PÉRICLES LEAL, O CRIADOR ESQUECIDO
O documentário Pericles Leal, o criador esquecido é um filme sobre a descoberta de um pioneiro da televisão brasileira que contribuiu para estabelecer as bases da teledramaturgia nacional nos anos cinqüenta quando esse moderno meio de comunicação de massas ainda dava seus primeiros passos atuando na extinta TV Paulista e TV Tupi.
A partir do momento original de seus trabalhos de criação, fazendo poemas, contos, crônicas, reportagens, e escrevendo adaptações teatrais para o rádio. Depoimento com pessoas que conviveram com ele, o documentário procura mostrar ao espectador, através de fragmentos materiais dessa memória que a semente lançada na Paraíba, guarda relação direta com seu futuro amadurecimento profissional quando passou a criar para a o jornal, a televisão, o mercado editorial de revistas, o teatro, em diversos gêneros.
Para fins de uma melhor compreensão do público, o documentário apresenta esse movimento inicial do autor na Paraíba nos anos quarenta.
Com a atividade jornalística desenvolvida na Paraíba, Pericles destacou-se de forma pioneira no Estado colocando em evidência as nossas origens étnicas ao escrever a reportagem Um Pedaço da África na Borborema.
Especialmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, o trabalho de pesquisa foi garimpar os materiais audiovisuais que expressavam o espírito inquieto de criador em diversas formas de linguagem: O teatro, a literatura, o roteiro televisivo.
Há um pequeno recurso da ficção nas passagens de reconstituição de seus momentos de criação, por exemplo, quando escreveu o prefácio para a peça teatral O Vale de Electra, da qual a pesquisa localizou um exemplar. A partir daí, os depoimentos de familiares e profissionais do meio cultural que tiveram convivência com o personagem são ouvidos, e alguns deles ajudam a moldar um quadro multifacetário do personagem.
O humorista José Santa Cruz, por exemplo, que com Pericles atuou na rádio Tabajara fazendo a adaptação radiofônica da peça Romeu e Julieta, relembra a Paraíba de meados dos anos quarenta e o episódio envolvendo atores circenses que passavam pela cidade.
A viúva do personagem, a atriz Tatiana Leal, comenta os momentos de realização da nascente teledramaturgia da televisão no Ceará, quando ele adaptou Jack London e apresentou-a no horário dedicado a teledramaturgia naquela emissora de TV.
A sua filha, Esther Leal, que trabalhou como produtora na extinta TV Tupi, também traz um depoimento importante da memória afetiva e de trabalho com seu pai, ao datilografar os quase oitenta capítulos da novela A Cabana do Pai Tomás. da qual Pericles era um dos autores da adaptação.
O documentário localizou ainda amigos que na época eram admiradores de um herói televisivo criado por Pericles, o Falcão Negro e sobre isso os amigos falam em Itaipava, local escolhido por Pericles para passar seus últimos dias, antes do falecimento em 1999, próximo de completar 70 anos.Na época Falcão Negro, não existia vídeo-tape, daí que as passagens desse tempo são recuperadas nas falas dos depoimentos recolhidos.
Há uma ênfase ainda no documentário sobre os personagens-síntese da obra do autor, como o cangaceiro Emerenciano, cujo papel foi originalmente escrito para o ator Lima Duarte pela primeira vez na TV Tupi no programa O Contador de Histórias.
No campo literário, os documentaristas foram buscar a opinião da critica especializada para atualizar os espectadores em relação aos livros que compõem a trilogia dos caminhos, editada no país nas décadas de sessenta e setenta.
Realizado pelos documentaristas João de Lima e Manuel Clemente, o filme foi rodado em João Pessoa, Alagoa Nova, Rio de Janeiro, Itaipava, São João do Cariri e São Paulo entre fevereiro e junho de 2005.
Currículo resumido dos diretores
João de Lima
Paraibano, formado em jornalismo, na capital do Estado realizou com um amigo o filme GADANHO, que em fins de 1979 disparou um surto superoitista no Estado.
Após fazer dois estágios nos Ateliers Varan, em Paris, onde realizou CARTA A PEDRO ( 1984) dedicou-se ao trabalho de formação, lecionando no Departamento de Comunicação, onde havia concluído a graduação. Posteriormente fez pós-graduação na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (mestrado e doutorado) voltando seus estudos sempre para o documentárioou no CTR, departamento de Cinema Televisão e Radio ou no Departamento de Comunicação.
Assistente de montagem em Conterrâneos Velhos de Guerra, longa-metragem do paraibano Vladimir Carvalho, fez desde os anos oitenta produção em cinematografia e vídeografia. Tem interesse em pesquisar um imaginário voltado para a região, tema de seus mais recentes trabalhos desenvolvidos em parceria com o realizador Manuel Clemente. Como o piloto de filme Linduarte e seus personagens, abordando aspectos da obra do criador do filme Aruanda.
Manuel Clemente
Paraibano da capital, atua no cinema e na fotografia desde os anos sessenta, quando foi assistente de assistente de fotografia em Romeiros da Guia e Menino de Engenho. Fotografou vários filmes de longa - metragem,, entre os quais O país de São Saruê, O Salário da Morte, Lutas e Vidas, além de muitos curtas metragens, entre os quais A Bolandeira e Pedra da Riqueza.
Fez estudos de mestrado na Escola de Comunicações e Artes, com tema voltado para o homem e a região, com o filme A Epopéia do Sisal. Dedicou-se também ao ensino, atuando no Departamento de comunicação da Universidade Federal da Paraíba.
Trabalha recentemente em parceria com o realizador João de Lima, com o qual dividiu a autoria de uma série de vídeos artísticos e institucionais sobre a vida e a obra do escritor José Américo de Almeida, intitulada A Bagaceira,engenho e brejo, entre outros.
Também com o diretor João de Lima realizou Alice Vinagre, documentário exibido na Alemanha, Argentina e que circula nacionalmente no projeto Arte na Escola.
Estudou cinema direto nos Ateliers Varan, de Paris.
Informações gerais de interesse
A realização de um filme biográfico é uma tarefa metodológica muito específica,desde a busca de informações necessárias para a elaboração do roteiro, até a produção, compreendendo a captação das imagens até a edição.
Por se tratar de um filme que vai focalizar uma personagem de importância nacional, nossa responsabilidade é ainda maior, tratando-se de uma diversificada e intensa multiplicidade de fatos que acompanharam e foram exercidos a partir de experiências e práticas do autor mencionado, no âmbito dos meios de comunicação, onde a complexidade de recursos técnicos e estéticos, presente em toda obra realizada, constatada e confirmada pelos depoimentos dos profissionais, amigos e familiares é evidente.
Com esses elementos foi construída uma estrutura dramática para o que se fez necessário uma extensa narrativa para uma compreensão mais clara de todo universo criativo realizado pelo criador apontado.
Com essas unidades buscamos conseguir uma união entre a experiência do autor/personagem numa forma em que pudesse conjugar-se o intento de uma relação estreita, numa ordem em que o tema e o sujeito estão interligados e determinados no processo criativo do documentário. A reconstrução de uma vivência rica em detalhes, torna ainda mais minucioso o trabalho de fazer circular, fisionomias e expressões em torno de fatos relacionados com as lembranças e as ligações de amizade a fim de estabelecer uma história de atitude de vida, através de umo modelo mais jornalístico do que artístico.
Por este caminho foi possível percorrer passos reveladores que permitiu um encontro entre o conflito pessoal vivida pela personagem e as crises em que se deparou, quando as mudanças da sociedade se faziam necessárias. Toda essa mistura de elementos compositivos que preencheram o espaço do documentário realizado com redobrados esforços decorreu de uma ligação estreita entre o esboço imaginado e a grandeza do tema, com muitas idas e vindas aos lugares e o contato com diferentes pessoas ligadas diretas e indiretamente com as ações e relacionamentos pessoais e artísticos, com a personagem evidenciada.
Para consolidar essas diversificadas relações, a câmera e o microfone percorreram, exteriores e interiores dos ambientes a falares, climas e paisagens da ambiência da memória, dos acontecimentos e produções originadas pela personagem-tema do documentário.
A necessidade de fazer dialogar os entrevistados presentes, além da narração off, balisar o amplo processo de realização que o autor empreendeu em distintas fases e lugares. Para a exposição dos dados em questão, foi utilizado também a compilação de fotos, testemunhas de momentos significativos das ações do autor personificado. A este conjunto de elementos utilizados para a conformação do documentário, está presente também a força sugestiva da música original, empregada para realçar a narrativa que o tema exigiu.
Com essa preocupação, não significa dizer que foi esgotado toda vivência intelectual e artística da personagem nem emergido toda intensidade emocional e psicológica interior atribuído ao seu caráter pessoal.
Entretanto, pode-se constatar a busca inquietante de uma forma de expressão que pudesse demonstrar seu sentimento para o que lançou-se a uma experimentação obstinada de diversificados fontes de comunicação para expor sua arte e seu engenho do fazer.
A reunião de fragmentos encontrados para compor a visualização do documentário, contribuiu para o arranjo, a seleção e a intensificação da criação da forma que serviu para consolidar a proposição de realizar este documentário histórico e trazer ao público brasileiro os traços da vida e das atividades intelectuais e artísticas de Péricles Leal, este criador esquecido.
Ficha Técnica
Direção:
João de Lima
e Manuel Clemente
Fotografia e câmera:
Manuel Clemente
Som direto:
João Carlos Beltrão
Edição:
Demóstenes Machado
Francisco Sátiro
Iluminação:
Manuel Clemente
Trilha Sonora:
Leonardo Noronha
Computação Gráfica:
Demóstenes Machado
Pesquisa:
João de Lima (coord.)
Bruno de Salles (RJ.)
Fernando Barbosa (PB.)
Assistente de Fotografia:
João Carlos Beltrão
Roteiro:
João de Lima e Manuel Clemente
Projeto e Produção executiva:
João de Lima
Estágio em Produção- RJ
Érica Rocha.
Secretaria do Projeto/Cedop:
Telma Galvão
Dirk Segal
Alberto Casa Grande
Produção executiva da parte ficcionada:
Ingrid Trigueiro
Atores:
(Três Atos)
Pericles jovem e adulto
Duílio Cunha
Pericles adulto - 1964
Ailton Barbosa
Palhaço
Ângelo Guimarães
Partner
Ully Trigueiro
Mulher do circo
Ingrid Trigueiro
Acompanhante de Pericles
Ari Falcão
Fotografia adicional:
José Dilson
Pedro Dantas
Airlan Silva
Texto:
João de Lima
Manuel Clemente
Pericles Leal ( Fragmentos)
Still:
Annelsina Trigueiro
Junia Marusia
Fernando Barbosa
Érica Rocha
João de Lima
Manuel Clemente
João Carlos Beltrão
Narração:
Maria Cardoso
Voz de Pericles:
Fernando Teixeira
Consultoria
Literatura
Hildeberto Barbosa
Iconografia
Wills Leal
O DOCTV é um programa pioneiro de fomento à parceria entre a TV pública e a produção independente desenvolvido pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, a TV Cultura e a Associação Brasileira das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais — ABEPEC. Criado em 2003, seu objetivo é promover a regionalização da produção de documentários, articular um circuito nacional de teledifusão através da Rede Pública de Televisão, e propor um modelo de negócio que viabilize mercados regionais para o documentário brasileiro. |