|
PGM 4 -Nutrição
Sônia
Moreira*
Essenciais à promoção e à proteção da saúde, a alimentação e
nutrição adequadas constituem direitos fundamentais do ser humano. São
condições básicas para que se alcance um desenvolvimento físico,
emocional e intelectual satisfatório, fator determinante para a qualidade
de vida e o exercício da cidadania. Se é verdade que, muitas vezes, a
falta de recursos financeiros é o maior obstáculo a uma alimentação
correta, também é fato que ações de orientação e educativas têm um
papel importante no combate a males como a desnutrição e a obesidade. Ao
chamar a atenção de crianças e adolescentes para os benefícios de uma
alimentação equilibrada, a escola dá a sua contribuição para tornar
mais saudável a comunidade em que se insere.
Os hábitos alimentares começam a se formar na
primeira infância. A promoção de uma alimentação saudável tem início
com o estímulo ao aleitamento materno, que evita a obesidade e desnutrição,
com reflexo nos índices de mortalidade infantil. Segundo dados do Unicef
(Fundo das Nações Unidas para a Infância), relativos a 1998,
aproximadamente 55% das mortes infantis estão ligadas à desnutrição.
Esta enfermidade social e econômica, como define F. J. Nóbrega, em Distúrbios
da Nutrição (Editora Revinter, 1998), pode provocar além de
maiores riscos de morbidade e mortalidade atraso no desenvolvimento motor
e mental da criança.
De acordo com informações do Ministério da Saúde,
em 1996, 10,5% das crianças brasileiras com menos de cinco anos de idade
apresentavam déficit de altura/idade e 5,7% de peso/idade, observando-se
grandes variações regionais. Apesar dos avanços alcançados na década
de 90, a desnutrição ainda atinge um grande contingente de crianças, na
faixa crítica de seis a 23 meses de idade. Paralelamente, enfrenta-se o
problema da obesidade, cada vez mais presente. A Pesquisa Nacional de Saúde
e Nutrição (PNSN, 1989), apontou a existência de 1,5 milhão de crianças
obesas no Brasil. Nesse contexto, o leite materno, com suas características
imunológicas e nutricionais, ganha uma importância ainda maior.
Embora venha crescendo o número de crianças
amamentadas ao seio, os índices ainda não são satisfatórios,
principalmente quando se leva em conta o aleitamento exclusivo nos
primeiros seis meses de vida do bebê. No entanto, ações como as que
integram o Programa Nacional de Incentivo ao Aleitamento Materno,
desenvolvido pelo Ministério da Saúde por meio de importantes parcerias,
possibilitaram o aumento da duração média de aleitamento materno de 5,5
meses, em 1989, para cerca de 10 meses, em 1999.
A inclusão de outros alimentos na dieta do bebê,
como complementação ao leite materno, deve se dar de forma lenta e
gradual. É importante que a criança se acostume a comer alimentos
variados desde cedo. O estímulo à adoção de práticas alimentares
adequadas na infância é fundamental para a formação de hábitos saudáveis,
que tendem a se estender por toda a vida. Vale observar que uma alimentação
equilibrada e balanceada é um dos fatores essenciais para se alcançar um
bom desenvolvimento físico, psíquico e social.
O processo de educação alimentar deve envolver
toda a família, já que os adultos servem de modelo para as crianças. Um
importante desafio quando se trata de promover uma alimentação saudável
é a mudança de hábitos. As práticas alimentares inapropriadas e o
baixo nível de informação da população em relação a atitudes que
melhoram suas condições de saúde entre as quais se
inclui a atividade física podem ser identificados por todo o País.
Para acabar de vez com a desnutrição, é preciso pôr fim à pobreza e
à fome. No entanto, os problemas nutricionais não se relacionam
exclusivamente à falta de alimentos. Assim, os esforços no sentido de
possibilitar a todos os brasileiros o acesso a pelo menos três refeições
diárias devem ser acompanhados de um trabalho de conscientização sobre
a importância de uma alimentação equilibrada, qualitativa e
quantitativamente.
Para isto, é preciso levar em conta a realidade
de cada comunidade. Perceber a diversidade cultural brasileira e, a partir
daí, identificar os alimentos preferidos em cada região, assim como as
crenças e tabus relacionados à comida, são condições fundamentais
para promover a adoção de hábitos mais saudáveis pela população. Na
hora de propor alterações no cardápio da família, é necessário
respeitar as particularidades locais e valorizar os alimentos regionais.
Também é preciso ter em mente que a mudança de hábitos só será possível
se houver, de fato, uma compreensão da sua importância para a saúde, o
que passa pela socialização do conhecimento sobre alimentos e nutrição.
A escola representa um ambiente favorável
e privilegiado para o estímulo à formação de hábitos saudáveis
ou correção de desvios no que diz respeito à alimentação, assim como
à prática de atividades físicas. Muitas vezes, a falta de referência
para uma boa alimentação é agravada pela ação da mídia na divulgação
de produtos comerciais nem sempre nutritivos. O impacto negativo que a
propaganda pode ter nos hábitos alimentares da população será tanto
maior se crianças e jovens não forem educados para escolher
adequadamente os alimentos que irão consumir. O estudo e a realização
de debates sobre alimentação e nutrição na escola, assim como o
desenvolvimento de outras atividades educativas, propiciam ao aluno condições
de assumir uma postura crítica diante das informações que chegam até
ele.
A oferta de uma merenda equilibrada e a criação
de hortas escolares são algumas formas de trabalhar a questão da
alimentação sadia, afinando discurso e prática. No caso das hortas, além
de se criar situações propícias à orientação sobre a importância de
verduras, legumes e frutas, abre-se a possibilidade de ajudar a suprir as
deficiências nutricionais da população mais carente. Já a hora do
lanche pode ser um momento para exercitar o conhecimento adquirido em relação
aos alimentos e nutrição. Neste início de século, o debate sobre
alimentação saudável tem chamado a atenção para os produtos vendidos
nas cantinas das escolas. Isto porque, normalmente, a maior parte deles não
tem valor nutritivo, sendo constituída por alimentos ricos em açúcares
e gorduras.
No Brasil, a desnutrição não é o único
problema relacionado a uma alimentação inadequada que causa preocupações
pela sua dimensão. Como observado anteriormente, também merece destaque
a obesidade, que deve ser detectada o quanto antes para evitar o
aparecimento de problemas de saúde diversos. Estima-se que 20% das crianças
brasileiras sejam obesas e que cerca de 32% da população adulta tenham
algum grau de excesso de peso, dos quais 25% são casos mais graves. Entre
as diferentes causas da obesidade, está um maior consumo de alimentos em
relação a um menor gasto de energia. Comer bem, nunca é demais lembrar,
não significa comer muito. Os princípios de uma alimentação saudável,
ao contrário, são a variedade, o equilíbrio e a moderação.
Para facilitar o acesso das famílias mais
necessitadas de apoio financeiro a uma alimentação adequada foi criado,
no âmbito do Ministério da Saúde, o programa Bolsa-Alimentação.
Destinado a famílias com renda mensal per capita inferior a meio
salário mínimo, esse programa consiste no repasse de R$ 15,00 por mês
para crianças com idade entre seis meses e seis anos, gestantes e mães
que estejam amamentando seu filho com até seis meses de idade. O limite
é de três bolsas por família. A idéia é que os beneficiários ou seus
responsáveis utilizem o dinheiro na compra de alimentos ou outros
produtos que possibilitem a melhoria das suas condições de nutrição e
saúde, como, por exemplo, sementes e adubos para preparação de uma
horta caseira.
Os recursos são repassados diretamente aos
beneficiários, que contam com um cartão magnético para retirá-los nos
pontos de atendimento da Caixa Econômica Federal (agências, terminais de
auto-atendimento, casas lotéricas). A concessão da bolsa está
condicionada a alguns compromissos que devem ser cumpridos pelas famílias,
como participação em atividades educativas realizadas pela unidade de saúde
em que são atendidas e vacinação das crianças. A gestante, por
exemplo, deve fazer as consultas de pré-natal e a mãe com recém-nascido,
manter a amamentação. A idéia do programa é que, além do dinheiro
repassado mensalmente, a família seja introduzida em uma rotina de
cuidados com a saúde das crianças e aprenda noções de primeiros
socorros, puericultura, boa alimentação, etc.
Quando a renda familiar é pequena, a opção por alimentos locais
de baixo custo e elevado valor nutritivo é uma alternativa para garantir
uma dieta adequada, que proporcione todos os nutrientes necessários à saúde,
ao bem-estar físico e mental do indivíduo. Trocar o refrigerante por um
suco e comer diferentes tipos de frutas e verduras, observando a época da
safra, quando estão mais baratas, por exemplo, são algumas formas de
aproveitar melhor os recursos disponíveis.
O direito
humano à alimentação envolve a garantia de que os alimentos cheguem à
mesa do consumidor em quantidade suficiente e com a qualidade necessária
a uma boa nutrição. Essa qualidade deve ser assegurada em toda a cadeia
produtiva do alimento. Cabe aos órgãos responsáveis fiscalizar os
produtos comercializados no País, inclusive os importados, ao passo que,
em casa, o cidadão deve estar atento aos cuidados com a conservação,
higiene e preparo desses alimentos. Isto passa, necessariamente, pela
questão da água potável, fundamental para a melhoria da qualidade de
vida. Condições sanitárias precárias, vale ressaltar, contribuem para
o aparecimento de infecções, parasitoses e desnutrição.
Embora
acabar com os problemas nutricionais seja um desafio que depende de uma
melhor distribuição de renda e erradicação da miséria, a escola pode
contribuir para melhorar o quadro existente no País, por meio da formação
proporcionada aos alunos e de uma política que garanta a qualidade da
merenda. Nesse espaço onde pessoas de diferentes realidades estabelecem
uma convivência diária, em um constante processo de ensino e
aprendizagem, pode-se criar a consciência necessária à formação de hábitos
mais saudáveis, com repercussão no desempenho alcançado nos estudos e
na vida.
NOTAS:
*Gerente Especial
do Projeto Alvorada – Saúde / Secretaria Executiva – Ministério da
Saúde e Consultora desta série.
|