Apresentação
Eduardo
Calil 1
Sabemos hoje que as práticas didático-pedagógicas
de Língua Portuguesa precisam considerar a heterogeneidade
de textos existentes em nossa sociedade e levar em conta a necessidade
de tornar nossos alunos proficientes leitores e produtores de textos.
Nosso desafio, enquanto mestres responsáveis pelos processos
de ensino-aprendizagem, está em criar situações
de sala de aula que permitam aos alunos a apropriação
desta diversidade. O problema exige que se pense em uma grade curricular
progressiva - mas sem perder os usos e as funções
sociais dos textos oferecidos aos alunos, em um tratamento didático
que articule graus de complexidade dos textos e os segmentos do
sistema educacional e, principalmente, que se pense em como veicular
e significar os diferentes textos existentes em nossa sociedade
dentro da sala de aula.
É nesta direção
que o programa Salto para o Futuro, entre os dias 08 e 12 de abril
de 2002, irá apresentar a série Varal de Textos
e dar continuidade ao debate em torno deste problema, já
destacado em muitos outros programas apresentados pela TV Escola2.
Pretendemos discutir com os professores, diretores e coordenadores
pedagógicos propostas de trabalho com variados gêneros3
e tipos de textos, em diferentes níveis de escolaridade.
Um ponto de partida pode ser a delimitação
da noção de gênero. Conforme definição
apresentada pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, volume
2 - Língua Portuguesa (MEC, 1997), na página 26, encontramos
que:
"Todo texto se organiza dentro
de um determinado gênero. Os vários gêneros
existentes, por sua vez, constituem formas relativamente estáveis
de enunciados, disponíveis na cultura, caracterizados
por três elementos: conteúdo temático,
estilo e construção composicional. Pode-se ainda
afirmar que a noção de gêneros refere-se
a 'famílias' de textos que compartilham algumas características
comuns, embora heterogêneas, como visão geral
da ação à qual o texto se articula, tipo
de suporte comunicativo, extensão, grau de literariedade,
por exemplo, existindo em número quase ilimitado."
Partindo do pressuposto de que a apropriação
dos gêneros discursivos, pelos nossos alunos, não pode
estar limitada ao que os livros didáticos trazem, nem ao
que oferecem como atividades, iremos centrar nossa discussão
em alguns projetos didáticos realizados em salas de aula,
cujo eixo central esteja relacionado à leitura e produção
de textos. Os projetos oferecem excelentes condições
de práticas de leitura e produção de textos,
pois:
- Permitem a leitura e análise de uma
grande variedade de textos e seus respectivos portadores;
- Permitem ao aluno se colocar no lugar do
autor que escreve para um leitor possível, fisicamente
ausente, uma vez que todo projeto deve estar voltado para uma
dimensão social e pública;
- Impõem a necessidade de revisão
e legibilidade do próprio texto escrito para leitores virtuais
e possíveis, tirando, assim, a prática nefasta de
se escrever somente para ser avaliado pelo professor;
- Favorecem a intersecção entre
conteúdos de diferentes áreas, na medida em que
trazem para o processo de produção as características
de textos trabalhados, por exemplo, em Ciências ou História
e Geografia;
- Significam o
necessário compromisso do aluno com sua própria
aprendizagem.4
Como os gêneros são em "número
quase ilimitado", priorizamos cinco gêneros para serem discutidos
nesta série Varal de Textos. São eles:
1. Poesia na escola;
2. Do conto ao teatro;
3. Fábulas fabulosas;
4. Lendo e produzindo textos científicos;
5. Trabalhando com cartas.
BIBLIOGRAFIA:
Bakhtin, Mikhail. Estética
da criação verbal. São Paulo: Martins
Fontes, 1997.
Boureau, Alain. La norme épistolaire,
une invention médiévale. In: Chartier, R. (dir.)
La correspondance. Les usages de la lettres au XIXe siècle.
Paris: Librerie Arthème Fayard, 1991.
BRASIL. Ministério
da Educação. Parâmetros Curriculares
Nacionais (de 1a
a 4a séries e de 5a a 8a séries).
Brasília, SEF/MEC, 1997/1998.
BRONCKART, Jean-Paul. Atividade
de linguagem, textos e discursos: por um interacionismo sócio-discursivo.
EDUC, 1999.
CALIL, Eduardo."Os efeitos
da intervenção do professor no texto do aluno".
In: Moura, Denilda (org.). Língua e Ensino: dimensões
heterogêneas. Maceió: EDUFAL (p. 29-40).
Chartier, Roger. (dir.) La
correspondance. Les usages de la lettres au XIXe siècle.
Paris: Librerie Arthème Fayard, 1991.
Histórias e Histórias:
Guia do Usuário do Programa Nacional Biblioteca da
Escola - PNBE/99. Secretaria de Educação Fundamental,
Brasília: MEC, SEF, 2001.
JOLIBERT, Josette. Formando
crianças produtoras de textos. Porto Alegre, ArtMed,
1994.
KAUFMAN, Ana Maria & RODRIGUEZ,
Maria Elena. Escola, leitura e produção de
textos. Porto Alegre, ArtMed, 1995.
MAIA, Ângela Maria dos
Santos. O Texto poético: leitura na escola. Maceió:
Ed. UFAL, 2001.
Maria Irene. "Correspondências:
um bom incentivo à leitura e a escrita". Projeto
Produção de texto através de correspondência.
Escola de ensino fundamental Odylo Álvares de Souza,
Rio Largo/ Alagoas, 2001.
Sarmento, Rita de Cássia
V. "Amizade pelo Correio: na prática, alunos da escola
Renado Jarsen de Melo e Escola Aquino Japiassu, descobrem, juntos,
o uso social da escrita e da leitura de forma significativa",
Rio Largo, Alagoas, 2001.
Soto, Ucy. Variação
e Mudança do pronome de tratamento alocutivo: uma análise
enunciativa em cartas brasileiras. Tese apresentada ao Programa
de Pós-graduação em Letras da UNESP, Araraquara,
2001.
Consultar na Internet:
eco@fapeal.br
www.cedu.ufal.br
NOTAS:
1. Eduardo Calil (eco@fapeal.br)
é professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e consultor
desta série.
2. Para saber mais sobre estes programas,
consultar o catálogo Guia de Programas: 1996-2000, elaborado
e distribuído pela Secretaria de Ensino a Distância/MEC.
3. Recomendo a leitura do livro Atividade
de linguagem, textos e discursos: por um interacionismo sócio-discursivo,
publicado pela Educ, 1999, de Jean-Paul BRONCKART. Entre as páginas
137 e 150 o autor faz uma preciosa discussão sobre "Gêneros
de textos e tipos de discurso".
4. Nos Parâmetros Curriculares
Nacionais, Língua Portuguesa, volume 2, páginas 70 a
73, encontramos um melhor detalhamento do trabalho com "projetos".
Para quem desejar aprofundar esta questão, sugerimos a leitura
de Formando Crianças Produtoras de Textos de Josette
Jolibert, publicado pela ArtMed, em 1994 e Escola, Leitura e Produção
de Textos de Ana Maria Kaufman & Maria Elena Rodriguez, também
publicado pela ArtMed, em 1995.

|