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CULTURA
POPULAR E EDUCAÇÃO
PGM 1
– O
QUE É, O QUE É: FOLCLORE E CULTURA POPULAR
ENTENDENDO
O FOLCLORE
MARIA
LAURA CAVALCANTI
A
palavra folclore provém do neologismo inglês folk-lore (saber do povo),
cunhado por Williem John Thoms, em 1846, para denominar um campo de
estudos até então identificado como “antigüidades populares” ou
“literatura popular”.
Nesse sentido amplo de “saber do povo”, a idéia de folclore designa
muito simplesmente as formas de conhecimento expressas nas criações
culturais dos diversos grupos de uma sociedade. Difícil dizer onde começa
e onde termina o folclore, e muita tinta já correu na busca de definir os
limites de uma idéia tão extensa. É o frevo, o chorinho, o xote, o baião,
a embolada, mas será também o samba, o funk, o rock? É o Natal, a Páscoa,
o Divino, o Boi-Bumbá, mas será também o desfile das escolas de samba?
É o artesanato em barro, madeira, trançado, mas será também a arte de
Louco ou de Geraldo Teles de Oliveira?
Pensamos e pesquisamos um bocado sobre o assunto. Chegamos à conclusão
de que mais importante do que saber concretamente o que é ou não
folclore é entender que folclore é, antes de qualquer coisa, um campo de
estudos. Isso quer dizer que a noção de folclore não está dada na
realidade das coisas. Ela é construída historicamente e, portanto, a
compreensão do que é ou não folclore varia ao longo do tempo. Para se
ter uma idéia, aqui no Brasil, no começo do século, os estudos de
folclore incidiam basicamente sobre a literatura oral, depois veio o
interesse pela música, e mais tarde ainda, nos meados do século, o campo
se amplia com a abordagem dos folguedos populares. Para entender o
folclore, é preciso conhecer um pouco de sua história.
I
Os estudos de folclore são parte de uma corrente de pensamento mundial,
cuja origem remonta à Europa da segunda metade do século XIX. Ao mesmo
tempo em que procuravam inovar, esses estudos eram herdeiros de duas tradições
intelectuais que se ocupavam anteriormente da pesquisa do popular: os
Antiquários e o Romantismo.
Os Antiquários são os autores dos primeiros escritos que, nos séculos
XVII e XVIII, retratam os costumes populares. Colecionam e classificam
objetos e informações por diletantismo, e acreditam que o popular é
essencialmente bom.
O Romantismo, poderosa corrente de idéias artísticas e literárias,
emerge no séc. XIX em associação com os movimentos nacionalistas
europeus. Em oposição ao Iluminismo, caracterizado pelo elitismo, pela
rejeição à tradição e pela ênfase na razão, o Romantismo valoriza a
diferença e a particularidade, consagrando o povo como objeto de
interesse intelectual. O povo, para os intelectuais românticos, é puro,
simples, enraizado nas tradições e no solo de sua região. O indivíduo
está dissolvido na comunidade.
A trajetória dos estudos de folclore no Brasil mantém relações com os
debates do contexto intelectual europeu. Essas duas tradições são
incorporadas pelos estudiosos brasileiros que procuram também conferir
cientificidade a seus trabalhos. Entre os pioneiros desses estudos no país,
estão autores como Sílvio Romero (1851-1914), Amadeu Amaral (1875-1929)
e Mário de Andrade (1893-1945). Sílvio Romero é célebre pelas coletas
empreendidas na área da literatura oral e pelo desejo, de origem
positivista, de uma visão mais científica e racional da vida popular.
Amadeu Amaral enfatiza a necessidade de uma coleta cuidadosa das tradições
populares, e empenha-se pelo desenvolvimento de uma atuação política em
prol do folclore, visto como depositário da essência do “ser
nacional”. Mário de Andrade procura conhecer e compreender o folclore
em estreito diálogo com as ciências humanas e sociais então nascentes
no pais. Para ele, o folclore, expressão da nossa brasilidade, ocupa um
lugar decisivo na formulação de um ideal de cultura nacional.
II
A década de 50 transforma o patamar em que se encontravam até então
esses estudos. Ela marca o início de uma ampla movimentação em torno do
folclore, reunindo à sua volta nomes como Cecília Meireles, Câmara
Cascudo, Gilberto Freire, Artur Ramos, Manuel Diégues Júnior.
Institucionalmente, essa movimentação é articulada pela Comissão
Nacional do Folclore, do Ministério do Exterior, e vinculada a UNESCO
(organismo da Organização das Nações Unidas). A Comissão é liderada
por Renato Almeida, diplomata e estudioso da música popular. No contexto
do pós-guerra, a preocupação com o folclore enquadra-se na atuação em
prol da paz mundial. O folclore é visto como fator de compreensão entre
os povos, incentivando o respeito às diferenças e permitindo a construção
de identidades diferenciadas entre nações que partilham de um mesmo
contexto internacional. O Brasil de então orgulhava-se de ser o primeiro
país a atender à recomendação internacional no sentido da criação de
uma comissão para tratar do assunto.
O conjunto das iniciativas desenvolvidas era designado pelo nome de
Movimento Folclórico. A Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro (CDFB),
criada em 1958 no então Ministério da Educação e Cultura, é o apogeu
dessa movimentação.
A Campanha é um organismo nacional destinado a “defender o patrimônio
folclórico do Brasil e a proteger as artes populares”. Ela traz uma
proposta de atuação urgente: no folclore se encontram os elementos
culturais autênticos da nação, porém o avanço da industrialização e
a modernização da sociedade representam uma séria ameaça. Por essa razão,
a cultura folk deve ser intensamente divulgada e preservada.
A Campanha participa dos debates intelectuais do país em intercâmbio com
as ciências sociais que se institucionalizam no mesmo período. Fomenta
pesquisas sobre o folclore em diferentes regiões, bem como sua documentação
e difusão através da constituição de acervos sonoros, museológicos e
bibliográficos. Data dessa época o embrião do que viria a ser mais
tarde o Museu de Folclore Edison Carneiro e a Biblioteca Amadeu Amaral, da
atual Coordenação de Folclore e Cultura Popular.2
III
De lá para cá, os processos de modernização da sociedade se
aprofundaram, a televisão entrou decisivamente no cotidiano nacional, e
ao contrário do que supunha a Campanha em seus primórdios, o folclore não
acabou. O país transformou-se econômica e politicamente. Mudaram também
os ideais de conhecimento. Como já diziam alguns folcloristas, o folclore
nasce e cresce também nas cidades: é dinâmico, transforma-se o tempo
todo, incorporando novos elementos. O campo dos estudos de folclore
transforma-se também, acompanhando a evolução do conhecimento no
conjunto das ciências humanas e sociais. A noção de cultura não é
mais entendida como um conjunto de comportamentos concretos mas sim como
significados permanentemente atribuídos. Uma peça de cerâmica é mais
do que o material de que é feita, e a técnica com que é trabalhada. Uma
festa é mais do que a sua data, suas danças, seus trajes e suas comidas
típicas. Elas são o veículo de uma visão de mundo, de um conjunto
particular e dinâmico de relações humanas e sociais. Não há também
fronteiras rígidas entre a cultura popular e a cultura erudita: elas se
comunicam permanentemente. O compositor erudito Heitor Villa-Lobos
reelaborou musicalmente cantigas de ninar tradicionais. Muito freqüentemente,
o enredo do desfile carnavalesco de uma escola de samba elabora numa outra
linguagem temas eruditos. Na condição de fato cultural, o folclore passa
a ser compreendido dentro do contexto de relações em que se situa.
Essa abordagem contextualizadora, que faz do objeto um veículo de relações
humanas, é a proposta do Museu de Folclore Edison Carneiro, cuja exposição
permanente, inaugurada em 1984, se pretende uma pequena mostra do que está
vivo e se transformando no dia-a-dia.
NOTAS:
1
A antropóloga Maria Laura Cavalcanti, do IFCS/UFRJ, foi
pesquisadora do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular e hoje
dirige a Associação de Amigos do Museu de Folclore Edison Carneiro.
2 Posteriormente,
a Coordenação de Folclore e Cultura Popular passou a se chamar Centro
Nacional de Folclore e Cultura Popular.
3
Uma nova exposição de longa duração foi inaugurada em 1994.
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