Paris, entre 1830 e 1870 é a capital da burguesia européia, onde enriquecer é a ordem-do-dia da Monarquia de Julho. A corte de Napoleão III tem um fausto imperial, mas é freqüentada por negocistas e novos-ricos. Uma classe que só vê na arte um motivo de ostentação e de divertimento.
Nesse ambiente, a "verdadeira música" é a ópera, a "obra de arte total" à qual todas as artes ficam subordinadas. Músicos, cantores, atores, bailarinas, cenaristas e iluminadores, além do diretor de cena, estão à serviço do autor, como queria Wagner (o maior inimigo do gênero parisiense.
Essa idéia de Wagner é especificamente romântica, típica do início do século. Mas o romantismo parisience da "grande ópera" é falsificado, não acredita em espectros nem na Idade Média, nem mesmo na História, usando tudo como simples decoração. Só prefere enredos históricos para trazer ao palco bacanais romanas, coroações de reis, tumultos populares. Como diz Otto Maria Carpeaux, "a substância musical fica reduzida a uma grande cena de amor (dueto), uma oração na hora do perigo, uma ária de brinde e muito barulho da orquestra. O efeito é controlado pelo homem da bilheteria".
A orquestra chega a ter 100 componentes, como informa Edson Frederico:: 32 violinos, 12 violas, 12 violoncelos, 4 contrabaixos, 8 flautas, 4oboés, 4 clarinetes, 4 fagotes, 8 trompas, 4 trombones, 6 trompetes, 2 pares de tímpanos
Quem lançou os fundamentos da "grande ópera" foi Spontini. Em 1828, Auber, com a Muette de Portice e em 29 Rossini, com Guillaume Tell, dão exemplos modestos do gênero que tem sua grande expressão em Meyerbeer.
Giacomo Meyerbeer (1791 - 1864) chamava-se Jacob Kiebmann Beer e era filho de um banqueiro israelita de Berlim. Ele acrescentou o Meyer em seu nome para homenagear a memória de um tio que fez dele o herdeiro de grande fortuna.
Depois de receber sólida educação musical na Itália, onde Rossini o entusiasmou, mudou de estilo e passou a assinar como Giacomo e teve grande sucesso com óperas italianas.
Em Paris, mais uma vez mudou seu modo de compor, colocou-se na moda do seu tempo e em 1831 fez sucesso com Robert le Diable. Em 36 conquistou a cidade com Les Huguenots e passou a ser considerado o maior compositor de ópera do seu tempo.
Ele recebeu homenagens extraordinárias, na França e na Alemanha. Mas lento no trabalho, só apresentou sua nova ópera Lê Prophète, em 1849, novamente com sucesso. O terceiro grande sucesso, L'Africaine, só foi representada em 1864, pouco depois da sua morte.
A crítica da época dizia que ele conseguira fazer a síntese da harmonia alemã, da melodia italiana e dos ritmos franceses, "com a elegância de um parisiense". Hoje, os críticos vêm uma confusão de estilos em busca de baratos efeitos teatrais. É legítimo que um dramaturgo e compositor persiga efeitos de sena, mas Meyerbeer sacrificou a arte musical (que ele, músico bem-formado e de talento conhecia bem) pelo efeito que provocava os aplausos do público e boas entradas na bilheteria.
Meyerbeer, na verdade, era uma coletivo, formado por ele, o músico e compositor, Scribe, seu versátil libretista, Véron, o grande diretor. Industrial e comerciante teatral (definido como "personagem de romance de Balzac" e Auguste, o notável e eficiente chefe da claque.
Dele não gostavam: Mendelssohn, Berlioz, Schumann, Wagner. Mendelssohn disse que o desconhecia como compositor; Berlioz o hostlizava em público chamando-o até de "compositor de música de realejo"; Schumann combateu-o afirmando que o que ele fazia era "ópera esperta e anti-musical", Wagner disse que viveria o suficiente para ver seu desprestígio e rápida decadência, e assim foi.
Ficou provado que até a lenda medieval em que se baseava Robert le Diable era inventada. Segundo Carpeaux "se ainda fosse possível apresentar hoje sua obra, que entusiasmava e sacudia profundamente nossos avós, ela provocaria gargalhadas". Depois de 1920 ninguém mais pensou em encenar Meyerbeer. Hoje ele é uma celebridade histórica que conseguiu grandes progressos na orquestração e na encenação, dos quais o próprio Wagner serviu-se generosamente.