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Educação Patrimonial

PGM 2O OBJETO CULTURAL – UMA DESCOBERTA

Maria de Lourdes Parreiras Horta 1

   

O objeto cultural como fonte primária de conhecimento

Nada substitui o objeto real como fonte de informação sobre a rede de relações sociais e o contexto histórico em que foi produzido, utilizado e dotado de significado pela sociedade que o criou. Todo um complexo sistema de relações e conexões está contido em um simples objeto de uso cotidiano, uma edificação, um conjunto de habitações, uma cidade, uma paisagem, uma manifestação popular, festiva ou religiosa, ou até mesmo em um pequeno fragmento de cerâmica originário de um sítio arqueológico. Descobrir esta rede de significados, relações, processos de criação, fabricação, trocas, comercialização e usos diferenciados, que dão sentido às evidências culturais e nos informam sobre o modo de vida das pessoas no passado e no presente, em um ciclo constante de continuidade, transformação e reutilização, é a tarefa específica da Educação Patrimonial. Neste processo de descobrimento da realidade cultural de um determinado tempo e espaço social é possível se aplicar uma metodologia apropriada que facilite a percepção e a compreensão dos fatos e fenômenos culturais.

A metodologia da Educação Patrimonial nos leva a formular hipóteses sobre os objetos e fenômenos observados, buscando descobrir sua função original e sua importância no modo de vida das pessoas que os criaram. Por exemplo, um simples botão, de plástico, de osso ou de madeira, parece não oferecer uma grande margem de exploração de significados. Mas se pensarmos em como era a vida das pessoas antes da invenção do botão, podemos descobrir fatos interessantes... Até a Idade Média, na Europa, as roupas, em especial os casacos e coletes, eram amarradas com laços e cadarços, de tecido ou de couro. Após o surgimento do botão, fechando o vestuário, as pessoas passaram a ter uma melhor proteção contra o frio e o vento, em suas atividades diárias. Isto veio contribuir para a diminuição das doenças contraídas pela exposição a esses fatores atmosféricos, inclusive à umidade, em uma época em que a medicina ainda estava engatinhando, e em que não se conheciam os antibióticos e outros medicamentos para combater a gripe, a pneumonia, a bronquite. A invenção do botão veio assim aumentar a expectativa de vida dos indivíduos, influenciando também a moda, e gerando uma sucessão de outros recursos para o fechamento das roupas, em tempos posteriores, como os zíperes, os botões de pressão em metal, e mais recentemente as fitas “velcro”. A popularização do uso do botão levou à criação de usos correlatos para este pequeno objeto, que passa a ostentar monogramas, indicativos da profissão do usuário (como nos uniformes do período imperial, no Brasil, que ostentam a sigla PI ou PII, em referência aos dois Imperadores), a ser símbolo de prestígio social, como as abotoaduras de ouro ou madrepérola usadas nos punhos das camisas, ou ainda o uso na propaganda, com os conhecidos buttons”/ botões com siglas partidárias, de campanhas sociais, de eventos ou clubes. Podemos ainda lembrar do “futebol de botão”, tão popular entre adultos e crianças.

Este exemplo pode ser aplicado na exploração de qualquer objeto, equipamento ou expressão cultural, descobrindo-se a sua trajetória no tempo, a partir de sua criação, função e uso original, e acompanhando-se sua transformação, formal e funcional, ao longo desse trajeto. O famoso paradoxo de Zenon, um filósofo grego da Antigüidade, sobre o vôo de uma flecha, pode servir de modelo para esta exploração. Zenon propôs que, ao longo da trajetória de uma flecha em movimento, se poderia distinguir os diferentes pontos no espaço ocupados sucessivamente por este objeto, e que em sua sucessão e deslocamento, dariam origem ao movimento real. Todo objeto, em sua trajetória histórico-temporal, percorre um caminho de etapas sucessivas e em contínua transformação, em sua forma e uso. A Educação Patrimonial propõe um exercício de exploração do “horizonte do passado ” de cada objeto e fenômeno observado, buscando a partir do presente descobrir esta trajetória no tempo. Usando a imagem de um grande arco-íris em sua curva no céu, podemos tentar descobrir onde começa o fenômeno, as suas múltiplas “cores”, ou significados e usos, de que se revestem para as sociedades que os utilizaram, e os sentidos diferenciados que tiveram, as relações com outros fenômenos e outras invenções, chegando até os nossos dias. É comum encontrarmos em uso na decoração das casas de hoje objetos que perderam sua função e significados originais, como por exemplo os antigos ferros de passar, do tempo da vovó, hoje transformados em vasos de flores, ou como objetos de enfeite nas estantes. Esta “re-funcionalização ”, ou “re-significação   dos objetos de uso cotidiano oferece um excelente tema de exploração, discussão e pesquisa, dentro ou fora da sala de aula.

Os problemas encontrados por uma comunidade no passado levaram a soluções que deixaram suas marcas no presente. Por exemplo, a existência de um aqueduto, ou de uma ponte de ferro, nos indica como uma comunidade resolveu seu problema de abastecimento de água, ou de travessia de um rio. As evidências do passado que encontramos hoje nos permitem analisar e identificar os problemas do passado, e as soluções encontradas no presente para resolver os mesmos problemas (sistema de encanamento de água, reservatórios e açudes, pontes de concreto, construção de novas estradas, etc.). O avanço e a descoberta de novas tecnologias nos ajudam a explicar as novas soluções e a projetar hipóteses sobre soluções futuras para os problemas que vivenciamos hoje, num exercício das capacidades intelectuais superiores dos alunos em processo de aprendizado, como a dedução, a comparação, a formulação de problemas e de hipóteses para a sua solução.

A habilidade de interpretar os objetos e fenômenos culturais amplia nossa capacidade de compreender o mundo. Cada produto da criação humana, utilitário, artístico ou simbólico, é portador de sentidos e significados, cuja forma, conteúdo e expressão devemos aprender a “ler”, ou seja, a “decodificar”. Cada época, circunstância, ou contexto histórico são marcados por “códigos” de comportamento, de valores, de costumes, que regem a vida social e suas formas de expressão. O que é válido e pertinente para uma determinada época pode já não o ser nos dias de hoje. Compreender os códigos de uma determinada sociedade nos facilita a compreensão de seu modo de ser e de agir. Para desenvolver este aprendizado, o conhecimento especializado não é essencial. Qualquer pessoa pode fazê-lo, desde que utilize suas capacidades de observação e de análise direta do objeto ou fenômeno estudado, e saiba recorrer a fontes complementares para explorar os dados percebidos.

A metodologia da Educação Patrimonial pode levar os professores a utilizarem os objetos culturais na sala de aula, ou nos próprios locais onde são encontrados, na casa do aluno, em visitas e passeios a lugares de interesse, como peças chave no desenvolvimento dos currículos, e não simplesmente como mera “ilustração” das aulas e dos livros.

Aplicando a Metodologia da Educação Patrimonial

A análise de um objeto ou fenômeno cultural pode ser feita através de uma série de perguntas e reflexões:

Investigando um objeto cultural : aspectos principais a observar:

Aspectos físicos/materiais               O que parece ser este objeto? (função/uso)

   Outras perguntas:               Que cor tem?

                                          Que cheiro tem?

                                          Que barulho faz?

                                          De que material é feito?

                                          O material é natural ou manufaturado?

                                          O objeto está completo?

                                          Foi alterado, adaptado ou consertado?

                                          Está usado?

 

Modo/ processo de construção       Como foi feito?

   Outras perguntas:            Onde foi feito?

                                       Foi feito à mão, ou à máquina?

                                       Foi feito em uma peça única, ou em partes?

                                       Com uso de molde, ou modelado à mão?

                                       Como foi montado? (com parafusos, pregos, cola ou encaixes...).

 

Função/uso                    Para que foi feito?

   Outras perguntas:      Quem o fez?

                                 Para que finalidade?

                                 Como foi ou é usado?

                                 O uso inicial foi mudado? Por quê?

 

Desenho/ forma          O objeto tem uma boa forma? é bem  desenhado?

   Outras perguntas:    Ele é bem adequado para o uso pretendido?

                               De que maneira a forma indica a função?

                               O material usado é adequado à função?

                               É decorado, ornamentado?

                               Como é a decoração?

                               O que a forma e a decoração indicam?

                               Sua aparência é agradável? Por quê?

 

Valor/significado         Quanto vale este objeto?

   Outras perguntas:   Para as pessoas que o fabricaram?

                              Para as pessoas que o usam (ou usaram)?

                              Para as pessoas que o guardaram?

                              Para as pessoas que o venderam?

                              Para você?

                              Para um Banco?

                              Para um Museu?

 

Você pode dar às crianças uma folha como essa para ajudá-las no exercício de analisar um objeto, sem limitar sua própria capacidade de propor perguntas e respostas.

Ao lado das perguntas e aspectos acima, você pode criar duas colunas, para anotação:

Aspectos
descobertos           

pela observação                 Aspectos a pesquisar

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É importante notar que, todo objeto ou evidência da cultura traz em si uma multiplicidade de aspectos e significados. Neste processo de etapas sucessivas de percepção, análise e interpretação das expressões culturais é necessário definir e delimitar os objetivos e metas da atividade, de acordo com o que se quer alcançar, e com a natureza e complexidade do objeto estudado. Por exemplo, em um museu, definir o tema abordado, de acordo com as coleções existentes; em um monumento ou uma cidade, definir os aspectos a serem investigados (arquitetônico, urbanístico, social, econômico, histórico, etc.). Em um único monumento podemos analisar os aspectos construtivos e materiais, a área de entorno, o interior, a decoração, o mobiliário, os habitantes ou usuários, as transformações ocorridas no tempo. Cada um desses aspectos oferece uma infinidade de enfoques a abordar, que podem ser explorados nas diferentes disciplinas do currículo.

A investigação de um objeto cultural se baseia assim em diferentes atividades, num processo que requer:

observação  >  pesquisa/estudo  >  discussão  >  conclusões

levando-nos assim ao conhecimento do objeto.

Descobrindo um objeto

O objeto mais comum de uso doméstico ou cotidiano pode oferecer uma vasta gama de informações a respeito do seu contexto histórico-temporal, da sociedade que o criou, usou e transformou, dos gostos, valores e preferências de um grupo social, do seu nível tecnológico e artesanal, de seus hábitos, da complexa rede de relações sociais. A observação direta, a manipulação e o questionamento do objeto, feitos com perguntas apropriadas, podem revelar estas informações em um primeiro nível de conhecimento, que deverá ser expandido por meio do estudo e da investigação de fontes complementares como livros, fotografias, documentos, arquivos cartoriais e eclesiásticos, arquivos de instituições, clubes, associações, arquivos familiares, pesquisas, entrevistas, etc.

Considere a CADEIRA em que você está sentado. Usando a metodologia da Educação Patrimonial, em sua primeira etapa, a observação, é possível perguntar: de que material é feita? Por que foi feita desse material? Qual sua cor, forma e textura? É confortável? É diferente de outras cadeiras? O que diz sua ornamentação? Ela tem cheiro? Em que época foi feita? Ela já foi consertada? Como? Por quê? Ela está limpa? Ela se relaciona com outros objetos na sala? De que maneira? Foi fabricada artesanalmente ou industrialmente? Você já olhou embaixo da cadeira ou passou o dedo sob ela? Isto altera alguma das respostas acima? Agora você pode pensar em outras perguntas que poderiam ser feitas com o objetivo de ampliar a sua investigação sobre a cadeira, percebendo a quantidade de informações que um simples objeto de uso cotidiano pode revelar.

A segunda etapa da metodologia leva-nos a registrar as observações e deduções feitas. Você poderia, assim, tentar descrever em palavras esta cadeira, desenhá-la, fotografá-la em diferentes ângulos, medi-la, pesá-la, observar e anotar as formas de encaixe ou construção, ou mesmo reproduzi-la em tamanho pequeno ou natural, em diferentes materiais. Seu conhecimento sobre este objeto ficará, sem dúvida, mais consolidado e registrado em sua memória.

Numa terceira etapa, a da exploração, você poderá querer descobrir mais informações e significados relacionados com a cadeira em que você está sentado. Neste caso, levante-se dela e procure descobrir por meio de perguntas a outras pessoas, consulta a livros, revistas ou documentos, pesquisa em arquivos de fotografias e textos, visitas a instituições especializadas, todo o contexto histórico, social, econômico, tecnológico e político em que esta cadeira está inserida. Você pode explorar ainda os outros tipos de “cadeiras” que você conhece, e os seus diferentes usos, inclusive os simbólicos (por exemplo, o Trono Imperial que está no Museu de Petrópolis é um tipo de cadeira, que representa a dignidade do governante máximo em sua época).

Finalmente, você descobriu a cadeira em que está sentado e se apropriou dela intelectual e emocionalmente. Você é capaz de recriar esta cadeira de alguma forma? Poética, plástica, musical, com movimentos ou dramatização? De escrever a história dessa cadeira? De dialogar com ela? Neste momento, é a sua própria capacidade de expressão criativa que estará se revelando.

Você pode aplicar este exercício com qualquer objeto existente na sala de aula, como um modo de preparar seus alunos para a visita a um museu, monumento ou sítio histórico. Ou propor que tragam algum objeto de casa, para ser explorado em sala, em grupos de dois ou três alunos.   

NOTAS:  

1 Museóloga, Doutora em Museologia pela Universidade de Leicester, UK. Diretora do Museu Imperial, IPHAN, Ministério da Cultura. Consultora dessa série e autora dos 5 textos deste Boletim.



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