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DEBATE:
TELEVISÃO E EDUCAÇÃO
PGM 3
– COM
QUE LINGUAGENS
SE FAZ A TV? |
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Dermeval
Netto* A LINGUAGEM DA TV INTRODUÇÃO A compreensão do tema A Linguagem da TV exige não só pensar alguns aspectos teóricos relativos ao fenômeno e à experiência da TV, como também algum conhecimento sobre o funcionamento de seus recursos técnicos e artísticos e, fundamentalmente, a capacidade de decifrar a função que esses recursos cumprem, na construção da chamada “mágica” da televisão. Esta última habilidade depende muito de atenção e de postura crítica em relação às emissões da TV. São
diversas e múltiplas as oportunidades que se tem, no dia-a-dia, para esse
exercício. A posição de atento espectador de TV e, acima de tudo, a prática
na direção de programas e no ensino de comunicação nos permitiram
reunir inúmeros casos, vividos ou observados com respeito ao tema, que
podem inspirar uma reflexão e uma avaliação sobre questões da
linguagem da televisão. Por essa razão é que, ao lado de considerações
teóricas, valem o relato e o comentário sobre alguns casos exemplares,
diversos entre si, mas que ilustram a interferência dos recursos técnicos
e artísticos na produção do sentido na mensagem da televisão. OS CASOS Caso 1: Treinamento
Profissional de Editores de TV – TVE Canal 2 Rio
de Janeiro / Ano: 1986 Como
parte das aulas de treinamento para novos editores de imagem da TVE,
introduzimos um segmento sobre a importância da sonorização de imagens
da TV. O objetivo era mostrar a influência da trilha musical e da
sonoplastia sobre uma seqüência de imagens, demonstrando o
seu poder de criar e alterar o sentido da mensagem. Exibimos, com o
apoio do sonoplasta Antonio Faya, duas seqüências curtas (3 minutos de
duração), com a mesma edição de imagens, porém com trilhas
diametralmente opostas. O material escolhido foi um trecho da novela “Pai
Herói”,
exibida pela TV Globo, com os atores protagonistas da história. Conteúdo
da seqüência (sem diálogos): A
mocinha esperava ansiosamente, em sua casa de campo, a chegada do galã,
que para lá se dirigia. Com uma edição de cortes rápidos de imagens e
montagem paralela alternavam-se em cena os dois personagens: ela esperando
e ele chegando. Ora ela se sentava no sofá da sala, ora ficava de pé,
ora ia para a janela olhar para fora da casa, ora ia para o lado de fora
esperar, sempre nervosa. Ele percorria caminhos, ora andando na estrada,
ora correndo por entre arbustos, ofegante, ansioso por chegar. Ao final da
seqüência, no momento da chegada do galã e do encontro, há um desfoque
de imagem, provocando a não visibilidade (intencional) do desfecho.
Exibimos inicialmente esta seqüência sonorizada com uma música romântica,
de forte apelo sentimental. As imagens
mostravam que, sem dúvida, tratava-se de um encontro amoroso, com
os personagens apaixonados, ansiosos por estarem juntos, loucos de amor um
pelo outro. Na imagem final desfocada, a pontuação musical de forte emoção
e o efeito sonoro indicando um beijo de amor. (Esta, a seqüência
original que foi ao ar pela TV Globo). Em seguida, exibimos o mesmo
trecho, com uma outra sonorização, com música de ação e suspense, na
linha de um thriller policial, com efeitos sonoros adequados ao
tema. As imagens mostravam que, sem dúvida, tratava-se de uma violenta
perseguição, com a mocinha
em pânico, em estado de medo e pavor, e o vilão implacável, com ódio,
chegando para o acerto de contas. Na imagem final desfocada, o som de um
tiro de revólver. Após a exibição das duas seqüências os alunos
fizeram questão de revê-las,
pois não admitiam ser a mesma edição de imagens, a mesma duração, a
mesma interpretação, etc. Ao contrário, tratava-se da mesma edição de
imagens, só que totalmente “alterada”
pela trilha musical, que modificava o sentido, o significado, a própria
essência da história e, portanto, da mensagem apresentada. Caso 2: Programa
Sem Censura – TVE Canal 2 Rio
de Janeiro / Ano: 1994 No
debate do Sem Censura estava presente a presidente da Associação
das Prostitutas do Rio de Janeiro, que discorria sobre o tema da prostituição
de jovens, contando diversos casos, e expressando o repúdio pelo tráfico
de meninas para a prostituição. Na mesa de debates os outros convidados
eram homens, com exceção de uma jovem, e ainda pouco conhecida, cantora
da MPB. Neste programa, cada bloco é inteiramente dedicado a um tema e a
um dos convidados presentes. Como a referida intervenção estava muito
longa, e como se tratava de uma mulher de idade, com aparência
maltratada, o diretor de TV passou a fazer cortes para o belo rosto da
jovem cantora, que prestava atenção ao relato. Esta ação teve,
provavelmente, apenas a intenção de variar o plano, para não cansar o
telespectador com a imagem da entrevistada. Ocorre que este simples ato técnico,
o de cortar de uma imagem principal para outra imagem de apoio, buscando
apenas um rosto atraente para o lugar de um rosto não atraente, recurso
que passou a ser utilizado excessivamente por falta de outra opção estética,
provocou, sem dúvida, a vinculação da imagem ao texto, com a TV
produzindo um novo conteúdo para a imagem da artista, exposta, agora, em
uma nova identidade aos olhos do espectador. Não há neutralidade na
imagem, ela é forte o suficiente para construir e agregar novos
significados, produzindo novo e poderoso sentido a partir da forma que for
utilizada na TV. O corte de imagem, sistemático, para o rosto da cantora
durante o relato sobre prostituição de jovens, simplesmente informou que
ali no estúdio estava presente uma jovem prostituta, e que sua imagem
ilustrava o relato sobre o tema. Ou seja, de como uma jovem cantora da MPB
foi “transformada”
em prostituta num programa de TV. Como escreveu Pirandello: “Assim
é, se lhe parece”. Caso 3: Cobertura
da Guerra do Iraque pela TV / Ano: 2003 Pesquisa
realizada nos EUA, conforme conta o jornalista Luiz Weis, veio demonstrar
que a principal imagem que os americanos, na sua esmagadora maioria,
retiveram em sua memória da guerra do Iraque foi a imagem da derrubada da
estátua de Saddam Hussein numa praça do centro de Bagdá. O mesmo deve
valer para os incontáveis milhões de habitantes dos outros países, como
o Brasil, cujas emissoras de TV aberta e fechada repassaram estas imagens
captadas, quando não também editadas, pelas redes dos EUA. Cenas como a
da estátua são uma espécie de “pornografia
emocional”,
para usar, em outro contexto, uma expressão do editor do New York
Times Book Review, Charles McGrath, “momentos
carregados de sentimento, mas quase vazios de conteúdo”.
As redes de televisão americanas, segundo este editor, preferiram ignorar
“não
apenas as baixas, mas também o medo, o pânico, a confusão e a estupidez
que constituem o verdadeiro tecido da guerra”.
Tanto a pesquisa citada como seu resultado são, efetivamente, muito
instigantes, e fazem pensar. A nosso ver, a imagem recorrente da derrubada
da estátua de Saddam passou a ser a única imagem real anunciada na TV,
contra as várias outras imagens de Saddam, nas reuniões de gabinete e
nas ruas, avaliadas como falsas, como atuadas por dublês, como gravadas
semanas antes, enfim, o que poderia ser real era indicado como falso, e a
imagem de um falso Saddam (já que estátua) esta sim, era tornada a
imagem real do ditador, arrancado, derrubado, atirado ao chão em pedaços
e não mais no exercício do poder local e da resistência aos americanos.
A imagem da estátua de pedra, fria, gigantesca e poderosa, opressora,
messiânica e absoluta, agora abatida, humilhada e despedaçada, era a
melhor imagem possível para representação e consolidação de uma outra
imagem, a criada, concebida e construída de Saddam pelos americanos para
o mundo. Uma imagem que valeu muito mais do que mil palavras ou do que
bilhões de dólares. A cobertura televisiva da guerra no Iraque comprovou
não só o poder militar e econômico dos Estados Unidos, como também o
seu poder de comando sobre a mídia, em especial a TV, determinando não só
o ângulo sob o qual deveria ser vista a guerra, bem como selecionando
quais as imagens a serem eleitas para determinar o sentido, a razão e o
sentimento da guerra. A força de uma imagem, a sua construção e a sua
exploração como recurso de linguagem e de manipulação da informação
têm uma função mítica na comunicação, tal como diz Roland Barthes
sobre o poder do mito: “Designa
e notifica, faz compreender e impõe o sentido”.
TIRANDO A MÁSCARA Os
casos acima relatados e comentados servem, no mínimo, para demonstrar que
não são inocentes os diversos usos que são feitos com os recursos técnicos
e artísticos na TV. São os instrumentos que, articulados de uma forma ou
de outra, isoladamente ou conjugados, produzem a linguagem e os
significados das mensagens da televisão. As diversas etapas de realização
de um programa, desde a criação da idéia e do tema, a elaboração do
roteiro e do texto, as fases de produção e de realização técnica,
como o uso de câmeras, lentes, iluminação, captação de som, cenários,
figurinos, maquiagem, edição de imagens e trilha sonora, todas estas
operações devem estar decisivamente ligadas ao conceito da mensagem que
se quer comunicar. O uso intencional e deliberado destes recursos,
combinado com a sua intervenção acidental, ou seja, aquela que não foi
decidida intencionalmente e que fugiu ao controle do diretor do programa,
e ainda os graus de explicitação desses recursos, entre o óbvio, o
sutil e o sofisticado, é que vão determinar a eficácia maior ou menor
da comunicação de uma mensagem, do seu poder de manipulação de
conceitos e sentimentos, e do sentido que ela vai imprimir nos corações
e mentes de seus espectadores. E
são estas questões que remetem à discussão sobre os aspectos de
comunicação e de educação da mídia TV. A aptidão didática da TV, ou
ainda a sua eficácia pedagógica, são temas que dizem respeito
exatamente à maior ou menor qualidade na articulação e na operação
dos recursos técnicos e artísticos da televisão. Referem-se a formato e
conteúdo e referem-se, portanto, à linguagem. O domínio da audiência
exercido pela televisão e a credibilidade da informação por ela operada
a partir das últimas décadas junto aos diversos segmentos sociais, em
especial aos jovens, passa exatamente pelo fato de que estes públicos se
reconhecem muito mais na imagem da TV e nas linguagens por ela operadas,
do que junto aos apelos e discursos das demais instituições,
principalmente a escola. A TV se apresenta atraente e com grande empatia
e, ainda, como uma forma de produção simbólica que já faz parte da
experiência cotidiana das pessoas. A TV apresenta a leitura da realidade
e a repercute sob formas aproximadas da linguagem falada no cotidiano. Os
problemas de uma mãe de família às voltas com conflitos domésticos, a
preocupação do chefe de família com o custo de vida, os romances de
gente da classe média e das classes populares, as atribulações afetivas
de grupos adolescentes, a febre pelos games e os sonhos de
fortuna através de prêmios, as necessidades de quebra da privacidade e a
exacerbação da exposição de intimidades, ou mesmo a insegurança e o
medo gerados pela violência das ruas, ganham o seu duplo na
mensagem da TV. O reconhecimento e a demarcação dos dramas e dos sonhos
do dia-a-dia definem a relação do espectador com a mensagem. Seja
no telejornalismo, na teledramaturgia, nos talk-shows ou nos
programas de variedades e, ainda, nos seriados para adolescentes e nos
programas infantis, a TV atua com uma eficaz linguagem pedagógica, na
medida em que reduz distâncias, quebra resistências, oferece
domesticidade, intimidade e entretenimento. Opera, conforme destaca Távola,
com valores como a linearidade, a instantaneidade, a repetição e a
reiteração. Elabora ainda reduções, banalizações, ampliações e
hierarquizações. E, a nosso ver, o mais importante: Na transposição da
vida social para os programas – onde o mundo real se converte em imagens
– a TV oferece o real representado e simulado como se fosse a própria
realidade. É como nos diz Barthes, em sua análise do mito: “O
real histórico é aí suprimido, e é restituído através de uma imagem natural
desse real”.
E é nesse ponto que se produz o caráter constatador, no qual as
questões aparecem sempre como decorrentes da natureza das coisas. É como
se tudo que aparecesse na TV o público já soubesse. Já lhe é familiar
e cotidiana a fruição daquela linguagem que lhe conta histórias
ininterruptamente. A
capacidade de persuasão da TV – a sua arte de impor o sentido – está
diretamente relacionada com o mascaramento de sua técnica e de seus
recursos, ou seja, de sua própria linguagem. É essencial sermos capazes
de observar e perceber, por exemplo, que quando a televisão quer
inferiorizar alguém, mostrá-lo como oprimido ou inseguro, a câmera é
posicionada bem acima da linha de seus olhos. A pessoa estará sempre em
posição inferiorizada, olhando para cima. Ao contrário, quando se quer
mostrar alguém em uma posição superior, com absoluto domínio, poder e
segurança, a câmera está posicionada mais baixa, para que esta pessoa
sempre se relacione de um ponto de vista superior, acima de tudo e de
todos, e até de nós mesmos, quando o vemos pela tela da TV. Quanto
mais atentos e educados para a leitura crítica da TV – a que permite a
percepção e o desvendamento de seus engenhos e artimanhas, de seus ritos
e mitos, de seus mecanismos de inclusão e exclusão, de invenção,
simulação e ocultamento – maior capacidade teremos de enfrentar seu
poder de imposição de conteúdos, concepções e significados. O que
tornará mais confortável e criativa a nossa relação com a própria
televisão, na medida em que se quebre a barreira entre os que estão
dentro do vídeo e os que estão fora do vídeo. É o momento em que se
opera a dessacralização da TV, em nome de uma recepção crítica, e que
passa a se situar no centro de uma indispensável transgressão. Que é a
possibilidade da redefinição do papel do espectador, não mais passivo,
mas ativo, como agente de interpretação e de interlocução, que lhe
permita o exercício, seja individual ou coletivo, da interrupção, da
apropriação e da reinvenção do discurso da TV. Bibliografia Barthes, Roland. Mitologias. São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1972. Netto, Dermeval. “A Recepção Alternativa da Televisão Brasileira”. In: Geraes - Revista de Comunicação Social. Belo Horizonte, UFMG, 1987. . “A Aptidão Didática da Televisão: Crítica de um Modelo”. In: Revista Temas de Educação. Rio de Janeiro, UERJ, 1988. Távola, Arthur da. A Liberdade do Ver. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984. Weis,
Luiz. “Guerra e Humanidade”. In: Observatório da Imprensa On Line. nº
55. Abril 2003. NOTAS: * Diretor de Televisão, pesquisador e professor de Comunicação. Diretor Executivo da Área de Televisão da Universidade Estácio de Sá.
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