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Educação Patrimonial
PGM 4
– OS
SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS E
O PATRIMÔNIO RURAL
Maria
de Lourdes Parreiras Horta O que é um sítio arqueológico? É um lugar onde se encontram vestígios da vida e da cultura material dos povos do passado. Estes vestígios podem estar sobre a superfície do solo uma aldeia indígena abandonada, uma fortaleza do século XVIII, as ruínas de uma igreja, ou enterradas um sambaqui, por exemplo, locais à beira do mar onde se acumularam conchas, ossos, restos de alimentos e utensílios utilizados por grupos humanos que ali viveram. Qualquer
pessoa pode encontrar, por acaso, vestígios de um sítio arqueológico.
Para compreender o que ele contém de informações sobre a vida humana
naquele lugar é preciso algumas pistas, e para isso é necessária a
ajuda de um arqueólogo. Se tentarmos escavar ou explorar um sítio
arqueológico sem o conhecimento dos métodos apropriados para essa
tarefa, podemos destruir as informações que ele contém. Os sítios
arqueológicos são protegidos por lei – a Lei Federal n.
3.924/61; destruí-los é incorrer em um crime contra o Patrimônio
Nacional. O que faz um arqueólogo? Para
um arqueólogo, um montinho de lascas de pedra pode trazer um sem número
de informações que para uma pessoa comum pode não ter o menor
significado. O trabalho da Educação Patrimonial é parecido com o dos
arqueólogos: aprender a ler as evidências do passado no
presente, para delas tirar conclusões e conhecimentos. Para
encontrar as informações que procura, o arqueólogo remove
cuidadosamente, às vezes com um pincel, as camadas de terra ou entulho
que cobrem os artefatos e vestígios da ocupação humana, encontrados em
um sítio arqueológico. Às vezes, ele encontra camadas superpostas
de vestígios diferentes, que correspondem a diferentes períodos de ocupação.
Os períodos mais antigos encontram-se nas camadas mais profundas. Esta
superposição de camadas no solo, como se fosse um bolo, e o seu estudo,
é o que se chama, em Arqueologia, a estratigrafia do sítio. Ela
permite identificar as datas sucessivas de ocupação, umas em relação a
outras, levando à descoberta de como viviam essas populações, o que
comiam, o que fabricavam, os instrumentos de que dispunham, e a evolução
das tecnologias ao longo do tempo. Por isto é tão importante preservar e
proteger os sítios arqueológicos da destruição eles são fontes
preciosas para o conhecimento de nossa história, de nossa pré-história,
de nossos antepassados e de nossa trajetória cultural. O que é a Arqueologia? É
a ciência que nos permite conhecer o passado do homem, antes dos
registros históricos. A palavra vem do grego Archaios, que
significa antigo, e o sufixo logia, que significa o estudo de
alguma coisa. Um arqueólogo é como um detetive: ele estuda os vestígios
e pistas que indicam como vivia o homem no passado. Para isso ele emprega
métodos e instrumentos específicos. Existem diferentes tipos de trabalho
arqueológico. Os mais praticados no Brasil são: a arqueologia pré-histórica,
que se refere ao longo período antes de 1500, quando os europeus chegaram
aqui; a arqueologia histórica, que estuda o passado do homem que
aqui viveu a partir dessa data, com a ajuda de documentos escritos e de
relatos orais. O que é a Pré-História? A
história brasileira só começou a ser escrita com a chegada dos
portugueses, em 1500. A História é o estudo do passado baseado em
registros escritos ou em histórias contadas por alguém, o que chamamos
de história oral. No Brasil, os antigos habitantes, que eram os índios,
não usavam a escrita, mas sua história foi passada de geração a
geração por meio da história oral. Sabemos que há vestígios
da presença humana no Brasil que datam de 30 mil anos, aproximadamente.
Mas, naqueles tempos, a escrita ainda não havia sido inventada. O longo
período de tempo que antecede a História, período em que não se tem
registros escritos ou orais, é chamado Pré-História. Mas se não
há registros escritos, ou orais, dos tempos pré-históricos, como
podemos estudá-los? As pistas do passado, no presente: As
principais evidências que os arqueólogos podem encontrar em um sítio
arqueológico, como pistas para
desvendar o mistério da vida dos povos que nos antecederam, enterradas ou
sobre a superfície do solo, são: u artefatos: qualquer objeto feito pelo homem, como instrumentos de trabalho, de caça ou de pesca, de música ou ritual, brinquedos, vasilhas, peças de indumentária, etc. u estruturas: as construções de todos os tipos, para atender às suas necessidades e modos de vida, tais como casas, abrigos, depósitos de alimentos e grãos, igrejas, cemitérios, colégios, fortificações, etc. u ecofatos: ou as coisas da natureza usadas pelo homem de acordo com suas necessidades, como por exemplo restos de alimentos, ossos e conchas, sementes, carvão, fibras, pedras, etc. O
local onde essas pistas são encontradas é importante para que se possa
compreender ou deduzir como eram usadas isto se chama o contexto dos
artefatos, ecofatos, ou estruturas. Algumas coisas
juntas, em um mesmo contexto, podem ser associadas pelo arqueólogo,
para descobrir, como um detetive, informações sobre o que aconteceu
naquele lugar, naquele momento da história. Por
isso não devemos mexer ou tirar as coisas do lugar, ao visitar um sítio
arqueológico. Para explorar um sítio histórico ou pré-histórico, em
uma atividade de Educação Patrimonial, recorra sempre à ajuda de um
arqueólogo, por intermédio dos escritórios e coordenações regionais
do IPHAN em seu estado ou município, ou a uma universidade local. Sugestões de atividades A
louça quebrada O
objetivo desta atividade é iniciar o aluno na compreensão da evidência
cultural e nos diferentes modos de analisá-la, levando-o a perceber o
processo de reconstituição do passado, por meio dos fragmentos e
vestígios observados no presente. A experiência pode ser usada como
preparação para o estudo de qualquer evidência, de objetos de museus a
monumentos em ruínas ou sítios históricos e arqueológicos. u Apresente aos alunos um objeto qualquer de cerâmica ou louça comum (xícara, prato, bule, pote, caneca, etc.), previamente quebrado em pequenos pedaços, dentro de um saco plástico transparente. u Peça aos alunos para identificar o que é este objeto. A resposta nem sempre será óbvia. Faça perguntas que levem à observação do material empregado, vestígios de decoração e a forma dos fragmentos. u Escolha um dos fragmentos que permita uma fácil identificação (a alça, por exemplo). Faça perguntas que levem a uma interpretação deste fragmento de evidência. Nem sempre você pode ter certeza absoluta de como era o objeto original. A borda de uma caneca, ou de um pote, podem ser semelhantes. u Repita o exercício com os demais fragmentos. Os alunos podem desenhá-los para tentar montar o quebra-cabeça, ou tentar reconstituir o objeto juntando os próprios fragmentos (desde que não haja risco para os alunos). O arqueólogo do futuro Os
alunos podem imaginar que são arqueólogos do ano 3000. A sala de aula ou
o jardim da escola podem ser sítios arqueológicos, que serão explorados
pelos alunos para descobrir as pistas sobre a vida no início do século
XXI. Cada grupo de alunos deve recolher, em um saco plástico, alguns
artefatos ou coisas que foram para o lixo, na sala ou no pátio da escola.
Cada aluno, em cada grupo, descreve em uma ficha um objeto
encontrado. Quando todos os objetos estiverem descritos, o grupo pode
discutir a função de cada um, discutindo as várias hipóteses
de uso, como se não soubessem como era a vida em nossa época. Cada
grupo apresentará aos demais suas hipóteses sobre o material encontrado;
no final da atividade, é possível fazer um painel, em classe, sobre as
informações obtidas, a partir da análise do material recolhido,
discutindo ainda tudo o que não está representado por esse material o
que está faltando, ou o que fica pouco claro, a partir dessas evidências.
Este exercício, que pode ser bem divertido e lúdico, estimulando a
criatividade dos alunos, também os fará perceber as limitações
da Arqueologia, na descoberta dos mundos passados. O PATRIMÔNIO RURAL: uma herança a descobrir A
idéia de que o Patrimônio cultural, os monumentos e sítios históricos
só são encontrados nas cidades, ou em sua periferia, é bastante comum,
e, entretanto, equivocada. Nas áreas rurais, nas pequenas vilas e cidades
que ali se desenvolveram, como núcleos da ocupação humana na região, há
todo um Patrimônio Cultural, vivo e dinâmico em suas tradições, que na
maioria das vezes não é reconhecido como tal pela maioria da população
e pelos que vêm de fora. Pelo fato de não existirem museus ou grandes
monumentos nessas localidades, ou por não terem sido marcadas e
celebradas por episódios da história nacional, é comum se pensar que é
preciso sair daquele lugar para buscar o conhecimento e a experiência do
Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de que tratamos aqui. No
primeiro programa desta série, destacamos a importância do Patrimônio
Vivo das comunidades, da dinâmica do processo cultural,
e dos elementos que constituem o “patrimônio
imaterial”
de uma cultura. A Educação Patrimonial busca a capacitação dos indivíduos
para a leitura e a compreensão desses processos culturais, mais do
que dos produtos deles resultantes, e que constituem a evidência
cultural que procuramos estudar. É
na área rural, e nos pequenos núcleos do interior do país, onde estes
processos, esta dinâmica e suas manifestações podem ser encontrados e
analisados com mais facilidade, porque na maioria dos casos estão em
pleno uso, em frente de nossos olhos, e prontos para serem conhecidos e
experimentados. O isolamento dos grandes centros, ao mesmo tempo em que
contribui para um processo de estagnação e de êxodo dos mais jovens, é
ao mesmo tempo um fator de proteção das tradições, dos saberes
e dos fazeres da cultura local. A
proposta da Educação Patrimonial, levando-nos à exploração e
conhecimento dos objetos e manifestações da cultura de um modo
diferenciado, em busca de seus múltiplos significados e conteúdos,
vem sendo um poderoso instrumento de trabalho para professores e agentes
de cultura e educação no meio rural, como recurso para a recuperação
da auto-estima das comunidades, do resgate da memória coletiva,
e da percepção e reconhecimento dos valores locais. Um
exemplo bem sucedido da utilização da Educação Patrimonial em uma
vasta região, predominantemente rural, no sul do país, é a experiência
do Programa Regional de Educação Patrimonial da 4a.
Colônia de Imigração Italiana no Rio
Grande do Sul. Este projeto, desenvolvido pela Secretaria de
Cultura e Turismo do Município de Silveira Martins, RS, a partir de 1993,
abrangeu toda a rede educacional dos municípios circunvizinhos, tais como
D.Francisca, Faxinal do Soturno, Ivorá, Nova Palma, Pinhal Grande e São
João do Polêsine. Durante três anos, o projeto (PREP) desenvolveu e
aplicou uma metodologia específica para o trabalho da Educação
Patrimonial a partir da cultura e da história locais, marcadas pelos
elementos característicos do fenômeno da imigração italiana e alemã
no sul do país, a partir do século XIX. O projeto envolveu alunos e
professores do 1o
grau, num processo interdisciplinar e interescolar, incluindo também a
comunidade e as famílias dos estudantes, cujos resultados se fazem sentir
até hoje, no desenvolvimento da região. No
desenvolvimento do PREP – Projeto Regional de Educação
Patrimonial, escolheram-se núcleos temáticos a serem trabalhados
a partir desta metodologia: u A casa, espaços e mobiliário; u Documentos familiares; u Instrumentos de trabalho e técnicas de uso; u Cultivos e alimentação; u A flora e a fauna nativas. Cada
um desses temas foi objeto de estudo e exploração durante todo um
semestre letivo, em todas as áreas/disciplinas do currículo, por meio de
atividades e experiências concretas de observação, coleta,
pesquisa e exploração, partindo sempre do enfoque da
realidade quotidiana dos alunos. Os aspectos do trabalho, do plantio e da
colheita e de outras atividades comuns na região foram observados no
campo, onde os pais dos alunos foram os “monitores”
da atividade, explicando os métodos e instrumentos de seu fazer. A
valorização dos ofícios rurais e do conhecimento tradicional
passado de geração a geração foi um resultado altamente positivo das
atividades, levando os alunos a reconhecerem e a terem orgulho de sua história
pessoal e coletiva, de seus pais e avós. Por intermédio do manuseio, do
registro em diferentes meios, dos jogos, das entrevistas com familiares e
integrantes da comunidade, alunos e professores tiveram a possibilidade de
entender e reconstituir as tramas sociais, tecnológicas, econômicas e
culturais que compõem o tecido de sua trajetória e identidade históricas.
Ao mesmo tempo, as crianças fizeram um verdadeiro inventário dos
objetos significativos para sua história e identidade, através da
pesquisa e da coleta de campo, elaborando fichas para cada objeto
encontrado ou emprestado pelos amigos e familiares. Ao
final de cada etapa temática, organizou-se em cada escola uma exposição
dos objetos coletados e dos trabalhos realizados (desenhos, maquetes,
fotografias, mapas e relatos, dramatização, etc.). Ao final do período
letivo organizaram-se exposições coletivas, apresentando o trabalho
desenvolvido em todas as escolas municipais participantes do Projeto
Regional de Educação Patrimonial. Os
resultados dessa experiência foram tão ricos que possibilitaram a
elaboração de uma tese de Mestrado em Educação, apresentada à
Universidade Federal de Santa Maria, RS, pela autora, e uma das
coordenadoras do programa, a professora Maria Angélica Villagran. A
leitura do poema de Carlos Drummond de Andrade, intitulado “A
CHAVE”
pode servir de inspiração, e de metáfora, para o trabalho da Educação
Patrimonial. A partir de um simples objeto comum, como uma chave (e logo
imaginamos uma chave antiga, talvez já enferrujada), o poeta nos abre a
porta da imaginação e da evocação de todo um universo do passado, onde
transitam paisagens, personagens, sons, animais, e toda a força da criação
humana, cristalizada no gesto do serralheiro... “o
serralheiro não sabia / o ato de criação como é potente/ e na coisa
criada se prolonga, ressoante...” Ouvir
a voz das coisas (“Ora,
direis, ouvir estrelas...”
diz um outro poeta brasileiro), perceber o ato de criação que se
prolonga nelas, e chega até nós, escutar as histórias que nos contam...
Esta é a “alfabetização
cultural”
que se propõe com o trabalho e a metodologia da Educação Patrimonial. Ouçamos
assim a voz da “chave”,
que nos é transmitida pela palavra do poeta: A CHAVE Carlos Drummond de Andrade (O Corpo, 1984) E de repente o resumo de tudo é uma chave. A chave de uma porta que não abre para o interior desabitado no solo que inexiste, mas a chave existe. Aperto-a duramente para ela sentir que estou sentindo sua força de chave. O ferro emerge de fazenda submersa. Que valem escrituras de transferência de domínio se tenho nas mãos a chave-fazenda com todos os seus bois e os seus cavalos e suas éguas e aguadas e abantesmas? Se tenho nas mãos barbudos proprietários oitocentistas de que ninguém fala mais, e se falasse era para dizer: os Antigos? (Sorrio pensando: somos os Modernos provisórios, a-históricos...) Os Antigos passeiam nos meus dedos. Eles são os meus dedos substitutos Ou os verdadeiros? Posso sentir o cheiro do suor dos guarda-mores, o perfume- Paris das fazendeiras no domingo de missa. Posso, não. Devo. Sou devedor do meu passado, cobrado pela chave. Que sentido tem a água represada no espaço onde as estacas do curral concentram o aboio do crepúsculo? Onde a casa vige? Quem dissolve o existido, eternamente existindo na chave? O menor grão de café derrama nesta chave o cafezal. A porta principal, esta é que abre sem fechadura e gesto. Abre para o imenso. Vai-me empurrando e revelando o que não sei de mim e está nos Outros. O serralheiro não sabia o ato de criação como é potente e na coisa criada se prolonga, ressoante. Escuto a voz da chave, canavial, uva espremida, berne de bezerro, esperança de chuva, flor de milho, o grilo, o sapo, a madrugada, a carta, a mudez desatada na linguagem que só a terra fala ao fino ouvido. E aperto, aperto-a, e de apertá-la, ela se entranha em mim. Corre nas veias. É dentro em nós que as coisas são, ferro em brasa
– o ferro de uma chave.
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