História da Música

Haydn

Joseph Haydn (1732-1809) é, dos grandes compositores, aquele que mais explorou a música folclórica e onde o folclore teve mesmo um papel decisivo. Mas seu legado mais importante foi ter lançado o fundamento permanente daquilo que hoje nós chamamos de "música clássica".

Haydn veio do povo. Era filho de um artesão numa aldeia da chamada Áustria Baixa, perto de Viena e da fronteira húngara. De vez em quando a tese da sua origem eslava (inventada por um autor inglês), ainda aparece e foi muito divulgada por autores germanófobos. Hoje, está abandonada.

O certo é que ele é austríaco e foi menino de coro na catedral de Santo Estevão, em Viena, onde recebeu sua formação musical. Pobre, vivia de tocar em tavernas e em serenatas encomendadas. Livrou-o da miséria um casamento, por amor, com a filha de um pequeno-burguês vienense.

Mas a incompatibilidade de gênios condenou o casamento a um fracasso doloroso para Haydn. Viveu separado da mulher mas seu casamento foi, para ele, um martírio vitalício.

Contratado pelo riquíssimo príncipe húngaro Esterházy como músico, foi viver em seu castelo, em Eisenstadt, perto de Viena. Não passava de um empregado mas era tratado com muita consideração e respeito. Tinha à sua disposição uma orquestra excelente, que dirigia e que lhe serviu para experimentar suas obras.

Haydn tornou-se conhecido em Viena, depois em toda a ÁUSTRIA E NA Alemanha, na Hungria, em toda a Europa. Em 1785 os cônegos da catedral de Cadiz, na Espanha, escrevem a ele encomendando uma obra. Em 1786 escreve, sob encomenda, uma sinfonia para os concertos públicos promovidos pela Loja Maçônica Olympique, de Paris.

Com a morte do príncipe Esterházy e da mulher, fica livre para viajar a Londres em 1791, a convite do violinista e empresário Salomon. Ganha muito dinheiro com os seus concertos e um título de doutor honoris causa da Universidade de Oxford.

Uma segunda viagem, em 93, repete o sucesso musical e financeiro.

Em 1797 é contratado para escrever o hino do Império Austríaco e foi reconhecido como "compositor oficial da Áustria".

No mesmo ano apresenta o oratório A Criação e faz enorme sucesso.

Logo depois retira-se, vai viver em sua casa, em solidão, não se sabe o motivo.

Quando morre, em 1809, em Viena ocupada pelas tropas francesas, por ordem expressa de Napoleão doze oficias franceses fizeram sua guarda de honra no funeral.

No século XIX Haydn foi injustiçado e houve até quem escrevesse que ele era "o pé menor do classicismo vienense". A historiografia falsifica a perspectiva histórica e a realidade, dando ao leitor a impressão de que Haydn foi inferior a Mozart que, poir sua vez, teria sido superado por Beethoven.

Hoje reconhecemos que Haydn não foi menor, nem imperfeito. O problema é que a fama de Mozart e a idolatria que o cercou fizeram com que Haydn fosse relegado e que Schumann fosse tratado com benevolência. Os românticos fizeram de Mozart um deus e só o trabalho de Toscanini, Bruno Walter e Beecham reabilitaram Haydn e o recolocaram entre os gênios, com Bach, Mozart e Beethoven.

Suas poucas letras foram assunto para diminui-lo, como se a inteligência musical não fosse um fenômeno à parte, inteligência suficiente para realizar uma revolução mais profunda que a da ars nova e mais construtiva que a de Monteverde, como observou Otto Maria Carpeaux, afirmando que ele "enterrou a música barroca e iniciou a moderna".

Haydn foi o mais original de todos os compositores no que diz respeito à invenção melódica. E sua criatividade levou-o a escrever a Sinfonia do Adeus e, para significar a vontade que os músicos tinham de deixar Sisenstradt para irem a Viena, fez com que os músicos, um a um, fossem saindo, até que o regente, sem orquestra, sai também.

Sobre Haydn, escreveu Mário de Andrade: "estamos agora na mais pura elevação de arte clássica instrumental. Sem dúvida que Haydn também, principalmente nos oratórios, nos consegue comover sentimentalmente, mas isso não nasce de que a música dele se baseie em valores intencionalmente psicológicos, senão porque a beleza musical comove mesmo e assume, pelo seu dinamismo essencial, as diversas ordens gerais da comoção: alegria, tristeza, calma, graça, paz. Haydn não tem nada de profundo, como também, nas obras mais representativas, não tem nada de superficial. É uma das expressões mais étnicas da música germânica. Se coloca, sob esse ponto de vista, ao lado de Bach, de Schubert e de Wagner."

Para Mário, a vida de Haydn foi "a de um bocó". Mas, na música sua ingenuidade não resultou em qualquer manifestação ridícula ou pueril e contribuiu para a sua invenção melódica, pelos temas curtos, pela riqueza rítmica rara na música européia, pela vivacidade graciosa, engraçada, livre, espontânea. E o que mais assombra a Mário é que essas qualidades, duma franqueza incomparável, estivem "engaioladas dentro da forma inflexível da sonata". E observa: "Inflexível, não tem dúvida, sempre a mesma, não permitindo escapatórias, porém a que Haydn deu uma articulação maravilhosa que só Mozart superou".

Por ter origem no folclore, Haydn é o mais típico, o mais inconfundível dos austríacos. Ele aproveitou o folclore musical dos germânicos, dos eslavos, dos húngaros, dos italianos porque nas ruas e Viena, em sua época, cantava-se em alemão, em tcheco, em húngaro, em italiano e até em croata e romeno e ele começou sua carreira como músico de rua e tocando violino em serenatas pagas (como era do costume).

Foi sua auto-suficiência nas cordas que enterrou o baixo-contínuo e a música barroca inteira, porque não se pode levar um cravo ou piano para tocar na rua habitualmente. Nas bandas populares não há solista virtuose, o que vale é o conjunto instrumental. Assim se fez a música de Haydn que, infelizmente, provocou o esquecimento de Bach.

Para garantir a construção e a coesão do quarteto e da sinfonia, sem o apoio harmônico do baixo-contínuo, Haydn elaborou uma nova polifonia instrumental, o que torna cantáveis seus temas instrumentais. Inventoir de melodias, o hino que fez para o Império Austríaco (e que os alemães usurparam e usam até hoje) é um coral de grande e emocionante simplicidade, destinado a ser cantado pelo povo. (E que seriviu como tema das extraordinárias variações do Quarteto opus 76, nº 3, um dos pontos altos da música instrumental.)

Haydn desenvolveu, simultaneamente o quarteto e a sinfonia e é bobagem afirmar que ele criou primeiro o quarteto, ampliando-o para a sinfonia, como é bobagem dizer que criou a sinfonia e depois espiritualizou-a no quarteto.

A maturidade plena de Haydn está revelada nos Quartetos opus 33 (de 17810), denominados Quartetos Russos e nos alegres Quartetos opus 64 (1790), especialmente o chamado Cotovia.

Para Carpeaux, "os quartetos de Haydn constituem um mundo da mésica, completo e autônomo, assim como as cantatas de Bach".

Haydn exprime tudo, menos a tragédia. (Segundo Nietzche por "moralismo tímido".) E, ao contrário do que afirmaram alguns biógrafos e musicólogos mal informados, não foi uma personalidade simples. Era um requintado, um sofisticado, um aristocrata que nunca esqueceu suas origens camponesas e populares ou o folclore da sua terra. Católico fiel à sua Igreja, é ético, mas também é um racionalista, como maçom que era. Galante, burguês (principalmente em matéria de dinheiro) sentimental como um romântico, suas tensões e ambigüidades resdultaram na sonata-forma, a música especificamente dramática.

Mestre de Mozart, dedicou a ele muita atenção e apreço e, na segunda fase da sua vida, deixou-se influenciar por ele. Sua música toma formas musicais mais amplas, a construção é mais complexa. Em melodias de Mozart é possível identificar Haydn mas a diferença fundamental é que o estilo de Haydn é pessoal, o de Mozart é o estilo da época, da moda.

O que impressiona é que Haydn nunca deixou de progredir, mesmo depois de velho. Suas missa são alegres, pouco litúrgicas, mas agradam ao povo. São sinfonias cantadas, tendo o texto litúrgico como letra. Filho de um século profano, no fim da vida escreve oratórios (é verdade que com inspiração meio profana). Atinge o apogeu com Die Schoepfung (A Criação, de 1798), sua maioor obra, monumento de devoção realista, otimista e alegre.

Haydn é o precursor e, em boa parte, o antecipador de Beethoven. A repercussão da sua obra foi fulminante e vasta: todos os músicos de seu tempo foram haydnianos.