RESUMO DO PROGRAMA
QUALIDADE DO ENSINO DE JORNALISMO
O
Observatório da Imprensa do dia 9 de setembro tratou de um assunto que,
segundo Alberto Dines, é uma das mazelas internas da imprensa
brasileira: o ensino de jornalismo. Um dos exemplos que demonstram a
crise que ocorre nas faculdades de jornalismo é o que aconteceu com a
Cásper Líbero, de São Paulo, onde dezessete professores demitiram-se em
protesto contra o que consideraram a mercantilização do ensino de
jornalismo.
Participaram, ao vivo, do Observatório: o Secretário de Educação
Superior do Ministério da Educação, Carlos Roberto Antunes, de Brasília;
o jornalista e professor, Mario Vitor Santos e a professora da USP,
Eunice Ribeiro Durham, de São Paulo; os professores e jornalistas Irene
Cristina Gurgel e Felipe Pena, no Rio de Janeiro e Beatriz Becker, via
Internet, do posto avançado da UFRJ. Também deram depoimentos gravados,
o Diretor da Faculdade Cásper Líbero, Erasmo Freitas Nuzzi e o professor
do Departamento de Comunicação da PUC-Rio, José Carlos Rodrigues.
A
respeito do que ocorre internamente nas faculdades, José Carlos
Rodrigues observou: "Você tem um departamento que gasta, que é o
acadêmico, e um departamento que arrecada. Quando você fala na crise do
ensino das universidades particulares, em grande parte, está em jogo
essa questão das prioridades. Para vários cursos existe menos de um
candidato por vaga. Essa competição pelo aluno obriga as universidades a
se colocarem na mídia para fazer uma propaganda que nunca foi uma
propaganda, na minha opinião, muito legítima".
O novo
modelo de avaliação das universidades que o governo pretende adotar em
substituição ao Provão, foi defendido pelo secretário Carlos Roberto
Antunes: "A importância dessa proposta é que ela é constituída de algo
importantíssimo e fundamental, a avaliação da instituição. Deixamos de
fazer exclusivamente a avaliação do ensino e passamos a criar um sistema
nacional de avaliação da educação do ensino superior". Segundo ele, é um
processo inédito e original que permite que a sociedade se pronuncie a
respeito das instituições.
A
professora Eunice Durham defendeu o Provão: "Foi a primeira fez que a
população em geral teve informações razoavelmente objetivas sobre a
qualidade de ensino. Essa proposta atual do Ministério da Educação não
vai dar em nada, não se fecharão cursos desse modo". A professora
identificou como entrave à avaliação das faculdades, o corporativismo
das universidades públicas: "O que as universidades públicas propõem é
uma avaliação que não permita uma comparação entre elas e o ensino
privado", afirmou.
O
jornalista e ex-coordenador da Cásper Líbero, Mario Vitor Santos,
comentou a crise da faculdade e a reação dos professores: "Essa luta
começou quando nós decidimos nos levantar contra uma decisão da direção
da faculdade no sentido da ampliação do número de alunos por sala de
aula. Infelizmente, o pacto da mediocridade está crescendo nas
faculdades particulares e nas faculdades públicas. O que aconteceu com a Cásper Líbero marca mais uma derrota nesse processo. Espero que isso
tenha uma solução rapidamente", finalizou o jornalista.
Claudia
Bojunga (estagiária)
EDITORIAL
Bem vindos ao Observatório
da Imprensa.
Você
acabou de ver a abertura do programa do dia 25 de maio de 2002 quando
denunciamos uma sentença judicial que restabeleceu a censura prévia
na mídia brasileira. O juiz Renato Khamis do TRT de S. Paulo entrou
com uma medida cautelar proibindo qualquer menção ao processo
administrativo que o envolvia por assédio sexual.
Começava
a era da censura togada. Esta era acabou no fim de agosto quando caiu
a medida cautelar e a imprensa ficou liberada para tratar do assunto
dentro dos limites impostos pelos procedimentos judiciais. A Folha de
S. Paulo foi o único jornal que hoje registrou o fim do vexame.
A
imprensa sofre ataques externos e sofre de mazelas internas. O ensino
do jornalismo é uma destas mazelas porque o Brasil é um dos países
onde a profissão de jornalista é regulamentada, ao contrário de
outros países onde o acesso é livre.
No
Brasil para ser profissional de imprensa é necessário um diploma.
Logo a qualidade do jornalismo que se pratica no país não pode ser
desvinculada da qualidade do ensino de jornalismo. No entanto esta
qualidade é condicionada pela quantidade.
Segundos
dados do INEP do Ministério da Educação temos 324 escolas de
jornalismo que colocam no mercado de trabalho 13.200 novos jornalistas
todos os anos. Como o mercado de trabalho pode absorver no máximo 20%
deste total, o ensino do jornalismo transformou-se na indústria do
diploma.
O que
interessa à maioria das 259 escolas privadas de jornalismo é dar um
diploma porque sabem que dificilmente os diplomados chegarão a
trabalhar como jornalistas.
O provão
de jornalismo não conseguiu fechar verdadeiras arapucas acadêmicas
protegidas por caciques políticos locais. E só agora o novo governo
decidiu que manterá o exame de avaliação das escolas talvez com
outro nome e novos critérios. Antes assim.
Mas
enquanto o sistema, sobretudo o sistema privado, não é saneado
assistimos a vexames como o que aconteceu com a Cásper Líbero de S.
Paulo, a mais antiga do país, onde 17 professores com larga experiência
profissional demitiram-se em protesto contra o que consideram a
mercantilização do ensino de jornalismo.
Por
isso, não podemos comemorar devidamente o fim de uma aberração
judicial porque temos que encarar algo ainda mais grave: a
desqualificação do ensino do jornalismo é tão perniciosa quanto a
censura togada.
ARTIGO
Por Alberto Dines
AVALIAÇÃO
IMPLODIDA
Algo de podre no reino do Provão
Alberto Dines
O
governo, por intermédio do seu ministro da Educação, quer avaliar o
ensino superior, quer punir os estabelecimentos que não oferecem
condições satisfatórias mas não quer o Provão. Ou seja: não quer
o Provão PR (Paulo Renato, ex-ministro). Que se faça então o Provão
CB (Cristovam Buarque, atual ministro).
Alguma
coisa precisa ser feita com urgência para evitar os descalabros e os
chocantes episódios como o que está acontecendo na Cásper Líbero,
a decana do ensino do jornalismo no Brasil, praticamente parada porque
o corpo docente protesta contra a sua crescente mercantilização.
O
governo levou nove longos meses para resolver o dilema hamletiano
"Provão ou não Provão?", e enquanto não põe em marcha
uma alternativa viável convém lembrar os vilões desta história:
** O
lobby do ensino superior privado agia dentro do Conselho Nacional de
Educação impedindo a consumação das punições. Sabotagem
escancarada. Avesso à idéia do controle público, o lobby privatista
preferiu nivelar por baixo - proteger as arapucas dos nanicos para
evitar que no futuro as grandes empresas de educação pudessem ser
igualmente enquadradas. Comandante do lobby: o "imortal"
Arnaldo Niskier, que a mídia acolhe com todo o carinho porque traz os
anúncios das universidades mais ricas.
** O
lobby corporativo da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e da
União Nacional dos Estudantes (UNE), com interesses diferentes e
objetivos finais em comum: impedir o controle social do ensino
superior. Em outras palavras: proibir a sociedade de cuidar da formação
das próximas gerações.
Inicialmente
a Fenaj chegou a aderir à idéia do Provão ao designar alguns
representantes de altíssimo nível para integrar o Grupo de Trabalho
que estabeleceu as bases do sistema de avaliação das escolas de
Jornalismo. Arrependeu-se logo em seguida e mandou dizer que "desindicava"
os nomes que acabara de indicar. Então aconteceu uma coisa extraordinária:
a maioria dos professores-jornalistas indicados pela Fenaj aceitou
continuar no Grupo de Trabalho como cidadãos desvinculados de
qualquer instituição.
O Provão,
assim como a idéia das agências reguladoras, é um avanço democrático
mas não conseguiu moralizar e melhorar o ensino de Jornalismo porque
foi sabotado em dois níveis: no plano administrativo, ao solapar o
esforço para punir abusos do setor privado, e no plano político,
quando o setor público chegou a combater de forma truculenta a avaliação.
O
ministro Cristovam Buarque disse que deseja fechar os cursos ruins.
Parabéns! Mas é preciso barrar urgentemente o licenciamento de
instituições precárias apadrinhadas por políticos da chamada
"base aliada". Isto aconteceu no governo passado e corre o
risco de acontecer com o novo.
O
"negócio" da educação superior no Brasil movimenta milhões
de dólares, está chamando a atenção dos "investidores"
estrangeiros que já perceberam onde e como atravessar os sistemas de
controle. Políticos e educadores inescrupulosos estão ouriçados.
A mídia
não deu seqüência a uma denúncia de página inteira publicada em O
Globo ("Contratos sob suspeita", 31/8, pág. 22), na qual se
mostra que o governo fluminense pagou nos últimos três anos mais de
500 milhões de reais a um pequeno grupo de universidades privadas e
fundações para evitar licitações. Uma destas
"universidades" chama-se Unicarioca e pertence ao mesmo
"imortal" Arnaldo Niskier (recebeu quase 50 milhões, 10% do
total).
Há
algo de podre no reino do Provão. Mais uma prova da atração entre a
má-fé e as forças do atraso contra a modernização e os avanços.
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA NA INTERNET
CENSURA
TOGADA
Publicar ou não publicar, eis a questão
Victor Ribeiro (*)
A
prisão do jornalista Avelino Ferreira, na sexta-feira, 29 de
agosto, em Campos dos Goytacazes (RJ), soou como mais um ato com
intuito claro de restringir a liberdade de imprensa. O jornalista
foi condenado nos artigos 20 e 21 da Lei de Imprensa pela Segunda Câmara
Criminal do Tribunal de Justiça do Rio. Os referidos artigos dizem
o seguinte:
Art.
20 - Caluniar alguém, imputando-lhe falsamente fato definido como
crime:
Pena:
Detenção, de 6 (seis) meses a 3 (três) anos, e multa de 1 (um) a
20 (vinte) salários-mínimos da região.
§ 1º
Na mesma pena incorre quem, sabendo falsa a imputação, reproduz a
publicação ou transmissão caluniosa.
§ 2º
Admite-se a prova da verdade, salvo se do crime imputado, embora de
ação pública, o ofendido foi absolvido por sentença irrecorrível.
§ 3º
Não se admite a prova da verdade contra o Presidente da República,
o Presidente do Senado Federal, o Presidente da Câmara dos
Deputados, os Ministros do Supremo Tribunal Federal, Chefes de
Estado ou de Governo estrangeiro, ou seus representantes diplomáticos.
Art.
21 - Difamar alguém, imputando-lhe fato ofensivo à sua reputação:
Pena:
Detenção, de 3 (três) a 18 (dezoito) meses, e multa de 2 (dois) a
10 (dez) salários-mínimos da região.
§ 1º
A exceção da verdade somente se admite:
a) se
o crime é cometido contra o funcionário público, em razão das
funções, ou contra órgãos ou entidade que exerça funções de
autoridade pública;
b) se
o ofendido permite a prova.
§ 2º
Constitui crime de difamação a publicação ou transmissão, salvo
se motivada por interesse público, de fato delituoso, se o ofendido
já tiver cumprido pena a que tenha sido condenado em virtude dele.
Avelino
publicou, num jornal de Miracema, cidade vizinha a Campos, matérias
nas quais criticava as sentenças do juiz Alexandre Mesquita Cardoso
(da comarca de Miracema) e a conduta de um político local. Como
percebemos no artigo 20, os políticos têm privilégios em relação
a esta lei. Vejamos agora o artigo 27 da mesma Lei de Imprensa:
Art.
27 - Não constituem abusos no exercício da liberdade de
manifestação do pensamento e de informação:
I -
a opinião desfavorável da crítica literária, artística, científica
ou desportiva, salvo quando inequívoca a intenção de injuriar ou
difamar;
II
- a reprodução, integral ou resumida, desde que não constitua
matéria reservada ou sigilosa, de relatórios, pareceres, decisões
ou atos proferidos pelos órgãos competentes das Casas
Legislativas;
III
- noticiar ou comentar, resumida ou amplamente, projetos e atos do
Poder Legislativo, bem como debates e críticas a seu respeito;
IV
- a reprodução integral, parcial ou abreviada, a notícia, crônica
ou resenha dos debates escritos ou orais, perante juízes e
tribunais, bem como a divulgação de despachos e sentenças e de
tudo quanto for ordenado ou comunicado por autoridades judiciais;
V -
a divulgação de articulados, quotas ou alegações produzidas em
juízo pelas partes ou seus procuradores;
VI
- a divulgação, a discussão e a crítica de atos e decisões do
Poder Executivo e seus agentes, desde que não se trate de matéria
de natureza reservada ou sigilosa;
VII
- a crítica às leis e a demonstração de sua inconveniência ou
inoportunidade;
VIII
- a crítica inspirada pelo interesse público;
IX
- a exposição de doutrina ou idéia.
Parágrafo
único. Nos casos dos incisos II a VII deste artigo, a reprodução
ou noticiário que contenha injúria, calúnia ou difamação deixará
de constituir abuso no exercício da liberdade de informação, se
forem fiéis e feitas de modo que não demonstrem má-fé.
De
certa forma, há contradições práticas entre os artigos 20 e 21 e
o artigo 27. Os artigos 29 e 30 falam sobre o direito de resposta:
Art.
29 - Toda pessoa natural ou jurídica, órgão ou entidade pública,
que for acusado ou ofendido em publicação feita em jornal ou periódico,
ou em transmissão de radiodifusão, ou a cujo respeito os meios de
informação e divulgação veicularem fato inverídico ou errôneo,
tem direito a resposta ou retificação.
§ 1º
A resposta ou retificação pode ser formulada:
a)
pela própria pessoa ou seu representante legal;
b)
pelo cônjuge, ascendente, descendente e irmão, se o atingido está
ausente do País, se a divulgação é contra pessoa morta, ou se a
pessoa visada faleceu depois da ofensa recebida, mas antes de
decorrido o prazo de decadência do direito de resposta.
§ 2º
A resposta, ou retificação, deve ser formulada por escrito, dentro
do prazo de 60 (sessenta) dias da data da publicação ou transmissão,
sob pena de decadência do direito.
§ 3º
Extingue-se ainda o direito de resposta com o exercício de ação
penal ou civil contra o jornal, periódico, emissora ou agência de
notícias, com fundamento na publicação ou transmissão
incriminada.
Art.
30 - O direito de resposta consiste:
I -
na publicação da resposta ou retificação do ofendido, no mesmo
jornal ou periódico, no mesmo lugar, em caracteres tipográficos idênticos
ao escrito que lhe deu causa, e em edição e dias normais;
II
- na transmissão da resposta ou retificação escrita do
ofendido, na mesma emissora e no mesmo programa e horário em que
foi divulgada e transmissão que lhe deu causa; ou
III
- a transmissão da resposta ou da retificação do ofendido, pela
agência de notícias, a todos os meios de informação e divulgação
a que foi transmitida a notícia que lhe deu causa.
§ 1º
A resposta ou pedido de retificação deve:
a) no
caso de jornal ou periódico, ter dimensão igual à do escrito
indiscriminado, garantido o mínimo de 100 (cem) linhas;
b) no
caso de transmissão por radiodifusão, ocupar tempo igual ao da
transmissão incriminada, podendo durar no mínimo um minuto, ainda
que aquela tenha sido menor;
c) no
caso de agência de notícia, ter dimensão igual à da notícia
incriminada.
§ 2º
Os limites referidos no parágrafo anterior prevalecerão para cada
resposta ou retificação em separado, não podendo ser acumulados.
§ 3º
No caso de jornal, periódico ou agência de notícia, a resposta ou
retificação será publicada ou transmitida gratuitamente, cabendo
o custo da resposta ao ofensor ou ao ofendido, conforme decisão do
Poder Judiciário, se o responsável não é o diretor ou
redator-chefe do jornal, nem como ele tenha contrato de trabalho ou
se não é gerente ou proprietário da agência de notícias nem com
ela, igualmente, mantenha relação de emprego.
§ 4º
Nas transmissões por radiodifusão, se o responsável pela
transmissão incriminada não é o diretor ou proprietário da
empresa permissionária, nem com esta tem contrato de trabalho, de
publicidade ou de produção de programa, o custo da resposta cabe
ao ofensor ou ao ofendido, conforme decisão do Poder Judiciário.
§ 5º
Nos casos previstos nos § 3º e 4º, as empresas têm ação
executiva para haver o custo de publicação ou transmissão da
resposta daquele que é julgado responsável.
§ 6º
Ainda que a responsabilidade de ofensa seja de terceiros, a empresa
perde o direito de reembolso, referido no § 5º, se não transmite
a resposta nos prazos fixados no art. 31.
§ 7º
Os limites máximos da resposta ou retificação, referidos no § 1º,
podem ser ultrapassados, até o dobro, desde que o ofendido pague o
preço da parte excedente às tarifas normais cobradas pela empresa
que explora o meio de informação ou divulgação.
§ 8º
A publicação ou transmissão da resposta ou retificação,
juntamente com comentários em caráter de réplica, assegura ao
ofendido direito a nova resposta.
Em
vez de exercerem o direito de resposta, publicando um desmentido no
mesmo lugar e espaço onde se encontravam as matérias, o político
e o juiz preferiram mandar prender o jornalista. Muito mais simples
agir assim, não é? O problema é que este acontecimento traz à
tona, mais uma vez, a questão da censura. Se, a partir de agora, em
vez de querer o direito de resposta, a parte que se sentiu ofendida
quiser encarcerar o jornalista, teremos, cada vez mais, um
jornalismo reprimido.
Isto
compromete diretamente a qualidade da informação publicada, porque
ninguém quer ser preso.
Ainda
justa
Outro
problema é que o "crime" de Avelino foi ter publicado
informações que conseguira apurar. Caso não publicasse, poderia,
inclusive, responder a processo por infringir a ética jornalística,
retendo informações de interesse público e, nesta hipótese,
favorecendo um juiz e um político.
Situação
complicada. Algo como "se correr, o bicho pega; se ficar, o
bicho come". Dilema digno de Shakespeare: publicar ou não
publicar? Eis a questão.
Lembremos
a primeira frase da Lei de Imprensa: "É livre a manifestação
do pensamento e a procura, o recebimento e a difusão de informações
ou idéias, por qualquer meio, e sem dependência de censura,
respondendo cada um, nos termos da lei, pelos abusos que
cometer."
Nos
últimos meses, a questão da liberdade de imprensa foi muito
discutida neste Observatório. Nossos juristas, entretanto,
continuam agindo de forma contrária à ética jornalística. O mais
curioso é que esta atitude da Justiça não está errada. Nossa
legislação oferece defesa para ambas as partes: para o jornalista
e para a parte ofendida (juiz e político, no caso). Chega-se à
impressão de que o mais importante não é ter a lei, mas sim um
advogado competente e que, de preferência, seja amigo do juiz que
dará a sentença.
Prefiro
acreditar que, apesar de cega, nossa Justiça ainda é justa, e o
advogado Paulo Rangel de Carvalho, ex-presidente da OAB campista,
indicado pela OAB-RJ para acompanhar o caso, terá bom senso ao
analisar o caso. Avelino Ferreira já está cumprindo a pena de 10
meses de prisão em regime semi-aberto numa penitenciária de
Campos.
(*)
Estudante de Jornalismo na Universidade Federal Fluminense
5º BLOCO
Veja o que disseram os
convidados após o programa:
Rio de
Janeiro:
Felipe
Pena - Jornalista e Professor
Pergunta: Uma questão que ninguém abordou foi a do vestibular. A Estácio
oferece relativamente uma quantidade de vagas que se iguala à procura
dos alunos. Isso acaba influindo na qualidade do ensino?
Felipe
Pena: "Não sei, na verdade eu acho que o que realmente
influencia, o que realmente é determinante é a qualidade do ensino
que você recebe na faculdade durante o curso. E isso se estabelece em
três critérios básicos que são aqueles que eu mencionei: corpo
docente, as instalações e o projeto pedagógico. E nisso a gente não
é só muito bem avaliado, como nós cuidamos intensamente desses três
aspectos para que o aluno tenha o melhor ensino possível."
Irene
Cristina Gurgel do Amaral - Jornalista e Professora
Pergunta: Com o antigo sistema do provão do MEC, a classificação se
dividia em conceitos, o que facilitava a divulgação dos resultados.
Agora com essa classificação não tão clara e explícita, não fica
mais difícil divulgar estas pesquisas à sociedade?
Irene
Cristina: "Não, por exemplo: quem boicotava levava conceito E, e
quem era ruim também levava conceito E. É uma curva estatística que
não deve ser utilizada para isso. O provão tinha perguntas que não
avaliavam, o provão tinha perguntas mal formuladas e nós comprovamos
isso, e com erros inclusive. E os universitários das escolas públicas
que boicotaram tinham conceito E, em escolas que tinham conceito A
como corpo docente, conceito A como projeto pedagógico, conceitos C e
D em laboratórios porque o MEC não cuidava dos laboratórios. Em
relação às universidades particulares, O MEC coloca à disposição
empréstimos bancários, e as universidades particulares todas que
foram avaliadas fizeram esses empréstimos a perder de vista, com
juros baixíssimos, com uma carência também bastante grande para
começar a pagar o empréstimo. Aí então elas tiveram a chance de se
equipar. As universidades públicas não. Não tiveram direito a
nenhum empréstimo, e não recebiam do MEC os laboratórios. Esse ano
nós recebemos o material que pedimos em 97, um atraso muito grande.
Então como avaliar da mesma forma, se o próprio mantenedor, no caso
o MEC, não dá condições a essas universidades. E eu acho que
realmente pra gente fazer curso bom nas universidades públicas, a
gente pena, mas faz. Estamos aí comprovando que são as melhores
universidades. Então eu acho que esse conceito E de boicote no provão
não pode nunca ser levado em consideração junto com o conceito E de
outros que, apesar de fazerem os cursos pré-provão, não conseguiram
tirar conceito A."
São
Paulo:
Eunice
R. Durham - Professora
"Discussões pela televisão são muito difíceis porque dada a
própria natureza do meio você consegue passar alguma informação,
mas debate é realmente impossível e então, nesse programa, acho que
cada um fez o que era possível. Mas não deu para explicar o que está
acontecendo, apenas pudemos levantar o problema."
Mario
Vitor Santos - Jornalista e Professor
"Eu acho que faltou a gente discutir quais as reais motivações
que estão por trás do fim do provão. Eu acho que isso realmente não
foi aprofundado. E no caso da Cásper Líbero acho que faltou discutir
quase tudo. Não foi possível detalhar o processo, que é muito
esclarecedor sobre as práticas da direção da faculdade e da maneira
rara como os professores afirmaram suas convicções. Enfim é muito
difícil falar sobre tudo isso num espaço de tempo tão curto, mas de
qualquer forma, acho que para um público razoavelmente grande o
assunto foi tocado e impressões foram transmitidas e isso já é
muito válido."
PERGUNTAS
E-mails
recebidos na semana de 09/09 a 16/09:
Alexander
Goulart, Porto Alegre / RS - Jornalista
Caro Dines, sabemos que existem muitas faculdades caça níquel,
porém, boa parte de nossas faculdades têm méritos e são sérias. O
curso de comunicação é um dos mais caros em termos de manutenção.
Como manter um curso caro em funcionamento sem aumento do número de
alunos em sala de aula, número de vagas e aumento de mensalidades? O
Ministério da Educação não investe o valor necessário e as
faculdades não têm muita saída. Para complicar o problema, ainda
resta o conflito entre Missão da Universidade e Mercado. Afinal,
formam-se jornalistas para o mercado ou profissionais de comunicação
com amplo saber universal?
Robson
Rodger
Ao secretário de educação superior do MEC: por que o MEC se omite
quanto ao preparo dos professores do ensino superior em relação ao
ensino de sala de aula? Pois a maioria deles em geral são excelente
pesquisadores ,mas, péssimos professores. Responsáveis em parte pelo
grande número de evasão de cursos principalmente em instituições
públicas. Ao frequentar os seminários sobre ensino superior no
Brasil podemos ver que pouco se discute ensino em sala de aula. Os
seminários só discutem reformulação da grade curricular sem
nenhuma preocupação com a qualidade.
Francisco
Heira, Est. Jorn. ECA/USP
Amigos do Observatório da Imprensa, acredito que o jornalista que dá
nome à Fundação não ficaria satisfeito com o que acontece. Cásper
Líbero era um idealista! Criou a escola de jornalismo para criar bons
profissionais; não para fazer lucro! Agindo despoticamente, o dr.
Erasmo de Freitas envergonha a história da escola.
Luciana,
Macaé / RJ
Oi pessoal! É um prazer ver o alto nível constante na programação
da Rede pública de TV. Parabéns. O que acontece é que na realidade
há dois pesos e duas medidas na questão das instituições de ensino
superior. Enquanto há aquelas que seguem à risca as árduas etapas
para a abertura e a manutenção de cursos oficiais e reconhecidos
pelo MEC, outras, famosas, cujos proprietários são pessoas poderosas
e influentes, cujo poder lhes garante que suas instituições (como
aquela que teve um analfabeto aprovado em seu vestibular, há uns dois
anos) nunca sejam abaladas, a impunidade virou característica em
todos os setores da sociedade brasileira. O que fazer?
Alexandre
Martins Moura, Cascavel / PR - Est. Jornalismo
De que forma a mercantilização do ensino superior estaria
relacionada com a possível tomada desse negócio por especuladores
norte-americanos, como há poucos dias foi veiculado em artigo da
revista Veja?
Julio
Cesar - Prof. Ensino Médio
Boa noite. Talvez devamos parar de procurar soluções mágicas e
indiscutíveis. Creio que uma combinação de estratégias seria o
mais adequado. Por exemplo, a OAB tem um mecanismo eficiente de
controle de qualidade dos cursos de Direito através do seu exame de
fim de curso. A UNIP, por exemplo, está com sérios problemas frente
a OAB, pois seus alunos não conseguem passar no exame. Que tal exames
de fim de curso para outras profissões? Como levar a sério o blá,
blá do representante da Estácio de Sá sobre projeto pedagógico
quando seu "reitor" declara que não está preocupado com a
educação ou com o Brasil, mas apenas com a Estácio de Sá?
Cláudio,
Barbacena / MG
Em recente reportagem apresentada na revista Exame, a Universidade
Estácio de Sá aparece como uma entidade apenas mercantilista, pois
fica explícito que o interesse da instituição é puramente o lucro,
uma vez que não há a preocupação com o futuro do país nem com a
qualidade do ensino... Gostaria de um comentário sobre isso.
José
Luiz Gomes de Moraes - Pedagogo
Seria possível saber como será resolvido o problema de quem fez
mestrado defendido em 2000 e que somente agora está sendo reconhecido
pela CAPES? Este mestrado foi em educação pela Universidade Estácio
de Sá (RJ). Desde já obrigado.
Diogo
Cavazotti, Curitiba / PR - Estudante de Jornalismo
O jornalista Alberto Dines acaba de indagar o futuro das faculdades
privadas, em relação à qualidade do ensino. Agora pergunto: qual o
futuro dos cursos de jornalismo de algumas universidade públicas, em
que a qualidade dos laboratórios e máquinas é muito precária, com
tecnologia ultrapassada, não refletindo os atuais sistemas utilizados
nas redações?
Marcos
Alves, Assis / SP - Jornalista
Olá amigos, parabéns pelo programa, importantíssima essa
discussão. Tenho uma questão que sai um pouco do foco do debate,
porém, sei que muitos cidadãos, que são jornalistas sem diploma, e
atuam no mercado com competência, responsabilidade e dedicação,
precisam de informações que gentilmente, creio eu, o Observatório
da Imprensa possa fornecer. Mesmo que em outra ocasião, porém, de
forma emergencial. Agradeço antecipadamente pela atenção e
galhardia. Sou formado em Comunicação Social com Habilitação em
Publicidade/Propaganda, em 2001. Exerço atividade na imprensa desde
1995. Rádio e TV. Recentemente (ano de 2002) consegui registro
precário de Jornalista Profissional, através de liminar que vigorava
no Estado de São Paulo, propiciando essa possibilidade. Me parece que
a liminar foi suspensa. Por favor, estou necessitando de informações
concretas se continuo jornalista profissional ou não. Como eu, creio
que muitos colegas também estejam nessa situação, ou seja, sem
saber se é ou não jornalista profissional com legitimidade para
atuar, conseguindo, inclusive, filiação no Sindicato dos Jornalistas
e Federação Nacional de Jornalismo. Por favor me dêem uma
orientação segura, para que eu saia dessa indecisão e possa
trabalhar com maior tranquilidade. Um abraço a todos vocês, muito
obrigado, e conto com essa valorosa contribuição cidadã.
Luis
Antonio Cunha Ribeiro - Prof. Univ. na área de Direito
Parabenizando-os pelo programa de hoje sobre a crise no ensino de
Comunicação, gostaria de sugerir que fosse tratado em algum momento
o tema dos "Centros Universitários". O governo passado
criou essa figura jurídica, que antes não existia, e que agora tem a
mesma autonomia das universidades sem a obrigação legal de realizar
pesquisa ou extensão. Ou seja, abriu-se o caminho para o caça
níqueis.
Daubi
Piccoli, Erechim / RS - Jornalista
Gostaria de questionar a colocação feita a respeito do fato de a
Internet estar sendo a responsável pela queda do jornalismo impresso.
Pergunto se isso não está ocorrendo pelo fato de que a Internet não
tem "dono", como os jornais e, portanto, transmite, na
maioria das vezes, a verdade mais transparente e não apenas
reproduzindo o pensamento dos donos do negócio?
André
Luiz
Prezado Dines, creio que é cabível nesse momento manifestar meu
ceticismo frente a essa situação nova e grave. Refiro-me à falta de
solidariedade da imprensa de modo geral aos acontecimentos do último
domingo, dia 07/09. Como pode a imprensa de uma maneira bem geral não
estar se solidarizando e tratando o caso como um assunto particular,
de pessoas? Se isto fosse apenas uma brincadeira, como as autoridades,
quase todas elas, com exceção do governador de São Paulo, estariam
dispondo de seu tempo para opinar e especular sobre o caso? Proponho
ao sr. que considere uma pauta com esse tema: guerra de vaidades
(audiência) x fatos inverossímeis e ameaçadores!
Renato
Hortegal, São Luís / MA
Saudações à equipe do Observatório. Muito obrigado por fazer um
programa de tão bom gosto que sempre está voltado a uma visão
crítica da realidade e enfatizando um ângulo muito humano nos
questionamentos dos problemas. Alberto Dines, você é o máximo! Um
abraço a todos...
Telefonemas recebidos em 09/09:
Jailson
Silva, Vitoria / ES
Como melhorar o ensino sucateado das faculdades de jornalismo?
Gustavo
Aguiar, Piracicaba / SP
Carlos Roberto Antunes, o que vai mudar com a internacionalização do
ensino, proposta da OMC?
Luciano
Demazzi, Loanda / PR
Acho que o provão é necessário para avaliar as faculdades e
analisar seus defeitos.
Alciona
Rededes, Curitiba / PR
Sou totalmente a favor do provão que, avaliando as universidades,
melhoram a qualidade do ensino.
Barros,
Recife / PE
Carlos Roberto Antunes, o estágio supervisionado não seria uma perda
de tempo para o estudante, ou até perda financeira?
Kelly
Conceição Figueiredo, Rio de Janeiro
Felipe Pena, o que você, como sub-reitor da Estácio de Sá, pode
fazer para melhorar o ensino dessa faculdade? Por que ainda não fez?
Maurício
Rosemberg, Recife / PE
Sempre estudei em escola pública e vou prestar vestibular esse ano.
Gostaria de saber quais os critérios que devo adotar para levar em
conta a qualidade das faculdades?
Wagner
Ângelo da Silva, São João Del Rey / MG
Gostaria de saber o que as faculdades do interior poderiam fazer para
abrir cursos de jornalismo de qualidade?
Paulo
Degni, Itatiba / SP
Carlos Roberto Antunes, além das faculdades privadas responderem
pelos seus cursos, não deveriam, também, passar por uma fiscalização
tributária? Já que muitas delas sonegam impostos através do benefício
sem fins lucrativos.
Luis
Henrique, Rio do Sul / SC
Gostaria de saber se existe alguma norma do MEC que limite o número
de alunos nas salas de aula do ensino superior. e gostaria de saber se
existe alguma maneira de controlar a abertura indiscriminada de cursos
que são criados sem devida verificação da qualidade dos
professores, das instalações e da demanda de mercado de trabalho da
região?
Helen
Posse, São Paulo
Estou prestando vestibular para jornalismo e inclusive me inscrevi
para a Cásper Líbero. Qual o parâmetro que devo seguir para
escolher a melhor universidade?
Michele
Araújo, Belém / PA
O que vocês acham da obrigatoriedade do diploma para o exercício do
jornalismo, já que existem muitos profissionais extremamente
competentes no mercado, que são formados em outras áreas, como por
exemplo letras, e que não podem atuar na imprensa por causa desse egoísmo?
Sirlei
Maria Franciscone, Porto Alegre / RS
No domingo, o SBT exibiu uma entrevista com um grupo do PCC fazendo
ameaças com armas contra cidadãos. Como não ter censura num caso
como esse? Qual a função da imprensa e do jornalista em casos como
esse?
Luis
Renato, Vespaziano / MG
Sou contra a tortura e acho que o presidente Lula deveria decretar uma
reforma no sistema psiquiátrico brasileiro.
João
Assafim, Rio de Janeiro
Felipe Pena, vistas as colocações sobre a suposta não existência
de corporativismo nas universidades públicas, o que o senhor, que tem
notável produção acadêmica-intelectual a frente de uma
universidade privada, pensa de tais colocações, visto que muito
profissionais e professores têm se empenhado para atender as exigências
do MEC?
Walter
Pellechia, São Paulo
Sou estudante e discordo do Felipe Pena. Acho que a cobrança maior
deve ser feita aos alunos e não às instituições, já que são os
estudantes que vão para o mercado de trabalho.
Aline
Prado, Rio de Janeiro
Felipe Pena, o Uchoa Cavalcante, reitor da Estácio de Sá, declarou
que "estudar é bobagem". O que você acha dessa declaração?
Eliane
Fernandes, São Paulo
O que vocês acham de uma faculdade de jornalismo que tenha um preço
acessível para a população? Isso é possível?
Yvi
Damazzio Mello, São Paulo
Eunice Durham, por que o PIUB (Programa Institucional das
Universidades Brasileiras) não foi preterido em função do provão?
Pertuliano
Dionísio, Recife / PE
Irene, existe algum movimento no Brasil para acabar com o ensino de química
e física nas escolas de ensino médio para poder viabilizar um melhor
ensino de informática?
Luis
Henrique, Fortaleza / CE
Como acontece o processo de reconhecimento e regulamentação de
cursos? Por que o ensino superior privado , na maioria das vezes,
recebe a regulamentação mais rápido do que o ensino público?
Djeferson
Evangelista, Brasília / DF
Gostaria de parabenizar o programa por prover conhecimento cultural
para toda a sociedade. E gostaria de colocar que, no meu ponto de
vista, deveria haver uma reformulação no sistema de ensino superior
dando maior ênfase em aspectos imprescindíveis como a qualidade do
ensino, disponibilização de ingresso para estudantes de baixa renda,
desmercantilização e abertura de debate com a sociedade. Isso tanto
para o curso de jornalismo, quanto para todos os outros cursos.