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O Programa Espacial Brasileiro e suas Ações de Ensino e Divulgação Científica

 

Edmilson de Jesus Costa Filho 1
Ivette Maria Soares Rodrigues 2
João Batista Garcia Canalle 3

 

1. O Programa Espacial Brasileiro

O homem nutre um enorme fascínio pelo espaço desde os primórdios da civilização. Ao longo do tempo, a simples curiosidade deu lugar à ciência e, cada vez mais, tem-se buscado a integração e o entendimento de fenômenos da Terra a partir do espaço. O espaço exterior é o único local do qual se pode observar a Terra como um todo. Desse modo, em temas como mudanças globais, avaliação das florestas tropicais e estudos climáticos, o uso de satélites de observação da Terra é a única forma de obter dados de forma ampla, sistemática e consistente.

A tecnologia tem trabalhado em prol da criação de ferramentas para apoio à decisão e, neste contexto, o desenvolvimento de satélites tem um papel fundamental. Uma das classes mais difundidas de satélite são os de observação da Terra, que produzem imagens da superfície do nosso planeta. Essas imagens são fundamentais quando é preciso obter informação de forma rápida sobre eventos cuja localização e ocorrência são de difícil previsão ou acesso, como nos casos de desastres naturais (por exemplo enchentes) ou produzidos pelo homem (queimadas ou poluição causada por derramamento de óleo no mar), e ainda voltados ao gerenciamento de crises.

Ciente dessas demandas, o Brasil se engajou formalmente nas atividades espaciais na década de 60. O marco inicial foi a criação do Grupo de Organização da Comissão Nacional de Atividades Espaciais (GOCNAE), pelo Governo Federal, no ano de 1961. Desde então, aumentaram-se os esforços políticos e tecnológicos para a consolidação do setor no país. Ao longo das quatro décadas da recente história das atividades espaciais no mundo, muitos benefícios econômicos e sociais, decorrentes de forma direta ou indireta dessas atividades, puderam ser bem caracterizados.
Esses benefícios resultam diretamente das aplicações de satélites artificiais na solução de problemas do cotidiano, especialmente no campo das telecomunicações, da previsão do tempo e do clima, do inventário e do monitoramento de recursos naturais, da navegação e da ciência.

O Programa Espacial Brasileiro estruturou-se nos anos 70 com a criação de novas organizações ou com a alteração nos objetivos de instituições já existentes. No aspecto do gerenciamento, foi criado um programa denominado de Missão Espacial Completa Brasileira (MECB). O objetivo da MECB era a colocação em órbita de um satélite nacional por meio de um veículo lançador nacional, a partir de um centro de lançamentos também nacional. Dada a envergadura de seus objetivos, a Missão foi dividida em três programas (satélites, veículo lançador e centro de lançamento). Cada um desses subprogramas foi conduzido por uma instituição diferente. No caso dos satélites, a coordenação ficou a cargo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), organização localizada em São José dos Campos (SP). O programa do Veículo Lançador de Satélites (VLS) ficou a cargo do atual Comando-Geral de Tecnologia Aeroespacial (CTA), mais especificamente de seu Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), também localizados em São José dos Campos. Finalmente, o programa responsável pela construção do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA) foi gerenciado pelo então Ministério da Aeronáutica (atual Comando da Aeronáutica).

O programa de satélites previa a construção de duas classes de satélites. Seriam eles os Satélites de Coletas de Dados (SCD) – que seriam responsáveis pelo monitoramento do volume de rios, dados fundamentais para as previsões do sistema elétrico nacional, acompanhamento dos índices pluviométricos em diversas regiões do país, isto tudo junto com a obtenção de dados meteorológicos, como direção e intensidade do vento, pressão atmosférica, temperatura, umidade e intensidade da radiação solar. Este objetivo materializou-se com o lançamento dos satélites SCD-1, em 1993, e SCD-2, em 1998.

A segunda classe de satélites seria voltada para a observação da Terra, técnica também conhecida como sensoriamento remoto (SSR), que tem a função de captar imagens da superfície terrestre. Este objetivo não se completou na forma originalmente planejada, tendo sido atingido mais tarde por meio de uma parceria com a China.

A MECB também demandou a instalação de uma ampla infra-estrutura em solo para poder utilizar seus satélites, tais como plataformas de coletas de dados, centros de controle dos satélites (centros de rastreio e controle) e laboratórios para a interpretação das imagens enviadas pelos satélites.

O esforço empregado no desenvolvimento de satélites foi coroado pelo sucesso dos programas de Coleta de Dados, no escopo da MECB, e do desenvolvimento de um programa de cooperação internacional com os chineses, denominado de Programa CBERS (Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres), que tem contribuído de modo significativo para a utilização de informação espacial na gestão governamental e para o surgimento de novas oportunidades de negócio.

O Programa CBERS é hoje o mais importante programa de satélites conduzido pelo INPE. Ele já propiciou o lançamento dos satélites CBERS-1 (1999) e CBERS-2 (2003), e prosseguirá com mais três satélites previstos para serem lançados a partir de 2007 até o início da próxima década.

Quanto aos foguetes nacionais destinados ao lançamento de satélites, o primeiro deles, denominado Veículo Lançador de Satélites (VLS-1), foi uma evolução de um programa iniciado nos anos 60 no CTA, denominado programa SONDA. O programa consistia em desenvolver foguetes balísticos (foguetes que descrevem uma parábola e voltam para o solo sem entrar em órbita da Terra) para a realização de pesquisas atmosféricas, com ou sem o aproveitamento do ambiente de pouca gravidade, nas áreas de física, astrofísica, química, biologia, meteorologia, etc. Foram desenvolvidos os foguetes SONDA I, II, III, IV, VS-30 e VS-40, sendo que em cada um dos modelos foi aumentado o nível de complexidade, tais como o número de estágios, seu alcance e a capacidade de carga. Assim, o VLS-1, que possui quatro estágios, auxiliando a alcançar maiores altitudes, foi construído a partir do conhecimento adquirido com os foguetes do programa SONDA.

Embora assentado em um programa de desenvolvimento de foguetes de sondagem de sucesso, o projeto do VLS-1 tem passado por uma série de percalços, como indicam os três insucessos em lançamentos (1997, 1999 e 2003), sendo que o último resultou na morte de técnicos e engenheiros e na destruição de parte da infra-estrutura de lançamentos localizada em Alcântara, no Maranhão. Cabe observar que falhas e acidentes com artefatos espaciais não são raros, ocorrendo tanto com foguetes lançadores, quanto com satélites e outras naves. A título de exemplo, pode ser mencionado outro episódio ocorrido também em 2003, que foi a destruição da nave americana Columbia, quando da reentrada na atmosfera terrestre.

A despeito das dificuldades, o desenvolvimento de foguetes de sondagem e do VLS-1 vem permitindo ao país, cada vez mais, consolidar os conhecimentos em propulsão, materiais e processos, controle e guiagem e experimentos científicos, que têm aumentado significativamente a participação industrial e as pesquisas científicas na área espacial.

Encontra-se implantada, também, uma infra-estrutura de apoio significativa, na qual há que se destacar, além do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão, o Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI) – localizado em Natal, no Rio Grande do Norte. Em São José dos Campos podem ser encontrados o Laboratório de Integração e Testes (LIT), o Centro de Rastreio e Controle de Satélites (CRC), a Usina de Propelentes Coronel Abner (UCA), além de numerosos laboratórios de pesquisa.

O Programa Espacial Brasileiro, a partir dos anos 80, ganhou em qualidade e complexidade. Por conseqüência, em 1994 foi criada em Brasília a Agência Espacial Brasileira (AEB), uma autarquia federal de natureza civil, hoje vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), que tem a atribuição de órgão coordenador das atividades espaciais brasileiras. Atendendo a uma antiga reivindicação da comunidade científica e tecnológica brasileira, a AEB nasceu com o objetivo de promover o desenvolvimento das atividades espaciais brasileiras de forma descentralizada. Para tanto, ela atua em estreita relação com as organizações que executam as atividades de nosso programa espacial, como o INPE e o IAE em São José dos Campos, e o CLA em Alcântara. Cabe à AEB obter os recursos governamentais necessários para cumprir os objetivos do Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE), do qual falaremos a seguir.

Para atender à nova realidade do programa espacial brasileiro, o PNAE foi elaborado à época da criação da AEB. O documento está em sua 3ª revisão e estabelece metas para o decênio 2005-2014. O PNAE atual foca nos grandes temas, ou missões, em torno dos quais se desenvolvem as atividades espaciais no Brasil, que são: Observação da Terra, Ciências Espaciais, Telecomunicações e Meteorologia. O documento também trata de questões associadas ao Acesso ao Espaço, Infra-Estrutura, Pesquisa e Desenvolvimento, Recursos Humanos e Política Industrial.

Além da continuidade dos grandes projetos, o programa retoma como prioridade o desenvolvimento dos lançadores, e não só do VLS, mas também de seus sucessores, voltados ao lançamento de satélites de maior porte, como são os de telecomunicações. A esse respeito, o novo PNAE inclui também um cronograma de lançamentos desses foguetes, atrelado ao cronograma de desenvolvimento dos satélites.

Outro ponto forte é a implantação do Centro Espacial de Alcântara (CEA), um complexo de lançamento civil destinado à utilização comercial da região de Alcântara, no Maranhão. Este centro terá as instalações necessárias (energia, água, setor hoteleiro e de habitação, setor hospitalar, estradas, terminal portuário, etc.) para dar suporte aos sítios de lançamento comerciais que serão implantados na região. O Centro de Alcântara despertou interesse dos norte-americanos e ucranianos que têm acordos firmados com o Brasil para a utilização da infra-estrutura do Centro. Em escala menos evoluída Índia, Rússia e China também têm interesse em firmar parcerias para o uso do CEA.

Com relação aos satélites, além de missões de Observação da Terra e Científicas, foram incluídas no PNAE missões de Meteorologia e a construção de satélites de telecomunicações. Neste contexto, o objetivo será, principalmente, a capacitação da indústria nacional na tecnologia de satélites geoestacionários, para aumentar sua competitividade no mercado externo.

Finalmente, em cumprimento ao objetivo do PNAE de divulgar amplamente os conhecimentos acumulados pelo nosso programa espacial, descobrir novas vocações e atrair novos talentos para a área, inclusive por meio de ações de divulgação científica nas escolas do país, foi criado o Programa AEB Escola, tema do próximo item.

2. O Programa AEB Escola

Quantos de nós já não sonhamos, um dia, ser astronautas? O espaço e seus mistérios despertam a curiosidade dos jovens e, se curiosidade existe, porque não utilizá-la para estimular o interesse pela ciência e tecnologia? Foi assim que, em 2003, surgiu o Programa AEB Escola, uma iniciativa da AEB cujo objetivo é divulgar o programa espacial brasileiro em escolas do Ensino Médio e Fundamental do país e contribuir para despertar no estudante a criatividade e o interesse pela ciência e tecnologia, incentivando a vocação de futuros empreendedores, técnicos e pesquisadores.

As ações do Programa são voltadas para estimular diretamente os estudantes com atividades práticas, que privilegiem a sua participação ativa na construção do conhecimento e contribuam para o seu efetivo envolvimento com temas de ciência e tecnologia. Para tanto, são realizadas palestras, exposições interativas, eventos para observação astronômica, oficinas para construção de lunetas com tubos de PVC, construção e lançamento de foguetes, entre outras atividades.

Sendo o professor o mediador por excelência dos processos de ensino e de aprendizagem, são realizadas, também, diversas atividades especialmente voltadas para a formação continuada de professores. Esta ação visa ao desenvolvimento de competências e habilidades para se trabalhar com conteúdos de ciência e de tecnologia relacionados à área espacial.

A formação continuada de professores é um dos pilares do Programa AEB Escola, pois garante a sustentabilidade do Programa e promove a disseminação de suas ações. É implementada por meio do curso Astronáutica e Ciências do Espaço, que se constitui dos seguintes módulos: Projetos de Aprendizagem; Satélites e Plataformas Espaciais; Veículos Lançadores de Satélites; Experimentos Didáticos para o Ensino de Astronomia; Sensoriamento Remoto; Meteorologia e Ciências Ambientais.

No curso Astronáutica e Ciências do Espaço são oferecidas aulas teóricas, nas quais os professores têm a oportunidade de conhecer diversos temas relacionados à área espacial, tais como: o contexto histórico da corrida espacial; o que são e como funcionam os satélites; a Estação Espacial Internacional; experimentos em ambiente de microgravidade; a tecnologia de foguetes; o que é sensoriamento remoto e quais são suas aplicações para recursos naturais; conceitos e aplicações em meteorologia; previsões de tempo e clima; mudanças climáticas; dentre outros.

São oferecidas também aulas práticas por meio das quais os professores desenvolvem experimentos relacionados aos conteúdos vivenciados durante as aulas teóricas, os quais poderão ser utilizados para enriquecer as atividades em sala de aula. Como exemplo de oficinas tem-se: Câmara escura; A luneta Galileana; Comparação entre os tamanhos dos planetas e do Sol; O Sistema Solar em escala; Carro gravitacional; Construindo e lançando foguetes; Construindo um espectroscópio; Interpretando imagens de satélites; Como girar um satélite, etc. Outro exemplo de aulas práticas são os CDs interativos com aulas sobre diversos temas, tais como meio ambiente, satélites e seus componentes, dentre outros.

As ações do Programa AEB Escola são desenvolvidas por meio de atividades educacionais interativas, com abordagem contextualizada e interdisciplinar, permitindo sua aplicação nas diversas áreas do conhecimento. Para alcançar os seus objetivos, o Programa desenvolve as seguintes atividades e produtos:
• Formação continuada de professores;
• Elaboração e produção de material didático;
• Apoio técnico a professores;
• Atividades do Programa em escolas e visitas de escolas às instituições executoras do programa espacial brasileiro;
• Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA);
• Jornada Espacial;
• Participação em eventos de divulgação científica;
• Exposição Interativa permanente Viagens Espaciais, na Universidade de Brasília (UnB) e Aspectos Científicos de Viagens Espaciais, na Estação Ciência – Universidade de São Paulo (USP) e
• Apoio às ações do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas (FBMC).

Em 2004, a partir de uma parceria entre a AEB e a Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (SEDF), foi realizada a experiência piloto do Programa AEB Escola, no Centro Educacional 05, Taguatinga (DF). Em 2005, as ações do Programa foram expandidas para as demais escolas do Distrito Federal. Este ano, além das atividades desenvolvidas no Distrito Federal, as ações do Programa serão implementadas também no município de São José dos Campos (SP), por meio de parceria estabelecida com a Secretaria Municipal de Educação (SME/PMSJC).

Alunos e professores dessas localidades terão acesso às atividades e produtos desenvolvidos pelo Programa AEB Escola, com ênfase para a formação de professores e atividades de sensibilização de alunos e professores para as temáticas espaciais, por meio de palestras, oficinas, exposições e visitas às instalações de instituições executoras do programa espacial brasileiro.

É meta do Programa AEB Escola a criação de um curso de extensão para professores do Ensino Médio e Fundamental voltado para a temática espacial, o qual poderá vir a ser implementado por universidades e instituições de ensino e pesquisa do país que se interessarem em atuar como disseminadores das ações do AEB Escola.

Adicionalmente, alunos e professores de outros estados poderão participar das seguintes ações: Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA), Jornada Espacial e eventos de divulgação científica. Além disso, a partir de uma parceria com o Ministério da Educação (MEC), serão disponibilizados materiais didáticos utilizados pelo Programa.

A OBA é realizada anualmente a partir de uma parceria entre a Sociedade Astronômica Brasileira (SAB) e a AEB. Em 2005, participaram da OBA em torno de 187 mil estudantes de 3.300 escolas de todo o país. Os primeiros colocados nas questões de Astronomia e Astronáutica participam, respectivamente, da Escola de Agosto, realizada em conjunto com a reunião anual da SAB, e da Jornada Espacial, realizada em São José dos Campos. A IX OBA está prevista para o dia 12 de maio de 2006 (horário de Brasília), às 14h00, em escolas de todo o país.

A Jornada Espacial tem por objetivo disseminar entre alunos e professores o desenvolvimento aeronáutico e espacial do Brasil e do mundo. As atividades são divididas em palestras, oficinas e visitas às instalações do INPE e CTA. Em 2005, participaram da 1ª Jornada Espacial representantes de 13 estados e mais o Distrito Federal. O desenvolvimento das atividades voltadas para a OBA e para a Jornada Espacial é feito com o apoio de pesquisadores e tecnologistas do INPE e do CTA. A 2ª Jornada Espacial deverá ocorrer no período de 17 a 22 de setembro de 2006.

Os eventos de divulgação científica dos quais o Programa AEB Escola participa com exposições, palestras e oficinas são realizados anualmente, podendo ocorrer em diferentes localidades. São eles:
• Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT), evento de abrangência nacional que tem por objetivo mobilizar a população, em especial crianças e jovens, em torno de atividades científicas, valorizando a criatividade, a atitude científica e a inovação. Em 2006, a SNCT será realizada no período de 16 a 23 de outubro, não estando definidas ainda as localidades em que o AEB Escola se fará presente;
• Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), tradicional evento de divulgação científica do qual participam sociedades e associações científicas das diversas áreas do conhecimento. Este ano, a 58ª SBPC e a XIV SBPC – Jovem deverão ocorrer em Florianópolis (SC), no período de 16 a 21 de julho e
• Dia Mundial da Ciência pela Paz e pelo Desenvolvimento, evento promovido pela UNESCO em parceria com o MCT, MEC, AEB e outras instituições de ensino e pesquisa. O evento será realizado no dia 10 de novembro de 2006, em sua 2ª edição, no Distrito Federal, mas deverá alcançar abrangência nacional a partir de 2007.
O sucesso das ações desenvolvidas pelo Programa AEB Escola em 2004 e 2005 possibilitou o estabelecimento de importantes parcerias com o MEC e Universidades do país, que contribuirão para a consolidação das ações do Programa em nível nacional em 2006, no que tange à elaboração, produção e distribuição de material didático. Dentre as ações em desenvolvimento, destacam-se:
• Produção da presente série para o Programa Salto para o Futuro da TV Escola, a qual intitula-se Da Terra ao Espaço: tecnologia e meio ambiente na sala de aula;
• Produção de livros paradidáticos, que comporão a Coleção Explorando o Ensino, desenvolvida pela Secretaria de Ensino Básico do MEC, com o objetivo de auxiliar os professores do Ensino Médio e Fundamental (especificamente de 5ª a 8ª séries) na sua prática pedagógica. Além da impressão e distribuição de 177 mil exemplares de cada volume, o MEC também apoiará a impressão e a distribuição de um conjunto de 6 a 8 CD-ROM interativos utilizados no curso de formação de professores, os quais irão como encarte dos livros e
• Produção integrada de recursos didáticos em mídias digitais para atendimento dos cursos do Programa Pró-Licenciatura do MEC, na prática de ensino em Ensino a Distância (EAD) de professores e alunos, o qual é voltado para a formação de 240 mil professores que estão exercendo a docência em salas de aula na rede pública do Ensino Médio e Fundamental sem formação legal específica.

Ao divulgar as atividades espaciais e sua importância para o desenvolvimento socioeconômico do país, por meio da aproximação de especialistas da área espacial com a comunidade escolar, pretende-se contribuir para a qualidade do ensino e aprendizado nas escolas brasileiras.

A gestão do Programa AEB Escola caracteriza-se pela integração de atividades de instituições públicas e privadas voltadas para o ensino da ciência e tecnologia na temática espacial e/ou interessadas em apoiar esta iniciativa.

O AEB Escola é desenvolvido em parceria com a Secretaria de Ciência e Tecnologia para Inclusão Social do Ministério da Ciência e Tecnologia (SECIS/MCT), a Academia Brasileira de Ciências (ABC), a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), a Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (SEDF), a Secretaria Municipal de Educação de São José dos Campos (SMC/PMSJC), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE/MCT), o Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE/CTA), o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA/CTA), a Estação Ciência da Universidade de São Paulo (USP), a Universidade de Brasília (UnB), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ), a Sociedade Astronômica Brasileira (SAB), a Associação Aeroespacial Brasileira (AAB) e a Associação Brasileira de Cultura Aeroespacial (ABCAer).

A idéia, portanto, é privilegiar iniciativas bem sucedidas e unir esforços para a captação de recursos, formação de professores, produção de material didático e desenvolvimento de atividades em escolas, buscando a efetiva participação de todos os segmentos envolvidos.

3. A Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica – OBA

Toda criança gosta de brincar, aliás, gosta muito mais de brincar do que ir à escola, e disso ninguém duvida, basta lembrarmos de quando fomos crianças! Tendo que ir à escola, o horário mais esperado, sem dúvida, é o do recreio, ou então o antes ou o depois das aulas! Parece que o gosto pelas brincadeiras, pela alegria, pela descontração, pela diversão enfim, é intrínseco dos seres vivos.

Podemos observar que tanto bebês humanos como de outros animais brincam quando pequenos. Brincam entre si e brincam com os adultos. Muitas das brincadeiras das crianças são na forma de desafios ou competições entre elas. Estas competições podem ser individuais, mas ficam mais legais quando são em grupo. Como exemplo, os vários tipos de jogos em equipe que existem. No Brasil, em particular, poderíamos dizer que os meninos já nascem jogando futebol. Até sabemos que uma criança está doente quando ela não quer brincar. Outra característica intrínseca das crianças é a curiosidade! Que adulto ainda não foi apanhado por uma série infinita de “por quês” de alguma criança?

O tipo tradicional de escola é o oposto de tudo o que está no parágrafo anterior, pois é a ausência da alegria, da descontração, do prazer, é a presença da inatividade física e mental, além de não saciar as curiosidades naturais dos alunos. Por isso, para quase todas crianças o melhor mesmo da escola é o recreio, é o encontro com os amigos, mas também podem ser os campeonatos esportivos, ou então os corais, os grupos teatrais, as gincanas e as olimpíadas esportivas!

Todas estas atividades são física e mentalmente sadias, além de envolver as crianças e adolescentes na convivência social e, no caso das competições esportivas, também as levam a conviver com os prazeres intensos das vitórias e com as frustrações das derrotas. No caso das derrotas esportivas, elas são amargas, porém, os próprios alunos se organizam para obterem melhores resultados, e de que forma fazem isso? Treinando mais intensamente! Pois sabem que com mais treino os resultados serão melhores.

Como, então, conciliar a necessidade de educar cientificamente nossas crianças sem suprimir sua busca pelos prazeres? Certamente existem várias soluções como, por exemplo, aulas em escolas bem equipadas – com muitas aulas práticas, a observação direta dos fenômenos da natureza – com o envolvimento direto dos alunos, tudo isso com professores bem preparados.

Infelizmente, agentes externos às escolas não têm como interferir para resolver este tipo de problema. Podemos, sim, constatar a deficiência na formação dos professores, a falta de equipamentos nas escolas, a falta de bibliotecas, a falta de tempo para um ensino com mais envolvimento dos alunos, a falta de motivação dos professores, o excesso de trabalho, a escassez de salário, etc.

Como, então, agentes externos às escolas, tais como nós, astrônomos profissionais, membros da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB) e os dirigentes da Agência Espacial Brasileira (AEB) podem atuar no âmbito da comunidade escolar, sem interferir em sua organização interna, para ajudar a melhorar o ensino dos conteúdos e Astronomia e Astronáutica para os estudantes?

Sabendo dos prazeres que as crianças têm pelas brincadeiras, jogos, desafios, competições e olimpíadas em geral, resolvemos convidá-las para uma OLIMPÍADA! Uma olimpíada parecida com as esportivas, pois é preciso gostar do jogo e o conteúdo do jogo aqui é algo que mexe intensamente com a curiosidade deles, que são justamente a Astronomia e a Astronáutica! A Astronomia, dita a mais antiga das ciências, pois pela observação dos céus se previa o clima, a época dos plantios, colheitas, etc., e a Astronáutica, provavelmente uma das mais novas ciências, está nos levando a expandir nossos conhecimentos visitando luas, planetas, etc. As duas ciências caminham de mãos dadas, pois as leis que regem os movimentos dos planetas, luas, estrelas e galáxias são as mesmas que regem os movimentos dos satélites, foguetes, naves e ônibus espaciais.

Qual criança, ou até mesmo adulto, não admira o céu, a beleza da Lua, a imponência do Sol, a beleza das superfícies dos outros planetas e luas já visitadas ou observadas de grande proximidade? Quem não fica feliz em ver homens caminhando sobre a Lua, morando em estações espaciais, ou então usufruindo os avanços tecnológicos tais como as transmissões de rádio e TV ao redor de todo o planeta, a telefonia de longa distância, o mapeamento da Terra para previsão do tempo e clima, observação das plantações, dos incêndios florestais, dentre tantas outras aplicações?

Esta Olimpíada de Astronomia e Astronáutica, portanto, alia o gosto natural das crianças pelas competições e desafios e, ao mesmo tempo, mexe com sua natural curiosidade. Tal como em qualquer olimpíada, nesta também são necessários a preparação e o treinamento, para bem participar. Só que a preparação aqui é intelectual. A preparação e o treinamento para esta olimpíada consistem justamente em procurar saber tudo o que for possível até o dia da olimpíada sobre Astronomia e Astronáutica, ou seja, cada estudante que desejar participar precisará ler seus livros didáticos, revistas, livros paradidáticos, visitar páginas da Internet, planetários, observatórios, observar o céu, realizar experimentos previamente distribuídos aos participantes, visitar museus aeroespaciais ou astronômicos, centros de ciências, etc.

Neste processo, todos os participantes estão fazendo o que os professores mais querem, ou seja, estudando! Só que estão fazendo isso por livre e espontânea vontade e com satisfação, pois estão matando a curiosidade deles e ao mesmo tempo estão se preparando para participar da Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica, um evento de amplitude nacional, no qual poderão ganhar medalhas. Aliás, todo mundo gosta de ganhar medalhas. Se o filho ganha uma medalha, a família toda fica feliz. Quando o aluno ganha a medalha, a escola inteira fica feliz, quando não até as autoridades locais!

Por isso, esta é uma olimpíada parecida com as esportivas, com a grande vantagem de que o preparo adquirido não desaparece após o evento, pois o que se aprende com prazer se guarda para sempre. Além disso, nesta olimpíada não há perdedores, pois no fundo todos os que estão estudando estão sempre ganhando. Aliás, somente perde quem não está participando da olimpíada, pois não está estudando. Nesta olimpíada, todos recebem certificados de participação e, ao contrário das esportivas onde apenas três ganham medalhas, nesta cerca de 5% dos participantes ganham medalhas!!! E tem mais, a participação é individual, mas a preparação é em grupos, quando então se propicia a interação social.

Mas as vantagens desta olimpíada não param por aí. Esta é a única olimpíada que oferece prêmios também a todos os preparadores olímpicos, ou seja, os professores destes alunos, pois como todos sabem, sem preparadores nenhum time dá bons resultados. Por isso mesmo, enviamos para todos os professores, digo, preparadores olímpicos, um kit de material didático, contendo CDs de Astronomia e de Astronáutica, disquetes com provas anteriores, cartilhas, livretos, livros, revistas, etc., além de materiais que conseguimos obter de doações das editoras e livrarias brasileiras.

Mas e as provas? Como são elas? São quatro diferentes níveis de provas. A do Nível 1 é só para os alunos da 1ª e 2ª séries do Ensino Fundamental. Esta é a mais simples e curta de todas, porém já é informativa. A de Nível 2 é para alunos da 3ª e 4ª séries. Estes alunos já sabem ler com maior fluência e a prova é um pouco mais longa. Os enunciados das questões são mais informativos e as perguntas simples o bastante para que possam responder usando o próprio raciocínio. A de Nível 3 é para os alunos de 5ª a 8ª série do Ensino Fundamental e mantém a mesma filosofia, ou seja, bem informativa e ao alcance dos alunos. A prova do Nível 4 é a mais extensa de todas e destina-se a qualquer aluno do Ensino Médio. Em cada questão desta prova, damos uma verdadeira aula de Astronomia ou de Astronáutica, para só então fazermos uma pergunta relativamente simples.

Anualmente, enviamos questionários aos professores, treinadores olímpicos, para saber se a extensão e a dosagem das provas estão aceitáveis. Em função das respostas deles, vamos modificando a forma das provas. Atualmente, a maioria dos treinadores olímpicos está plenamente satisfeita com o nível das provas.

Além das medalhas, certificados para alunos e professores, kit didático para estes, também organizamos um curso de Astronomia, gratuito, de uma semana, para 50 alunos e outro para os respectivos 50 professores destes alunos. Deste grupo de alunos, ao final, selecionamos 5 que representam o Brasil na Olimpíada Internacional de Astronomia. Também organizamos, juntamente com a AEB, uma Jornada Espacial de uma semana, para 25 alunos, e outra para os 25 professores destes alunos.

Em complemento, doaremos em 2006 para as escolas 5 telescópios, 100 lunetas e 50 maquetes de foguetes. Veja o regulamento completo em www.oba.org.br.

Bibliografia consultada:

COSTA FILHO, E.J. Política Espacial Brasileira. Rio de Janeiro: Ed. Revan, 2002.

ASSOCIAÇÃO AEROESPACIAL BRASILEIRA (AAB). Cronologia do Programa Espacial Brasileiro. São José dos Campos: AAB, 2005. Disponível em www.aeroespacial.org.br/aab/downloads.php. Acesso em 22 de março 2006.

AGÊNCIA ESPACIAL BRASILEIRA (AEB). Programa Nacional de Atividades Espaciais 2005-2014. Brasília: AEB, 2005. Disponível em: www.aeroespacial.org.br/downloads.php . Acesso em 22 de março 2006.

Notas:

1- Analista em Ciência e Tecnologia do CNPq, economista formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Doutorando em Política Cientifica e Tecnológica (UNICAMP), membro-fundador da Associação Aeroespacial Brasileira (AAB) e autor do livro Política Espacial Brasileira – Ed. Revan.

2- Gerente do Programa AEB Escola.

3- Astrônomo e físico, professor adjunto do Instituto de Física da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).


SALTO PARA O FUTURO / TV ESCOLA
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