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CULTURA
POPULAR E EDUCAÇÃO
PGM 1
– O
QUE É, O QUE É: FOLCLORE E CULTURA POPULAR
Cultura
Popular e Ação Educativa no Centro Nacional de Folclore e Cultura
Popular
BEATRIZ
MUNIZ FREIRE
O
Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular vem-se dedicando, desde sua
criação (com o nome de Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro), em
1958, a pesquisar, documentar e divulgar a cultura popular brasileira.
Trata-se de uma instituição jovem, com pouco mais de 40 anos,
inteiramente comprometida com o presente, com a cultura popular viva e
mutante, sempre recriada pelos homens e mulheres que são seus autores e
praticantes. Integram o CNFCP o Museu de Folclore Edison Carneiro – MFEC,
os setores de Ação Educativa, Difusão Cultural, Pesquisa, Museologia e
a Biblioteca Amadeu Amaral, especializada em folclore.
A pesquisa e documentação realizada pelo CNFCP reuniu um acervo, hoje
constituído de objetos, livros, recortes de jornais e revistas, filmes e
vídeos, gravações sonoras em fita, discos e CDs. Esse acervo museológico,
bibliográfico, sonoro e visual sobre folclore brasileiro está à disposição
do público, para consulta, pois o propósito do museu ao guardá-lo é
torná-lo disponível para que todos os interessados possam conhecer
melhor a cultura popular dos brasileiros.
Mas o que é, afinal, cultura popular? E a respeito de que brasileiros o
Museu de Folclore está falando em sua exposição permanente?
Há muitas maneiras de dizer o que é cultura. Para alguns é sinônimo de
conhecimento letrado, erudição. Para outros, cultura é expressão artística.
Há quem considere cultura um certo tipo de educação, polidez, bons
modos.
Para a Antropologia a ciência social que orienta nosso trabalho ,
cultura tem uma definição bem mais abrangente e se refere à capacidade
que só os seres humanos têm de dar significados às ações que
praticam, à realidade natural e à realidade construída que os cerca,
aos comportamentos de animais e de pessoas.
Essa capacidade é exercida em grupo, quer dizer, cada grupo de pessoas
que vivem juntas vai dando significados próprios às coisas. Assim,
dentro de uma mesma sociedade, diferentes grupos (classes sociais, grupos
de idades, membros de corporações profissionais, etc.) podem dar
significados distintos para um mesmo fato ou fenômeno. Conseqüentemente,
desenvolvem maneiras distintas de vê-lo e de reagir a ele. A rede de
significados e práticas de um grupo social é o que chamamos de cultura.
Quer dizer, tudo o que os homens e mulheres aprendem com o grupo em que
vivem, a começar pela língua que falam, seu modo de definir o que é
feio ou bonito, certo ou errado, as técnicas, as regras sociais, as
formas de expressão, tudo isso é cultura.
Você já percebeu que cultura, no sentido antropológico, tem muito a ver
com comunicação, não é mesmo? Cultura é um mundo de significados, é
um código simbólico construído socialmente, isto é, em grupo, e
compartilhado por todos os seus integrantes. Cultura é construção.
Todos os seres humanos são capazes de criar cultura, todos têm cultura.
Mas ninguém nasce assim cultura é algo que se adquire, na convivência
em grupo. Quer um exemplo?
Um bebê, quando vem ao mundo, nada sabe, além de sugar o dedo. Ele está
biologicamente equipado para aos poucos desenvolver a fala. Mas a língua
que vai falar dependerá do grupo social ao qual pertence. Uma criancinha
Fulniô que é um grupo indígena de Pernambuco primeiro vai
aprender com os pais, irmãos e outros parentes a falar o Yathé, que é o
idioma desses brasileiros indígenas. Só depois ela aprenderá o português.
Se uma criança nascer no Rio de Janeiro, vai aprender o jeito carioca de
falar o português. Se nascer numa cidade da fronteira do Rio Grande do
Sul com países vizinhos, é bem possível que aprenda, além do português,
um pouco de castelhano... O que essa criança vai comer, como vai se
chamar, como será tratada, o que vai vestir, como vai brincar, que
pessoas vai poder considerar parentes... Tudo isso depende do grupo que a
cerca e ao qual ela pertence. Cultura é, portanto, algo que se adquire, não
é natural, não está definido em nossa biologia
Exatamente por ser construída é que a cultura pode ser tão variada
cada grupo desenvolve a sua e pode ser, também, transformada,
modificada pelos próprios integrantes do grupo, por meio de contato e
convivência com outros grupos. Cultura é algo que pode ser trocado:
temos nossa cultura, mas podemos compreender as alheias.
Cultura popular brasileira designa os saberes e fazeres do povo
brasileiro. Mas que povo é esse? Quem são os brasileiros, afinal?
O
povo brasileiro sobre o qual o MFEC fala (nas exposições que realiza) é
um povo plural, cuja trajetória, desde a formação até os dias de hoje,
tem possibilitado o encontro e a combinação de tradições culturais
diversas, recriadas em combinações novas, brasileiras. A história
desses encontros e criações que é a própria história brasileira
é marcada por conflitos e contradições.
Aprendemos na escola e ouvimos, a toda hora, os meios de comunicação
repetirem que nosso povo é “o resultado da junção de representantes
de três raças; o branco, o negro e o índio”. Mas, pense bem, será
que o conceito de raça é adequado para explicar nossa formação social
e cultural?
Historiadores dedicados ao estudo do período colonial comentam a
dificuldade de comunicação enfrentada pelos primeiros africanos
escravizados que para cá foram trazidos. É que eles pertenciam a
diferentes sociedades tribais, que viviam em diferentes locais da África
– Costa Ocidental, Costa Austral e Costa Oriental – e falavam línguas
distintas. O colonizador os igualava, denominando-os todos ‘negros’,
vendo-os como mão-de-obra e não como indivíduos dotados de uma história
e de valores próprios dos diferentes povos dos quais se originavam. Um
negro norte-africano não era igual ao negro do centro do continente ou ao
negro sul-africano. O que chamamos de cultura afro-brasileira é o
resultado das vivências de africanos de diferentes sociedades, que aqui
se encontraram, combinaram e recriaram distintas tradições, hoje
revividas e atualizadas por seus descendentes. Quer ver um exemplo?
Segundo o percussionista Naná Vasconcelos, a capoeira e o berimbau vieram
da África, mas lá existiam em locais distintos; só aqui foram
associados, de tal modo, que não somos capazes de imaginá-los
separadamente.
O mesmo podemos dizer a respeito dos brancos, colonizadores. Quem eram
eles? Portugueses, espanhóis, franceses, holandeses, no início. Mais
tarde, outros brancos, alemães, italianos, ucranianos, judeus ortodoxos,
libaneses, para cá migraram em busca de melhores oportunidades. Alguns
vinham do campo, outros da cidade. Tinham experiências de vida distintas,
conhecimentos distintos. Diferiam na fé uns católicos, outros
protestantes, outros, ainda, seguidores do judaísmo e do islamismo.
E quanto aos índios que aqui viviam? Impossível saber em quantos povos
se organizavam. Hoje, são mais de 200 sociedades, cada qual com sua língua,
seu modo de agir e de pensar, sua política, suas regras sociais, sua ética,
sua maneira de adornar o corpo e de educar os filhos, seus rituais. O
colonizador os igualava no nome – índios –, mas soube, desde o início,
tirar proveito das diferenças entre eles, explorando, por exemplo, as
inimizades entre tribos do litoral. Os portugueses aliaram-se aos
Tupiniquim, enquanto os franceses ficaram “amigos” dos Tupinambá.
Esses povos indígenas se enfrentaram na disputa dos territórios que os
europeus haviam invadido. Ainda hoje as sociedades indígenas brasileiras
lutam pelo reconhecimento de suas identidades e necessidades específicas,
como a demarcação de territórios onde possam viver, cada uma a seu
modo.
O povo brasileiro, além de multiétnico, é pluricultural, desde os
primeiros tempos. Não havia, como não há atualmente, uma única cultura
branca, outra negra e outra indígena. Brancos, negros e índios diferiam
uns dos outros, e cada um desses grupos tinha suas diferenças internas.
A história que nos contam sobre nossa formação, apelidada pelo antropólogo
Roberto Da Matta de ‘fábula das três raças’, procura apagar essas e
outras diferenças, reduzindo-as a um punhado de “contribuições de
cada raça”, das quais se teriam originado as “qualidades do povo
brasileiro”. Uma fábula cor-de-rosa que foi incluída nos currículos
escolares nos anos 60 e 70, período em que sucessivos governos se esforçaram
por difundir a imagem de um Brasil integrado, coeso, cujo povo se
constituiria numa unidade harmoniosa. Na realidade, contudo,
multiplicavam-se os conflitos resultantes da ocupação do interior do país,
das diferenças políticas, ideológicas, culturais e sociais que sempre
caracterizaram o povo brasileiro.
Podemos repensar a história de nossa formação, reconhecer as diferenças
culturais e sociais e relacioná-las às situações que vivemos e
observamos hoje em nosso país. Pense nisso ao estudar folclore com seus
alunos, pois o ‘saber do povo’ (que é o que a palavra inglesa
folklore significa), os modos de ser e de pensar dos diferentes grupos que
integram o povo brasileiro se desenvolveram como parte de uma história
que continua em curso.
Então, voltando à pergunta do início deste texto, o povo brasileiro,
criador do folclore do qual o MFEC trata, é um povo culturalmente
diversificado, é plurilíngüe e é socialmente diferenciado.
Numa sociedade tão diversificada e dividida como a brasileira, a cultura
popular é vista de diferentes maneiras. Mais correto seria dizermos que há
culturas populares. Pode ser, então, que nosso discurso não coincida com
o que muitos livros didáticos afirmam. Nosso compromisso é difundir uma
visão contemporânea de folclore e cultura popular. Cada objeto, livro,
filme ou gravação sonora que integra nossos acervos é um documento dos
diferentes modos de ser e de viver dos brasileiros. Procuramos estudar
também as diferentes maneiras como a cultura popular é compreendida,
desde o fim do século XIX, quando se iniciaram os estudos de folclore no
país, até hoje.
Quando for estudar folclore com seus alunos, considere-se diante não de
uma disciplina bem delimitada e com fronteiras claramente definidas, mas
de um campo de estudos. A esse respeito, leia o texto de Maria Laura
Cavalcanti, “Entendendo o folclore”.
As formas de conceituar folclore e as metodologias empregadas em sua
pesquisa e documentação vêm mudando ao longo do tempo. Desde os anos 80
a equipe do CNFCP se orienta pelas concepções e utiliza as práticas de
pesquisa da Antropologia para interpretar o folclore brasileiro,
afastando-se da visão idealizada que marcou os primeiros anos de pesquisa
folclórica no país e que continua sendo veiculada, de forma resumida e
padronizada, pelos textos didáticos.
Quando falamos sobre cultura popular estamos nos referindo não apenas às
manifestações festivas e às tradições orais e religiosas do povo
brasileiro, mas ao conjunto de suas criações, às maneiras como se
organiza e se expressa, aos significados e valores que atribui ao que faz,
aos diferentes modos de trabalhar, aos jeitos de falar, aos tipos de música
que cria, às misturas que faz na religião, na culinária, na
brincadeira.
Em vez de tentar definir o que é certo ou errado em matéria de folclore,
o que queremos é compreender os muitos caminhos pelos quais permanece
vivo e se transforma. Que encontros e combinações de tão distintas
tradições são praticados pelos brasileiros? Que criações resultam das
tantas misturas culturais que esse povo é capaz de fazer? Como o popular
e o erudito se combinam? Que relações são possíveis entre folclore e
cultura de massa?
Você, professor(a), também se depara com essas questões no seu
dia-a-dia profissional. Talvez tenha dúvidas sobre o que fazer quando
seus alunos insistem em comemorar o Hallowen ou quando um ‘alucinado’
pelo rap pede para incluir esse tipo de música na festa junina da escola,
alegando que se trata de uma manifestação popular.
Pode não ser fácil pensar a cultura popular como sinônimo de movimento
e troca, até porque os textos didáticos costumam, com raras exceções,
afirmar o inverso, repetindo que folclore é traje típico, comida típica,
cultura de região, é tradição que permanece, é essência que quase não
muda. Mas, pense bem, será que aquilo que não muda pode continuar vivo e
significativo, quando a vida dos brasileiros vem sofrendo tantas mudanças,
nos últimos 50 anos de nossa história?
Muitos dos textos didáticos sobre folclore foram escritos nos anos 60 e
70, e reeditados sem qualquer revisão, apenas com ‘cara nova’. São
textos que associam cultura com a divisão geopolítica do país em cinco
grandes regiões, e falam de ‘cultura regional’ identificando o que
seriam suas características “típicas”. Mas se cultura é um
conjunto, uma rede de significados e práticas, será que podemos apreendê-la
por traços isolados?
Esses textos ignoram as mudanças provocadas no mapa cultural brasileiro
pelas migrações internas e pelo avanço da comunicação de massa. Já não
há mais correspondência literal entre, por exemplo, o modo de ser
nordestino e a Região Nordeste. Nordestinos migrados para o Centro-Oeste
e para o Sudeste criam e recriam o Nordeste em outros cantos do Brasil.
Trabalhar a cultura nordestina com seus alunos tomando por referência os
movimentos migratórios, a dificuldade de adaptação dos nordestinos
decorrente do preconceito que sofrem, as influências que exercem sobre
outros brasileiros com os quais se relacionam é uma maneira possível e
interessante de estudar a cultura popular brasileira.
O propósito da ação educativa desenvolvida pelo Centro é justamente
auxiliar os educadores a encontrarem alternativas para o estudo de
folclore, dentro e fora da escola.
E, porque compreendemos educação não apenas como a transmissão de
informações, mas como o desenvolvimento da capacidade de relacionar os
conteúdos e criar interpretações pessoais, não temos dúvidas de que a
atuação do educador é sempre decisiva é você, professor(a), quem vai
auxiliar seus alunos a estabelecerem as relações possíveis entre o que
já sabem e as descobertas que a escola e seus parceiros, como o museu,
podem propiciar.
NOTAS:
1
Beatriz Muniz Freire, formada em História, integrou a equipe do
Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular até 2001.
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