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Educação Patrimonial PGM 5 – A MULTIPLICAÇÃO DO MÉTODO Maria
de Lourdes Parreiras Horta OFICINAS DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES AVALIAÇÃO DA EXPERIÊNCIA A metodologia da Educação Patrimonial pode ser um instrumento valioso para o trabalho pedagógico dentro e fora da escola. Para alcançar a multiplicação das idéias e conceitos propostos neste campo da Educação baseada no Patrimônio Cultural é importante que se faça um treinamento com os agentes que irão desenvolver este trabalho nas escolas, nas associações de bairros, ou em qualquer espaço ou grupo social que se pretenda sensibilizar. Este
treinamento pode ser feito através de Oficinas de Educação
Patrimonial, que levarão os participantes a experimentar
diretamente a metodologia de trabalho proposta, podendo assim
avaliar a sua eficiência e potencialidade. No
primeiro momento do treinamento, os participantes são apresentados ao
embasamento teórico, e aos conceitos básicos de cultura, bens
culturais, patrimônio material e imaterial, assim como aos princípios
que fundamentam a metodologia da Educação Patrimonial.
Em seguida, propõe-se um exercício de observação, no qual se
evidencia o potencial de significações contido em qualquer objeto,
como fonte de informações sobre o momento histórico e a sociedade que
o criou e utilizou. Num
segundo momento, os participantes, a partir do método do “aprender
fazendo”,
são levados a desempenhar o papel de alunos, utilizando num trabalho de
campo os bens culturais locais, previamente selecionados: edifícios e
espaços públicos, privados, ou religiosos, casas antigas e modernas,
museus e coleções, manifestações artísticas, cultos religiosos,
saberes e festas populares, produções artesanais, etc., aplicando a
metodologia específica de trabalho. Após
vivenciar a experiência concreta da observação, análise
e registro, os participantes são então convidados a retornar à
sua função de professores e a elaborar os planejamentos pedagógicos
interdisciplinares. É nesta etapa da Oficina em que eles integram os
bens culturais estudados como instrumentos de ensino/aprendizagem,
utilizando os resultados das diferentes etapas da metodologia aplicados
aos conteúdos programáticos nas diferentes disciplinas. No
terceiro momento da Oficina, propõe-se novamente aos participantes
voltar ao papel de alunos. A partir do material observado, analisado e
pesquisado sobre o objeto de estudo, devem então elaborar uma atividade
ou produto final (exposição, vídeo, história em quadrinhos,
dramatização, relatos, etc.), utilizando a vivência e o conhecimento
adquiridos. Nesta etapa, pede-se aos participantes o exercício da
criatividade. Esta atividade final envolve os professores
emocionalmente, permitindo-lhes a experiência marcante de todo o
processo de aprendizagem que mais tarde desenvolverão com seus alunos. A
partir da avaliação dos trabalhos apresentados, será possível
perceber o grau de apropriação e envolvimento dos participantes em
relação aos bens culturais analisados. Uma avaliação escrita
solicitada aos professores permite ajustes e aperfeiçoamento nos
mecanismos de desenvolvimento das Oficinas de Educação Patrimonial. O ENFOQUE INTERDISCIPLINAR: sugestões de abordagem O
trabalho com o Patrimônio cultural e histórico é mais facilmente
compreendido no âmbito das áreas/disciplinas que mais comumente
abordam o tema, como a História ou os Estudos Sociais. Trabalhar este
patrimônio, por meio de outras áreas/disciplinas, nem sempre é
imediatamente percebido, pelos professores das demais disciplinas do
currículo escolar. Os
currículos escolares são comumente sobrecarregados, com disciplinas
que competem entre si por limitação do tempo em sala de aula e pelas
normas oficiais estabelecidas. Os objetos patrimoniais, os monumentos,
sítios e centros históricos, ou o patrimônio imaterial
e natural, são um recurso educacional importante, pois permitem
a ultrapassagem dos limites de cada área/disciplina, e o aprendizado de
habilidades e temas que serão importantes para a vida dos
alunos. Desta forma, podem ser usados como “detonadores”,
ou motivadores, para qualquer área do currículo ou para reunir
áreas aparentemente distantes no processo de ensino/aprendizagem. Alguns
tópicos são ideais para a abordagem de temas do currículo básico,
que atravessam várias áreas/disciplinas: a educação ambiental,
a cidadania (pessoal, comunitária, nacional, incluindo os
aspectos políticos e legais), as questões econômicas e do desenvolvimento
tecnológico/industrial/social. Algumas
sugestões podem dar uma pequena idéia das infinitas possibilidades de
um trabalho integrado e interdisciplinar, e do que pode ser feito no âmbito
de cada disciplina: Linguagem:
as sugestões para a dramatização/ representação de papéis/ solução
de problemas podem servir como ponto de partida para o trabalho de criação
verbal, falada ou escrita. O material coletado pelo aluno, no papel de jornalista
ou produtor de rádio/TV/video, pode ser usado de diversas
maneiras: para elaborar um artigo de jornal, uma novela ou documentário
de televisão, uma peça de teatro, uma história infantil, ilustrada ou
em quadrinhos, uma exposição, etc. Ou pode ser usado simplesmente como
base para discussão em sala de aula. Todas essas criações demandam o
uso imaginativo e competente da linguagem. A poesia e a metáfora podem
ser usadas como expressão dos sentimentos e percepções provocados
pela observação dos objetos ou monumentos. A pesquisa das linguagens e
termos de épocas passadas, comparados com os da atualidade, as
diferentes expressões e formas de linguagem, ritmo e pronúncia,
características das diferentes regiões e de diversas origens étnicas,
pode contribuir para a compreensão dos processos culturais e históricos
em nosso país, com seus diferentes elementos e aportes. Representar
papéis e vivenciar experiências de outros contextos culturais no tempo
e no espaço requer a compreensão da linguagem e expressões de grupos
diferenciados, contribuindo para o envolvimento dos alunos com os fenômenos
e grupos característicos da pluralidade cultural brasileira. A leitura
de obras da literatura da época, ou da região, pode enriquecer o
processo de conhecimento e discussão do tema abordado. Matemática:
o desenho de edifícios, a confecção de mapas e plantas, o
exame detalhado de um objeto podem servir para a prática de habilidades
e conceitos matemáticos, tais como: pesar e medir, calcular
alturas, comprimentos, ângulos, áreas e volumes. A utilização de
instrumentos de medição (réguas, fitas métricas, fios de prumo,
etc.) é mais uma habilidade desenvolvida por meio destas atividades. É
possível utilizar-se medidas e métodos históricos para os cálculos,
por exemplo: pés, léguas, palmos, polegadas,
etc. Os
edifícios podem ser excelentes para o estudo das formas e planos
geométricos. A criação de padrões decorativos pode ser
desenvolvida a partir de ladrilhos, azulejos, tijolos, rendas de
janelas, vitrais e telhas. As fachadas dos edifícios podem ilustrar uma
variedade de formas, linhas e curvas, e problemas
de ritmo e simetria. Os andaimes fornecem material para a geometria,
e os espaços interiores e o mobiliário podem oferecer idéias para
exercícios de reorganização e planejamento dos espaços,
para atender a funções ou circunstâncias diferentes. Os
aspectos financeiros e estatísticos dos objetos, edifícios ou
conjuntos históricos também oferecem oportunidades para exercícios
matemáticos: custos de fabricação, dos materiais, da mão-de-obra, do
tempo de construção, etc. Ciências:
os edifícios e monumentos
podem ser usados para o estudo dos fenômenos e das leis da Física,
por exemplo, a força da gravidade: galpões e salões antigos,
com estrutura aparente, podem ajudar a compreensão dos problemas de
construção e de distribuição dos pesos do telhado e paredes. Tijolos
de brinquedo podem ser usados em sala de aula para reconstruir problemas
estruturais e testar a resistência de diferentes tipos de
materiais. O mesmo pode ser feito com maquetes de estruturas e arcos. Durante
o trabalho de campo, os alunos podem usar lentes para examinar os
diferentes materiais e suas texturas e qualidades. A deterioração
dos materiais em objetos e edifícios históricos é um bom
pretexto para se produzir hipóteses e pesquisas sobre como e porque
alguns materiais se deterioram diferentemente de outros. As questões
sobre o clima e a umidade são importantes nesta questão.
Pode-se fazer experiências com madeiras, metais, ferro, plástico,
papel, vidro, etc., submetendo-os a diferentes agentes de deterioração
e a um processo de observação: jogando na água, enterrando, deixando
ao ar livre, sacudindo, submetendo a impacto, manipulando o objeto ou
material estudado. Pode-se assim discutir as diferentes maneiras de
preservação desses materiais. Tecnologia:
sistemas de drenagem de água e de canalização de esgotos podem ser
objeto de estudos tecnológicos e de discussão sobre mudanças do
passado para o presente e projeções para o futuro. Objetos como relógios,
máquinas de costura ou de escrever, carruagens e automóveis são
poderosos motivadores e iniciadores de discussões sobre as tecnologias
e a revolução industrial. Moinhos, máquinas a vapor, locomotivas,
serras e outras máquinas podem ser a base de estudo para a questão da
tecnologia e sua conseqüência na vida humana.
O estudo das tecnologias de informação, a começar pela
sinalização de roteiros e circuitos, a criação de mapas e guias de
orientação das visitas, os painéis informativos em um sítio histórico,
são tópicos que desenvolvem habilidades e enfocam conteúdos, como os
sistemas de informatização de dados e serviços e a revolução
provocada pelos computadores. As tecnologias de comunicação, desde o
telefone, o telégrafo, o rádio, a televisão, a internet, podem ser
analisadas em comparação com épocas em que não se dispunha desses
recursos, ou em que os sinos das igrejas anunciavam à população
nascimentos, batizados, funerais ou ataque de inimigos. Os sinos ainda têm
um papel marcante na vida das pequenas cidades do interior, e seus códigos
são bem conhecidos da população. Arte:
as diferentes maneiras de representar um objeto, um edifício ou meio
ambiente histórico ou natural podem dar margem ao domínio de técnicas
e habilidades de expressão nos mais diversos meios: desde a fotografia,
a ampliação ou distorção dos ângulos, o uso de lente, ou filtro,
o simples desenho a lápis ou com pigmentos, as técnicas de
gravura e impressão, as colagens, as fragmentações dos detalhes e
texturas, a modelagem, a moldagem e a maquete, o fabrico de papel
artesanal, são exemplos de criações plásticas. O vídeo é um
instrumento cada vez mais ao alcance de muitas escolas, que permite
diferentes recursos de comunicação e expressão. O uso da palavra e do
som permitindo a criação de cenas, músicas, representações
corporais, mímica e dança, bem como a utilização e criação de
instrumentos musicais, são outras formas de expressão criativa e de
desenvolvimento das capacidades do aluno. Geografia:
o estudo de um centro histórico, de um parque botânico ou do meio
ambiente natural pode ser o ponto de partida para a abordagem dos temas
desta disciplina. A elaboração de mapas e plantas de
edificações, a comparação com mapas antigos, a análise dos registros
populacionais de uma determinada localidade são outros recursos a
explorar, tendo como base a evidência histórico/cultural. A procedência
dos materiais, as técnicas construtivas, a decoração podem dar
informações interessantes para o conhecimento da Geografia Física e
Humana. Ao identificar os recursos e características que dão o caráter
especial de uma localidade ou região, os alunos podem discutir as
alternativas para sua preservação. História:
os objetos patrimoniais e os edifícios e centros históricos, os sítios
arqueológicos e paisagísticos podem refletir a maior parte da História
do Brasil e do mundo. Os objetos e monumentos do passado são a evidência
concreta da continuidade e da mudança dos processos
culturais. A comparação da própria casa com as casas do passado
pode dar aos alunos a compreensão de como os estilos e modos de vida
das sociedades mudam ao longo do tempo. Em um automóvel moderno podemos
encontrar ainda os traços das antigas carruagens puxadas a cavalo. Os
detalhes de diferenciação dos objetos do passado e do presente podem
ser traçados num gráfico, ou linha de tempo, que pode ser
comparada a uma árvore genealógica, situando os personagens
familiares em diferentes épocas. O material de apoio: as “Folhas Didáticas” Vários
tipos de materiais podem ser elaborados como apoio ao conhecimento e
exploração dos bens culturais, entre eles a “folha
didática”,
que tem como objetivo orientar os alunos nesse processo de
descoberta. A “folha
didática”
é um roteiro de exploração, com charadas e questões a serem
resolvidas através da observação. Este
material é um instrumento instigador da percepção, da análise,
da comparação e da dedução, que permite ao aluno uma
melhor compreensão do que está sendo observado. Na
sua elaboração, deverá ser levado em conta: u a definição dos objetivos do que se pretende explorar; u a linguagem adequada ao nível da faixa etária que se pretende trabalhar; u as indagações objetivas de fácil compreensão; u a diagramação clara e agradável, com espaço suficiente para o preenchimento. As
folhas poderão ser confeccionadas tanto para dar suporte a um trabalho
em um monumento, um sítio ou um centro histórico, como para acompanhar
os alunos numa visita a um museu ou auxiliar e orientar numa expedição
a um Parque Nacional. Os professores, juntamente com os técnicos do
Patrimônio ou da instituição visitada, poderão produzir as “folhas
didáticas”
ou qualquer outro tipo de material (jogos, quebra-cabeças,
palavras cruzadas, etc.), com recursos simples e de pouco custo e
com desenhos ou fotografias que poderão ser copiadas reprograficamente.
Estes materiais podem servir de apoio às atividades durante a visita e
ao aprofundamento dos conhecimentos, após a mesma, em sala de aula. Perguntas
e atividades que podem ser
utilizadas nas “folhas
didáticas”
são, por exemplo: u
Localize um objeto, ou detalhe de um conjunto, e complete o
desenho na folha (neste caso, o desenho do objeto, ou detalhe, é
parcialmente representado na folha, para complementação). u Para que serve este objeto? Quem o utilizou? u Relacionar o objeto ou elemento característico com um aspecto específico da cultura e da vida local. u
Comparar dois objetos encontrados no mesmo local, detectando
diferenças e semelhanças (neste caso, os dois objetos devem
constar da folha, em desenho ou foto); u Perguntas e atividades a serem feitas em casa, ou na escola (perguntar informações aos pais e avós, aos professores, pesquisar na biblioteca do bairro ou da escola). u Elaborar a árvore genealógica de sua família, colocando datas e fatos históricos contemporâneos a esses antepassados. Avaliando experiências Em
qualquer atividade de Educação Patrimonial, a avaliação da experiência
pode trazer subsídios que possibilitem aos educadores enriquecer a
aplicação da metodologia utilizada, verificando o nível de
envolvimento e compreensão dos alunos com o tema explorado. Um
método possível para se fazer esta avaliação é o uso de questionários,
aplicados aos professores e alunos, a partir da experiência vivenciada.
Os questionários preenchidos após a visita ou atividade permitem
avaliar: u Aspectos relativos ao professor: familiaridade com o local visitado, intenção, motivação da visita, nível de preparação em sala de aula, conhecimento prévio do tema, expectativa em relação à visita e aos resultados alcançados. u Aspectos relativos ao aluno: motivação, dificuldades, adequação da atividade ao tempo disponível, nível de apreensão do tema. u Aspectos relativos à escola e à integração pedagógica: exploração do tema por várias disciplinas, envolvimento de diferentes professores, elaboração de trabalhos interdisciplinares, resultado e produtos apresentados, envolvimento de alunos, professores, coordenadores e pais, envolvimento com a comunidade, organização e recursos disponibilizados para a atividade. Bibliografia Bens Móveis e Imóveis Inscritos nos Livros do Tombo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) – Ministério da Cultura. 4a. edição revista e atualizada, Rio de Janeiro, IPHAN, 1994. Ciências & Letras, Revista da Faculdade Porto-Alegrense de Educação, Ciências e Letras, FAPA, n.27, jan./jun./2000. Diversos artigos sobre o tema. “Educação Patrimonial: Utilização dos Bens Culturais como Recursos Educacionais”. Evelina Grunberg. In: Museologia Social. Porto Alegre, Secretaria Municipal de Cultura, 2000. “Educação Patrimonial”. Maria de Lourdes Parreiras Horta.In: MUSAE Textos, Disk 1, Rio de Janeiro, 1997 (edição em disquete). Educação Patrimonial, a experiência da Quarta Colônia. José Itaqui e Maria Angélica Villagrán. Santa Maria: Pallotti, 1998. “Fundamentos da educação patrimonial”. Maria de Lourdes Parreiras Horta. In: Ciências & Letras, Porto Alegre, FAPA, n.27, jan./jun.2000. Guia Básico de Educação Patrimonial. Maria de Lourdes Parreiras Horta, Evelina Grunberg e Adriane Queiroz Monteiro. Brasília, Museu Imperial/IPHAN/MinC, 1999. Guia de Museus Brasileiros. Comissão de Patrimônio Cultural – Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária – Universidade de São Paulo. São Paulo, USP, 1997. O Presente do Passado – O que é Arqueologia? Edna June Morley. Florianópolis, 1992. Museu Educação: se faz caminho ao andar. Vera Maria Abreu de Alencar. Tese de mestrado apresentada ao Departamento de Educação da PUC. Rio de Janeiro, 1986 (não publicada) Lições das Coisas (ou canteiro de obras) através de uma metodologia baseada na Educação Patrimonial. Magaly de Oliveira Cabral Santos. Tese de mestrado apresentada ao Departamento de Educação da PUC, Rio de Janeiro, 1997 (não publicada). Série
“Education
on Site”.
Ed. Mike Corbishley, English Heritage, Reino Unido. - “Learning from Objects – a Teacher´s Guide to Learning from Objects”. Gail Durbin e outros, 1990. -
“A
Teacher´s Guide to Using Listed Buildings”.
Crispin Keith, 1991. -
“A
Teacher´s Guide to Maths and the Historic Environment”. Tim Copeland, 1991. -
“A
Teacher´s Guide to Geography and the Historic Environment”. Tim Copeland, 1993. - “A Teacher´s Guide to Using Castles”. T
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