História da Música

A Música da Antiguidade

O que distingue a música primitiva da música antiga é a consciência da música. Se é verdade que alguns cantos africanos ou ameríndios atingem, às vezes, um grau legítimo de musicalidade, esses povos não chegaram ao conceito de arte musical, não foi consciente, na observação de Mário de Andrade: "Pode-se afirmar isso porque a música é a única das manifestações artísticas a que nãoé possível encontrar, entre os primitivos, normalizada por uma técnica propriamente dita."

Não há uma consciência sonora, e se é certo que os primitivos realizam o som, não se pode Afirmar que haja uma organização voluntária: a música é uma conseqüência dos instrumentos de sopro e do aparelho vocal. E mesmo esse som raramente é puro: "vive anasalado, vive no falsete, pouco definido em suas entonações incertas e portamentos arrastados", observa Mário.

As civilizações da Antiguidade já organizam os sons conscientemente e os agrupam em escalas determinadas teoricamente. Com isso, possuem o que já se pode chamar de Arte Musical e fazem uma criação social, com função estética, com elementos fixos, formas e regras, quer dizer, com uma técnica.

Apesar dos povos antigos terem sistematizado a música como arte, ainda não a concebiam com liberdade. A música viveu ligada à palavra, socializada, até porque o homem da Antigüidade é um ser mais coletivo que individual. O canto coral teve uma enorme importância, enquanto a música instrumental isolada quase não existiu.

Todos os povos da Antiguidade tiveram os sons organizados em escalas, formas e fórmulas sonoras de realizar música, mas tinham poica noção de equilíbrio sonoro e combinação de timbres.

Só os gregos é que vieram a conter os coros populosos e as orquestras barulhentas, impondo um ideal mais interior e sem efeitos fáceis. Na verdade, dos povos antigos, só a Grécia nos interessa porque influi na música da Civilização Cristã.

A Música na China

O Império chinês começou com Fo-Ri que teria inventado todas as artes, inclusive a música, a escrita ideográfica, o calendário e o casamento.

A música era orientada pelo elemento cósmico e o primeiro instrumento foi o gongo, usado para expulsar os maus espíritos e para acordar os deuses ou para salvar a Lua do Dragão, durante os eclipses.

"Os chineses conseguiram distinguir rapidamente um intervalo de terça e logo passaram para o de quinta", explica Edson Frederico. "Depois conseguiram formar uma escala com cinco notas diferentes, superpondo uma quinta à outra." Estava formada a escala Pentatônica: fá, dó, sol, ré, lá.

O primeiro teórico da música chinesa foi o sábio Ling Lun. Por volta de 2.500 antes de Cristo ele ordenou, sistematizou e deu nome às notas da escala pentatônica: Kong (fá) representava o Imperador; Che (dó) o Funcionário; Chang (sol o Ministro; Yo (ré) o Camponês e Kio (lá) o Burguês.

Foi o imperador Hoang-Ti quem ordenou a seu Mestre de Música que visitasse as terras distantes do Império, de onde ele voltou com um pedaço de bambu que, ao ser soprado, emitia uma nota musical. E contou que no vale distante onde encontrou o bambu, depois de soprá=lo viu um fênix macho que cantou seis notas, a partir da nota tocada. Uma fêmea cantou então outrasa seis notas totalmente diferentes.

A esse Mestre, que não deixou o nome para a História, foi encarregado de construir flautas de bambu que reproduzissem todas as notas e fez-se uma escala de doze notas.

Além das flautas, havia sinos, afinados com as seis notas masculinas (liú) e com as seis notas femininas (líu).

Mesmo com a escala de doze notas os chineses contionuaram compondo na escala de cinco, o das quintas, porque o número cinco "gera saúde e felicidade" e, segundo os sábios, os elementos primitivos eram cinco, antes de serem reduzidos a quatro (terra, ar, água e fogo).

Kung-Fu-Tsi (Grande Mestre Tsi, que os portugueses imaginaram chamar-se Confúcio e que viveu entre 571 e 478 a.C) tocava um instrumento, o kin, uma espécie de alaúde de cinco cordas de sede, cada uma representando um elemento.

Os instrumentos principais da música chinesa eram o kin, o cheng, o yang-kin, o pi-pa, o hou-kin, o heut-hien, o pai-siao, o siau e o chen.

O cheng era uma espécie de cítara, com uma única corda de seda e sem cravelha para afinação. Com o tempo foi ganhando mais cordas de tamanhos e sons diferentes. Chegou a ter 50, até que o Imperador determinou que o máximo deveria ser de 25, "para evitar a emoção excessiva" que o instrumento provocava.

O yang-ki também era uma espécie de cítara, mas com cordas de metal.

Pi-pa era uma alaúde com quatro cordas de fio de seda.

Hou-kin uma espécie de violino primitivo, com quatro cordas de seda.

O eut-hien só tinha duas, afinadas com um intervalo de quinta.

Pai-siao era uma flauta, feita com vários pedaços de bambu amarrados, formando uma gaita. E siau era a flauta reta, de um só bambu mas com vários orifícios.

Cheu era a flauta transversa.

Os chineses tinham a fala como um presente dos deuses e quando o falar não era suficiente para transmitir todas as emoções, cantavam. E se, ainda assim, não fosse suficiente, era preciso agitar as mãos e dançar.

Em 221 a.C o imperador Ts'In criticou seu povo porque usava mais tempo com a música do que com o trabalho produtivo. Por sua ordem foram queimados todos os livros que não fossem de agricultura, medicina e de presságios. Poucos livros co teoria musical escaparam, sendo enterrados pelos músicos. Só foram achados no ano 200 d.C. pelo sábio e teórico musical Se-Ma Ts'Ien, a quem se atribui o renascimento da música no país.

A Música no Japão

Chineses, por sua cultura muito mais antiga, têm preconceito em relação aos japoneses. E chegam a dizer que o Japão foi colonizado por macacos inteligentes imigrados da China...

Todo o conhecimento musical chinês passou para a Coréia, antes de chegar ao Japão. Os indígenas japoneses tocavam instrumentos de corda, o yamato-goto e o yamato-bué. Dos coreanos eles herdaram o hyen-keum, um instrumento parecido com o alaúde chinês kin. E toda a teoria musical chinesa, que assimilaram muito bem, aprendendo a tocar todos os seus instrumentos musicais.

Bons músicos, criaram o koto, uma espécie de cítara que era tocada deitada, com as cordas paralelas ao chão. Podia ter de seis a treze cordas, tamanhos diferentes, não tinha trastes.

"Os antigos achavam que o abrir e o fechar da boca eram atitudes relacionadas com a virilidade e a feminilidade", informa Edson Frederico. O canto era submetido a regras curiosas e a voz humana não soava simultaneamente com o instrumento musical, porque eles achavam que era muito monótono a voz em uníssono com o instrumento. O instrumento precedia a voz, para evitar coincidência de acentos da parte instrumental com a vocal.

Entre 1603 e 1868 o Japão foi governado por 15 gerações de ditadores militares (os shoguns, Senhores da Guerra), da família Tokugawa. É o chamado Período Edo. É o auge do teatro kabuki (surgido do teatro de bonecos bunraku) e da música que se fazia no palco. Os músicos ficavam em cena, do lado esquerdo, na gesa e sua profissão era um direito hereditário. No kabuki só os homens podiam atuar, como artistas ou músicos, mesmo nos papéis femininos.

As famílias dos músicos tinham também o monopólio do ensino e da organização de concursos de música que reuniam tocadores de biwa (o alude chinês pi-pa) ou de koto. Os concursos nacionais, de três em três anos, eram muito populares e atraíam grande público, sendo privilégio de três famílias, os Husimi, os Yotsuzi e os Zimyo-In. Uma quarta família, os Yosida, trabalhava apenas com músicos cegos, muito populares no Japão antigo.

A Música na Índia

Durante milênios a língua falada na Índia foi o sânscrito, que veio a ser a mãe do grego, do latim, do germânico e do eslavo. Os indianos dividiam a vo\ em três registros e, curiosamente, aconselhavam que deviam ser usadas no tempo certo: pela manhã a voz grave ou voz de peito; à tarde a voz média ou voz de garganta; à noite a voz aguda ou voz de cabeça.

O canto era muito prestigiado e seu ensino era exclusivo dos gurus, mestres-de-canto que se faziam acompanhar de sinos e pandeiros. As notas musicais eram identificadas com o som que os animais produziam e a escala musical chegou a ter 22 sons. Cada som era um sruti, tido como uma revelação divina para os ouvidos do ser humano.

Os instrumentos de corda já existiam por volta de 5 mil anos. O primeiro foi o ravanastron, trazido do Ceilão. O primeiro instrumento indiano derivou dele e foi o amrita, que também tinha duas cordas e era tocado com um arco.

Outros instrumentos importantes na história da música das Índia: o bin ou vina (muito semelhante ao chinês kin), de onde se originaram mais tarde o sitár (não confundir com a cítara, que era uma harpa de colo) e o samburá. A Índia foi muito rica em flautas, trombetas e tambores de todos os tipos e tamanhos.

A teoria musical indiana tinha como base um modo melódico, uma forma chamada raga. Segundo a lenda, os primeiros ragas foram 36, saídos das cinco bocas do deus Shiva. Outros 101 saíram da boca de Parvati, sua esposa. Chegaram a existir 264 ragas. As melodias feitas com esses modos eram chamadas jatis.

A primeira religião indiana foi o bramanismo: Brahma era o deus criador, Visnú o deus conservador e Shiva o deus aniquilador. Saraswati era a deusa da música, Narendra inventou o bin e Ganesha, deus da sabedoria, tocava samburá e inventou o canto, para louvar os deuses.

No Sama-Veda, livro sagrado, é possível perceber a importância que os indianos davam ao canto e à música.

A Música Fenícia

A Fenícia ficava entre o Mar Mediterrâneo e o Monte Líbano e foi povoada por fenícios e hebreus. Os fenícios conheciam a escrita alfabética, construíam embarcações capazes de enfrentar o mar aberto e longas distâncias, fundiam metais, produziam vinho e azeite, comerciavam com vários povos da Ásia, África e Europa e tinham uma elevada cultura musical.

A música fenícia era voltada para o prazer estético e para o acompanhamento do sexo: era sensual e libertina, chegando a ser orgástica. No período da decadência (de 1000 a 750 a.C.) os judeus diziam que a cidade de Tiro era "a grande meretriz com uma lira

Segundo os gregos, a melodia foi inventada em Sidon.

Os instrumentos musicais eram os mesmos dos seus vizinhos: liras com 5 ou 7 cordas, alaúdes com muitos trastes, um instrumento de sopro com duas palhetas, tambores duplos. Além da harpa egípcia triangular, com 4 cordas e sonoridade aguda, chamada sambuca e que ficou muito popular, inclusive no Império Romano.

Por volta do ano 1000 a.C. os fenícios conquistaram Chipre e daí vem a maior parte da informação musical dessa civilização com seus inúmeros instrumentos de percussão (tambores de todos os tamanhos) e pequenas flautas (gingras ou gingloros) e uma espécie de clarinete de dois tubos (a tíbia sarana, herdada de um povo muito antigo que viveu perto do Mar Cáspio). Todas as cidades fenícias eram independentes e eles tiveram colônias na África e na Península Ibérica (Cádiz, Sevilha, Córdoba e Málaga.

Quase nada restou da música fenícia, depois que Sidon foi conquistada e destruída pelos filisteus e que Tiro foi arrasada por Nabucodonosor e que o que se construiu sobre as ruínas foi impiedosamente destruído por Alexandre Magno, da Macedônia.


A Música Síria

O instrumento musical mais importante da Antiguidade foi inventado pelos sírios: a lira, levada ao Egito em 2000 a.C. e depois usada no Império Grego e no Império Romano.

A cítara também foi inventada na Síria e era fabricada na Lídia e vendida para o mundo em três versões: a primitiva magadis, a mais aguda pectis e a mais grave barbitos, todas assimiladas pelos gregos.

Também foi na Síria que surgiu o protótipo do oboé, um instrumento de sopro com duas palhetas. E muitas flautas.

O melhor período da arte musical na Síria foi de 2000 a 500 a.C. e o sistema de escala musical tinha quatro notas (tetracorde) também assimilado pelos gregos.

É aqui que começa o que, depois, na Grécia, vai ser incorporado pela Igrejka Católica e resultar nos Cantos Gregorianos.

A Música Palestina

A Palestina era habitada por várias tribos do povo hebreu. Numa época de idólatras, os hebreus eram monoteístas, não tinham regime de castas nem exploravam a escravidão.

O povo hebreu produziu o Velho Testamento e os textos bíblicos estão cheios de alusões que mostram o poder mágico que a música exercia sobre o homem. A música era indispensável ao culto.

O personagem bíblico mais exaltado como músico foi o Rei Davi, que tocava harpa. Mas o Rei Salomão, seu sucessor, ficou famoso como músico em todo o Oriente, atraindo para ouvi-lo até a Rainha de Sabá.

O instrumento de percussão mais popular era o tof, um pandeiro. Popular também foi a lira kinnor, de 10 cordas e caixa de ressonância. Os instrumentos de corda eram chamados neiginoth e os de sopro nehiloth. Os hebreus fizeram muitas flautas de cana e de madeira, de tamanhos diferentes. A de chifre era chamada halil. Nos momentos solenes soava uma trombeta reta, de metal, a hazozera. As curvas, de chifre de carneiro, eram conhecidas por keren e chofar e, segundo o Velho Testamento, o muro de Jericó veio abaixo ao som delas.

Todos os textos melódicos judeus perderam-se, no ano 70, quando o Grande Templo de Jerusalém foi destruído e houve a Dispersão dos judeus. Mas a tradição oral dessa música foi conservada, chegou a Roma e até à Rússia, através de Bizâncio.

Como os hebreus sempre cantaram, trabalhando, por lazer ou nas horas de aflição, sua música manteve-se inalterada por séculos. Tanto que em 1914 o cantor A.Z. Jdelsohn, nascido em Jerusalém, publicou uma obra em 10 volumes: Tesouro da melodias jebraico-orientais, uma coleção de 5 mil melodias do Yemen, Babilônia, Síria, Pérsia, Marrocos, Alemanha e Europa Oriental.

Suas melodias têm influências pentafônicas (escalas com 5 notas), e muita afinidade com os modos gregos. A maior parte das danças populares mantém tradições de mais de 2 mil anos. E a música cantada em coro também é uma das raízes do Canto Gregoriano.

A Música Árabe

A cultura árabe é de origem persa e o povo resultou, etnicamente, de dois grupos diferentes que habitaram a Arábia: os sabeus, sedentários e os beduínos, nômades do deserto.

O canto árabe pré-islâmico foi transmitido oralmente, porque não havia notação musical, mas sabe-se que pelo menos o beduíno era monótono e repetitivo. Os sabeus gostavam de cantar em roda, dançando e batendo palmas.

O calendário maometano é chamado hégira e o ano 1 marca a fuga de Maomé de Meca para Medina, no ano 622 do nosso calendário. Maomé morreu em 632 e com sua morte a nova religião fortaleceu-se e seus seguidores começaram a perseguir a música e os músicos, porque "distraía da fé". Ainda por cima, segundo os ortodoxos, a música não era coisa de homem nem de gente séria

Em menos de 50 anos os árabes já dominavam o norte da África, a Península Ibérica, várias regiões da Europa e embora os ritos ortodoxos reprovassem o canto, a dança e qualquer tipo de música, ela era muito praticada e chegou à Espanha, de onde correu mundo.

O primeiro estudioso e teórico da música árabe foi Chalil, no século VIII. Sua preocupação maior era o ritmo.

Mas o maior teórico foi Al-Farabi (Abu Nasr Mohamed Bem Tarchan, 872 - 950). Ele conhecia e dominava o sistema musical grego que tentou, sem êxito, introduzir na música árabe. Foi ele o primeiro homem a afirmar, por escrito, que o som era obtido pelas vibrações do ar, contestando a teoria de Pitágoras, para quem o som era o resultado harmônico das esferas e dos planetas.

A escala árabe, com 17 sons, foi criada em Bagdá, um século depois, por Safi-Ab-Din, outro teórico.

Os primeiros Califas, depois de Maomé, eram expressamente contrários à música. Quando Maomé morreu, viviam em Medina três cantores famosos, Tueis, Adatal e Hit, e o Califa mandou castrar os três porque "ninguém deveria mais cantar, de tristeza pela morte do Profeta"

Mesmo com toda a proibição e perseguição havia escolas clandestinas de canto em Meca e mesmo em Medina, onde era possível beber vinho, cantar e tocar instrumentos de música.

Na corte dos omeyas nunca faltou vinho e música, na Mesopotâmia, os abasias protegiam e até pagavam bem os músicos. Logo todas as famílias ricas tinham sua escrava-cantora.

O rei Yecid II pagou 4 mil dinares iraquianos pela escrava-cantora Habeba, que morreu aos 18 anos, deixando o Rei inconsolável. Ele chorou 15 dias, até que também morreu.

Alguns cantores ficaram famosos. Como Honain, Por um decreto do governador do Iraque ele tinha liberdade para cantar na sua casa. Como era o único cantor da província, atraía multidões à sua casa, a cada espetáculo. Um dia, a casa não suportou e ruiu, matando a todos, inclusive ao grande Honain.

Chamila também ficou muito famosa. Foi uma escrava-cantora que ganhou a liberdade e um decreto que lhe permitia cantar onde e quando quisesse.

Aben Mosáschech viajou por toda a Pérsia e Ásia Central cantando com sucesso. Aben Soraich ficou conhecido como O Anjo que Canta. Mojárec nunca repetiu uma canção da mesma forma. Oraib sabia, de cor, mais de mil músicas. Ibrahin El Mosuli era nobre e chegou a compor mais de mil melodias.

O famoso rei Harun Al Rachid deu uma festa na qual apresentou um coro formado por 2 mil escravas-cantoras.

O principal instrumento musical árabe foi o Ud, de origem egípcia, depois levado para a Espanha. Lá. O al-Ud foi chamado de alaúde. Assim como o rebad foi chamado de rebeca, o viela de viola e o guiterna de guitarra.