PROGRAMA DO DIA 07 DE OUTUBRO DE 2003

MÍDIA E FINANCIAMENTO

No último programa, o Observatório da Imprensa discutiu a proposta de financiamento para as empresas de comunicação. O projeto, que está sendo elaborado pela Associação Nacional de Jornais (ANJ), Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER) e Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), será apresentado ao BNDES. Ao divulgar as negociações, as três entidades afirmaram, em comunicado conjunto, que querem dar transparência ao processo, assegurando "a total independência do setor em relação a governos e partidos políticos".

Leia o resumo do programa

  Veja o Compacto

SOCORRO DO BNDES
O que fazer para sair do buraco

Alberto Dines

Existem outras saídas para a mídia além da negociação com o BNDES?

Há um par de alternativas que requerem a mesma dose de coragem exigida para conversar com o governo federal. Todas passam pela disposição de abrir mão do controle acionário das empresas jornalísticas. No entanto, nenhuma delas parece disposta a trocar dívidas por parcelas de poder.

Esta é a questão.

A nova redação do artigo 222 permite que as empresas de comunicação possam capitalizar-se no mercado de capitais. Nada foi tentado nesse sentido.

Leia na íntegra

O financiamento oficial compromete a isenção da mídia?

Resultado:

Sim: 84%

Não: 16%

Aqui você pode participar de fóruns sobre assuntos ligados à imprensa, deixar seu recado no nosso mural e ler as perguntas dos telespectadores.

Perguntas - Aqui são colocadas as perguntas dos telespectadores que chegam por telefone, fax ou e-mail durante o programa e ao longo da semana.

5 Bloco - Leia a opinião dos participantes do programa, sobre o debate.

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

Você sabe disso: a democracia exige a independência dos poderes e a imprensa, para funcionar efetivamente, precisa ser autônoma. A imprensa, seja ela considerada quarto ou quinto poder, se depende do Legislativo, do Judiciário ou do Executivo, no mínimo perde a sua espontaneidade e, no máximo, entrega a sua autonomia.

Na terça-feira passada a sociedade brasileira foi informada que as entidades da mídia impressa e eletrônica do país iniciaram o processo de preparação de uma proposta de política de financiamento do BNDES para o setor. Acontece que este anúncio, apesar da relevância da informação, foi publicado de forma quase clandestina. Portanto, em matéria de transparência esta negociação começou mal e a transparência é a alma do negócio da comunicação.


Leia na íntegra

INFORMAÇÕES PÚBLICAS
Abraji cobra transparência do governo

Claudio Julio Tognolli (*)

Apesar da desconversa das elites, há uma luz no fim do túnel quando se fala sobre o acesso às informações públicas no Brasil: a luz é justamente o trem vindo no sentido contrário, pronto para atropelar, com rigores de burocracia medieval, todo e qualquer brasileiro que pretenda receber documentos do Estado. Previsto na Constituição de 1988, o direito dos brasileiros de ter acesso a informações públicas no Brasil nunca foi regulamentado. Desregulamentado permanece o seguinte extrato da Carta Magna:

"Artigo 5, inciso 33: Todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade (...)".

Leia na íntegra


RESUMO DO PROGRAMA

MÍDIA E FINANCIAMENTO

O Observatório da Imprensa de 07 de outubro discutiu a proposta de financiamento da mídia apresentada por entidades do setor ao BNDES. Em editorial, Alberto Dines ressaltou: "A mídia vive uma situação difícil, mas tão ou mais difícil é assistir a uma aproximação da mídia com o governo. A democracia exige a independência dos poderes e a imprensa, para trabalhar, precisa ser autônoma".

Participaram do debate o diretor da revista Exame, Sidnei Basile e o superintendente da editora Escala, Flávio Pestana, ambos em São Paulo; o presidente do jornal Lance!, Walter de Mattos Jr, no Rio de Janeiro; e o jornalista Luiz Carlos Bernardes, em Belo Horizonte.

No início do programa, Flávio Pestana salientou: "O setor vive uma crise conjuntural, que tem muito a ver com o momento econômico e tem problemas estruturais que são muito mais sérios e muito mais difíceis de serem resolvidos. Houve uma migração dos recursos publicitários e novos veículos não param de surgir, pegando parte desse dinheiro. O mundo está mudando e a mídia vai ter que aprender como lidar com isso daqui pra frente".

Walter de Mattos, em resposta a Alberto Dines, que questionou a possibilidade de se conciliar as dificuldades conjunturais com a qualidade, afirmou: "Nós deveríamos estar com o olho num patamar de qualidade muito superior ao que a gente tem visto, porque isso é pré-condição para que as empresas voltem a ter um vigor maior e uma participação de mercado mais significativa".

Sidnei Basile disse que se a mídia realmente receber financiamento do Estado deve oferecer como contrapartida à sociedade, não só a profissionalização da gestão empresarial, mas principalmente "trabalhar pelo aperfeiçoamento dos rituais de apuração e de verificação de nossa atividade. Trabalhar melhor nosso código de ética e assegurar ao nosso leitor que nossa isenção estará sendo garantida".

No encerramento do debate, Luiz Carlos Bernardes defendeu que os jornalistas tenham uma participação mais efetiva na discussão sobre a proposta de financiamento para empresas de comunicação. Ele destacou a necessidade de criar conselhos de redação, conselhos editoriais, equipes de ombudsman que, inclusive, não só ajudem a analisar os veículos, mas atendam ao público.

Manoel Magalhães (estagiário)


EDITORIAL

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

Você sabe disso: a democracia exige a independência dos poderes e a imprensa, para funcionar efetivamente, precisa ser autônoma. A imprensa, seja ela considerada quarto ou quinto poder, se depende do Legislativo, do Judiciário ou do Executivo, no mínimo perde a sua espontaneidade e, no máximo, entrega a sua autonomia.

Na terça-feira passada a sociedade brasileira foi informada que as entidades da mídia impressa e eletrônica do país iniciaram o processo de preparação de uma proposta de política de financiamento do BNDES para o setor. Acontece que este anúncio, apesar da relevância da informação, foi publicado de forma quase clandestina. Portanto, em matéria de transparência esta negociação começou mal e a transparência é a alma do negócio da comunicação.

Este "Observatório da Imprensa" reconhece a gravidade da situação econômica das grandes empresas de mídia brasileira. Tratamos do assunto há exatos três meses quando configurou-se como inevitável algum tipo de aproximação entre o Executivo e a mídia. Também reconhecemos que o setor de mídia é questão de interesse nacional, questão de Estado, sobretudo diante da vertiginosa globalização. Este é o dilema que já deveria ter sido apresentado à sociedade com toda clareza: a mídia vive uma situação difícil mas tão ou mais difícil é assistir a uma aproximação da mídia com o governo.

Ao debater um assunto tão delicado e grave, este "Observatório" não pretende embaraçar ou prejudicar a negociação mas também não pode esquecer que você, leitor, ouvinte ou telespectador também é um cidadão-contribuinte. Portanto duplamente interessado tanto na melhoria da qualidade da informação como na manutenção da independência entre os poderes. Você é o juiz.


ARTIGO
Por Alberto Dines

SOCORRO DO BNDES
O que fazer para sair do buraco

Alberto Dines

Existem outras saídas para a mídia além da negociação com o BNDES?

Há um par de alternativas que requerem a mesma dose de coragem exigida para conversar com o governo federal. Todas passam pela disposição de abrir mão do controle acionário das empresas jornalísticas. No entanto, nenhuma delas parece disposta a trocar dívidas por parcelas de poder.

Esta é a questão.

A nova redação do artigo 222 permite que as empresas de comunicação possam capitalizar-se no mercado de capitais. Nada foi tentado nesse sentido.

Permite igualmente que uma empresa jornalística possa entregar 100% do seu capital a pessoas jurídicas. Também nada foi tentado nessa direção.

Permite que 30% do seu capital sejam entregues a investidores estrangeiros. A hipótese é aventada apenas como forma de pressão: governo e opinião pública não gostariam de assistir a alienação de parte da nossa mídia ao capital estrangeiro.

As principais empresas de comunicação do país estão comprometidas com enormes dívidas junto aos bancos. Algumas já estão inadimplentes, outras entraram na zona de perigo. Nenhuma parece disposta a fazer aquilo que fazem todas as empresas de outros setores quando enrascadas: trocar promissórias por ações. Entregar o poder ou parte dele.

É muito mais fácil recorrer ao Erário, sobretudo diante da ameaça da "desnacionalização" de um setor estratégico como a mídia. Antes de avançar no programa de financiamento do BNDES conviria examinar com a mesma devoção a venda de ações aos fundos de pensão ou aos bancos credores. Os perigos desta opção não diferem muito dos perigos atuais pois o "mercado" já impõe as suas regras e o interesse público não parece prioritário. O modelo de empresa familiar falhou em toda a linha. Está na hora de mudá-lo.

Mais importante do que o exame de outras opções é o debate público. A forma reservada – quase clandestina – utilizada na semana passada para divulgar o início do processo foi decepcionante. Quase desabonadora. Uma nota escondida nos cadernos de economia de terça, 30/9, no Estado de S.Paulo (pág. B 9), O Globo (pág. 26) e Folha de S.Paulo (pág. B 4) não é a maneira mais apropriada para anunciar uma negociação que pode ter profundas implicações na estrutura da nossa mídia e marcar o seu futuro.

A discussão aberta é uma exigência do processo democrático. É, sobretudo, uma forma inteligente de buscar opções e alternativas.


OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET

INFORMAÇÕES PÚBLICAS
Abraji cobra transparência do governo

Claudio Julio Tognolli (*)

Apesar da desconversa das elites, há uma luz no fim do túnel quando se fala sobre o acesso às informações públicas no Brasil: a luz é justamente o trem vindo no sentido contrário, pronto para atropelar, com rigores de burocracia medieval, todo e qualquer brasileiro que pretenda receber documentos do Estado. Previsto na Constituição de 1988, o direito dos brasileiros de ter acesso a informações públicas no Brasil nunca foi regulamentado. Desregulamentado permanece o seguinte extrato da Carta Magna:

"Artigo 5, inciso 33: Todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade (...)".

Aquela tão celebrada frase disparada por Hugo Black, juiz da Corte Suprema dos EUA, segundo a qual "a luz do sol é o mais poderoso detergente", parece não encontrar eco no Brasil. Movida pelo ímpeto de escancarar legalmente tais acessos à luz, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo promoveu em Brasília, em 29 e 30 de setembro de 2003, na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, o Seminário Internacional sobre Direito de Acesso a Informações Públicas, dividido em três etapas.

Na primeira, na noite de 29 de setembro, os ministros Maurício Corrêa e Marco Aurélio Mello, do STF, Valdir Pires, do Controle e da Transparência, o deputado João Paulo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, e Cláudio Fonteles, procurador-geral da República, expuseram suas opiniões sobre o tema.

Na segunda etapa, na manhã de 30 de setembro, foram feitas exposições informativas sobre "A lei de liberdade de informação nos Estados Unidos" (Rosental Calmon Alves), "A Lei de Transparência do México" (Ernesto Villanueva), "O caso do Peru e outros países da América Latina (Javier Casas), "A situação do Brasil" (Fernando Rodrigues) e "A legislação brasileira" (Marco Antônio Bezerra Campos).

Dois repúdios

Na terceira etapa, na tarde de 30 de setembro, houve propostas e debates sobre como encaminhar a partir de agora as discussões sobre o direito de acesso a informações publicas no Brasil. Participaram Rubens Approbatto Machado (presidente do Conselho Federal da OAB), José Chizzotti (conselheiro da Amarribo – Amigos Associados de Ribeirão Bonito), Cláudio Weber Abramo (secretário-geral da Transparência Brasil), Jessie Jane Vieira de Souza (historiadora e ex-diretora do Arquivo Público do Rio), José Antônio Moroni (do Colegiado de Gestão do Instituto de Estudos Socioeconômicos e representante da Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais), Beth Costa (presidente da Federação Nacional dos Jornalistas), Fernando Martins (diretor-executivo da Associação Nacional de Jornais) e Fernando Paulino (professor e representante do Projeto SOS Imprensa da Faculdade de Comunicação da UnB).

Presidente da Abraji, Marcelo Beraba, diretor da Sucursal do Rio da Folha de S.Paulo, afirmou que a associação está comprometida com a continuidade desta campanha. "Esperamos que entidades não-jornalísticas, como Transparência Brasil, OAB e universidades como a UnB assumam a sua liderança. Mas, caso o fórum não vá para a frente, a Abraji pretende continuar tentando articular esta luta, que é de interesse de toda a sociedade, e não apenas de jornalistas e empresas jornalísticas".

O seminário repudiou duas medidas recentes que afetam o direito de acesso e, por conseqüência, a liberdade de expressão. "Foi sugerido o encaminhamento à Casa Civil da Presidência da República de um ofício pedindo a anulação do Decreto 4.553, de 27/12/02 (governo FHC), promulgado em 13/2/03 (governo Lula), que amplia os prazos de sigilo de documentos secretos, confidenciais e reservados e que prevê a renovação indefinida para os documentos ultra-secretos. E foi sugerido repúdio dirigido ao Conselho Federal de Medicina, que baixou resolução obrigando os médicos a exigirem dos jornais leitura prévia de suas entrevistas à imprensa", relata Beraba.

O custo da informação

Diferentemente do Brasil, vários países já dispõem de lei de acesso a informações públicas. África do Sul e Lituânia são exemplos recentes. O caso mais notório é o dos EUA, com o FoIA ("Freedom of Information Act"), lei datada de 1966.

O professor Rosental Calmon Alves, da Universidade do Texas, em Austin, e do Centro Knight, dá a medida dessa lei com números seminais. Rosental, cujo apoio financeiro e logístico, via centro Knight, permitiu o nascimento da Abraji em dezembro do ano passado na ECA-USP, refere: em 2001 os EUA registraram 2.246.212 pedidos de informação com base no FoIA. Os requerimentos de jornalistas representam apenas uma fração mínima desses números. "O acesso a informações públicas é uma demanda da sociedade, e não apenas da corporação jornalística", avalia Fernando Rodrigues, colunista da Folha em Brasília e diretor-executivo da Abraji.

Essa transparência, é claro, tem um custo para o Estado. Embora os interessados tenham de pagar pelas fotocópias, o governo norte-americano tem de se organizar, colocar funcionários à disposição para pesquisas. "Em 2001, os requerimentos de informação custaram US$ 287,8 milhões, ou um pouco mais de um dólar por habitante", relata Fernando Molica, repórter da TV Globo e diretor do Comitê de Liberdade de Expressão e Defesa Profissional da Abraji. Chico Otávio, vice-presidente da Abraji e repórter de O Globo, no Rio, vai mais longe. "Na América Latina, países vizinhos do Brasil já têm lei de acesso à informação. É o caso de Argentina, México e Peru. Não são leis prefeitas, mas colocam os cidadãos desses países em situação mais confortável que os brasileiros", diz.

Análise com RAC

Marcelo Beraba remeteu a este Observatório o seguinte extrato sobre o que representa a principal luta da Abraji:

A luta pelo direito de acesso a informações públicas não interessa apenas aos jornalistas. Ela interessa principalmente à sociedade. Os jornalistas acabam assumindo com mais vigor a luta porque se deparam com mais freqüência com o obscurantismo das administrações públicas. Mas uma lei de transparência vai beneficiar principalmente o cidadão comum e entidades da sociedade civil. Exatamente por esta razão fizemos questão de convidar para o debate da tarde várias entidades não-jornalísticas, como Inesc, Transparência Brasil, OAB, UnB e Amarribo.

A gente ouviu na mesa vários depoimentos ilustrativos de como a dificuldade para se obter informações que deveriam ser públicas penaliza o cidadão comum e as entidades que lutam por mais cidadania e democracia. Foram vários exemplos, todos mais importantes do que qualquer caso nosso, de jornais e jornalistas. Esta luta por transparência irá para a frente na hora em que se tornar uma luta da sociedade, não dos jornalistas. Por isso, foi muito importante que a UnB e a Transparência Brasil tenham aceito abrigar a articulação de um fórum que vai dar continuidade ao seminário de Brasília.

Os planos da Abraji vão também em outras direções. Há duas semanas, por exemplo, a equipe de reportagem do Jornal Nacional pôs em xeque números de homicídios divulgados pelo governo do Estado do Rio. A base da contestação foi uma engenhosa análise dos números oficiais a partir de técnicas de Computer Assisted Reporting, ou simplesmente RAC (Reportagem com Auxílio de Computador ). Assim como jornalistas lastreados por todo o país, a técnica empregada pelos jornalistas da Globo foi repassada a um grupo de 23 jornalistas de todas as regiões do Brasil, que recebeu treinamento para ensinar técnicas de reportagem com auxílio do computador em suas regiões, numa iniciativa do Centro Knight de Jornalismo nas Américas, da Universidade do Texas em Austin, com a Abraji.

Bases de dados

Os jornalistas foram treinados nos dias 9 e 10 de agosto em CAR por Brant Houston e Ron Nixon, respectivamente diretor-executivo e diretor de treinamento da Investigative Reporters and Editors. Houston e Nixon ensinaram aos colegas brasileiros técnicas de análise de planilhas eletrônicas e de bases de dados para que os jornalistas possam entender o funcionamento de planilhas de cálculos e bases de dados, podendo buscar pautas exclusivas e fazer perguntas melhores às autoridades. O curso ocorreu em instalações cedidas pela Folha de S.Paulo, em salas especialmente montadas para treinamento de jornalistas.

O grupo que fez o curso também recebeu orientações sobre como melhor repassar esse conhecimento a colegas em suas regiões. Como o Brasil tem 27 estados e quase as mesmas dimensões territoriais dos EUA, é economicamente mais viável espalhar o treinamento pelo território nacional tendo instrutores em todas as regiões.

O Brasil não tem uma lei que discipline o acesso às informações públicas, e há poucas bases de dados governamentais disponíveis para análise digital, mas os instrutores da IRE incentivaram seus colegas brasileiros a criar suas próprias bases de dados para reportagens e ensinaram como isso pode ser feito.

Dados na internet

"O computador não transforma um jornalista ruim num bom jornalista", disse Brant Houston, citando o repórter americano Elliot Jaspin, um dos primeiros praticantes de CAR. "Transforma, isso sim, um bom jornalista num melhor ainda." Segundo Ron Nixon, "as técnicas de CAR não são fáceis, mas ajudam a encontrar matérias fascinantes".

Um dia antes do curso, Houston e Nixon deram palestra a cerca de uma centena de jornalistas, professores e estudantes de Jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. O jornalista Rosental Calmon Alves, diretor do Centro Knight, falou na ocasião sobre o compromisso de apoiar a consolidação da Abraji, organização independente criada em dezembro do ano passado por jornalistas brasileiros interessados no jornalismo de investigação.

O diretor de CAR da Abraji, José Roberto de Toledo, fez apresentação sobre bancos de dados e materiais disponíveis na internet brasileira, que podem ser utilizados pelos jornalistas que tiverem conhecimentos básicos de CAR. Foram discutidos os princípios básicos das investigações jornalísticas com auxílio do computador, a vasta quantidade de dados na internet e os cuidados a tomar ao fazer esse tipo de análise.

Funcionamento da cidadania

Este evento será ampliado, paulatinamente, para todo o Brasil: a jornalista Suzana Veríssimo, da revista Exame, exerce as funções de diretora de Comitês Regionais, ora baseada em Recife. A primeira revista da Abraji já está em fase de fechamento. É feita por alunos do quarto ano de Jornalismo da ECA-USP e trará substrato caudaloso sobre o que é o jornalismo investigativo brasileiro.

A página da Abraji, mantida pelos jornalistas Marcelo Soares e Daniela Bertochi Seawright, que fica na URL <http://www.abraji.org.br>, traz as principais dicas de jornalismo investigativo, sobretudo online, além dos planos futuros da associação.

Em entrevista a este Observatório, o presidente do STF, ministro Maurício Corrêa, avaliou assim o esforço da Abraji:

"Este evento se constitui num momento extraordinário para que se discuta esse tema. Às vezes, a imprensa ainda é mal vista, não é acolhida, quando na verdade ela está prestando um serviço da mais alta relevância à sociedade brasileira. Toda vez que um agente do poder público se nega a prestar esse tipo de informação ele poderá, na verdade, contribuir para atrapalhar o funcionamento da cidadania, mas seguramente não estará prestando um bom serviço ao nosso Brasil, no sentido da transparência das atividades do serviço público. Basta dar uma pesquisada para ver o extraordinário papel que desenvolveu o jornalismo investigativo no Brasil ao apurar crimes de responsabilidade praticados por agentes públicos, sejam eles aqueles mais modestos até o presidente da República, como já ocorreu em nosso país, e posso dizer isso com absoluta tranqüilidade porque fui membro pelo menos de duas importantes CPIs no Congresso Nacional no momento em que eu era senador da República."

(*) Diretor do Comitê de Ensino da Abraji


5º BLOCO

Veja o que disseram os convidados após o programa:

Rio de Janeiro:
Walter de Mattos Junior - Pres. Diário Lance!

Pergunta1: O que faltou ser debatido no programa?
Walter de Mattos: "Eu acho que, por um lado, a pensata do país sobre a mídia não se restringe a uma questão simplesmente de financiamento, e de outro lado ao discutir uma solução mais estruturada para uma qualidade maior da imprensa brasileira, que agente introduza nesse debate sem dúvida contrapartidas que têm que haver por parte da imprensa para a sociedade no sentido da transparência e no sentido de um modelo de gestão novo e no sentido de algum tipo de auto-regulação, já que é absolutamente indesejável uma interferência externa nos conteúdos jornalísticos."

Pergunta2: E como pode ser feita uma auto-regulação?
Walter de Mattos: "Pode acontecer através de um conselho de ética, isso pode acontecer através das próprias entidades de classe, criando conselhos de auto-regulação, a gente tem alguns aqui no Brasil que funcionam muito bem, o próprio Conar que é muito próximo da mídia e funciona bem. Eu acho que para isso você teria que ter pessoas do meio e pessoas de fora do meio, e que decisões destes conselhos e deste órgão de auto-regulação tivessem efetividade. Ele não tem que ter legalidade, mas ele tem que ter uma efetividade, no sentido de ser reconhecido como alguém que quando emite um veredicto, aquilo ali tem algum efeito prático."

São Paulo:
Sidnei Basile - Dir. Revista Exame

"De maneira geral o programa foi muito bom, agora, se tem uma coisa que está faltando é pormenorizar um pouco mais como se dará a governança desse processo todo. Porque me parece que isso é crítico, estabelecer as condições de governança corporativas desse processo."

Flávio Pestana - Superintendente da Ed. Escala
"A discussão foi ótima, acho que faltou entrar um pouco mais em alguns pontos, o ponto da governança e, como estamos falando de empresas de faturamento de 3 bilhões e de empresas de faturamento de 20 mil, então como é que vai conseguir dar um tratamento mais ou menos equânime para algo tão disperso assim? Este assunto é muito rico e ainda vai exigir muito debate no seu detalhamento."


PERGUNTAS

E-mails recebidos na semana de 07/10 a 14/10:

Evaldo Juscelino
O episódio no Domingo Legal do Gugu em que sua equipe de produção entrevistou supostos membros do PCC rendeu bons frutos para os ditos "ameaçados" (Marcelo Rezende, Datena),que utilizaram nas semanas seguintes ao fato, entrevistas, reportagens e matérias com deputados, delegados, advogados, inclusive o do PCC, para obter audiência, como foi a intenção do "Sr Gugu" no Domingo Legal. Pelo que se vê, eles (Gugu, Marcelo Rezende, Datena e outros) parecem mesmo uma facção em nome de audiência própria.

Arlindo Martins Corrêa e Fernando Aguiar Gomide
Os programas de tv têm com objetivo conseguir o maior índice de audiência e, na maioria das vezes, não se preocupam com as informações passadas aos telespectadores. Sendo assim, não se importam com a cultura, com um nível melhor de informação e sim com um sensacionalismo vulgar sempre apresentado em horário nobre. Um exemplo disso foi o ocorrido no programa Domingo Legal do SBT, apresentado por Gugu Liberato, que exibiu uma entrevista com dois supostos integrantes do "PCC" e deu fama a uma organização criminosa sem medir conseqüência, tudo para conseguir "valiosos pontos de audiência". Achamos importante que exista um código de ética que, ao invés de censurar, crie normas para regulamentar o que passa na tv.


Telefonemas recebidos em 07/10:

Márcio Cardeal, São Paulo
Os veículos de comunicação se endividaram por terem investido em novos setores, nos quais estes veículos não tinham experiência.

Aroldo Fernandes, Duque de Caxias / RJ
A mídia de forma alguma deveria associar-se às mentalidades da população (ingênua e complicada). Pois o problema do país não é político, mas sim econômico. Por que não substituir para entrevistas os políticos por economistas (eleições de quatro em quatro anos, precisamos cobrar deles)?

Luís Henrique, Itatiba / SP
Até que ponto o financiamento da imprensa vai fazer com que o governo se redima da responsabilidade de fazer investimento em educação?

Severino da Silva, Rio de Janeiro
É impossível a separação do poder econômico da atuação da imprensa?

Nelson Holanda, Goiânia / GO
Se a mídia receber empréstimo do BNDES ficará comprometida a pouca isenção que já existe.

Renato de Carvalho, Santos / SP
A respeito do financiamento do BNDES aos órgãos da imprensa: como essas empresas beneficiadas com o empréstimo irão pagar suas dívidas sem resolver o problema da falta de anunciantes? Vai acabar um acúmulo de mais dívidas, caindo-se num ciclo vicioso.

Luís Caldeira, Rio de Janeiro
A falta de recolhimento de INSS, fundo de garantia e outros, já não tem sido um involuntário aporte de capitais para o governo? Por que as empresas continuam deficitárias?

Ribamar Santana, São Luís / MA
Este momento de crise da imprensa, não é um momento propício para a criação de um projeto público de comunicação?

Wilson de Jesus Carvalho, Rio de Janeiro
Será que se os meios de comunicação tomarem financiamento do Estado, não estarão comprometendo sua credibilidade?

Lindomar Galiano, Eugenópolis / MG
As denúncias a respeito dos órgãos da imprensa prejudicam a mídia?

Humberto Ferreira, Rio de Janeiro
A mídia já é considerada o quarto poder, logo destinar recursos a ela seria oficializar algo que hoje é apenas simbólico.

Adeilton Rodrigues, São João do Piauí / PI
Na mudança na comunicação do Piauí as rádios comunitárias tiveram um papel importante. Como a imprensa do interior, de pequeno porte, poderia se beneficiar com o empréstimo do BNDES?

Carlos Alberto, São Paulo
Se ficar provado que a imprensa apoiou o PT para conseguir recursos do BNDES, como ficará a imagem da mesma perante o mundo?

Mário Nogueira, Monte Mauá / SP
O preço dos jornais foi um dos que mais se inflacionou nos últimos anos, e apesar disso essas empresas ainda querem financiamento do BNDES?

Reginaldo Gouvea, Limeira / SP
A respeito dos empréstimos dados a mídia, eles pode interferir na produção de informação podendo no futuro criar manipulação.

Francisco de Paula, Rio Verde / GO
Não estariam os donos destas empresas (pessoa física) ficando ricos, causando assim a sua falência?

Tito Cardoso, São João do Piauí / PI
Flávio Pestana, o senhor afirmou que os investimentos publicitários vêm se diversificando e migrando para as televisões por assinatura e novas revistas e jornais. Mas essas TVs e revistas não pertencem aos mesmos grupos e donos?

Jaime de Souza, São Paulo
A perda de leitores dos jornais também não é fruto da sua falta de credibilidade?

Giovani da Silva, Taubaté / SP
Por que ao invés de pegar dinheiro do BNDES, essas empresas não cortam seus gastos, que são exorbitantes?

Tom Lima, Taubaté / SP
Dines, você pode citar algum país em que essa "parceria" tenha dado certo?

Rui Britto, Porto Alegre / RS
Os que não têm talento têm que falir mesmo, não têm que receber nenhum financiamento do BNDES de forma alguma.



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