PGM 2 - EaD e formação continuada

EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA E A FORMAÇÃO CONTINUADA DO PROFESSOR

Maria Elisabette Brisola Brito Prado1 
Maria Elizabeth Bianconcini de Almeida 2

Evidencia-se cada vez mais a procura por novas possibilidades de aprendizagem por parte dos profissionais que atuam em diversas áreas do conhecimento. Este fato é decorrente das demandas da sociedade atual, que se caracteriza pelo dinamismo do conhecimento, pelo avanço da tecnologia e pelo desenvolvimento humano na sua dimensão intelectual, afetiva e social, tornando o processo de ensino e aprendizagem mais complexo. Se, por um lado, para lidar com essas características é preciso que o profissional tenha uma predisposição para aprendizagem ao longo da vida (Valente, 2001; Belloni, 1999), por outro lado, as propostas de cursos de formação continuada do professor devem estar voltadas para questões que possam desencadear nos participantes uma postura reflexiva e investigativa da sua própria ação, potencializando-os para a busca constante de novas aprendizagens e compreensões, apontando para um novo paradigma de formação.

No contexto de formação continuada do professor, a educação a distância via Internet tem se tornado uma referência para o desenvolvimento de propostas que enfatizam a interação entre os participantes e o desenvolvimento do trabalho colaborativo. Nesta perspectiva, existem experiências especificamente de cursos 3 de formação do professor e/ou multiplicadores para atuar com a informática no contexto da escola, que vêm sendo realizadas nos últimos anos praticamente por três grupos de pesquisadores 4, ligados à Universidades, como o Laboratório de Estudos Cognitivos, LEC da UFRGS, o Núcleo de Informática aplicada à Educação, NIED da UNICAMP e o Programa de Pós-Graduação da PUCSP. Embora estas experiências tenham marcas e caminhos singulares, que representam a identidade de cada grupo, o denominador comum entre elas tem sido o de agregar a prática pedagógica do professor no processo de formação. Além deste aspecto, os grupos compartilham dos princípios teóricos que privilegiam o processo interativo e a (re)construção do conhecimento (Prado & Martins, 2001; Nevado, et al, 2002; Almeida, 2002; Prado & Valente, 2002).

Esta preocupação é a de contemplar o cotidiano do professor no processo de formação fundamenta-se nos estudos e nas análises sobre experiências com formação de professores para o uso pedagógico do computador na escola (Valente, 1999; Almeida, 2000; Prado, 1999) Estes autores constataram que o fato de o professor aprender a utilizar o computador e a saber dizer sobre uma determinada teoria educacional não era suficiente para colocar em prática estes conhecimentos, ou seja, recontextualizá-los na sua atuação com os alunos. Foi refletindo sobre esta problemática e articulando-a com referências teóricas de autores como: Schon (1992; 1983), Gómez (1992), Zeichnner & Liston (1996), Imbernón (1998), Perrenoud (1999), que foram elaboradas e colocadas em ação novas propostas de formação de professores numa perspectiva contextualizada e reflexiva.

Assim, fundamentados nessa nova perspectiva, foram realizados cursos que explicitaram ser este caminho propício à recontextualização do conhecimento na e para a prática do professor. Além disso, outros fatores intervenientes do processo educacional foram evidenciados, como por exemplo: a falta de articulação entre a gestão escolar e a gestão de sala de aula tanto pode dificultar como viabilizar o desenvolvimento de novas dinâmicas de trabalho do professor no uso do computador com os alunos (Almeida, 2000). O fato é que esta abordagem de formação, ao mesmo tempo que revelava este potencial de permitir a recontextualização, ou seja, favorecia ao professor refletir sobre a sua prática, compreendê-la e reconstruí-la, tornava-se, lamentavelmente, restrita em termos operacionais, devido à organização do tempo/espaço da escola e dos cursos presenciais.

Mas, em pouco tempo, o efeito do avanço da tecnologia com a disseminação da Internet tornou-se um grande aliado neste cenário da formação continuada do professor. Por meio de cursos a distância, está sendo possível atender tanto aos interesses dos professores na busca de novas aprendizagens relacionadas às suas reais necessidades, como aos aspectos organizacionais e outros próprios da tecnologia, para viabilizar a abordagem contextualizada e reflexiva de formação. Isto de fato aconteceu com a realização de um curso de especialização destinado para professores e multiplicadores da rede pública, que foi desenvolvido tendo grande parte da sua carga horária a distância.

CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM DESENVOLVIMENTO DE PROJETOS PEDAGÓGICOS COM O USO DAS NOVAS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO

Este curso 5 foi desenvolvido pelo Programa de Pós-Graduação em Educação e Currículo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), a partir de uma demanda do Programa Nacional de Informática na Educação (ProInfo) da Secretaria de Educação a Distância (SEED) do Ministério da Educação (MEC) e apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa, da Universidade Federal de Goiás, durante o período de agosto de 2000 a maio de 2001, perfazendo uma carga horária total de 360 horas de curso e mais 60 horas para o desenvolvimento da monografia e finalizando com uma avaliação final presencial. Este curso envolveu ações de formação na modalidade presencial (60 horas) e na modalidade a distância (300 horas), por meio dos recursos das redes computacionais, visando ao desenvolvimento de uma abordagem de formação contextualizada para professores multiplicadores de diversas localidades.

Esta proposta, apoiada nos princípios que privilegiam o processo de construção do conhecimento, teve como eixo norteador a articulação entre a teoria e prática, a ação e a reflexão, o ensino e aprendizagem, a razão e emoção, o individual e coletivo. Sob este enfoque, o objetivo deste curso era de formar professores-multiplicadores para atuar na formação de professores da rede pública de ensino para o uso pedagógico da informática integrada aos conteúdos curriculares, com ênfase no desenvolvimento de projetos.

Esses pressupostos estavam presentes em projetos anteriores de formação de professores de escolas públicas na modalidade presencial (Almeida, 2000) ou de formação na modalidade semipresencial (Almeida, 2002) ou também em formação a distância com atividades realizadas durante um curto espaço de tempo (Almeida, 2001). O curso de especialização trazia um novo desafio relacionado com a formação norteada pela articulação teoria-prática desenvolvida durante um longo período de tempo, cujas interações tinham como suporte um ambiente virtual, no qual todas as atividades realizadas ficaram disponíveis no decorrer de todo o curso.

Para isto, o curso foi organizado de modo a propiciar ao professor-multiplicador o aprendizado dos recursos computacionais e de suas implicações pedagógicas tanto no âmbito teórico como prático. Dito de outra maneira, a teoria e a prática pedagógica desenvolvidas com os alunos caminharam juntas, de tal forma que uma realimentava a outra. As ações do curso estavam voltadas para a vivência dos participantes em situações de uso de recursos computacionais na posição de aprendizes e na sua prática pedagógica em atividades com outros aprendizes no uso pedagógico desses recursos, bem como na análise das suas potencialidades e limitações segundo os objetivos da atividade em realização e as características dos recursos em uso. Assim, essas atividades envolvendo a prática pedagógica dos professores-multiplicadores no decorrer do curso procuraram favorecer o processo de recontextualização do uso da informática na realidade da escola de cada um dos participantes do curso.

Foram inscritos 92 candidatos, dentre os quais 40 foram selecionados. Esses candidatos eram professores de escolas públicas de diferentes estados brasileiros, vinculados aos Núcleos de Tecnologia Educacional (NTEs), que preencheram os requisitos estabelecidos nos termos da inscrição. Além das vagas para o território nacional, 4 vagas foram preenchidas por professores das escolas públicas de dois países6  da América Latina, Argentina e Chile. Assim, iniciaram o curso 44 professores de diversas localidades7 , abrangendo cidades de vários estados do Brasil e dos países da América Latina.

A estrutura do curso foi organizada em três módulos: o módulo I foi realizado presencialmente, com carga horária de 60 horas, sob responsabilidade8  dos Núcleos de Tecnologia Educacional (NTE), no local de trabalho de cada um dos participantes. Este módulo tinha como objetivo oferecer aos participantes noções básicas sobre o manuseio com o computador em relação aos conteúdos: Introdução ao Windows e ao Word e Introdução à Internet.

Os módulos II e III foram realizados totalmente a distância, sob a responsabilidade do Programa de Pós-Graduação em Educação e Currículo da PUCSP, utilizando o ambiente de suporte para o ensino e aprendizagem a distância TelEduc9 .

Os alunos foram divididos em duas turmas no ambiente do TelEduc, sendo que a turma A foi composta de 23 alunos e a turma B de 21 alunos. A realização do curso, neste ambiente virtual, envolveu o trabalho de uma equipe de profissionais comprometida com os pressupostos educacionais da proposta do curso. Estes profissionais desenvolveram suas funções de forma articulada, por meio de interações constantes, que aconteciam antes, durante e após as ações realizadas no curso.

O módulo II, com carga horária de 300 horas e duração de 10 meses, com um período de recesso de 30 dias devido às férias escolares, foi organizado em disciplinas tais como: Realização de projetos baseados em texto, Realização de projetos baseados em sistemas de autoria programáveis (Logo), Realização de projetos baseados em Internet, Exploração de diferentes software educacionais, Organização, Políticas Educacionais e Currículo, Educação e Tecnologia, Realização de projetos combinando diversos aplicativos ou outros software, Metodologia para elaboração de monografia e Tópicos em Informática na Educação.

Estas disciplinas foram desenvolvidas por docentes e pesquisadores, doutores e mestres da PUCSP e de Instituições credenciadas pelo Ministério da Educação das áreas do conhecimento concernentes. Durante o desenvolvimento da disciplina, o docente teve o apoio de um monitor pedagógico, também pós-graduando da PUCSP e, quando havia necessidade, o docente podia também contar com o suporte de um monitor técnico.

A disciplina Tópicos em Informática na Educação constitui-se de uma série de conferências virtuais, abordando temas relacionados aos propósitos gerais do curso, tais como: Tecnologia e desafios ao Professor, Robótica na Educação, Quando usar o computador para escrever não equivale a "passar a limpo", Reflexão na ação, Paradigma e Mudança e Interdisciplinaridade.

Cada uma das conferências tinha em média uma semana de duração. Sua realização era feita sob a responsabilidade de docentes da PUC/SP e especialistas convidados, no ambiente TelEduc especialmente criado para este fim, onde os alunos da Turmas A e B se encontravam virtualmente para participar das discussões coletivas.

A organização deste módulo, constituída por várias disciplinas, envolveu a participação de docentes que interagiram com os alunos em diferentes momentos do curso, ou seja, durante a realização da sua disciplina. Isto demandou da coordenação de turmas a função de articular as disciplinas, de modo a evitar a fragmentação entre os conteúdos abordados. Além disso, a presença constante das coordenadoras de turmas com os alunos favoreceu a construção de uma relação em termos de referência humana, a qual permitiu aproximar as pessoas e criar vínculos afetivos, o que no contexto virtual assume uma dimensão mais complexa, em relação às questões subjetivas, devido à expressão do pensamento e à comunicação baseada na escrita.

A proximidade das coordenadoras de turmas com os alunos e com a coordenação geral e executiva foi fundamental, pois se criou entre estes profissionais uma dinâmica de trabalho, uma vez que sistematicamente analisavam os vários aspectos relacionados ao curso, os quais muitas vezes demandavam flexibilidade e abertura para enfrentar a complexidade das problemáticas emergentes. Estes aspectos giravam em torno da metodologia desenvolvida, envolvendo conteúdos, atividades, engajamento dos alunos, qualidade das interações entre os colegas e docentes, dentre outros, os quais possibilitavam a depuração e o re-planejamento do curso durante o seu desenvolvimento. Nesta situação, a coordenação procurava compatibilizar as necessidades, os interesses e as realidades dos professores-multiplicadores com a intencionalidade e os princípios pedagógicos norteadores do curso, bem como com outros aspectos institucionais e organizacionais.

O módulo III, com carga horária de 60 horas, visava à elaboração de monografias, a qual deveria expressar uma reflexão teórico-prática sobre as atividades desenvolvidas ao longo do curso. A orientação das monografias foi feita pelas coordenadoras de turma e pelo coordenador geral, isto porque nesta estrutura de curso, como já foi dito, estes profissionais acompanharam o desenvolvimento dos alunos ao longo do curso e, portanto, tinham subsídios para orientá-los em suas produções neste módulo.

A avaliação dos participantes foi feita por disciplina, segundo os critérios acordados pelo docente responsável, tais como, a qualidade da participação, das interações e das atividades propostas. Além da monografia, os professores-multiplicadores participaram de uma avaliação presencial no final do curso, a qual foi realizada nos Núcleos de Tecnologia Educacional, por um profissional indicado como avaliador pelo coordenador do ProInfo dos estados de cada um dos participantes.

A freqüência exigida foi de 75% em cada uma das disciplinas. Isto foi computado pelo docente responsável, por meio da ferramenta Acesso do ambiente do TelEduc, que emite um relatório nominal, com data e horário da entrada do aluno no curso. O acompanhamento da presença do aluno no curso também foi feito pelo rastreamento das interações e participações registradas nas diversas ferramentas disponíveis neste ambiente.

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

O desenho deste curso de especialização propiciou uma intensa interatividade entre todos os participantes envolvidos (alunos com seus pares, alunos com os formadores/monitores e com os coordenadores). Com isto criou-se uma rede de aprendizagem humana colaborativa, por meio da qual produções e conhecimentos foram desenvolvidos, houve o compartilhamento de sentimentos, reflexões e experiências e foram sendo construídas as parcerias e as cumplicidades entre os professores/multiplicadores. A atividade elaborada individualmente e/ou em grupo era compartilhada com todos, de modo que cada um podia constantemente dar e receber um feedback para o colega, bem como, espelhar-se no outro para analisar a própria atuação.

A flexibilidade do ambiente de suporte TelEduc favoreceu o gerenciamento pedagógico e administrativo do curso em termos de tempo/espaço. De igual maneira, o encaminhamento das atividades elaboradas pelos docentes das disciplinas procurou conciliar os interesses e as necessidades de aprendizagem dos professores/multiplicadores com as questões intencionais e organizacionais envolvidas na proposta do curso.

Enfim, a análise dos vários protagonistas deste curso está sendo elaborada e brevemente será divulgada por meio de um livro. Mas, para finalizar este artigo, não poderíamos deixar de registrar as colocações de uma das participantes, feitas no Fórum de Discussão, durante o desenvolvimento de uma das últimas disciplinas do curso.

"Concordo com meus colegas que as novas tecnologias, principalmente a telemática podem contribuir e muito na atualização e formação de professores, principalmente quanto ao aspecto que acho muito importante: a teoria aliada à prática - como ocorreu em nosso curso. Foi através das discussões sobre as teorias de aprendizagem e a nossa prática de projetos que começamos a refletir, discutir, trocar idéias com os colegas... e analisar as nossas dificuldades e possibilidades de superação das mesmas... A telemática possibilita ao professor o desafio da formação continuada, repensar sua prática pedagógica, conhecer as novas abordagens sobre o processo de ensino-aprendizagem e desenvolver projetos em ação (ao mesmo tempo em que se está atualizando" (T.L.B. Chaves, 17/04/2001 - 23:47h).

Referências bibliográficas

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ZEICHNER, K.; LISTON, D.P. (1996). Reflective teaching: an introduction. New Jersey: Lawrence Erlbaum Associates, Publishers.


NOTAS:

1. Pesquisadora do Núcleo de Informática Aplicada à Educação NIED-UNICAMP e Doutoranda no Programa de Pós- Graduação em Educação e Currículo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUCSP. Consultora desta Série

2. Professora na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUCSP; Docente do Programa de Pós-Graduação em Educação e Currículo e do Curso de Tecnologias e Mídias Digitais, do Centro de Ciências Exatas e Tecnológicas. Consultora desta Série.

3. Tais como: cursos de extensão, especialização e de oficinas temáticas específicas da área.

4. Ver mais detalhes no Portal-OEA no endereço: http://www.nied.unicamp.br/oea.

5. Coordenador Geral do Curso: Prof. Dr. José Armando Valente, Coordenadora Executiva e Coordenadora de Turma: Profa.Dra. Maria Elizabeth B. de Almeida e Coordenadora de Turma: Profa. Maria Elisabette B.B.Prado

6. Estes países eram parceiros do Projeto OEA/MEC - Formação de Educadores via Telemática (Ver mais detalhes no site: (http:// www.nied.unicamp.br/oea). Havia, portanto, interesses em comum em compartilhar esta experiência tendo a participação de alguns professores que atuam com informática na educação nas escolas públicas destes países. Os professores participantes do curso foram indicados pelos coordenadores do Projeto da Argentina e do Chile.

7. Estados/cidades do Brasil: AC (Rio Branco), CE (Crateús, Itapipoca, Tauá), DF (Guará 1, Taquatinga), ES (São Mateus) GO (Anápolis, Morrinhos, Jataí), MA (Bacabal, Imperatriz, São Luís), MT (Cuiabá, Rondonópolis, Terra Nova do Norte), Pa (Belém), PE (Petrolina), RN (Natal), RJ (Rio de Janeiro), RR (Boa Vista, Canarinho), SC (Chapecó, Lages), SE (Aracaju, Simão Dias), SP (Caieiras, Campinas, São José do Rio Preto, São Paulo, Sorocaba, Tupã), TO (Gurupi) e os países, Argentina (Buenos Aires) e Chile (Santiago do Chile).

8. Os alunos da Argentina e Chile tiveram o curso presencial sob a responsabilidade dos coordenadores do Projeto OEA/MEC.

9. Para ver mais sobre o ambiente TelEduc: http://hera.nied.unicamp.br.