História da Música

A Música Clássica

Nietzsche dizia que a música estava sempre em atraso em relação às outras artes. E explicava que é muito mais difícil que as pessoas se acostumem a um novo estilo musical do que a inovações no terreno da poesia, da prosa, da pintura ou da escultura. Em sua opinião, a música ficaria sempre para trás.

A presença da música barroca de Bach (morto em 1750) e de Handel (morto em 1759) em pleno século XVIII parece dar razão a ele. Para explicar essa presença anacrônica quando a literatura e as artes plásticas já haviam abandonado e até esquecido o barroco, só aceitando-se a tese de Nietzsche.

Em 1778, quando Voltaire morre, a Europa há decênios estava dominada pelo pré-romantismo, sentimental ou patético e as formas musicais do barroco não se prestavam para expressar esses sentimentos. A ópera napolitana de Scarlatti era essencialmente não-dramática. As óperas de Handel caíram logo no mais completo esquecimento. E a música instrumental barroca era tão abstrata, tão fora do seu tempo, que Bach foi abandonado pelos próprios filhos.

Os filhos de Bach

Johann Christian Bach (1735 - 1782) foi o filho caçula e predileto do mestre Bach. E seu maior traidor. Em 1754, em Milão, apenas quatro anos depois da morte do pai, o filho do maior músico protestante converteu-se ao catolicismo, para obter o cargo de organista do Domo.

Em 62 Bach estava em Londres, novamente como protestante e maestro da Rainha. Em 65 fez uma parceria com o violinista Karl Friedrich Abel para fundar uma "sociedade de concertos públicos", a primeira do gênero. Ganhou muito dinheiro e entregou-se aos prazeres materiais, bebidas e mulheres. Epicureu cínico, cortesão inescrupuloso, execrado pelos contemporâneos como apóstata, hoje dão-lhe importância que nunca teve, como compositor típico do rococó e um dos representantes do chamado "estilo galante".

Em 1768 tocou, pela primeira vez, em um concerto, substituindo o cravo pelo piano, em público que pagou para ser admitido ao concerto. Os historiadores da música tomam essa data como o fim da música escrita para a câmara de príncipes e aristocratas.

Quem o ouviu tocar foi o então menino prodígio Mozart que declarou-se muito impressionado. Tanto que, se hoje ouvirmos Johann Christian Bach, vamos imaginar que estamos ouvindo Mozart. Na verdade, o estilo mozartiano é bachiano, de Johann Christian.

Ele recebeu, na casa do pai, cuidadosa educação musical, assim como os outros filhos e nos nossos dias o "Bach de Londres" voltou a fazer parte do repertório de música de câmara, pelo menos com a chamada Sinfonia para Duas Orquestras, em ré maior (que Carpeaux chama de "espécie de concerto grosso degenerado), assim como os pianistas executam os Concertos (em dó maior, sol maior e bemol maior, que Carpeaux chama de "graciosas como peças de porcelana de Meissen ou Sévres").

Wilhelm Fiedmann Bach, o filho mais velho, tinha um talento notável para a música e foi o mais preparado. Virtuose do cravo e do violino, deixou-se vencer pela boêmia e, muito mais, pelo álcool. Alcoólatra de ficar sujeito a delírios, morreu internado.

Só Carl Philipp Emanuel Bach não deveria envolver-se com música e seu pai foi destinou-o a ser um advogado. Mais ainda, a ser um jurisconsulto erudito. Mas atraiu-o o clavecin e depois de anos de serviço como músico na corte do rei Frederico II, o Grande, em Potsdam, aceitou (em 1767) suceder ao amigo de seu pai, Telemann, no cargo de diretor de música da cidade de Hamburgo. No fim do século XVIII o nome Bach significava apenas Carl Philipp Emanuel. O velho Johann Sebastian Bach estava esquecido, assim como o novo Johann Christian.
Nos documentos da época o "Bach de Hamburgo" é saudado como o maior compositor do seu tempo.

Até hoje se sucedem reedições de sua obra teórica Versuch ueber die wahre Art das Klavier zu spielen (Ensaio sobre a Verdadeira Arte de Tocar Piano) e esse "verdadeira" não era, evidentemente, a arte do cravo bem temperado.

Suas primeiras sonatas foram escritas enquanto o pai ainda estava vivo e escrevendo a Missa em si bemol menor. E as últimas são contemporâneas de Haydn e Mozart.

Homem e compositor de uma fase de transição, suas Variações sobre as Folies d'Espagne parecem antecipar o grande estilo sinfônico de Brahms. Ele, muito certamente, foi o mestre de Mozart, desenvolvendo o novo concerto para piano e orquestra. Mas sua forma predileta foi a sonata para piano solo: Sonatas Dedicadas ao Rei da Prússia (1742), Sonatas Dedicadas ao Duque de Wuerttembergo (1744) e as notáveis Sonatas com Reprises Variadas que escreveu a partir de 1760 e que, sem dúvida, tiveram uma influência decisiva na arte de Hatdn. As Sonatas para Conhecedores e Amadores, até hoje são de repertório e muito usadas no ensino superior.

Com a palavra Otto Mareia Carpeaux: "Carl Philipp Emanuel Bach não é só importante personagem histórico. Começou manejando o novo recurso formal da sonata-forma com tanto gênio que lembra, às vezes, Beethoven."

Esse filho de Bach também foi, à sua maneira, um gênio.