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u Juventude e sexualidade

  

Tereza Cristina Pereira Carvalho Fagundes 1  

Juventude e sexualidade

Resumo:

O objetivo deste texto consiste em analisar aspectos da sexualidade na juventude, em especial aqueles que podem e devem ser abordados na escola e em contextos socioeducativos mais amplos, como a família e as comunidades nas quais o jovem se encontra inserido. Neste sentido, serão considerados temas tais como: transformações do corpo; papéis e estereótipos de gênero; relacionamentos interpessoais; expressões da sexualidade; valores, conflitos e contradições que cursam com a juventude.

O termo juventude traduz o período da vida humana entre a infância e a idade adulta. Ser jovem é não ser mais criança e ainda não ser adulto, pelo menos no sentido de completude da maturação corporal, psicológica e social.

Ao longo da história, muitos têm preferido considerar a juventude como o período final da adolescência, quando há desempenho de papéis definidos pela sociedade como de adulto, tais como a assunção de atividades produtivas. Outros, entretanto, usam indistintamente o termo juventude e adolescência para esta fase do desenvolvimento que se inicia com a puberdade e culmina com a entrada no mundo adulto, opção que será adotada neste artigo.

Quero falar de uma coisa

 adivinha onde ela anda?...

 e há que se cuidar do broto

pra que a vida nos dê flor e fruto.

 (Coração de Estudante - Wagner Tiso e Milton Nascimento)

As modificações biológicas corporais, que não se iniciam na mesma época nem têm a mesma duração em todas as pessoas, envolvem todos os órgãos e estruturas do corpo. Há um grande impulso na estatura dos adolescentes, para as meninas, na idade média de onze anos e meio e, para os meninos, por volta dos treze anos e meio – é o chamado estirão puberal. Os picos de velocidade são 8,3 centímetros por ano, para as garotas, e 9,5 centímetros por ano, para os garotos. É por isso que a maioria das meninas de onze anos é mais alta do que os meninos da mesma idade, entretanto, a maioria deles logo alcança as meninas, ficando mais altos. O crescimento precoce não é indicativo de uma estatura mais elevada; as crianças que começam o estirão mais tarde apresentam uma média igual à das que começam mais cedo.

Interessante lembrar que mesmo antes de perceber uma mudança em sua altura, os adolescentes percebem mudança no tamanho de seus pés e de outras partes do corpo, como as mãos e braços, que às vezes os assustam.

Os meninos ganham peso ao mesmo tempo em que crescem em altura e têm um aumento muscular duas vezes maior do que as meninas; já as meninas crescem, para depois começar a ganhar peso e menstruar; acumulam mais gordura subcutânea (na pélvis, no busto, nas costas e nos braços) do que os meninos.

A maioria dos órgãos duplica o seu tamanho: coração, pulmões, fígado, baço, rins, pâncreas, tireóide, supra-renais, gônadas, útero, genitais externos (pênis e vulva). O sistema nervoso também tem um aumento real, mas não tão acentuado, enquanto as amídalas, as adenóides e a cavidade da medula óssea diminuem. As glândulas sudoríparas ficam mais ativas, fazendo com que a transpiração seja mais freqüente e com cheiro diferente do existente quando criança, nas axilas, palmas das mãos, plantas dos pés e área genital (vulva e pênis). Também as glândulas sebáceas se tornam mais ativas, podendo resultar em cabelos mais oleosos, genitais mais úmidos e poros da pele do rosto, costas e outras regiões do corpo tão oleosos que originam cravos e espinhas (acne).

Tenho um segredo para contar

Eu não sabia que era assim...

Vem  aprender a amar

Deixa o seu corpo ir mais além ”.

(Aprender a amar - Sandy & Júnior)

A maturação sexual e reprodutiva é a mais evidente característica da adolescência para a sociedade; abrange o aparecimento dos caracteres sexuais secundários e a aquisição da fertilidade. O desenvolvimento sexual feminino começa, normalmente, com o crescimento das mamas; em seguida, vem o desenvolvimento dos pêlos pubianos, em distribuição triangular; o estirão, já mencionado; o desenvolvimento dos pêlos das axilas, e a primeira menstruação, sinal da capacidade reprodutiva. Se houver o aparecimento dessas características antes dos 8 anos de idade, configura-se o quadro de puberdade precoce, que pode resultar em uma alteração do crescimento – estatura abaixo da média da população. Por outro lado, pode haver uma puberdade atrasada, se não houver sinal de desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários até os 14 anos, ou quando o tempo entre o início do desenvolvimento e a primeira menstruação for maior do que cinco anos. A causa deste atraso pode ser constitucional ou pode ser devido a anomalias congênitas, traumatismo, tumor, doença no ovário, ausência de útero e vagina, hímen sem perfuração, má nutrição ou outras doenças. Ambas as alterações são motivo de encaminhamento a um serviço médico especializado.

O desenvolvimento sexual masculino começa com o aumento do volume testicular, seguindo-se um discreto crescimento das mamas, o desenvolvimento dos pêlos pubianos em distribuição losangular, o desenvolvimento dos pêlos das axilas, o aparecimento da barba e do bigode e a polução, que consiste na eliminação involuntária de esperma. A voz se torna mais grave, devido ao rápido crescimento da laringe e das cordas vocais que também ficam mais espessas. Assim como nas meninas, é possível, nos meninos a ocorrência de puberdade precoce ou tardia, motivos de acompanhamento médico.

Todas essas modificações são decorrentes de um controle que se faz pela reativação do eixo hipotálamo-hipófise-gônadas. O hipotálamo produz substâncias que agem na hipófise, que responde com a secreção de hormônios que vão atuar nas gônadas; ovários, nas meninas e testículos, nos meninos. As gônadas, por sua vez, secretam outros hormônios que desencadeiam as modificações características da puberdade, também as relacionadas às mudanças comportamentais e libidinais.

A puberdade é, pois, um componente da adolescência/ juventude, mas a adolescência é um processo de maior duração; engloba a puberdade e também as transformações psicossociais por que passa o indivíduo no auge de seu processo maturativo.

Não quero ver quem tem razão

Sou movido a paixão ...

(Sexo, amor, traição – Luciana Mello)

Nesta fase da vida, de mudanças físicas, psicológicas, sociais e culturais tão intensas, o jovem se sente confuso, cheio de dúvidas e ansiedades, principalmente em relação à postura corporal, comportamentos e atitudes, enfim, quanto à forma de ver e de entender o mundo.

Perplexos diante do novo corpo que surge, os adolescentes se preocupam e valorizam a aparência visual. As meninas procuram realçar as novas curvas do corpo, usam batom para delinear os lábios e, com isso, chamar mais a atenção, exercitando sua capacidade de atrair, e observando o efeito dessa atração, principalmente nos rapazes. Procuram ainda ligações mais íntimas com amigas para troca de confidências e desabafos sobre perdas, conquistas e rejeições. Também discutem moda, o jogo do embelezamento, da sedução na paquera, no ficar e no namoro. Já os rapazes procuram ter um corpo de atleta, um bom desempenho sexual, a virilidade, a potência, em como lidar com o desejo, a excitação (acompanhada muitas vezes de ereção inesperada), com a transa e em como conquistar muitas garotas sem se prender a sentimentos e emoções.

O tempo todo eu fico feito tonto

Sempre procurando mas ela não vem

E esse aperto no fundo do peito

Desses que o sujeito não pode agüentar

Ah! Esse aperto aumenta meu desejo

E eu não vejo a hora de poder lhe falar.

 (Esperando na janela – Targino Gondim, Manuca

Almeida e Raimundinho do violão)

O desenvolvimento emocional do adolescente cursa com a criação de uma identidade própria. Neste dinamismo, que se processa através de sua interação com o mundo externo, o jovem precisa elaborar uma série de perdas, denominadas pela Psicologia como lutos. São 3 os principais lutos da adolescência: luto pela perda do corpo infantil, pela perda dos pais da infância e pela perda da identidade e do papel infantil.

A chamada crise da adolescência é vivida de forma diferenciada de acordo com as particularidades de cada segmento familiar e social a que pertence a criança, além da sua própria dinâmica psicológica e de sua história de vida. É freqüente encontrarmos adolescentes passando por conflitos, dor e confusão frente a uma multiplicidade de exigências consideradas psicossociais, denominadas por Aberastury e Knobell (1989) como características comportamentais da Síndrome da Adolescência Normal e que os ajudam no processo de resolução dos lutos referidos:

Busca de si mesmo e da identidade adulta – Todas as mudanças corporais e alterações hormonais associadas a comportamentos de inquietude, de auto-afirmação, ansiedade pelo desconhecimento do próprio corpo, de busca de uma identidade como pessoa e como adulto levam o jovem a perceber uma mudança na maneira como a sociedade o trata, o que passa a ser uma situação nova para ele. Há conflitos entre a imagem do corpo ideal e a imagem do corpo real vividos pela garota e pelo garoto que, ora sentem orgulho e prazer com as mudanças que ocorrem em seus corpos, ora sentem vergonha e perplexidade. Os jovens passam horas e horas em frente ao espelho e comparam-se uns aos outros, buscando um padrão de normalidade e aceitação. Tais situações requerem momentos de isolamento e a assunção de identidades transitórias, ocasionais ou circunstanciais, no sentido de entender a sua intimidade e, assim, desenhar a sua própria identidade. Um processo educativo deve incluir a discussão desse padrão, fruto da cultura de massa que induz ao consumismo e cria imagens de referência, como modelos instituídos para um corpo de artista, ou adequados apenas à estatura que não se tem, pertencentes a grifes, etiquetas e marcas da moda, relegando a segundo plano os caracteres e atributos herdados de cada família e o bem-estar pessoal

Flutuações de humor e de estados de ânimo – Ora sorridente e se sentindo a melhor pessoa do mundo, ora se sentindo péssimo e de mal com a vida, tudo e todos, o/a adolescente é por esse motivo, considerado muitas vezes por seus familiares como aborrecente (termo com o qual, particularmente não concordamos), ficando, a partir deste estigma, ainda mais aborrecido e mal-humorado. Essas oscilações, instabilidades e contradições são perfeitamente normais e estão na dependência direta da quantidade e qualidade da elaboração dos lutos e das perdas que acompanham o processo identificatório nesta fase da vida.

Tendência grupal e separação progressiva dos pais – Muitas aspectos da identidade familiar são substituídos por outros mais individuais, enriquecidos por novos elementos do seu âmbito social. Dessa forma, a construção da auto-imagem na juventude se dá através da busca de aceitação no grupo, valorização de auto-estima e afetividade. O afastamento dos pais, entendido aqui como dependência, é necessário para que o adolescente encontre identidades diferentes e seja capaz de formar sua própria personalidade. A questão da dependência / independência dos filhos em relação aos pais e vice-versa é vivenciada com sentimentos de ambivalência; ambas as partes desejam, mas ao mesmo tempo temem o crescimento, a maturação sexual e todas as responsabilidades e riscos que permeiam esses processos. Muitos pais não entendem esses comportamentos; o que o jovem quer não é o distanciamento dos pais, mas sim o distanciamento do seu papel de criança!

Necessidade de intelectualizar e fantasiar – Consiste na elaboração do luto pela perda da identidade infantil: ora o adolescente tem uma grande elaboração de idéias com justificativas concretas, próprias do mundo adulto, ora tem construções utópicas e fantasiosas que caracterizam o mundo infantil.

Crises religiosas – A conduta do jovem vai do total ateísmo a comportamentos religiosos tão engajados que podem cursar com o misticismo e até com fanatismos. A educação para a sexualidade, pela sua abrangência, pode contribuir para a tomada de decisões neste sentido,  para uma melhor conscientização e definição da prática religiosa a ser seguida.

Deslocamento temporal e contradições sucessivas – As urgências do adolescente são tão grandes quanto o deixar para depois.  Muitas vezes à urgência de uma roupa nova, de uma festa, de um programa com o grupo é dada muita importância, enquanto que os estudos e outras responsabilidades podem ser postergados!

Atitude social reivindicatória – Em resposta às restrições à sua vida, impostas pela sociedade, os jovens tentam modificá-la ao tempo em que reestruturam sua personalidade; por este motivo são, habitualmente, considerados rebeldes.

Evolução sexual do auto-erotismo até a heterossexualidade – Com o amadurecimento fisiológico, intensifica-se o impulso sexual e o contato com o corpo adquire um caráter exploratório, de descoberta de novas sensações pela erotização das sensações genitais. A manipulação dos genitais para obtenção de prazer – masturbação – é uma forma de reconhecimento do novo corpo em mudança. Há o início da busca de parceiro de maneira tímida, mas intensa. Começam os contatos superficiais, depois profundos e mais íntimos, que preenchem a sua vida sexual.

Na construção do mundo adolescente, sonhos reais e vivências concretas se fundem em um mundo sem fronteiras, em um mundo de fantasias: encontros felizes, amor, paixão, expectativas transparentes, festas, grupos de amigos, colegas, professores e professoras apaixonantes ou detestáveis, lazer, provas escolares, esportes, problemas insolúveis e problemas resolvidos, desencontros, família bem estruturada, família-problema, visão de um povo que sofre, mas que tem esperança, natureza maltratada, natureza com cheiro de poesia, de protesto, de mistério...

Quando não tinha nada eu quis

Quando tudo era ausência, esperei ...

Quando o olho brilhou, entendi,

Quando criei asas, voei.

 (A primeira vista – Chico César)

A sexualidade na juventude se confunde com a própria fase. Por isso, dentre as características que cursam com a Síndrome da Adolescência, já referenciadas, encontramos a evolução sexual que vai do auto-erotismo até a heterossexualidade. Neste contexto, a masturbação, comum da infância até o final da vida, constitui-se em uma prática sexual bastante freqüente nesta fase. Sua freqüência varia e não se pode determinar a normalidade do número de vezes. Acontecem também jogos sexuais entre meninos masturbando-se entre si ou em grupo, fato que não os determina homossexuais, enquanto que entre meninas são mais comuns os contatos corporais como pegar as mãos, abraçar e beijar, isto porque há repressão da masturbação na mulher. Esses jogos sexuais são comuns na fase de crescimento, de conhecimento do próprio corpo e de preparo para a vida sexual a dois; não é a prática da masturbação em si que faz mal, mas sim os conflitos decorrentes do sentimento de culpa, vergonha de si mesmo e dificuldades de relacionamento afetivo. Por muitos anos ela foi vista como um perigo, coisa suja e pecaminosa, causadora de cegueira, surdez, fraqueza, crescimento de pêlos nas mãos, impotência e até debilidade mental. Um papel relevante do educador é o de desmistificar essas questões.

Já sei namorar

Já sei beijar ...

Agora só me resta sonhar ...

(Já sei namorar – Marisa Monte,

 Carlinhos Brown,  Arnaldo Antunes)

Outro aspecto explorado como prática sexual consiste no compartilhamento das curiosi­dades sexuais e desejos com o sexo oposto; o desejo de se envolver e o medo de se entregar à relação provocam uma verdadeira tempestade no pensamento do jovem.

Paralelamente à aproximação para o namoro, existe um processo de ansiedade decorrente do abandono da relação estável com a turma para o desenvolvimento de novos papéis – de seduzir e de se deixar seduzir. Namoro também é sinônimo de adolescência, de juventude, afinal é nesta fase da vida que ele acontece pela primeira vez (embora muitos adultos insistam em ensinar às crianças que fulana é namoradinha de fulano, por exemplo). O namoro é um relacionamento amoroso contínuo, compromissado; ele ocorre na medida em que os jovens se sentem seguros para o vínculo. Entretanto, sabemos que as expectativas referentes a esse relacionamento variam de acordo com o sexo dos parceiros e, principalmente, devido à história particular de vida de cada um.

Durante o namoro, o compromisso e a experiência de convivência incluem o compartilhar de atividades de lazer como ir ao cinema, a clubes, praia, festinhas... Já o aprendizado a respeito do outro, gostos, preferências, manias, etc. envolve jogos de conquista e sedução. Quando estamos enamorados, o desejo de estar com o outro e as estratégias para conseguir esse intento sobrepõem-se a qualquer sentimento, necessidade ou obrigação que temos.

Historicamente, o namoro foi visto como primeira etapa do processo de vida a dois e de constituição de uma família. Já houve um tempo em que a ele se sucedia o noivado – fase de namoro garantido, que precedia o casamento – união estável realizada entre duas pessoas que decidem compartilhar suas vidas e responsabilidades familiares. Nos últimos anos, contudo, não tem sido bem assim.

Eu fico o dia inteiro

Só pensando em você

Na minha cama no chuveiro

Conto as horas pra te ver

Espero que um dia você possa me notar.

Oh! menina deixa disso

Quero te conhecer

Vê se me dá uma chance

Tô afim de você.

(Deixa disso - Felipe Dylon)

Um tipo de relacionamento sem compromisso mais atual, eventual e desprovido de compromisso é o ficar, que pode ou não evoluir para o namoro. O ficar vai desde o simples fazer companhia, com ou sem troca de carícias, até mesmo ao relacionamento sexual. No ficar os jovens passam por um aprendizado afetuoso e sexual, podendo os membros da parceria nem mesmo se cumprimentarem no dia seguinte. Parece convenção que ficar mais de três vezes com a mesma pessoa já é rolo ou caso, e rolo repetido é namoro.

Como proceder durante o ficar e o namoro? Quando e como propiciar aos jovens condições de discernimento nesse sentido? A depender de suas histórias de vida, muitos são levados a uma iniciação sexual por quererem mostrar ao mundo, à família e até a si mesmos que a família não mais os controla.

Quanto à iniciação sexual neste período de vida, o Programa de Educação Sexual da UFBA (BARBOSA, 1990; FAGUNDES, 1995, 1997 e 1999) tem identificado como razões mais freqüentes a curiosidade, forma de demonstrar amor e a influência do grupo / turma. Dizem as meninas: no mundo não há mais virgem , se eu não for ele arranja outra , minha família pensa que me controla . Já os meninos afirmam: procuro prazer, homem não nega fogo , o meu pai vai vibrar , meus amigos vão morrer de inveja ... Por outro lado, encontramos jovens que adiam essa iniciação por medo de não conseguirem, por medo do outro não gostar e por medo da reprodução. Garotas declaram: ainda não encontrei o cara legal , pode ser que ele me ache fácil , e se a minha família descobrir? ; garotos questionam: onde transar? , e se ela for virgem? .

Chegou no meu espaço,

Mandando no pedaço,

O amor que não é brincadeira,

Pegou, me deu um laço,

Dançou bem no compasso

Que prazer, levantou poeira ...

(Sorte Grande -  Lourenço)

Como conseqüência da vivência sexual na juventude, pode acontecer uma gravidez não planejada. Esta gravidez, hoje, contém um agravante que é se dar fora de um vínculo como o casamento, porque no tempo de nossos avós, 14 e 15 anos eram as idades em que as mulheres tinham seus primeiros filhos. Entretanto, isto acontecia com a aprovação matrimonial para o exercício das relações sexuais; a gravidez não era estigmatizada porque não se constituía em um problema social, muito menos psicológico, uma vez que não dimensionava culpa por transgressão. Mas seja qual for a situação, embora uma adolescente tenha filhos e os eduque no contexto de uma família, os riscos de doença, lesão e morte, para ela e seus filhos, são muito maiores do que os de uma mulher entre 20 e 30 anos (OMS / FNUAP / UNICEF, 1989).

Do ponto de vista médico, Vitiello (1997), um dos maiores especialistas brasileiros no atendimento a adolescentes, apresenta-nos uma série de patologias encontradas em gestantes adolescentes que todos precisam saber: elevação da pressão arterial; anemia, usualmente devida à má nutrição;  doenças sexualmente transmissíveis, associadas à maior freqüência de troca de parceiros, aliada aos baixos padrões de higiene e ao relativo descaso ao tratamento dos sintomas; outras patologias que tendem a se fazer presentes em situações de estresse e desnutrição, como a tuberculose e as infecções urinárias; parto prematuro; duração do trabalho de parto, ligeiramente superior à duração média;  intervenções obstétricas como o fórceps de alívio e a cesárea, devido à maior freqüência de alterações da contratilidade uterina;  mortalidade fetal, associada às condições adversas da gravidez e do parto.

Deve ser amor

Que enfeitiça o coração

Quando bate assim deve ser amor

Que me enche de paixão ...

 (Deve ser amor – Dudu Falcão)

Nos últimos anos, quase todos tivemos conhecimento de algum caso de gravidez em adolescentes da nossa família ou de alguma bem próxima de nossas relações sociais. Surpreendentemente constatamos também haver um grande número de jovens que desconhecem os fundamentos da anatomia e fisiologia sexual, ou por não terem tido oportunidade de serem instruídos neste sentido, por leituras mal compreendidas, por conselhos desinformados de outros jovens ou adultos, por preconceito ou pela sensação de invulnerabilidade e impunidade, resquício do pensamento mágico infantil ainda sobrevivente. Os meninos não se dão conta de que seu corpo lhes traz uma possibilidade constante de gerar um outro alguém! Encontramos também, jovens machistas que freqüentemente se recusam ou se omitem do processo de anticoncepção, alegando que o uso de preservativo é como chupar bala sem tirar o papel ou ainda vão mais longe, afirmando o problema é dela , eu não tenho nada com isso , se não quiser engravidar que se vire !!! Atitudes dessa natureza só podem resultar num incremento assustador do número de adolescentes grávidas e do número de abortamentos provocados.

Essa problemática passa a ter um cunho social mais amplo, quando se estabelece a gestação. A jovem grávida corre uma série de riscos, tais como ser expulsa da casa, ingressar na prostituição, deixar de estudar, optar pelo abortamento ou interrupção da gravidez, com prejuízos orgânicos e psíquicos, ser mãe solteira ou ser levada a um casamento forçado e, por conseguinte, mal estruturado. A situação da criança resultante de uma gravidez na juventude nem sempre lhe é favorável; quando não é abandonada, pode ser este motivo que incremente o seu encaminhamento a orfanatos ou à adoção. Desenvolvendo-se sem a figura paterna, não raro temos crianças mal amadas e mal ajustadas. Na melhor das hipóteses, temos também a solução do caso da gravidez em adolescentes com a assunção de responsabilidade por parte das famílias de ambos os parceiros, cada qual permanecendo em suas respectivas casas e a criança, após o nascimento, ficar dividida entre os cuidados de uma ou de outra avó que representam, mais uma vez, a mulher, aquela a quem a sociedade delega as maiores responsabilidades com a estrutura da família.

Vale ressaltar que, como em toda regra há exceções, temos conhecimento de relações afetivas duradouras, associadas ou não a casamentos formalizados, que tiveram início com uma surpreendente gravidez não planejada na adolescência. Mas, em contrapartida, não temos notícias de estudos sobre experiências positivas da maternidade e da paternidade precoces.

Diante da problemática, nosso contato com os jovens na atualidade nos permite inferir que as conseqüências psicológicas da gravidez não planejada, mas não tão indesejada quanto pensamos, sobrepõem-se, consideravelmente, às conseqüências orgânicas. Neste sentido, o papel da escola deve se somar ao da família, na busca de conscientizar os jovens sobre a maternidade e a paternidade, implicando a assunção de responsabilidades, a necessidade de aceitar os aspectos físicos e emocionais da gravidez e do cuidado infantil, sobre as necessidades da criança que virá a este mundo, sobre ser preciso aprender e praticar habilidades do ser mãe e do ser pai, de planejar as necessidades financeiras e as formas de sustento familiar, etc. Para que isso ocorra, entretanto, se faz necessário que os serviços de saúde também exercitem a sua função de dar condições à população de ter assistência global à saúde, incluindo as possibilidades de controle efetivo da natalidade no contexto de um planejamento familiar que inclua a população adolescente.

Eu não quero mais chorar

Por causa de um amor qualquer.

Minha dor tem que acabar...

(Amor de Carnaval – Gilberto Gil)

Outras conseqüências que cursam com a vivência sexual na juventude são as doenças sexualmente transmissíveis (DST), antigamente denominadas doenças venéreas, por causa das sacerdotisas dos templos de Vênus, que exerciam a prostituição como forma de culto à Deusa do Amor. Hoje essas doenças têm um caráter menos pejorativo do que antes, porque as condições para o exercício da sexualidade e em especial a iniciação sexual, de um modo geral, mudaram significativamente nas últimas décadas. Até pouco tempo, e acreditamos, em algumas regiões do Brasil até os dias atuais, os meninos se iniciavam ou se iniciam sexualmente com prostitutas em ambiente de promiscuidade. O desenvolvimento de uma DST, neste contexto, constituía-se por um lado prova de virilidade e até de orgulho e vaidade, mas por outro, deixava uma sensação de culpa e um ranço de impureza...

As DST podem ser causadas por vírus: herpes, condiloma acuminado ou crista de galo e AIDS; por bactérias: gonorréia, cancro mole, uretrites não-gonocócicas; por fungos: candidíase;  por  protozoários: tricomoníase;  por ácaro: escabiose ou sarna e pediculose do púbis ou chato, dentre outras. Por definição, essas doenças são aquelas transmitidas através do contato sexual com pessoas doentes, mas algumas delas não são de transmissão exclusivamente sexual. A sífilis, a AIDS e as uretrites não-gonocócicas podem ser transmitidas pela mãe gestante; a herpes e a gonorréia, durante o parto, e a sífilis e a AIDS, também por transfusão sanguínea. Os sintomas das DST variam, sendo os mais comuns: dor no ato de urinar, coceira, feridas, corrimento purulento e verrugas. O agravamento de alguns casos conduz ao abortamento, lesões no feto, infertilidade, câncer de colo de útero e, até mesmo, morte. Atenção especial deve ser dada ao tratamento que só surtirá efeito se for feito em ambos os parceiros (PASSOS, 1985).

E a educação dos jovens sobre DST/AIDS? A problemática da AIDS, que se agrava pela falta de cura, conduzindo por vezes à morte, vem ocupando nos últimos anos e com mais freqüência os meios de comunicação de massa e sendo objeto de projetos específicos de intervenção pedagógica por parte da escola e de outras instituições de educação não-formal. Entretanto, a prevenção apresenta algumas controvérsias, tais como a época em que deve ser iniciada, quão explícita ela deve ser e a possibilidade de estímulo à promiscuidade, dentre outros motivos.

Os estereótipos ligados à AIDS são muitos e têm na sua raiz preconceitos e discriminações contra pessoas e comportamentos, que já existiam mesmo antes de ela aparecer. O termo grupos de risco limitou o aspecto contagioso da doença, mas a mudança no perfil da epidemia nesses últimos anos veio confirmar que a AIDS não atinge apenas pessoas com uma sexualidade chamada desviante ou os viciados em substâncias ilegais cujos comportamentos são desvalorizados socialmente. Entre os jovens, a forma mais comum de contágio tem sido o uso de drogas endovenosas, mas isso não significa que eles estejam protegidos de outras formas de contaminação como a via sexual. É preciso que tenhamos consciência de que a AIDS não é um problema distante e irreal, mas um problema de todos nós. Ainda que não consideremos o nosso comportamento sexual arriscado, temos filhos, parentes, colegas, amigos ou mesmo conhecidos que podem não estar se prevenindo por não achar que correm risco de contrair o vírus da doença – o HIV.  Dessa forma, embora não tenhamos tanta certeza dos resultados dos processos de prevenção utilizados e mesmo sabendo que o preservativo não é um método infalível, sequer para impedir a gravidez não desejada, seu uso deve ser incentivado entre os jovens, vinculado a um processo de educação preventiva integral.

É desejável que os jovens possam chegar a uma conscientização, de tal forma que na hora em que pintar a vontade de transar, pensando num relacionamento bom e prazeroso, conversem sobre seus medos, incertezas, expectativas, sobre as formas de prevenir uma possível gravidez, sobre as doenças sexualmente transmissíveis e a AIDS, e inclusive, sobre a possibilidade de adiar ou não aquele momento.

Tem que recomeçar,

Tem que construir,

Tem que avaliar

Ter hora para agir ...

 (Linha Vermelha – Marcelo Falcão,

Marcelo Lobato, Marcelo Yukka)

O ideal de vivência saudável da sexualidade na juventude, como em qualquer fase da vida, precisa ser buscado, estimulado e propiciado também pelas instituições escolares que incluem em suas metas a formação da pessoa humana, íntegra e feliz.

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Leituras recomendadas:

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NOTAS:

1   Doutora em Educação. Professor Participante Especial / PROPAP /UFBA. Coordenadora do PROEDSEX - Programa de Educação Sexual / Departamento de Biologia / Instituto de Biologia - Universidade Federal da Bahia. Vice-líder do GEFIGE – Grupo de Estudos em Filosofia, Gênero e Educação / PPGE.  Faculdade de Educação - Universidade Federal da Bahia.

 

 

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