RESUMO DO PROGRAMA
ESPECIAL RÁDIO MEC
O
Observatório da Imprensa especial de 23 de dezembro de 2003 fez um
retrospecto dos 80 anos de existência da Rádio Mec.
A
história da Rádio Mec se confunde com a própria história do rádio no
Brasil. Após a primeira transmissão, feita em território brasileiro em
07 de setembro de 1922, foi necessário mais 1 ano para que fosse criada
a primeira emissora de rádio de Brasil.
No início
de 1923, Roquette-Pinto fundava a Rádio Sociedade, que anos depois viria
a se chamar Rádio Mec, a PRA2.
A Rádio
Sociedade teve a sua primeira transmissão experimental em 1º de maio de
1923, porém foi só depois que o presidente Artur Bernardes autorizou o
início das irradiações no Brasil que ela entrou no ar em 07 de setembro
de 1923. Exatamente um ano depois da primeira transmissão brasileira.
Os
principais fins da Rádio fundada por Roquette-Pinto eram sociais e
científicos. Antropólogo, médico e educador, o fundador da Rádio também
foi o primeiro locutor e criou o seguinte tema para a emissora: "Pela
cultura dos que vivem em nossa terra. Pelo progresso do Brasil".
Estimava-se que 70% das pessoas no Brasil eram analfabetas, a proposta
da Rádio era atingir à população com mensagens educativas.
A Rádio
Sociedade chegou a ter 300 sócios e era mantida com as mensalidades
pagas por esses sócios. Com a Era Vargas a radiofonia se proliferou e as
rádios eram mais opulentas e tinham mais condições financeiras por
venderem espaço para propagandas. A Rádio Sociedade não tinha dinheiro,
mas contava com o apoio de figuras intelectuais, anônimos e pessoas
abastadas que davam grande valor à obra criada por Roquette-Pinto.
A Rádio
seguiu transmitindo, não só música de qualidade, mas também palestras,
aulas de geografia, história do Brasil e outras disciplinas. Segundo
Ricardo Cravo Albin, pesquisador de rádio e radialista da Rádio Mec:
"Não houve, desde Villa-Lobos a Mignone, compositor que não tivesse
quase se incorporado à Rádio Mec".
Como a
finalidade de Roquette-Pinto era inspirar confiança, ele não quis que a
Rádio adquirisse bases comerciais. Seu desejo era uma rádio pública e
educativa, então, em 1936, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro foi doada
ao governo e passou a se chamar Rádio Ministério da Educação e, mais
tarde, Cultura. A Rádio Mec. Porém, segundo Roquette-Pinto, a Rádio
estava sendo doada para o povo e não para o governo. A Rádio teve
momentos históricos de programas de auditório de sucesso, rádio-teatro e
presenças ilustres como Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade e
Pixinguinha. O mais antigo programa da Rádio, o "Ópera Completa", está
no ar há mais de 50 anos.
Em 1986,
quando foi criada a Rádio FM, a Mec passa por mais uma reestruturação. A
divisão entre AM e FM criou uma espécie de maniqueísmo. Fazia-se com que
os programas musicalmente bons fossem para a FM (que tinha melhor
qualidade de transmissão, porém menor alcance) e os que fossem
prioritariamente falados ou de músicas populares ficassem em AM. Ainda
assim, a Rádio Mec, tanto AM quanto FM, continua transmitindo com o
propósito de levar educação, cultura e música de qualidade para todos os
cantos do Brasil.
Elisa
Antoun (estagiária)
EDITORIAL
O
programa de 23 de dezembro não foi ao vivo. Foi um especial gravado
sobre a rádio MEC.
ARTIGO
Por Alberto Dines
ABC DO
JORNALISMO
A notícia e o coração de mãe
Alberto
Dines
A festa
de encerramento deste primeiro ano do pós-graduação em Ciências
Brasileiras converteu-se em portentosa Aula Magna proferida pelo Chefe
da Nação com profícuos 87 minutos de duração, ao longo dos quais os
176 milhões de alunos aprenderam um monte de coisas sobre eles mesmos.
Inclusive os economistas, filósofos, empresários, estatísticos,
historiadores, geógrafos e cientistas políticos.
Os
jornalistas foram privilegiados com, pelo menos, cinco proposições
originalíssimas:
1.
"Notícia é aquilo que não queremos que seja publicado. O resto
é publicidade."
2.
"Portanto, se falarmos menos e falarmos apenas o necessário,
certamente ficaremos mais felizes a cada manhã quando abrirmos as páginas
dos jornais e das revistas."
3.
"A imprensa, na verdade, é como coração de mãe: por mais que a
gente briga com ela, a gente sabe que precisa dela."
4.
"Então, em vez de brigar [com a imprensa ] é melhor estabelecer
uma política de boa convivência que todo o mundo ganhará mais."
5.
"A vocês, jornalistas, tenham paciência comigo que eu tenho com
vocês [aplausos da bancada da imprensa]."
No fundo,
as proposições são complementares, peças de um mesmo raciocínio.
Reunidas, relidas e reavaliadas revelam uma curiosa coerência que seria
salutar não fosse a cândida revelação nela embutida, quase uma fixação:
É
imperioso que a imprensa fale bem do governo. Se os ministros falarem
pouco - escondendo o que poderia gerar debates -, se os jornalistas
tiverem a mesma paciência com o governo que o governo tem com os
jornalistas, e, se mesmo assim, as notícias publicadas não agradarem,
esquece-se o jornalismo e recorre-se à publicidade. Com uma boa convivência
todos ganham mais. A imprensa deve funcionar como um generoso coração
de mãe capaz de esquecer os defeitos do filho (o governo), assim como o
filho não enxerga as obsessões da mãe (a imprensa).
Interessantes
são os comentários que a fala do trono suscitou na imprensa:
** Comentário
de Teresa Cruvinel (O Globo, 18/12, pág. 2):
"As
mágoas a que se refere [o presidente] vêm do tempo em que o PT era
oposição e não merecia os mesmos espaços dados ao governo. Como
hoje acontece com o PFL e o PSDB. É natural, embora o PT não tenha
do que reclamar, suas denúncias sempre foram divulgadas, bem como
suas propostas políticas.
Ruim
mesmo foi o remédio receitado: falar menos para que os jornais do
dia seguinte fiquem mais agradáveis. Lula e boa parte do governo
continuam ignorando que, uma vez no governo, a comunicação com a
sociedade, para ter credibilidade, passará pelos meios de comunicação
e não pelo marketing, mais importante na campanha."
** Na notícia
(isto é, no relato que o governo não gostaria que fosse publicado), o
Estado de S.Paulo reproduz trechos do discurso em que o presidente
menciona a imprensa e acrescenta algumas informações (notícias?)
sobre o comportamento do Secretário de Imprensa da Presidência,
Ricardo Kotscho, com os jornalistas que desobedecem suas recomendações
(19/12, pág. 5; veja íntegra da matéria na rubrica Entre Aspas, nesta
edição do OI).
** A
informação (notícia??) publicada pela Folha de S.Paulo (mesmo dia, pág.
A 4) tem o mesmo título do concorrente e acrescenta alguns detalhes
(noticiosos?) sobre a preparação do discurso e do evento.
Uma coisa
é certa: foi infeliz a incursão presidencial na teoria jornalística.
Revela uma faceta voluntarista até então reservada aos críticos em
matéria econômica ou política e poderá gerar perigosas confusões.
Se a mídia
insistir no seu aspecto noticioso - isto é, publicar notícias -
vai gerar muita irritação. Em compensação, será privilegiada pela
publicidade.
Mãe é mãe.
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET
ENTREVISTA
/ ROBERTO POMPEU DE TOLEDO
São Paulo em 370 anos de solidão
Leticia
Nunes
A
capital da solidão - uma história de São Paulo das origens a
1900, de Roberto Pompeu de Toledo, 558 pp., Editora Objetiva, Rio de
Janeiro, 2003
Às vésperas
de completar 450 anos, São Paulo ganha uma definição inusitada: a de
capital da solidão. O título do livro escrito pelo jornalista Roberto
Pompeu de Toledo causa estranheza à primeira vista: São Paulo, com
todo seu caos urbano, não lembra em nada a palavra solidão.
Mas a São
Paulo da obra de Toledo é outra. A capital da solidão - uma história
de São Paulo das origens a 1900 trata dos primórdios daquela que é
hoje a maior cidade do Brasil e uma das maiores do mundo. Convidado pela
editora Objetiva para realizar o projeto, o jornalista levou quatro anos
para concretizá-lo. O resultado são mais de 500 páginas que contam
uma história de 370 anos da megalópole paulista.
Dividido
em três partes, o livro começa em 1530 e tem seu ponto final em 1900.
A primeira parte, intitulada "Começo", relata a fundação da
Vila de São Paulo de Piratininga, com a chegada dos jesuítas. A
segunda, "Incertezas", fala da época em que a cidade buscava
uma identidade e não sabia muito bem qual era sua vocação. A terceira
e última parte é "Arrancada", que conta o período de
impulso para o começo do crescimento de São Paulo, na metade do século
19, com a chegada do café ao Oeste Paulista.
O
jornalista, colunista da revista Veja, fez uma vasta pesquisa - em
mais de uma centena de livros - para reconstituir a realidade e as
dificuldades dos três primeiros séculos de existência de São Paulo.
A metrópole de hoje em nada lembra seu nascimento como vila de difícil
acesso, escondida pela Serra do Mar, distante do litoral e fora do
alcance dos navios portugueses. Com este perfil, São Paulo era isolada,
melancólica e solitária: a capital da solidão.
O
paulistano Roberto Pompeu de Toledo fala sobre seu livro e sobre sua
cidade, hoje nada solitária, na entrevista a seguir.
***
A capital
da solidão é um livro grandioso, bem preparado e fruto de um longo
trabalho. Por que aceitou escrevê-lo? A proposta inicial da editora já
era tão ambiciosa?
Roberto
Pompeu de Toledo - O convite da Objetiva coincidiu com dois grandes
interesses meus: a história e as cidades. Daí ter concordado com ele.
Quanto ao grau de ambição que a editora punha no projeto, não sei
responder - isso não foi especificado. Tenho a impressão de que o
livro adquiriu porte maior do que o esperado, mas é só uma impressão.
Como foi
a experiência de quatro anos de dedicação para contar parte da história
da sua cidade?
R.P.T.
- Foi como costumam ser os trabalhos que se alongam no tempo: uma
alternância de períodos de entusiasmo com períodos de desânimo. Às
vezes eu achava que estava produzindo o melhor livro, outras que estava
saindo uma porcaria. Às vezes ia em frente com a audácia e o destemor
dos bravos (ou dos ingênuos). Outras, me perguntava o que tinha na cabeça
ao me enfiar em tal trabalho.
Como
organizou e definiu que tipo de pesquisa iria fazer para escrever uma
história que abrange 370 anos?
R.P.T.
- Foi como naquele verso do Antonio Machado: "El camino se
hace ao caminar". Não parei para definir o tipo de pesquisa que
deveria ser feito, nem o tipo de organização que deveria ter o livro,
nem nada semelhante. As coisas simplesmente foram sendo feitas. O que
posso dizer de talvez mais significativo, sob o aspecto de organização,
é que não fiz toda a pesquisa para só então começar a escrever. Eu
ia pesquisando e escrevendo, por períodos.
Por que a
São Paulo de antigamente era a mais brasileira das cidades?
R.P.T.
- Porque foi a primeira experiência de criar uma cidade interior
adentro e a primeira em que foi determinante a miscigenação entre
alguns (poucos) europeus e muitos índios (ou índias, melhor dizendo).
Ao longo da costa, em cidades como Rio de Janeiro, Salvador e Olinda, a
colonização mais ou menos que copiava os padrões portugueses.
Transplantava-se uma civilização. Já em São Paulo, meio desgarrada
da metrópole, foi-se obrigado a criar um tipo novo de sociedade, que
eu, com alguma liberdade, chamei de "brasileira". Em São
Paulo deu-se uma junção do europeu com o índio como não se deu nas
cidades litorâneas. Isso se refletia na arquitetura, na comida, nos
costumes. Falava-se tupi, nas casas, em São Paulo. Também chamei São
Paulo de a mais brasileira das cidades, nesses primeiros anos, para
contrastar com o que virou depois - a mais estrangeira das cidades
brasileiras. Em 1893, sob o influxo da imigração, São Paulo tinha
mais estrangeiros que brasileiros - 54% contra 46% dos habitantes.
A história
do livro termina em 1900. Como foi escolhido o ponto final? Há planos
de uma continuação da história até os dias de hoje?
R.P.T.
- Eu quis contar a história da São Paulo que antecedeu a metrópole.
1900 me convinha. É um ano redondo, e ao mesmo tempo situa-se num período
em que a cidade está deixando de ser o vilarejo perdido em cima da
serra para virar um centro importante, que aqui e ali já dava sinais de
que ia virar uma metrópole. Quanto à continuação, deixo para outro.
Eu não vou fazê-la.
Se São
Paulo em seus primórdios era a capital da solidão, hoje ela seria a
capital de quê?
R.P.T.
- Não sei. A capital da confusão, talvez? Que tal? Confusão
urbanística, confusão social... São Paulo hoje resume a grande
barafunda brasileira.
5º BLOCO
Veja o que disseram os
convidados após o programa:
O
programa de 23 de dezembro não foi ao vivo. Foi um especial gravado
sobre a rádio MEC.
PERGUNTAS
E-mails
recebidos:
Lêda Maria
Dines e Lúcia, parabéns! Adoro a Rádio MEC e também o Observatório da
Imprensa. Obrigada pelo programa tão especial!!!
Alexandre de Azevedo Vieira, Brasília / DF
Alberto Dines, é um prazer entrar em contato com o seu programa, pena
que é para fazer duras críticas a uma concessionária de nosso país.
Sexta-feira dia 30/02/04 o SBT apresentou um desenho pornográfico
animado entitulado de South Park: maiores, melhores e sem restrição.
Porém o filme era mais pornográfico que um daqueles eróticos. As
crianças no filme, suas mães e outras personagens falavam mais palavrão
que o programa do Ratinho. Chegou mais alguma crítica ao Observatório da
Imprensa, ou será que só em Brasília passou essa programação?
Telefonemas recebidos em 23/12:
O programa de 23 de dezembro não foi ao vivo. Foi um especial gravado
sobre a rádio MEC.