PGM 3 - A televisão e o vídeo na escola

A leitura da imagem

Lucília Helena do Carmo Garcez 1

O mundo contemporâneo faz com que todos nós estejamos imersos em imagens. A competição comercial, própria do capitalismo, associada às facilidades da imprensa, da fotografia, do cinema, da televisão e dos computadores, faz com que sejamos mergulhados em um universo em que o aspecto visual é preponderante.

Diante dessa evidência, a escola não pode continuar restrita ao texto verbal escrito, embora ele seja imprescindível. É urgente que a imagem pertença ao contexto escolar, não apenas para que esse ambiente seja mais coerente com o cotidiano do aluno, mas também para educá-lo para a leitura crítica das imagens.

Assim como a leitura do texto verbal exige um longo e complexo processo de aquisição e desenvolvimento, para que o leitor possa utilizar as diversas habilidades para a compreensão e a interpretação, o contato com o mundo visual também exige novas competências. Caso o educador adote o pressuposto de que a imagem em si é suficiente para seu adequado entendimento, pode favorecer uma atitude passiva diante das mensagens transmitidas, cada vez de forma mais intensa, por meio audiovisual.

Embora a sedução da imagem nos convide a uma certa inércia, ao compararmos a atitude e os procedimentos de um leitor diante de um texto informativo escrito e os de um leitor/espectador maduro diante de uma mensagem visual, como um documentário, por exemplo, observamos que há muitos procedimentos que são comuns às duas atividades, mas há aspectos diferentes.

Durante a leitura do texto escrito, o leitor aciona outras funções cognitivas para criar imagens mentais, de acordo com seu repertório de experiências visuais anteriores. Esse "envisionamento" mental é diferenciado de indivíduo para indivíduo, mas contém algo em comum que faz parte da cultura e do imaginário coletivo. Cada pessoa cria, a partir de sua própria imaginação, os cenários, as paisagens, as cenas, os objetos e as fisionomias que um romance registra em palavras. Naturalmente, nesse processo de criação há matrizes comuns, que pertencem à história e à coletividade, mas ninguém imagina de forma semelhante a outra pessoa. Essa construção mental é importantíssima para o desenvolvimento das funções superiores da mente.

Aparentemente o texto visual (a propaganda, o desenho animado, os quadrinhos, o filme, a fotografia, a telenovela etc.) já oferece esse aspecto de uma forma mais completa. Entretanto, sob essa camada de significados imediatamente perceptíveis, há muitas outras ligadas ao mundo das idéias, dos comportamentos, das crenças, dos conceitos, das ideologias, que é necessário "ler": compreender, interpretar, criticar, responder, concordar ou discordar. Isso exige diversas habilidades que a escola pode ajudar a desenvolver. São habilidades relacionadas à observação, à atenção, à memória, à associação, à análise, à síntese, à orientação espacial, ao sentido de dimensão, ao pensamento lógico e ao pensamento criativo. Elas nos permitem perceber como os elementos da linguagem visual foram organizados: formas, linhas, cores, luzes, sombras, figuras, paisagens, cenários, perspectivas, pontos de vista, oposições, contrastes, texturas, efeitos especiais etc. E perceber também como esses elementos estão associados a outros, como a música, as idéias, a história, a realidade, por exemplo.

Além disso, precisamos também associar tudo o que observamos com outras informações e conceitos provenientes dos conhecimentos acumulados por nós e pela cultura humana através dos tempos. É um jogo em que, às vezes, mergulhamos na emoção e, às vezes, tentamos fazer uma análise crítica por meio do raciocínio, da razão. Enfim, nunca podemos nos entregar passivamente, sem uma participação ativa. Uma atitude de atenção e de crítica é essencial. A sensibilidade, a inteligência e a vontade são os agentes principais dessa atividade, ao mesmo tempo intelectual e emocional.

Ou seja, para que a percepção esteja bem afinada, não basta um olhar ingênuo, passivo, submisso, desatento ou distraído. É necessário responder, é preciso ser atuante, participante, ativo. Nesse processo, colocamos as capacidades de nossa mente e de nossa sensibilidade em intensa atividade. Esse trabalho é ao mesmo tempo de indagação, de questionamento (a linguagem visual me propõe perguntas), e de elaboração de múltiplas possíveis respostas (eu tento responder às perguntas que me são propostas).

Como vimos, a imagem está em nossa vida, faz parte de nosso dia-a-dia e necessitamos dela como forma especial de compreensão e de conhecimento do mundo que nos cerca. Mas precisamos de uma educação para o convívio com a imagem.

Elaborar estratégias concretas para que a escola possa contribuir para que os jovens desenvolvam a competência de analisar, compreender e interpretar de forma crítica a avalanche de imagens à qual estão expostos é uma questão urgente. Exige criatividade, ousadia, experimentação, o que, normalmente nos deixa inseguros. Mas trata-se de uma insegurança produtiva, que nos faz avançar.

Nessa tentativa vamos focalizar o caso específico do uso do audiovisual pelo professor de Língua Portuguesa, como forma de delinear algumas propostas de trabalho na escola. Em princípio qualquer material audiovisual pode ser considerado um texto e presta-se ao trabalho com a Língua Portuguesa, já que permite "leitura" e análise da linguagem utilizada.

Há pelo menos duas possibilidades de seleção desse material:

a) quando o vídeo já foi previamente escolhido para o trabalho interdisciplinar com outros professores da escola e o professor de Língua Portuguesa vai planejar o seu trabalho a partir do vídeo;

b) quando o professor de Língua Portuguesa escolhe um vídeo para ilustrar, ampliar, aprofundar um tema de estudo, um objetivo específico de trabalho.

Em qualquer das situações o professor tem possibilidades múltiplas e flexíveis de trabalho.

1. O texto audiovisual pode servir apenas para trazer informações acerca de um tema, de um assunto, e o trabalho pedagógico vai privilegiar as habilidades de: ouvir, ver, compreender, relacionar, associar, selecionar informações, fazer anotações, memorizar, interpretar, argumentar...

2. O texto audiovisual pode servir de base para um trabalho sobre a linguagem que está sendo utilizada nele próprio. Neste caso, o trabalho focaliza propriamente o uso da Língua Portuguesa: estruturas específicas da língua oral, gêneros orais, vocabulário, efeitos pragmáticos de escolhas estilísticas, níveis de linguagem, dialetos e variação etc.

3. Há casos em que o material audiovisual se presta simultaneamente às duas vertentes de trabalho: o tema e a estrutura da linguagem.

Em qualquer um dos casos, o professor estará trabalhando um ou mais de um dos objetivos das aulas de Língua Portuguesa, que se configuram resumidamente como:

Desenvolver competências e habilidades lingüísticas que conduzam o estudante a saber ouvir, falar, ler, escrever e analisar a língua nas diversas situações de uso da linguagem verbal e com diversos objetivos. Essas competências o configuram como cidadão capaz de agir por meio da linguagem.

No que se refere à habilidade de ouvir/ver é importante observar que:

  • O aluno deve ser orientado a controlar sua atenção, testar suas hipóteses e sua compreensão (objetivos específicos ajudam);
  • Os objetivos devem estar claros para todos (são combinados antes do início da atividade);
  • As atividades podem ser planejadas em conjunto (a negociação com os alunos garante o compromisso);
  • O professor observa as atitudes dos alunos e reorienta a atividade (às vezes é necessário rever o todo ou partes para esclarecimento de dúvidas);
  • A avaliação e a auto-avaliação podem ser desenvolvidas durante o processo (Todos estão compreendendo? Quais as dificuldades? São dificuldades técnicas? É o vocabulário? Você está se esforçando ao máximo?);
  • A apreciação positiva dos avanços estimula o crescimento;
  • Atividades associadas estimulam o envolvimento. Por exemplo: escrever ou falar sobre o tema depois de ouvir e ver;
  • Por meio das atividades com TV/vídeo, os estudantes entram em contato com gêneros orais específicos e podem analisar detalhadamente seu funcionamento e sua estrutura: entrevistas, debates, conversa semi-informal, reportagens, comentários, instruções, propaganda, publicidade, teleteatro, telenovela, teleteatro interativo, narrativas de ficção entre outros.

No que se refere à habilidade de falar é importante observar que:

  • O domínio da expressão oral desenvolve-se nas atividades em que é possível falar com objetivos diferentes dos da conversa informal;
  • Todos nós gostamos de falar sobre o que conhecemos;
  • Os debates e a troca de impressões esclarecem e enriquecem a compreensão;
  • É preciso orientação para o controle do nível de formalidade (vocabulário, formas de tratamento do interlocutor e estruturas sintáticas) a ser usado no debate;
  • As regras de polidez na conversação formal devem ser discutidas e esclarecidas;
  • A avaliação e a auto-avaliação podem desenvolver-se durante o processo;
  • A apreciação positiva dos avanços estimula o crescimento;
  • Atividades associadas estimulam o envolvimento. Por exemplo: elaboração de relatório escrito, apresentação de trabalhos com resumos dos debates etc.;
  • A partir das atividades com TV/vídeo, os estudantes podem exercitar gêneros orais específicos como: entrevista, debate, conversa semi-informal, reportagem, comentário, instruções, propaganda, publicidade, teleteatro, telenovela, teleteatro interativo, documentários, narração de acontecimentos (jogos, eventos, acidentes, catástrofes, fatos políticos), narrativas de ficção, entre outros.

No que se refere à habilidade de ler é importante considerar que grande parte das habilidades de leitura exigidas para a compreensão e interpretação de textos escritos são exigidas para textos audiovisuais.

É importante construir previamente algumas perguntas que ajudam a controlar o objetivo e a atenção, como, por exemplo:

  • Quem conduz a mensagem principal do texto?
  • Quais são as opiniões divergentes apresentadas?
  • Que segmentos sociais são representados?
  • Qual o gênero?
  • Com quais procedimentos devo interpretar a mensagem?
  • Qual é o objetivo?
  • Qual é o veículo utilizado?
  • De que recursos a mensagem lança mão?
  • Como esses recursos são utilizados?
  • Com que objetivo são utilizados?
  • Que associações permitem que o leitor/ espectador faça?
  • Quais são as informações novas que o texto veicula?
  • Como essas mensagens e informações relacionam-se com a vida contemporânea?
  • Que este autor pensa desse assunto? Em que discorda dos que já conheço? O que acrescenta à discussão?
  • Quais fenômenos estão em jogo nessa mensagem?
  • Qual é o conceito, a definição desse fenômeno?
  • Quais são os argumentos em jogo?
  • Com quais argumentos eu concordo e de quais eu discordo e por quê?
  • Como ocorreu esse fato? Onde? Quando? Quais são suas causas? Quais são suas conseqüências? Quem estava envolvido? Quais são os dados quantitativos citados?
  • Que é mais importante nesse texto ? O que eu devo anotar para utilizar depois?

Quando começamos uma leitura sem nenhuma pergunta prévia, temos mais dificuldade em identificar aspectos importantes, reconhecer o gênero, reagir adequadamente, distinguir partes do texto, hierarquizar as informações.

É preciso considerar também que procedimentos cognitivos semelhantes são acionados nas duas formas de leitura, tais como:

  • procedimentos específicos de seleção e hierarquização da informação: observar títulos e subtítulos; identificar fragmentos significativos; relacionar e integrar, sempre que possível, esses fragmentos a outros; decidir se deve consultar o dicionário ou adiar temporariamente a dúvida para esclarecimento no contexto; tomar notas sintéticas de acordo com os objetivos;
  • procedimentos de clarificação e simplificação das idéias: construir paráfrases mentais ou orais de fragmentos complexos; substituir palavras desconhecidas por sinônimos familiares; reconhecer as relações entre palavras e entre imagens que formam segmentos significativos;
  • procedimentos de reconhecimento da coerência entre as informações apresentadas no texto: identificar o gênero; ativar e usar conhecimentos prévios sobre o tema; usar conhecimentos prévios extratextuais, práticos e da estrutura do gênero; associar informações trazidas pelas imagens às trazidas pela linguagem verbal;
  • procedimentos de controle e direcionamento da atividade mental: planejar objetivos pessoais significativos para a atividade; controlar a atenção voluntária sobre o objetivo; reconhecer erros no processo de decodificação e interpretação; segmentar as unidades de significado; associar as unidades menores de significado a unidades maiores; auto-avaliar continuamente o desempenho da atividade; aceitar e tolerar temporariamente uma compreensão desfocada até que se desfaça naturalmente a sensação de desconforto.

No que se refere à habilidade de escrever é importante observar que:

  • A habilidade de fazer anotações rápidas pode ser desenvolvida durante atividades com audiovisual;
  • As atividades orais podem conduzir sempre a um trabalho associado, em que a escrita seja trabalhada posteriormente: resenhas, relatórios, artigos, monografias etc.;
  • A transposição da modalidade oral informal para a modalidade escrita formal exige um trabalho minucioso acerca das estruturas lingüísticas específicas de cada uma delas, o que depende de orientação do professor;
  • Muitos gêneros orais baseiam-se num texto previamente escrito, que serve apenas de base: palestras, narração de programas documentários, dramatizações, roteiros para apresentações de trabalhos de pesquisa etc. Outros utilizam um texto inicial orientador e dão origem a um texto mais elaborado e editado, como é o caso das entrevistas impressas.

No que se refere à habilidade de analisar o funcionamento da língua é importante observar que:

  • A utilização do vídeo permite retroceder a fita e observar a linguagem oral - que é rápida e evanescente - de modo mais detalhado e conduzir a uma maior consciência sobre o seu funcionamento;
  • Pode-se trabalhar com pausas, retrocessos e comentários específicos;
  • Há na TV uma variedade infinita de situações reais de uso da linguagem e isso permite a comparação do funcionamento nos diferentes contextos;
  • O professor pode estabelecer o objetivo da análise de acordo com as necessidades da turma. Alguns pontos interessantes são :
  • a adequação da linguagem ao objetivo da comunicação;
  • as características de cada gênero (temas, estruturas lingüísticas, estilos) de comunicação oral;
  • as características de cada tipo textual: descrição, narração, exposição, argumentação, diálogo;
  • novos itens do vocabulário acerca de um tema;
  • os recursos de persuasão e de argumentação;
  • as diversas variações da Língua Portuguesa realizadas pelos falantes das regiões brasileiras;
  • os diversos níveis e registros da linguagem: informal espontânea (entrevistas de rua); informal planejada (entrevistas de estúdio); formal (telejornais); dos jovens; dos mais velhos; próprios de cada profissão.

Como vimos, o trabalho com o audiovisual permite uma infinidade de atividades voltadas para a ampliação do universo lingüístico e cognitivo dos alunos. O professor estabelece inicialmente os objetivos, empreende a análise prévia das possibilidades do material audiovisual, seleciona os tópicos que devem ser focalizados no grupo, planeja as atividades adequadas aos objetivos, sempre deixando uma margem de flexibilidade para que o trabalho interativo com os alunos possa redirecionar a trajetória de acordo com as necessidades do momento.

O desenvolvimento das habilidades aqui apresentadas depende de debates, conversas, troca de opiniões divergentes, discussões, focalização de objetivos que apresentem desafios interessantes para os alunos. Nesse processo de interação, participação, troca de experiências há um crescimento significativo do senso crítico, o que favorece a consolidação da cidadania, da identidade e impede a dominação ideológica e simbólica.

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NOTAS:

  1. Professora da Pós-graduação e Pesquisadora associada do Departamento de Lingüística, Línguas Clássicas e Vernácula do Instituto de Letras da Universidade de Brasília. Mestre em Teoria da Literatura (UnB). Doutora em Lingüística Aplicada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo-PUC/SP. Escritora. E-mail: <lucigarcez@uol.com.br>