História da Música

Rachmaninov, Grieg, Sibelius, Nielsen

O russo Serge Rachmaninov (1873 - 1943) dizia-se um pianista que também compunha. Excepcional ao piano, sua carreira foi repleta de sucessos internacionais como concertista, várias vezes interrompida por graves crises mentais que acabam levando ao suicídio.

Figura tchaikovskyana, era musicalmente antinacionalista, embora não negasse a força da música popular eslava. Com sólida formação acadêmica, foi um conservador em matéria de música e suas sinfonias mereceram respeito, embora fossem raramente executadas.

Comparado a Liszt como concertista, seus concertos tinham também a mesma qualidade e o Concerto para piano e orquestra nº 2, em dó menor (1901) não perde seu lugar seguro no repertório internacional.

Mas a grande popularidade de Rachmaninov vem de suas peças menores, como o Prelúdio em dó sustenido menor, op.3, nº 2, muito tocado pelas mocinhas e gravado como se fosse música pop.

Segundo Otto Maria Carpeaux, "a primeira onda de nacionalismo musical das nações da Europa Oriental tinham pouco impressionado o Ocidente: Glinka, Moniuszko e Erkel não se tornaram conhecidos fora dos seus países. Tampouco os escandinavos Kuhlau e Hallstroem. A segunda onda foi mais agressiva; mas, por isso mesmo, um Borodin, um Mussorgsky tinham que esperar decênios até o reconhecimento internacional de seu gênio. O sucesso coube aos ocidentalizados como Lizst ou aos ecléticos como Tchaikovsky". Só um nacionalismo moderado, em que a música folclórica desse apenas um colorido exótico, era aceita pelo público ocidental.

A moderação também foi a sorte de Edvard Grieg (1843 - 1907) o maior compositor norueguês. Em seu tempo a Noruega lutava para romper os laços culturais que a amarravam à Dinamarca havia séculos. (Época do nacionalismo romântico de Wergeland, Bjoernson, de Ibsen em sua mocidade.) Os músicos noruegueses não quiseram saber da Dinamarca de Gade e a declaração de independência começou com Richard Nordraak, morto antes dos 25 anos.
Grieg, um homem suave e tímido, dedicou-se a combater o meldelsohnianismo de Gade. E assumiu o risco de basear a música norueguesa exclusivamente no rico folclore musical do seu país, mesmo causando estranhesa ao público europeu pelo exotismo das harmonias.
Na realidade ele foi menos radical do que em teoria: ele foi um schumaniano que não desprezou as lições de Lizst, segundo Carpeuax.
Segundo Mário de Andrade, "com o romantismo, os acordes de Liszt, de Wagner, e depois mais claramente os de Grieg, surgem como que isolados, independentes." E esclarece: "Essa independência, esse isolamento provém de que a estranheza, a dificuldade interpretativa dele é tal que obriga a verdadeiros sofismas teóricos.". Para Mário, os acordes de Grieg apareciam sozinhos, individualizados, "não apenas no seu corpo físico, como também na sua entidade psicológica."
"O acorde agora não serve mais para acompanhar a melodia solista. Se emparelha com ela, vai ao lado dela, característico, livre, individual. E o acorde seguinte, em vez de continuá-lo e completá-lo, o substitui. E o seguinte substitui a este, e vão todos assim numa procissão de indivíduos diferentes", escreve Mário. Para ele, "isso submete-se ao conceito republicano, à essência popular do romantismo: cada obra se apresenta como uma verdadeira multidão em que todos os indivíduos se fundem nu, grupo que é a alma coletiva (a obra), mas em que cada indivíduo é diferente dos outros na psicologia e no físico". E conclui: "A bem dizer não existem mais acordes agora."
Grieg escreveu três sinfonias, dois concertos para piano, música instrumental e música de câmara e, segundo o maestro Edson Frederico, foi o precursor do Impressionismo na música. Suas Peças Líricas, para piano, foi talvez o melhor da sua obra, mas são mais alemães que escandinavas, Nos lieds é que explorou mais o folclore nórdico, mas observe-se que ele musicou poemas alemães.
Apoiado por Liszt, produziu em geral uma música alegre, sem aquela melancolia sombria que se atribui à invernal música escandinava. Mesmo com o grande sucesso do seu Concerto para piano e orquestra em lá menor (1868), esreveu pouco em sonata-forma: só um quarteto e sonatas para violino e piano.
Segundo Carpeaux, ele tinha consciência da sua pouca habilidade em construir estruturas maiores, preferindo as peças poéticas e a forma livre da suíte.
Da sua música de cena para o grande drama simbólico Peer Gynt, de Ibsen, Grieg tirou (em 1876) duas suítes que tiveram o maior sucesso no mundo todo e, até hoje, é sua obra mais conhecida e mais executada nos concertos sinfônicos e de banda.
A popularidade de Grieg irrita a crítica, que o considera hoje como um compositor de quarta ou quinta categoria, o que é injusto. Como observa Carpeaux, "a invenção de melodias que sobrevivem ao gosto do dia não é talento dado a qualquer um."
O lugar de Grieg foi ocupado pelo finlandês Jan Sibelius (1865 - 1957). Quando o século passado começou, parecia que uma "escola finlandesa" tinha possibilidade de conquistar o mundo. Mas a fama de Palmgren e Kilpinen não conseguiu atravessar as fronteiras do país. Dos três grandes finlandeses só Sibelius obteve sucesso internacional.
Sibelius foi um músico de formação excelente, acadêmica, com instintos que Carpeaux chama de "anacronicamente românticos". Suas sinfonias não são dramáticas nem melodramáticas, mas afrescos musicais de natureza épica. O crítico pode perguntar por que necessidade íntima foram escritas, e por que diabos continuam oi repertório. Mas o certo é que estão, principalmente a Sinfonia nº 2 em ré maior (1902), a Sinfonia nº 6 em ré menor (1923) e a Sinfonia nº 7 em dó maior (1925).
Tão executado quanto Brahms, mais do que Bruckner, a verdade é que não pode passar desapercebida a sólida feitura de suas obra, como o Concerto para violino e orquestra (1903). Solidez que, curiosamente, não está presente nas obras mais divulgadas de Sibelius, a sua música de programa. Os poemas sinfônicos O Cisne de Tuonela, Finlândia, Tapiola e a suíte Carélia são rapsódicas, dedicadas à natureza sombria da terra finlandesa, mas não dizem coisa alguma de importante. Mas é inegável a beleza da Valsa Triste (tirada da música de cena para o drama Kuolema, de Jaernefelt,1903) e que acabou virando música popular.
O sucesso de Sibelius foi negado a seu contemporâneo e rival dinamarquês Carl Nielsen (1865 -1931), preferido por muitos críticos. Dele, só se tornou conhecido o espirituoso Quinteto para instrumentos de sopro (1922), mas pelo menos duas sinfonias mereciam (e ainda merecem) um lugar de destaque no repertório internacional, as que foram chamadas Expansiva (1913) e O Inextinguível (1917).