
1-O programa Conversa Afinada, da TVE Brasil, completa cem programas agora, em agosto de 2006. Quais foram as melhores entrevistas e o que você acha que aprende com cada uma?
Gosto de ser surpreendida e uma das mais divertidas que fiz no Conversa Afinada, da TVE Brasil, foi com um violeiro de Minas Gerais chamado Chico Lobo. Eu sei que os violeiros gostam de guardar guizos de serpente dentro da viola, e eu abri o programa perguntando se ele conhecia essa história. Foi bárbaro! Ele tinha um guizo enorme dentro do instrumento e ficou super feliz de poder mostrar e contar essa história. Nas conversas com Martinho da Vila me diverti muito, assim como com Luisa Possi. Cada artista tem seu universo particular e infinito (com perdão do trocadilho), e é sempre delicioso descobrir um pouco mais além do release, do previsível, do que todo mundo já sabe. É isso que eu procuro fazer no Conversa, compartilhar essas descobertas com a audiência.
2-Você daria as suas impressões sobre o centésimo programa do Conversa Afinada, com a Lia de Itamaracá?
Dona Lia é um ícone da nossa cultura popular. Ela representa a capacidade criativa do brasileiro e também a dificuldade que a tradição tem de ser assimilada pelo cidadão comum. Ela sempre viveu sua música, mas nunca pôde viver dela. Essa contradição é muito comum no país. Mas ainda assim ela se mostra feliz e grata pela vida que tem e pela oportunidade, ainda que tardia de aproveitar a vida, viajar e mostrar a sua ciranda. Foi uma bela entrevista.
3-Você é jornalista e trabalha há mais de vinte anos em rádio. Por que? A televisão já te seduzia ou ela entrou aos poucos na sua vida?
Comecei no rádio ainda na época da faculdade e me apaixonei. Encontrei na discoteca da Fundação padre Anchieta, na rádio Cultura, um universo fascinante, os discos, os cantores, a história contada através dos registros fonográficos de todas as épocas e estilos. E tive experiências muito legais com o alcance do veiculo, pelo retorno rápido e quente da audiência. A gente produzia em São Paulo e recebia telefonemas ou cartas do interior de Minas gerais, do Mato Grosso, de Goiás. A televisão veio por convite, foi uma conseqüência da minha especialização em música brasileira. De certa forma, é um veiculo ainda novo pra mim, tenho muito pra aprender e pra explorar.
4-Quando você apresentava programas de rádio, já se imaginava apresentando programas de televisão?
Na verdade, não. E quando estou na TV, faço mais ou menos como quando estou no rádio. Concentro-me no que sei fazer, nas entrevistas, no repertório, na personalidade do artista que está ali na minha frente. Mas, faço algumas coisas em rádio que posso perfeitamente imaginar na televisão, como os encontros exclusivos que promovo entre artistas para o meu programa Vozes do Brasil. Recentemente reuni Mart`nália e Luiz Melodia num estúdio com dois violões e percussão. Foi genial!
5-Você entrevistou grandes nomes da rádio e escreveu um livro sobre suas entrevistas. Antes de começar na TVE Brasil, você trabalhou na Rede Sesc/ Senac de Televisão. Ficou em paz com a sua imagem, já que na rádio, a personalidade da voz é que tende a marcar e/ou existe outro dado que você queira salientar nessa troca de veículos?
Estou terminando meu segundo livro de entrevistas e tem sido uma experiência muito bacana conhecer mais de perto essas pessoas que eu admiro. Eu perguntei para os entrevistados sobre a imagem, a persona que, às vezes se cria para uma atuação pública. Acho que o meu trabalho na TV é uma extensão do que sempre fiz no rádio. Sou uma jornalista, adoro fazer entrevistas e na TV me concentro nisso.
Na TV é diferente, tenho pessoas que cuidam da minha imagem como maquiadores e figurinistas, que são muito carinhosos e preocupados. Eu mesma, se deixar, entro no ar exatamente como saí de casa. Minha voz já é bastante conhecida, ao menos em São Paulo, e eu gosto de ser reconhecida pelo conteúdo e qualidade do meu trabalho.
6-A rádio tem a possibilidade de atrair ouvintes de maneira mais imediata que a televisão, mas a TV tem a força da imagem. Qual a diferença que você acentua entre esses dois veículos de comunicação?
O rádio vai mais longe e ainda tem a vantagem de ser um companheiro para todas as horas. Você pode ouvir um programa inteiro de entrevistas e continuar com suas atividades diárias. Pode ouvir as notícias enquanto se exercita etc. Na TV, a audiência é mais passiva. Com a questão da imagem temos a questão do poder avassalador da mídia, da criação de mitos, celebridades instantâneas. Mas nos dois veículos acho importante ter em vista a responsabilidade que é ser um formador de opinião, coisa que anda em desuso por aí.
7-Conte-me sobre sua experiência em Marseilhe e no serviço mundial da BBC de Londres. Em tempos virtuais, a rádio ainda une ouvintes no Brasil todo. E no mundo?
Fiz um trabalho lindo com a BBC, com o serviço mundial. Fiz um “Vozes do Brasil” em inglês pra uma série chamada “Don’t touch that dial”. Nossa música e minha voz chegaram até Singapura, recebi cartões postais de toda parte, foi o mais longe que já cheguei com o rádio. Amei. Em Marseille, na França, fiz amigos e trabalhei numa rádio associativa chamada Grenouille. Fiz programas sobre música brasileira e meio ambiente. Até hoje mando meus boletins pra lá, em francês, divulgando a nossa música contemporânea.
8- Momento livre! Escreva uma (ou mais) frases que te seduz(em), um livro indispensável, a cor que combina, os músicos preferidos, o poema predileto e por aí vai...E, claro, o programa preferido!
Eu adoro ver televisão e gosto muito dos programas de entrevista. Acho o programa Conversa Afinada, da TVE Brasil, uma grande oportunidade pro público descobrir o músico brasileiro. Leio livros compulsivamente, biografias, romances, livros de poemas, vários ao mesmo tempo. Adoro a diversidade da música brasileira, mas também ouço jazz, Cole Porter, Ella Fitzgerald. Adoro o mar e a praia. Velejo e nado sempre que posso. Talvez por isso eu prefira o azul entre todas as cores...
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