesmo como Procuradora de Justiça, muitas vezes me perguntam o que fazer, e eu digo que vai andar mais rápido se escreverem para o jornal porque eles obedecem muito mais depressa, é uma coisa muito mais rápida, todo mundo sabe que a Justiça não é nada célere. Eu confesso que dou esse conselho".

Gustavo Marrone, questionado por Alberto Dines sobre qual é a função do Procon exatamente e como ele pode se tornar mais forte e ativo, afirmou: "A função é a de ser um grande diagnóstico da sociedade. Todo e qualquer problema que acontece nas relações de consumo acaba estourando no atendimento do Procon, então ele recebe este tipo de informação e tenta processar da melhor maneira possível, tentando resolver conflitos amigavelmente, na mediação, por ser um órgão executivo que não tem poder de decisão".

Nadja Sampaio, respondendo a Alberto Dines sobre a possibilidade de ampliar esse trabalho que a mídia faz na defesa do consumidor, concluiu: "Há sempre o que fazer, eu agora estou preparando um livro. No início, quando eu peguei a defesa do consumidor no Globo, em 1990, eram 40 cartas por semana, hoje são 50, 60 por dia. Nós estamos fazendo um trabalho de colocar isso tudo em um banco de dados para podermos ter uma radiografia de cada setor".

Manoel Magalhães (estagiário)


EDITORIAL

Bem vindos ao "Observatório da Imprensa".

O resultado da urna eletrônica desta semana é muito favorável a você. A pergunta era: "a imprensa deve preservar a fonte que denunciou Waldomiro Diniz?" Quando começou a última edição tínhamos 53% dos quase 900 votantes dizendo que, neste caso, a imprensa não deveria preservar a fonte. Apesar das manifestações emitidas durante o programa fechamos a urna com praticamente o mesmo percentual, apesar do aumento dos votantes. Isso significa que você sabe o que quer. E nós o estamos ajudando.



Este Observatório presta uma homenagem ao jornalista Bernardo Ajzenberg que nesta semana termina o seu mandato e entrega o cargo de ombudsman da Folha de S. Paulo. Os ouvidores e ex-ouvidores da Folha têm sido extremamente prestativos mas Ajzenberg ao longo dos últimos três anos superou-os aceitando participar de oito edições deste Observatório. Desta forma, além do trabalho a serviço dos leitores da Folha, distribuiu e socializou a sua ponderação e senso crítico.



O cidadão defende-se através do voto mas e o consumidor, como é que se defende, apenas deixando de comprar? Mas como poderá ressarcir-se do prejuízo já consumado, quem acolhe suas reclamações e atende aos seus interesses?

Nesta sociedade de consumo somos cada vez menos cidadãos e cada vez mais consumidores. Raros são hoje aqueles que não estão insatisfeitos com pelo menos um fornecedor ou um produto, ou uma loja ou um prestador de serviços ou um banco.

As grandes empresas criaram o S.A.C. - Serviço de Atendimento ao Consumidor - mas muitos destes serviços hoje são terceirizados, o funcionário que atende o reclamante não tem vínculo algum com a empresa reclamada, sua intermediação é burocrática, quase desinteressada.

Nestes últimos anos a mídia vem fazendo esta intermediação, identificou um papel e está tentando preenchê-lo com bastante empenho. Mas quando a reclamada é uma operadora de tv a cabo, uma revista ou um jornal que entrega o exemplar atrasado, a quem deve dirigir-se o leitor-consumidor prejudicado? Qual o papel dos governos, qual o papel da justiça? Como conciliar o progresso que espera-se seja crescente com a defesa do consumidor? Este é um conflito em expansão mas a causa não é perdida.


ARTIGO
Por Alberto Dines

MÍDIA & WALDOGATE
O que interessa é iluminar a área cinzenta

Alberto Dines

Nosso Observatório da Imprensa na TV não é picadeiro nem tribunal, muito menos um paredón. Como tem sido explicado, a idéia central do projeto é estimular o cidadão-telespectador a pensar a mídia. Oferecer-lhe subsídios para "não ler jornais do mesmo jeito".

É também uma janela onde os profissionais de imprensa podem mostrar a cara e dar satisfações a seu público. Tentativa de criar transparência onde não podem existir áreas cinzentas. Por isso, são válidas todas as opiniões emitidas sobre a mídia porque o que interessa são os resíduos que deixam.

O público já não se deixa iludir, a mídia já não dá a palavra final porque certos segmentos da sociedade brasileira já estão inoculados com os antídotos necessários para desenvolver um saudável ceticismo cidadão. A melhor prova deste ceticismo é a sondagem de nossa Urn@ Eletrônica, iniciada na edição 266 e continuada na edição seguinte (nº 267).

Mesmo que para a maioria dos participantes do último programa de TV (terça, 2/3) não fosse relevante a questão da preservação da fonte e dos caminhos percorridos pelo vídeo até produzir o "Waldogate", a maioria dos telespectadores manteve a tendência mostrada antes do programa. Às 22h30, e num universo de 835 votantes até aquele momento, 53% achavam que a imprensa NÃO deveria preservar a fonte que denunciou o ex-assessor Waldomiro Diniz, contra 47% a considerar que, SIM, era necessário manter a fonte sob sigilo.

Hoje, com um número de votantes muito maior, a proporção mantém-se a mesma - 52% (755 votantes) optando pelo NÃO e 48% (697 votos) pelo SIM, às 16h50 da segunda-feira, 8/3. Isto significa que a sociedade considera importante saber como é que este vídeo chegou à redação da revista Época e como opera o crime organizado quando quer desfazer-se dos cúmplices.

A segunda fita

Não são muitos os jornalistas que se dispõem a prestar contas ao público no momento em que suas matérias ou seus veículos estão no centro das atenções. Por isso, é mais do que elogiosa a disposição de Gustavo Krieger, diretor da sucursal de Época em Brasília (e, junto com o repórter Andrei Meireles, um dos autores da matéria que está abalando a República), em comparecer ao programa para oferecer esclarecimentos sobre os procedimentos que envolveram a publicação da reportagem.

Algumas de suas afirmações, no entanto, pedem reflexões e, longe de encerrar a questão, mostram a importância de mantê-la em discussão. Quando o jornalista Krieger disse que a questão colocada no programa é "uma falsa polêmica", manifestava uma opinião altamente respeitável. Mas as sentenças seguintes, retiradas de suas intervenções no programa, merecem reparos:

"...A primeira reportagem deixava claro, inclusive com uma foto logo na primeira página da matéria, que foi o bicheiro que fez a gravação, que ele armou a câmera, que ele reclamou do foco. Ficava absolutamente claro que o autor da gravação era o senhor Carlos Augusto Ramos, bicheiro, ou como ele prefere ser chamado, 'empresário de loterias instantâneas'..."

Até aí nenhuma novidade. Mas, em seguida, Krieger informou que "a fita chegou à Época pelo senador Antero Paes de Berros" e que este a encaminhou ao Ministério Público. Porém, na matéria do semanário (edição de 16/2, págs. 32-33) esta informação foi omitida. Ali, diz-se apenas que:

"...na verdade o senador recebeu duas fitas. A segunda flagra um encontro de Waldomiro com Cachoeira no aeroporto de Brasília no dia 5 de abril de 2002. Gravada pelas câmeras de segurança do próprio terminal, não tem áudio. É justamente isso que aumenta o clima de mistério. A câmera giratória permanece fixa na mesa do restaurante onde os dois conversam. Quando decidem ir embora, outras câmeras passam a seguir Waldomiro..."

Em nenhum momento da primeira matéria publicada 15 dias antes do programa está dito que o senador foi a fonte da revista. Este dado é importante. Na edição seguinte (23/2, págs. 28-31), a única referência à questão do vídeo ou da fonte está num fac-símile da edição anterior, sem qualquer dado novo. O leitor de Época, até a noite do programa, desconhecia o fato de que o parlamentar não confiava no Ministério Público, nem na sua própria capacidade de denunciar o escândalo na tribuna do Senado.

O fato de Carlinhos Cachoeira ter sido o autor da primeira fita é questão secundária. Esta, sim, é uma falsa polêmica. Até hoje não ficou esclarecida e sequer mencionada a autoria da segunda fita. E esta segunda fita, mesmo sem áudio, é a prova cabal de que o grande espetáculo a que estamos assistindo foi comandado inteiramente pelos arapongas a serviço da Grande Delinqüência.

Compromissos indelegáveis

A "força-tarefa" montada pelo semanário para investigar o escândalo, até o momento, só conseguiu ouvir Waldomiro Diniz. O que é um extraordinário avanço se compararmos este caso com as denúncias anteriores montadas sobre fitas e grampos misteriosamente entregues a jornalistas.

Passadas três semanas, nem Época nem o resto da imprensa conseguiu ir adiante e desvendar a extensão da vasta área cinzenta onde opera o crime organizado e por onde circulou o vídeo antes de chegar ao semanário. Mesmo depois das revelações da Polícia Federal a respeito da participação de policiais civis na gravação do vídeo do aeroporto.

A importância desta denúncia de Época não reside apenas no seu teor - a participação de um alto funcionário da Presidência da República no esquema da contravenção. Tão ou mais grave é a forma através da qual a denúncia chegou ao conhecimento da sociedade. A fixação da mídia no ministro José Dirceu é uma forma de desviar as atenções sobre o poder político da Grande Delinqüência. Inclusive a forma como ela se serve da mídia para queimar seus cúmplices.

Ninguém está cobrando dos jornalistas a revelação de suas fontes "secretas". Simplesmente porque neste caso não há fontes secretas a revelar. Ao provocar esta questão, o que interessa ao Observatório da Imprensa é mostrar com clareza os caminhos percorridos pelo vídeo e, com eles, revelar a extensão e o poder da área cinzenta em torno da Grande Delinqüência.

Só depois de levantar uma "falsa polêmica" no programa do dia 2/3 ficou a sociedade brasileira plena e claramente informada de que o senador foi a fonte dos vídeos. Portanto, agora sabemos quem recebeu as denúncias das mãos de delinqüentes.

Antero Paes de Barros é senador da República, tem compromissos com seus eleitores, tem deveres com os seus pares e com a Casa que representa. Se preferiu passar a denúncia adiante, agora não pode fugir à obrigação de revelar como ela chegou às suas mãos. Se não o fizer, pode dar a impressão que a área cinzenta chegou até ele.


OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET

NOVOS PROTAGONISTAS
A internet está matando a imprensa?

Carlos Castilho (*)

Geralmente, quem faz esta pergunta ou é um jornalista assustado com a avalancha de mudanças deflagradas pela cibernética no setor da informação ou algum dos novos gurus da tecnologia, messianicamente convencido de que no futuro tudo vai ser diferente.

O meio termo (em cima do muro) nem sempre é a posição mais cômoda, mas neste caso tudo indica que é a única forma de se tentar entender o que vem por aí em matéria de comunicação e de relacionamento entre emissores e receptores de informação.

Em primeiro lugar é necessário fazer uma distinção entre imprensa e jornalismo. A imprensa como sistema empresarial, cujo negócio é vender produtos à base de informação, não deve desaparecer como atividade, mas não há mais dúvida de que está perdendo sua centenária hegemonia na formação da chamada agenda pública. O modelo unidirecional "um para muitos" cede rapidamente terreno à fórmula interativa "muitos para muitos", cujo surgimento só foi possível graças à internet.

Um canal diferente

Já o jornalismo, atividade apoiada num conjunto de valores consensuais, ganha mais do que perde com a valorização da informação como commodity central na chamada Nova Economia. O dilaumeema que os profissionais do jornalismo começam a enfrentar agora é mais cultural (assumir novos valores) do que empresarial (como manter a lucratividade). A informação tornou-se demasiado importante para ser um monopólio do jornalista, ao mesmo tempo em que, graças à web, a arena da comunicação começa a ser invadida por uma multidão de novos protagonistas.

Assim sendo é possível afirmar que a imprensa como a entendemos hoje (sistema de mídia impressa) não desaparecerá da face da Terra mesmo depois de a internet deixar de ser um privilégio de poucos. A leitura em papel vai continuar porque a web exige 25% mais de esforço dos olhos e do corpo para uma leitura mais longa, como um artigo analítico.

Mas o grosso da informação passará a ser veiculado no chamado jornalismo online, ou seja, o jornalismo feito na internet, combinando texto, imagens estáticas, animação, áudio, vídeo e interatividade.

O novo peso da ética

O novo papel da imprensa escrita exigirá muito mais acomodação ao novo papel do que mudança de paradigmas. Já o mesmo não acontecerá com o jornalismo, que deverá sofrer algumas mudanças radicais para enfrentar os desafios da internet.

Quando vários autores especulam sobre a morte da imprensa o que está sendo questionado, na verdade, são alguns elementos e funções do jornalismo convencional, como o pauteiro (gatekeeper), o profissional encarregado de decidir qual o cardápio informativo que será servido a leitores, ouvintes, telespectadores e navegadores (na web).

O pauteiro tem seus dias contados, da mesma forma que o linotipista e o copidesque perderam utilidade na estrutura de um jornal. Outras funções da imprensa também serão tragadas pelo darwinismo tecnológico, mas daí a dizer que o jornalismo vai virar peça de museu há uma enorme distância.

Fenômenos como o dos weblogs estão criando modalidades novas e polêmicas, como o jornalismo participativo e o jornalismo de "código aberto". Valores sagrados para o profissional, como o direito autoral, perdem relevância, enquanto a ética, que até agora tinha importância mais retórica e moralista, ganha status de valor-chave no jornalismo dos próximos anos.

Resistência às mudanças

Mas, sem sombra de dúvida, a mudança mais importante está sendo a ascensão do cidadão comum como produtor de informação. Ainda não é possível vislumbrar todas as conseqüências desta nova realidade. Alguma coisa, porém, já é possível constatar:

1. O cidadão comum passa a ser parceiro do jornalismo na produção de notícias e informações, formando a base do chamado jornalismo participativo;

2. A produção de notícias e informações começa a se tornar um processo contínuo, em que produtores, veiculadores e receptores interagem o tempo todo, alterando ad infinitum o conteúdo da notícia ou da informação;

3. A avalancha informativa reduziu a importância do furo ou da exclusividade, em beneficio da contextualização e da interpretação;

4. Quanto mais a informação circular mais valor ela agrega;

5. A informação tornou-se o ativo mais valorizado da economia contemporânea;

6. A informação passou a ser a ferramenta indispensável para a sobrevivência das pessoas e comunidades, numa sociedade cada vez mais integrada e baseada na dependência mútua. O equilíbrio, nesta dependência, é feito pela informação.

Entre os profissionais há muitos que resistem às mudanças, alegando que o jornalismo é o principal fiador da liberdade de informação, da isenção e da objetividade. Além disso, que quem o pratica foi educado em técnicas de investigação, redação e publicação de notícias. Quem não tem diploma de jornalista não poderia funcionar com produtor, processador e distribuidor de notícias e informações.

Nem invasão nem ameaça

Aqui um debate novo engata com um já bastante antigo, sobre a exigência de título universitário. Só que o contexto é diferente. Se antes a discussão envolvia questões de reserva de mercado, agora o problema passou a afetar a comunidade, já que a internet escancarou as portas para o acesso à produção e à distribuição de notícias e informações.

Querendo ou não, gostando ou não, os indivíduos comuns já estão com um pé dentro do mundo da comunicação, quando emitem opiniões sobre matérias publicadas na web, nos weblogs, nas listas de discussão, nos fóruns, quando participam da avaliação de textos e projetos etc. etc.

Se antes o jornalista corria atrás da notícia, hoje ela vem até ele em mensagens eletrônicas enviadas por cidadãos comuns, que muitos já chamam de "jornalistas amadores".

Os profissionais não deveriam encarar este fenômeno como uma invasão da seara alheia, nem como ameaça à isenção ou à liberdade de informação. Muito pelo contrário: quanto mais as pessoas comuns valorizarem a informação e quanto maior for seu envolvimento na produção e circulação de notícias, mais consistente será o convívio social.

Conduta em aberto

Então, o que sobra para o jornalista? Muita coisa. A começar pela necessidade de contextualizar notícias e informações recebidas, devolvendo-as de forma processada para ampliar a capacidade de análise dos indivíduos comuns. O jornalista pode ser também um tutor de informações, orientando os consumidores de informação sobre como e onde buscar mais dados e fontes. Há o jornalismo investigativo através da internet, com a garimpagem de mais de quatro bilhões de páginas-web ou de contatos com quase meio bilhão de pessoas conectadas por e-mail.

A velocidade e a diversidade com que a informação circula na internet aumentaram a relevância de elementos como credibilidade, privacidade e interesse público. O jornalista terá que mudar alguns comportamentos; por exemplo, terá que dar menos importância à rapidez da veiculação da notícia para privilegiar a avaliação de sua credibilidade.

Espaço e trabalho não faltarão aos jornalistas que escolherem trabalhar em ambientes cibernéticos.

O que falta é a intensificação de dois grandes debates:

** Como adaptar os currículos das faculdades ao jornalismo online?

** E quais os novos valores que regerão a conduta tanto dos "amadores" como dos profissionais da informação?

(*) Jornalista, pesquisador de mídia eletrônica


5º BLOCO

Veja o que disseram os convidados após o programa:

São Paulo:

Gustavo Marrone de Castro - Diretor Executivo Procon
"O programa foi interessante para mostrar aos telespectadores e consumidores que os órgãos de defesa do consumidor, quando em parceria com a imprensa, divulgam esses trabalhos e problemas existentes. Sempre com responsabilidade, fundamentado, é um tipo de parecer técnico, de análise jurídica, não querendo nunca prejudicar os bons fornecedores, mas proteger os consumidores que são lesados."


PERGUNTAS

E-mails recebidos na semana de 09/03 a 16/03:

Celio Borba, Curitiba / PR
As redes de tv deveriam ter ombudsman para haver crítica sobre tantas asneiras exibidas em telejornais.

J. Cesar, Novo Horizonte / SP
A "grande" mídia errou ao se apegar tanto ao caso Waldomiro, dando a impressão de que o PT está envolvido em corrupção também. Há como reparar isso?

Alexandre Gentil, Rio de Janeiro
Boa noite! É praticamente impossível comprar um carro sem assinar um contrato no qual o comprador concorda que o carro está em perfeitas condições e que nenhum tipo de manutenção pode ser efetuada sem o conhecimento prévio da agência. O que fazer numa situação dessas, quando praticamente todas as agências têm esse tipo de acordo contratual? Em meu caso, comprei um veículo em uma agência. Me disseram que o carro estava em perfeito estado, consumia pouco e as peças eram acessíveis. Uma semana após a compra, identifiquei 12 problemas. Ficaram duas semanas com o carro em manutenção e o devolveram ainda com vários dos problemas. Dessa forma, ficou claro que não havia a intenção de acertar os problemas e sim fazer com que eu desistisse de usar a "garantia", o que efetivamente acabou acontecendo por precisar muito do veículo. Além disso, o carro consome muito e as peças são muito caras. Espero que minha dúvida possa ser esclarecido no ar esta noite.

Mauro A. Silva, São Paulo
Gostaria que comentassem o comportamento omisso da mídia quando da edição da medida provisória do Apagão. A divulgação das medidas ilegais do Governo deveria vir acompanhada dos esclarecimentos e análises críticas em relação às manifestas inconstitucionalidades das medidas, tranqüilizando a população mais humilde, a qual encontra-se aterrorizada em relação às punições anunciadas. Aqui, no Brasil, após a população economizar 20% da energia, por culpa exclusiva do sucateamento do setor elétrico ("Tem de Privatizar!!!"), fomos "premiados" com aumentos de 16% em nossas "contas de luz". As empresas energéticas querem "em dinheiro" a parcela de energia que economizamos. Essa é a diferença entre um país do primeiro mundo e uma república de banana: Lá, nos EUA, a fraude é punida com "multa e cadeia"; enquanto que aqui, o Poder Público ameaça torturar os consumidores ao mesmo tempo em que premia as empresas que não cumpriram os contratos.

Sérgio Bianco, São Paulo - Arquiteto
Acredito Dines que esse é o tema do momento, mas temos que definir alguns critérios para uma análise. A base do consumo é global, a base da cidadania é nacional. O consumo parte do desejo, a cidadania parte da consciência. O consumidor filosoficamente é competitivo, o cidadão na sua essência é cooperativo. E assim podemos estabelecer uma série de categorias de análise que mostra que a cidadania está perdendo para o consumo. É só pegar os 10 melhores anúncios publicitários em qualquer mídia voltado para o consumo para vermos que eles são imensamente mais interessantes que as 10 melhores peças publicitárias voltadas para questões de cidadania. O que essa especial banca acha dessas considerações?

Otávio Vieira
Sr. Dines, hoje ao ver o programa Observatório da Imprensa, não pude deixar de questionar. Aliás, vocês já me conhecem de longa data, não é mesmo? Bem, o Senhor Ricardo Morishita (Repres. Min. Justiça) falou e disse muito bem, com todas as letras sobre os problemas causados pelas empresas (principalmente as telefônicas) e comentou sobre os procedimentos da justiça etc. Ocorre que eu concordei em tudo com o que ele disse e também com a sua expressiva "boa vontade", pois o pior é que fica sempre no ar: os órgãos responsáveis por controlar, coibir, orientar e punir as empresas pouco ou nada fazem, haja vista uma reportagem veiculada ontem (08/03/04) no SPTV, sobre ruídos causados por casas noturnas. A Globo esteve em vários locais na Vila Olímpia e constatou há 20m da casa que o barulho era insuportável e o pessoal do Contru/Psiu, na palavra de seu representante, "descaradamente" diz: "Ah, nós vamos lá, fazemos a medição, notificamos, autuamos e no dia seguinte eles voltam tudo ao normal". Ou seja, o que eles estão fazendo lá então? Em quem podemos acreditar ou com quem contar se os governos apenas falam e enrolam sempre com as pomposas respostas... Vide o caso do adulteramento dos combustíveis. A propósito, a TV/Imprensa também está falhando, pois há duas semanas mostrou vários caminhões presos com combustível adulterado, mas o que aconteceu com estes, com os proprietários, etc? Ninguém sabe...

Benedito Soares, Campinas / SP - Aposentado
Sr. Alberto Dines, é com muito respeito e admiração que lhe dirijo esta mensagem com alguns tópicos, pois aprecio seu programa na TV Cultura.

1-Em seu programa do último dia 9, tentei através do telefone formular algumas perguntas, insisti, insisti, mas somente "tronco ocupado".

2-Órgãos Públicos (INSS, CEF) não estão sujeitos ao Código do Consumidor?

3-Protocolei requerimento no INSS para revisão do valor de minha aposentadoria há mais de 15 meses e ainda não recebi resposta se tenho direito ou não, contribuí por mais de 30 anos (~384 meses). No Procon da minha cidade me disseram que eu tenho que reclamar no INSS.

4-Para que serve o Procon?

5-Um de seus convidados ao programa supracitado ficou falando em âmbito, em comissões de análises e congêneres. E soluções para os problemas, ele não sabe? Nós precisamos é de soluções, pois pagamos os salários dos funcionários do Estado!

Silvio de Tarso, Curitiba / PR - Radialista
No programa do dia 2 de março, quando este Observatório tratou da reportagem da Revista Época, uma pergunta feita pelo mestre Dines foi pouco debatida. Ela foi respondida apenas pelo representante da revista, que é claro, a respondeu segundo o interesse de Época. A questão levantada dizia respeito a se a marginalidade e o crime organizado não estariam pautando ou determinando quando e onde certas matérias devem ser publicadas. Como se sabe, a fita do caso Waldomiro Diniz estava de posse de um contraventor, que a escondeu como um corpo de delito. Liberando-a para publicação, quem sabe, conforme a sua conveniência. A pergunta foi instigante e muito bem colocada. Mas pouco debatida.


Telefonemas recebidos em 09/03:

Luís Carlos Martins / São Paulo
Eu acho que é bom que a imprensa divulgue mais esclarecimentos a respeito dos direitos do consumidor. E acho que ela pode ser muito útil ao consumidor, principalmente nos casos de danos morais.

César Gomes, Rio Bonito / RJ
A TVE é o único canal que se preocupa com os interesses da sociedade. Por que é tão difícil ter acesso ao Ministério Público e por que a resposta do Ministério Público é tão demorada?

Carlos Silva, Salvador / BA
Vocês não acham que é importante um defensor público nos juizados de pequenas causas para tratar de casos de defesa do consumidor?

Ana Lourenço, São Paulo
Os órgãos como o Procon não fazem nada de efetivo, você tem que procurar a mídia.

Marcos Mareti, Rio de Janeiro
Será que os órgãos de mídia que possuem seções de defesa do consumidor não acabam sendo influenciados, já que muitas das empresas que sofrem reclamações são também grandes anunciantes?
Ricardo Morishita, tenho tentado há anos conseguir uma fatura detalhada de uma conta da Telemar, mas eles disseram que eu tenho que entrar na justiça para conseguir. Tentei, mas meu processo não deu em nada. O que devo fazer?

Lenon Santiago, São Paulo
Parabéns ao programa. Como sempre, toda terça-feira ele é excelente. Gostaria de parabenizar também o diretor do Procon pelo ótimo trabalho desenvolvido e queria saber dele, por que quando nós recorremos aos órgãos do governo de fiscalização (como a Anatel, por exemplo), a resposta é muito demorada e quando a gente recorre ao Procon essa resposta é muito mais rápida?

Airton Rigoni, Foz do Iguaçu / PR
Qual deveria ser o comportamento da mídia com relação à veiculação de anúncios enganosos ou visivelmente prejudiciais ao consumidor? Nesses casos, a mídia não deveria ser responsabilizada civil ou criminalmente também, junto com os anunciantes?

Joaquim Moura, Rio de Janeiro
Esse apoio da mídia aos consumidores não é apenas formal? Por que no caso de alimentos transgênicos a mídia não se manifesta?

Sanderlei Vieira, Vitória / ES
Quais são as iniciativas mais relevantes por parte do judiciário a fim de desburocratizar o acesso à justiça, principalmente tendo em vista o baixo nível educacional do País?

César Murilo de Mello, Barroso / MG
A mídia deve fomentar mais debates sobre a questão das empresas de telefonia que têm praticado preços abusivos.

Genivaldo Barricelo, Santos / SP
Os órgãos do consumidor deveriam distribuir mais cartilhas de orientação para os consumidores terem mais consciência dos seus direitos.

Humberto Ferreira, Rio de Janeiro
Nadja, qual foi a queixa mais excêntrica e qual foi a que te tocou mais? Quando um processo é julgado em 1ª instância, existe um recurso que encaminha para a Egreja Turma Recursal, que merece todos os elogios por sua eficiência em defesa do consumidor.

Carlos Alberto Guarize, Curitiba / PR
Entrei com uma ação na justiça no ano passado e nada aconteceu. Eu paguei uma conta de telefone que não era para eu pagar e a empresa não quis me ressarcir. Entrei com uma ação na justiça que não foi levada em frente. Então reclamei nos jornais do Paraná acusando, inclusive, o Poder Judiciário do Paraná e nada aconteceu.

Irmo Mendes, Terezina / PI
Quais seriam as alternativas para punir as empresas por crimes do consumidor?

Edson Lemos, Rio de Janeiro
Nós, como cidadãos, temos sofrido prejuízo por parte do Poder Público. Quando você se sente prejudicado por uma empresa privada, você tem vários órgão de defesas do consumidor para recorrer. Mas, por exemplo: as pessoas que foram prejudicadas pela greve do INSS, que é uma instituição pública, não têm órgãos específicos para recorrer.



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