PROGRAMA DO DIA 23 DE DEZEMBRO DE 2003

ESPECIAL RÁDIO MEC

No ano em que se comemoram os oitenta anos do rádio no Brasil, o Observatório da Imprensa faz uma homenagem a Edgard Roquette-Pinto. Antropólogo e educador, ele fundou a primeira emissora radiofônica do país: a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro - atual Rádio MEC.

Artistas, músicos, personalidades e funcionários da emissora contam um pouco da história e mostram alguns dos programas que continuam fiéis à proposta original: de levar música e informação de qualidade aos mais distantes pontos do Brasil.

Repetido em todas as transmissões, o slogan da Rádio MEC sintetiza o ideal de Roquette-Pinto: "pela cultura dos que vivem em nossa terra, pelo progresso do Brasil".

Leia o resumo do programa

  Veja o Compacto

ABC DO JORNALISMO
A notícia e o coração de mãe

Alberto Dines

A festa de encerramento deste primeiro ano do pós-graduação em Ciências Brasileiras converteu-se em portentosa Aula Magna proferida pelo Chefe da Nação com profícuos 87 minutos de duração, ao longo dos quais os 176 milhões de alunos aprenderam um monte de coisas sobre eles mesmos. Inclusive os economistas, filósofos, empresários, estatísticos, historiadores, geógrafos e cientistas políticos.

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5 Bloco - Leia a opinião dos participantes do programa, sobre o debate.

O programa de 23 de dezembro não foi ao vivo. Foi um especial gravado sobre a rádio MEC.


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ENTREVISTA / ROBERTO POMPEU DE TOLEDO
São Paulo em 370 anos de solidão

Leticia Nunes

A capital da solidão - uma história de São Paulo das origens a 1900, de Roberto Pompeu de Toledo, 558 pp., Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2003

Às vésperas de completar 450 anos, São Paulo ganha uma definição inusitada: a de capital da solidão. O título do livro escrito pelo jornalista Roberto Pompeu de Toledo causa estranheza à primeira vista: São Paulo, com todo seu caos urbano, não lembra em nada a palavra solidão.

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RESUMO DO PROGRAMA

ESPECIAL RÁDIO MEC

O Observatório da Imprensa especial de 23 de dezembro de 2003 fez um retrospecto dos 80 anos de existência da Rádio Mec.

A história da Rádio Mec se confunde com a própria história do rádio no Brasil. Após a primeira transmissão, feita em território brasileiro em 07 de setembro de 1922, foi necessário mais 1 ano para que fosse criada a primeira emissora de rádio de Brasil.

No início de 1923, Roquette-Pinto fundava a Rádio Sociedade, que anos depois viria a se chamar Rádio Mec, a PRA2.

A Rádio Sociedade teve a sua primeira transmissão experimental em 1º de maio de 1923, porém foi só depois que o presidente Artur Bernardes autorizou o início das irradiações no Brasil que ela entrou no ar em 07 de setembro de 1923. Exatamente um ano depois da primeira transmissão brasileira.

Os principais fins da Rádio fundada por Roquette-Pinto eram sociais e científicos. Antropólogo, médico e educador, o fundador da Rádio também foi o primeiro locutor e criou o seguinte tema para a emissora: "Pela cultura dos que vivem em nossa terra. Pelo progresso do Brasil". Estimava-se que 70% das pessoas no Brasil eram analfabetas, a proposta da Rádio era atingir à população com mensagens educativas.

A Rádio Sociedade chegou a ter 300 sócios e era mantida com as mensalidades pagas por esses sócios. Com a Era Vargas a radiofonia se proliferou e as rádios eram mais opulentas e tinham mais condições financeiras por venderem espaço para propagandas. A Rádio Sociedade não tinha dinheiro, mas contava com o apoio de figuras intelectuais, anônimos e pessoas abastadas que davam grande valor à obra criada por Roquette-Pinto.

A Rádio seguiu transmitindo, não só música de qualidade, mas também palestras, aulas de geografia, história do Brasil e outras disciplinas. Segundo Ricardo Cravo Albin, pesquisador de rádio e radialista da Rádio Mec: "Não houve, desde Villa-Lobos a Mignone, compositor que não tivesse quase se incorporado à Rádio Mec".

Como a finalidade de Roquette-Pinto era inspirar confiança, ele não quis que a Rádio adquirisse bases comerciais. Seu desejo era uma rádio pública e educativa, então, em 1936, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro foi doada ao governo e passou a se chamar Rádio Ministério da Educação e, mais tarde, Cultura. A Rádio Mec. Porém, segundo Roquette-Pinto, a Rádio estava sendo doada para o povo e não para o governo. A Rádio teve momentos históricos de programas de auditório de sucesso, rádio-teatro e presenças ilustres como Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade e Pixinguinha. O mais antigo programa da Rádio, o "Ópera Completa", está no ar há mais de 50 anos.

Em 1986, quando foi criada a Rádio FM, a Mec passa por mais uma reestruturação. A divisão entre AM e FM criou uma espécie de maniqueísmo. Fazia-se com que os programas musicalmente bons fossem para a FM (que tinha melhor qualidade de transmissão, porém menor alcance) e os que fossem prioritariamente falados ou de músicas populares ficassem em AM. Ainda assim, a Rádio Mec, tanto AM quanto FM, continua transmitindo com o propósito de levar educação, cultura e música de qualidade para todos os cantos do Brasil.

Elisa Antoun (estagiária)


EDITORIAL

O programa de 23 de dezembro não foi ao vivo. Foi um especial gravado sobre a rádio MEC.


ARTIGO
Por Alberto Dines

ABC DO JORNALISMO
A notícia e o coração de mãe

Alberto Dines

A festa de encerramento deste primeiro ano do pós-graduação em Ciências Brasileiras converteu-se em portentosa Aula Magna proferida pelo Chefe da Nação com profícuos 87 minutos de duração, ao longo dos quais os 176 milhões de alunos aprenderam um monte de coisas sobre eles mesmos. Inclusive os economistas, filósofos, empresários, estatísticos, historiadores, geógrafos e cientistas políticos.

Os jornalistas foram privilegiados com, pelo menos, cinco proposições originalíssimas:

1. "Notícia é aquilo que não queremos que seja publicado. O resto é publicidade."

2. "Portanto, se falarmos menos e falarmos apenas o necessário, certamente ficaremos mais felizes a cada manhã quando abrirmos as páginas dos jornais e das revistas."

3. "A imprensa, na verdade, é como coração de mãe: por mais que a gente briga com ela, a gente sabe que precisa dela."

4. "Então, em vez de brigar [com a imprensa ] é melhor estabelecer uma política de boa convivência que todo o mundo ganhará mais."

5. "A vocês, jornalistas, tenham paciência comigo que eu tenho com vocês [aplausos da bancada da imprensa]."

No fundo, as proposições são complementares, peças de um mesmo raciocínio. Reunidas, relidas e reavaliadas revelam uma curiosa coerência que seria salutar não fosse a cândida revelação nela embutida, quase uma fixação:

É imperioso que a imprensa fale bem do governo. Se os ministros falarem pouco - escondendo o que poderia gerar debates -, se os jornalistas tiverem a mesma paciência com o governo que o governo tem com os jornalistas, e, se mesmo assim, as notícias publicadas não agradarem, esquece-se o jornalismo e recorre-se à publicidade. Com uma boa convivência todos ganham mais. A imprensa deve funcionar como um generoso coração de mãe capaz de esquecer os defeitos do filho (o governo), assim como o filho não enxerga as obsessões da mãe (a imprensa).

Interessantes são os comentários que a fala do trono suscitou na imprensa:

** Comentário de Teresa Cruvinel (O Globo, 18/12, pág. 2):

"As mágoas a que se refere [o presidente] vêm do tempo em que o PT era oposição e não merecia os mesmos espaços dados ao governo. Como hoje acontece com o PFL e o PSDB. É natural, embora o PT não tenha do que reclamar, suas denúncias sempre foram divulgadas, bem como suas propostas políticas.

Ruim mesmo foi o remédio receitado: falar menos para que os jornais do dia seguinte fiquem mais agradáveis. Lula e boa parte do governo continuam ignorando que, uma vez no governo, a comunicação com a sociedade, para ter credibilidade, passará pelos meios de comunicação e não pelo marketing, mais importante na campanha."

** Na notícia (isto é, no relato que o governo não gostaria que fosse publicado), o Estado de S.Paulo reproduz trechos do discurso em que o presidente menciona a imprensa e acrescenta algumas informações (notícias?) sobre o comportamento do Secretário de Imprensa da Presidência, Ricardo Kotscho, com os jornalistas que desobedecem suas recomendações (19/12, pág. 5; veja íntegra da matéria na rubrica Entre Aspas, nesta edição do OI).

** A informação (notícia??) publicada pela Folha de S.Paulo (mesmo dia, pág. A 4) tem o mesmo título do concorrente e acrescenta alguns detalhes (noticiosos?) sobre a preparação do discurso e do evento.

Uma coisa é certa: foi infeliz a incursão presidencial na teoria jornalística. Revela uma faceta voluntarista até então reservada aos críticos em matéria econômica ou política e poderá gerar perigosas confusões.

Se a mídia insistir no seu aspecto noticioso - isto é, publicar notícias - vai gerar muita irritação. Em compensação, será privilegiada pela publicidade.

Mãe é mãe.


OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET

ENTREVISTA / ROBERTO POMPEU DE TOLEDO
São Paulo em 370 anos de solidão

Leticia Nunes

A capital da solidão - uma história de São Paulo das origens a 1900, de Roberto Pompeu de Toledo, 558 pp., Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2003

Às vésperas de completar 450 anos, São Paulo ganha uma definição inusitada: a de capital da solidão. O título do livro escrito pelo jornalista Roberto Pompeu de Toledo causa estranheza à primeira vista: São Paulo, com todo seu caos urbano, não lembra em nada a palavra solidão.

Mas a São Paulo da obra de Toledo é outra. A capital da solidão - uma história de São Paulo das origens a 1900 trata dos primórdios daquela que é hoje a maior cidade do Brasil e uma das maiores do mundo. Convidado pela editora Objetiva para realizar o projeto, o jornalista levou quatro anos para concretizá-lo. O resultado são mais de 500 páginas que contam uma história de 370 anos da megalópole paulista.

Dividido em três partes, o livro começa em 1530 e tem seu ponto final em 1900. A primeira parte, intitulada "Começo", relata a fundação da Vila de São Paulo de Piratininga, com a chegada dos jesuítas. A segunda, "Incertezas", fala da época em que a cidade buscava uma identidade e não sabia muito bem qual era sua vocação. A terceira e última parte é "Arrancada", que conta o período de impulso para o começo do crescimento de São Paulo, na metade do século 19, com a chegada do café ao Oeste Paulista.

O jornalista, colunista da revista Veja, fez uma vasta pesquisa - em mais de uma centena de livros - para reconstituir a realidade e as dificuldades dos três primeiros séculos de existência de São Paulo. A metrópole de hoje em nada lembra seu nascimento como vila de difícil acesso, escondida pela Serra do Mar, distante do litoral e fora do alcance dos navios portugueses. Com este perfil, São Paulo era isolada, melancólica e solitária: a capital da solidão.

O paulistano Roberto Pompeu de Toledo fala sobre seu livro e sobre sua cidade, hoje nada solitária, na entrevista a seguir.

***

A capital da solidão é um livro grandioso, bem preparado e fruto de um longo trabalho. Por que aceitou escrevê-lo? A proposta inicial da editora já era tão ambiciosa?

Roberto Pompeu de Toledo - O convite da Objetiva coincidiu com dois grandes interesses meus: a história e as cidades. Daí ter concordado com ele. Quanto ao grau de ambição que a editora punha no projeto, não sei responder - isso não foi especificado. Tenho a impressão de que o livro adquiriu porte maior do que o esperado, mas é só uma impressão.

Como foi a experiência de quatro anos de dedicação para contar parte da história da sua cidade?

R.P.T. - Foi como costumam ser os trabalhos que se alongam no tempo: uma alternância de períodos de entusiasmo com períodos de desânimo. Às vezes eu achava que estava produzindo o melhor livro, outras que estava saindo uma porcaria. Às vezes ia em frente com a audácia e o destemor dos bravos (ou dos ingênuos). Outras, me perguntava o que tinha na cabeça ao me enfiar em tal trabalho.

Como organizou e definiu que tipo de pesquisa iria fazer para escrever uma história que abrange 370 anos?

R.P.T. - Foi como naquele verso do Antonio Machado: "El camino se hace ao caminar". Não parei para definir o tipo de pesquisa que deveria ser feito, nem o tipo de organização que deveria ter o livro, nem nada semelhante. As coisas simplesmente foram sendo feitas. O que posso dizer de talvez mais significativo, sob o aspecto de organização, é que não fiz toda a pesquisa para só então começar a escrever. Eu ia pesquisando e escrevendo, por períodos.

Por que a São Paulo de antigamente era a mais brasileira das cidades?

R.P.T. - Porque foi a primeira experiência de criar uma cidade interior adentro e a primeira em que foi determinante a miscigenação entre alguns (poucos) europeus e muitos índios (ou índias, melhor dizendo). Ao longo da costa, em cidades como Rio de Janeiro, Salvador e Olinda, a colonização mais ou menos que copiava os padrões portugueses. Transplantava-se uma civilização. Já em São Paulo, meio desgarrada da metrópole, foi-se obrigado a criar um tipo novo de sociedade, que eu, com alguma liberdade, chamei de "brasileira". Em São Paulo deu-se uma junção do europeu com o índio como não se deu nas cidades litorâneas. Isso se refletia na arquitetura, na comida, nos costumes. Falava-se tupi, nas casas, em São Paulo. Também chamei São Paulo de a mais brasileira das cidades, nesses primeiros anos, para contrastar com o que virou depois - a mais estrangeira das cidades brasileiras. Em 1893, sob o influxo da imigração, São Paulo tinha mais estrangeiros que brasileiros - 54% contra 46% dos habitantes.

A história do livro termina em 1900. Como foi escolhido o ponto final? Há planos de uma continuação da história até os dias de hoje?

R.P.T. - Eu quis contar a história da São Paulo que antecedeu a metrópole. 1900 me convinha. É um ano redondo, e ao mesmo tempo situa-se num período em que a cidade está deixando de ser o vilarejo perdido em cima da serra para virar um centro importante, que aqui e ali já dava sinais de que ia virar uma metrópole. Quanto à continuação, deixo para outro. Eu não vou fazê-la.

Se São Paulo em seus primórdios era a capital da solidão, hoje ela seria a capital de quê?

R.P.T. - Não sei. A capital da confusão, talvez? Que tal? Confusão urbanística, confusão social... São Paulo hoje resume a grande barafunda brasileira.


5º BLOCO

Veja o que disseram os convidados após o programa:

O programa de 23 de dezembro não foi ao vivo. Foi um especial gravado sobre a rádio MEC.


PERGUNTAS

E-mails recebidos:

Lêda Maria
Dines e Lúcia, parabéns! Adoro a Rádio MEC e também o Observatório da Imprensa. Obrigada pelo programa tão especial!!!

Alexandre de Azevedo Vieira, Brasília / DF
Alberto Dines, é um prazer entrar em contato com o seu programa, pena que é para fazer duras críticas a uma concessionária de nosso país. Sexta-feira dia 30/02/04 o SBT apresentou um desenho pornográfico animado entitulado de South Park: maiores, melhores e sem restrição. Porém o filme era mais pornográfico que um daqueles eróticos. As crianças no filme, suas mães e outras personagens falavam mais palavrão que o programa do Ratinho. Chegou mais alguma crítica ao Observatório da Imprensa, ou será que só em Brasília passou essa programação?


Telefonemas recebidos em 23/12:

O programa de 23 de dezembro não foi ao vivo. Foi um especial gravado sobre a rádio MEC.



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