A música artística profana pretendeu, de todos os modos, satisfazer as necessidades musicais do povo. Mas, originada do canto popular e bebendo sempre na fonte do povo, foi gradativamente sendo aristocratizada e sendo divorciada do espírito do povo. Chegou a se transformar em manifestação orgulhosamente aristocrática com a chamada "música pura", dos clássicos. Era a reprodução artística mais fiel do espírito político do século XVIII, quando as monarquias elevaram ao cúmulo da deformação o princípio aristocrático do Cristianismo, cujo fundamento é Deus-Rei. A observação é de Mário de Andrade, na Pequena História da Música.
Outro Mário, Cabral, crítico e historiador da música, concorda mas anuncia a reação, orientada na França pelo movimento filosófico dos Enciclopedistas, que levaram o povo à Revolução Francesa (1789), a revolução que mudou o mundo.
Em primeiro lugar porque transformou a sensibilidade social, trocando a insensibilidade social da aristocracia ("Se o povo não tem pão que coma bolo") pela sensibilidade popular. Foi exatamente isto que criou um estado de coisas chamada de romantismo, que já era anunciado na literatura, desde o século XVI, por Shakespeare (na Inglaterra), confirmada no século XVIII por Rousseau (na França) e Goethe (na Alemanha) e desenvolvida no século XIX por Dostoievsky e Tolstoi (na Rússia) e Balzac na França.
Edson Frederico dá o cenário político: a Áustria está em guerra, desde 1772, com a Prússia de Frederico, o Grande. A colônia britânica na América luta por 9 anos, ajudada por tropas francesas, contra a Inglaterra, com a aliança dos alemães, e acaba se tornando independente em 1783. Na França de Luís XVI acontece a Nova Era e a AssembléiA Nacional Constituinte proclama a Declaração dos Direitos do Homem. A Revolução Francesa acontece em 1789. Napoleão vence guerras contra a Áustria, Itália e Egito, expulsando D. Maria I de Portugal para o Brasil em 1808. Depois perde para a Rússia. a Espanha e a Santa Aliança. E, finalmente, perde para a Inglaterra e as potências coligadas em Waterloo, na Bélgica.
Para Mário de Andrade, a música estava em um beco sem saída quando acabou sendo uma deformação do espírito popular, o que aconteceu "quando os arsnovistas se aproveitaram do espírito popular para profanizar a música", transportando-a para dentro da música erudita, e o que era monódico no povo se tornou ´polifônico na arte" Cuidaram de polir o diamante bruto para torná-lo um pedra palatável para a aristocracia e deram ao gosto popular do cômico uma deformação curiosa, pela qual o próprio povo é que se tornava objeto do riso.
Para ele o romantismo queria , sinceramente, dignificar e elevar o povo. "E por isso se preocupou em mostrar o que era o povo, chamando atenção, reforçando, acentuando eloqüentizando as maneiras de sentir e de agir populares." Nesse reforço, um processo específico do Romantismo, é que Mário vê a deformação que acabou imprimindo ao espírito do povo.
Continuemos com Mário de Andrade: "O povo aceita mal a música pura porque a arte popular tem sempre uma função interessada social. Os românticos deformam isso por exagero. Não lhes basta unir a palavra à música, pra tornar esta compreensível intelectualmente e portanto útil." Nem lhes basta conceber a música como capaz de reforçar a expressão dos estados de alma, . Para os românticos a música se torna, sistematicamente, a "arte de exprimir os sentimentos por meio de sons".
Como escreve Mário, "a música para eles é uma confidente, a quem confiam todos os seus ideais (Beethoven: Sinfonia Heróica, Nona Sinfonia;Schumann: Davidsbündler, Carnaval; Gluck: A vida pelo Tzar; Wagner: Mestres Cantores, Parsifal; César Frank: As Beatitudes), os seus sentimentos e paixões (Chopin: Estudos, Baladas, Mazurcas, Polonesas; Schumann: os Lieder; Wagner: Tristão e Isolda; Ricardo Strauss no Intermezzo bota a própria vida dele em ópera), as suas impressões de leitura ou viagem (Mendelsshon, Weber, Berlioz, Liszt, Straus, Saint-Sens; Beethoven: Sinfonia Pastoral, Apassionata; Mussorgski: Quadros de uma exposição; Debussy: dois cadernos de Prelúdios, poemas sinfônicos, etc., etc.) .
"Sistematizou-se com isso os processos construtivos e interpretativos de intensão expressiva sentimental." Os termas de uma obra passam a mudar de aspecto e interpretação para caracterizar estados psicológicos e estados diferentes do mesmo assunto. Um tema varia e se desenvolve não mais para mostrar suas possibilidades musicais, mas significando mudanças de sentimento.
Esse é o traço mais característico e constante na musicalidade romântica dar ao ouvinte a sensação de que está ouvindo uma história e percebendo o sentimento que envolve a situação e os personagens.
Para Mário, "o povo é no geral brutalhão nas manifestações: chora gritado, aplaude berrando, briga a pau. Os românticos deformam isso pela especialização do sublime, do grandioso, do violento". "O que preocupa os românticos é o cume da emoção. Catolicismo, paixão sexual e natureza andam misturados como nunca. Se confundem para atingir o pathos mais grandioso."
O protótipo dessa exasperação que Mário classifica como "patológica" é o poeta alemão Hoelderlin: "Fora do êxtase tudo era morto e sem alma".
Os compositores buscam as lendas medievais, a feitiçaria, a exaltação de coisas pouco sabidas de tempos passados, deuses nórdicos e entidades gaulesas, os selvagens, a natureza, o exótico, como assunto, abandonando os modelos greco-romanos que dominaram durante dois séculos os melodramas.
Outra característica romântica é o cultivo da dor e do sofrimento. Dignifica-se a doença, o defeito físico, a anormalidade, o desviado, as desgraças, as catástrofes. Os românticos são inadaptados ao dia-a-dia, à vida, ao que lhes parece o inferno. Idealizam.
Para Otto Maria Carpeaux, "não é possível definir cronologicamente o romantismo musical. Românticos são Weber e Schubert, Mendelssohn e Schumann, Berlioz e Chopin. Mas também românticos são Tchaikovsky e um Grieg, cujos contemporâneos na literatura são Tolstoi e Ibsen. Romântica, no sentido do romantismo francês, é a ópera de Verdi. Românticos são os começos de Brahms e, também, muita substância permanente da sua música. Romântico é sobretudo Wagner.".
O romantismo domina toda a música do século XIX. Como diz Carpeaux, "todos aqueles românticos, tão diferentes, revelam certos traços comuns. Primeiro, a maior liberdade de modulação, o cromatismo cada vez mais progressivo que leva os compositores até as fronteiras do sistema tonal de Bach e Rameau. O cromatismo romântico serve à maior expressividade dessa música subjetivista e individualista. Mas é pouco compatível com como rigor formal dos esquemas arquitetônicos de Haydn, Mozart e Beethoven. A verdade é que Beethoven esgotou certas formas e gênero: depois dele já não teria sido possível escrever uma autêntica e original sonata para piano; e cada vez mais difícil escrever uma sinfonia."
A música romântica vive de estímulos literários. As grandes diferenças entre o romantismo alemão, o romantismo inglês e o romantismo francês também se fazem sentir na música. E outras nações que pouco haviam contribuído para a música, desenvolveram o romantismo nacional polonês, o húngaro, o russo, o escandinavo, o brasileiro. Por isso mesmo não se pode falar de romantismo, mas de romantismos.