
De onde veio o embrião de observar a imprensa?
DINES - O embrião começa com a função da imprensa de observar todos os poderes, coibir abusos. A imprensa coíbe abusos do poder político, do econômico, do legislativo, do executivo, do judiciário. Ora, ela também tem que coibir os seus próprios abusos senão ela fica desbalanceada. Ela fiscaliza os outros poderes, por isso ela é chamada de quarto poder. Como ela é um pouco menos ágil nesse aspecto de coibir seus próprios abusos, surgiu esse movimento, esse contra poder. O contra poder é o poder da imprensa, que é a observação da mídia. Esse é o raciocínio.
Como você teve a idéia de criar o Observatório de Imprensa?
DINES - Esse é um processo que já vem a algum tempo. Quando eu comecei a trabalhar na Folha de São Paulo, em 75, depois de acertar minhas funções, eu queria fazer uma coisa de graça, uma coluna semanal de crítica e de observação da mídia e convenci ao Otávio Frias de Oliveira, dono da Folha de São Paulo a lançar a sessão chamada “Jornal dos Jornais”. Primeiro ele estava muito cético, depois achou que podia dar resultado e botou no domingo, na página 6 do primeiro caderno que é a mesma página que sai o ombudsman hoje. A coluna durou dois anos e teve bastante repercussão, sobretudo no período da ditadura, pois lá tinha muita coisa escrita contra a autocensura. Eu espicaçava a mídia para aprender a cobrir matérias.
Porque você resolveu criar a dez anos atrás, o Observatório da Imprensa primeiro em um site para depois leva-lo para a TV?
DINES - Foi um processo gerado pela universidade, mas ele não tem nada de acadêmico. Nós tínhamos na UNICAMP um laboratório de estudos avançados de jornalismo (LABJOR). Estávamos desenvolvendo diversos trabalhos e uma das metas era levar o debate sobre a imprensa para a sociedade, não adiantava mantê-lo na Universidade. E fomos discutindo fórmulas até que um companheiro nosso, o jornalista Mauro Malin disse que tinha um negócio novo chamado internet - em 95 isso era novíssimo-, fizemos a experiência e aí a coisa engrenou.
Qual foi o papel da TVE na criação do programa Observatório da Imprensa?
DINES - Foi decisiva, definitiva, total, absoluta. Já tínhamos o site na internet há dois anos, que lançamos em 96. O diretor de jornalismo da TVE na época, Alexandre Machado, me procurou em São Paulo e me perguntou se eu não queria fazer alguma coisa parecida na televisão, eu disse que queria fazer quase igual e com interatividade, como no site. Foi uma discussão muito rica até que surgiu o formato.
Como surgiu a idéia de interatividade no programa?
DINES - A idéia existe desde o início. O meu sonho é que a sociedade participe do programa. A palavra webcam ainda não existia, o sonho é que as pessoas, com uma camerazinha no seu computador vejam direto na internet. Naquela época as coisas eram precárias, também não tinha banda larga, havia a dificuldade de acesso discado - a linha caía muito, mas a tecnologia está tornando as coisas mais fáceis agora.
Qual a melhor forma do telespectador interagir com o programa, hoje em dia?
DINES - Mesmo não estando apta ainda, a gente interage de várias formas. Primeiro eles mandam mensagens que são publicadas no nosso site. Entram várias perguntas ao longo do programa, de todos os pontos do Brasil. Ter dez perguntas num programa de uma hora é uma coisa legal.
Como você se sente agora que o programa completa oito anos no ar, dez de internet e um ano de rádio?
DINES - Acho que a gente deu um passo importante, a equipe está feliz, nós fomos apontados em muitos países como uma coisa modelar. Houve um seminário na Bolívia e eles resolveram criar uma coisa chamado Observatório da Mídia Boliviana, ou algo assim, num formato mais acadêmico. O exemplo está proliferando e isso eu acho muito importante.
Como é que é fazer um programa de rádio via internet?
DINES - É tecnologia. O nosso programa de rádio que é diário, de segunda a sexta, é feito pelo jornalista Mauro Malim, que está conosco desde o início, no projeto da UNICAMP. Ele faz na casa dele, de madrugada. Ele acorda, lê os jornais todos, redige o texto e põe o áudio, tudo através do computador dele. A minha participação, que é feita de véspera, é enviada pela internet, o áudio e o texto. O programa Observatório da Imprensa, além de ser irradiado pelas rádios, inclusive pela Rádio MEC, está em áudio no nosso site, incluindo o texto.
Como você vê a imprensa agora? O jornalista está mais crítico de si mesmo?
DINES - Está. A sociedade brasileira agarrou esta oportunidade democrática e não vai soltar mais. Hoje, o Brasil não volta atrás nisso. É um avanço mais incorporado, você conversa com um motorista de táxi que fala sobre a mídia. A discussão sobre a mídia já entrou no nível do cidadão médio.
Como a sociedade pode participar mais da mídia, você acredita que o seu programa fez diferença nesse novo olhar?
DINES - O programa contribui para isso, oferece material para reflexão e estimula a criação de projetos parecidos, eventualmente mais aperfeiçoados. A garotada nas escolas de jornalismo tenta. Certamente, daqui a alguns anos, vão ter observatórios mais aperfeiçoados do que o nosso. Essa é a função.
Qual a temática do aniversário do programa?
DINES - É uma discussão sobre tudo isso que aconteceu, uma revisão histórica, sem muita oba-oba, mas, sobretudo discutir o que se pode fazer e qual é o futuro da mídia.
Como é para você, nesse momento, estar como editor-chefe do programa Observatório da Imprensa, na TVE Brasil, há oito anos, e que visão você tem daqui para frente em termos de ampliação do programa na emissora?
DINES - Só posso dizer uma coisa - eu aposto no futuro da TV Pública no Brasil. Mesmo que ela não seja estritamente pública (caso da BBC e do PBS), há um espaço enorme para uma televisão alternativa. Este é o momento para que ela mostre a sua cara e a sua capacidade profissional. A rede nacional de emissoras culturais e educativas tem, neste momento, uma oportunidade de ouro para mostrar que o segmento alternativo tem condições de vencer suas pequenas divergências em benefício de um projeto capaz de oferecer uma opção de qualidade à parcela da sociedade brasileira que recusa participar do processo de degradação cultural empreendido com tanto empenho pela televisão comercial.
GECOM
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