Seu nome era Ferenc Liszt e ele nasceu na Hungria.. Seus antepassados eram alemães e ele nunca chegou a falar bem o húngaro, pois foi educado na Áustria. Nascido em 1811, menino prodígio, aos 11 anos era um sucesso ao piano, um virtuose. E começou a viajar, já apresentado com o seu "nome alemão": Franz.
Em Paris ele conheceu Paganini e Mário de Andrade dizia deles que eram "o exaspero da virtuosidade". Romântico, Liszt não imagina a música desligada da palavra e ele cuida de expressar os fatos, as impressões de viagem e as leituras com a sua música e a sua técnica píanística que, para Mário "chegava ao suprassumo do malabarismo"..
Autor de música programática, Liszt deu ao poema sinfônico a solução mais lógica, fazendo peças em um único movimento. Ele sistematizou o que Mário chamou de "esse gênero espúrio", elevando-o "à mais grandiosa e mesquinha finalidade". No entanto, Mário de Andrade reconhece que Liszt era um instrumentador formidável e que o poema sinfônico engrandeceu os limites da orquestra beethoveniana e abriu as portas às pesquisas de ambientes sinfônicos novos. Assim como reconhece nele "um grande experimentador, um grande criador, o explorador da quinta aumentada e da sétima diminuída".
Acusado de criar um caos harmônico, na verdade ele e outros compositores românticos criaram uma definição nova de harmonia. Para Mário, eles colocaram o acorde em tal evidência "que ficou individualizado, psicológica e fisicamente". Isto é, deixou de ter ligações com os vizinhos,, de tomar parte numa concatenação, destruiu o conceito clássico de harmonia.
A segunda onda
Para os historiadores da música, Schumann teve mais influência no exterior do que na Alemanha e, segundo Otto Maria Carpeaux, foi quem abriu aos alunos estrangeiros de música que estudavam nos conservatórios alemães a idéia do nacionalismo: de transformar os folclores nacionais em música clássica.
Esta segunda onda nacionalista ´é agressiva e tenta evitar a avassaladora influência alemã sobre os valores próprios da música popular de cada país. Nesse terreno o elogio não deve ir só para Schumann mas também para Liszt (que foi da primeira onda, por influência de Weber).
Liszt é um cosmopolita ocidental de origens exóticas, que oferece a contribuição das recordações de sua infância e juventude sem querer impô-las. Mas, na verdade, Liszt pertence menos à Hungria que Chopin à Polônia. Quando foi recebido em Budapeste com honras régias, em 1840, respondeu aos discursos em húngaro falando... em francês. E, no final do discurso, acrescentou uma peroração... em alemão..
Reconheça-se que seu temperamento era húngaro. E que sua memória era tão notável que sabia de cor todo o Cravo Bem Temperado, de Bach, que ouvira na infância. Foi essa memória que valeu lembrar as músicas do folclore húngaro que ouvia na infância.
O valor do seu livro sobre a música dos ciganos que viviam na Hungria e das famosas 19 Rapsódias Húngaras (1846) escritas para piano e depois orquestradas por ele mesmo para execução em concerto, são inegavelmente um eco da música folclórica e popular da Hungria. A grande verve rítmica e desconcertante trivialidade melódica são de fácil entendimento para o público e não é sem razão que a Rapsódia nº 2 em dó sustenido menor tenha-se tornado imensamente popular, uma das músicas mais conhecidas do mundo.
É curioso que Liszt tenha querido levar ao público uma espécie de explicação sobre as particularidades modais e rítmicas da sua música húngara, escrevendo um livro sobre a música dos ciganos de sua terra. Ele é mesmo o responsável pela confusão entre música húngara e música cigana, (Segundo Carpeaux, a música húngara autêntica só será descoberta em nosso tempo, por Bartók e Kodályi.)
Liszt só é nacionalista numa parte pequena da sua obra. No mais é homem dos círculos aristocráticos e das elites européias dos anos 50 do século 19. Mas é claro que houve em Liszt algo de cigano.
O compositor
Para os historiadores e críticos musicais Liszt foi o maior pianista de todos os tempos e isto foi reconhecido em seu tempo. Improvisador de habilidade vertiginosa, com uma sólida cultura musical e gosto requintado, desde cedo foi um ídolo do público e, ao mesmo tempo, o encanto das elites.
Mas Liszt não queria a glória do pianista e sim a do compositor. Depois de ter reunido as qualidades de Paganini e de Chopin e de superá-los ao piano, queria a glória de Berlioz como compositor orquestral;
Poeta, religioso, filósofo, seus estímulos de compositor foram literários, religiosos e filosóficos e por isso mesmo preferiu a música de programa.
Suas obras sinfônicas não foram bem recebidas pelo público, rejeitada pelos adeptos de Schumann e pelo próprio Brahms. Mas os admiradores do mestre eram em maior número e o sucesso do pianista repetiu-se com o compositor.
No entanto, quase todas estão esquecidas e as tentativas de ressuscitá-las não foram bem sucedidas. Seus poemas sinfônicos não são mais executados e o que se pode ouvir ainda é Ce qu'on entend sur la montagne (1849), ilustrando um texto poético de Victor Hugo; Les Preludes (1854), inspirado em um poema de Lamartine (seu melhor poema sinfônico); Mazeppa (1854), muito admirada à época mas meramente ilustrativa; e Die Hunnenschlacht (A Batalha nos Campos Catalanos, de 1856), inspirado num quadro de Kaulbach, música de efeito espetacular e só isso;
As duas sinfonias em que Liszt empregou (como Berlioz) o princípio de temas que voltam, transformados, em todos os movimentos, são duas obras-primas. A Sinfonia Faust (1855), em três movimentos dedicados a Fausto, Mefistófeles e Margarida, é a sua maior obra orquestral. E a Sinfonia Dante (1856) tem um último movimento genial, o excelente Magnificat.
Todas as suas obras são repletas de interessantes idéias musicais, mas parecem "irremediavelmente antiquadas", no dizer de Carpeaux. Diz ele que são de "gosto suntuoso" e "pseudo-histórico" da "época dos móveis de estilo" e "da imitada arquitetura gótica"..
Esse estilo falso prejudica também a música sacra de Liszt. "Não se pode duvidar da sinceridade do catolicismo de Liszt, pecador que expiou profundamente o seu passado", escreveu Carpeaux. Mas mesmo as suas obras principais, a Missa Solemnis de Gran (1855) e a Missa de Coroação Húngara (1867) têm grande brilho orquestral mas são pouco litúrgicas.
Sua teatralidade prejudica também o oratório A Santa Elizabete (1862), assim como a simplicidade arcaica do Christus (1866, com texto em latim) não convence.
Liszt, pelo menos aparentemente, não dava importância aos críticos de suas obras orquestradas e corais. Continuou seu caminho, com coerência ferrenha, certo de que sua música seria reconhecida no futuro. Não foi.
Mais feliz ele foi com os lieds, poesias românticas alemãs de Goethe, Heine, Lenau, elegantemente tratados à parisiense: ou os poemas franceses de Hugo e Musset, assim como com os três belos sonetos de Petrarca. Todos com acompanhamento pianístico significativo e tecnicamente difícil.
Os críticos costumam chamar de magistrais os arranjos de lieds de Schubert e Schumann para piano solo.
Liszt só se realizou plenamente como compositor na música para piano, mas mesmo assim é preciso considerar que muitas fantasias e variações sobre melodias de óperas, valsas e danças da moda, são trabalho de virtuose para brilhar como virtuose.e mesmo que sobrevivam no repertório, não têm maior valor.
Para Carpeaux o virtuosismo também domina nos dois Concertos para piano e orquestra, em mi bemol maior (1848) e em lá maior (1848), "mas nenhum grande pianista quer dispensá-los".
Como também eram exercícios de virtuosismo os Estudos Técnicos, que Busoni e Bartók admiravam.
A melhor música pianística de Liszt está nas duas coleções de peças poéticas: Années de pelégrinage (1839, recordações de viagem à Suíça e à Itália) e Harmonies poétiques et religieuses (1848). Seguidas pelas Légendes (1863). A obra-prima incontestada é a Sonata para piano em si menor (1853), uma fantasia rapsódica, com um tema único Além da sua qualidade musical, esta sonata tem outra importância histórica: vai inspirar o princípio cíclico de César Frank..
Uma curiosidade: ouvindo sua execução pelo próprio autor, Brahms adormeceu. Foi o início de uma inimizade que durou o resto da vida. Isto dividiu o público e com a vitória da música de Brahms a maior parte da obra de Liszt (o anti-Brahms) foi para o limbo. Um destino injusto para quem Carpeaux afirma ter sido "um grande artista e homem de rara nobreza da alma e do espírito".