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Educação Patrimonial

PGM 3 OS MONUMENTOS E CENTROS HISTÓRICOS

 

Maria de Lourdes Parreiras Horta

Explorando o “meio ambiente histórico”

O conceito de “meio ambiente histórico”

Olhar um monumento, uma paisagem, um centro histórico, ou uma área rural adquire uma dimensão bem mais ampla e profunda quando utilizamos o conceito de “meio ambiente histórico” como eixo de nossa observação. É comum, ao falarmos do meio ambiente em que vivemos, considerar-se unicamente a questão do meio ambiente natural, em seus aspectos físicos e biológicos. Mas é inevitável, ao se questionar os efeitos da poluição, do desmatamento, da extinção dos mananciais e da contaminação do ar e das águas, chegarmos ao “agente” responsável por estes problemas: o ser humano e sua ação sobre o meio ambiente natural. Os aspectos históricos da ação transformadora do homem sobre a natureza, para dela tirar o seu sustento e criar as condições necessárias à sua sobrevivência e à vida em sociedade, não podem deixar de ser estudados e analisados criticamente, para uma compreensão mais abrangente e complexa dessa interação, e de suas conseqüências para a vida em sociedade.

O que é o “meio ambiente histórico” ?

É o espaço criado e transformado pela atividade humana, ao longo do tempo e da história. Pode ser um pequeno núcleo habitacional, uma cidade, uma área rural, cortada por caminhos, pontes e plantações. Até mesmo uma paisagem natural, rios e florestas, zonas de alagados ou desertos já sofreram, em algum momento no tempo, o impacto da ação humana. Algumas áreas foram ocupadas no passado, em tempos pré-históricos, ou séculos atrás, e hoje não apresentam sinais visíveis de ocupação, que só poderá ser conhecida pelo trabalho dos arqueólogos.

O meio ambiente histórico está em toda a parte, em torno de nós, acima e abaixo dos nossos pés; o que pode variar é a extensão e o modo em que ele pode ser identificado e percebido, no meio ambiente  em que vivemos hoje. Você já pensou alguma vez no que pode ter existido ou ainda estar soterrado debaixo do chão e do solo em que você pisa agora?

Os monumentos e sítios que conhecemos hoje são fragmentos do cenário do passado, elementos de uma paisagem que sofreu modificações ao longo do tempo, e funcionam como “chaves” para a reconstituição das sucessivas camadas da ocupação humana e dos remanescentes que chegaram até nós. Não é por acaso que as fotos antigas dos lugares que nos são hoje familiares podem nos causar tanta surpresa, e muitas descobertas...

O meio ambiente histórico é dinâmico, e continua a mudar no presente. O conceito de mudança e continuidade é essencial para a compreensão do Patrimônio Cultural,  em todos os seus aspectos, como um dos conceitos básicos a serem trabalhados no processo da Educação Patrimonial.

Um exercício que pode ajudar a compreensão deste conceito é o de pesquisar e documentar as mudanças ocorridas no espaço da escola, ou da casa do aluno, ao longo dos últimos anos, e observar as mudanças ocorridas na sua rua, ou no bairro. Os jornais e revistas são excelentes fontes para esse estudo.

As dimensões do meio ambiente histórico

A atividade sobre o meio ambiente, resultante das necessidades humanas de vida em grupo e de sobrevivência, dá origem a uma série de estruturas, com diferentes finalidades: abrigo, defesa, cultos religiosos, agricultura, fabricação de utensílios e ferramentas, comércio, governo, etc.

Normalmente encontramos estruturas apropriadas a todas essas funções no espaço de uma mesma área, quer seja rural ou urbana. Ao longo dos séculos, as necessidades básicas continuam as mesmas, e o desenvolvimento das tecnologias vai modificar as estruturas, com a introdução de recursos mais sofisticados. Novas necessidades da vida social vão provocar o aparecimento de novas estruturas: “shopping centers” no lugar de lojas, cinemas no lugar de galpões, igrejas no lugar de cinemas, estádios de futebol no lugar de áreas desocupadas.

O meio ambiente histórico tem duas dimensões: a dimensão horizontal, que revela o aspecto de toda uma área em determinado período de tempo, no passado ou no presente, e a dimensão vertical, que mostra as sucessivas camadas e modificações de uma mesma área ao longo do tempo. A sobrevivência de cada uma dessas camadas depende de uma série de fatores, como o tipo de material usado nas estruturas construídas, ou o processo de mudança nas atividades, na agricultura, na indústria e na população. Algumas estruturas recentes podem esconder uma estrutura mais antiga, por trás das fachadas. A expansão urbana e as atividades agrícolas provocaram, em um passado muito recente, e ainda provocam, a destruição de muitos sítios e monumentos históricos.

As alterações do meio ambiente natural vão refletir essas mudanças de uso e ocupação das áreas, e vão estar também refletidas nas estruturas e nos equipamentos construídos pelo homem para enfrentar as condições climáticas de uma determinada região.

Como encontramos o meio ambiente histórico

Podemos encontrá-lo todo dia, a qualquer momento, em torno de nós.

Para as crianças, com um tempo de vida mais recente e menor que o dos adultos, quase tudo que as rodeia é produto de um passado distante, “do tempo da vovó”. A própria casa, a família ou a escola, podem ser materiais úteis para iniciar a compreensão da mudança e da continuidade.

As estruturas remanescentes do passado são encontradas em diferentes estados de preservação:

u intactas: escolas, casas, igrejas, prédios públicos, teatros, museus, parques, etc.

u incompletas: não mais usadas por terem sido danificadas pela atividade humana, ou pela ação do tempo, como a chuva, o vento, o mofo, a ferrugem, transformando-se em ruínas (normalmente correspondem à noção mais comum de monumento histórico ou prédio antigo, atraindo o interesse turístico).

u enterradas: estruturas desaparecidas por abandono de uso e pela própria decadência dos materiais (madeira, barro, por exemplo) menos resistentes à ação do tempo. A mudança nas atividades da área provocou o seu desaparecimento sob novas camadas de solo (estes sítios são descobertos e estudados pelos arqueólogos, a partir de alguns vestígios encontrados no solo).

O que é um monumento histórico?

Um monumento é uma edificação ou sítio histórico de caráter exemplar, por seu significado na trajetória de vida de uma sociedade/comunidade e por suas características peculiares de forma, estilo e função. Existem monumentos construídos especialmente para celebrar ou relembrar algum episódio, momento ou personagem de nossa história, criados por arquitetos, escultores, artistas, como por exemplo: o Monumento às Bandeiras, em São Paulo, ou o Monumento aos Mortos na 2a. Guerra Mundial, no Rio de Janeiro, ou o Memorial JK, em Brasília. Outros são remanescentes do passado, que sobreviveram ao tempo, e que são consagrados pela sociedade como símbolos coletivos, e como referências da memória de um povo.

Em suas estruturas, formas e uso, revelam um momento determinado do passado, e são testemunhas dos modos de vida, das relações sociais, das tecnologias, das crenças e valores dos grupos sociais que os construíram, modificaram e utilizaram.

Alguns monumentos continuam a servir à mesma função original, como as igrejas da época colonial. Outros servem a novas funções, como as Casas de Câmara e Cadeia, transformadas em museus ou repartições públicas, como aconteceu em Ouro Preto, MG; alguns permanecem vazios, sem uso particular, constituindo freqüentemente um pólo de atração turística, como, por exemplo, os fortes para a defesa da costa ou das fronteiras do país.

Alguns estão bem conservados em seu aspecto original, outros sofreram modificações ao longo do tempo para servir a novos usos, outros ainda se encontram em ruínas, como as Missões Jesuítico-Guarani, no Rio Grande do Sul. Uma parte do monumento pode estar enterrada sob camadas do solo, como resultado de modos sucessivos de ocupação do espaço: as casas dos guaranis, as oficinas e o colégio dos padres, nas Missões de São Miguel, São Nicolau ou São João Batista só são conhecidos como resultado de escavações arqueológicas.

O que é um monumento “Tombado”?

Alguns edifícios isolados, sítios ou conjuntos de edificações têm um significado especial para a História do Brasil, como marcos na trajetória nacional. Outros têm uma importância regional ou local. Os técnicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), do Patrimônio Estadual ou Municipal, puderam identificar estes edifícios e sítios por meio de estudos e pesquisas, como base para o trabalho de conservação e restauração, e para sua proteção oficial, de acordo com a Constituição Federal e o Decreto-lei n. 25, de novembro de 1937, a chamada Lei do Tombamento. Os monumentos assim identificados são chamados monumentos ou edifícios tombados, quando inscritos nos “Livros de Tombo”  do patrimônio nacional, estadual ou municipal.

A origem do termo “tombamento” é muito antiga e se refere à Torre do Tombo, em Portugal, onde se guardam até hoje os livros e os documentos da história daquele país, e muitos referentes à História do Brasil. O tombamento é assim um registro oficial e legal de um edifício, um conjunto de edificações, centros urbanos históricos, ou objetos e coleções de significado exemplar para a sociedade. Um monumento é antes de tudo uma referência a um momento na trajetória histórico-cultural de um povo, um instrumento da memória coletiva. Assim, jamais pode ser estudado isoladamente. Um monumento deve ser visto como um elemento do meio ambiente histórico, e como tal deve ser analisado em seu contexto social e histórico, ao longo do tempo. A partir de 2002, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional criou um novo Livro de Registro, destinado a referenciar e proteger as manifestações culturais que são caracterizadas como o “patrimônio imaterial” brasileiro, ou seja, os saberes e modos de fazer peculiares às diferentes regiões do Brasil, as festas e folguedos, as cantigas e lendas, o artesanato, a culinária, a música, a poesia e a literatura populares. O ofício das “paneleiras” do Vale do Jequitinhonha, no Espírito Santo, foi a primeira manifestação registrada no Livro do Patrimônio Imaterial Brasileiro. Qualquer pessoa pode indicar aos órgãos do IPHAN, em sua região, alguma manifestação que seja considerada merecedora de registro neste “Livro”.

O monumento: explorando o meio ambiente histórico

Ao analisar um monumento ou sítio histórico é importante que os alunos sejam levados a considerar as dimensões do meio ambiente histórico em que eles se inserem, e a avaliar a influência da paisagem local sobre esses comportamentos naquela localidade, que contribui para o seu caráter especial.

As disciplinas da História, Geografia, Matemática, Estatística e Ciências Sociais são áreas que podem ser especialmente desenvolvidas nesta exploração. Da mesma forma a Literatura e a Linguagem.

Analisar uma fortaleza na entrada de uma baía, ao longo da costa brasileira, ou em uma região de fronteira, no Norte ou no Oeste do país, uma igreja barroca em Minas Gerais ou as ruínas das Missões Jesuítico-Guarani, no Rio Grande do Sul, o mercado do “Ver-o-Peso”, em Belém do Pará, ou a feira de Caruaru, em Pernambuco são exercícios que podem nos fazer compreender a natureza dessa interação entre o homem e o seu meio ambiente físico e cultural.

Ao estudar um local, monumento ou sítio histórico, e a interação entre a atividade humana e a paisagem, pode-se usar um conjunto estruturado de perguntas, como ponto de partida para que os alunos proponham suas próprias questões:

A questão fundamental: Como é este lugar hoje/ Como era este lugar no passado?  – é o ponto de partida para a coleta de dados, o trabalho de campo, as observações orientadas e as diferentes atividades. A partir dessa pergunta, que já implica um exercício mental de observação, comparação e dedução, é possível observar, entre outros aspectos:

Onde ele está situado?

Como ele se insere na paisagem natural?

   Quantas estruturas existiam ali?

   De que eram feitas? Para que serviam?

   Quantas pessoas viviam ali?

Perguntas como estas podem ser aplicadas a alunos de todas as idades, com a ajuda dos professores para os mais jovens. Para tanto, é importante que o professor prepare a sua visita e estude os elementos perceptíveis no local, bem como a história da evolução do mesmo, de modo a orientar a observação e as perguntas dos alunos.

Apesar de serem colocadas separadamente, as questões se relacionam entre si. Um conjunto de perguntas depende de outras. Entretanto, colocá-las separadamente ajuda a compreender e a estruturar os diferentes passos de uma pesquisa. Na base dessas perguntas está a intenção de compreender a evidência física que observamos, com o intuito de conhecer mais sobre ela, sobre a vida no local e as mudanças que ocorreram, de modo a perceber sua importância ou significado no presente.

As questões básicas de abordagem podem ser assim estruturadas:

                    

         História                                                        Função

 

  

Estes elementos de análise podem ser aprofundados em diferentes pontos:

 

 Sítio       e foi construído?       Como foi usado?

                                O que aconteceu neste lugar?

As atividades resultantes desse questionamento implicam o exercício de diferentes habilidades, tais como: a observação, o registro verbal, gráfico, matemático, a análise, a dedução, a comparação, a síntese e a apresentação dos resultados, em diferentes formas.

O uso e a compreensão de mapas, plantas, fotografias aéreas, fotos antigas e recentes, documentos originais, arquivos, bibliografia são outras habilidades envolvidas na exploração orientada de um sítio ou monumento histórico.

O essencial nesse processo é fazer as questões adequadas, levantar problemas, discutir os resultados e verificar as conclusões mais apropriadas, isto é, as mais sensíveis e possíveis.

Respostas corretas são raramente possíveis em sítios históricos, pois não podemos captar as idéias dos habitantes originais, a não ser por fontes secundárias (documentos, diários, cartas, etc.). É importante que os alunos percebam isto, e que suas respostas sejam avaliadas pela maneira em que se apóiam na evidência disponível. Neste processo ativo de descoberta da evidência cultural, é importante que os professores não forneçam de antemão as informações disponíveis nos livros ou arquivos, mas que levem os alunos a propor as questões pertinentes e a buscar as “chaves” para o descobrimento daquele local.

De volta à sala de aula é possível analisar os dados coletados no local, reformulando os resultados a partir de pesquisas e discussões posteriores e apresentando as conclusões de forma coletiva, com painéis, desenhos, mapas, gráficos, cronologias, exposições de objetos e fotos, maquetes, etc.

Preparando a visita

A visita a um monumento/sítio histórico ou arqueológico requer algumas precauções:

u Escolha um sítio/monumento, de preferência bem conservado, evitando os que apresentem algum risco de desmoronamento.

 Verifique se o sítio/monumento tem suficiente documentação histórica e registros anteriores, para facilitar a comparação com seu aspecto atual.

u A facilidade de acesso ao local é fundamental. No processo de estudo é possível que se necessite voltar ao sítio para complementar e esclarecer alguns aspectos.

uNem todas as perguntas poderão ser respondidas no local, ou porque as evidências não existem mais ou porque ainda não foram encontradas. É importante que os alunos percebam as limitações das evidências. Isto pode levar à formulação de hipóteses sobre os elementos disponíveis, mas os alunos devem perceber também os riscos e problemas da interpretação de evidências incompletas, levando a conclusões inexatas ou distorcidas.

 


SALTO PARA O FUTURO / TV ESCOLA
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