Felix Mendelssohn-Bartholdy (1809 - 1847) era neto do filósofo judeu Moses Mendelssohn, mas foi balizado pelos pais na igreja luterana, à qual foi sempre ortodoxamente fiel. Representante do Biedermeier prussinao, foi sempre rigorosamente apolítico, fervorosamente religioso, altamente moral e tinha excelente nível cultural.
Filho de banqueiro rico, recebeu educação brilhante e nunca chegou a conhecer as preocupações materiais da vida
Extraordinariamente precoce, fez sucesso como pianista ainda menino como compositor ainda adolescente e como regente antes dos 20 anos. Idolatrado em vida, foi o fundador dos famosos Consertos Sinfônicos de Gewandhaus, em Leipzig e do não menos famoso Conservatório da cidade.
Morreu cedo, antes que sua glória começasse a empalidecer, com apenas 38 anos de idade.
Um dos mais importantes feitos de Mendelssohn, segundo Mário de Andrade, foi revelar para o mundo o valor de Bach como compositor. Admirado como virtuose do cravo e como organista, Bach foi um compositor adiantado para o seu tempo e esse anacronismo fez com que seu valor musical passasse despercebido dos seus contemporâneos. Um século depois, Mendelssohn executou na própria Leipzig (em 1829) a Paixão Segundo São Mateus. Desde então é que se firmou e começou a crescer o valor de Bach.
Depois de ter sido o compositor mais festejado da sua época, principalmente na Inglaterra (onde, até hoje, tem a admiração incondicional dos músicos, regentes e críticos conservadores), Mendelssohn (já morto) foi perdendo importância porque os críticos acreditavam reconhecer nele um epígono da grande época clássica que só havia adotado certas feições exteriores do romantismo. Mas, em grande parte, também, por conta do fortíssimo anti-semitismo wagneriano. Segundo Otto Maria Carpeaux, durante o nazismo as obras de Mendelssohn foram banidas de repertório alemão e logo sua execução chegou mesmo a ser proibida.
Hoje, ninguém combate Mendelssohn por ser judeu, mas porque as grandes qualidades formais da sua música não chegam a compensar o sentimentalismo romântico e a falta de paixão desse homem rico, fino, culto e equilibrado que não conheceu a necessidade de lutar por qualquer coisa que fosse.
Sua linguagem musical, no entanto, é inconfundivelmente pessoal e Carpeaux considera que "seria injusto confundir Mendelssohn com os mendelssohnianos alemães e ingleses da segunda metade do seco XIX".
Foi grande artista, mas grande parte da sua obra pianística está morta. No entanto há obras-primas que ficaram, as mais difíceis, como as Variations sérieuses em ré menor, op. 54 e o Concerto para piano e orquestra nº 1 em sol menor, que continua muito executado.
Dos seus lieds sobrevive apenas Auf Fluegln dês Gesanges (Nas Asas do Canto) e para a maioria dos críticos Mendelssohn criou poucas obras-primas mas as que criou têm valor permanente.
Carpeaux destaca, "antes de tudo", a abertura para o Sonho de uma Noite de Verão (de Shakespeare), escrita em 1826. (A música incidental e a marcha nupcial foram acrescentadas em 1842). E escreve: "A abertura é obra do mais íntimo lirismo e de encantador colorido romântico da orquestração. É o milagre entre os milagres da precocidade; pois nem sequer o próprio Mozart chegou a escrever com 17 anos de idade uma obra-prima dessas".
Do Concerto para violino e orquestra em mi menor, op. 64, diz Carpeaux, "nem sequer os inimigos de Mendelssohn ousam falar mal. É a mais melodiosa, a mais nobre e a mais brilhante entre as obras desse gênero", uma das criações mais puras da música alemã.
Sobre o famoso Trio para piano e cordas em ré menor é que os críticos ficam divididos: enquanto uns o colocam entre os trios de Schubert e o quinteto de Schumann (como Shoemberg), outros batem no seu ponto fraco, o movimento lento, considerado sentimentalóide.
Primeiro grande regente de orquestra do século XIX, foi Mendelssohn quem criou o repertório histórico das nossas orquestras de concerto, com Haydn, Mozart e Beethoven servindo de base do programa. Ressuscitou Bach, renovou Handel e ainda refletiu-o em seus próprios oratórios, Paulus e Elias que ainda impressionam e fazem parte do repertório dos corais na Inglaterra. Foi dos poucos a reconhecer, em seu tempo, o valor dos últimos quartetos de Beethoven, o que assumiu no seu próprio Quarteto em fá menor, op. 80.
Seus detratores falam nas "sinfonias de turista", mas as impressões de viagem resultaram em admiráveis obras-primas pelo equilíbrio entre a perfeição formal, rigorosamente clássica e o colorido romântico da Sinfonia Italiana em lá maior e da Sinfonia Escocesa em lá menor.
No fundo, para Mário, Mendelssohn não foi romântico, mas parnasiano, muito antes de haver a literatura parnasiana.