História da Música

Berlioz

No auge do romantismo (1830 a 1870) o ambiente parisiense é, segundo Otto Maria Carpeaux, "quase hostil à música séria". Diz ele que literatos e críticos revelam "ignorância espantosa" e que não se admite outra música a não ser a dramática, a ópera. E mesmo na ópera não se admite a menor intervenção do elemento sinfônico, e nem Gounot escapou de ser hostilizado. Meyerbeer é o nome da moda.

É nesse ambiente que Hector Berlioz sofre uma sucessão de decepções, derrotas, críticas duras, humilhação, misérias. Mesmo assim, em meio a um romantismo "falso e falsificado" ele foi o único verdadeiro romântico na música, podendo estar ao lado da poesia de Victor Hugo e da pintura de Delacroix.

Hector Berlioz (1803 - 1869) foi um homem extravagante cuja vida foi um romance tempestuoso com desfecho melancólico. Rebelde, incompreendido, começou por enfrentar a família de médicos e juízes: sua escolha pela música foi muito mal recebida e ele não teve qualquer apoio dos seus parentes.

No Conservatório de Paris (onde Cherubini atuava como um ditador), rebelou-se contra o ensino e contra a moda parisiense (que classificou como "frívola e burra"). Sua prova final foi uma obra sinfônica, o que os mestres já julgavam um desaforo. A Symphonie Fantastique era, segundo ele mesmo, "um romance erótico em sons musicais", uma incrível declaração de amor à atriz inglesa Harriet Smithson. Uma declaração irrecusável que fez com que os dois se casassem. Foi um desastre, porque ela não era um moça séria.

Sem dinheiro, quase na miséria, Berlioz (que era muito bom escritor e musicalmente bem educado), aceitou um emprego como crítico musical no Journal dês Débats e tinha todo o direito de pedir para que esquecessem o que escreveu: tinha que ser agradável aos nomes da moda na ópera, Aubet, Adam, Halévy, que ele detestava. Em carta a Georges Sartel ele confessa: "Procurar qualidades nesses compositores de terceira é uma trabalho superior às minhas forças ao qual estou obrigado, infelizmente."

Suas estréias foram repetidamente desastrosas, porque ele insistia em remar contra a corrente. Seu Réquiem foi oferecido para os funerais de várias personalidades, em vão: foi sempre recusado, até ser usada por um personagem menor.

A execução da obra sinfônica Romeo e Juliette só rendeu 1.100 francos.

Em 1846 o fracasso completo do concerto em que apresentou pela primeira vez La Damnation de Faust obrigou-o a desistir de se apresentar como compositor em Paris.

Passou a ganhar a vida como regente viajante de orquestra no estrangeiro, principalmente na Alemanha e na Rússia.

Sempre acompanhado pela amante, a medíocre Marie Recio (que lhe amargurou a vida), não conseguiu fazer com que a aceitassem, o que prejudicou a possibilidade de fazer representar sua grande ópera Les Troyens.

Liszt procurou ajudá-lo, lutou por ele, mas o sucesso de Wagner ofuscou de vez a estrela de Berlioz que morreu na miséria de sempre, e abandonado. Só a história colocou-o no lugar de melhor e único representante do alto romantismo francês e de uma das cinco figuras dominantes do romantismo (segundo Mário de Andrade, juntando o nome dele ao de Chopin, Schumann, Lizt e Wagner).

Segundo Mário, "tudo o que esses cinco artistas inventaram como estética e técnica musical, resume o romantismo na sua essência mais pura".

Berlioz sonhou com orquestras monumentais e em seus poemas sinfônicos juntou coros e solos vocais à orquestra (como Beethoven). Ele e Liszt sitematizaram a música de programa, a música que procura, por intermédio dos instrumentos musicais, descrever um fato, uma situação, um sentimento, fixado preliminarmente por uma página literária que está impressa no programa. A habilidade sinfônica de Berlioz fez com que ele fosse tido como o mais luminoso e pictórico dos românticos.

Segundo Mário de Andrade, "o poema sinfônico engrandeceu os limites da orquestra beethoveniana e abriu as portas à pesquisa de ambientes sinfônicos novos." Mas "Berlioz só escreveu música quando estimulado por impressões literárias", informa Carpeaux. Ele mesmo foi um bom escritor, um dos maiores críticos musicais de todos os tempos, um cronista espirituoso e um memorialista de qualidade.

Não é correto, no entanto, dizer que foi mais literato que compositor, como sugeriram alguns biógrafos. Se é verdade que ele organizou suas obras sinfônicas como ilustrações musicais de enredos literários, não deixou de ter valor como compositor de música absoluta.

A obra-prima de Berlioz, reconhecida pela maioria dos historiadores da música, é a cantata cênica La Damnation de Faust, destinada às salas de concerto mas que também podia ser encenada em um palco. A cena da Caverna e Floresta, para Carpeaux, "é grande poesia musical, digna do poema de Goethe". E não só ela.

Berlioz é maior quando se apóia num elevado texto poético. Mas a sua "música de programa" e a idéia de transpor textos e enredos poéticos para a música orquestral sem palavras ´é uma idéia romântica, no mau sentido. Não só a arte musical raramente é capaz de transmitir situações físicas e acontecimentos dramáticos, como acaba sendo um simples acompanhamento para criar ambiente. A necessidade de um programa que explique ao público o que a música quer transmitir já seria suficiente para mostrar que os compositores não conseguiam fazer chegar ao público, só com a música, o que queriam transmitir. Há mais ruído e efeitos especiais nessas músicas. Mesmo assim, Berlioz fez música melhor que a sua teoria.

Embora partindo da sinfonia beethoveniana, Berlioz encontrou seu próprio caminho, sem querer resolver os problemas dos outros, principalmente dos adeptos da música absoluta. Sua música é essencialmente dramática e ele "odiava e ignorava deliberadamente a polifonia, qualquer polifonia", no dizer de Carpeaux. Evitou as dissonâncias e é preciso reconhecer que sua música, muitas vezes, é mais teatral do que expresso nas suas intenções, provavelmente por contaminação do ambiente operístico.

Cético, profundamente arreligioso, para ele foi difícil escrever música sacra. O seu Réquiem é uma sinfonia fúnebre que abala os nervos já abalados pela perda, com o barulho apocalíptico de duas orquestras enormes e quatro coros. Nasceu daí sua má fama de escrever "só para 500 executantes". Mas a obra, com todos os seus defeitos, é um dos pontos mais altos do romantismo musical francês, "sempre grotescamente fantástico e, ao mesmo tempo, brutalmente realístico", no dizer de Mário de Andrade.

Berlioz negava a má fama: "Nem sempre escrevi párea 500 músicos; 'as vezes contento-me com 450". Na verdade, contentava-se com bem menos, até mesmo com uma orquestra de câmara e um pequeno coro no oratório L'Enfance du Christ (1854), obra de beleza íntima e (surpreendente) inspiração religiosa.

Homem de muitas idéias, sua capacidade de invenção melódica é notável. E mais admirável é o aproveitamento dessas idéias musicais na instrumentação. Segundo Carpeaux, "entre todos os compositores grandes ou notáveis, de todos os tempos, foi Berlioz o único que não dominava o piano nem o violino, nem qualquer outro instrumento. Seu instrumento foi a orquestra inteira". Na verdade, para Carpeaux, "ele renovou, ou melhor, revolucionou a arte e a técnica da instrumentação". A esse respeito, Liszt, Wagner, Richard Strauss e Rimsky-Korsacov são seus discípulos.

Berlioz foi um dos compositores que exerceram mais influência sobre todo o século XZIX. Mas, grande individualista, não teve alunos nem discípulos.